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São Bernardo

Graciliano Ramos

A senhora de preto continuou sentada e entrou a discorrer sobre romances. Dona Marcela tinha acabado um, de aventuras. Ia ver se se lembrava do enredo. Mas enganchou-se e não acertou com os nomes das personagens. Recomeçou, tornou a enganchar-se:

- Um romance que faz gosto, Dona Glória.

- Eu não gosto de literatura, disse o Dr. Magalhães. Folheei algumas obras antigamente. Hoje não. Desconheço tudo isso. Sou apenas juiz, pehiu! juiz.

Dona Marcela estava quase acertando com o enredo do romance de aventuras. Dona Glória escutava. A loura tinha a cabecinha inclinada e as mãozinhas cruzadas, lindas mãos, linda cabeça.

- Quando julgo, anunciava o Dr. Magalhães, abstraio-me, afasto os sentimentos.

- Estive comentando isso ontem à tarde com o Dr. Nogueira, atalhei.

O Dr. Magalhães agradeceu.

- Para proceder assim é necessário ter independência. Eu tenho independência. Que é que eles podem fazer comigo? Não preciso deles.

Ignoro a que pessoas se referia o Dr. Magalhães. João Nogueira tocou-lhe no ombro e cochichou. Compreendi que se tratava do negócio do Pereira.

Levantei-me, arredei-me, para não prejudicar a integridade do juiz e para desemburrar-me um pouco. Fui à janela, acendi o cachimbo.

Dona Marcela ia terminando a narração do romance. O advogado estava satisfeito. Apertei nos dentes o cachimbo e esfreguei as mãos com força:

- Ora muito bem. Que me dizem os senhores da chapa do partido? Não conheço os candidatos, mas suponho que há uns dois ou três oradores arrojados.

- O senhor acredita nisso? perguntou João Nogueira.

- Em quê?

- Eleições, deputados, senadores.

Retraí-me indeciso, porque não tinha idéias seguras a respeito dessas coisas.

- A gente se acostuma com o que vê. E eu, desde que me entendo, vejo eleitores e umas. Às vezes suprimem os eleitores e as umas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam.

João Nogueira refletiu um instante:

- O que eu acho é que os deputados e os senadores são inúteis e comem demais.

Ia responder, mas notei que o Dr. Magalhães se mexia: Fiquei com a resposta nas goelas. Ele conteve-se, e estivemos um minuto nesse jogo, cada um esperando pelo outro. Observei então que a mocinha loura voltava para nós, atenta, os grandes olhos azuis.

De repente conheci que estava querendo bem à pequena. Precisamente o contrário da mulher que eu andava imaginando mas agradava-me, com os diabos. Miudinha, fraquinha.

Dona Marcela era bichão. Uma peitaria, um pé de rabo, um toitiço!

Como o silêncio se prolongasse, repliquei ao Nogueira, quase me dirigindo à lourinha:

- Existem coisas inúteis que nós conservamos. Eu conservo este cachimbo, que é inútil e até me faz mal.

Enchi o cachimbo:

- Que, para ser franco, nem sei se ele é inútil. Talvez não seja. Por isso vou às eleições. O senhor com certeza não quer acabar com as leis.

O Dr. Magalhães, para quem a lei escrita é como o ar, escandalizou-se:

- Oh!

- Não, tornou João Nogueira. Que essas do Congresso ordinariamente não prestam. O que é bom acabar é o Congresso. As leis deviam ser feitas por especialistas.

- Ah! suspirou o Dr. Magalhães, aliviado.

Leis ou decretos, desde que estivessem no papel, em forma, era tudo o mesmo. Cruzou as pernas, balançou a cabeça, estirou o beiço e levantou um dedo: - O que precisamos é uma elite.

- Perfeitamente, apoiou João Nogueira, uma oligarquia.

Mas o Dr. Magalhães embirrou com o nome: - Ah! não.

- Ora essa! exclamou João Nogueira. Só podemos ter no governo uma elite de poucos indivíduos. oligarquia.

- Mas que é que a oposição faz. senão berrar nos jornais e nos meetings contra isso? perguntei. - A oposição não sabe o que diz. Nós temos lá oligarquia? Temos uma quantidade enorme de cavadores no poder. Só os congressistas! E os ministros, os presidentes, os governadores, os secretários, os políticos do sul. Muito dente roendo o tesouro. E que súcia! Veja os nossos representantes no Congresso federal. Que diz, Seu Magalhães? O Dr. Magalhães não dizia nada.

