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FICCIONISTA

1892 - 1953

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1892: Nasce em Quebrangulo, Alagoas, Brasil - 1910/14: Cuida da casa comercial do pai, em Palmeira dos Índios. - 1914: Vai para o Rio de Janeiro, trabalha no Correio da Manhã. - 1915: Regressa a Palmeira dos Índios; casa com Maria Augusta. 1925: Inicia Caetés. - 1927: Eleito prefeito de Palmeira dos Índios. - 1928: Casa com Heloísa. - 1929/30: Relatórios do prefeito Graciliano ao Governador do Estado. - 1930: Renuncia à prefeitura; diretor da imprensa oficial do Estado. - 1933: Edição de Caetés; é nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas. - 1934: Edição de S. Bernardo. – 1936: É demitido e preso sob a acusação de ser comunista - 1937: Sai da prisão; inicia a publicação de contos em La Prensa, de Buenos Aires. - 1938: Edição de Vidas Secas. - 1939: É nomeado inspetor Federal do Ensino Secundário. - 1944: Edição de Histórias de Alexandre. - 1945: Edição de Infância, memórias, pela Livraria José Olympio Editora; filia-se ao Partido Comunista do Brasil. - 1947: Insônia, editado pela José Olympio. - 1951: Eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores (ABDE). - 1952: Viaja à URSS (Viagem, edição póstuma em 1954, José Olympio); discorda do chamado "realismo socialista" de Zdanov. - 1953: Morte, câncer no pulmão; edição póstuma de Memórias do Cárcere (José Olympio).

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AUTO RETRATO DO ARTISTA QUANDO ADULTO (AOS 56 ANOS)

DESABAFOS, AGONIAS & ABSOLVIÇÕES

"Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne.
Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos"
(Carta à irmã Marilia Ramos, aprendiz de ficcionista, em 23.11.49).

Nasceu em 1892, em Quebrangulo [paroxítono], Alagoas. Casado duas vezes, tem sete filhos. Altura, 1,75. Sapato n.º 41. Colarinho n.º 39. Prefere não andar. Não gosta de vizinhos. Detesta rádio, telefone e campainhas. Tem horror às pessoas que falam alto. Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida. Indiferente à música. Não gosta de frutas nem de doces. Sua leitura predileta: a Bíblia. Escreve Caetés com 34 anos de idade. Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados. Gosta de beber aguardente. É ateu. Indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças. Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel António de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Gosta de palavrões escritos e falados. Deseja a morte do capitalismo. Escreve seus livros pela manhã. Fuma cigarros Selma (três maços por dia). É inspetor de ensino, trabalha no Correio da Manhã. Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo. Só tem cinco ternos de roupa, estragados. Refaz seus romances várias vezes. Esteve preso duas vezes. É-lhe indiferente estar preso ou solto. Escreve à mão. Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio. Tem poucas dívidas. Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas. Espera morrer com 57 anos (Obs.: morreu aos 61). Capitão Lobo comandava o quartel em que esteve preso no Recife, 1936; Cubano foi um ladrão que ele conheceu na cadeia. Ver Memórias do Cárcere, título idêntico ao de Camillo Castello Branco.

Esse Graciliano Ramos, ou Velho Graça, ou Major Graça, ou Mestre Graça, como o chamavam afetuosamente, é um fingidor. Por sentimentalismo ou vergonha, finge-se mais áspero do que é, mais espinhoso que um mandacaru. Sertanejo magro, de ombros curvos, um cigarro ardendo entre os dedos ou na boca, de roupas simples mas asseadas, mãos limpas (em todos os sentidos). Cria fama de grosseiro por causa de diálogos como estes:

— Bom dia, mestre Graça.

— Você acha, meu filho?

Ou então:

— Mestre Graça, se a situação continuar desse jeito, vamos comer merda — diz-lhe o romancista José Lins do Rego, nos tempos da ditadura de Getúlio Vargas.

— Se sobrar p’ra nós, Zé Lins. Se sobrar...

Seu romance de estréia, Caetés, ele o considera "um desastre" ou "uma encrenca". Angústia, o terceiro, é "este desastre que preparo e que terá, se aparecer um editor maluco, cinqüenta leitores do Amazonas ao Prata, talvez nem tanto". Vidas Secas tem uma "história mesquinha —um casal vagabundo, uma cachorra e dois meninos." Sua correspondência traz frases em italiano e francês. Traduz do francês e recita Le Cid, de Corneille, no original. Admira Eça de Queiroz, lê muito Machado de Assis. Conhece gramática portuguesa a fundo. Mas diz ter "uma cultura de almanaque". De vez em quando exalta-se: "Vai sair uma obra-prima, em língua de sertanejo, cheia de termos descabelados" (acerca de S. Bernardo, segundo romance). E reitera: "Foi palavreado difícil de personagens sabidos demais que arrasou a antiga literatura brasileira. Literatura brasileira uma ova, que o Brasil nunca teve literatura. Vai ter de hoje em diante" (idem).

Assim vê a atividade de escritor: "Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos neles um irmão e lhes mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica" (carta à mulher Heloísa, abril de 1935).

Alfabetizou-se em casa dos pais, na fazenda, "agüentando pancada".

— Um aparte, por obséquio.

— Com que finalidade? Por quem o senhor se toma?

— Por um curioso, apenas curioso. No volume Infância o senhor se atém às memórias relevantes. Parece pensar, como Sherwood Anderson, que não existem histórias seriadas, seqüenciais. Se existem, é que houve intervenção do autor, o que pressupõe artifício. A vida é feita de raros instantes felizes e muitos transes amargos ou desgraçados.

Em Infância predomina o ácido e, em certos trechos, o travo azedo. O memorialista não está ali para emperequetar-se. A análise, tanto da família quanto das ambiências, de si próprio e dos outros, é de uma rudeza total. O senhor tinha o seu orgulho, claro, mas não nutria vaidades bestas. Imprecava principalmente contra si próprio. Era, como disse Oswald de Andrade, um mandacaru escrevendo.

