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Memórias do Cárcere (Volume II)

Graciliano Ramos

Novela. Resignei-me a escutar a novela; realmente com má vontade, lembrando-me do conto lido meses atrás no Pavilhão. Naquele tempo grassava na cadeia uma epidemia literária. Os militares abandonavam a tática e a estratégia, pendiam para a ficção; Agildo Barata e Álvaro de Sousa tinham feito romances, na verdade relatórios sobre a luta no 3.° Regimento. O de Agildo não era muito ruim, tinha pelo menos um capítulo razoável. A história de Amadeu Amaral Júnior deixou-me enervado e besta. Não estava mal escrita - nem bem escrita. Não havia nela um chavão - nem uma idéia. Pronomes no lugar direito, o pequeno vocabulário em ordem, nada mais. Uma dessas coisas que nos dão azia e contrações no diafragma. Que diabo queria Amadeu Amaral Júnior dizer com aquilo? Finda a leitura, fiquei em silêncio, de cabeça baixa, procurando um elogio em vão, estúpido. Nunca me comporto assim. No desagradável papel de juiz em casos de literatura incipiente, reduzo os defeitos e exagero as coisas boas que porventura existam. Arrisco alguns conselhos, depois me desdigo posso estar enganado Os principiantes não devem confiar nas minhas fracas luzes obtidas com vagar no interior e na solidão. Posso estar em erro. Enfim não sou franco. E é bom não sermos francos, suponho. Ignoramos as possibilidades da criatura que nos exibe um trabalho ordinário. Hoje é trôpega e amanhã dá um salto. Desenvolvemo-nos em saltos imprevisíveis. Aliás os autores novos querem apenas enganar-se quando nos exigem sinceridade: valorizam a aprovação infalível, não têm força para andar e buscam arrimar-se numa autoridade imaginária. Se fôssemos honestos, zangar-se-iam. Fizeram obra excelente e desejam que afirmemos isto. A novela de Amadeu Amaral Júnior deixou-me em horrível constrangimento Vazia e de vacuidade contagiosa. A minha frieza levou o rapaz à cólera. Já se havia comportado assim no Pavilhão, ao mostrar-me o conto Era um escritor, e as opiniões dos outros não tinham para ele nenhuma importância. Era um escritor. Causava-me desgosto a repetição burlesca e estridente; não me aparecia o mínimo desejo de oferecer ao moço uma generosa mentira. A vaidade inconcebível mantinha-me em reserva hostil. Uma dúvida me chegou: seria a composição que me desagradava ou o homem? A voz áspera me arranhava os ouvidos como lixa, era-me impossível ouvi-Ia sem irritar-me, e isto me prejudicava o julgamento. Considerava-me injusto. A novela não prestava, mas talvez não fosse tão má como eu supunha. Apesar disso, a impressão ruim permaneceu e afastou-me da criatura que se gabava. Um escritor. A pimponice ridícula me aborrecia. Perfeito exemplar da raça nórdica, superior. Olhos azuis, músculos rijos, pés enormes nos tamancos sujos, barulhentos. E era aquilo: nem me dava a oportunidade comum de largar, condescendente, alguns adjetivos malucos.

Fui refugiar-me no fim da sala, na firmeza do mosaico, perto do altar. O soalho instável fazia-me pensar no porão do Manaus. E as palavras de Amadeu Amaral Júnior agravavam-me as dores, feriam-me, entravam-me nos ossos como pregos. Os meus ossos decompunham-se; esta miserável impressão continuava a perseguir-me; ia mudar-me numa trouxa bamba, sem esqueleto. Agora já não era preciso mexer-me em pranchas movediças; pisando terreno firme, consolidava-me um pouco. Maurício Lacerda riscava sem descanso as páginas da brochura. Sentado à mesinha redonda, Apporelly arrumava cartas. Homem capaz, não se resolvia a parir o excelente livro que tinha na cabeça, desperdiçava as longas horas consultando o baralho. Ainda uma vez considerei-me injusto, desarrazoado. Como julgar boa a obra de Apporelly, ainda não escrita? Devia ser boa. Possibilidade, probabilidade. A de Amaral era horrível, não porque estivesse mal escrita, mas porque não tinha nada no interior. Havia-me sujeitado a ouvi-Ia sem atenção, predisposto a julgá-la ruim E inclinava-me a supor que a obra de Apporelly fosse magnífica, obra ainda vagamente planeada. Pensamentos anteriores, dois, três anos anteriores às tábuas carunchosas, davam-me a certeza de que ele faria, se quisesse, coisa séria. Surpreendi-me a comparar essa coisa séria, nebulosa, com outra realizada, a história chinfrim de Amadeu Amaral Júnior, ouvida com desgosto. Achava-me a comparar trabalhos inexistentes, alargava-me em opiniões sobre eles. Como estabelecer a comparação? E enraivecia-me ver Apporelly gastar precioso tempo no exame de cartões pintados e Amadeu consumir noites em cima dos cavaletes, enchendo papel com tolices, mordendo fatias de salame e aperreando Nemo Canabarro Lucas, embrenhado na matemática.

7

WALTER POMPEU cortou-me o almoço e o jantar. Sentava-se à minha direita, na primeira mesa. E, percebendo o horror que me inspira o homossexualismo, iniciou um jogo desonesto no refeitório. O horror se atenuava naquele meio; a relatividade moral se impunha, era absurdo pretender que indivíduos sujeitos anos e anos ao regime carcerário procedessem como pessoas livres. Necessário justificá-los. Mas isso ficava em explicação, e afastava-me dos corpos imundos com excessivo nojo. Esforçava-me por vencer a repugnância. Poderia dizer onde estava o normal, o anormal? Certo dia, barbeando-me na saleta, vi no espelho o mulato Pernambuco, faxina, em namoro com um rapazola penteado e lânguido. Pernambuco acendia os olhos, cofiava os bigodes, um sorriso largo a espalhar-se em toda a cara; o outro, encostado a uma janela, cruzava as mãos no peito, inclinava a cabeça, afetando maneiras pudicas e virginais. O safadinho percebeu que estava sendo observado e entrou a fazer sinais ao amigo, apontando-me. Nessa altura Moreira entrou, viu a manobra e desatinou: - Cachorro, sem-vergonha.

