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Memórias do Cárcere (Volume II)

Graciliano Ramos

Sentia-me fraco, em desânimo excessivo. O espelho da saleta mostrava-me às sextas-feiras uma cara gorda e mole. Arrastava-me lento, as pernas bambas. A perspectiva de liberdade assustava-me. Em que iria ocupar-me?

Era absurdo confessar o desejo de permanecer ali, ocioso, inútil, com receio de andar nas ruas, tentar viver, responsabilizar-me por qualquer serviço. Longo tempo me esforçara por justificar a preguiça: todos os caminhos estavam fechados para mim, nenhum jornal me aceitaria a colaboração, inimigos ocultos iam prejudicar-me. Escasseavam agora as evasivas covardes. A coragem de um editor, elogios fáceis na imprensa, vagas esperanças na minha literatura de carregação e afinal os bons propósitos de indivíduos estranhos revelavam-me solidariedade. As loucuras de José Lins não me surpreendiam: tínhamos sido companheiros na redação e no café.

Mas novas camaradagens acenavam-me de longe, tão inesperadas como os obséquios de malandros e vagabundos na Colônia Correcional. Não podia encerrar-me no pessimismo; indispensável regressar à humanidade, fiar-me nela; impossível satisfazer-me com partículas de humanidade, poeira. Muito embaixo, na lama e na chuva, o frio a partir-me os ossos, um sujeito anônimo e sem rosto amparara-me, desviara-me da treva e da morte. Revolucionários infiltravam-se na polícia e procediam dessa maneira, discretos e silenciosos. Outros indivíduos chamavam-me de cima. Outros indivíduos. Como seriam eles? Imaginei-os Cubanos civilizados e brancos, desgostosos por saber-me inerte, a bocejar. As informações minguavam. Sobral Pinto não se distinguia bem do soldado paciente que me arrastara quilômetros no aguaceiro. Essa comparação atenazava-me. Achava-me propenso a misturar homens discrepantes, inconciliáveis, superiores, inferiores.

Várias vezes afirmei que não assinaria o papel, mas a afirmação era mecânica. Enquanto expunha motivos para não assinar, deixava-me levar por motivos opostos, não expressos. Reli a procuração e, numa incongruência aparente, lancei o meu nome na linha indicada. Minha mulher ia sem dúvida considerar-me estulto. Nunca me explicava, e os atos divergiam com freqüência das palavras. Certamente era pusilanimidade resignar-me à prisão, engordar, enfraquecer, jogar crapaud. Uma idéia me afligiu naqueles instantes de indecisão: temi, recusando a oferta, ser grosseiro com os amáveis desconhecidos.

Respirei, mudei de assunto, livre de pensamentos contraditórios. Dias depois chamaram-me à secretaria. Aí se apresentou um cidadão magro, de meia altura, rosto enérgico, boca forte, olhos terrivelmente agudos. Sobral Pinto. Inquietou-me vê-lo perder tempo em visita a um preso vagabundo, refugo da Colônia Correcional: imaginara que apenas redigisse ou mandasse redigir uma petição de habeas-corpus. Estragava a manhã vindo falar-me. O advogado sentou-se, afastou essas lamúrias com um gesto seco, abriu a pasta e começou a interrogar-me. Era o primeiro interrogatório a que me submetiam. Ouvi perguntas e dei respostas embrulhadas; maquinalmente peguei uma folha de papel e um lápis; mas achava-me tão confuso que, referindo-me à Casa de Detenção, fiquei sem saber se devia escrever detenção com s ou ç. Risquei, tornei a riscar - a incerteza permaneceu. No cipoal de questões enrasquei-me: - Ora, doutor, para que tantas minúcias? Como é que o senhor vai preparar a defesa se não existe acusação? O advogado estranhou a minha impertinência. Em que país vivíamos? Era preciso não sermos crianças.

- Não há processo.

- Dê graças a Deus, replicou o homem sagaz espetando-me com o olhar duro de gavião. Porque é que o senhor está preso? - Sei lá! Nunca me disseram nada.

- São uns idiotas Dê graças a Deus. Se eu fosse chefe de polícia, o senhor estaria aqui regularmente, com processo. - Muito bem. Onde é que o senhor ia achar matéria para isso, doutor? - Nos seus romances, homem. Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo.