- Nunca leio política. Sou apenas juiz. Estudo, compulso os meus livros, pehiu! Acordo cedo, tomo uma xícara de café, pequena, faço a barba, vou ao banho. Depois passeio pelo quintal, volto, distraio-me com as revistas e almoço, pouco, por causa do estômago. Descanso uma hora, escrevo, consulto os mestres. Janto, dou um giro pela cidade, à noite recebo os amigos, quando aparecem, durmo.

Dona Glória não se conteve:

- Obra com acerto, é preciso preservar a saúde. João Nogueira deu ao rosto uma expressão safada: - Sem dúvida, é preciso preservá-la. Mas, como íamos dizendo, isto nunca foi oligarquia. Há gente demais.

- Pois se, havendo tanta, a oposição grita, imagine se o número fosse menor. Aí é que a gritaria não findava.

- Por quê?

- Porque muitos dos que estão em cima estariam embaixo, o descontentamento seria maior. Como o advogado se aproximasse da janela, soprei-lhe ao ouvido:

- Ele prometeu o despacho?

João Nogueira afirmou com um gesto. Despedi-me:

- Não concordo com o senhor não, Dr. Nogueira. A República mos ...

- Reflita.

- Eu por mim sou apenas juiz, disse o Dr. Magalhães. Estudo, consulto os bons autores...

Demorei-me até que ele terminasse, despedi-me pela segunda vez e saí.

Percorri a cidade, bestando, impressionado com os olhos da mocinha loura e esperando um acaso que me fizesse saber o nome dela. O acaso não veio, e decidi procurar João Nogueira, informar-me do nome, posição, família, as particularidades necessárias a quem pretende dar uma cabeçada séria. Às dez horas fui à redação do Cruzeiro, mas só encontrei Arquimedes, compondo. Estive no bilhar do Sousa. Não havia fregueses; apenas um, meio golado.

- O Dr. Nogueira deve estar em casa da Ernestina.

Eu não sabia onde era a casa da Ernestina. Cerca de meia-noite descobri o advogado no hotel, discutindo poesia com Azevedo Gondim. Escutei uma hora, desejoso de instruir-me. Não me instruí.

- Dr. Nogueira, faz obséquio? É um instante, Gondim.

Mas tive acanhamento de tocar naquele assunto delicado, receei tornar-me ridículo, imaginei que podia o Nogueira andar também arrastando a asa para a lourinha e, sentindo uma espécie de despeito, pedi informações minuciosas sobre o processo do Pereira.

Capítulo treze

Tornei a encontrar a mocinha loura. Eu voltava da capital, aonde tinha ido por causa do semvergonha do Brito.

A coisa se deu assim. Depois do meu telegrama (lembram-se: o telegrama em que recusei duzentos mil-réis àquele pirata), a Gazeta entrou a difamar-me. A princípio foram mofinas cheias de rodeios, com muito vinagre, em seguida o ataque tornou-se claro e saíram dois artigos furiosos em que o nome mais doce que o Brito me chamava era assassino. Quando li essa infâmia, armei-me de um rebenque e desci à cidade.

- O que o senhor deve fazer é processá-lo, aconselhou João Nogueira. É _fácil metê-lo na cadeia. - E querendo defender-se, tem cá o Cruzeiro, insinuou Azevedo Gondim.

Pode escrever. Ou então escrevo eu, ou escreve o Nogueira. Infelizmente o Cruzeiro circula pouco. Mas é o que temos. Disponha.

- Obrigado, Gondim; obrigado, Dr. Nogueira. Depois resolvemos. Não vale a pena quebrar a cabeça com uma -tolice dessa.

E ficamos no hotel até onze da noite, jogando dominó a tostão o tento.

No outro dia tomei o trem, ferrei no sono e acordei às dez horas, na estação central. Logo ali, com o rebenque debaixo do braço, comecei a examinar as caras.

Subi a Rua do Comércio, dobrei o Livramento, a Alegria, parei em frente à Gazeta. Olhei um instante, pelas grades, as caixetas imundas, entrei, atravessei a sala de composição, a de impressão e, lá no fundo, desemboquei na redação, onde só estava um rapaz amarelo preparando telegramas com os jornais do Recife da véspera.

O diretor tinha ido a Pajuçara.

- Obrigado.

Voltei pelo mesmo caminho e estive uma hora no relógio oficial, observando os passageiros dos bondes da Ponta-da-Terra. Afinal surgiu o focinho de rato do Brito.

- Olá!

