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São Bernardo

Graciliano Ramos

Capítulo sete

Por esse tempo encontrei em Maceió, chupando uma barata na Gazeta do Brito, um velho alto, magro, curvado, amarelo, de suíças, chamado Ribeiro. Via-se perfeitamente que andava com fome. Simpatizei com ele e, como necessitava um guardalivros, trouxe-o para São Bernardo. Dei-lhe alguma confiança e ouvi a sua história, que aqui reproduzo pondo os verbos na terceira pessoa e usando quase a linguagem dele.

Seu Ribeiro tinha setenta anos e era infeliz, mas havia sido moço e feliz. Na povoação onde ele morava os homens descobriam-se ao avistá-lo e as mulheres baixavam a cabeça e diziam:

- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, Seu Major.

Quando alguém recebia cartas, ia pedir-lhe a tradução delas. Seu Ribeiro lia as cartas, conhecia os segredos, era considerado e major.

Se dois vizinhos brigavam por terra, Seu Ribeiro chamava-os, estudava o caso, traçava as fronteiras e impedia que os contendores se grudassem.

Todos acreditavam na sabedoria do Major. Com efeito, Seu Ribeiro não era inocente: decorava leis, antigas, relia jornais, antigos, e, à luz da candeia de azeite, queimava as pestanas sobre livros que encerravam palavras misteriosas de pronúncia difícil. Se se divulgava uma dessas palavras esquisitas, Seu Ribeiro explicava a significação dela e aumentava o vocabulário da povoação.

Os outros homens, sim, eram inocentes. Acontecia às vezes que uma dessas criaturas inocentes aparecia morta a cacete ou a faca. Seu Ribeiro, que era justo, procurava o matador, amarrava-o, levava-o para a cadeia da cidade. E a família do defunto ficava sob a proteção do Major. Também acontecia que uma sujeitinha começava a chorar e acabava confessando que estava pejada. Seu Ribeiro descobria o sedutor, chamava o padre, e o casamento se realizava na capela da povoação. Nascia um menino e Seu Ribeiro era o padrinho. O Major decidia, ninguém apelava. A decisão do Major era um prego.

Não havia soldados no lugar, nem havia juiz. E como o vigário residia longe, a mulher de Seu Ribeiro rezava o terço e contava histórias de santos às crianças. É possível que nem todas as histórias fossem verdadeiras, mas as crianças daquele tempo não se preocupavam com a verdade.

Seu Ribeiro tinha família pequena e casa grande. A casa estava sempre cheia. Os algodoais do Major eram grandes também. Nas colheitas a população corria para eles.

E os pretos não sabiam que eram pretos, e os brancos não sabiam que eram brancos.

Na verdade Seu Ribeiro infundia respeito. Se havia barulho na feira, levantava o braço e gritava: - Quem for meu me acompanhe.

E a feira se desmanchava, o barulho findava, todo o mundo seguia o Major porque todo o mundo era do Major.

Nas noites de São João uma fogueira enorme iluminava a casa de Seu Ribeiro. Havia fogueiras diante das outras casas, mas a fogueira do Major tinha muitas carradas de lenha. As moças e os rapazes andavam em redor dela, de braço dado. Assava-se milho verde nas brasas e davam-se tiros medonhos de bacamarte. O Major possuía um bacamarte, mas o bacamarte só se desenferrujava pelos festejos de São João.

Ora, essas coisas se passaram antigamente. Mudou tudo. Gente nasceu, gente morreu, os afilhados do Major cresceram e foram para o serviço militar, em estrada de ferro.

O povoado transformou-se em vila, a vila transformou-se em cidade, com chefe político, juiz de direito, promotor e delegado de polícia.

Trouxeram máquinas e a bolandeira parou.

Veio o vigário, que fechou uma igreja bonita. As histórias na memória das crianças. Chegou o médico. Não acreditava nos santos. A mulher de seu Ribeiro entristeceu, emagreceu e finou-se.

O advogado abriu consultório, a sabedoria do Major encolheu-se e surgiram no foro numerosas questões.

Efetivamente a cidade teve um progresso rápido. Muitos homens adotaram gravatas e profissões desconhecidas. Os carros de bois deixaram de chiar nos caminhos estreitos.

O automóvel, a gasolina, a eletricidade e o cinema. E impostos.

As moças e os rapazes não rodeavam, de braço dado, as fogueiras de São João: dançavam o tango, o frevo.

Um dia Seu Ribeiro reconheceu que vivia numa casa grande demais. Vendeu-a e adquiriu outra, pequena. Como havia agora liberdade excessiva, a autoridade dele foi minguando, até desaparecer.

