Embaixo, no último cubículo à esquerda, ao pé da grade, surgiu um tipo gordo, tranqüilo, silencioso, de calça cáqui e suspensório. Ganhou a alcunha de Farroupilha, por ter sido preso no aniversário da revolução gaúcha de 1835. Dois ou três dias depois da sua chegada, boatos fervilharam, cresceram e se transformaram em verdades: Farroupilha era ladrão, pederasta e delator. Além de tudo, covarde. Citavam-se fatos horríveis, apareciam testemunhas e ninguém tinha dúvida. Farroupilha era o maior patife do mundo. José Gay, ótimo rapaz, queria enforcá-lo na viga do passadiço e quando expunha esta idéia horrível, os outros faziam enorme berreiro, exigindo a cabeça de Farroupilha. E o infeliz, em pé, junto à grade do cubículo, os braços cruzados, olhava as coisas e as pessoas, impudente e alheio, como se aquilo não fosse com ele. Não parecia covarde. Talvez tivesse defeitos medonhos, mas é certo que os aceitaram sem exame. Esforçava-me por vencer a credulidade infantil.
Tinham dali saído quatro levas de presos. Iam para a Colônia Correcional, sabíamos isto perfeitamente, mas quando uma lista surgia falávamos em liberdade. Buscávamos razões bem frágeis para justificar esperanças, caíamos num otimismo exagerado. A frente popular francesa, Largo Caballero e Assava foram o nosso grande recurso. E quando chegava o desânimo, procurávamos Rodolfo Ghioldi, que tinha obrigação de ser forte, não podia fraquejar nunca. Certas situações, invejáveis na aparência, são de fato coisas duras e pesadas. Meses antes, com saúde, risonho e de cuecas, aquele moço baixinho empoleirava-se num degrau da escada, o tronco nu, as canelas nuas, um lenço no cós da tanga que lhe cobria alguns centímetros da barriga. Um discurso em tais condições facilmente se podia tornar ridículo. Quarenta pessoas em redor sobressaltavam-se, um olho no orador, outro na porta, e quando a grade larga se abria, esperavam novidades funestas. Com certeza Rodolfo se inquietava também, mas não queria deter-se, continuava a falar seguro e frio. A frieza e a segurança davam-lhe enorme prestígio. Nas conversas embrulhava uma algaravia meio espanhola, meio portuguesa, ia usando pouco a pouco o nosso vocabulário. Ultimamente andava mal, silencioso, magro, sem apetite. Caíam-lhe os dentes. Era Rodolfo que nos amparava no desânimo. Os telegramas dos jornais transformavam-se, lidos por ele. Traduzia as notícias, ligava-se a casos anteriores, num instante fazia uma síntese e era como se na barra escura da parede surgisse de repente um mapa. Enquanto ele discorria, eu lhe examinava as gengivas pálidas, banguelas, os dentes escassos. E zangava-me. Estupidez invalidar uma criatura assim, matar uma inteligência. Fraco e doente, Rodolfo nos animava. O abafamento decrescia, chegava o otimismo. Tudo lá fora estava bem. E relacionávamos com essas coisas, que estavam bem lá fora, as nossas pessoas insignificantes.
DEPOIS do café, entretinha-me a ler uma brochura, desatento, ouvindo o burburinho distante de conversas na Praça Vermelha, vozes mais próximas, som de tamancos no passadiço. Gente a entrar no banheiro, a sair, ruído seco de grade a chocar nos batentes, a doida exigência do capitão Dinarte:
Queremos ir para a Colônia. Queremos ir para a Colônia de Dois Rios. Queremos.
Evidentemente ele zombava dos operários e dos outros que nos tinham deixado, zombava do português, incluído numa das levas. Emudecera o desagradável canto de galo, e às vezes me vinha o desejo de que a estridência viesse irritar-nos de novo, abafar o desafio insensato do oficial. Quinze minutos naquela horrível brincadeira. Se ao menos Dinarte variasse um pouco, usasse palavras diferentes, não me abalaria tanto. O modo como ele gritava queremos pela terceira vez era desacato e ordem. Eu tapava os ouvidos, a provocação chegava-me abafada; a cadência arrasava-me os nervos. Vinha o silêncio, e não nos tranqüilizávamos, à espera do brado agoureiro. Preferível o canto de galo. Pobre do português, enviado para a Colônia, sem amigos, aborrecido por toda a gente. Surpreendia-me a lamentar a ausência daquela estupidez enorme. Por causa de uma aventura garantida . Não se cansava de repetir isso. Tentara aprender francês com Tavares Bastos, mas enganchara-se nas regras, não houvera meio de entrar na conjugação. E desabafara comigo Non. Gramática non. Ne pas. Je deseje faler. Faler français. Não é assim que se diz? Pouco antes de o transferirem, vivera algum tempo em companhia de um espanhol careca, de olho vivo, uma daquelas aves de arribação que nos apareciam e desapareciam constantemente. Por assemelhar-se ao último rei de Espanha, demos a esse tipo o nome de Afonso XIII. E o apelido pegou. A noite, na Voz da Liberdade, o locutor enxertava pilhérias no programa, achava que os dois vizinhos peninsulares ficavam bem no mesmo cubículo. E Afonso XIII indignava-se, aos berros, por o haverem posto junto àquele animal.
