VOTOS de boa viagem, manifestações de alegria, o Hino do Brasileiro Pobre seguiram capitão Mata, na Praça Vermelha. E, depois de curto abandono, a cama fronteira à minha, junto à porta, foi ocupada por Sebastião Hora. No cubículo à esquerda, além de Benjamin Snaider e Valdemar Bessa, vivia agora Pedro Luís Teixeira, um repórter magro que raro nos falava, não nos cedia lugar ao atravessarmos o passadiço estreito. Míope em excesso, piscava os olhos, encarquilhava as pálpebras e não nos distinguia a três passos. A direita os nossos vizinhos eram Macedo, Lauro Lago, um terceiro, provavelmente do Rio Grande também, pois aquela gente vivia sempre junta. Perdidas as cordas na rouparia, Macedo arranjara outras, muito longas, e conseguiria armar a rede em varões das grades. Ficava sentado nela horas extensas, calmo, risonho, fumando cachimbo. De pé, gordinho, barrigudinho, amável e resoluto, parecia-me deslocado.
Alguns passageiros do Manaus iam ressurgindo. A careta medonha de Gastão, fixa na carne em rugas, na costura vermelha a estender-se da boca ao pescoço, voltou a zombar in voluntariamente de nós. O pequeno dentista Guerra alojou-se no segundo andar, perto da escada. Mário Paiva chegou silencioso, triste, com ar doentio; nunca mais tornamos a ouvir a flauta de seu Lobato. Revi Carlindo Revoredo, imóvel como no porão, o estudantezinho João Rocha, Van der Linden. Remiro Magalhães, estabanado, sempre em correrias e gritos, achou ali companheiros, dois garotos presos quando pintavam muros. Essas crianças nem tinham nomes: para nós eram simplesmente os pichadores. Sebastião Félix encontrou sectários e decidiu realizar à noite sessões de espiritismo, bastante animadas. Esquecia os viventes, estimava a companhia dos mortos. Em semelhante convivência, não sei como se interessou pela rebelião de Natal. É possível que não tivesse entrado nela. Capitão Mata e Manuel Leal estavam alheios à bagunça de 35. E o beato José Inácio desejava uma revolução que fuzilasse todos os ateus.
Leonila e Maria Joana foram recolhidas à sala 4. Do terraço, no banho de sol, vi-as lá embaixo, num pátio, em companhia das outras mulheres. Eram dez ou doze, formavam círculo e faziam exercício atirando uma à outra, a desenferrujar os braços, uma bola de borracha. Todas as manhãs passavam ali uma hora. Na ida e na volta, demoravam-se às vezes no patamar, afastavam a lona que disfarçava a Praça Vermelha, detinham-se alguns minutos a conversar com os homens. Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir várias delas: os lábios vermelhos de Valentina, os cabelos grisalhos de Elisa Berger, os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles, forte e enérgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria Werneck, no corpo magro, onduloso, adivinhava-se de longe intensa vibração. A figura de Nise entrara-me fundo no espírito. Apesar de havermos ficado momentos difíceis um diante do outro, confusos, aturdidos, em vão buscando uma palavra, aquela fisionomia doce e triste, a revelar inteligência e bondade, impressionava-me. Não me arriscaria a dirigir-me a ela. Se isto acontecesse, emudeceríamos outra vez, permaneceríamos no constrangimento horrível, a catar idéias incompletas e espalhadas. Contentava-me perceber-lhe à distância a palidez, o sossego fatigado, a viveza dos enormes bugalhos. Numa dessas passagens matinais deu-se coisa burlesca. Diversas pessoas no Pavilhão, sem querer, entregavam-se ao nudismo. Saíam do banheiro, iam secar preguiçando nos cubículos, andando na Praça Vermelha, e esqueciam-se de vestir-se. Estava assim Newton Freitas, oferecendo a um magote ocioso conversa loquaz e gargalhadas imensas, quando se entreabriu a cortina de lona e a figura de Eneida apareceu. Com impudência tranqüila, o homem deu um passo e cumprimentou.
-. Você está decente para falar com senhoras, murmurei tocando-lhe no ombro.
Puxa! Com os diabos!
Recuou, quis envolver-se na toalhinha de rosto, mudá-la em tanga, acocorou-se rapidamente por detrás dos companheiros, morta a alegria num instante, encabulado em excesso.
Depois desse dia os habitantes do Pavilhão foram cautelosos, e Eneida
nos trouxe uma exigência: deveríamos pelo menos usar cuecas.
Dispensavam-se os pijamas, nem todos os possuíam. Rodolfo Ghioldi,
por exemplo, estava desprevenido: ainda não lhe chegara a roupa tomada
na polícia, e de manhã, no degrau da escada, fazia a conferência
quase em pêlo, tirando efeitos do lenço, como um pelotiqueiro,
do relógio de pulso, do cartão pequeno onde arrumara o esquema
da palestra. Mais ou menos cobertos havia dois homens: Valdemar Birinyi e
um sujeito cabeludo, baixinho, que me apareceu na fila da comida, lendo um
romance inglês. Despojara-se do paletó, mas a calça de
casimira bem vincada, sapatos, meias, camisa fina, colarinho, gravata, suspensório
discordavam muito dos nossos hábitos. Cumprimentei-o, busquei puxar
conversa. Evidentemente os meus tamancos e o pijama sovado lhe inspiravam
desconfiança. Em poucas palavras, confessou-me que se chamava Anastácio
Pessoa, era recém-chegado e estava ali por equívoco. Talvez
julgasse comprometer-se falando comigo: encerrou o assunto e mergulhou na
leitura do seu inglês. Mais tarde informei-me. Era alto funcionário
de um Banco. Chamado à polícia, tomara o automóvel, fora
prestar declarações, meio intrigado. Que diabo queriam com ele?
Ao chegar, recomendara ao chauffeur que esperasse. As horas se tinham passado,
os dias e nenhuma pergunta. Quando supunha esclarecer o negócio e voltar
à sua carteira, transferência para a Casa de Detenção.
Anastácio Pessoa, atordoado, ainda esperava desfazer o engano, ouvir
explicações e gentilezas. A qualquer momento o chamariam. Por
isso estava ali metido na calça azul, de meias e gravata, os olhos
na página, a afrontar a nudez escura de Newton Freitas. Não
se resignava a largar a roupa e acomodar-se. Muito diferente era Isnar Teixeira,
médico cearense, franzino e miúdo, que apareceu descalço,
com bagagem reduzida: um pijama e uma escova de dentes. Vinha com ele Otávio
Malta, jornalista pernambucano, risonho e pequeno, a quem deram logo a alcunha
de Cabeça-de-Porco. Imitaram-lhe a pronúncia nordestina e inventaram
sobre ele uma anedota absurda. Na Ordem Política e Social o delegado
lhe dissera:
Pode entrar, seu Matoso. E Malta respondera:
Perdão, doutô. Esse é o meu nome ilegá. O verdadeiro
é Otávio Marta.