Seu Ribeiro tinha um filho, que jogava futebol, e uma filha, que usava fitas, muitas fitas. Acharam o lugar atrasado e fugiram. Seu Ribeiro escondeu-se, cheio de vergonha. Amofinou-se uma semana, desfez-se dos cacarecos e foi procurar os filhos. Não os encontrou: andavam por aí, ela pelas fábricas, ele no Exército.

Seu Ribeiro enraizou-se na capital. Conheceu enfermarias de indigentes, dormiu nos bancos dos jardins, vendeu bilhetes de loterias, tornou-se bicheiro e agente de sociedades ratoeiras. Ao cabo de dez anos era gerente e guarda-livros da Gazeta, com cento e cinqüenta mil-réis de ordenado, e pedia dinheiro aos amigos.

Quando o velho acabou de escorrer a sua narrativa, exclamei:

- Tenho a impressão de que o senhor deixou as pernas debaixo de um automóvel, Seu Ribeiro. Por que não andou mais depressa? É o diabo.

Capítulo oito

O caboclo mal-encarado que encontrei um dia em casa do Mendonça também se acabou em desgraça. Uma limpeza. Essa gente quase nunca morre direito. Uns são levados pela cobra, outros pela cachaça, outros matam-se.

Na pedreira perdi um. A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a conta. Deixou viúva e órfãos miúdos. Sumiram-se: um dos meninos caiu no fogo, as lombrigas comeram o segundo, o último teve angina e a mulher enforcou-se.

Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente.

Concluiu-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto. Ficou tudo confortável e bonito. Naturalmente deixei de dormir em rede. Comprei móveis e diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não utilizo, porque não sei para que servem.

Aqui existe um salto de cinco anos, e em cinco anos o mundo dá um bando de voltas.

Ninguém imaginará que, topando os obstáculos mencionados, eu haja procedido invariavelmente com segurança e percorrido, sem me deter, caminhos certos. Não senhor, não procedi nem percorri. Tive abatimentos, desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que andei mal? A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de São Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las.

Alcancei mais do que esperava, mercê de Deus. Vieram-me as rugas, já se vê, mas o crédito, que a princípio se esquivava, agarrou-se comigo, as taxas desceram. E os negócios desdobraram-se automaticamente. Automaticamente. Difícil? Nada! Se eles entram nos trilhos, rodam que é uma beleza. Se não entram, cruzem os braços.

Mas se virem que estão de sorte, metam o pau: as tolices que praticarem viram sabedoria. Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. Conheço indivíduos preguiçosos que têm faro: quando a ocasião chega, desenroscam-se, abrem a boca e engolem tudo.

Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorável nas seguintes.

Depois da morte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamações.

- Minhas senhoras, Seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto. E quem não gostar, paciência, vá à justiça.

Como a justiça era cara, não foram à justiça. E eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando direito. Respeitei o engenho do Dr. Magalhães, juiz.

Violências miúdas passaram despercebidas. As questões mais sérias foram ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira.

Efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim compôs sobre ela dois artigos, chamou-me patriota,

citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito também publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe político local. Em conseqüência mordeu-me cem mil-réis.

Não obstante essa propaganda, as dificuldades surgiram. Enquanto estive esburacando São Bernardo, tudo andou bem; mas quando varei quatro ou cinco propriedades, caiu-me em cima uma nuvem de maribondos. Perdi dois caboclos e levei um tiro de emboscada. Ferimento leve, tenho a cicatriz no ombro. Exasperado, mandei mais cem mil-réis a Costa Brito e procurei João Nogueira e Gondim:

- Desorientem essas cavalgaduras. Olhem que estou fazendo obra pública e não cobro imposto. É uma vergonha. O município devia auxiliar-me. Fale com o prefeito, Dr. Nogueira. Veja se ele me arranja umas barricas de cimento para os mata-burros.

Não recebi o cimento, mas construí os mata-burros. Como os meus planos eram volumosos e adotei processos irregulares, as pessoas comodistas julgaram-me doido e deixaram-me em paz.

Tive por esse tempo a visita do governador do Estado. Fazia três anos que o açude estava concluído burrice, na opinião do Fidélis.

- Para que açude onde corre um riacho que não seca?

Realmente parecia não servir. Mas saiu dali, numa levada, a água que foi movimentar as máquinas do descaroçador e da serraria.

O governador gostou do pomar, das galinhas orpington, do algodão e da mamona, achou conveniente o gado limosino, pediu-me fotografias e perguntou onde ficava a escola.

Respondi que não ficava em parte nenhuma. No almoço, que teve champanhe, o Dr. Magalhães gemeu um discurso. S. Ex.a tornou a falar na escola. Tive vontade de dar uns apartes, mas contive-me.

Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos?

- Esses homens de governo têm um parafuso frouxo. Metam pessoal letrado na apanha da mamona. Hão de ver a colheita.

Levantando-se da mesa, Padilha, de olho vidrado, pediu-me em voz baixa cinqüenta mil-réis.