Dessas figuras sumidas restavam lembranças vagas, gestos, frases, a esmorecer, a confundir-se com gestos e frases de outras pessoas. Os caracteres diluíam-se. Naquela manhã, depois do café, sentado na cama, um volume entre os dedos buscava distrair-me e espalhava a atenção por várias coisas: a prosa lida, os rumores externos, recordações instáveis. Próximo, além do guarda-vento, agachado nos travesseiros, Adolfo segredava com Valentina pelo buraco aberto na parede. Lá embaixo a porta do banheiro se fechou. Em seguida houve um tropel surdo, choque de madeira nos degraus de ferro: a gente válida ia fazer exercício no terraço. Nas celas ficavam apenas homens enfermiços, caídos em ócio obrigatório, e alguns que se isolavam, prudentes, envolvendo-se no silêncio como numa carapaça. As divergências políticas iam-se acirrando, ódios cresciam, estalavam. Com certeza Rodolfo estava dispondo, meticuloso, o esboço de uma conferência; Sérgio lançava no caderno um estudo que, principiando em alemão, se alargava num português bastante razoável; Apporelly, hemiplégico, arrastava na sombra a perna trôpega. Doía-me o pé da barriga, a dormência na coxa direita anulava o desejo de mexer-me, agüentar-me ao sólida ver lá de cima o formigar dos veículos, árvores e prédios, a massa rija da Favela, o gasômetro enorme. Tilintar de chave na sala 4. O sussurro das mulheres passou a pequena distância, elevou-se no patamar, desceu a escada e sumiu-se.
O cochicho de Adolfo e Valentina prosseguia. Não era discussão. Em geral os dois se embrenhavam na política, divergiam, falavam alto, e as discrepâncias perdiam-se no barulho do Pavilhão. Alarmava-me a esquisitice do rapaz. Como diabo se desperdiçavam momentos preciosos debatendo a questão social com uma pessoa tão bonita? Se ele tivesse bom senso, limitar-se-ia a admirar pedaços da moça: um olho brilhante, uma nesga de bochecha corada, os beiços muito vermelhos. Agora a conversa tornava-se indistinta, era um murmúrio.
Levantei-me para não ser indiscreto, saí, encostei-me à barra do passadiço, vi no rés-do-chão, junto à grade aberta, o chefe dos guardas, um faxina a varrer o cimento. Na aparência os quartos se haviam despovoado. Criaturas doentes invisíveis. Valdemar Birinyi cada vez mais se isolava; punham-no de parte, não esqueciam a sinceridade infeliz que manifestara ao chegar ali: Querem fazer revolução com essas bestas? Aquela hora o antigo oficial de Bela Kun, alheio à versão, folheava o seu tesouro, os grossos volumes da coleção de selos. Faltavam diversos espécimes abafados na polícia, mas isto não tinha importância. Ainda é a terceira coleção do mundo. A terceira, pois não, elogiada pelo rei da Inglaterra. E Valdemar Birinyi devia sentir-se feliz. Já não havia motivo para tentar suicidar-se. Os cortes dos pulsos, na tentativa falha de abrir as artérias, quase se apagavam, e provavelmente não tinham deixado cicatrizes no interior.
Fiquei debruçado na viga da plataforma, pensando em coisas assim, vendo o guarda fiscalizar o serviço do faxina, ouvindo o chiar da vassoura no cimento. Afinal o homem zebrado terminou as varredelas e sumiu-se. Agora só se percebia um zumbido, qualquer ajuste do casal. Procurei fixar a atenção noutro rumor. Nenhum me veio distrair, no Pavilhão deserto aquele avultava em demasia. Súbito Adolfo calou-se, abandonou o refúgio, saiu, ficou um instante perto de mim, observando o pavimento inferior. Em grande alvoroço, estranhava sem dúvida que as circunstâncias lhe favorecessem a realização de um projeto absurdo. E agarrando a ocasião, provavelmente sem refletir, pediu-me auxílio, o olho brilhante, a voz trêmula. Queria que eu lhe facilitasse meio de sair dali, visitar a mulher. Necessário ir falar ao carcereiro lá embaixo, entretê-lo, impedir-lhe o exame das coisas em redor.