0 casal escapuliu-se, desceu a escada.

- Ora essa! intervim. Para que esses excessos? Não há motivo.

- É um sem-vergonha, insistiu o guarda. Tentei defender o rapaz.

- Não é ele só. Qual é a proporção dos pederastas aqui? - Nem sei. Uns noventa por cento, mais ou menos. - Então? Quase tudo.

- Mas esse é um porco. - Tudo é porcaria.

- Não senhor. A porcaria desse é pior que as outras. A severidade me surpreendeu. Moreira admitia o principal e recusava a minúcia. Afinal o procedimento daqueles indivíduos explicava-se pela necessidade, mas seria preciso imaginar que também os atos do garoto, julgados porcos sem nenhuma explicação, deviam constituir uma necessidade para ele. Comentei isso com vários companheiros, esforçando-me por desculpar os infelizes e sem poder ocultar uma profunda aversão. Gikovate admirava-se. Não estava provado que Pernambuco e os outros fossem infelizes. E o nojo violento era absurdo: eu dava a impressão de inocentá-los e condená-los. Distanciando-me deles, o normal seria conservar-me indiferente. Walter Pompeu tirou vantagem das minhas disposições contraditórias. Abancava a meu lado e, antes de iniciarmos a refeição, indicava o moço que nos servia: - Olhe a cara do Aleixo. Coitado, é um infeliz. Você tem razão.

Ficava um instante a comiserar-se, hipócrita. E, em seguida: - Você tem coragem de comer isso? Vou jurar que os talheres estão sujos de esperma.

Rosnando impropérios, desviava-me do. prato, nauseado: - Canalha. Filho de uma puta.

Walter ria como um doido. Consumia voraz a ração, depois se apoderava da minha. Tentei localizar-me noutra mesa, Walter ameaçou acompanhar-me. E a mudança não valia nada, explicou: todos os copeiros eram como Aleixo. Essa brincadeira se fazia uma, duas vezes por semana. Erguia-me zangado, voltava à sala; a zanga desaparecia logo: ao cabo de meia hora a pirraça de caserna me causava riso. Atraía-me na verdade aquele espírito alegre, de uma alegria ruidosa e inconveniente, amigo de provocações ingênuas e engraçadas. De ordinário só se aproximava de mim para dizer qualquer coisa desagradável. Expandia-se, azuretado e sonso - Aqui você está bem. Amigos, gente da sua classe, muitos literatos: Leônidas, Castro Rebelo, Hermes, Gikovate, Apporelly, está bem. Mas não demora. Com certeza vão mandá-lo de novo para a Colônia. Isto é uma suspensão. Vai ganhar força para morrer devagar. A comida é boa. Indignava-me: - Tenha vergonha. Como fala em comida, se me toma o prato e me deixa de estômago vazio? Preciso alimentar-me, Walter, estou arrasado.

Walter fingia condoer-se: - É o diabo. Afinal você engordou. Não come porque tem nojo do Aleixo. Mas está bem. As conversas do Castro, seu vizinho, são magníficas, aprendemos com elas. Sabe o que ele me disse? Aqui todos têm derrapagens sexuais. A sua. ..

- Qual é a minha, Walter, na opinião de Castro Rebelo? Sou homossexual? - Não. Ele acha que você é um depravado com mulheres. Admite excessos horríveis.

Atirava palavrões cabeludos: - Foi o que ele me disse - Espere, Walter, interrompi quando o oficial me falou assim pela primeira vez. Vou tirar isso a limpo.

E avizinhei-me de Castro Rebelo. Nas pausas das minhas dores, entretivera-me a falar com ele a respeito das anomalias existentes na cadeia. Os atos me pareciam anômalos por exercer-se entre indivíduos do mesmo sexo, mas se se realizassem entre pessoas de sexo diferente, não seriam anômalos. Castro concordara. E não buscamos razões para isso. Dias depois, num grupo, havíamos tocado o mesmo assunto. Eu sustentara a idéia, contra a opinião geral. Castro me apoiara: - "Sem dúvida. Num dos casos existe desvio de sentimento; no outro surge um sentimento novo." Não era o que eu pensava: esquecia-me dos sentimentos. Apenas o contato de homem me produzia enjôo. O hábito nacional de nos abraçarmos de leve é o simples aperto de mão me davam desgosto. Ao sentir nos dedos um ombro suado, retraía-me cheio de asco: precisava lavá-los. Contudo o suor da mulher me excitava e envolvia Recordava-me da nossa palestra, chegando-me a Castro Rebelo.

- Muito obrigado. O Walter me transmitiu agora a sua classificação. Disse onde o professor me colocou. Podia ser pior.

Castro Rebelo fechou a cara: - Isso é mentira de Walter. Não falei no seu nome. Walter é um potoqueiro.

E, noutro tom: - Aliás o senhor não nega. Afastei-me rindo.

- Vão mandá-lo para a Colônia, insistia Walter Pompeu. Esteja certo. Quando melhorar, embarca para a ilha Grande. Ou para Fernando de Noronha, num porão.

- Bobagem. Não tenho processo.

- Com processo, havia a esperança de ser absolvido. Como está, não há jeito: vai para a ilha Grande. Punha-me a refletir: - É. Talvez seja o nosso fim.

- Nosso uma ova. O seu, o dos outros paisanos. Eu sou oficial do exército. Comigo não mexem.

- Nessa pilhéria há realmente uma convicção, um engano. Vocês, milicos, são incorrigíveis. Guardam a prosápia que tinham na caserna.