Em um compêndio de achegas biobibliográficas, Moacir Medeiros de Sant’Ana refere-se aos "vários e contundentes julgamentos dos seus pais, feitos por Graciliano Ramos nas suas memórias da infância". O pai "não economizava pancadas e repreensões" e na mãe o que espantava mais "era a falta de sorriso". Por isso, Olívio Montenegro considera o livro "obra diabólica". E no seu Jornal de Crítica, Álvaro Lins afirma, constrangido: "Quando se decidiu a escrever um livro de memórias, a sensibilidade reagiu em toda a sua exacerbação: e exprimiu-se pela exteriorização daquilo que nela se gravara mais profundamente (...) Um mundo intolerável de castigos, privações e vergonhas". Sim, a memória não grava com igual nitidez as felicidades e infelicidades; o lado podre tem primazia.

A secura exata, as frases que dizem muito com grande economia de meios. É o prosador anti-ornamental numa terra em que os prosadores continuam bacharelescos, relutam em aposentar os ornatos.

Do mesmo modo que, em romances anteriores, o senhor desce ao limo das personagens, em Infância vai à borra do coração. Predominância do monólogo (até mesmo por se tratar de depoimento), palavras pesadas e mortais, que ecoam como badaladas, arrancadas que foram da carne viva dos significados, e que traduzem verdades literais.

Na formação do menino Graciliano entram muitos instrumentos de suplício: o áspero meio sertanejo no final do século passado e início do século 20; o pai comerciante e fazendeiro, tipo rude da média burguesia urbana e rural, com um perfil de patriarca que cobra obediência pronta; a mãe de poucas letras e minguado afeto. Repressão política do coronelismo tipo cabresto, enxada e voto. Repressão sexual. Repressão, sobretudo, à inteligência. A sensibilidade do menino ferida a todo instante, no relacionamento penoso com os pais, na escola, nas ruas, sofrendo o impacto da miséria ambiental. O menino cresce solitário e desconfiado, agarra-se a "migalhas de sons, farrapos de imagens"— dolorosos, todos eles. E apesar da violência do meio, plasma por dentro a sensibilidade, procura um espaço, uma expressão, enquanto por fora tece a couraça protetora.

Mesmo os que, indiferentes à beleza da arte literária, abrem Infância em busca de um documento social, decerto encontram achegas sobre a arte de martirizar crianças. Antes, arte apurada no regime patriarcal; hoje, arte nacional, de ponta a ponta, fio a pavio.

"MENOS RUIM DO QUE EU JULGAVA"

De Buíque, Graciliano retira personagens para "Angústia". Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Quebrangulo, Alagoas, Brasil. Nasce Graciliano Ramos de Oliveira a 27 de outubro de 1892. "Meu pai, Sebastião Ramos, negociante miúdo, casado com a filha dum criador de gado, ouviu os conselhos de minha avó, comprou uma fazenda em Buíque, Pernambuco, e levou para lá os filhos, a mulher e os cacarecos. Ali a seca matou o gado — e seu Sebastião abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96. Da fazenda conservo a lembrança de Amaro Vaqueiro e de José Baía. Na vila conheci André Laerte, cabo José da Luz, Rosenda lavadeira, padre José Ignácio, Filipe Benício, Teotoninho Sabiá e família, seu Batista, dona Marocas, minha professora, mulher de seu Antônio Justino, personagens que utilizei anos depois".

É verdade: utiliza-os, principalmente, em Angústia, nas lembranças e delírios de Luís da Silva — mas alguns vêm à tona em Infância. Por causa dos seus temas e personagens recorrentes, e do teor autobiográfico, considera-se sem imaginação, embora houvesse dito, em cartas, que o enredo não importava, que o fundamental eram as descidas ao subsolo da personalidade.

— O senhor me permite um aparte?

— Novamente? Lá vem besteira...

— É tão somente para concordar com o senhor, quando diz que estamos no que escrevemos. Opinião perfeita para o seu caso. Agora, diga-me: o que aconteceu aos seus sonetos de juventude?

— As traças comeram.

— O senhor tem muito do Luís da Silva de Angústia. E o Luís guardava um álbum do qual arrancava páginas, sem se dar ao trabalho de copiar, para vender sonetos a literatos canastrões, depois de jurar que estavam inéditos...

1910-1914 — Cuida da casa comercial do pai em Palmeira dos Índios, "terra que, se não é boa, sempre é menos ruim do que eu julgava. Aqui não há cafés, há maus bilhares, pouca cerveja, nenhum divertimento" (carta à mãe, Maria Augusta Ferro Ramos, 1910).

"OS PRIMEIROS CINCO MIL-RÉIS"

1911 — Em junho e julho, recupera a saúde em Maniçoba, a fazenda perto de Buíque, sertão pernambucano. "Isto aqui", diz em carta, "é bom como o diabo: acorda-se às cinco da manhã, leva-se o dia lendo, fumando, comendo e rezando; dorme-se às nove da noite. Uma vida de anjo".

Sob pseudônimo, colabora em O Malho, revista carioca. Já aos 13 anos publica sonetos, ali e no Correio de Maceió. Desgosta-o a vida de comerciante: "Não quero emprego no comércio — antes ser mordido por uma cobra (carta ao pai, 1913). Pensa em "procurar alguma coisa na imprensa".

1914 — Sai de Palmeira dos Índios no dia 16 de agosto, embarca no navio Itassucê para o Rio de Janeiro, a 27, com o amigo Joaquim Pinto da Mota Lima Filho. Chegam no dia 29. Entra para o Correio da Manhã, como revisor. "Sou foca no Correio da Manhã e não sei quando poderei chegar a alguma coisa. Das nove às duas da madrugada, trabalha-se na revisão do Correio ( carta à irmã Leonor). A 16 de novembro ganha "os primeiros cinco mil-réis em novo emprego".