Você está maluco. Eu sou lá capaz disso?
A gaiola vizinha estava aberta, e as companheiras de Valentina esvoaçavam todas no pátio, desenferrujando os músculos no jogo da bola. A combinação feliz de acasos induzia o moço a executar o plano temerário. Indispensável e urgente a minha interferência. Recusei-me, tonto, receando que um som de lingüeta viesse frustrar a comunicação. Na verdade lamentava não me ocorrer um expediente, ver aquele enorme desejo baldar-se.
É uma loucura.
E resistia, fazendo tenção de recolher-me, pegar o livro abandonado. Mas, em vez de proceder assim, afastava-me da cela, pouco a pouco me acercava da escada. Nenhum desígnio; evidentemente não me abalançaria a colaborar na aventura doida. Contudo os movimentos se opunham à decisão e às palavras. Alguma idéia imprecisa devia andar-me no interior; mexia-me talvez guiado por ela.
Nesse automatismo desci os degraus, alcancei a Praça Vermelha. Aí me veio a certeza de que ia tratar com o sujeito de farda, armar uma conversa longa, embora não houvesse nenhum assunto para ela. Não me espantava desse comportamento, julgava-o razoável, apesar de tudo; na hora precisa um diálogo se arrumaria, natural, réplicas e tréplicas a alargar-se com muitos circunlóquios, enchendo tempo, acirrando o homem, impedindo-lhe observar os arredores. Em condições normais balanceamos as nossas possibilidades, e não vemos além delas; a sociedade nos determina com rigor os atos possíveis, e às vezes, para nos movermos, necessitamos um papel selado, assinado, carimbado; sem isso, encrencamos, certamente. Ali dentro essas limitações desaparecem, anulam-se as fronteiras, vemos que nos podemos mover para um lado e para outro, indiferentes às restrições, alheios às conveniências. Movemo-nos até bater com o nariz numa porta de ferro. Mas esse obstáculo é transitório. Descerra-se a porta, queremos transpô-la, sem perguntar se havia para isso uma proibição. Os deveres incutidos lá fora não existem: vamos até onde podemos ir. Há uma porta aberta e Adolfo precisa atravessá-la, passar o vestíbulo, trepar alguns degraus, meter-se na sala 4 e abraçar Valentina, roxa. Os lábios rubros, as maçãs do rosto, cor-de-rosa, mãos, braços, pernas, estariam roxos. Moésia Rolim, alto e rouco, afirmava que ali tínhamos liberdade; era o único lugar no Brasil onde havia liberdade. Perfeitamente. Agarrava-me a esse paradoxo. Gritávamos, cobríamos de baldões a polícia assassina de Filinto Müller. Tínhamos essa liberdade. E havia outra. Andar nus, não escovar os dentes, falar à toa, admitindo ou recusando farrapos de noções obrigatórias noutra parte. íamos e vínhamos, perfeitos animais. Abaixo a polícia assassina. Esquisito não nos havermos apavorado, não estarmos ali como bichos passivos e medrosos.