Essas fumaças iam dissipar-se em breve, mas por enquanto os militares ainda não se julgavam demitidos. Vestiam fardas, e nas assinaturas deixadas no romance, dias atrás, muitos haviam conservado os postos: capitão Moésia Rolim; José Gay da Cunha, segundo-tenente de aviação; Álvaro Francisco de Sousa, capitão do Terceiro Regimento, na Praia Vermelha; capitão José Leite Brasil; Joaquim Santos, segundo-tenente do Exército Popular Nacional Revolucionário. Certamente alguns esperavam tornar ao serviço. A chegada de Sócrates Gonçalves esfriou-os um pouco. Sócrates nos apareceu magro e sujo, com os punhos feridos: viajara muitos dias em caminhão, os braços amarrados. Contou-me a sua pequena aventura chinfrim. Conseguira passar a fronteira e fora agarrado no Paraguai. Recebendo ordem para varrer a prisão, recusara-se, digno. Tinha graça um oficial do exército brasileiro servir de faxina à polícia de um país vagabundo. Suportara uma chuva de pancadas e resolvera abandonar a resistência, pegar a vassoura.

- Eu andava cheio de preconceitos idiotas, explicou-me sério. Julgava-me capitão. Deixei essa fantasia e varri.

Estávamos na calçada estreita do refeitório, à sombra de uma árvore, olhando o pátio exíguo, onde uns vinte rapazes faziam ginástica. A direita, o muro alto; à esquerda, nas celas, um fervilhar de cortiço. As grades não se fechavam durante o dia, e gente se movimentava sem cessar, dos cubículos para a Sala da Capela. A escada velha se abalava com forte rumor, só à noite repousava. Concluída a narrativa, Sócrates examinou o muro, atento, como se o quisesse medir; deteve-se um instante nos cubículos, na porta que nos separava da Casa da Ordem; voltou a correr o muro com a vista; mergulhou os dedos na barba ruiva, muito crescida: - Precisamos arranjar meio de sair daqui.

A barba o disfarçara algum tempo, era uma espécie de máscara. Mas não servira: Sócrates estava preso e varrera uma prisão no Paraguai.

- Ah! Preciso fugir. Não fico, não me submeto. Preciso fugir de qualquer modo. Já pensou nisso? - Fugir? Não. Como? Não pensei. Fugir como? Pretende escalar este muro? - Não pretendo coisa nenhuma. Não. Mas de qualquer modo tenho de sair. Você tem processo? - Não. Sou um pobre-diabo.

- Por isso fala assim. Mas eu vou agüentar pena dura. Preciso fugir. Qual é o meio? - Sei lá. Nunca pensei na fuga. E lá fora as coisas estão piores que aqui. Na opinião dos nossos companheiros, o único lugar onde existe um pouco de liberdade é a cadeia.

Viver uma pessoa a esconder-se, com medo, sem achar trabalho, é horrível.

Sócrates não se convenceu.

- Tenho de sair de qualquer jeito.

Era uma idéia fixa: durante semanas voltou a ela várias vezes. Uma sexta-feira entrou no Cassino, mudado, quase irreconhecível: trajava à paisana e tinha raspado a cara.

Esteve a conversar com a mulher. A hora de se despedirem, deu-lhe o braço e retirou-se como um dos outros visitantes. Passou diversos portões. A marosca se evidenciou na secretaria, e Sócrates foi encafuar-se no cubículo. Mas esse desastre não lhe matou os planos de evasão.

8

DURANTE o dia achava-me quase bem, chegava a esquecer as dores, mas a friagem da noite me aluía, renovava o pensamento infeliz de que os ossos se decompunham. O receio de incomodar os vizinhos arrastava-me à saleta, jogava-me à espreguiçadeira. O velho Marques, áspero e enrugado, não perdia a paciência.

- Vai ficar bom, afirmava enrolando-me as pernas, oferecendo-me a xícara de café.

Aproximava a cadeira, repetia a vida de criminosos importantes e a disciplina antiga.

- Não vá julgar, disse-me, que estou aqui ajeitando as suas pernas porque tenho bom coração. É engano. Faço isto por interesse.

- Que interesse tem o senhor? perguntei surpreso. Não tenho nada para lhe dar.

- Hoje não tem. Mas eu sei lá se o mês vindouro o senhor vai ser ministro? Esse disparate fazia-me rir e esquecer o sofrimento: - Que idéia foi essa? - Tenho trinta anos de serviço e vi muita coisa. Dr. Fulano e dr. Sicrano, figurões no governo, foram nossos hóspedes. Amanhã rebenta uma revolução e o Ministério sai daqui. Se o senhor for ministro...

- Isso é um absurdo, seu Marques. Sou pequeno domais e nenhuma revolução me eleva.

- Não sei. O Ministério pode sair daqui.

- Mas eu estarei longe dele, homem de Deus. Olhe que dormi nas esteiras da Colônia Correcional, entre vagabundos e malandros. Jogaram-me na Sala da Capela por acaso.

- Não sei. Ignoro a sua vida, e é bom não me falar nela, que não lhe faço perguntas. Se chegar a ministro... A teimosia causava-me hilaridade.