- Nem um tostão.

E fui mostrar ao ilustre hóspede a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar.

- Pois sim senhor. Quando V. Ex.a vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha. Mais tarde, enquanto dos alicerces da igreja olhávamos a paisagem, chamei de parte o advogado:

- Ó Dr. Nogueira, mande-me cá o Padilha amanhã. Preciso falar com ele, mas esse desgraçado nem se agüenta nas pernas. Não se esqueça, ouviu? Amanhã, quando ele curtir o pileque.

S. Ex.a despediu-se e aquela data ficou célebre. Os automóveis rolaram na estrada. Olhando a nuvem de poeira que levantavam, esfreguei as mãos:

- Com os diabos! Esta visita me traz uma penca de vantagens. Um capital. Quero ver quanto rende. A verdade é que, aparentando segurança, eu andava assustado com os credores. Ia bem, sem dúvida, o ativo era superior ao passivo, mas se aqueles malvados quisessem, capavam-me. Agora os receios diminuíam. A escola seria um capital.

Os alicerces da igreja eram também capital.

Continuei a esfregar as mãos. Com os diabos!

E decidi proteger as Mendonça. A minha prosperidade começara depois da morte do pai delas. Naquele tempo algumas braças de massapê valiam muito para mim. Ninharia, o massapê.

Senti pena das Mendonça. Mandaria no dia seguinte dar uma limpa no algodão de Bom-Sucesso, enfezado, coberto de mato. Muito por baixo, as Mendonça. O pai era safado, mas que culpa tinham as pobres? Resolvi abrir o olho para que vizinhos sem escrúpulos não se apoderassem do que era delas. Mulheres quase nunca se defendem. Pois se qualquer daqueles patifes tentasse prejudicá-las, estava embrulhado comigo.

Capítulo nove

No outro dia, de volta do campo, encontrei no alpendre João Nogueira, Padilha e Azevedo Gondim elogiando umas pernas e uns peitos. Elevaram a conversa.

- Mulher educada, afirmou João Nogueira. Instruída.

- E sisuda, acrescentou Azevedo Gondim. Padilha não achou qualidade que se comparasse aos peitos e às pernas.

- Realmente, murmurou esgaravatando as unhas com um fósforo.

João Nogueira lembrou-se de que era homem de responsabilidade. Bacharel, mais de quarenta anos, uma calvície respeitável. As vezes metia-se em badernas. Mas com os clientes só negócio. E a mim, que lhe dava quatro contos e oitocentos por ano para ajudar-me com leis a melhorar São Bernardo, exibia idéias corretas e algum pedantismo. Eu tratava-o por doutor: não poderia tratá-lo com familiaridade. Julgava-me superior a ele, embora possuindo menos ciência e menos manha. Até certo ponto parecia-me que as habilidades dele mereciam desprezo. Mas eram úteis e havia entre nós muita consideração. - Acompanhamos o nosso Padilha, disse Nogueira. Viemos andando. Como o passeio era agradável, com a fresca da tarde, cheguei cá, para consultá-lo.

Convidei-o silenciosamente olhando uma janela por onde se viam, sobre livros de escrituração, as suíças brancas e os óculos de Seu Ribeiro. Entramos no escritório.

Estávamos em princípio do mês. Abriu o cofre e entreguei ao advogado duas pelegas de duzentos. Seu Ribeiro tremeu no borrador um lançamento circunstanciado e afastou-se discretamente. João Nogueira sentou-se, passou o recibo, tirou papéis da pasta e explicou-me o estado de vários processos. Logo no primeiro convenci-me de que os quatrocentos mil-réis tinham sido gastos com proveito. Os outros também iam em bom caminho. O tabelião é que não inspirava confiança. E o oficial de justiça. Arame.

- Claro. Faça promessas, Dr. Nogueira. Não adiante um vintém. Prometa. O pagamento no fim, se eles forem honestos.

Inteirei-me de particularidades pouco interessantes, dei umas instruções a Seu Ribeiro e voltamos ao alpendre, onde Luís Padilha tinha recomeçado com Azevedo Gondim os elogios às pernas.

- De quem são as pernas?

- Da Madalena, respondeu Gondim. - Quem?

- Uma professora. Não conhece? Bonita. - Educada, atalhou João Nogueira.

- Bonita, disse outra vez Gondim. Uma lourinha, aí de uns trinta anos.

- Quantos? perguntou João Nogueira. - Uns trinta, pouco mais ou menos.

- Vinte, se tanto.

- É porque você não viu de perto, interrompeu Gondim. Se tivesse visto, não sustentava semelhante barbaridade.

- Como não? Vi muito de perto, em casa do Magalhães, no aniversário da Marcela. Tem vinte. - É porque você viu à noite. De manhã é diferente. Tem trinta.