A pilhéria, repetida, nunca enfadou o rapaz. Divertia-se com ela,
depois se fechava, escrevia artigos que à noite eram divulgados na
Rádio Libertadora. Outros indivíduos iam surgindo. Um me impressionou,
alto, magro, ligeiramente curvo, grave demais, severidade imensa a estampar-se
no rosto. Vi-o de longe, à noite, no extremo do passadiço fronteiro,
ao pé da cortina. Ofereceram-lhe uma salva de palmas; agradeceu com
um gesto, apresentou-se:
Lourenço Moreira Lima.
Devia ser o coronel que, anos atrás, governara o Ceará, julguei.
No dia seguinte, ao cumprimentá-lo, dei-lhe a patente. Recusou-a:
O senhor está me confundindo com meu irmão Filipe. Eu sou Lourenço.
Também militar? Não, advogado.
Nascera decerto para usar farda. Rijo, anguloso, afirmativo, grande energia exposta na cara onde se cavavam rugas duras, infundia respeito. Recebeu por isso a alcunha de Bacharel Feroz. Injustiça: conheci-lhe depois o coração de ouro. Foi um dos sujeitos mais dignos que já vi. Com duas hérnias contidas numa funda complicada, viajara longas distâncias pelo interior, a pé, a cavalo, subira e descera rios, como secretário da Coluna Prestes.
A chegada mais rumorosa foi a de Apporelly. Estávamos recolhidos,
e a Rádio Libertadora, em meio do programa, comunicou o sucesso
Fala o Barão, exigiram de vários cubículos.
Sem demora, uma voz pastosa, hesitante, anunciou a teoria das duas hipóteses.
Risos contagiosos interromperam com freqüência a exposição.
Consegui entendê-la por alto. Otimis ta panglossiano. Apporelly sustentava
que tudo ia muito bem. Fundava-se a demonstração no exame de
um fato de que surgiam duas alternativas; excluía-se uma, desdobrava-se
a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por
diante, numa cadeia comprida. Ali onde vivíamos, Apporelly afirmava,
utilizando o seu método, que não havia motivo para receio. Que
nos poderia acontecer? Seríamos postos em liberdade ou continuaríamos
presos. Se nos soltassem, bem: era o que desejávamos. Se ficássemos
na prisão, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se não
nos processassem, bem: à falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam
embora. Se, nos processassem, seríamos julgados, absolvidos ou condenados.
Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esperávamos. Se nos condenassem,
dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve,
muito bem: descansaríamos algum tempo sustentados pelo governo, depois
iríamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, seríamos anistiados,
ou não seríamos. Se fôssemos anistiados, excelente: era
como se não houvesse condenação. Se não nos anistiassem,
cumpriríamos a sentença ou morreríamos. Se cumpríssemos
a sentença, magnífico: voltaríamos para casa. Se morrêssemos,
iríamos para o céu ou para o inferno. Se fôssemos para
o céu, ótimo: era a suprema aspiração de cada
um. E se fôssemos para o inferno? A cadeia findava aí. Realmente
ignorávamos o que nos sucederia se fôssemos para o inferno. Mas
ainda assim não convinha alarmar-nos, pois essa desgraça poderia
chegar a qualquer pessoa, na Casa de Detenção ou fora dela.
De manhã, ao lavar-me, notei, que alguém se esgoelava no chuveiro
próximo, recitando Os Lusíadas:
As armas e os barões assinalados...
A água jorrava com forte rumor, alagava o chão; diversas torneiras abertas, resfôlegos, gente a esfregar-se, magotes conversando à porta, aguardando vaga. O vozeirão dominava o barulho: E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A fé, o império, a uretra...
Dei uma gargalhada, ouvi este comentário:
Hoje não se dilata império nem fé. Essas dilatações
vão desaparecendo. Agora o que se dilata é a uretra.
Saí. E enquanto me enxugava, conheci Apporelly, nu, um sujeito baixo, de longa barba grisalha, o nariz arrebitado, que uma autocaricatura vulgarizou. Vestimo-nos, subimos para o banho de sol. Algumas dezenas de homens faziam ginástica. Fomos sentar-nos longe do exercício, prudentes e capengas, ele hemiplégico, eu com a perna entorpecida, mal me equilibrando, pontadas constantes no lugar da operação. A viagem a bordo me arrasara. Talvez essa coincidência no desarranjo físico nos tenha aproximado. Familiarizamo-nos depressa. Confiou-me Apporelly o plano de um trabalho concebido ultimamente, ia dedicar a ele os ócios da prisão. Tencionava compor a biografia do Barão de Itararé.
Volume grosso, um calhau no formato dos de Emil Ludwig. No frontispício, a divisa, o escudo, as armas do ilustre fidalgo: uma garrafa, um copo, um talher cruzado, um frango em decúbito dorsal. É a história completa do homem, a ampliação dos ridículos que publiquei na Manha. Veremos os princípios do barão, a vida política, os negócios, a maneira como adquiriu o título. Agraciou-se naturalmente e fez esta confidência aos amigos: Se eu fosse esperar que me reconhecessem o mérito, não arranjava nada. Concedi a mim mesmo carta de nobreza.
Boa idéia, concordei. Vai arranjar uma crítica social oportuna.
Claro, anuiu o motejador feroz. Você conhece Itararé jornalista. Depois que ele se tornou popular, esmoreceram aqui na imprensa as manifestações de sabujice ao nosso querido diretor. Um dia Itararé descobriu uma volumosa ladroeira oficial e denunciou os responsáveis numa longa campanha moralizadora. Aos íntimos explicou-se: Patifes! Canalhas! Para uma transação como essa não me convidam. Enfim quinhentas páginas grandes. Acho que terei o volume pronto num ano, com certeza não nos largarão antes.