Recuou, tentou retomar o estribo, mas o carro já ia longe. Franziu a testa com dignidiade. Vendo o rebenque, empalideceu e gaguejou:

- Bons olhos o vejam. Que sorte! Sim senhor, precisamos conversar.

Agarrei-lhe o braço, puxei-o para junto do relógio e disse-lhe, quase cochichando para não espantar os transeuntes:

- Então, seu filho de uma égua, esses artigos... - Aquilo é matéria paga, explicou o Brito. Seção livre, não viu logo? Vamos à redação, lá nos entendemos melhor.

Em resposta passei-lhe os gadanhos no cachaço e dei-lhe um bando de chicotadas. Juntaram-se muitas pessoas, um guarda-civil apitou, houve protestos, gritos, afinal Costa Brito conseguiu escapulir-se e azulou pelo Comércio, em direção aos Martírios.

Encaminhei-me ao hotel, mas nem tive tempo de almoçar, porque fui chamado à policia. Apertaram-me com interrogatórios redundantes, perdi o trem das três e não consegui demonstrar ao delegado que ele era ranzinza e estúpido. Aborrecido, aporrinhado, recorri a um bacharel (trezentos mil-réis,fora despesas miúdas com automóveis, gorjetas, etc.) e embarquei vinte e quatro horas depois, levando nos ouvidos um sermão do secretário do Interior, que me seringou liberdade de imprensa e outros disparates.

No vagão comprei os jornais do dia. Nenhum noticiava o espalhafato. Camaradas. Comecei a ler umas coisas interessantes sobre a apicultura. Pouco a pouco esqueci as burrices do delegado e o liberalismo do secretário. E reconciliado com o Brito, confessei a mim mesmo que ele tinha bom coração e provavelmente não reincidiria.

Concentrei-me na leitura. Efetivamente as abelhas seriam para nós uma fonte de riqueza.

Nesse ponto veio sentar-se a meu lado uma senhora vestida de preto. Como o sol a incomodasse baixei a portinhola.

- Agradecida.

Reparando nela, reconheci a mulher que, um mês antes, em casa do Dr. Magalhães, escutava o romance de Dona Marcela.

- Não tem de quê, Dona Glória.

Notei que ela estava com um pacote a furar-se nos joelhos agudos e pedi-o, coloquei-o junto à minha bagagem. Era uma velha acanhada: sorriso insignificante e modos de pobre. O trem pôs-se em movimento. E encetamos um diálogo que se foi animando até nos tornarmos amigos.

- Esta Great Westemé uma joça. Porcaria! Isto nunca foi carro. Que chiqueiro!

Inicio de ordinário com frases assim as minhas viagens a trem. Dona Glória sobressaltou-se, receando que a companhia ouvisse. Em tom confidencial, achou que os carros não eram bons.

- Péssimos, Dona Glória.

Ela atentou em mim com respeito: - Creio que já nos vimos. Não me minha memória é uma lástima.

- Em casa do juiz, o mês e uma mocinha loura ... Arregalou os olhos.

- Ah! sim.

E a conversa caiu. Para levantá-la, abri o jornal e preguei-lhe um dedo:

- Está aqui um artigo baita sobre a apicultura. O autor disto é osso.

Não compreendeu. De repente exclamou: - Agora me recordo. O senhor estava Dr. Nogueira, discutindo política.

- É isso mesmo. Houve uma pausa. - O senhor mora na capital? - Não, moro no interior.

- Em Viçosa?

- É.

- Eu também, há pouco tempo. cidade pequena... Horrível, não é?

- A cidade pequena? E a grande. Tudo é horrível. Gosto do campo, entende? do campo.

Dona Glória fechou a cara:

- Mato? Santo Deus! Mato só para bicho. E o senhor vive no mato?

- Em São Bernardo.

Dona Glória não conhecia São Bernardo, e essa ignorância me ofendeu, porque para mim São Bernardo era o lugar mais importante do mundo.

- Uma boa fazenda! Não há lá essa água podre que se bebe por aí. Lama. Não senhora, há conforto, há higiene.

Dona Glória retificou a espinha, ergueu a voz e desfez o ar apoucado:

- Não me dou. Nasci na cidade, criei-me na cidade. Saindo daí, sou como peixe fora da água. Tanto que estive cavando transferência para um grupo da capital. Mas é preciso muito pistolão. Promessas ... - Ah! É professora?

- Não. Professora é minha sobrinha.

- Aquela moça que estava com a senhora em casa do Dr. Magalhães?

- Sim.

- E como é a graça de sua sobrinha, Dona Glória?

- Madalena. Veja o senhor. Fez um curso brilhante ...