Padilha, observando com tristeza as novilhas que pastavam no capim-gordura, à margem do riacho, e o açude, onde patos nadavam, suspirou e propôs vinte e cinco:

- É o que ela tem. Vinte e cinco.

Estirei os braços, fatigado de haver passado o dia inteiro ao sol, brigando com os trabalhadores.

- Muito bem, Padilha, vinte e cinco para acabar. Vocês jantam, não jantam? Voltam no automóvel. Preciso falar com você, Padilha.

Luís Padilha tinha recebido o recado e desde a véspera remexia o quengo, curioso.

- É isto. Creio que estou com vontade de abrir uma escola.

- Magnífico! exclamou Azevedo Gondim com um sorriso que lhe achatou mais o nariz. Aceitou o meu conselho, hem? Não há nada como a instrução.

O advogado passou os dedos pela testa e pressagiou, distraído, que a escola teria grande utilidade. Encolhi os ombros:

- Sei lá! Não acredito. Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Está claro que se poderia arranjar uma boa escola rural, com ensino razoável de agricultura e pecuária.

Mas onde vou encontrar técnicos? E que dinheirão! Por enquanto é apenas um bocado de leitura, escrita e conta. Você estará em condições de encarregar-se disso, Padilha?

Luís Padilha informou-se do ordenado e declarou que,vivia cheio de ocupações.

Devagarinho, foram clareando as lâmpadas da iluminação elétrica. Luzes também nas casas dos moradores. Se aqueles desgraçados que se apertavam lá embaixo, ao pé das cercas de Bom-Sucesso, tinham nunca pensado em alumiar-se com eletricidade! Luz até meia-noite. Conforto! E eu pretendia instalar telefones.

Casimiró Lopes aproximou-se, capengando.

- Vamos jantar. Mandei chamá-lo porque julguei que você necessitasse, Padilha. Desde que está ocupado, ponto final. Vamos para á mesa.

Durante o jantar Azevedo Gondim referiu o motivo da sua visita: tinha-se descoberto o paradeiro da velha Margarida.

- Que está dizendo! E você calado, Gondim! Azevedo Gondim encheu o copo:

- Mora em Jacaré-dos-Homens.

- Onde é isso?

- Em Pão-de-Açúcar. Recebi hoje uma carta. Os sinais, a idade, a cor, tudo confere. Vive com uma família que faz queijos. Já retirei o anúncio do Cruzeiro.

- Está direito. Vocês conhecem alguém em Pãode-Açúcar? Conhece alguém em Pão-de-Açúcar, Seu Ribeiro?

Não conheciam.

- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao Padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a Padre Silvestre.

É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem. E quando ela chegar, pode encomendar as miçangas, Gondim. Como se chamam?

- Clichês. Clichês e vinhetas.

- Pois sim. Mande buscar os clichês e as vinhetas, quando tivermos a velha.

- Estava aqui pensando na Padilha.

- E eu. Tirou-me a palavra da boca, atalhou João Nogueira. Convide a Madalena, Seu Paulo Honório. Excelente aquisição, mulher instruída.

- Até lhe enfeita a casa, Seu Paulo, gritou Azevedo Gondim.

- Tolice. Ando lá procurando bibelôs?

Padilha, meio desconcertado, rosnou, agarrando-se ao osso:

- Eu não disse que não aceitava. O que disse é que tenho muitas ocupações. Mas perguntei qual é o ordenado.

Entretido em desarticular uma asa de galinha, não respondi.

- Perguntei qual é o ordenado, tornou Padilha timidamente.

Coitado! Tão miúdo, tão chato, parecia um percevejo.

- Conforme. Nem sei quanto você vale. Uns cem mil-réis por mês. Ponhamos cento e cinqüenta a título de experiência. Casa, mesa, boas conversas, cento e cinqüenta mil-réis por mês e oito horas de trabalho por dia. Convém? Mas aviso logo: serviço é serviço, e aqui ninguém bebe. Aqui só bebem os hóspedes.

- Perfeitamente, mastigou Padilha encabulado. Vou refletir. Quanto à bebida dispenso recomendação, que não bebo. Bebo nas refeições, nem sempre, e lá uma vez ou outra um cálice, por insistência de amigos. Talvez aceite.

Acabamos o jantar em silêncio. Maria das Dores trouxe o café e retirou os pratos. Abri a caixa de charutos, acendi o cachimbo e fomos para o salão. Seu Ribeiro desdobrou a Gazeta. Instintivamente escondi-me num canto, afastado das portas abertas. Não consegui evitar uma janela. Quis fechá-la, mas sosseguei: Casimiro Lopes, que vigiava a casa, sentou-se numa das paredes começadas da igreja, acomodou o rifle entre as pernas e ficou imóvel, farejando.

- Vai o nosso Padilha voltar a São Bernardo, disse João Nogueira.