Correram semanas. Repetidamente ouvi Apporelly desenvolver o seu projeto, modificá-lo, narrando minúcias. Não se resolvia, porém, a iniciar a obra, coordenar as ironias abundantes que fervilhavam no interior. Absorvia-se na improvisação, exibia fragmentos já lançados no hebdomadário. Impossível dedicar-se a tarefa longa, julguei. Depois imaginei-o vítima de incapacidade transitória. Na extensa inércia, o pensamento esmorecia, os desígnios murchavam. Raros ali conservavam a lucidez e a firmeza de Sérgio, de Rodolfo Ghioldi. Trabalhos descontínuos, aulas vagas falhando, recomeçando sem programa, tudo me fazia supor que desejávamos atordoar-nos. Tentei aprender russo com Benjamin Snaider: peguei o alfabeto e meia dúzia de palavras.
Exigiram de mim uma conferência a respeito do nordeste. Alarmei-me:
Estão doidos?
Tinha graça aventurar-me a falar na presença de Rodolfo. Com certeza viram inépcia ou má vontade na recusa. As folhas e os lápis dormiam na valise. O abscesso da mão secou e cicatrizou, a unha caiu, veio outra: findava o pretexto com que me iludia para ficar inativo. Decidia-me a custo. Necessário retomar o papel e escrever algumas linhas.
VALDEMAR BIRINYI introduziu o jogo de xadrez no Pavilhão dos Primários. Vivia num isolamento profundo, necessitava comunicar-se. Por desgraça menoscabara os hinos e largara a frase inconveniente à chegada: Querem fazer revolução com essas bestas? Em conseqüência o antigo oficial de Bela Kun fora posto de banda. Tentava conversar e ninguém o compreendia direito. Quis dizer-me qualquer coisa um dia. Ouvindo algumas palavras italianas, fixei a atenção, mas a pronúncia horrível, idiomas diversos a misturar-se, em balbúrdia, atrapalhavam desesperadamente o discurso. Mais tarde perguntei ao russo:
Que diabo de língua fala Birinyi, ó Sérgio? O italiano dele é medonho.
E o alemão também, respondeu o matemático. Não entendo o que ele diz.
Na falta de intérprete, Valdemar Birinyi necessitou recorrer a um português miserável. Com ele, expressões da sua algaravia internacional e gestos significativos, chegou a manifestar-se. Nessa linguagem, referiu-me que na polícia lhe haviam tomado oito malas, vinte e cinco mil francos suíços e, perda irremediável, uma preciosa coleção de selos, a terceira do mundo. Fora anos atrás à Inglaterra exibir essa maravilha ao rei, também filatelista. Narrou-me a viagem com segurança, a visita, bastante vaidoso. Certo dia traçou numa folha de almaço um tabuleiro de xadrez, fabricou peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas com miolo de pão, coloriu de azul as peças e as casas pretas. Desde então aquele divertimento nos encheu as horas, venceu as lições, as cantigas da Rádio Libertadora. Ao cabo de algum tempo houve um desastre. Entrando no cubículo de Birinyi, fomos encontrá-lo a mexer-se, agitado:
Bicho
Levou a mão à boca muito aberta: Bicho.
Mostrou-nos as peças roídas, várias inutilizadas, arreganhou
de novo os queixos, moveu os beiços. Percebemos a intenção
dele:
Comeu?
É, comeu. Bicho comeu xadrez. Que bicho, Birinyi?
O homenzarrão ficou um instante indeciso, revolvendo a memória. Nada achando, estirou-se no chão de barriga para baixo, sacudiu à toa os braços e as pernas, enfim descreveu como pôde os movimentos de uma barata. Concluímos facilmente que as baratas haviam estragado as figuras. Esse contratempo não causou prejuízo sério. Valdemar Birinyi utilizou segunda vez o miolo de pão e o tinteiro. E na manhã seguinte, ao descer do banho de sol, vi junto à escada um rapaz moreno, barrigudo, com feitio de pote, demolindo a canivete um cabo de vassoura. Concentrado e paciente escavacava a madeira rija. Admirei-lhe a pachorra, informei-me: Que é que o senhor está esculpindo?
Uma torre, explicou o moço em voz gemida, suspendendo o trabalho e fitando-me os olhos mansos.
Quê? Tenciona arrancar daí as peças todas?
Claro. Já dividi o cabo da vassoura em trinta e duas partes. Olhe os riscos.
Esse pau é duro como o diabo. Será difícil arranjar os cavalos.
Não há pressa, volveu o sujeito. Vou fazê-los inteiriços. É mais fácil, sem tarugo.
Foi assim que travei conhecimento com Vanderlino Nunes, homem útil, de numerosas habilidades, inalterável nas situações mais infelizes. O trabalho dele recebeu elogios, andou em diversos lugares e chegou, suponho, à República Argentina, mas naquele momento quase passou despercebido. Havia por semana uma hora de visitas. As giletes saíam das malas, o barbeiro estabelecido numa saleta, além da grade, tinha serviço, desenrolavam-se as roupas envoltas em jornais, as pessoas surgiam de rosto liso, penteadas, cobertas de pano, em decência escandalosa, transpunham a larga porta, sumiam-se no pátio, como se reconquistassem a liberdade. Pouco depois voltavam, despojavam-se do luxo rápido, entravam na condição anterior. Os faxinas iam e vinham, conduzindo embrulhos; sobre as camas expunham-se objetos numerosos, com predominância de peras e maçãs. Entre essas coisas veio o primeiro tabuleiro de xadrez, aparecido no cubículo de Benjamin Snaider. Em seguida vieram muitos, grandes, pequenos, de papelão, de tábua, afinal uma assustadora mesa rica, o tampo de quadrados vermelhos e negros, duas gavetas onde se arrumavam peças enormes.
Depressa nos acamaradamos no jogo, esmoreceram bastante algumas divergências políticas. Entre um roque e um xeque fiz amizade com Rodolfo Ghioldi. Longamente lhe escutei a exposição clara, sem tentar aproximar-me dele. Mandaram-lhe a roupa tomada na polícia. No degrau de ferro, agora metido num pijama, discorria sobre a América do Sul, explicava os motivos da rebelião de 1935: muitos indivíduos que tinham figurado nela precisavam esclarecimentos. Os guardas passavam, detinham-se. E a voz calma não se alterava, as idéias afluíam rápidas, o contexto me dava a impressão viva de prosa armada laboriosamente, no papel. Outras pessoas se manifestavam: Medina, Pascoal Leme, Valério Konder, médico alto, louro, de olhos enérgicos, Benigno Fernandes, advogado tuberculoso. Lauro Lago narrou o barulho de Natal, Sebastião Hora mostrou pedaços de Alagoas. Quem mais se arriscava, porém, era Rodolfo. Secretário do Partido Comunista Argentino, homem de responsabilidade, certamente o vigiavam de perto. Receávamos que o mandassem para lugar pior: Prestes e Berger estavam no isolamento, e o segundo perdia a razão sob torturas multiplicadas. Rodolfo se dirigiu a mim pela primeira vez, meio descontente. Soubera que eu o considerava bom orador e aborrecia-se:
Não faço discursos. Apenas converso.