TRAGÉDIA NA FAMÍLIA

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1915 — Renuncia à pensão que a família lhe remete. "Uma vida parasitária é a pior das vergonhas", diz à irmã Leonor. Em princípios de agosto, é informado por telegrama da tragédia: numa epidemia de peste bubônica, morrem em Palmeira seus irmãos Octacília, Leonor e Clodoaldo, e o sobrinho Heleno. Graciliano volta em setembro. A 21 de outubro, desposa Maria Augusta de Barros, com quem teria quatro filhos: Márcio, Júnio, Múcio e Maria Augusta. Sucede ao pai como comerciante, na loja A Sincera, tecidos e armarinho, Rua da Intendência, 5.

1920 — Maria Augusta morre de parto, 23 de novembro.

1925 — Inicia Caetés, concluído em 1926, mas revisto várias vezes: corta e substitui palavras até 1930. "Vou mexer num capítulo a ver se mando logo para o Rio aquela encrenca", diz em carta.

1926 — Confessa em carta ao amigo Joaquim Pinto: "Eu li A Capital e O Conde d’Abranhos e ando a procurar os outros". E mais adiante: "Será possível que O Conde d’Abranhos seja do autor dos Maias?"

TRÊS FONTES PROVÁVEIS

Flaubert talvez inspire Graciliano. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

"S. Bernardo" vem a lume em 1934. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

— O nobre romancista me concede outro aparte? Talvez não seja breve mas será esclarecedor. Sua formação intelectual há de ter sido basicamente luso-francesa, como, de resto, a geração machadiana e pós-machadiana. A influência das letras anglo-americanas entre nós data da II Guerra Mundial.

Eu me pergunto se o senhor não teria degustado Flaubert, com quem guarda, aliás, a identidade de um estilo que assenta na prosa concisa. Madame Bovary, de 1857, se não teve na vida intelectual brasileira a voga dos romances de Eça, sobretudo Os Maias, cunhou, no entanto, o verbete bovarismo, com que se designa, a propósito de Emma Bovary e seu triste destino, o temperamento inclinado ao devaneio.

Não há em seus artigos para jornais, compilados nos volumes póstumos Linhas Tortas e Viventes das Alagoas, qualquer referência ao "solitário de Croisset". O senhor se estende em louvores a Eça, cuja presença está mais do que identificada em Caetés. "Que enorme quantidade de Raposos, de Zé Fernandes, de Dâmasos, de conselheiros Acácios e de Ramires não há neste mundo !", exclama em artigo de 1915. Algumas personagens ecianas, como o senhor mesmo observou, "palestram conosco e nos transmitem idéias mais ou menos iguais às nossas". Balzac é considerado "sisudo analista", o senhor cita François Coppée e Paul de Kock, mostra que leu Daudet, Taine não lhe foi estranho, e também menciona Romain Rolland e Victor Hugo. De Albert Camus, traduziu La Peste, e na folha-de-rosto assinou modestamente "G. R."

O senhor fica nisso, sem lembrar Flaubert e outros clássicos que deve ter lido. Em língua portuguesa, depois de Eça, seus entusiasmos correm para Machado de Assis, de quem existem alguns ecos em Caetés, entre os quais este:

"Bradei: 'Luísa me ama ! Estrelas do céu, Luísa me ama !' Imaginei que as estrelas do céu ficavam cientes e isto me deu satisfação" .

E este ainda:

"Diversos eu, d. Josefa? Sou apenas um, infelizmente. Se fosse ao menos quatro, ficava muito bem entre as senhoras".

Sem provas concretas, creio que o senhor leu Gustave Flaubert, e certamente numa daquelas edições francesas cartonadas que circulavam na época. Da leitura ficou-lhe uma impregnação que o ajudaria, mais tarde, a compor a abertura brutal de Caetés. Lembra-se do segundo parágrafo?

"Luísa quis mostrar-me uma passagem no livro que lia. Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se, indignada:

"— O senhor é doido ? Que ousadia é essa ? Eu...

"Não pôde continuar. Dos olhos, que deitavam faíscas, saltaram lágrimas".

Vejamos agora Madame Bovary, terceira parte, capítulo 1:

"Et, comme ils se trouvaient debout tous les deux, lui placé derrière et Emma baissant la tête, il se pencha vers son cou et la baisa longuement à la nuque.

"— Mais vous êtes fou ! Ah ! vous êtes fou ! disait-elle avec de petits rires sonores, tandis que les baisers se multipliaient".

Bem, Mestre Graça, leituras sentidas deixam cicatrizes na memória — e a conseqüência são essas aparentes imitações, que, na verdade, aproximam temperamentos, sensibilidades, experiências comuns. Na boa literatura a lanterna de Diógenes passa de mão, como tocha olímpica.

Mas há diferenças flagrantes entre Emma e Luísa. A personagem de Caetés, provinciana e tímida, enquadrada pelo acanhado meio pequeno-burguês, é impelida ao adultério pelo tédio e pelo idoso marido enfermo. A flaubertiana Emma, ao contrário, é absorvente, insatisfeita, insaciável. Emite uma voluptuosidade mística de permeio com uma carnalidade ostensiva. E nela Flaubert, um libertino de freios moralistas, romântico mas cínico, expõe-se: "Madame Bovary c’est moi".

Referindo-se a Caetés, o senhor disse naquele tom áspero que escondia a ternura : "Nestas páginas horríveis, onde nada se aproveita..." E, concluindo, considerou-o "uma narrativa idiota, conversa de papagaios".