Cheguei-me ao guarda como se tivesse uma reclamação na ponta da língua. Ainda não tinha, mas isto de nenhum modo me embaraçava: com certeza ia surgir e desenrolar-se no momento oportuno. Foi o que sucedeu. Essa confiança no imprevisto é talvez a base dos pequenos talentos ali desenvolvidos. Quando entrei a falar, notei que nos faltavam diversas coisas. Peguei-me a uma, exagerando a importância dela, os olhos na cara do tipo, com gestos e loquacidade contrários ao meu temperamento. Enquanto me expandia, Adolfo saltou os degraus com passos de gato, colou-se à parede, escorregou até a grade, meteu-se no vestíbulo, subiu a escada. No decurso dessa manobra, executada num momento, ia-me virando, forçando meu interlocutor a dar as costas ao fugitivo. Bem. O meu companheiro tinha realizado uma façanha. Estava na sala 4, beijando Valentina, e provavelmente ia demorar pouco. Sem dúvida. Um rápido encontro de galo. Isso mesmo. Reclusão demorada, sonhos, necessidades permanentes, a imaginação criando cenas vivas. Regressaria logo, certamente. O pior é que o diabo do guarda me atendera sem discutir: achara justo o pedido, e isto me desconcertava. Sumia-se o pretexto, e um instante fiquei a vasculhar o íntimo, repisando a solicitação, pouco a pouco transformada em exigência, com pormenores redundantes, avanços e recuos, forcejando por torná-la inaceitável. O funcionário não me havia compreendido bem, mortificava-me para explicar isto, e, durante a lengalenga, estirava os olhos por cima de um ombro dele, via um lanço da escada. Afligia-me a ausência longa de Adolfo. Porque se demorava tanto? Na verdade não se demorava. Dois minutos ou três. Na minha horrível situação, porém, isso parecia tempo excessivo. Certamente a empresa ia falhar. Estupidez meter-me nela. Tudo se descobriria de repente e haveria um escândalo medonho. Perguntei a mim mesmo se o guarda já não tinha percebido a maranha, não estava ali a enganar-me, pronto a divulgar a falta na hora conveniente. Fez um gesto, e alarmei-me, supondo que ia trancar a porta, deixar lá fora o rapaz em situação injustificável. Precipitei a parolagem, lançando-me a novas instâncias, em desordem, perfeitamente embrulhado. Representava muito mal o papel difícil. Uma criança me enxergaria o transtorno, a desesperada busca de motivos. Pensando assim, admirava-me de não distinguir no indivíduo qualquer indício de suspeita. Bem. Possivelmente meu desempenho não era tão mau como eu julgava; a conversa mastigada, os rodeios fatigantes, não revelavam desarranjo; achava-me ali a reclamar sem astúcia creolina e sabão para liquidar os percevejos. Ou então o homem se fingia cego, pactuava conosco: farejara uma necessidade urgente e levaria a condescendência até o fim. E se uma das mulheres regressasse do pátio, fosse testemunhar o caso estranho? Aborrecia-me conjeturar isso. Porque me entretinha a imaginar dificuldades, interessar-me em negócios alheios?
Afinal o desertor ressurgiu, desviando-se do corrimão, agachando-se, colando-se ao muro. Desceu, executou uma curva larga, alcançou a grade, insinuou-se como um rato na Praça Vermelha. Findei a exposição capenga, lancei um agradecimento chocho e recolhi-me, surpreso do êxito. Nunca me supusera tão hábil. No cubículo achei Adolfo a restabelecer-se, pálido em excesso, grandes manchas de suor no pijama. Felicitei-o:
Muito bem.
Resvalou na confidência:
Foi um sacrifício para ela, coitada. Assim de chofre! Estava fria como uma defunta.
Veio-me o capricho malicioso de chamar Valentina. Pusme a conversar com ela, observando, através da parede, migalhas de beleza: dentes magníficos, um olho vivo, alguns centímetros de bochecha, os lábios sangrentos, uma sobrancelha. Admirava-lhe a vivacidade. Nenhum vestígio do susto horrível que tivera pouco antes. O marido, perto, mordia as cobertas, numa crise de riso.
DE VOLTA do banho, fui à barbearia, confiar-me à perícia do homem de zebra que nos cortava os cabelos e pelava o rosto com tesouras e navalhas bastante cegas. Melhorado o frontispício, recolhi-me, despendurei do guarda-vento a roupa envolta em jornais, por causa da poeira, abri a valise, entrei a arrumar-me devagar.
Faltavam ainda algumas horas para a visita. Findos os arranjos, desci. Os pés haviam crescido e os sapatos magoavam-me os dedos.
No pavimento de baixo, Valério Konder, sério, pilheriou comigo, deu-me um título cerimonioso, referiu-se aos trabalhos na repartição. Livres dos tamancos e dos pijamas, apertados em colarinhos e gravatas, éramos pouco mais ou menos irreconhecíveis.
Achei aberta a grade, passei ao vestíbulo, entrei na enfermaria, à esquerda. A mesa de Sisson, ostentando enorme tabuleiro de casas vermelhas e negras, convidou-me. Para encher tempo, sentei-me a ela, dispus as peças, busquei parceiro, embrenhei-me numa partida, insensível aos xeques, esperando que me viessem chamar à secretaria.
Demorei-me longamente, as idéias a afastar-se dali, em busca de possíveis casos de interesses ocorridos na semana. Como andariam lá fora os meus negócios? A imaginação capengava, tentando vencer obstáculos. Em redor, sentados nas camas, outros indivíduos se entretinham a jogar, e os comentários dos lances chegavam-me remotos e confusos. Os vestuários civilizados, a discrepar do ambiente, com certeza me desviavam para o exterior, levavam-me a forjar notícias prováveis. Agildo Barata avizinhou-se, entregou-me um envelope, recomendando-me que o fizesse chegar ao destino. Li o endereço de um político e meti o papel no bolso, regressei aos cavalos e aos peões.