É o diabo. Certas palavras se acanalham imerecidamente, respondi. Gosto de dar a elas o sentido exato. Não julgo oradores os que declamam solecismos e lugares-comuns. Aqui no Brasil há uma birra como a sua: ninguém quer ser literato, não sei porquê. Eu me confesso literato, literato ordinário.
Findo o equívoco, tornamo-nos amigos jogando xadrez. Pexotes, movíamos as pedras desazadamente, alheios, palestrando.
Você acha que Birinyi foi realmente oficial de Bela Kun, Rodolfo?
Talvez. Quem sabe? Os oficiais de Bela Kun não deviam ser muito diferentes
daquilo.
Nas conferências Rodolfo continuava a exprimir-se em espanhol, mas intimamente, no cubículo, debulhava um português razoável. Pobre de Birinyi, criatura gigantesca. Uma vez chegou-se a mim, pediu-me o tabuleiro com que me entretinha. Um instante, Birinyi. Estou acabando a partida.
Eu queria logo. Bem.
Despedi-me do parceiro e contentei o húngaro. No dia seguinte, à
hora do almoço, procurou-me na fila, apreensivo: Senhor, está
zangado comigo?
Zangado? Não. Porquê?
Está sim. Por causa do xadrez.
Que idéia, Birinyi! Quem lhe falou nisso? Snaider.
É brincadeira dele.
O colosso ficou um momento indeciso, estendeu-me o braço peludo:
A mão.
Apertei-lhe os dedos, rindo.
Agora, exclamou desanuviado. Agora sim. Amigo. Tempo depois convidou-me a visitar-lhe o cárcere, mostrou malas abertas e fotografias das suas propriedades em Buenos Aires e em Londres. Abriu álbuns fornidos onde se pregava a famosa coleção de selos. Faltavam diversos, os maiores, os mais bonitos, mas isso não representava prejuízo sério. Ainda é a terceira coleção do mundo, murmurou com alívio.
A terceira, levada à Inglaterra preciosamente, para o rei ver
Senhor pensava que era mentira.
Que lembrança, Birinyi! Eu não disse tal coisa. Não disse, mas pensou. Verdade, senhor, verdade Apresentou-me, risonho, uma revista inglesa. Vi uma ilustração: ele e o príncipe de Gales contemplavam absortos um daqueles grossos volumes que enfeitavam a cama estreita, cheios de papelinhos coloridos. Lá estava a notícia: a chegada a Londres, a audiência custosa, o valor dos símbolos examinados com atenção pelos dois homens.
A terceira do mundo. Verdade, verdade. Naquele tempo ele não era rei.
Mas hoje é, respondeu Birinyi orgulhoso, tomando-me a revista.
7
OS PERCEVEJOS da Detenção eram na verdade uma praga, e em vão tentávamos saber onde se escondiam. No prédio novo, de muros lisos, chão encerado, parecia não haver ambiente para a medonha proliferação. Deviam alojar-se nos ferros das grades, nas juntas das camas, nas gretas dos guarda-ventos. Examinávamos pacientemente os lugares suspeitos, esmiuçávamos a roupa, as cobertas, os colchões, os travesseiros. Nenhum sinal dos miseráveis; durante o dia era possível esquecê-los, jogar xadrez, ler, escrever, ouvir discursos, lições, hinos, sambas. A noite deixavam-nos repousar alguns minutos: era como se calculassem o tempo, soubessem a hora de atormentar-nos. Quando íamos adormecendo, uma ferroada nos despertava, sentíamos carreirinhas na pele, cócegas. comichões. A trave de ferro já não me incomodava: habituara-me depressa a arrumar os ossos no colchão. Agora o tormento era aquele, picadas, o teimoso fervilhar. Virava-me, coçava-me, erguia-me afinal desesperado, sacudia os panos, em busca dos terríveis inimigos. Invisíveis, pertenciam com certeza ao organismo policiai, realizavam fiéis a tarefa de importunar-nos da melhor maneira.
Impossível conservar-me deitado. Recorria a um dos três volumes, remoídos inutilmente na viagem, sentava-me, procurava entender um capítulo. Sebastião Hora agitava-se, adormecia e despertava agoniado. Sérgio permanecia imóvel, a boca entreaberta exibindo os largos dentes escuros, as mãos cruzadas no peito magro, a respiração leve, quase imperceptível; indiferença espantosa, calma de morto. Difícil entregar-me ao livro. O pensamento fugia, partia-se, emaranhava-se em lembranças da sociedade nova que me impunham, confusa, heterogênea, sempre a alterar-se, a recompor-se. E a luz era escassa, a lâmpada muito alta iluminava fracamente a página. Sem dúvida a leitura me arruinaria a vista. Assim me conservava, bocejando, fumando, até não resistir ao sono. Acolhia-me na fadiga pesada, insensível às sangraduras, despertava coberto de salpicos vermelhos.