Não me ocorrera tal coisa. Os meus romances eram observações frágeis e honestas, valiam pouco. Absurdo julgar que histórias simples, produto de mãos débeis e inteligência débil, constituíssem arma. Não me sentia culpado. Que diabo! O estudo razoável dos meus sertanejos mudava-se em dinamite. O duro juízo do legista esfriou-me: - Está bem. Não tinha pensado nisso.

Realmente pensava no prejuízo que me forçavam a causar ao paradoxo vivo ali sentado em frente de mim. Não havia dinheiro nem para os selos. Porque tirar da cadeia um pobre como eu? Sobral Pinto me fez outras visitas. Palavra aqui, palavra ali - notei que ele era pobre também. E por isso queria libertar-me. As nossas idéias discrepavam. Coisa sem importância. Sobral Pinto, homem de caridade perfeita, queria tirar da cadeia um bicho inútil, na minha opinião, um filho de Deus, na opinião dele.

25

U MA NOITE de calor, suando no colchão duro, chateava-me a folhear um romance idiota. Alguém, na cama vizinha, interrompia-me afirmando com enorme certeza que aquilo era uma bíblia. Desenvolvia motivos, indicava passagens onde se arrumavam belezas imperceptíveis. Aborrecia-me: - Está bem. Isso mesmo.

Impossível descobrir alguma vantagem no livro espesso, bem construído, científico em demasia. As personagens, terrivelmente sábias, expunham temas difíceis, causavam-me dor de cabeça. Os insensatos elogios irritavam-me: - Isso mesmo. Sem dúvida.

Calor horrível. Morriam-me nos ouvidos sons abafados, as luzes das lâmpadas tremiam. Percevejos líquidos e ardentes fervilhavam-me por baixo do pijama; a respiração encurtava-se. As figuras em redor perdiam a consistência; o discurso pedante do otimista pouco a pouco se desalentou e afinal as idéias sumiram-se dele. Falta de ar. De repente as letras começaram a mexer-se, a dançar, as linhas torceram-se doidas, deixando largos espaços vagos no papel amarelo. Esfreguei as pálpebras. As janelas estavam longe, as lâmpadas subiam. Na mesinha redonda, ao centro, jogavam bridge. Distingui os parceiros pela conversa abalizada: - Dizem os tratadistas...

Cascardo, Barreto Leite e Hermes Lima estavam ali, mexendo cartas, discutindo, invisíveis; o quarto jogador apagava-se no silêncio.

- Xeque.

O tabuleiro de xadrez, a alguns passos, desaparecia em sombra compacta. Uma nuvem cortada por faixas vermelhas cobria os objetos. Cheguei a página aos olhos, afastei-a, buscando ansioso juntar os caracteres rebeldes. Vários deram-me a impressão de reunir-se, formando um contra-senso: dettera. Que diabo significava dettera? Parecia italiano, mas, por muito que me esforçasse, não me lembrava de ter visto semelhante palavra. Demais o livro ali aberto era escrito em português. Que vinham fazer nele as estranhas sílabas? Procurei-as, e não houve meio de achá-las. Certamente não existiam, embora um minuto antes se houvessem mostrado claras, os dois tt negros e fixos. Ilusão, mas ilusão bem esquisita, com aparência de verdade. O negror e a fixidez tinham-se esvaído, agora as manchas cresciam na folha, os traços vermelhos angustiavam-me espalhando os sinais caprichosos.

Soltei a brochura, ergui-me, um peso enorme no coração: julgava-me inútil, condenado para o resto da vida a guiar-me pelos outros. Esqueci o otimista facundo, avancei alguns metros no soalho, orientando-me por indecisas claridades, atingi a mesa do crapaud, sentei-me num banco, tentei enganar-me fingindo seguir os lances de uma partida. Uma voz engrolada, cheia de rr, convidou-me para o jogo, senti os baralhos debaixo dos dedos.

- Obrigado. Não posso.