A voz de um guarda, abandonei as combinações desatentas, ergui-me,
passei ao vestíbulo, fui agregar-me no pátio a uma dúzia
de companheiros bem vestidos. Pusemo-nos em marcha. Em vez de nos dirigirem
à secretaria, encaminharam-nos ao pavilhão fronteiro a ela.
Aí surgiram fardas e alguém anunciou:
Revista.
Achava-me à frente do bando. Com todos os diabos. Iam examinar-me em primeiro lugar, descobrir a infeliz correspondência, prejudicar Agildo, talvez embrulhar o destinatário. Nenhum meio consciente de fugir ao embaraço. Estava fora dos meus recursos conceber uma defesa, tentar embair a polícia, que, a dois passos, ali na calçada, pretendia vasculhar-nos as algibeiras. A minha reação foi maquinal. Desviei-me, recuei, distingui Euclides de Oliveira e empurrei-o, escondi-me por detrás dele. Retirei o contrabando e mergulhei-o debaixo da camisa. Seria descoberto, sem dúvida: escorregou-me na pele, fez um chumaço volumoso na barriga, preso no cinto.
Azaranzado, abotoando-me, vi Euclides próximo, submetido à busca; notei-lhe as rugas da testa quando ligeiramente o despojaram de uma fraude como aquela. Afastou-se indignado, chegou a minha vez. Não me ocorria a suposição de que o miserável trambolho ficasse em meu poder. Eximiram-me de cautelas; ingenuidade querer burlar os sentidos espertos da fiscalização. Avancei. Num minuto iam desmascarar-me, devolver-me ao grupo, as orelhas em brasa. Mas não me indignaria como Euclides, não teria no rosto as pregas duras, coléricas. Tudo previsto. Subi um degrau, afastei as abas do paletó. Dedos ágeis correram no pano, investigaram esconderijos e dobras, fizeram-me cócegas, deram-me a impressão de que pernas de baratas me andavam sobre o peito, num fervilhar muito desagradável Estancaram, recolheram-se.
Desorientado, imobilizei-me: com certeza os gadanhos hábeis iam de novo esquadrinhar-me os sovacos, arrepiar-me, tateando culpas. Lentamente percebi que a operação estava finda, o assombro me tolheu a fala e o gesto; recompus-me e desci, grato ao acaso e desdenhando um pouco os farejadores ineptos. Malucos. Essa opinião fortalecia-se enquanto me desanuviava, procurando orientar-me. Enxerguei à direita a sala aberta e dirigi-me para lá. Esboçaram-se as fisionomias de pessoas vagamente conhecidas, distingui o rumor das conversas e o rápido exame dos pacotes familiares nas sextas-feiras. Num banco, junto à porta, minha mulher sorria, segredou quando me sentei:
Que é da carta?
Em silêncio mudo, interroguei-a com os olhos; referiu-se ao objeto pouco antes escondido, no momento de aperto Com os diabos! E modifiquei o juízo desfavorável aos pesquisadores. Certamente não eram cegos nem idiotas. Simplicidade julgar-me capaz de enganá-los, visto de perto, se à distância de dez metros alguém me observara os movimentos e tirara a conclusão razoável. Possível não haverem tencionado ir além de certos atos formais, necessários à rotina. Cumpridas as exigências mínimas, à pressa, como se executassem um ritual enfadonho, evitavam complicações estranhas ao serviço. Ausência de curiosidade, nenhum propósito de exceder os limites de uma função maquinal e burocrática. Devia ser isso. E voltou-me a suposição de que o guarda, a escutar com pachorra a minha conversa fatidiosa, percebera a fuga de Adolfo e aguardara, paciente e humano, o regresso dele. Essas dúvidas nos suavizam a prisão, levam-nos à certeza de não haver no aparelho policial o rigor suposto lá fora. Notamos quebra de uniformidade, e isto nos satisfaz. Em qualquer parte achamos indivíduos propensos a simular inadvertência, cochilar no momento preciso, se tais escorregos não lesam o texto do regulamento. A princípio nos admiramos da nossa perícia. Hesitamos depois em admiti-Ia, mas fingimo-nos sagazes para não causar prejuízo à vigilância que relaxou, desviar a suspeita de conivência. Bem. Examinei os arredores. Só divisei casais mergulhados em seus negócios particulares. Sem respeito aos circunstantes, mal-educado, entrei a coçar-me. Abri a camisa, estive a mexer lá por dentro; afinal consegui introduzir o envelope na manga.
