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São Bernardo

Graciliano Ramos

Capítulo dezessete

Casou-nos o Padre Silvestre, na capela de São Bernardo, diante do altar de São Pedro. Estávamos em fins de janeiro. Os paus-d'arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhã a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitava-se de espuma.

Quando viu os arames da iluminação, o telefone, os móveis, vários trastes de metal, que Maria das Dores conservava areados, brilhando, Dona Glória confessou que a vida ali era suportável...

- Eu não dizia? Ofereci-lhe um quarto no lado esquerdo da casa, por detrás do escritório, com janela para o muro da igreja, vermelho. O muro está hoje esverdeado pelas águas da chuva, mas naquele tempo era novo e cor de carne crua. Eu e Madalena ficamos no lado direito e da nossa varanda avistávamos o algodoal, o prado, o descaroçador com a serraria e a estrada, que se torce contornando um morro.

- Vamos começar vida nova, hem? disse Madalena alegremente.

Desde então - comecei a fazer nela algumas des cobertas que me surpreenderam. Como se sabe, eu me havia contentado com o rosto e com algumas informações ligeiras.

Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar afinar a minha sintaxe pela dela, mas não consegui evitar numerosos solecismos. Mudei de rumo. Tolice. Madalena não se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano.

Enjoou o Padilha, que achou "uma alma baixa". (Aí eu expliquei que a alma dele não tinha importância. Exigia dos meus homens serviços: o resto não me interessava.) Enjoou o Padilha. Mas gostou de Seu Ribeiro: meteu-se no escritório, folheou os livros, examinou documentos, desarmou a máquina de escrever, que estava emperrada.

E dois dias depois do casamento, ainda com um ar machucado, largou-se para o campo e rasgou a roupa nos garranchos do algodão. À hora do jantar encontrei-a no descaroçador, conversando com o maquinista.

- Ora muito bem. Isto é mulher. Mas aconselhei-a a não expor-se: - Esses caboclos são uns brutos. Quer trabalhar? Combino. Trabalhe com Maria das Dores. A gente da lavoura só comigo.

- A ocupação de Maria das Dores não me agrada. E eu não vim para aqui dormir.

- São entusiasmos do princípio.

- Outra coisa, continuou Madalena. A família de Mestre Caetano está sofrendo privações.

- Já conhece Mestre Caetano? perguntei admirado. Privações, é sempre a mesma cantiga. A verdade é que não preciso mais dele. Era. melhor ir cavar a vida fora.

- Doente ...

- Devia ter feito economia. São todos assim, imprevidentes. Uma doença qualquer, e é isto: adiantamentos, remédios. Vai-se o lucro todo.

- Ele já trabalhou demais. E está tão velho! - Muito, perdeu a força. Põe a alavanca numa pedra pequena e chama os cavouqueiros para deslocá-la. Não vale os seis mil-réis que recebia. Mas não tem dúvida: mande o que for necessário. Mande meia cuia de farinha, mande uns litros de feijão. É dinheiro perdido.

Capítulo dezoito

A excelentíssima, declarou Seu Ribeiro, entende de escrituração.

Seu Ribeiro morava, aqui, trabalhava comigo, mas não gostava de mim. Creio que não gostava de ninguém. Tudo nele se voltava para o lugarejo que se transformou em cidade e que tinha, há meio século, bolandeira, terços, candeias de azeite e adivinhações em noites de São João. Com mais de setenta anos, andava a pé, de preferência pelas veredas. E só falava ao telefone constrangido. Odiava a época em que vivia, mas tirava-se de dificuldades empregando uns modos cerimoniosos e expressões que hoje não se usam. O reduzido calor que ainda guardava servia para aquecer aqueles livros grossos, de cantos e lombadas de couro. Escrevia neles com amor lançamentos complicados, e gastava quinze minutos para abrir um título, em letras grandes e curvas, um pouco trêmulas, as iniciais cheias de enfeites.

- Entende muito, continuou. E embora eu não concorde integralmente com o método que preconiza, reconheço que poderá, querendo, encarregar-se da escrita.

- Obrigada.

- Não há de quê. A excelentíssima conhece a matéria e tem caligrafia. Eu sou uma ruína. Qualquer dia destes ...

Catou palavras: - Qualquer dia destes estou com Deus.

- Sempre diz isso, resmungou Padilha. O senhor tem fôlego de sete gatos.

Pretendia acumular os cargos de professor e guarda-livros: E impacientava-se.

- Não duro, estou gasto, respondeu Seu Ribeiro. E morreria tranqüilo deixando os livros a uma pessoa que não viesse estragá-los com raspadelas.

- Isso é fácil, murmurou Padilha.

- Talvez, mas convém saber. Aqui a excelentíssima...

- Tinha graça, tornou Padilha, Dona Madalena escrevendo os diversos a diversos.

- Nada mais natural, atalhou Madalena. Não desejo, Deus me livre. Seu Ribeiro está forte.

- Somos todos mortais, minha senhora. É verdade que ninguém pode penetrar os desígnios da Providência, mas na minha idade ...

- Qual é o ordenado? - Ora essa! estranhou Padilha. A senhora ocuparse com essas migalhas! Receber ordenado! Era tirar de uma mão e deitar na outra.