Levantei-me, peguei um braço, desviei-me tateando na penumbra e na aflição: - Venha cá, Gikovate. Parece que estou cego, não consigo ler. Que diabo será isto? Não era nada, respondeu calmo o rapaz tentando sossegar-me. A evasiva, a maneira rápida e fácil de eliminar um fato negando-o, agravou-me a inquietação. Como não era nada? Pouco antes achava-me tranqüilo, a bocejar diante de um livro. Súbito as linhas se haviam deslocado, e em largos espaços desertos mexiam-se letras vagabundas. Algumas se juntavam, formando uma palavra sem pé nem cabeça, e manchas rubras corriam na página. Tinha-me sem dúvida aparecido qualquer desgraça. Não seria bom consultar outros médicos? Fazendo a pergunta, convencia-me da inutilidade evidente dela. Com certeza alguns dos vultos indecisos, atentos no xadrez e nos jornais, podiam examinar-me, traçar um diagnóstico, mas não tinham recurso para suprimir a horrível névoa espessa.

O judeu excelente achou desnecessária a consulta: dentro de meia hora aquilo ia passar. Usou expressões técnicas, aconselhou-me repouso, e a voz calma, segura, incutiu-me esperança. Lembrei-me de haver experimentado coisa semelhante anos atrás. Ocupava-me em redigir um vago esboço literário, destinado ao fogo, naturalmente: quando as gavetas se abarrotassem, seria preciso, como de ordinário, esvaziá-las, destruir as composições medíocres. O exercício longo, paciente, fixara-se, convertera-se em hábito, e em vão queria livrar-me dele. Desde a infância entregava-me ao dever estéril.

Naquele dia o caso novo me alarmara: a folha esmorecera, fundira-se às tábuas da mesa, e nessa pasta nebulosa a minha ficção capenga se dispersara, coberta de nódoas vermelhas. Esforçara-me por dominá-la, escancarando os olhos, aproximando, afastando o papel. A escuridão se prolongara cerca de meia hora. O prognóstico de Gikovate avivava-me a cegueira provisória e reduzia-me o susto. Meia hora. Talvez o rapaz desejasse apenas enganar-me, estabelecesse o prazo à toa, mas a coincidência levava-me a confiar nele. Dentro de meia hora a neblina se adelgaçaria, novamente me seria possível agarrar pedaços de verdade nos telegramas divergentes da Espanha.

- Vou deitar-me. Venha comigo, não enxergo o caminho.

O companheiro guiou-me entre os móveis confusos. Estirei-me na cama, enrolei a cabeça no lençol.

- Obrigado. Faça o favor de apagar a lâmpada.

Só, busquei distrair-me apanhando migalhas de conversas no burburinho. A gargalhada rouca de Moésia cortava a narrativa de Moreira Lima, várias vezes repetida; Apporelly arrumava a paciência vagarosa, ouvia-se distintamente o chiar das cartas na mesinha; e Aristóteles Moura, solícito, cochichava-me oferecimentos indefinidos. Os receios desbotaram, fugiram lentos, chegou a inconsciência, resvalei no sono.

Levantei-me dia claro, respirei com alívio pensando na aflição da véspera, e a manhã luminosa a entrar pelas janelas banhou-me como um favor. Pestanejei: as manchas tinham-se esvaído sem deixar vestígio. Faixas de sol forte avançavam no soalho. Os homens iam e vinham, perfeitamente visíveis, entregues às insignificâncias da rotina. Longe, avultava a massa pedregosa da Favela, com a casaria indecisa espalhada em cinzentas ladeiras, transeuntes a subir, a descer, mulheres avizinhando-se da igreja fina e amável pregada no cume. Tinham vivido ali possivelmente, preguiçando em botequins sórdidos, bebendo cachaça, tocando violão, alguns dos vagabundos agora comprimidos na piolheira da Colônia Correcional. Pensei nessas esquisitas personagens, incapazes de trabalho, expostas a uma contínua perseguição, comparei-as aos doutores que folheavam jornais nas tábuas dos cavaletes. Hermes Lima embebia-se nos seus cadernos de alemão. Pompeu Accioly resolvia problemas de xadrez. De volta do café, Maurício Lacerda encostava-se a um parapeito à esquerda e atirava aos pardais miolo de pão. Esse hábito diário constituía quase um dever, e na execução dele ratazanas enormes emboscavam-se entre blocos de cantaria, aguardando ensejo de assaltar as aves. Os bichos repulsivos, gordos, vorazes, reduziam bastante os intuitos benévolos do homem. Necessário fugir, era a opinião de Sócrates Gonçalves, repetida muitas vezes. Marteladas, uma serra a chiar na pequena marcenaria da saleta.