Deixa cair o lenço.
Novo reparo na vizinhança e o pedaço do pano chegou-me aos pés. Baixei-me, fiquei um instante procurando levantá-lo. Na verdade sou um infeliz prestidigitador. Operação difícil retirar os papéis da manga, escondê-los no lenço, metê-los na bolsa da visitante. Mas ninguém testemunhou essa burla, e aproveitamos a meia hora disponível.
Recebi as últimas notícias, enxerguei a liberdade muito longe, cada vez mais a distanciar-se de mim. Conservar-me-iam fora do mundo, sem processo; não me vexariam com interrogatórios nem ouviriam testemunhas. Segregação isenta de formalidades. Tínhamos chegado a isso, eliminavam-se as praxes, o simulacro de justiça, como se fôssemos selvagens. Facilmente me ajustariam, considerando indícios e razões, em artigos e parágrafos. Se quisessem, legalizariam a situação; não tentavam esconder violências e arbítrio e algumas pessoas inquietas por minha causa batiam em portas fechadas. Como de outras vezes, devo ter pedido a minha mulher que não importunasse esses homens de bons propósitos. Afinal o meu caso era semelhante a dezenas de outros; parecia-me estulto desviar para ele a atenção de viventes ocupados nos seus negócios. Capitão Mata e Manuel Leal tinham-me aborrecido em demasia a alegar inocência, a falar em perseguições, iniqüidades. Essas lamúrias egoístas enraiveciam-me.
Agarrava-me impaciente a assuntos vários, temia perder os últimos vestígios de solidariedade àquelas vítimas indiscretas. Esquivara-me sempre a mencionar particularidades: não desejavam conhecê-las, iriam bocejar ouvindo-me. Agora José Lins procurava militares e políticos, mandava cartas a figurões, empenhava-se em favorecer-me com simpatias várias indeterminadas. Essa interferência podia causar desgosto, originar suspeitas e afligia-me a idéia de prejudicar alguém. Bom que os amigos inesperados se aquietassem: era-me suficiente saber os intuitos deles. José Olímpio mandara o romance para a composição. Temeridade igual à de José Lins. Afinal o editor nunca me vira, nada o aconselhava a expor um livro de autor excomungado pelas normas vigentes. Perigo, impossível adivinhar as conseqüências. Iam talvez chamá-lo à delegacia para esclarecimentos, depois enviá-lo à Casa de Detenção. Em segredo, com certeza: os jornais guardariam silêncio. Os originais estavam salvos, na oficina. Difícil escaparem os volumes: seriam apreendidos, julgados nocivos, queimados. Perdiam-se os gastos de impressão, o negociante de escritos metia o rabo na ratoeira. Asilava-me uma esperança débil: a narrativa era medíocre, tão vagabunda que passaria facilmente despercebida. Os sujeitos da ordem não esbanjariam tempo com ela. Desgraçado alívio. E apoquentava-me outra vez não poder corrigir a história, suprimir as repetições e os desconchavos. Alguns pedaços não eram ruins de todo. Se me deixassem trabalhar uns meses, livrar-metia dos receios, das tremuras que a publicação me dava.
NAQUELA noite, depois de fecharem os cubículos, Nise bateu na parede e ofereceu-nos, através do buraco, uma notícia: iam ser postas em liberdade cerca de vinte pessoas.
Isso não me interessou: havia-me habituado às listas, e a idéia da Colônia deixara de apavorar-me. Mas quando o guarda surgiu à porta e gritou o meu nome, estremeci, quis ver o papel datilografado que ele trazia na mão. Satisfeita a exigência, vesti-me à pressa, atarantado, arrumei os troços da bagagem leve.
Os preparativos consumiram tempo enorme porque os objetos desapareciam, a cada instante era preciso abrir e fechar a maleta. Impossível achar a escova de dentes, jaguar dada, entre cuecas e lenços. Herculano preparava-se também para saí. Américo e Adolfo auxiliavam-me na arrumação. Eu perguntava a mim mesmo:
Estarei muito confuso? Terei as mãos frias e úmidas? Pouco tempo antes Adolfo tinha sido mandado a um hospital, ficara lá vários dias. Ao receber o chamado, ignorava para onde iam levá-lo. Aparentava grande calma e ria cochichando com Valentina, que falava tremendo, numa agonia, além da parede. O sossego dele espantava-me. Ao despedir-se, tinha as mãos úmidas e frias. Com certeza as minhas deviam estai assim agora.