- Perfeitamente, insistia o funcionário grave. Se chegar, hei de ter precisão de um favor seu. E o senhor se lembra desta conversa e diz: - "O velho Marques, quando eu estava doente na Sala da Capela, me dava algumas xícaras de café. Não é mau sujeito." Já vê que tenho interesse. Uma reflexão desalentou-me o riso. O guarda realmente desconhecia as minhas possibilidades, mas enxergava ali uma loteria e era amável com todos nós, esperando acertar num bilhete premiado. Tinha razão. Numa reviravolta política Hermes Lima, Castro Rebelo e Cascardo recuperariam talvez a importância, poderiam ser úteis a Marques. A excelente criatura ignorava isso e era amável com todos: - "Se o senhor chegar a ministro..." Expandia-se: - Não sei nem quero saber da sua vida. E não lhe vou fazer perguntas, que não mereço confiança, é claro: sou da polícia. Não me diga nada. Se eu souber qualquer coisa, sou obrigado a falar. Aceite o conselho de um homem da polícia. Feche-se, esconda-se. Se tem alguma culpa, não deixe escapar uma palavra. Desconfie de todos. De mim, dos outros guardas, dos.faxinas. O senhor está cercado de espiões. Mas desconfie principalmente dos seus companheiros. Todos os dias sai daqui um relatório dizendo o que os senhores fazem. Um relatório, compreende? Eu sou o portador. Hoje pela manhã, ali na mesa dos jornais (indicou as tábuas onde Nemo Canabarro Lucas estudava matemática e Amadeu Amaral Júnior comia salame e redigia a novela chinfrim), o senhor levantou o braço e fechou o punho aos homens do banho de sol, na Casa de Detenção. Lembra-se? Lembrava-me. Depois do café, interrompendo a leitura dos jornais, entretivera-me a olhar o terraço familiar, a ginástica, esforçando-me por distinguir rostos conhecidos: Surgira a batina de um padre. Diabo. Tinham levado para ali até padres. Que estupidez! A reação estava-se prejudicando. Vozes confusas. Cem metros, duzentos metros. Impossível determinar a distância. Percebiam-se as figuras, pedaços de figuras que se misturavam. Campos da Paz Filho evidenciava-se por causa da gordura do vulto enorme; o resto era massa indistinta. Um sujeito, por detrás do eclesiástico, entregava-se a uma pantomima, fazendo cruzes no ar e batendo nos peitos. Homens gritavam erguendo os punhos. Da mesa dos jornais alguns responderam com o mesmo gesto.

- Lembra-se? - Mais ou menos. Devo ter levantado o braço.

- Pois isso foi contado no relatório de hoje, disse Marques. Eu não estava de serviço àquela hora e não podia adivinhar que o senhor tinha feito sinais à gente do Pavilhão.

Soube à tarde, quando li os papéis. Não lhe disse que sou o portador? Já vê que tenho motivo para lhe dar conselho. Esteve um minuto em silêncio, depois acrescentou: - E se eu lhe dissesse quem manda esses relatórios, o senhor nem acreditava. Nenhuma suspeita. É isto. O senhor se abre com um amigo, e o que diz vai direitinho à polícia.

Realmente não me abria: era-me impossível qualquer revelação, pois me faltavam segredos. E em geral as conversas me chateavam. Sucedia darem às minhas palavras sentido estranho, responsabilizavam-me com freqüência por idéias absurdas. Se tentava explicar-me, envolvia-me num cipoal de equívocos. Além disso não havia jeito de habituar-me à gíria dos rapazes que ainda viviam com um pé na caserna e juntavam peças de roupas civis e fardamentos. Referindo-se a cérebro, falavam em crânio. E tiravam daí um verbo estapafúrdio, craniar, equivalente a estudar. Apareciam-me em grupos, atentos, rabiscando pedaços de papel, craniando assuntos obscuros em debates cochichados. As vezes se elevava do burburinho uma aprovação enérgica: - "Batatal. Craniou batatalmente". Essa linguagem feria-me os ouvidos e afastava-me dos militares. A erudição de Castro Rebelo me causava medo, e talvez se haja associado às minhas dores para retirar-me da cama, jogar-me à saleta.

No meio heterogêneo, cheio de expressões técnicas e frases obscenas, raros indivíduos me prendiam a atenção. Agradava-me escutar os gracejos de Apporelly, fragmentos das viagens longas do bacharel feroz, projetos literários de Hermes Lima. Também me dava prazer a fala engrolada, rápida, baixa, de Gikovate. O judeu passava os dias a ler, os óculos de míope juntos à página. Preso às idéias gerais, esforçava-se por não deformar um pensamento. A exatidão rigorosa era motivo para ele de longos rodeios: não queria enganar-se. A minha ignorância revoltava-o. Abria um livro, rolava um português áspero, gutural, abundante em rr.

- Leia em francês, Gikovate. Para que esse esforço? Leia como está no papel.

Gikovate não ligava importância ao conselho e traduzia. Se lhe faltava a expressão, largava pedaços na língua estranha, sem se deter, e prosseguia num português avariado, misturando polaco, alemão, francês, inglês, o diabo. A fala pegajosa ligava-se às minhas orelhas, fazia-me cócegas. Finda a exposição multilingüe, o homem se estendia em comentários minuciosos. A palestra do judeu proporcionou-me censuras; notei em redor frieza e hostilidade, enfim percebi que me consideravam trotskista. Esse juízo era idiota e não lhe prestei nenhuma atenção. A vaidade imensa de Trotski me enjoava; o terceiro volume da autobiografia dele me deixara impressão lastimosa. Pimponice, egocentrismo, desonestidade. Mas isso não era razão para inimizar-me com pessoas que enxergavam qualidades boas no político malandro. A opinião delas, nesse ponto, não me interessava. Nunca tentei coagir-me, transigir. Desviava-me da personagem desagradável, impertinente, buscava matéria que não me irritasse.

Expressava-me em voz alta, não era preciso ocultar-me; os bons desejos do velho Marques perdiam-se. O autor do relatório me examinaria sem proveito. A curiosidade me verrumava. Quem seria o autor do relatório? Não sou curioso. E durante meses certos indícios me traziam quase a certeza de achar-me entre espiões. Agora não havia indício: ofereciam-me coisa concreta, e um sujeito me dizia: - "Olhe que eu sou o portador." Sem dúvida. Quem teria escrito o relatório? Era bom não saber, mas a pergunta me espicaçava. Quem se teria sujado naquela infâmia? Com certeza um dos tipos que escorregavam como sombras, paravam junto às camas, sornas e bestas na aparência, o ouvido à escuta. As histórias simples de Moreira Lima, as brincadeiras de Apporelly, os planos literários de Hermes, as divagações de Gikovate não lhe haviam fornecido nenhuma indicação. Mas o movimento feito pela manhã junto à mesa dos jornais mencionava-se à tarde. Castro Rebelo me dissera: - "O senhor está entre os maiores filhos das putas deste país." A generalização era absurda. Entretanto havia alguns. Havia pelo menos um. Quem seria? A pergunta voltava, embora me esforçasse por arredá-la. De fato seria um desgosto conhecer aquele miserável.