Abri o volume abandonado com desespero à noite, reli a página duvidosa e opaca onde três sílabas se tinham agrupado, a zombar de mim. Nenhum sinal delas. Apenas uma w)rosa insulsa e pedante.

26

ENTRANDO no salão, vi na cama de Luís de Barros, fronteira à porta, um fardo trêmulo: agüentando o rijo calor de meio-dia, alguém se enrolava num cobertor de lã. - Que é isso, Luís? Suadouro? O moço descobriu o rosto pálido, murmurou débil: - Não. Medo.

Abafei numa gargalhada a confissão intempestiva, não porque se tratasse de coisa rara, mas pela simplicidade com que se expunha. Evitamos referir-nos a tais fraquezas, embora não haja motivo para nos envergonharem. Lembrei-me do abafamento, aparecido às vezes como epidemia: ficávamos inúteis, sem apetite, os músculos bambos, a vontade suspensa. Na Colônia Correcional apavorava-me diante de um selvagem bêbedo. E a operação dos ratos levara uma noite José Brasil a perceber metralhadoras na sombra, assestadas contra nós. No estado normal, talvez nos espantássemos se alguém nos viesse falar nesses desconchavos, mais ou menos apagados; não seríamos capazes de amofinar-nos assim. Continuava a rir-me examinando a figura empacotada. Os olhos escancaravam-se, os beiços contraíam-se, os dedos apertavam com força a orla do pano abaixo do queixo.

- Largue esse cobertor, homem. Você se derrete nesta quentura dos diabos.

O rapaz mexeu a cabeça, espalhou a vista pelos arredores com jeito cômico: - Não brinque. Estou morto de medo. Covardia.

Era como se estivesse a indicar ameaças em roda, mas isto se mudava em truanice. Não havia ali sinal da esquisita fraqueza que de longe em longe nos contaminava; os jogos, os trabalhos desenrolavam-se monótonos, as conversas zumbiam. Nenhum soldado bruto viria trazer-nos exigências alarmantes. E rumores indefinidos não alvoroçavam as criaturas sugestionáveis; no sossego das tocas os ratos dormiam; impossível imaginar canos de armas, inimigos ocultos, na claridade intensa que inundava o pátio.

- Recebeu alguma notícia desagradável? inquiri afugentando razões imediatas.

Devia ser isto: desgosto de família, embaraços econômicos, obstáculos imprevistos surgidos no processo, encrencas sutis, esmorecimento do advogado. No ócio obrigatório e no ramerrão, esses contratempos se exageravam, roubavam-nos o sono.

- Seus parentes lhe disseram alguma coisa? Não. Tudo em ordem. Mas estou com medo. Nem sei de quê.

As pálpebras caídas ergueram-se leves, um olhar rápido fuzilou, nos lábios frouxos correu momentâneo o sorrisinho malandro. Um instante depois lá estava no rosto bambo a máscara deplorável: rugas, o nariz longo, dois sulcos fundos a prolongar a boca. A tremura sacudia os músculos, e no pescoço os dedos crispavam-se agarrando o pano.

- Estou com frio.

Para o diabo. Ainda uma vez a criatura desassisada se entretinha a zombar de mim. Durante meses se apagara, anônima e sem cor, os modos lorpas, gaguejando ninharias. E afetara excessiva cautela sem nenhuma razão. Não iria comprometer-se deixando a assinatura numa folha de romance? Agora simulava covardia. Ao sentir-me novamente logrado, achava-me crédulo, simples objeto de brincadeiras nas mãos de um sujeito ordinário. Repetia a mim mesmo essa injúria, e zangava-me por afirmai uma injustiça. O homem possuía grande talento, mas era estúpido viver ã esbanjá-lo representando papéis ridículos. Notando a fraude, julgava-me denso e lerdo; com certeza outros indivíduos me enganavam também, e era-me impossível ajustar-me ao ambiente desgraçado. Tocaias. Pessoas a deslizar na sombra.