Exagero, mestre Graça. Mais de 60 anos depois verifica-se que, longe de ser o canhestro exercício de um ficcionista que ainda não definiu linguagem própria, aquele romance é parte coesa da obra, da qual não constitui fruto temporão. A obra é um monólogo intenso, do qual consta, indissociável, aquele primeiro livro. Salvo ecos de Eça, de há muito reconhecidos pela crítica, e também de Machado, Caetés é a nascente que, já nos seus capítulos derradeiros, engrossa e ruma para o estuário dos romances mais densos, mais nucleares. Caetés demonstra que o universo ficcional do senhor, limitado a aspectos de sua vida e experiência, alimenta-se de temas e personagens recorrentes que, já na estréia, compunham o tom confessional do romancista. Sem o João Valério, narrador de Caetés, decerto não existiria o Paulo Honório, narrador de S. Bernardo. E, com mais certeza, não haveria o Luís da Silva, narrador de Angústia. E sem a personagem feminina que, em Caetés, pratica adultério, não teríamos a matriz de Madalena, que comete suicídio no romance seguinte. O calculista Evaristo Barroca do romance de estréia é modelo do espaventoso Julião Tavares, de Angústia. Alguns caboclos anônimos e soturnos de Caetés esboçam o retrato futuro do vaqueiro Fabiano de Vidas Secas.

Um instante, não me interrompa. A prosa característica do senhor — a visão de mundo a partir do monólogo, a personagem em conflito e sempre a se analisar e a imprecar contra o meio e as circunstâncias, querendo impor, mas sem saber como, o seu ponto de vista — evolui, já em Caetés, da crônica de costumes de uma cidade do interior alagoano, Palmeira dos Índios, para o romance psicológico — com o qual, aliás, robustece a segunda etapa do romance de ‘30.

Vejamos outras influências, afiemos os ouvidos para outras prováveis ressonâncias. O senhor leu Eça. O prosador português, mais que Flaubert, mais que qualquer outro, teve profunda repercussão no Brasil nos dois primeiros decênios do século 20, foi lido à larga, endeusado. Caetés não escaparia, pois, ao contágio eciano. É um repositório de cenas da vida na Província, com tipos curiosos, ironias, sarcasmos, diálogos ágeis, notações humorísticas e, como tempero, o adultério. A receita queiroziana.

Os ecos irrompem sobretudo na técnica das conversas paralelas, em jantares, partidas de bilhar e jogos de xadrez, com toques humorísticos, quando sobressai a imbecilidade de certas personagens. Ninguém melhor que Eça caricaturou indivíduos pomposos e medíocres, ninguém o superou na criação de tipos no mínimo curiosos. Pois bem: há em Caetés um padre Atanásio que não consegue concatenar duas idéias: mistura tudo, esquece logo o que acabou de dizer e deixa as conclusões em suspenso. O discurso incoerente provoca situações risíveis. Um exemplo:

"— É claro, não há dúvida. Necessitamos luz, muita luz.

— Com miolo de pão ? — perguntou Clementina".

Outro eco, este menos forte:

"Na poltrona de padre Atanásio repimpava-se o Dr. Castro, de braços cruzados, bochechudo, vermelho, feliz e sem testa."

Esse Dr. Castro, de resto um idiota chapado, lembra, e muito, o Dâmaso Salcede, pelintra vazio mas altamente presunçoso de Os Maias.

Já a presença de Machado de Assis, mais discreta, também não dá margem a dúvidas. Dei dois exemplos. Agora, proponho mais dois:

"Vacilei alguns minutos e afinal me resolvi a pôr-lhe o enduape na cabeça e o canitar entre parênteses."

"Apoderou-se do tabelião e dissertou abundantemente".

A essas impregnações, o senhor reage com a contundência da linguagem, a economia de palavras e ações induzidas pelo minguado e seco meio sertanejo. A sua língua já é brasileira, na quase totalidade, o estilo de Caetés já é o do prosador sóbrio, consciente do peso específico das palavras, denso e intervindo o menos possível: as personagens têm liberdade, obedecem a comandos instintivos, reagem de conformidade com seu conflitos.

Mas outros ecos, os da Semana de 22, com a revolução modernista, que pregava a cartilha verde-amarelista, aquele tupy or not tupy de Oswald de Andrade, haveriam de chegar a Alagoas e provocar, quem sabe?, na escritura do senhor, um realinhamento crítico. Refugiado em 1932 na sacristia de uma igreja, em Palmeira, o senhor recorreu ao vocabulário nordestino e a expressões tiradas da linguagem oral para dar têmpera a S. Bernardo.

O senhor respondia, conscientemente ou por intuição, ao preceito da Semana de 22: temas brasileiros, linguagem desvinculada o mais possível da sintaxe portuguesa, embora Mário de Andrade houvesse ponderado que a sintaxe não pôde ser destruída, ela continua estruturalmente portuguesa. A oralidade já se faz notar na abertura de Caetés: cachaço (de mulher, e mulher amada) em vez de nuca. E nas páginas finais, o narrador se refere à sua "admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às miçangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos de enfeite, que depois risco..." Não deixa de ser curioso que o narrador de S. Bernardo convocasse um amigo para escrever o romance. Mas se desentenderam logo, porque o colaborador apresentou prosa arrevesada. "Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!", reage o narrador. E decide escrever sozinho, com os seus recursos verbais, com a linguagem sertaneja.

— Tudo isso é conversa fiada, é xaropada.

— Não é. S. Bernardo veio a lume em 1934. Os capítulos 19, 30 e 36 surpreendem a personagem principal, Paulo Honório, em aguda crise existencial. Sozinho na casa-grande, sem mulher e sem amigos, e com a consciência em brasa, ele se contempla: mãos enormes, dedos enormes, um monstro, um aleijado moral. Insone, acuado, ele vê, ele toca, ele sente a superfície da sua dor. Vivemos nessas páginas um instante luminoso do ficcionismo brasileiro. Nós, que acompanhávamos o romance de ‘30, encontramos de repente na sua prosa o espaço interior da escrita, que imerge e desvenda o coração secreto, a ambiência, o traço sociológico.