Os médicos do Pavilhão, atentos à higiene muito se preocuparam com o flagelo: Valdemar Bessa, Isnar Teixeira, Sebastião Hora, Campos da Paz novo e Campos da Paz velho, magro e taciturno, que se assinava Campos da Paz M. V. Essas iniciais significavam Manuel Venâncio, e ignoro porque o doutor as colocava no fim. A sabedoria deles, conjugada, nenhuma vantagem nos trouxe. E nesse ponto Valério Konder resolveu, com energia, mover guerra constante e ordenada aos infames insetos. Alcançou, por intermédio do Coletivo, as armas necessárias, forneceu os cubículos de creolina e grandes nacos de sabão. Contrabandearam-se jornais, guardaram-se invólucros. E todos nós, válidos e doentes, fomos convocados para o serviço. Um dia por semana, engolido o café, abertas as grades, iniciávamos a campanha: fazíamos tochas de papel, desocupávamos a reduzida mobília e ficávamos algum tempo a sapecá-la. A chama lambia o metal, a madeira, parava nas juntas, buscava as reentrâncias, asilos possíveis de bichos, ovos e larvas. A tinta azul dos guarda-ventos, o verniz branco das camas velhas, meio descascadas, apresentavam manchas negras; o solo se cobria de carvão, a cinza nos sujava os corpos nus, a fumaça nos sufocava. Depois examinávamos a roupa o direito, o avesso, os mais ocultos esconderijos de pregas e costuras; esvaziávamos caixas e malas; sobre os móveis chamuscados empilhavam-se livros, panos, travesseiros. colchões, minuciosamente revistos. De calção de banho, Valério Konder se encarniçava, feroz e ubíquo, subia e descia a escada, estava na Praça Vermelha e no passadiço, comandando a refrega. Nenhum repouso, os tamancos batiam com o surdo rumor de cascos de bois acossados. Varríamos os detritos. E principiava uma extensa barrela. Abríamos as torneiras, a água se derramava nas pias, transbordava, alagava o chão; utilizando os canecos, atirávamos nas paredes jatos enérgicos. Ensaboávamos tudo com rigor, as vassouras chiavam desesperadamente, agitando espuma escura. Os chuveiros não tinham férias: sem diminuir o trabalho, caíamos num banho ruidoso, violentas esfregações nos livravam do suor e da tisna. O declive do terreno impedia escoamento: ainda o líquido não chegava à porta e a poucos metros, ao fundo, tínhamos os pés mergulhados. Chapinhar confuso, dezenas de canos abertos, vasilhas frenéticas lançando jorros sem descontinuar. Os quartos se enchiam, principiávamos o combate à inundação. As torneiras se fechavam, moviam-se furiosamente as vassouras, a arrojar no exterior espadanas largas. Do passadiço uma cachoeira se derramava no rés-do-chão, espalhava-se, recebia afluentes, dirigia-se ao esgoto descoberto para receber o aguaceiro. Finda a lavagem demorada, esfregávamos com estopa o solo vermelho, jogávamos nele borrifos de creolina, que se alargavam na umidade, formavam nódoas leitosas. Em seguida obturávamos com sabão as gretas dos guarda-ventos, as bases dos pregos metidos nos muros, as articulações das grades e das camas; todos os buracos e ângulos suspeitos eram calafetados.
A arrumação dos troços concluía a dura labuta. E os corpos, afeitos à inércia, estiravam-se cansados, perdiam-se em leve modorra, logo interrompida. Ainda não estavam secos os tamancos deixados a aquecer numa faixa de sol, e uma lancetada rija nos despertava. A indignação nos enchia de raiva. Trabalho perdido. Como se defendiam aqueles miseráveis resistentes ao incêndio, ao dilúvio? Patifes. Zombavam dos nossos desgraçados esforços e vingavam-se. Iriam assanhar-se, não nos deixariam tranqüilos. Canseiras inúteis, aniquilados os desígnios mortíferos de Valério Konder.
8
ISOLADOS ou em pequenos grupos, novos indivíduos surgiam no Pavilhão dos Primários, havia ali um fervedouro de cortiço. Em geral demoravam pouco: sem razão aceitável, desapareciam, os novatos se embebiam na esperança de reconquistar a liberdade. Era como se se evaporassem, não recebíamos a mais leve notícia deles. De repente alguns tornavam e, antes de acomodar-se, retiravam-se de novo, na contradança infindável, incompreensível. Essa mobilidade nos causava receio constante Não nos permitiam conhecer-nos bem; relações imprecisas, camaradagens mal esboçadas, estavam sempre a desfazer-se. As figuras nos apareciam vagas, incompletas; só os caracteres mais fortes conseguiam definir-se. Comunicação difícil, quase impossível: operários e pequeno-burgueses falavam línguas diferentes. Não nos entendíamos, não nos podíamos entender. Além disso corriam boatos com insistência, desagradáveis, e isto nos minava o relativo sossego; cessaram os cochichos do capitão de nariz comprido e germinaram suspeitas numerosas.
Foi quando começaram a chegar os homens de Pedro I. Hercolino Cascardo apresentou-se, lacônico, piscando os olhos furiosamente, metido num roupão escuro. A voz metálica de Agildo Barata nos arrepiou Era um sujeito moreno, miúdo, insignificante, e parecia-me difícil que houvesse conseguido, preso, sublevar um regimento. A força dele se manifestava no olhar vivo e duro, na fala breve, sacudida, fria, cortante como lâmina. Tavares Bastos, nervoso, inquieto, com jeito de pássaro, veio encarregar-se da classe de francês. Ensinava gramática, e pensava em mulher. No banho de sol, desprezava a ginástica, debruçava ao parapeito, olhando o pátio onde as vizinhas mexiam a bola de borracha.
Quem me dera ter asas, suspirou num dos seus madrigais.
Desça pendurado nos cabelos do seu companheiro, respondeu Eneida mostrando a cabeleira enorme de Alcântara Tocci.
O professor de inglês, substituto de Sérgio, foi Lacerda, Lacerdão,
que vivera na Inglaterra e se orgulhava da sua pronúncia de Cambridge.
Vi-o pela primeira vez à noite, seguro aos ferros da grade, a soltar
gritos, excedendo-se na execução furiosa de uma cantiga. No
dia seguinte, num cubículo do rés-do-chão, novamente
lhe admirei os braços musculosos, os dentes de selvagem, a bocarra
medonha, o vigor com que martelava sílabas exóticas:
The tree grows.
Na larga barra escura da parede escrevia a giz as palavras. Baixava-se,
ia pouco a pouco subindo enquanto falava, tentando figurar o crescimento da
árvore; as mãos se agitavam simulando galhos; os sons, repetidos,
gravar-se-iam no espírito dos alunos. Lembrei-me de Valdemar Birinyi
deitado no chão de barriga para baixo, imitando barata. Vi de novo
Lacerda no exercício de uma rija lição vociferada a Adolfo
Barbosa. Abri os ouvidos, atento, e, percebendo-me o interesse, a verbosa
criatura dispôs-se logo a prodigalizar-me os seus conhecimentos. Agradeci
comovido e segurei a ocasião. Bem. O meu desejo era ler, apenas; a
língua pena e a orelha dura me impossibilitavam relação
verbal com estrangeiros. Desviando-se da letra, o meu juízo murchava;
inútil procurar saber como as árvores se desenvolviam, com os
sons perfeitos e os ruídos exatos de Cambridge. Lacerda pegou um livro,
indicou a página, pediu leitura e tradução. Mastiguei
numerosas barbaridades e ouvi no fim este comentário:
É. Parece que o senhor já viu uma gramática, um dicionário
inglês. Mas essa articulação, francamente, é horrorosa.
Ninguém adivinha o que o senhor lê, não sabemos se isso
é inglês ou tupi.