Afastei-me desgostoso, pensando que de fato procedíamos ali como se nos escondêssemos, em permanentes emboscadas. Veio-me ao espírito o juízo cínico de Walter Pompeu, desenvolvido meses atrás no cubículo 35 do Pavilhão dos Primários. Nordestino, bárbaro, acomodado à civilização, Walter admitia a negaça e a fraude, meios de suprimir um inimigo com pouco esforço. A lei dos cangaceiros. - "É assim que se faz na guerra. Qual é o objetivo? Matar. Bem. Matamos reduzindo as probabilidades de risco. O homem sensato não se afoita em campo descoberto: resguarda-se junto a uma árvore, o olho na pontaria, o dedo no gatilho, o rifle apoiado a uma forquilha, e espera momento favorável. Um tiro, e acabou-se. O duelo é uma estupidez. Bobagem morrer à toa. Cavalheirismo, fanfarronada, isto é literatura besta." Recordando a opinião crua, vassourada razoável em muitas coisas vistas na aula primária, guardadas sem exame, surpreendia-me a argüir o oficial e a dar-lhe razão.

Literatura besta. A frase reaparecia, insistente. Ensinavam-nos a exibir os nossos intuitos, a proceder com dignidade e honra - e com isto se resumia o trabalho da polícia. Evidentemente. Se cometêssemos um crime, o remorso nos obrigaria a confessá-lo. Mas na guerra não existia remorso, os deveres ordinários findavam - e Walter Pompeu queria meter nas relações civis a moral e os hábitos da guerra.

Havia saltos nas minhas idéias, lacunas e discrepâncias. Farrapos de idéias. Afinal estávamos em guerra. Num banco estreito, em carro de segunda classe, inteirara-me disso lendo um jornal, entre dois fuzis. O Congresso Nacional prorrogara o estado de guerra. O disparate me indignara, arrancara-me pragas interiores. Agora, sentado na cama, olhando o monte vizinho, aplicava-me em reconsiderar. Havia na verdade um conflito a generalizar-se, briga invisível, e, em conseqüência, era natural que, por qualquer suspeita, nos tirassem do mundo. A esquerda, mulheres a descer a ladeira vermelha e pegajosa, na manhã clara, um burro e uma cabra quase imóveis, casas de tábua e lata, a envergonhar-se, a encobrir-se nas ramagens, panos estendidos, crianças nuas. Paz. Em frente, a massa escura da Favela, a igrejinha alta e magra no topo, figuras vagas a achatar-se nos declives ásperos da pedra, tetos ariscos. Paz. E em redor, na sala extensa, o zumbido monótono das conversas, a leitura paciente de Maurício Lacerda, o riso de Jorge El-Jaick, o pigarro de Moreira Lima, chiar de serra e marteladas na pequena oficina de amadores. Paz. A guarita próxima, erguida no muro alto, parecia deserta; a sentinela devia cochilar pacificamente, esquecida a vigilância. Contudo, no sossego aparente vivíamos inquietos. Olhos atentos nos sondavam por detrás de óculos escuros, a gente se mexia entre ciladas, uma frase leviana figurava nos relatórios que indivíduos insuspeitos mandavam á polícia. O velho Marques me avisara: - "O senhor hoje pela manhã, ali na mesa dos jornais, cumprimentou com a mão fechada os rapazes do banho de sol. Um dos seus companheiros escreveu isso e eu fui portador da informação. Desconfie de toda a gente, de mim e dos outros, mas desconfie mais dos seus amigos." Isso nos envenenava. Afinal já nem sabíamos quem era amigo, quem era inimigo. Um sorriso nos envolvia, nos anestesiava, ocultando um punhal de assassino. Dias depois, feridos na sombra, seríamos postos num alojamento sujo de moribundos. Centenas de organismos a desconchavar-se lentos, envoltos em farrapos; pernas convulsas a estirar-se, finas como cambitos; bugalhos a rolar em desvario. Gemidos, roncos de agonia - um infeliz a acabar-se, a barriga aberta, jorros de sangue escuro e podridão cheia de bichos, sob o vôo das moscas. Poderíamos findar assim. E poderíamos resistir, livrar-nos, acomodar-nos outra vez, mais fracos e sem alma, junto ao altar, no quadrado firme de mosaico, lendo romances tolos, vendo a igreja fina e distante, animais e -crianças nuas em cima da ladeira vermelha e, perto, longe do mundo, homens atentos no jornal e no jogo. Alguns suportariam miséria e fome, dentro de meses voltariam, como Aristóteles Moura, o crânio pelado, mais pálidos e magros, mover-se-iam tranqüilos, em paz. Paz no vasto salão de tábuas vacilantes, no morro vermelho, nas casas escondidas entre ramagens, nas pedras da Favela, nas guaritas pequenas trepadas no muro largo. Outros ficariam na ilha fúnebre, desmanchar-se-iam anônimos em covas abertas nas escarpas duras e negras, debaixo das piteiras luminosas nos crepúsculos cor de sangue. Emboscadas. O ranger das portas anunciava estalos de gatilhos; nas dobras das roupas escassas havia navalhas e facas. José Brasil se alucinara uma noite, percebera armas na treva.