S. Bernardo uniu psicologismo e documento social romântico-naturalista. Mas não se esqueça que o João Valério de Caetés já traz em si a semente do inconformismo, insegurança e descrença e daquela angústia que acaba por gerar a modernidade. "Sou um caeté", confessa Valério. Caeté também é Paulo Honório, também é Luís da Silva.

— Mentira, empulhação, impostura. Eu lá ia saber de Modernismo de 22, no sertão alagoano, roendo coirana, comendo toucinho com muito pelo...

— Um contemporâneo seu, Valdemar de Sousa Lima, recorda que o senhor era atraído para as crianças e as rosas. Calma, não enrubesça. No livrinho Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, Valdemar o descreve como "fino balconista". Tendo herdado do pai a loja A Sincera, iniciou ali longa atividade comercial, durante 19 anos. O senhor lia jornais e almanaques, recebia livros em lombo de burro, ensinava francês a moças e dava cursos noturnos a adultos. Seria estranho que, nessa faina, o Modernismo lhe passasse despercebido por completo. O crítico Wilson Martins considerou-o "um modernista malgré lui", e atribuindo importância decisiva ao Modernismo de 22, escreveu: "Sem esperar e sem querer tornou-se um escritor modernista, já que, nos anos ‘30, tratava-se de ser modernista ou morrer..."

RELATÓRIOS DENUNCIADORES

1927 — Eleito prefeito de Palmeira dos Índios, a 7 de outubro.

1928 — Casa-se em Maceió, segundas núpcias, com Heloísa Leite de Medeiros, a quem conhecera meses antes e fizera a corte em ardentes cartas de amor. Terão quatro filhos: Ricardo, Roberto (morto em 1930), Luísa e Clara.

1929 — Primeiro relatório do prefeito Graciliano ao Governador do Estado.

1930 — Segundo relatório. O poeta e editor Augusto Frederico Schmidt suspeita que ele tem um romance na gaveta e manifesta desejo de editá-lo. É que a linguagem dos relatórios nada tem de burocrática; criativa, heterodoxa, com o fel da ironia sarcástica, denuncia o prosador. Graciliano renuncia à prefeitura. Pouco depois é diretor da Imprensa Oficial do Estado.

PERSEGUIÇÕES POLÍTICAS E PRISÃO

1931 — É denunciado por desafetos à Junta Estadual de Sanções, que se seguiu à Revolução de ’30: desvio de 1.020$000 da prefeitura. Processo logo arquivado por absoluta falta de provas.

1932 — Em setembro, inicia S. Bernardo. Demite-se da direção da Imprensa Oficial e vai com a família para Palmeira. Ali trabalha em S. Bernardo.

1933 — Sai do prelo Caetés, por Schmidt editor, do Rio. Nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas. Em novembro, conclui S. Bernardo.

1934 — Edição de S. Bernardo, pela Ariel Editora, no Rio. Dá-se a "Intentona" comunista, em março.

1935 — Inicia Angústia.

1936 — Afastado do cargo de diretor da Instrução Pública. Preso em Maceió, em março, sem culpa formada. Motivo? Seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue em porão de navio para o Rio de Janeiro, fica quase um ano na cadeia, incluindo a Colônia Correcional da Ilha Grande. "Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator" (carta à mulher). Em agosto, sai Angústia (Livraria José Olympio Editora), que "foi bem recebido. Não pelo que vale, mas porque me tornei de algum modo conhecido, infelizmente" (idem).

PESADELO QUE NÃO ACABA

"Um crime, uma ação boa dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos", pensa Luís da Silva, narrador de Angústia, modesto funcionário público. Se vivesse hoje, mais de 60 anos depois, sua situação seria a mesma ou pior. De lá para cá, alguns indicadores sociais melhoraram, mas outros vícios, como a corrupção e a falência dos costumes, agravaram-se.

A classe média que o romance descreve, incerta e insegura, e sobrevivendo à custa de renúncias, estaria agora proletarizada. Luís luta para subir socialmente. Nordestino de origens rurais, vem de uma família outrora poderosa. São freqüentes, no fluxo memorialístico do narrador, suas lembranças do avô Trajano. Alcançou-o velho, caduco, a dormitar numa rede. Antes senhor de baraço e cutelo, assaltava a cadeia da vila para libertar cangaceiros; no final da vida, com umas reses magras na pastagem, embriagava-se e vomitava na sobrecasaca de um antigo escravo, mestre Domingos, que, por respeito, lhe suportava os destemperos.

A Graciliano Ramos não interessa o romance da decadência da aristocracia rural nordestina. É tarefa para seu contemporâneo José Lins do Rego, que enfocou principalmente os senhores de engenho. Contenta-se, em rápidas imagens repetidas pelo desespero do narrador, em transmitir do passado apenas o necessário com que exibir o desenraizamento de Luís da Silva, cujo pai vivia numa rede, a ler histórias românticas. O passado cruel condiciona a vida atual de Luís. Sente-se que o narrador é mais um Prometeu acorrentado. Ele próprio reconhece que, tivesse nascido em outro berço e recebido outra educação, seu destino seria melhor, ele pertenceria à classe dominante — a dos banqueiros, comerciantes, donos de jornais e diretores de repartição que o dominam de longe. Mas aquele passado rural de agricultores empobrecidos, vivendo dos antigos fastos, é uma marca escarlate, a marca da danação. A sensibilidade de Luís está aberta e sangra. Não há como conter o sangramento. As imagens patéticas ou trágicas assaltam-no nos sonhos e devaneios diários. Sua vida é um pesadelo econômico, um exílio social. Ele está a recordar constantemente o avô com uma cascavel enrolada ao pescoço e suplicando que a tirem; a avó que, sem conhecer o prazer sexual, paria numa cama de varas; o pai preguiçoso e violento que o atirou vezes seguidas ao rio, para ensiná-lo a nadar; um homem que se enforcou, de vergonha, porque tivera de esmolar um pão fresco que lhe foi negado; os pés disformes do pai morto sobre o marquesão sobrevoado por moscas. Cenas e imagens de pesadelo; de uma vida injusta, pobre, violenta, resultante da frágil economia do sertão habitado com o que o narrador chama "a minha raça vagabunda e queimada pela seca".