- Espere lá. O Nogueira e o Gondim me falaram nela. Mulher prendada, bonita. Perfeitamente. O Gondim falou muito. O Gondim do Cruzeiro, um da venta chata.

- Sei.

E recolheu, sorrindo, os elogios à sobrinha.

- Pois uma menina como aquela encafuar-se num buraco, Seu...

- Paulo Honório, Dona Glória. Faz pena. Isso de ensinar bê-a-bá é tolice. Perdoe a indiscrição, quanto ganha sua sobrinha ensinando bê-a-bá?

Dona Glória baixou a voz para confessar que as professoras de primeira entrância tinham apenas cento e oitenta mil-réis.

- Quanto?

- Cento e oitenta mil-réis.

- Cento e oitenta mil-réis? Está aí! É uma desgraça, minha senhora. Como diabo se sustenta um cristão com cento e oitenta mil-réis por mês? Quer que lhe diga? Faz até raiva ver uma pessoa de certa ordem sujeitar-se a semelhante miséria. Tenho empregados que nunca estudaram e são mais bem pagos. Por que não aconselha sua sobrinha a deixar essa profissão, Dona Glória?

Dona Glória referiu-se à dificuldade de arranjar empregos e ao montepio.

- Que montepio! Isso vale nada! E empregos... Vou indicar um meio de sua sobrinha e a senhora ganharem dinheiro a rodo. Criem galinhas.

Dona Glória formalizou-se, e um passageiro próximo, como eu gritava entusiasmado, pôs-se a rir. Era um mocinho de bigodinho e rubi no dedo. Aproximei dele o rosto cabeludo e a mão cabeluda:

- O senhor está rindo sem saber de quê. Vejo que possui uma carta. Quanto lhe rende? Se não tem pai rico, deve ser promotor público. Faria melhor negócio criando galinhas.

O mocinho encabulou.

- Boa ocupação, Dona Glória, ocupação decente. Se quiser dedicar-se a ela, recomendo-lhe a orpington. Escola! Bestidade. Abri uma na fazenda e entreguei-a ao Padilha.

Sabe quem é? Um idiota. Mas diz ele que há progresso. E eu acredito. Pelo menos o Gondim e Padre Silvestre estiveram lá examinando a molecoreba e acharam tudo em ordem. Dona Glória enrugou e desenrugou a cara:

- Cada qual tem o seu meio de vida.

- História! Dê um salto a São Bernardo para eu lhe mostrar o que é uma lavoura de fazer água na boca.

Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. O discurso que atirei ao mocinho do rubi, por exemplo, foi mais enérgico e mais extenso que as linhas chochas que aqui estão. A parte referente à enxaqueca de Dona Glória (e a enxaqueca ocupou, sem exagero, metade da viagem) virou fumaça. Cortei igualmente, na cópia, numerosas tolices ditas por mim e por Dona Glória. Ficaram muitas, as que as minhas luzes não alcançaram e as que me pareceram úteis. É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço. Ora vejam. Quando arrastei Costa. Brito para o relógio oficial, apliquei-lhe uns quatro ou cinco palavrões obscenos. Esses palavrões, desnecessários porque não aumentaram nem diminuíram o valor das chicotadas, sumiram-se, conforme notará quem reler a cena da agressão, cena que, expurgada dessas indecências, está descrita com bastante sobriedade.

Uma coisa que omiti e produziria bom efeito foi a paisagem. Andei mal. Efetivamente a minha narrativa dá idéia de uma palestra realizada fora da terra. Eu me explico:

ali, com a portinhola fechada, apenas via de relance, pelas outras janelas, pedaços de estações, pedaços de mata, usinas e canaviais. Muitos canaviais, mas este gênero de agricultura não me interessa. Vi também novilhos zebus, gado que, na minha opinião, está acabando de escangalhar os nossos rebanhos.

Hoje isso forma para mim um todo confuso, e se eu tentasse uma descrição, arriscava-me a misturar os coqueiros da lagoa, que apareceram às três e quinze, com as mangueiras e os cajueiros, que vieram depois. Essa descrição, porém, só seria aqui embutida por motivos de ordem técnica. E não tenho o intuito de escrever em conformidade com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que é um erro. Vou dividir um capítulo em dois. Realmente o que se segue podia encaixar-se no que procurei expor antes desta digressão. Mas não tem dúvida, faço um capítulo especial por causa da Madalena.

Capítulo catorze

Na estação Dona Glória apresentou-me a sobrinha, que tinha ido recebê-la. Atrapalhei-me e, para desocupar a mão, deixei cair um dos pacotes que ia entregar ao ganhador.