Luís de Barros não se afligia com esses perigos complicados, mas enxergava possivelmente outros perigos. Retraía-se, envolvia-se em dúvidas: todos nós éramos capazes de prejudicá-lo. Enrolava-se no cobertor pesado, a queixar-se de frio e medo. Cercavam-no delatores. Semanas depois as grades se descerraram para ele. Vestiu-se cuidadoso, arrumou a bagagem, despediu-se mastigando o sorriso parvo, que me atenazava. Naquele momento era dispensável a constante falsidade. Acompanharam-no ruidosos, com demonstrações vivas de alegria revolucionária. Luís de Barros andava de cabeça baixa, em silêncio. Parou à saída, virou-se, endireitou a visagem burlesca. Certamente ia fazer um discurso - Obrigado, murmurou. A comoção e a prudência embargam-me a voz.

27

HOUVE luta física na Sala da Capela, e isto me alarmou, pois nunca me viera a suposição de que desavenças miúdas tomassem vulto, chegassem ao pugilato. Quais eram afinal os motivos dos rijos dissídios? Palavras. As discórdias começavam por elas, embrulhavam-se na significação delas, aprofundavam-se, alargavam-se. Porquê? Exatamente porque faltava razão para se alargarem, aprofundarem. Se houvesse razão, os adversários conseguiriam provavelmente superá-la, julguei. Repeti a mim mesmo que a dificuldade estava em darem à mesma coisa nomes diversos, darem a várias coisas um nome só. Impossível entenderem-se.

Haviam pedido a Leônidas Resende um curso de economia política. Leônidas enfermara, vivia estirado na cama, friorento, apesar do calor. Nas horas das refeições, erguia-se mole, descia trôpego ao refeitório, em desânimo. Se lhe falávamos, respondia com um sorriso murcho e balofo. Professor, homem de saber e método, apagava-se; não lhe reconheceriam valor se não aparecesse na encadernação um volume fornido com o nome dele. Daí o convite. Amável e paciente, Leônidas resignara-se às lições. A noite, no rumor das conversas e da vitrola, fazia-me pena vê-lo recostar-se ao travesseiro, ampliar a voz fraca, desenvolvendo a matéria, como se ainda se achasse na cátedra. Desatento à força do trabalho, ao mercado, à super-valia, o auditório bocejava. E, ao cabo de alguns dias, os alunos pouco a pouco se dispersavam, iam estudar coisa menos chata, ensinando uns aos outros, com lápis e folhas de papel, em grupos animados, pelos cantos. Não haviam entendido bem o professor claro e minucioso; acabariam não se entendendo.