O narrador busca longe da vida sertaneja melhores condições de vida. Elas estariam no Sul — para onde emigram em geral os "descamisados", os de "pés no chão", os "sem-terra". Mas no Rio o retirante Luís da Silva, apesar dos pendores literários, sabendo escrever (aqui, no sentido da composição jornalística ou literária), com muitas leituras, conhece a solidão, o anonimato. O estabelecimento social rejeita-o. Ele está preso às engrenagens de uma sociedade então pré-capitalista (mal começara a fase de industrialização do Governo Vargas), hoje de economia globalizada, em que o dinheiro é valor supremo. Aos que nasceram bem aquinhoados, a estrada desdobra-se reta e chã; aos carentes, a dura tarefa de sobreviver. Esta é a sociedade brasileira dos anos ’30 subliminarmente descrita em Angústia, e que subsiste, em muitos aspectos piorada — daí a permanência temática do romance.

Romance "proletário", tal como o praticou Máximo Gorki, e romance de introspecção dostoievskiana. A exemplo dos humilhados e ofendidos de Dostoiévski, o destino de Luís da Silva é trágico — não somente por suas origens humildes, mas também porque há em volta dele, manietando-o, uma rede de circunstâncias restritivas. Em plena ditadura, com a renda e bem-estar concentrados na minoria privilegiada, resta aos despossuídos o sonho da revolução popular.

Um sonho bem vigiado pela polícia e sonho que, a essa altura, esvaziou boa parte de sua substância ideológica... Luís quer participar dele. Quer contribuir para a luta nas sombras por uma ordem igualitária. Ao mesmo tempo, tem de sobreviver: há o aluguel, os alimentos e remédios, ele é fustigado pelo impulso de verticalização social. Por isso se submete. No jornal, como revisor ou articulista, faz o que lhe mandam: "Escreva assim, seu Luís. Seu Luís obedecia. — Escreva assado, seu Luís. Seu Luís arrumava no papel as idéias e os interesses dos outros". Suas verdadeiras opiniões ficam para as conversas com Pimentel e Moisés, em casa, porque o café é perigoso, tipos suspeitos rondam os cafés. O intelectual Luís, um revoltado, escreve para o governo, elogia o governo. Em Vidas Secas, o vaqueiro Fabiano, depois de tomar facãozadas no lombo por ordem de um soldado amarelo, encontra-se com este na caatinga e, de facão em punho, recua e deixa-o passar: "Governo é governo".

A mesma atitude de subserviência ao poder. A diferença é que Fabiano, um bruto, sofre menos, enquanto o intelectualizado Luís recebe todas as agressões da desesperança e do repúdio social nos nervos tensos.

Nas primeiras páginas de Angústia o narrador declara-se "um molambo que a cidade puiu demais e sujou". Seu cotidiano triste divide-se entre a repartição, a banca de revisão, o café que freqüenta ocasionalmente e a casa velha, cheia de ratos, com uma criada meio surda, Vitória, que enterra no quintal as moedas do salário e conversa com um papagaio. Luís tem consciência da sua condição; nela, a tragédia, mais do que inspirada pelo passado familiar sertanejo, é um desdobramento. Sua visão de mundo é trágica porque está na sua formação, e as ações, ainda que limitadas pelo meio acanhado e opressivo, sinalizam a tragicidade. Romance naturalista, dir-se-á. Mas um naturalismo que, como o de Thomas Hardy, não se restringe ao jogo cego das forças do destino que Hardy, em Tess of the d’Urbervilles, atribui ao "President of the Immortals", citando Ésquilo. As personagens serão trágicas, no brasileiro, por herança e por uma necessidade inconsciente, intensa, de buscarem a tragicidade como forma até de explicação, justificação, sentido para a vida.

É o caso do narrador de Angústia. Cruel consigo mesmo, em comentários que chegam às raias do masoquismo, Luís da Silva atormenta-se. A princípio, diz: "Não sou um rato, não quero ser um rato". Mas não tardará a se considerar "um níquel social". Recebeu "muito coice da vida". É "uma criatura insignificante, um percevejo social..." Um rato rói-lhe as entranhas. O amor para ele é "uma coisa dolorosa, complicada e incompleta". Admite que rolou "faminto, esmolambado e cheio de sonhos" por esse mundo.

Robert H. Heilman observa, a propósito da Tess de Hardy: "Nossos egos estão ligados às nossas idéias; querem que os fatos se ajustem às idéias, do contrário nos ofendemos e tendemos, se tivermos poder para tanto, a nos tornar punitivos". Pois bem: a punição, em primeira etapa, vai para Luís da Silva, e este se humilha mais para sofrer mais, para purgar. Depois, com o aparecimento de Marina, os fados oferecem-lhe breve trégua. No seu romance de fundo de quintal com Marina — quintais cheios de lixo e plantações mesquinhas, onde um homem carrancudo e uma mulher triste trabalham com pipas e dornas —, Luís tem a impressão de descobrir o amor, quando está atraído pelo erotismo e Marina anseia apenas em sair da pobreza absoluta. De qualquer modo, é a felicidade: ele está relativamente tranqüilo, tem uns três contos de réis de economias, deseja casar-se. A idéia de casamento precipita a tragédia pessoal banhada pela tragédia social. Moça estouvada, de cabeça vazia, pensando em ostentações, Marina consome num ápice as suadas economias de Luís no enxoval e, em pleno "noivado", aceita a corte de um estranho, Julião Tavares, um parasita de discurso empolado e arrogância pavonácea. Tavares é o resumo de tudo quanto oprime Luís: dinheiro fácil, berço de ouro, prestígio social, mediocridade intelectual, poder de corromper e safar-se ileso. Gordo, cínico e esperto, Julião Tavares invade a casa de Luís, seduz Marina e distancia-se quando ela ostenta sinais de gravidez. A família submete-se: nenhuma queixa, apenas resmungos. Os humildes aprendem a vergar a espinha sob o peso dos opressores. O sedutor lança-se à conquista fácil de outras meninas pobres.