9

VOU ARRANJAR-LHE um bom lugar para escrever em sossego, disse-me o diretor uma noite. Aqui você não melhora. É necessário tratar-se.

No dia seguinte, depois do café, levaram-me à enfermaria, recinto acanhado, onde cubículos formavam círculo em torno do banheiro, ordinariamente sem água, como notei de pois. Demorei-me numa saleta, chamaram-me ao consultório médico e um rapaz taciturno examinou-me, prescreveu injeções de vitamina e estricnina. Mas não havia essas drogas na farmácia: era preciso que eu mandasse comprá-las. Essa exigência indignou-me. A encrenca nas pernas tinha-me aparecido em conseqüência do jejum na Colônia; não me achava preso por gosto e julgava descaramento forçarem-me a gastar dinheiro com remédio. Aperreei-me, aludi a isso por meias palavras. O moço não quis entender: a farmácia estava desprovida. Resignei-me, furioso: encomendaria sexta-feira à tarde as malditas ampolas a minha mulher.

Saí, desemboquei na praça redonda, fui observar uma segunda entrada, oposta à saleta, duas grades a limitai um pequeno vão. No futuro aquele exagero de segurança espantou-me. Descerrava-se a grade externa, fechava-se, abria-se a interna, de novo se trancava, e o guarda surgia tilintando chaves. Precaução idiota num asilo de enfermos incapazes de fuga. Na Sala da Capela homens válidos, desejosos de escapar-se, iam e vinham à vontade. Encaminharam-me ao cubículo, o sétimo, se não me engano. Uma cama de ferro, uma banca, um tamborete; ao fundo o lavatório e a latrina. Enfim, depois de tantos meses atribulados, senti o prazer de achar-me só; já não me pulverizava, misturado a outras pessoas. As celas vizinhas estavam fechadas e silenciosas. A distância, além do banheiro, no semicírculo feito entre as duas passagens fronteiras, soavam gemidos, palavrões, tosse rouca. Estive horas a reler, a emendar os contos. Os primeiros, observações do hospital, não eram muito ruins. O terceiro, a minha cólera impotente de testemunha num processo, ao ser interrogado por um bacharel malandro, ainda não estava concluído. História péssima. Em dez linhas terminei-a.

- Almoço, gritaram perto.

Onde? No refeitório comum, a sala estreita e longa, bancos sujos ladeando cavaletes. Para lá me dirigi claudicando, fui sentar-me ao pé de Walter, risonho e provocador: - Não tem nojo de pegar nesse talher sujo de esperma? Sumiu-se o apetite. Miserável. Arrastara-me, transpusera diversos portões - e, ao sentar-me diante das pranchas nuas, lá vinha a lembrança torpe: louça imunda. Aleixo não lavava as mãos. Sempre aquilo. Mas antes o meu esforço era pequeno: descer, subir uma escada. Agora andava duzentos metros, capenga, sentava-me, repelia a comida cheio de náusea. O estômago vazio revoltava-se. Com os ossos a desfazer-se, precisava alimentar-me - e o vizinho me desviava do prato, devorava faminto a minha ração. Nunca a luta pela vida me pareceu tão feia e tão dura. Risonho, a pilheriar, Walter matava-me. E era impossível zangar-me com ele, estabanado, alegre, de uma alegria insensata porque andava a anunciar-nos desgraças. Referia-se vaidoso a um livro que fizera: Ceará Moleque.

- As pontas da vanguarda... gritava Rollemberg na mesa próxima.

Cochichos de trotskistas pouco adiante, repulsa ao otimismo do capitão. Ceará Moleque, título esquisito. Repugnância e fastio. Vida porca. Movera-me uns duzentos metros. Para que andar tanto? Recordação dos caminhos enlameados nos montes negros da ilha Grande.

As pernas arrastavam-se a custo. Novamente no cubículo da enfermaria. A porta era uma chapa de ferro e tinha uma abertura a metro e meio do solo, vigia de vinte centímetros, pouco mais ou menos. Por aí me podiam fiscalizar de fora. A despesa exigida pelo médico ia desequilibrar-me o orçamento. Sangria razoável, na infeliz situação em que me achava. Necessário publicar os contos. Afirmava isto num desânimo completo, estirado na cama, as pernas frias envoltas na manta de lã grossa, olhando com desgosto os papéis abandonados em cima da mesa. Não me decidia a retomá-los, continuar as emendas iniciadas pela manhã. Numa transferência, ver-me-ia coagido a atirá-los na água, escondê-los debaixo de uma esteira. Julgava-me imprevidente, mas os braços estavam pesados e a cabeça deserta. A míngua de recursos atenazava-me e não me dava nenhum estímulo. Via-me reduzido a oferecer ao Coletivo dez tostões por semana, a décima parte da contribuição dos primeiros meses. O receio de que se puísse o fundilho da calça torturava-me. E deixara de comprar cigarros: resolvera-me a adquirir mortalhas e pacotes de fumo barato na vendinha estabelecida por um preso comum junto à Casa da Ordem.