Apareciam-me de longe divergências em esboço, e éramos forçados a reconhecer que ninguém tinha culpa. Estávamos feitos daquele jeito, cada um de nós estava feito de certo modo - e em vão tentávamos explicar uns aos outros que a leitura de um artigo não nos transformava. Numerosos degraus. Homens ásperos, intolerantes; homens simples, cheios de ódio. Lembrava-me do beato José Inácio, baixo e grosso, um rosário de ave-marias brancas e padre-nossos azuis no peito cabeludo, a mão curta a mover-se com raiva: - "Quando fizermos a nossa revolução, ateus como o senhor serão fuzilados." Havia na Sala da Capela indivíduos assim, não tão rudes, mas férteis em absurdos e inconciliáveis. Tornaram-se comuns as falas estridentes, e como andávamos quase despidos, as almas enfim surgiram também meio nuas. Porque diabo me indispusera com algumas pessoas? Afligia-me não achar resposta, e talvez esses inimigos imprevistos fizessem debalde a mesma pergunta. Já na eleição do Coletivo aparecera no fim da sala, perto do altar, um princípio de bagunça, enquanto se apuravam as cédulas. Berros, palavrões, xingamentos, eleitores assanhados agarrando-se. E por esses votos insignificantes diversos militares me haviam torcido o focinho. Estupidez.

Agora as coisas pioravam. Certo dia dois sujeitos se engalfinharam. Um deles se desprendeu, foi à saleta, voltou armado com um formão, envolveu-se outra vez na desordem. Ao cabo de instantes desviou-se do grupo uma figura ensangüentada: na ação rápida os pacificadores não tinham conseguido meio de evitar o golpe. Gritos, barulho de tamancos, chaves a abrir maletas, passos na escada. O faxina trouxe uma bacia de água; Flávio Poppe, Gikovate e outros médicos estriparam rolos de algodão, e ocupavam-se na lavagem do ferimento quando o major chegou, acompanhado por guardas. Em silêncio, o velho estendeu o olhar severo em redor, ficou algum tempo a examinar a criatura esmorecida e cabisbaixa que se deixava manusear, um filete rubro a correr de uma brecha pequena aberta na fronte. Nenhuma censura, apenas a carranca desgostosa. Mas isso nos causava aborrecimento e confusão, agravados pelo ar escarninho dos funcionários. Um deles guinchava olhando a testa pálida, onde logo se estirou um pedaço de esparadrapo. Guinchos, expressão velhaca e estúpida. Uma cara obtusa, beiços grossos e escuros arregaçando-se. Animal. Devia ser o tipo de que Agildo, levado a braços ao tribunal, se desembaraçara com um pontapé. Zombava de nós. Que vergonha! O diretor afastou-se ríspido, sem se despedir, rosnou uma ordem, e sumiram-se pouco depois os utensílios da marcenaria. Dali em diante o chiar das serras e as marteladas não nos embalariam, a dissipar os desejos vagos e o tédio. Havia no alojamento um forte desânimo, e buscávamos reduzir a tristeza e o vexame fugindo a comentários.

Correram semanas. Os debates azedavam-se, entusiasmos ardentes esfriavam. Uma tarde nova desordem rebentou. Originou-se na saleta do café, cresceu rápida. Envolvendo muitas pessoas, tornou-se uma onda raivosa, transbordou. Sentado num banco, à mesa dos jornais, com um livro e um cigarro, vi, sapecando períodos, o fuzuê desenrolar-se, atravessar a porta, receber contingentes, espraiar-se. José Brasil se esgoelava, comandando, querendo estabelecer disciplina e método na bagunça. Para começar entalou o pescoço de um vizinho debaixo do braço, num truque japonês, redemoinhou com o adversário, feito um boneco, sufocado nessa gravata. Os bíceps contraíam-se, inchavam, molas duras, e a voz áspera exigia sossego lançando injúrias e palavrões.

Ergui-me, sentei-me um pouco distante, reabri o volume, o desconchavo alcançou-me, bateu-me nas pernas; levantei-me de novo, afastei-me alguns metros, esforcei-me por adivinhar a página. Desviando-me da leitura, percebi que grande número de militares aderia à briga. Aquilo para eles era esporte, jogo necessário à saúde. Baques, desaforos; o combate se generalizava, deslocava os móveis, alargara-se até o meio da sala. Não me achando em segurança, fui acomodar-me ao fundo, perto do altar. As camas restavam desfeitas; formavam-se partidos, a animar, a desanimar os lutadores; e pessoas cautelosas se resguardavam junto às janelas. A fúria coletiva decresceu, morreu, e os contendores desgrudaram-se. Restabeleceu-se a ordem, arrumaram-se as peças nos tabuleiros de xadrez, as cartas espalharam-se no crapaud e na paciência, os discos da vitrola buscaram desfazer-nos a má impressão.