Algumas pessoas chegaram juntas, depois de uma aventura infeliz, entre elas Roberto Sisson, desenvolto, brilhante, amigo de polêmicas; Ivan Ribeiro, alegre, espadaúdo, loquaz; um mulato ríspido, estrábico, bilioso, o estivador Desidério. Haviam tentado fugir do Pedro I. Cúmplices no exterior, a luz vermelha de uma barca a indicar asilo. Submetendo o plano a exame rigoroso, eliminando com paciência os obstáculos, julgavam quase certo o êxito. E uma noite, nus, as roupas em rolo preso às costas a silenciosa operação: vultos esquivos rastejando na coberta inferior, salto na água, mergulho, o deslizar de sombras, lenta busca do auxílio prometido. Nem barco, nem sinal vermelho. Desperdício de tempo, cansaço. O ajuste era ninguém deter-se, cada um se agüentaria como pudesse. O embaraço imprevisto desarranjava a combinação. Idas e vindas na baía, longe da terra, procura desesperada, o crescente receio de perseguidores invisíveis, o frio intenso a paralisar membros, afinal um desastre em perspectiva: Sisson, justamente Sisson, oficial de marinha, não resistira às cãibras e ia morrendo afogado. Os outros, dispersos, tinham conseguido abrigar-se numa ilha. Desidério se atrasara, sustentando o companheiro desfalecido; esquecera o ajuste, regressara ao navio, deixara a carga pendurada a um cabo e dirigira-se ao continente. A liberdade precária se extinguira em poucas horas: agarrados na praia, achavam-se no Pavilhão, alguns rapazes do exército, o marinheiro inábil, péssimo padador, o mulato zarolho. Todos exibiam nos ombros riscos sangrentos, vestígio das cordas que tinham segurado as trouxas de roupa. Além dessas marcas, outras, numerosas, grassavam no corpo do estivador, causadas pelo chicote da polícia.
A presença dos novos hóspedes aumentou consideravelmente a
oratória da prisão. Sisson estendia-se em afirmações
enérgicas, às vezes sustentava paradoxos, detinha-se em minúcias
insignificantes, resistindo com unhas e dentes se alguém o contrariava.
A linguagem fluente, vigorosa, coloria-se de expressões cabeludas.
Ivan Ribeiro me causou forte surpresa. Iniciou o primeiro discurso com um
período de légua e meia, que me fez pensar:
Quero ver como o soldadinho se desembrulha. Durante o meu solilóquio
o rapaz se emaranhava, metia orações na lengalenga e cada vez
mais se complicava.
Coitado. Não sai do atoleiro.
Enganei-me. Chegou naturalmente ao fim: arrumou caprichoso o montão de frases e pôs o verbo indispensável no momento preciso. O resto da arenga foi dito com absoluta correção.
Muito bem. Temos aqui um militar esquisito. Admirei Ivan. E, enquanto não
lhe soube o nome, ele foi, para mim, apenas o tenente que sabia sintaxe. O
estivador exibiu sem disfarce ódio seguro aos burgueses, graúdos
e miúdos. Todos nós que usávamos gravata, fôssemos
embora uns pobres-diabos, éramos para ele inimigos. Houve eleição
no Coletivo, e lá nos introduziram, a ele e a mim. Na primeira reunião
levei cinco propostas. Lida a primeira, Desidério levantou o dedo e
manifestou-se:
Besteira. Como?
Estremeci, apertei as mãos com raiva. Anos atrás encolerizava-me facilmente, cegava, fazia imenso esforço para não me perceberem a zanga, a violência interior, movimentos dos punhos contraídos no desespero. Freqüentemente explodia a fúria bestial e desmandava-me em desatinos que me enchiam de vergonha. Sentia-me fraco, bicho inferior, invejava as pessoas calmas, não conseguia iludir-me com a manifestação parva de coragem falsa. Às vezes me dominava, recompunha-me, a tremura desaparecia, os dedos se estiravam. Sinais de unhas nas palmas suadas, as juntas a doer; a respiração era um sopro cansado. Naquele dia a ira velha, recalcada nos subterrâneos do espírito, veio à luz e sacudiu-me: desejei torcer o pescoço do insolente. Na surpresa, recusei o testemunho dos olhos e dos ouvidos. Ter-me-iam dito a palavra rude? Estaria a censurar-me o bugalho torto e imóvel, a desviar-se de mim, zombeteiro, superiormente fixo na parede, num ponto acima de minha cabeça? O rombo sujeito, carregador de sacos, não seria tão grosseiro com uma pessoa habituada a manejar livros. Devo ter pensado nas conveniências amáveis e tolas, nas perfídias gentis comuns na livraria e no jornal.
Como?
Besteira, confirmou Desidério. Para que serve isso? Para atrapalhar. Só para atrapalhar. O companheiro é um burocrata e está querendo meter dificuldades no trabalho.
Essa firmeza brutal esfriou-me a irritação, os escrúpulos vaidosos esmoreceram. Tentei defender-me, escorar-me em razões fracas, inutilizadas facilmente pelo estivador. Examinei as outras figuras do Coletivo: uma resistência muda indicou-me a vantagem de renunciar à discussão. O segundo projeto foi também fulminado. O terceiro agradou.
Esse é bom, disse o vesgo. E impediu-me expor motivos:
Conversa. A gente está vendo que isso é bom. Não vale
a pena estragar tempo. Vamos adiante.
As duas proposições finais obtiveram recusa unânime.. Essa deplorável estréia varreu-me certas nuvens importunas: sempre me excedera em afirmações categóricas, mais ou me nos vãs; achava agora uma base para elas. Evidentemente as pessoas não diferiam por se arrumarem numa ou noutra classe;. a posição é que lhes dava aparência de inferioridade ou superioridade. Evidentemente. Mas evidentemente porquê? A observação me dizia o contrário. Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos, era arrastado involuntariamente a supor uma diversidade essencial entre eles e os patrões. O fato material se opunha à idéia e isto me descontentava. Uma exceção rara, aqui, ali, quebrava a monotonia desgraçada: o enxadeiro largava o eito, arranjava empréstimo, economizava indecente, curtia fome, embrenhava-se em furtos legais, chegava a proprietário e adquiria o pensamento e os modos do explorador; a miserável trouxa humana, batida a facão e a vergalho de boi, resistente ao governo, à seca, ao vilipêndio, resolvia tomar vergonha, amarrar a cartucheira à cinta, sair roubando, incendiando, matando como besta-fera. Essas discrepâncias facilmente se diluíam no marasmo: era como se os dois ladrões, o aceito e o réprobo, houvessem trazido ao mundo a condição inelutável: pequenas saliências no povo imóvel, taciturno, resignado. Naquele instante a aspereza do estivador me confirmava o juízo. Lá fora sem dificuldade me reconheceria num degrau acima dele; sentado na cama estreita, rabiscando a lápis um pedaço de papel, cochichando normas, reduzia-me, despojava-me das vantagens acidentais e externas. De nada me serviam molambos de conhecimentos apanhados nos livros, talvez até isso me impossibilitasse reparar na coisa próxima, visível e palpável. A voz acre me ofendera os ouvidos, arrancara-me exclamações de espanto, abafadas nas preocupações do Coletivo: ninguém ali estava disposto a lisonjear-me. Aceitei o revés como quem bebe um remédio amargo. Afinal a minha opinião se confirmava.