Nise chamou-me da sala 4. Encostei o ouvido ao buraco, percebi um recado para alguém lá de fora. impacientei-me: não se tratava de liberdade; mas Nise insistiu, disse coisas ininteligíveis, deu-me um endereço. Confessei não entender nada e busquei um lápis para escrever o que ela dizia. Difícil encontrar o lápis. Aborrecia-me o trabalho inútil. O homem da lista já me chamara duas vezes. Receei que ele viesse de novo apressar-me, visse a cama afastada, o guarda-vento fora do lugar, e me surpreendesse a conversar com uma vizinha, infringindo o regulamento. Encontrei o lápis, mas a linguagem de Nise era confusa e extensa: impossível agarrar o sentido, resumir aquilo em duas ou três linhas. Depois de numerosas repetições., garatujei zonzo letras e algarismos na carteira de cigarros, pois o bloco de papel se ausentara. Esforço enorme escrever; irritava-me, na desgraçada situação, o desperdício de energias necessárias na viagem à Colônia. Nise estava sendo ingênua: habituada por ofício aos desarranjos mentais, ignorava-me o alheamento, a fuga das idéias: com certeza não me diferençava muito dos clientes dela, imbecis ou idiotas. Seria tão difícil verificar isto? A insistência da moça fez-me supor que não me descomedia, não revelava nenhum distúrbio. Se ela continuava a falar sem dar mostra de conhecer a minha estupidez excessiva, os outros se enganariam também, evidentemente. Enfadava-me o longo zumbido misterioso, procurei interrompê-lo: mudança de prisão, somente. Nise não se convencia: ouvira referência a liberdade e acreditava nisto, apesar de terem as liberdades anteriores acabado na ilha Grande.
Américo e Adolfo estendiam-me esperanças débeis cordas ao náufrago. Fingiam-se crédulos, julguei, e irritava-me a piedosa hipocrisia. Notavam-me no rosto e nas ma neiras atrapalhação e medo, sem dúvida. Estaria realmente com medo? Transtorno, perplexidade, lentos arrepios, e os beiços a contrair-se num riso convulso. Na verdade aquilo tinha graça. Ir para a Colônia! Absurdo mandarem-me para semelhante lugar Vinham-me à cabeça o relatório de Chermont e pedaços da minha vida anterior. Mas porque diabo me mandavam para aquele inferno? Pergunta néscia. Dispensavam-se razões: ia, como numerosas insignificâncias da minha laia, fátuas e vazias, tinham ido. Assim pensava, e tinha vergonha de falar, desejava que me enganassem, mentissem. Uma pequena adulação me agradaria Burrice misturar com vagabundos e malandros um sujeito razoável, mais ou menos digno, absolutamente alheio a essas criaturas. Tencionariam corrigir-me na Colônia? Havia lá uma escola. Iriam meter-me nessa escola, coagir-me a freqüentar as aulas dos vagabundos e malandros? O pensamento burlesco afastou-me para longe: imaginei-me vestido em zebra, folheando um caderno sujo, decorando a lição, cantando rezas e negócios patrióticos. As minhas mãos deviam estar frias como as de Adolfo naquela noite, ao despedir-se de mim. Não estavam, prendia-me com desespero à negação. Tinha escrito seguro o recado de Nise. As letras com efeito eram rabiscos ilegíveis, a ponta do lápis rasgara o cartão fino. Mas tinha escrito. Não me lembrava do que tinha escrito. Desejava ser animado e queria livrar-me das esperanças ridículas. Era alguma criança?
Afastara-me da parede e estava em pé no meio do cubículo, a valise fechada, pronto, ouvindo frases amáveis. Herculano, junto a mim, sobraçava a bagagem; o corpo mirra do engrossara um pouco, envolto no largo sobretudo espesso. Para onde nos iam levar? Em voz alta referia-me à Colônia, mas interiormente esforçava-me por desviá-la e a interrogação me atenazava. Se nos deixassem quietos, percevejos a sugar-nos, camas de ferro a escoriar-nos, tudo ficaria bem. Mas sempre nos removem, sem explicações, mostrando que não temos direito ao sossego e tanto podemos ir para a Sala da Capela, reclusão de burgueses e professores da universidade, como para a Colônia Correcional, onde guardam a canalha, o enxurro, vidas sórdidas.