- Muito prazer. Eu já conhecia a senhora de nome. E de vista. Mas não sabia que era uma pessoa só. Encontramo-nos há dias.

- Há um mês.

- Perfeitamente. Estive conversando sobre isso com sua tia, ótima companheira de viagem. Sim senhora, muito prazer.

Dirigi-me ao hotel. E como a casa delas era no meu caminho, saímos juntos.

- Dona Marcela disse-me que o senhor tem uma propriedade bonita, começou Madalena.

- Bonita? Ainda não reparei. Talvez seja bonita. O que sei é que é uma propriedade regular. E embuchei, afobado. Até então os meus sentimentos tinham sido simples, rudimentares, não havia razão para ocultá-los a criaturas como a Germana e a Rosa. A essas azunia-se a cantada sem rodeios, e elas não se admiravam, mas uma senhora que vem da escola normal é diferente. Emburrei, pois, e contei os embrulhos que o ganhador equilibrava na cabeça. Fiz um esforço para endereçar amabilidades a Dona Glória:

- O convite está de pé, sim senhora, e eu tenho a sua promessa de ir passar uns dias na fazenda. Espero que leve a professora. Vem um automóvel, em dez minutos estão lá.

Dona Glória não tinha prometido nada.

Madalena espantou-se.

- Ah! não.

- Por quê? Agora com as férias... - Passeios... Isso é para rico.

E, sorrindo:

- Que diria sua família se o senhor metesse duas desconhecidas em casa?

Aí quem se espantou fui eu:

- Mas não tenho família, minha senhora, nunca tive. Vivo só, com Deus.

- Então é pior, respondeu Madalena. - Inconveniente, declarou Dona Glória. Cocei a barba:

- É pena. Um lugar tão bom para uma se refazer! Acabou-se. Se é inconveniente, fica o dito por não dito.

Depois tornei:

- Mas inconveniente por quê? Pois eu tinha muito gosto em mostrar a Dona Glória uns marrecos de Pequim que são mesmo uma beleza. Já viu os marrecos de Pequim, Dona Madalena?

- Ainda não.

- Está aí! resmunguei. Estudam a vida inteira nem sei para quê.

- Descansar um pouco? disse Dona Glória. Estávamos à porta da casa delas, na Canafístula.

- Obrigado. Vou chegando ao hotel. Demorei-me ainda um minuto:

- Estão as senhoras aqui pessimamente instaladas. Adeus. E se resolverem ir a São Bernardo, avisem, para mandar o automóvel.

- Perfeitamente, disse Dona Glória. agradecida pela companhia.

- Não tem de quê.

No hotel marchei para o banheiro, e fui tirar o carvão e o suor. E ia-me sentando à mesa quando chegaram João Nogueira, Azevedo Gondim e Padre Silvestre.

- Então que desordem foi essa? perguntou Azevedo Gondim. Soubemos ontem à noite.

- Imagine como nos assustamos, acrescentou o vigário. Um escândalo! É verdade que o Brito andou mal.

- Andou. Necessidade. Ele não é ruim. Queria duzentos mil-réis, coitado, e eu torci o corpo. Tolice: gastei bem seiscentos, sem contar a aporrinhação de dois dias.

O diabo é que, se ele recebesse os duzentos, havia de pedir mais duzentos e assim por diante.

- A notícia que circulou ontem foi que ele estava no hospital, com uma punhalada, informou Padre Silvestre. Constou até que tinha morrido. Felizmente hoje sossegamos.

Ferimentos leves, não?

- Que ferimentos! O que houve foi troca de palavras. O Brito disse uns desaforos, eu disse outros, juntou-se gente e a polícia entrou na questão, que não era com ela. Não houve nada.

- Logo vi, bradou Padre Silvestre. Um homem prudente como o senhor não ia provocar barulho. - Essa agora! gritou Azevedo Gondim. Pois eu tinha escrito duas colunas sobre o caso para o número de domingo.

João Nogueira aproximou-se e falou-me ao ouvido:

- Francamente, que foi que houve?

- Uma arenga sem importância.

E, pegando a ocasião:

- Õ Dr. Nogueira, quem é aquela Dona Glória?

- A tia da professora?

- Sim. Que tal é essa família?

- Em que sentido?

- Em todo, respondi evasivamente. A velha viajou hoje comigo, no trem. É simpática. - Mas que interesse tem o senhor...