O CAPITÃO de nariz comprido esteve conosco dois ou três dias. Nunca lhe ouvi uma palavra, mas vi-o falar em excesso a grupos pequenos, afirmativo, açodado, a examinar os arredores com jeito de conspirador. Sem revelar em público nenhuma opinião, estava sempre a sussurrar um cacarejo indistinto, passeava na assistência minguada os inexpressivos olhos de ave, erguia o bico longo, baixava-o, reproduzia movimentos sacudidos de galinha a colher grãos. Os cochichos permanentes aborreciam-me, os gestos ambíguos, o proceder furtivo, o conluio visível de meia dúzia de pessoas. Afinal o tipo se sumiu. Na verdade estivera a sumir-se constantemente, a esgueirar-se de um cubículo para outro. Findos esses manejos, bateu as asas na fuga definitiva, nem nos deu tempo de gravar-lhe o nome: para mim ficou sendo o capitão de nariz comprido
Não deixou rastro, mas a sombra dele permaneceu entre nós. Murmúrios, inquietação, olhadelas oblíquas, retalhos de frases sibilinas, inexplicável desconfiança a contaminar as almas. Foi Lauro Fontoura, um tenentezinho falador e estabanado, quem me deu a chave do enigma. Sem conhecer-me direito, prodigalizou-me um dia vasta parolagem confusa, misturando assuntos como se o tempo lhe escasseasse para ordená-los e quisesse esgotá-los depressa. Interrompeu-se no meio da arenga e inquiriu de chofre:
Você não tem receio de conversar comigo? Eu sou da polícia.
Que história é essa? indaguei frio.
Imaginava uma pilhéria à-toa e escapava-me o alcance dela; contudo não me achava de nenhum modo curioso. Se o rapaz se tivesse calado, esquecer-me-ia facilmente da revelação absurda. Não se calou e súbito compreendi que me ia enlear numa série de embrulhos dolorosos. Recebi um choque imprevisto, coisa semelhante a dura paulada no cocuruto, passo temerário e queda em vala profunda, jorro de luz na treva a encandear-me.
Sou um espião, tornou Lauro Fontoura. É o que esses moços espalham por aí. Não lhe disseram? Pois fique sabendo. Um sujeito andou cochichando nos cubículos e encheu as cabeças desses idiotas. Reparou no oficial da venta grande?
Fiz um gesto afirmativo e desviei-me do caso desagradável. Muito desagradável. Impossível adivinhar se Lauro Fontoura pertencia realmente à polícia ou se servia de ante paro a maquinações safadas. Mal-estar, sorrisos murchos endereçados a um tipo nervoso, estabanado.
Não entendo. Não sei aonde o senhor quer chegar. Esse capitão narigudo...
É claro, respondeu Lauro Fontoura. Você o conhece? Nem eu. Ninguém o conhece. Não entrou em nenhum barulho. Donde veio? Apareceu de repente, semeou brigas e escapuliu-se. Nem sabemos se o excluíram do exército. Excluir, tinha graça. Veio aqui desempenhar uma tarefa e será promovido.
O moço vociferou pouco mais ou menos isso, andando agitado, a transbordar indignação. Não achando terreno propício a desabafos, retirou-se de humor brusco, deixando-me enojado e perplexo, foi expandir além a sua zanga. Lembrei-me da viagem, das suspeitas que a bordo zumbiam sobre Van der Linden. Forjavam-se ali perigos inverossímeis, injustiças alargavam-se e a vítima afinal vivia num ambiente hostil, percebia navalhas nos espíritos, gelo nas fisionomias, isolava-se na multidão. Agora se acusava sem disfarce, um indivíduo sentia os ataques e vinha explicar-me a origem deles. Impossível conjeturar se a explicação era verdadeira ou falsa; de qualquer modo o homem se mostrava leviano fazendo comentários imprudentes a um desconhecido. Surpreendera-me, logo ao chegar, ver Sérgio, Adolfo Barbosa, alguns outros, fecharem-se: fugiam às discussões rumorosas e atrapalhadas que nos desgastavam a paciência, subiam raro ao banho de sol, desertavam a Praça Vermelha à hora dos discursos. Consideravam-nos trotskistas, ofensa máxima imputável a qualquer de nós. Sem se examinar idéia ou procedimento conferia-se o labéu a torto e a direito, apoiado em motivos frívolos ou sem nenhum apoio. Difamavam-se os caracteres arredios, infensos ao barulho, às cantigas, às aulas interrompidas, recomeçadas, ao jogo de xadrez; as índoles solitárias, propensas à leitura, à divagação, inspiravam desconfiança. As palavras tomavam sentidos novos; vagas, imprecisas, tinham enorme extensão; aplicadas sem discernimento, produziam equívocos.
Certa vez entretinha-me com Sérgio a falar sobre o casamento. Pensava
na minha vida, alinhava os pequenos desgostos infalíveis na monotonia
conjugal: atritos inesperados e reconciliações inúteis;
corpos deformando-se no resvalar para a velhice; o desleixo, ausência
de véus, todas as precauções abandonadas; dois egoísmos
a conjugar-se, a ferir-se. Entretanto não nos era possível suprimir
a monogamia. Onde achar remédio contra as mesquinharias pingadas na
rotina como gotas de azeite? Numa sucessão de estados monogâmicos,
talvez. Os norte-americanos estavam certos. Um basbaque nos ouvia atento,
no fim da conversa intrometeu-se nela:
Mas isso não é dialético.
Que diabo vem aqui fazer a dialética? resmungou Sérgio espantado.
Sei lá.
Outro dia uma das nossas cavaqueiras foi interrompida quando me embrenhava no internacionalismo.
Você é trotskista? inquiriu alguém.
Eu? Que lembrança! Afirmei que sou internacionalista. Por isso me embrulharam. Quem falou em trotskismo? Internacionalismo foi o que eu disse.
É a mesma coisa. Está bem.