- E concluir o livro, acrescentou Azevedo Gondim. Você, com a vida regularizada, escreve à beça, Padilha.

- Qual nada!

Envergonha-se de compor uns contos que publica no Cruzeiro, com pseudônimo, e quando lhe falam neles, imagina que é esculhambação e atrapalha-se. Aprumou-se, lançou um olhar amargurado às cadeiras, ao soalho, às lâmpadas:

- O ordenado é pequeno, não chega para os livros. Mas venho. Venho porque se trata de instrução e tenho embocadura para o magistério.

Seu Ribeiro virava a folha do jornal, movia os beiços, às vezes gesticulava.

Indecente, aquela Gazeta. E o Brito, a pedir dinheiro, estava-se tornando insuportável.

Azevedo Gondim, cansado por duas léguas a pé, bocejou e espreguiçou-se:

- Então os candidatos do Pereira são derrotados, hem?

Eleição municipal.

- Não interessa. Bico de pena!

Torcidas de verdade, sim: mandava os meus eleitores às umas e recebia em troca os agradecimentos do partido. Tricazinhas locais, não. Se o Pereira tinha pisado em casca de banana, pior para ele: caía, vinha outro e arranjava-se nova chapa.

- Bem-feito, resmungou Padilha, que não perdoava ao Pereira ter desconfiado dos seus projetos de agricultura. Aquilo é um jumento.

- Que injustiça! bradou João Nogueira sorrindo. O Pereira até agora foi um sujeito de tino. Todo o mundo gabava a prudência dele. Hoje o Padilha tacha-o de jumento.

- Homem, aventurou Azevedo Gondim coçando a barba, não é só o Padilha. Eu também. E você. Num momento como este dar murro em faca de ponta! Se tivéssemos uma eleição federal de cabala, vá. Mas quando o governo não faz caso de votos, querer sacudir Padre Silvestre na Prefeitura! O Padilha tem razão.

- Ora essa! atalhei. Você não sustentou a candidatura do vigário no jornal, Gondim?

- Sustentei. Sustentei por dever de solidariedade política. Mas particularmente discordei. O Nogueira está aí para atestar. E quanto a dizer que era disparate, era.

Sabia que Padre Silvestre falara em cortar a subvenção de cento e cinqüenta mil-réis mensais que o município dava ao Cruzeiro. Tinha esta ameaça atravessada na garganta.

E, cheio de raiva, defendia o vigário, exaltando-lhe as virtudes e esquecendo o resto de propósito.

- Um desastre. Bom homem. É pouco. Muito ingênuo, emprenha pelos ouvidos, inteligência de peru novo, besta como aruá.

- Padres! exclamou Luís Padilha com desprezo. Era ateu e transformista. Depois que eu o havia desembaraçado da fazenda, manifestava idéias sanguinárias e pregava, cochichando, o extermínio dos burgueses.

- Canalha!

E roeu as unhas com furor.

Seu Ribeiro, os óculos atentos, comentava em silêncio, com gestos de desagrado, a prosa ruim do Brito.

- O que eu não compreendo, estranhei, é a razão dessa rasteira no vigário. Estava quase eleito, reconhecido, empossado, e de repente zás! no chão. Por que foi?

- Padre Silvestre é revolucionário, explicou João Nogueira. Pretende salvar o país por processos violentos.

Estremeci. Casimiro Lopes, de binga na mão, acendia o cigarro. O luar estava muito branco. Um pedaço de mata aparecia, longe, e distinguiam-se as flores amarelas dos paus-d'arco.

Levantei-me, fiz um sinal a João Nogueira e aproximamo-nos da janela.

- Ó Dr. Nogueira, diga-me cá, perguntei em voz baixa, essa história da queda do Pereira é certa? João Nogueira aceitou um charuto e declarou que não havia dúvida nenhuma.

- O governador estava razoável e propôs um acordo metendo o padre no conselho. O Pereira jogou no padre e levou taboca.

- Pois, Dr. Nogueira, murmurei abafando mais a voz, cuido que chegou a ocasião de liquidar os meus negócios com o Pereira. Tenho marombado, espiado maré, porque o chefe era ele. Mas se foi ao barro, acabou-se. Está aqui enrascado numa conta de cabelos brancos. Vou entregar-lhe a conta. Veja se me consegue uma hipoteca.

- Perfeitamente, concordou João Nogueira.

E entusiasmou-se:

- Perfeitamente! Passe a procuração. O senhor vai prestar ao partido um grande serviço. Aperte o Pereira, Seu Paulo Honório.

Capítulo dez

Aqui nos dias santos surgem viagens, doenças e outros pretextos para o trabalhador gazear. O domingo é perdido, o sábado também se perde, por causa da feira, a semana tem apenas cinco dias, que a Igreja ainda reduz. O resultado é a paga encolher e essa cambada viver com a barriga tinindo.