- É que a mulher, indiretamente, tocou-me numa pretensão: transferência da sobrinha. Eu nunca vi o diretor da Instrução Pública, mas dou-me com o Silveira, que faz regulamentos. Talvez não fosse impossível conseguir a transferência. Se elas merecem, está claro.

- Mas é uma excelente professora, Seu Paulo, e um nobre caráter. O senhor quer retirá-la! Que lembrança! Se ela sair, sabe o que acontece? Mandam para cá uma velha analfabeta.

- Tem razão. E, em voz alta: - Jantar? Agradeceram e despediram-se. Padre Silvestre abraçou-me:

- O amigo numa entalação dessa! A culpa foi do Brito. Ele é meio esquentado, mas ultimamente a orientação que vem dando à Gazeta é boa. Acompanhei-os:

- ó Gondim, eu precisava falar com você. Ficou.

- Estou morrendo de fome, Gondim. Dois dias quase sem comer! Calcule. Vamos jantar? Recusou o jantar, mas aceitou um copo de cerveja. Quando cheguei à sobremesa, ele ia na terceira garrafa.

- Ó Gondim, você me falou há tempo numa professora.

- A Madalena?

- Sim. Encontrei-a uma noite destas e gostei da cara. É moça direita?

Azevedo Gondim encetou a quarta garrafa de cerveja e desmanchou-se em elogios.

- Mulher superior. Só os artigos que publica no Cruzeiro!

Desanimei:

- Ah! Faz artigos!

- Sim, muito instruída. Que negócio tem o senhor com ela?

- Eu sei lá! Tinha um projeto, mas a colaboração no Cruzeiro me esfriou. Julguei que fosse uma criatura sensata.

- Essa agora! bradou Gondim picado. O senhor tem cada uma!

- Está bem. Para você não há segredo. Ouça. Estou aborrecido com o Padilha.

- Alguma carraspana que ele tomou?

- Pior. Anda querendo botar socialismo na fazenda. Surpreendi-o dizendo besteiras. Não liguei importância, tanto que o conservei, mas, o caso bem pensado, talvez fosse melhor arranjar para ele outra colaboração, fora.

- E convidar a Madalena.

- Sim, estive pensando. Não sei. Se ela for moça de bons costumes.

- De bons costumes? Claro. O diabo é que talvez não aceite. Morar nas brenhas!

- Isso são bobagens da tia, uma velha tonta. Mas a outra, se tem juízo como você diz, aceita.

Azevedo Gondim mastigava amendoins torrados e bebia cerveja:

- É, pode ser. Vantagem para ela, com certeza, aumento de ordenado.

- Sem dúvida.

- Pode ser. Eu só tenho pena do pobre do Padilha.

- Não. Cavo uma colocação para ele. Já não lhe disse? É um canalha, coitado. E a respeito da moça...

- O senhor entendeu-se com ela?

- Não, homem. Se me tivesse entendido, não estava consultando você. Ó Gondim, faça-me um favor. Foi justamente para isso que lhe pedi que ficasse. Sonde a mulher.

Azevedo Gondim resistiu, encarecendo o serviço que ia prestar:

- Mas eu não tenho intimidade com ela. Fale o senhor.

- Impossível. Há dois dias que estou ausente. Preciso chegar a São Bernardo hoje. E não sei a maneira de tratar com essa gente. Muitas voltas... Peite a moça, Gondim, faça-me o favor.

- Pois sim. Arrumo-lhe a paisagem, a poesia do campo, a simplicidade das almas. E se ela não se convencer, sapeco-lhe um bocado de patriotismo por cima.

Capítulo quinze

Depois do convite, tornei-me quase íntimo das duas mulheres. Madalena não se decidiu logo. E eu, a pretexto de saber a resposta, comecei a freqüentar a casinha da Canafístula. Um dia dei uns toques a Dona Glória:

- Por que é que sua sobrinha não procura marido?

Melindrou-se:

- Minha sobrinha não é feijão bichado para se andar oferecendo.

- Nem eu digo isso, minha senhora. Deus me livre. É um conselho de amigo. Garantir o futuro... Dona Glória empinou a coluna vertebral, e o peito cavado se achatou.

Esse movimento de dignidade repentina fazia-lhe o vestido preto, já gasto, ficar esticado na barriga e frouxo nas costas. Resmungou palavras imperceptíveis. Pouco a pouco voltou à posição normal, a omoplata adaptou-se novamente ao pano coçado e o gargarejo tornou-se compreensível: - Está visto que o casamento para as mulheres é uma situação...

- Razoável, Dona Glória. E até é bom para a saúde.