Tentei dissipar a morrinha, ergui-me com dificuldade, peguei o tamborete, fui acomodar-me à porta. A dois ou três passos, um sujeito moreno, pálido e magro se abatia, sentado no chão, as costas arrimadas à parede. Puxei conversa, para matar tempo. O homem limitou-se a dar resposta às minhas perguntas, a voz baixa, vagarosa, entrecortada por acessos roucos de tosse. Respirava mal e parecia economizar força; espalhava em torno olhares vagos, indiferentes; sem dúvida tinha preguiça de falar. Chamava-se Vitorino. Levantou-se, foi a um cubículo afastado, ao cabo de minutos exibiu-me vários objetos de chifre: pulseiras, botões, caixas, enfeites miúdos.

- Não quer comprar? - Sim, vou ficar com uma lembrança de vocês. É trabalho seu? Vitorino fez um gesto de afirmação triste Escolhi uma espátula grosseira e romba.

- Quanto custa? - Dois mil-réis.

Fui deitar a lâmina entre as páginas de um volume, abri o porta-níqueis. Vitorino recebeu a moeda, rosnou um agradecimento e retirou-se com as bugigangas. A tarde um velho robusto, de farda a esgarçar, com remendos, a cabeleira magnífica, uma bela pasta de algodão, anunciou-me o jantar. E vendo-me em desalento, a encolher-me, insistiu amável e risonho.

- Obrigado. Não tenho fome.

Impossível andar duzentos metros. O guarda velho afastou-se, as horas correram. Um rapaz vermelho passou a pequena distância, assobiando forte, seguro aos varais de um carrinho de mão. Ignoro por onde entrou, por onde saiu. O frio aumentou, as minhas desgraçadas canelas se entorpeceram, a sombra caiu dissolvendo-me os ossos. Consegui mexer-me, sair dali, estender-me no colchão, bambo, invertebrado. Enrolei-me na manta escura de lã; os dentes chocavam-se, batendo castanholas. Hora do chá.

- Não. Muito agradecido.

Rumor lá fora, vozes femininas. O guarda velho veio trancar-me, disse que duas mulheres tinham chegado. Nem procurei saber os nomes delas. A chapa de ferro obstruiu-me a sepultura e a escuridão me envolveu, quebrada apenas pela estreita faixa de luz procedente da vigia. Exaustão. Um sono doloroso agarrava-me, partia-se e nos intervalos freqüentes dele chegavam-me gemidos, queixas, um coro forte de tosses.

10

DESPERTARAM-ME os chilros dos pardais, assobios e o rumor forte de rodas em solo pedregoso. Esses ruídos vinham do exterior; no pequeno recinto circular havia silêncio. Com certeza o rapaz que na véspera assobiava e impelia o carrinho de mão já começara o trabalho. Os pássaros se esgoelavam num barulho dos diabos.

Ergui-me, avizinhei-me da pia. A fraqueza e o desânimo tinham diminuído um pouco. Ao findar a escovação e a lavagem, ouvi passos, tinir de chaves, lingüetas a ranger nos encaixes. A chapa de ferro se descerrou, e achei-me fora, arriado no tamborete, as canelas nuas expostas ao sol minguado, uma folha de papel sobre a mesinha onde a tinta branca rachava e descascava. Escrevi algumas palavras.

Um homem de zebra chegou-se com um tabuleiro, esperou que eu bebesse um caneco de leite, o café enjoativo e adocicado, retirou a louça e foi servir outros doentes. Aparecera-me um esboço de conto, mas não havia jeito de se fixarem as idéias, a atenção desviava-se da tarefa no ambiente novo, os dedos emperravam na segunda linha. A certeza de haver feito uma história chinfrim me perseguia e desencorajava; nenhum desejo de realizar outra. Apesar disso, obstinava-me em desenferrujar os miolos resistentes. Necessário mandar qualquer coisa aos jornais. Quereriam aceitar-me a literatura chocha? O último cubículo, junto à porta do fundo, se abriu; Nise da Silveira e Eneida, minhas conhecidas da sala quatro, saíram. Um minuto depois, abancados à mesa, resvalávamos em camaradagem a narrar os nossos achaques. Eneida estava com os intestinos em cacos, o alimento ruim na Casa de Detenção arrasara-a. Nise tinha um desarranjo nervoso, conseqüência provável dos interrogatórios longos. A timidez agravava-se, fugia-lhe às vezes a palavra e um desassossego verdadeiro transparecia no rosto pálido, os grandes olhos moviam-se tristes. Recordei-me do nosso encontro meses antes. Ao chegar ao Pavilhão, vira-me em atitude burlesca diante de Nise, trepado a uma janela, agarrando-me a varões de ferro. Dois metros abaixo, além de uma grade, ela me pedia notícias de Alagoas. O assunto se esgotara logo e um constrangimento horrível nos prendera. Estávamos agora à vontade. A barba crescida, os tamancos e o pijama curto já não me vexavam; habituara-me ao desleixo, só me lembrava de raspar a cara uma vez por semana, às sextas-feiras. Vendo o lápis e o papel, as moças quiseram retirar-se. Declarei-me estúpido em excesso e pedi-lhes que ficassem, contente por achar motivo para esquivar-me ao dever maçador. O guarda naquele dia era um português moreno, de feição obtusa; passava com freqüência perto de nós, vagaroso, e parecia muito ocupado em fiscalizar-nos. Exigimos banho. O sujeito deu uma ordem, os faxinas vieram carregados de latas.

As minhas visitantes foram buscar toalhas e dirigiram-se ao banheiro. Só, ainda tentei arrumar vagos pensamentos rebeldes. Nada conseguindo, fui jogar sobre a cama o lápis e a folha inúteis; achava-me na verdade uma besta, invejava Hermes Lima e Gikovate, capazes de estudar, escrever horas e horas na prisão, surdos ao rumor das controvérsias numerosas. O diretor apareceu, escanchou-se num tamborete e disse: - Cometi uma irregularidade ontem. - O senhor comete muitas, gracejei.

- É rigorosamente proibido juntar homens com mulheres. E eu pus essas duas moças aqui. Tive confiança em você. - Muito obrigado.