Num feriado de mentira, não tendo podido encontrar gente para tirar baronesas do açude e brocar um pedaço de capoeira, distraí-me ouvindo Padilha e Casimiro Lopes conversarem a respeito de onças.

Não se entendem. Padilha, homem da mata e franzino, fala muito e admira as ações violentas; Casimiro Lopes é coxo e tem um vocabulário mesquinho. Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião arregala os olhos e dá um pequeno assobio. Gagueja. No sertão passava horas calado, e quando estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, meia dúzia delas. Ultimamente, ouvindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns termos, que empregava fora de propósito e deturpados. Naquele dia, por mais que forcejasse, só conseguia dizer que as onças são bichos brabos e arteiros.

- Pintada. Dentão grande, pezão grande, cada unha! Medonha!

Padilha exigia que o outro repetisse a descrição e ia intercalando nela, por conta própria, caracteres novos. Casimiro Lopes divergia; mas, confiado na ciência de Padilha, capitulava e ao cabo de minutos a onça estava um animal como nunca se viu.

- ó Casimiro, você vai levar um papel ao vigário. E escrevi a Padre Silvestre agradecendo o interesse que ele tinha tomado pela viagem difícil de Margarida. Chegara dias antes e estava alojada numa casinha cercada de bananeiras.

Entreguei a carta a Casimiro Lopes, tomei o chapéu e fui fazer a minha segunda visita à preta. Desci a ladeira. Ao atravessar o paredão do açude, amedrontei uma nuvem de marrecas e jaçanãs. Com as últimas chuvas a represa aumentara muito, os bancos de baronesa estavam com vontade de entupir o sangradouro. A levada que ia ter ao descaroçador e à serraria transbordava. Fechada a serraria, fechado o descaroçador. Dia perdido.

Encontrei Margarida sentada numa esteira, riscando os tijolos com carvões.

- Mãe Margarida, como vai a senhora?

Tentou endireitar o espinhaço emperrado e, antes de lançar-me os olhos brancos, reconheceu-me pela voz.

- Aqui gemendo meu filho, cheia de pecados.

Pecados! Antigamente era uma santa. E agora, miudinha, encolhidinha, com pouco movimento e pouco pensamento, que pecados poderia ter? Como estava com a vista curta, falou sem levantar a cabeça, repetindo os conselhos que me dava quando eu era menino.e chorando,

Uma fraqueza apertou-me o coração, aproximei-me, sentei-me na esteira, junto dela.

- Mãe Margarida, procurei a senhora muito tempo. Nunca me esqueci. Foi uma felicidade encontrá-la. E carecendo de alguma coisa, é dizer. Mande buscar o que for necessário, Mãe Margarida, não se acanhe.

Olhou com espanto as cadeiras, a mesinha, a lâmpada elétrica, os móveis do quarto próximo.

- Para que tanto luxo? Guarde os seus troços, que podem servir. Em cama não me deito. E quem dá o que tem a pedir vem.

- Não faz mal, Mãe Margarida. Esteja sossegada, durma sossegada.. Faltando lenha para o fogo, avise. Não deixe o fogo apagar-se, que as noites estão frias.

- É o que eu preciso, o fogo. O fogo e um pote. Continuou a riscar figuras no chão. Curvada, um rosário de contas brancas e azuis aparecia pelo cabeção aberto e batia-lhe nas pelancas dos peitos.

- Queria também um tacho. O outro furtaram. Lembrei-me do tacho velho, que era o centro da pequenina casa onde vivíamos. Mexi-me em redor dele vários anos, lavei-o, tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre e dele recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quase toda a vida. Ou foi ele que a utilizou. Agora, decrépita, não podia ser doceira, e aquele traste se tornava inteiramente desnecessário.

- Está bem, Mãe Margarida, terá um tacho igual ao outro.

Capítulo onze

Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma idéia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar.

A que eu conhecia era a Rosa do Marciano, muito ordinária. Havia conhecido também a Germana e outras dessa laia. Por elas eu julgava todas. Não me sentia, pois, inclinado para nenhuma: o que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernardo.

Tentei fantasiar uma criatura alta, sadia, com trinta anos, cabelos pretos mas parei aí. Sou incapaz de imaginação, e as coisas boas que mencionei vinham destacadas, nunca se juntando para formar um ser completo. Lembrei-me de senhoras minhas conhecidas: Dona Emília Mendonça, uma Gama, a irmã de Azevedo Gondim, Dona Marcela, filha do Dr. Magalhães, juiz de direito.

Nesse ponto surgiu-me um pequeno contratempo. Uma tarde surpreendi no oitão da capela (a capela estava concluída; faltava pintura) Luís Padilha discursando para Marciano e Casimiro Lopes:

- Um roubo. É o que tem sido demonstrado categoricamente pelos filósofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma légua de terra, casas, mata, açude, gado, tudo de um homem. Não está certo.