- Mas há tantos casamentos desastrados... Demais isso não é coisa que se imponha.

- Não, infelizmente. É preciso propor. Tudo mal organizado, Dona Glória. Há lá ninguém que saiba com quem deve casar?

- Quanto a mim, acho que em questões de sentimento é indispensável haver reciprocidade.

- Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia.

Depois dessa conversa, a colheita do algodão prendeu-me duas semanas em São Bernardo. Refleti algumas vezes no caso. Era provável que Dona Glória houvesse batido com a língua nos dentes. Que teria dito? Apareci a Madalena com medo de ser mal recebido por causa da sugestão. Fui bem recebido:

- Como vai a lavoura?

- Vai regularmente. Creio que vai regularmente: ainda não posso prever o resultado da safra. E a sua escola? Os meninos, a Dona Glória, sem novidade? Estimo. O que é certo é que a senhora não se importa com lavoura, e eu vinha tratar de outro assunto.

- O convite que me fez pelo Gondim?

Vacilei:

- Mais ou menos.

- Já lhe devia ter respondido que não aceito. - Que diabo! Mas o aumento do ordenado, filha de Deus?

- Não convém. Estou em seis anos de magistério, não deixo o certo pelo duvidoso. Essas escolas particulares hoje se abrem, amanhã se fecham ... Fiz-lhe um cumprimento:

- Felicito-a pela sua prudência. Efetivamente a senhora se arriscava a ficar sem mel nem cabaço. - Se o senhor reconhece...

- Reconheço. E venho trazer-lhe outra proposta. Para ser franco, essa história de escola foi tapeação. Madalena esperava, com uma rugazinha entre as sobrancelhas.

- O que vou dizer é difícil. Deve compreender... Enfim, para não estarmos com prólogos, arreio a trouxa e falo com o coração na mão. Tossi, encalistrado:

- Está aí. Resolvi escolher uma companheira. E como a senhora me quadra... Sim, como me engracei da senhora quando a vi pela primeira vez...

Engasguei-me. Séria, pálida, Madalena permaneceu calada, mas não parecia surpreendida.

- Já se vê que não sou o homem ideal que a senhora tem na cabeça.

Afastou a frase com a mão fina, de dedos compridos:

- Nada disso. que não nos conhecemos.

- Ora essa! Não lhe tenho contado pedaços da minha vida? O que não contei vale pouco. A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é sisuda, econômica, sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa mãe de família.

Madalena foi à janela e esteve algum tempo debruçada, olhando a rua. Quando se voltou, eu passeava pela sala, enchendo o cachimbo.

- Deve haver muitas diferenças entre nós.

- Diferenças? E então? Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só. Deve haver muitas. Com licença, vou acender o cachimbo. A senhora aprendeu várias embrulhadas na escola, eu aprendi outras quebrando a cabeça por esse mundo. Tenho quarenta e cinco anos. A senhora tem uns vinte.

- Não, vinte e sete.

- Vinte e sete? Ninguém lhe dá mais de vinte. Pois está aí. Já nos aproximamos. Com um bocado de boa vontade, em uma semana estamos na igreja.

- O seu oferecimento é vantajoso para mim, Seu Paulo Honório, murmurou Madalena. Muito vantajoso. Mas é preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre como Job, entende?

- Não fale assim, menina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe diga? Se chegarmos a acordo, quem faz um negócio supimpa sou eu.

Capítulo dezesseis

Uma semana depois, à tardinha, eu, que ali estava aboletado desde meio-dia, tomava café e conversava, bastante satisfeito. No melhor da conversa Azevedo Gondim entrou sem cerimônia e atirou uma inconveniência que não tinha tamanho:

- Ah! O senhor está aqui? Eu vinha dar os parabéns a Dona Madalena. Foi bom encontrá-lo. Minhas felicitações.

- Que história é essa? perguntei estremecendo.

- O casamento, explicou Azevedo Gondim. É em que se fala. O senhor não tinha dito nada... Quando é isso?

Não respondi. Madalena contou os fios do bordado. Dona Glória imobilizou-se, com uma xícara na mão. Tive desejo de torcer o pescoço do Gondim, que, percebendo a tolice, se encostou à parede, raspando o queixo. Levantei-me, cheguei à janela para disfarçar o constrangimento. Como Gondim se aproximasse, rosnei:

- Você está bêbado?

- Julguei que não fosse segredo. Todo o mundo sabe.

Idiota.