Mas o narrador de Angústia, espezinhado, traumatizado, esbulhado pela vida — este reage. É que o sofrimento atinge o ponto da exasperação, ele tem as comportas cheias de água estagnada. A fúria que antes o devastava se dirige ao opressor. Ele não tem, como Moisés, coragem de pichar muros, de distribuir "folhetos incendiários". Mas o Presidente dos Imortais lhe põe nas mãos o instrumento da vingança — uma corda. A essa altura o monólogo de Luís da Silva — o fluxo "objetivo" do inconsciente, ou seja, a linguagem da ação — se transforma em delírio. Imagens se atropelam: o cano de água é uma corda, a gravata enrola-se como corda, a cobra em volta do pescoço de Trajano é corda viva. O narrador vê-se compelido a matar Julião Tavares após a verificação de que Marina, grávida, procura parteira clandestina. No capítulo final as referências ao passado se aglomeram. É um entrechoque de lembranças. As imagens trágicas do meio rural e da vida urbana de Luís se juntam para entoar o coro da tragédia. Início e fim do romance se fecham quais pontas de um leque. Angústia é um pesadelo contínuo. O narrador pergunta: "Haverá dentro de 20 anos criaturas assim que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões, desejando um pedaço de carne viciada?" Sim, e em condições ainda piores.

ESCREVER PARA SOBREVIVER

1937 — Sai da prisão em janeiro. Vai morar com a família "numa pensãozinha modesta" da Rua Correia Dutra. Inicia a publicação de contos em La Prensa, de Buenos Aires (capítulos de Infância e Vidas Secas), por via do tradutor Benjamin Garay. Escreve para sobreviver. "Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil como você vê: procuro adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejaríamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono..."

1938 — Edição do romance Vidas Secas, constituído por um conjunto de contos que inclui a história da cadela Baleia.

"BALEIA" E OUTROS CONTOS

Graciliano Ramos pratica o conto forçado pela necessidade de melhorar o orçamento. O argentino Garay é seu primeiro tradutor. Alguns contos, entre eles "Baleia", de Vidas Secas, saem em La Prensa. Mas em verdade ele jamais pretendeu ser contista e refere-se a seus contos de forma irônica. Insônia será, a rigor, seu único livro a trazer o rótulo de contos — embora Infância contenha, no mínimo, quatro histórias curtas e Vidas Secas seja romance escamoteável, à guisa de The Unvanquished e Go Down, Moses, de William Faulkner: podem ser desmontados em forma de contos ligados por débil fio condutor e no entanto autônomos entre si.

Se alargarmos o conceito de conto literário, veremos que o escritor, além de Insônia, deixou outra coletânea na qual o gênero impõe a sua poética, espaço peculiar e particular: Alexandre e Outros Heróis, narrativas folclóricas. No mesmo ano de Histórias Incompletas, matriz de Insônia, João Guimarães Rosa estreia-se com Sagarana. Um ano após, Murilo Rubião publica O Ex-Mágico. Os contos de Vila Feliz, de Aníbal Machado, datam de 1944, da mesma forma que a estréia do alagoano Breno Accioly, com João Urso. O volume de contos Eis a Noite!, de João Alphonsus, é um pouco anterior: 1942. Identifica-se, portanto, nos anos ‘40, uma confluência de emoções para o conto, que adquire autonomia ou autodeterminação (excluído o fenômeno Machado de Assis, anterior).

A ficção curta brasileira deixa-se impregnar por um teor poemático que facilita a introspecção. Tchekhov, Katherine Mansfield, Proust, Kafka, Saroyan exerciam à época influência marcante. Data também da década de ’40 a prosa alegórica de Clarice Lispector, e convém lembrar o penumbrismo de Cornélio Penna, ligeiramente anterior ( Fronteira, 1935). Ora, Graciliano sente-se à vontade nessa escrita que dilui o realismo meridiano do romance "regionalista" . É um escritor impressionista voltado para as paisagens íntimas. Ainda assim, o facto social, o facto econômico e o facto político estão nas suas ficções curtas sem delas constituir aspecto preponderante. Veja-se, em Insônia, um conto de atmosfera política, "A Prisão de J. Carmo Gomes", além de contos sobre a vida burocrática, a vida conjugal, a vida literária. Sem esquecer o que nele é forte: o relato de teor autobiográfico, como "O Relógio do Hospital", inspirado, ao que parece, no seu período de hospitalização em Maceió, quando se submeteu a cirurgia.

Nele, as duas correntes do ficcionismo brasileiro — a introspecção ora exacerbada, ora imposta por fatores externos condicionantes — e a moldura do meio geográfico e do momento histórico, que na ficção naturalista assumem atitudes de diretiva única, convivem em harmonia, conjugam-se. O julgamento das suas histórias curtas dependerá sempre do conceito que se tenha de conto, sem apelos vanguardistas. Se rigoroso aquele conceito, muitas histórias do ficcionista alagoano escapariam aos moldes clássicos do gênero. O memorialismo que tanto se espraia pela ficção de Graciliano leva-o a escrever páginas que não passam de impressões ligeiras, crônicas, monólogos e casos, com repetições.