Marciano, mulato esbodegado, regalou-se, entronchando-se todo e mostrando as gengivas banguelas: - O senhor tem razão, Seu Padilha. Eu não entendo, sou bruto, mas perco o sono assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros. É ou não é, Casimiro?

Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o começo do mundo tinham dono.

- Qual dono! gritou Padilha. O que há é que morremos trabalhando para enriquecer os outros. Saí da sacristia e estourei:

- Trabalhando em quê? Em que é que você trabalha, parasita, preguiçoso, lambaio?

- Não é nada não, Seu Paulo, defendeu-se Padilha, trêmulo. Estava aqui desenvolvendo umas teorias aos rapazes.

Atirei uma porção de desaforos aos dois, mandei que arrumassem a trouxa, fossem para a casa do diabo.

- Em minha terra não, acabei já rouco. Puxem! Das cancelas para dentro ninguém mija fora do caco. Peguem as suas burundangas e danem-se. Com um professor assim, estou bonito. Dou por visto o que este sem-vergonha ensina aos alunos.

Mais tarde, porém, cheio de embromações e lamúrias, Padilha jurou por todos os santos que a escola funcionava normalmente e fazia cortar coração deixar tantas crianças sem o pão do saber. Quanto às teorias, aquilo era só para matar tempo e empulhar o Casimiro.

- Eu meto a mão em cumbuco? Sou lá capaz de propagar idéias subversivas?

No outro dia pela manhã, choramingando, balbuciando peditórios, a Rosa, com cinco filhos (três agarrados às saias, um nos braços, outro no bucho), atracou-me no pomar. E eu, que não tenho grande autoridade junto dela, sosseguei-a:

- Mande-me cá o Marciano, aquele cachorro. Até logo, vou ver.

À noite reuni Marciano e Padilha na sala de jantar, berrei um sermão comprido para demonstrar que era eu que trabalhava para eles. Mas atrapalhei-me e contentei-me com injuriá-los:

- Mal-agradecidos, estúpidos. Amunhecaram, e baixei a pancada:

- Juízo de galinha. Embarcando em canoa furada! Tontos.

Dei-lhes conselhos. Encontrando macieza, Luís Padilha quis discutir; torneia zangar-me, e ele se convenceu de que não tinha razão. Marciano encolhia-se, levantava os ombros e intentava meter a cabeça dentro do corpo. Parecia um cágado. Padilha roia as unhas.

- Por esta vez passa. Mas se me constar que vocês andam com saltos de pulga, chamo o delegado de polícia, que isto aqui não é a Rússia, estão ouvindo? E sumam-se.

Sumiram-se. Ficou-me um resto de indignação, depois serenei.

- Faz de conta que não houve nada.

Lorotas. Todos esses malucos dormem demais, falam à toa.

- Marciano, coitado, nem por isso. Trata bem do gado, é marido da Rosa.

Quanto ao Padilha, eu sentia prazer em humilhá-lo mostrando-lhe os melhoramentos que introduzi na propriedade.

E recomecei a elaborar mentalmente a mulher a que me referi no princípio deste capítulo. Revistei a Mendonça, a Gama, a irmã do Gondim (eu nem sabia como se chamava a Gondim) e Dona Marcela do Dr. Magalhães. Dona Marcela era um pancadão. Cada olho! O que tinha de ruim era usar muita tinta no rosto e muitos ss na conversa. Paciência.

Perfeito só Deus.

Bambeava para me dirigir ao Dr. Magalhães quando Costa Brito voou para cima de mim, numa carta, com a intenção de avançar-me em duzentos mil-réis.

Costa Brito tinha virado. A Gazeta, que sempre louvara furiosamente o governo, fugira para a oposição, por causa de um emprego de deputado estadual, e achava a administração pública desorganizada, entregue a homens incompetentes. A nós que votávamos com o partido dominante, mas não éramos peixe nem carne queixumes, nariz torcido, modos de enjôo. Da minha última viagem à capital, em troca de uma notícia besta de quatro linhas, o diretor da Gazeta ainda me lambera cinqüenta milréis, no café, bebendo cerveja com indignação:

- Querem jornal de graça. Para o inferno! A vida inteira escrevendo como um condenado, mentindo, para esses moços subirem! Só a despesa que se tem! Só o preço do papel! E na eleição, coice. Nem uma porcaria, uma desgraça que qualquer prefeito analfabeto consegue com facilidade. Querem elogios. Está aqui para eles.

Eu não precisava do Brito, mas passei o dinheiro, em atenção a serviços prestados anteriormente e porque não gosto de questões com gente de imprensa. Depois aludi à crise e dei a entender que não continuava a sangrar.