E voltei a sentar-me. Acanhado, as orelhas num fogaréu, agarrei-me

Nossa Senhora da e Recreativo, que com as estantes vez por ano para

ao Hospital de Conceição e ao Grêmio Literário levava uma existência precária, cheias de traças e abrindo-se uma a posse da diretoria.

- Que utilidade tem isso? Azevedo Gondim sentou-se, pouco a pouco serenou:

- É uma sociedade que presta bons serviços, Seu Paulo.

- Lorota! O hospital, sim senhor. Mas biblioteca num lugar como este! Para quê? Para o Nogueira ler um romance de mês em mês. Uma literatura desgraçada...

Azevedo Gondim, aferrando-se a uma idéia, gira em redor dela, como peru:

- A instrução é indispensável, a instrução é uma chave, a senhora não concorda, Dona Madalena? - Quem se habitua aos livros. - .

- É não habituar-se, interrompi E não confundam instrução com leitura de papel impresso.

- Dá no mesmo, disse Gondirfr. - Qual nada!

- E como é que se consegue instrução se não for nos livros?

- Por aí, vendo, ouvindo, cotrendo mundo. O Nogueira veio da escola sabido como o diabo, mas não sabia inquirir uma testemunha Hoje esqueceu o latim e é um bom advogado.

- Entretanto o senhor acha o hospital necessário. E por que não deita fora os seus tratados de agricultura?

- É diferente. Em todo o caso suponho que os médicos estudam menos nos livros que abrindo barrigas, cortando vivos e defuntos em experiências. Eu, nas horas vagas, leio apenas observações de homens práticos. E não dou valor demasiado a elas, confio mais em mim que nos outros. Os meus autores não vieram olhar de perto os homens e as terras de São Bernardo.

Madalena balançava a cabeça:

- Perfeitamente. O que há é que não estamos acostumados a pensar assim. Assisti um dia destes a uma fita no cinema, e creio que aprendi mais que se visse aquilo

escrito. Sem contar que se gasta menos tempo.

- E não se enche o quengo com estopadas, acrescentei. Vocês engolem muita bucha, Gondim. Há por aí volumes que cabem em quatro linhas.

Dona Glória estava quase dormindo. Azevedo Gondim, aturdido, agastado, ergueu os ombros:

- Cá para mim os livros são úteis. Se o senhor julga que são inúteis, deve ter lá as suas razões. - Você vê que me refiro às histórias fiadas do Grêmio.

- O pior é que o que é desnecessário ao senhor talvez seja necessário a muitos, disse Madalena. - Sem dúvida, a beleza, triunfou Azevedo Gondim. É o que se quer.

Harmonia, beleza, entende? - Ora sebo

Dona Glória levantou-se e entrou. Como o assunto estivesse reduzido a cinza, calamo-nos. Azevedo Gondim tentou atiça-lo, inutilmente.

- Que poeira, hem? com o nordeste. Retirou-se.

Animei-me e avizinhei-me de Madalena:

- Está vendo? Por aí já falam. É só em que falam, pelo que disse o Gondim.

Nenhuma resposta.

- Não torno a pôr os pés aqui. Primeiro porque não quero prejudicá-la, segundo porque é ridículo. Naturalmente a senhora já refletiu.

Madalena soltou o bordado.

- Parece que nos entendemos. Sempre desejei viver no campo, acordar cedo, cuidar de um jardim. Há lá um jardim, não? Mas por que não espera mais um pouco? Para ser

franca, não sinto amor.

- Ora essa! Se a senhora dissesse que sentia isso, eu não acreditava. E não gosto de gente que se apaixona e toma resoluções às cegas. Especialmente uma resolução

como esta. Vamos marcar o dia.

- Não há pressa. Talvez daqui a um ano... Eu preciso preparar-me.

- Um ano? Negócio com prazo de ano não presta. Qtie é que falta? Um vestido branco faz-se em vinte e quatro horas.

Ouvindo passos no corredor, baixei a voz: - Podemos avisar sua tia, não? Madalena sorriu, irresoluta.

- Está bem.

- Já acabaram aquela discussão pau? perguntou Dona Glória da porta. Eu estava morrendo de sono. - E eu. O culpado foi o Gondim, que tem idéias extravagantes.

Procurei maneira de formular o pedido, mas perturbei-me e não atinei com o que devia dizer:

- Dona Glória, comunico-lhe que eu e sua sobrinha dentro de uma semana estaremos embirados. Para usar linguagem mais correta, vamos casar. A senhora, está claro,

acompanha a gente. Onde comem dois comem três. E a casa é grande, tem uma porção de caritós.

Dona Glória começou a chorar.

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