- Vai-me fazer uma promessa.

E largou dois palavrões obscenos. Dei uma gargalhada. Em linguagem correta, ele desejava que as minhas companheiras não inspirassem nenhum desejo.

- Isso é um disparate, major. Prometo não realizar o ato. Mas não sentir desejo? O senhor é bem exigente.

O velho sacudia-se num largo riso, os olhinhos vivos brilhavam com ingênua malícia.

- Está bem, está bem.

Esperou a volta das mulheres, esteve alguns minutos a conversar com elas e despediu-se: - Cuidado com a promessa. - Não se preocupe.

Fui lavar-me. Ausência de chuveiro. Apenas uma bacia de água morna e um caneco. Ao sair, encontrei Nise sentada à mesa com dois baralhos.

- Você sabe jogar crapaud? Eu não sabia.

- Então vai aprender.

E deu-me as primeiras lições do jogo que me iria desviai das letras nacionais. Arranjando as cartas, fornecia-me as regras com paciência, às vezes falava a um preso comum atento à partida, negro pequeno, de focinho impudente, inclinado a familiarizar-se. Embirrei com esse tipo, abomino liberdades, mas Nise estava sempre a desenvolver-lhe a partida e a fazer-lhe perguntas. Pai João apresentou-se e referiu-se, vaidoso, às suas habilidades: fora salteador e operara nas matas de Piraí.

- Trabalhava só, Pai João? - Só, com Deus. Precisava um revólver, mais nada. A alguns metros de nós, Vitorino se arrimava à parede como no dia anterior. O guarda apareceu e foi repreendê-lo, a exagerar uma acusação, insistente e áspero. Vitorino defendeu-se: não incorrera em nenhuma falta. De cabeça baixa, exprimia-se em voz dormente, como num solilóquio; fingia respeito, mas não se calava. O outro, em zanga rija, invocou o regulamento.

- É o diabo, zumbiu Vitorino. Esse regulamento foi feito para mim. Para mais ninguém.

A réplica enfureceu o português. Vitorino calmo, a vista no chão, continuava a repelir as censuras de manso. Nunca vi uma pessoa justificar-se daquele modo. Acabou fatigando o adversário. Quando este saiu, Pai João, que se havia afastado, veio de novo aperuar o jogo, abelhudo e risonho. Não busquei dissimular a antipatia; as amabilidades de Nise ao negro chateavam-me. A minha aversão estaria hoje provavelmente esquecida se tempo depois não me causasse um ligeiro transtorno, bom para esclarecer várias coisas ali.

O almoço pôs fim à primeira lição. Vieram bandejas, a professora recolheu-se e marchei para o refeitório, capenga e faminto. Consegui resistir às pilhérias de Walter, agora o apetite fechava-me os ouvidos.

Regressei, passamos a tarde em cavaqueira animada: o crapaud nos desatara as línguas. Eneida não se expandia, um sofrimento vivo no rosto descorado. Sentava-se, dizia meia dúzia de palavras, erguia-se inquieta, fechava-se no cubículo; reaparecia, tornava a sentar-se, rugas na testa, os beiços contraídos num sorriso difícil. Animava-se de leve, não queria exibir-nos a dor e o desassossego. Nise palrava como se nos conhecêssemos de velha data; nenhum sinal do acanhamento que nos tolhera à minha entrada no Pavilhão. Tinham-me dito dela, anos atrás: mulher de grande inteligência e grande caráter. Renovei a frase, mencionando o autor.

- Lamento isso, murmurou Nise com ar arrepiado. - Porquê? - Porque tenho dessa criatura uma opinião muito diferente. Não acho nenhum caráter nela.

A doença e a modéstia esgarçaram-se, num instante a severa disposição alterou a fisionomia suave.

- Puxa! Não a imaginava capaz de tanta aspereza.

- Que hei de fazer? Era preferível eu desconhecer o elogio. Enfim esses juízos fáceis não podem transformar-me. Onde fui achar inteligência? Mas realmente a fraqueza de caráter é horrível.

Examinei a figurinha combalida, magra; o desejo de afastar o louvor importuno sufocava-a; os dedos finos tremiam.

11

A CONFIANÇA do major Nunes, exposta com obscenidades naquele dia, não se depositou em mim apenas: novos doentes surgiram e em pouco tempo a enfermaria se avivou. Certamente ouviram também palavrões cabeludos e afirmaram proceder bem com as mulheres. Sisson, meu vizinho à esquerda, transformou a sala em biblioteca: pôs na vigia um pedaço de cartão, para fugir aos olhos indiscretos do guarda, e entrou a ler, a traçar planos irrealizáveis num conforto escandaloso. Mais longe foram viver Alcedo Cavalcante e Sussekind de Mendonça, professores gordos, risonhos, serenos, o primeiro militar, o segundo paisano. Sussekind tinha uma úlcera duvidosa no estômago, e cultivava essa probabilidade com alegria e requintes, esforçando-se por acreditarmos nela. Os faxinas de línguas penas, não sabendo pronunciar-lhe o nome, deram-lhe uma alcunha: Dr. Úlcera. No arco à direita do meu cubículo vieram alojar-se o tenente Pais Barreto e Henrique Dantas, alto funcionário de um banco, homem triste, silencioso e resignado. Dantas nunca se queixava, apesar de ter os pulmões decompostos. Arfando na dispnéia, friorento, passava horas ao sol, a consumir-se devagar, sem nenhuma esperança. Animava-se um pouco e, em voz lenta e baixa, gastava os restos de vida em dissertações lacunosas sobre economia política. Gikovate e Amadeu Amaral Júnior estiveram conosco alguns dias. Os hóspedes do lado oposto se isolavam de nós pelo banheiro e pela condição: eram homens de zebra, arredios e tristes. Raro transpunham a linha divisória estabelecida entre as duas portas. Também não andávamos por lá. Discutíamos política, jogávamos crapaud, tentávamos perceber nos jornais alguma notícia animadora. A guerra da Espanha nos excitava, e no mais simples avanço dos republicanos queríamos ver a próxima derrota do fascismo. Certo dia, lendo uma folha argentina, tive a idéia de recorrer às luzes de Alcedo Cavalcante: - Venha trocar isto em miúdos, Alcedo. Não entendemos de marchas nem de cercos. Você, major e professor, pode traduzir-nos este negócio de estratégia em língua de cristão.