"O MAIOR DE TODOS NÓS"

1939 — Nomeado Inspetor Federal do Ensino Secundário, por influência de Carlos Drummond de Andrade, então chefe de gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema. Fica no cargo até o fim da vida.

1941 — Edição de A Terra dos Meninos Pelados, história infanto-juvenil.

1942 — Seus 50 anos são comemorados com um jantar de escritores no restaurante Lido, em Copacabana.

1944 — A Editora Leitura lança Histórias de Alexandre, título inicial de Alexandre e Outros Heróis.

1945 — Sai Infância, memórias, pela Livraria José Olympio Editora. Graciliano filia-se ao Partido Comunista do Brasil.

1946 — Participa do III Congresso de Escritores, em Salvador, Bahia.

1947 — Aparece Insônia (José Olympio), volume de contos derivado de Histórias Incompletas, pouco antes editadas na Coleção Tucano da Livraria do Globo.

1951 — Eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores (ABDE).

1952 — Completa 60 anos e é homenageado em sessão solene da Câmara de Vereadores. Sauda-o o poeta Jorge de Lima. O discurso de Graciliano, que está doente e não comparece, é lido por sua filha Clara Ramos. "Estamos aqui", diz José Lins do Rego, "para homenagear o maior de todos nós". Reeleito presidente da ABDE. Viagem com a mulher Heloísa à URSS, passando pela Checoslováquia, França e Portugal. Impressões recolhidas no livro Viagem, edição póstuma (1954, José Olympio). Discordando do chamado "realismo socialista" de Zdanov, considera pífia a literatura da era soviética.

GRACILIANO, DALCÍDIO E A DAMA

Nos fundos da Livraria José Olympio Editora, na Rua do Ouvidor 110, quase esquina com Avenida Rio Branco, há um marquesão no qual poucos ousam sentar-se. É o refúgio de Graciliano Ramos, que tem o hábito de acomodar-se a um canto e cruzar as pernas magras.

Num certo fim de tarde, quando ele, lá do seu canto, dá trela ao poeta estreante Jorge Medauar, sentado no outro canto, o romancista Dalcídio Jurandir vai se aproximando. É do Pará, pertence ao Pecebão (o PC ortodoxo) e tem um jeito de camelo, com ligeira corcova. Sem cerimônia, ocupa o espaço vago no centro.

— Mestre Graça, tem um mineiro badalando muito. Um tal de Guimarães Rosa. Já leu?

— Ainda não.

— Imitador de Joyce. Em vez de Saga, pôs Sagarana no título. Quer ser o alquimista da língua.

— Ah, é?

— Li umas páginas. Não é de todo mau — condescende Dalcídio.

Pausa. O romancista paraense volta à carga:

— Mestre Graça, já leu Cyro dos Anjos?

— Não. Quem é?

— Outro mineiro. Escreve parecido com Machado de Assis.

— Nesse caso — pondera Graciliano, descruzando as pernas — eu prefiro o original.

— Apareceu também um tal de Breno Accioly. É contista lá da sua terra, das Alagoas — informa Dalcídio. —Já leu?

— Como se chama o livro?

— João Urso. Tem prefácio de Zé Lins.

— Não sou de prefácios, não gosto de arrodeios — confessa Graciliano. — Pego o cabra e leio sem intermediações.

— Mas já leu o João Urso?

— Só uns dois ou três contos.

— Pois eu não passei do primeiro — diz Dalcídio. — Uma prosa maluca, retórica. Coisa de doido.

Silêncio. Graciliano pigarreia e prepara-se para acender outro cigarro. Como ninguém toma a iniciativa da palavra, Dalcídio Jurandir ergue-se, dobrando os joelhos como fazem os camelos, e despede-se. Tem assuntos a tratar na ABI.

— Medauar — pede o velho Graça quando o vulto desaparece na porta —, vá atrás daquele safado e descubra se está falando mal de mim.

Mais ou menos nessa época, o velho regressa de uma viagem à URSS. Em Moscou, obrigaram-no a catar no chão do metrô a ponta de cigarro que ele havia atirado fora. O metrô moscovita era um espelho, brilhava. "Nós não o fizemos e limpamos para que os senhores do mundo capitalista venham sujá-lo com baganas", dissera-lhe, em tom acrimonioso, o guia.

A ida à URSS resulta num livro de impressões intitulado Viagem e que começa com uma demonstração de aborrecimento do velho Graça: ele não se sente bem na "encrenca voadora". É como chama o avião. Fumando seu cigarro no marquesão da José Olympio, vê uma senhora tremelicante de banhas e de jóias aproximar-se, toda sorridente, com um exemplar do livro para o indefectível autógrafo.

— Mestre Graciliano, assine aqui. O senhor voltou assumido da União Soviética?

— Assumido como, minha senhora?

— Ora, assumido. Assim como o André Gide.

É demais. O romancista estoura:

— Como, minha senhora? Veado?

SEIS MESES DE VIDA

1952, setembro — Vai a Buenos Aires tratar-se com o Dr. Tayana, às expensas do Partido. O médico constata: câncer no pulmão. Abre-lhe o tórax: inútil a cirurgia. Dá-lhe seis meses de vida.

1953 — Morre no dia 20 de março, pela manhã, e é sepultado no dia seguinte, no Cemitério de São João Batista, às 10 horas, após velório na Câmara Municipal. Edição póstuma de Memórias do Cárcere (José Olympio). Outras edições póstumas, Viventes das Alagoas e Linhas Tortas, circulam na década de ’60.

1992 — A 20 de março, no mesmo dia do mês e da semana, e quase com a mesma idade do pai Graciliano, morre o escritor Ricardo Ramos, em São Paulo.

1993 — Morre Clara Ramos, filha de Graciliano.

Fonte: www.vidaslusofonas.pt

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