Esses desacordos me deixavam perplexo. Imputavam-me convicções diferentes das minhas, e nem me restava meio de explicar-me na algaravia papagueada ali: quanto mais tentasse desembaraçar-me, dar às coisas nomes exatos, mas me complicaria. Quase todos se julgavam revolucionários, embora cantassem o Hino Nacional e alguns descambassem num patriotismo feroz. Ouvindo-os, lembrava-me de José Inácio, o beato desejava fuzilar ateus.
Onde estaria José Inácio? Esconder-se-ia, mais ou menos selvagem, num subterrâneo social, enquanto expúnhamos sabedorias convencionais, desinteressantes. Necessário ouvir a opinião de José Inácio: provavelmente ele tinha razões para querer suprimir-nos: em momentos de aperto ficávamos contra ele, materialistas de meia-tigela, camada flutuante, sem nenhuma consistência: as nossas idéias não lhe melhoravam a situação desgraçada. Sebastião Félix realizava sessões espíritas. Na verdade essa gente me parecia estranha: insatisfeita, desejava impossíveis reconstruções, mergulhando no sonho, restaurando velharias. Devia recolher-me, evitar choques inúteis. Ouvidas as excelentes conferências de Rodolfo, limitar-me-ia a parolar com duas ou três pessoas, encaracolar-me-ia depois. Não alcançava desvencilhar-me dos pequenos aborrecimentos. Embora usando pijamas e cuecas, vivíamos em público, éramos obrigados a familiarizar-nos com indivíduos muito diferentes de nós. O desleixo na indumentária de algum modo nos nivelava. Quinta-feira, à hora das visitas, uma apressada civilização, de sapato e meia, colarinho e gravata, usava modos urbanos, do pátio à secretaria. No regresso anulavam-se as distinções, a meia nudez suprimia as conveniências, amortecia o respeito e os homens se tratavam com sem-cerimônia pasmosa.
As vezes me dirigia a Rodolfo, a Sérgio; achava-me à vontade falando a eles, sentava-me numa cama de ferro, expunha dúvidas, permutava informações. De repente me via fiscaliza do: um bisbilhoteiro empurrara devagar a porta, escorregara manso para junto de nós e ali estava a espiar, a ouvir. Quando mal me precatava, uma objeção irrespondível, estranha ao assunto, alarmava-me. A princípio não conjeturei malícia: certamente aquilo significava apenas falta de educação e embaraço em compreender-nos. Agora me entrava na alma o espinho de uma suspeita. Os qüiproquós repetidos não eram talvez casuais: obstinavam-se em modificar-me as idéias mais claras. Porquê? O rompante de Lauro Fontoura abalou-me: julguei evidente haver inimigos entre nós.
Enquanto os dissídios giravam em tomo da interpretação de uma frase, era fácil enganar-me, não enxergar neles aleivosia, achar nos outros entendimento escasso. A denúncia grave, subitamente revelada, abriu-me os olhos, forçou-me a considerar atento o meio. Os modos arredios do capitão de nariz comprido, os intermináveis conciliábulos, na ausência dele os fuxicos a germinar, depois um ataque rijo e o destampatório do acusado jogavam alguma luz sobre fatos anteriores, inexplicáveis, reforçavam dúvidas, mostravam a conveniência de precaver-me. Pensei na lista de nomes exposta na galeria, em tinta azul, na instigação à greve da fome, inútil e perigosa, na figura aniquilada e sombria de Van der Linden, no porão do Manaus. Isso me vinha aos pedaços e não se entrosava bem. Mas quando Pais Barreto chegou, achei-me diante de uma realidade, caso concreto, insofismável. Era um rapaz alto, desempenado, falador, transbordante. Veio ocupar a célula fronteira à minha. Vi-o dias inteiros curvado sobre papéis, escrevendo. Escrevendo informações à polícia, cochicharam-me e não disseram em que se baseavam, nenhum fato mencionaram. As vezes nem se manifestavam claramente: jogavam a malícia de passagem, ofereciam-nos avisos sibilinos:
Cuidado, cuidado. Não se abra com certas pessoas. Um olhar de esguelha concluía o aviso, indicava o perigo. As insinuações venenosas produziam efeito: usávamos cautela, pouco a pouco nos desviávamos da criatura visada. As alusões a Pais Barreto não me fizeram mossa a princípio. Casos semelhantes tinham-me chegado aos ouvidos, era-me impossível examiná-los, só me restava guardar silêncio e suspender qualquer juízo. As pessoas acirradas no ataque procediam de boa-fé, pareceu-me: o contágio, excessiva credulidade e rebaixamento do nível mental as levavam a admitir sem exame qualquer observação. Receava deixar-me arrastar, afirmar leviandades, alucinar-me a ponto de confundir o barulho de um motor com descarga de metralhadora. Esse temor me roia constantemente, e o pior de tudo era não saber se já me havia contaminado, se iria também criar fantasmas, ver perigos inexistentes e revoltas absurdas, comportar-me ingênuo como criança. Possivelmente essa incerteza me aconselhou resistência às insinuações malévolas. Sentia-me enervado, propenso a aceitar qualquer boato. Preguiça de refletir. Em conseqüência, afirmei a mim mesmo o contrário do que me diziam: Pais Barreto não era traidor. Mas em nada me baseava para assim pensar. De fato não pensava, faltavam-me recursos indispensáveis a uma conclusão, desconhecia os antecedentes daqueles homens e era forçado a orientar-me pelas aparências Revoltavam-me as picuinhas, as frases incompletas e tendenciosas, o labéu jogado a ausentes indefesos. Pisávamos terreno movediço e cheio de emboscadas. E não conseguíamos discernir se as acusações tinham fundamento ou não, quais os divulgadores sinceramente convencidos e quais os provocadores de suspeita e balbúrdia. Em tal situação invade-nos um mal-estar desconhecido cá fora, vivemos à espera de ameaças indeterminadas e, reconhecendo ser impossível conjurá-las, não nos resignamos a capacitar-nos disto: buscamos isolar-nos na multidão, permanecemos de sobreaviso, reduzimos o vocabulário e estudamos as caras e os gestos. Por assim dizer adquirimos uma segunda natureza Essa contensão do espírito afinal se mecaniza: jogando xadrez, remoendo as conseqüências de um lance arriscado, estamos sem querer a observar os movimentos do parceiro. Com certeza ele notará isso e nos julgará indiscretos, fará conosco o jogo que fazemos com ele Todos se espionam, divulga-se o constrangimento o ar se envenena. A recordação de um nariz bicudo persegue-nos, a toda hora esperamos vê-lo ressurgir, farejando