Formamos roda em torno da mesinha do jogo, afastamos os baralhos, Sisson foi buscar um mapa e iniciamos a leitura, interrompida pelas demoradas explicações do major. Uma crítica otimista em demasia. O triunfo era certo; mouros, italianos e alemães estavam sendo varridos da península; dentro em pouco os traidores seriam fuzilados. De repente o homem recusou um telegrama de Burgos.

- Adiante, adiante. Isso não vale nada.

- Ora essa! estranhou Eneida. Nós desejamos um comentário imparcial. Se você só se ocupa de uma das partes, estamos a perder tempo.

- Não, teimou Alcedo, ranzinza. Nem as mentiras de Burgos nem as bobagens desse pau-d’água de Sevilha. Tudo isso é balela. Só examino o que vem da Catalunha e de Madrid.

O nosso interesse esfriou. Esperávamos, ouvir o homem reduzir as vitórias de Franco, aumentar as da república, e a observação unilateral nos causava surpresa e desânimo. Provavelmente ele receava privar-se de uma certeza, ou antes de uma crença. Desenvolviam-se e fixavam-se ali convicções na verdade singulares. Ociosos e ausentes do mundo, precisávamos fazer esforços para não nos deixarmos vencer por doidos pensamentos. Causavam-me espanto os devaneios dos outros, às vezes me sentia resvalar numa credulidade quase infantil, e era doloroso notar os escorregos do espírito. Nise ficava uma hora a matutar nos programas de cinema, exigia a minha opinião, grave. Entrávamos a escolher fitas, enfim nos decidíamos: - Vamos ao Metro.

Esse exercício estava sempre a repetir-se, e nem sei se era apenas brincadeira, se não chegávamos a admitir a possibilidade maluca de atravessar paredes e grades, sair à rua, tomar o ônibus, entrar nas lojas, nos cafés, nas livrarias e nos cinemas. Sisson me comunicou um projeto de admirável insensatez. Era manhã, achava-me à porta do cubículo, bebendo café. O vizinho descerrou a chapa de ferro e veio sentar-se junto de mim. Não dormira, passara a noite a imaginar uma organização que se dedicaria a estudos sociológicos e se estenderia por todas as bibocas do Brasil, a esmerilhar cartórios e igrejas. Comissões distritais esmiuçariam a papelada antiga que lhes caísse nas unhas e enviariam o material selecionado a comissões municipais; estas se subordinariam a outras mais complexas, estaduais; e afinal, a dirigir tudo, 0 organismo central, com sede no Rio, ali na Casa de Correção. Alarmei-me: - Aqui? Você está falando sério? - É. Nós é que vamos fazer o trabalho definitivo. - Mas quem nos traz esses documentos, Sisson? - As nossas mulheres, nos dias de visitas.

- Coitadinhas. Vão suportar uma carga enorme, toneladas de velharias.

- Não é tanto assim. Haverá lá fora um expurgo severo. Nós só receberemos coisas definitivas.

- E você acha que nos cafundós do Amazonas e de Mato Grosso há gente capaz dessa tarefa? - Para as comissões de primeiro grau bastam pessoas dispostas a copiar o que forem descobrindo. A depuração começa nas cidades e acaba nas capitais.

Vencidas as minhas réplicas, o estranho homem recolheu-se e, num entusiasmo vivo, entrou a redigir o seu plano, desenvolveu-o num calhamaço cheio de minúcias, que foi exposto ao Coletivo. Ninguém quis reparar no imenso absurdo; tomaram-no em consideração; eu e Gikovate recebemos a incumbência de estudá-lo. Esquivei-me, negligente, mas o judeu meticuloso embrenhou-se na leitura, rabiscando notas, arrazoando, como se se tratasse de caso muito importante. Logo embirrou com o título da sociedade, propôs a eliminação de um adjetivo: popular.

- No entender da polícia, comunista e popular têm a mesma significação.

Sisson emperrou, obstinou-se na defesa da palavra e, encontrando resistência no médico, tentou convencer-me. Indolente e vago, suponho que findei por dar razão mais ou menos aos dois. Reunimo-nos à tarde, oito ou dez sujeitos, numa das celas próximas ao refeitório. A vasta composição foi desenvolvida com segura energia pelo autor. Em seguida Gikovate engrolou o relatório na sua língua morna, carregada de rr duros. Pontos essenciais foram sapecados, minudências se estiraram e o nome da associação provocou intenso debate. O criador dela agarrou-se com vigor ao seu rótulo, como se o corte do infeliz apêndice lhe inutilizasse todos os pensamentos. Vários indivíduos se manifestaram, a contenda generalizou-se, e a vantagem ou desvantagem de três miseráveis sílabas deixou na sombra a análise do projeto. Ninguém se lembrou de perguntar se era exeqüível. Submeteram a julgamento o pobre adjetivo, e nós o condenamos por unanimidade. O meu voto arrancou de Sisson um berro furioso.

- Você também? exclamou erguendo-se, um brilho de indignação nos olhos.

Balancei a cabeça: - Também.

O homem largou uma expressão torpe e concluiu: - De duas uma: ou eu sou muito burro ou você é doido. Hoje de manhã concordava comigo.

- É engano. Eu estava com preguiça de argumentar. Saímos. E não tornamos a falar no assunto. A Sociedade Popular nasceu morta.

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