- Você tem sangue de barata, homem, veio dizer-me José Brasil.

- Porquê? - Ora porquê! Num barulho como este, fica sentado, lendo, nem levanta a cabeça. Que diabo! Você não tem nervos.

- Pois sim! Vou lá meter-me em questão de soldados? Vocês se entendem. Arranham-se, trocam murros, quinze minutos depois estão amigos. E voltam-se contra os paisanos. Sou neutro. Arranjem-se.

O capitão arregalou o olho vivo, com espanto. Em seguida soltou uma gargalhada: - Ótimo. É isso mesmo. Foi a opinião mais sensata que já ouvi a nosso respeito.

EXPLICAÇÃO FINAL

RICARDO RAMOS

Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas "Memórias do Cárcere". E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: - Não há problema. É tarefa de uma semana.

A atenção era desviada, falávamos de coisas diversas, que na aparência o faziam esquecer os sofrimentos prolongados. Certa manhã, encontrou-nos mexendo em seus papéis, lendo crônicas antigas, publicadas em 1921, num jornal de Palmeira dos índios.

- Deixa isso! Resistimos, é claro. Continuamos a ler, ignorando a raiva mansa. Demorou-se calado, finalmente inquiriu-nos sobre o tema. Referia-se à semana santa no interior de Alagoas, apanhando os rituais, o jejum, flagrantes inesperados.

- Então lê alto.

Obedecemos. Ouviu atento, meio desajeitado, sorrindo às passagens que o agradavam. Finda a leitura, sugeriu uma segunda, outra, e assim ficamos algum tempo, lembrando aspectos da cidade sertaneja.

Não está muito ruim, hem? Não estava.

- Você publicaria isso agora? Evidente. Apenas não tinha uma justificativa.

- Mas depois... Vocês podem fazer o que entendam. Mudamos de conversa. Vieram as suas edições, artigos recentes que mereciam exame. Depois o livro da viagem, referências a Paris, à Geórgia. E finalmente chegamos às memórias na cadeia.

- Que é que pretende com o último capítulo? Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas.

- Eu conhecia o Rio de 1915...

E procurava orientar-se através de reminiscências, sem examinar as placas. A claridade forte, o movimento grande o atordoavam. Entrou num café, e ao levantar-se arrastou os pés, como se ainda usasse tamancos. Havia perguntas que se repetiam e esperava as respostas com impaciência, olhando a valise. A mulher traria dinheiro bastante para o táxi? Aonde iriam? Como poderia viver? - Um fim literário.

Sim. No começo do livro e também nos outros volumes já fizera considerações numerosas, seria inútil concluir dessa maneira. Talvez surgissem pontos acidentais, desdobrasse a matéria em dois capítulos. Mas nada que pretendesse valorizar, tivesse influência no conjunto. Somente as primeiras sensações da liberdade.

Antes que pedíssemos novo esclarecimento, menciona a revisão necessária. Vários anos a escrever e nesse período fatos que se modificaram, figuras apagadas vindo ao primeiro plano, outras a se afastarem, transformando-se. Possivelmente essa leitura mostraria soluções e caminhos diversos dos encontrados. Ainda questões de unidade, estrutura da obra. Entretanto, se não pudesse fazer a versão definitiva, ficariam as observações iniciais, talvez repetidas e não inteiramente justas, mas que em princípio o satisfaziam.

- E o título? Não importava. "Memórias do Cárcere" ou simplesmente "Cadeia". Inclinava-se por um, mais tarde iria preferir o outro. Não valia a pena forçar a escolha.

Estas as referências que ouvimos de Graciliano Ramos às suas memórias, agora publicadas. Julgou-se precisa uma explicação acerca do capítulo não escrito. Alinhamos as nossas recordações, em seguida as comparamos às de outras pessoas da família. E foi tudo o que pudemos trazer sobre o assunto.

Rio de Janeiro, 1953.

FIM DO VOL. II

Fonte: www.4shared.com

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