O molho de chaves tilintou, o guarda apareceu pela terceira vez, a porta se abriu. Ainda me retardei um instante, examinando os objetos em redor. Teria guardado na maleta a escova de dentes, os lenços todos? Abracei os companheiros e saí. Atravessei o passadiço, demorando-me em frente aos cubículos, apertando mãos que se estendiam; fui em seguida fazer novas estações apressadas na ala fronteira. Os mesmos gestos e as mesmas frases mecanizaram-me no pavimento inferior. A entrada, cerca de vinte pessoas em fila carregavam-se de malas e embrulhos. Na friagem da noite, longos capotes indicaram-me a gente do Paraná. E redes a tiracolo, dobradas em rolos, como enormes serpentes grávidas, chamaram-me a atenção para algumas figuras do Rio Grande do Norte. Enfileirando-me à pressa, distingui Macedo, João Rocha, Van der Linden, José Gomes, o pequeno dentista Guerra.
Pusemo-nos em marcha, alcançamos o vestíbulo. Deixei a fila, dei um rápido adeus ao pessoal da enfermaria. Depois virei à direita, galguei a escada, achei uma exposição de mulheres a enfeitar a grade da sala 4, umas embaixo, outras empoleiradas nas travessas. Com os pés metidos em tamancos, podiam equilibrar-se nas barras estreitas, seguras aos varões, as saias entaladas entre as coxas. Um minuto papaguearam. Naquela arrumação de corpos, notei apenas os beiços vermelhos de Valentina, a brancura de Olga Prestes, os olhos arregalados de Nise. Voltei.
Deixamos o Pavilhão, dirigimo-nos à rouparia, onde recebi o meu chapéu. Tornei a ver a horrível tatuagem no antebraço do rapaz que lá trabalhava: um esqueleto sem pernas.
O senhor aqui? murmurou descobrindo-me. Ainda não saiu?
O espanto dele certamente não foi igual ao meu. Estranha memória. Achara-me ali uma noite. E no dia seguinte pela manhã tínhamos conversado meia hora. Decorridos quatro meses, de novo nos encontrávamos, e súbito o moço me identificava num grupo numeroso. Essa possibilidade esquisita de gravar fisionomias talvez houvesse influído na escolha do perigoso ofício que o levara à cadeia. Era simpático: a vergonhosa profissão de nenhum modo nos afastava dele. Avivaram-se lembranças daquele domingo já velho. Tinham-me chamado, retirara-me da galeria sem saber o destino, sentara-me num banco, à espera dos acontecimentos. O rapaz se chegara, amável, e fizera uma observação risonha: Ontem o senhor estava inquieto. Aludira à minha calma aparente e aos cuidados excessivos com a valise: mexera nela mais de vinte vezes, não achava lugar para colocá-la. Surpreendera-me ver alguém reparar em tais minúcias e tirar conseqüências justas. A tatuagem meio desfeita era medonha. Esforçara-me em vão por desviar dela a vista, o homem delicado aventurara uma confidência assombrosa: acabava de cumprir sentença e temia ser solto. Para onde havia de ir? Acostumara-se ao serviço leve na rouparia. Dentro de dois anos mandá-lo-iam embora. E perguntava aflito: Para onde? Essas palavras tinham-me impressionado e não me cansava de repeti-Ias. Ao deixar a sala, fazia a mim mesmo a pergunta do rapaz do esqueleto:
Para onde?
Para onde me enviavam com aquela gente desconhecida? Pensei no gracejo de Walter Pompeu: Liberdade? Nunca mais. Quando houver uma greve de barbeiros, agarram você.A Colônia Correcional, uma desgraça. Mas se por acaso me lançassem na rua, seria desgraça também. Em que me iria ocupar? Sentia-me incapaz de trabalho, a vida se estragara. Camaradas antigos voltariam a cara, dobrariam esquinas ao ver-me, receosos de comprometer-se. Havia em mim pedaços mortos, ia-me, aos poucos, habituando à sepultura; difícil ressurgir, vagar na multidão, à toa, como alma penada.
Algum tempo ziguezagueando entre as árvores, viramos becos, subimos e descemos calçadas, mas não transpusemos os muros da prisão. Diante de um cárcere fumarento e sujo retardei o passo, vi mulheres de cócoras. Uma preta velha encarou-me, fingiu desapontar-se, exclamou com simpatia burlesca:
Meu filho, que foi que você fez?
O bom humor da negra, caricatura de afeição, desviou tristezas, sacudiu-me numa ruidosa gargalhada. Pouco adiante estacamos, abriu-se uma porta. Dormiríamos ali, disse um guarda, sairíamos no dia seguinte.
Para onde?
Respondeu que não sabia.
Fonte: Jornal da Poesia