Mas o Brito tem barriga de ema: desprezou o aviso e mandou-me diversas cartas, as primeiras com choro, as últimas com exigências. Essa que me vinha embrulhar os planos de casamento trazia ameaças. Recusei o cobre, num telegrama: "Inútil insistir. Fartíssimo".

Tinha graça viver aqui suando para sustentar um literato. Eu era pai dele?

- Quem pariu mateu que o balance. Uma ou outra facada razoável, com moderação, vá. Ameaças, não. Chantagem, não.

Que diabo diria ele contra mim na folha? Não sendo funcionário público, as minhas relações com o partido limitavam-se a aliciar eleitores, entregar-lhes a chapa oficial e contribuir para música e foguetes nas recepções do governador. O veneno da Gazeta não me atingia. Salvo se ela bulisse com os meus negócios particulares. Nesse caso só me restava pegar um pau e quebrar as costelas do Brito.

Recalquei as idéias violentas e esforcei-me por trazer de novo ao espírito as tintas e os ss de Dona Marcela. Vieram. Mas afastavam-se de quando em quando e nos intervalos apareciam Marciano, a Rosa com os meninos, Luís Padilha e Costa Brito.

Capítulo doze

A questão do Pereira estava dormindo no cartório, esperando que o juiz de direito desse uma penada nos autos. João Nogueira disse-me isso uma tarde. Eu então, ligando o caso do Pereira aos predicados de Dona Marcela, desci no dia seguinte à cidade, resolvido a visitar o Dr. Magalhães.

Encontrei-o à noitinha no salão, que servia de gabinete de trabalho, com a filha e três visitantes: João Nogueira, uma senhora de preto, alta, velha, magra, outra senhora moça, loura e bonita.

Estavam calados, em dois grupos, os homens separados das mulheres.

O Dr. Magalhães é pequenino, tem um nariz grande, um pincenez e por detrás do pincenez uns olhinhos risonhos. Os beiços, delgados, apertam-se. Só se descolam para o Dr. Magalhães falar a respeito da sua pessoa. Também quando entra neste assunto, não pára.

Naquele momento, porém, como já disse, conservavam-se todos em silêncio. Dona Marcela sorria para a senhora nova e loura, que sorria também, mostrando os dentinhos brancos. Comparei as duas, e a importância da minha visita teve uma redução de cinqüenta por cento.

Larguei, pois, Dona Marcela e procurei, por meios indiretos, arrancar do juiz as linhas indispensáveis ao advogado.

O Dr. Magalhães passou a mão pela testa e perguntou:

- Quais são os jornais que o senhor assina? Respondi que assinava revistas de agricultura, a folha do partido, o Cruzeiro e a Gazeta. Elogiei Azevedo Gondim e ataquei o Brito.

- Um caradura, não é?

O Dr. Magalhães amoitou-se. João Nogueira foi à estante de duas prateleiras, tirou um livro, voltou a sentar-se e começou a ler.

Houve no outro lado da sala um sussurro entrecortado de risinhos.

Necessitando pensar, pensei que é esquisito este costume de viverem os machos apartados das fêmeas. Quando se entendem, quase sempre são levados por motivos que se referem ao sexo. Vem daí talvez a malícia excessiva que há em torno de coisas feitas inocentemente. Dirijo-me a uma senhora, e ela se encolhe e se arrepia toda.

Se não se encolhe nem se arrepia, um sujeito que está de fora jura que há safadeza no caso.

- Não tem aparecido ultimamente no cinema, hem? disse em voz alta a senhora de preto.

- Faz quinze dias, Dona Glória, respondeu Dona Marcela. Acho que faz quinze dias. Õ papai, quanto tempo faz que nós fomos ao cinema?

O Dr. Magalhães calculou. Tirou do bolso um cigarro, dividiu-o em duas partes, transformou uma delas num cigarrinho fino, acendeu-o:

- Duas semanas.

- É isso mesmo, quinze dias.

- Não, discordou o Dr. Magalhães, duas semanas. Você está equivocada.

- Duas semanas não são quinze dias? perguntou Dona Marcela.

- Não. Duas semanas são catorze dias. Dona Marcela não se convenceu:

- Sempre ouvi dizer que duas semanas são quinze dias.

- Eu também tenho ouvido, confessou o Dr. Magalhães. Tenho ouvido até muitas vezes. Mas é engano. Uma semana tem sete dias. Sete e sete não são catorze? E então?

- São catorze.

João Nogueira soltou o livro. Talvez Dona Marcela contasse com o dia do cinema.

- É possível, acedeu o Dr. Magalhães. Não contando, são catorze.

- Mas contando, são quinze, gritou Dona Marcela.

- É bom não contar, aconselhou o Dr. Magalhães.

Despertaram todos, e a lourinha fez um movimento para se levantar. - Muito cedo, murmurou Dona Marcela.

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