- Por que não? Se Seu Ribeiro tiver de aposentar-se ... Quanto ganha. o senhor, Seu Ribeiro? O guarda-livros afagou as suíças brancas: - Duzentos mil-réis.

Madalena desanimou: - É pouco. .

- Como? bradei estremecendo. - Muito pouco.

- Que maluqueira! Quando ele estava com o Brito, ganhava cento e cinqüenta a seco. Hoje tem duzentos, casa, mesa e roupa lavada.

exato, confessou Seu Ribeiro. nada, o que recebo chega.

- Se o senhor tivesse dez filhos, disse Madalena.

- Naturalmente, concordou Dona Glória.

- Ora gaitas! berrei. Até a senhora? Meta-se com os romances.

Madalena empalideceu: - Não é preciso zangar-se. nossas opiniões.

- Sem dúvida. Mas é tolice querer uma pessoa ter opinião sobre assunto que desconhece. Cada macaco no seu galho. Que diabo! Eu nunca andei discutindo gramática.

Mas as coisas da minha fazenda julgo que devo sabei. E era bom que não me viessem dar lições. Vocês me fazem perder a paciência.

Joguei o guardanapo sobre os pratos, antes da sobremesa, e levantei-me. Um bate-boca oito dias depois do casamento! Mau sinal. Mas atirei a responsabilidade para Dona Glória, que só tinha dito uma palavra.

Não me falta não chegava, Todos nós temos as gr - -, -° -past -,i -' - -°si -PP, -s -cá - - -s - ei -iPeo r s - -ya P'+'° - - -tQddos gÓl¢de porta e, -,+ - \ -, - - -á,s passos Soeu Ri , - -'a -' - -'t -aR" P - -a na tars -esa igreja. P V - - - o "f -e -,ue -hs,J -itéeo -es -° A o dae -i v l. -,l ° - d¢! L°pes, -'ersando ¢o -t Dona -n -, -°¢r -at\„ , me d¢i -¢a - e que -de -s i A \ - ai "I - 'cod -' -B abe -e - -o à hle cV -os ì -P -jbpes. A¢ass - a dele, -tih, - - " -pe - a -IP `'gs ignoto - visão t - - -e s^ -I -e , -Os incon -lia - -is: enl -b -st -i -ó -a - - - -iV -o na m¢sa - tenho e O -, -Pou - a -l'ó°lati -°d - Odo: as -og°P conti i , yd - - - os d arecem " -yu - - - - - -ío r - - ' -dalena -m - punho. Y - -p -p - - rfs! -w°fio, -¡ - . I -Iq -Je - -s. ° -°ipmog V -r -:nda as mais -nsi ni. t, Bh atì'+' s aa g ° AA e qDores cozinha, -R - -p - -no ¡nPs -Glór' - - rosna sc°lâ no ar -i' -ge, -'ss, l l ,'u - e -l -° -r ° 'q - kih - - -, -over - - -s lá te°°s eÌe atra n - - - -. fn°pde¢. p ' - -pesar dsf - - pales - - -R - ,p f¢na - -' -ria é ba t - clara. t -ht - -o - -pi -ue é '' - - que ¢icm Vi zem. É ' ssod¢. N sando s Phlavras. ti -es°, -, - -¢ - daráp so stply - -nde a° ela adilha? -e , - de q -e,tio ão tem necesssentlvermos -ão nos edemos. matéria e tem caligrafia.

Eu sou uma ruína. Qualquer dia destes ...

Catou palavras: - Qualquer dia destes estou core Deus.

- Sempre diz isso, resmungou Padilha. O senhor tem fôlego de sete gatos.

Pretendia acumular os cargos de professor e guarda-livros: E impacientava-se.

- Não duro, estou gasto, respondeu Seu Ribeiro. E morreria tranqüilo deixando os livros a uma pessoa que não viesse estragá-los com raspadelas.

- Isso é fácil, murmurou Padilha.

- Talvez, mas convém saber. Aqui a excelentíssima...

- Tinha graça, tornou Padilha, Dona Madalena escrevendo os diversos a diversos.

- Nada mais natural, atalhou Madalena. Não desejo, Deus me livre. Seu Ribeiro está forte.

- Somos todos mortais, minha senhora. É verdade que ninguém pode penetrar os desígnios da Providência, ruas na minha idade ...

- Qual é o ordenado? - Ora essa! estranhou Padilha. A senhora ocuparse com essas migalhas! Receber ordenado! Era tirar de uma mão e deitar na outra.

- Por que não? Se Seu Ribeiro tiver de aposentar-se ... Quanto ganha. o senhor, Seu Ribeiro? O guarda-livros afagou as suíças brancas: - Duzentos mil-réis.

Madalena desanimou: - É pouco.

- Como? bradei estremecendo. - Muito pouco.

- Que maluqueira! Quando ele estava com o Brito, ganhava cento e cinqüenta a seco. Hoje tem duzentos, casa, mesa e roupa lavada.

- É exato, confessou Seu Ribeiro. nada, o que recebo chega.

- Se o senhor tivesse dez filhos, disse Madalena.

- Naturalmente, concordou Dona - Ora gaitas! berrei. Até a senhora? com os romances.

Madalena empalideceu: - Não é preciso zangar-se. nossas opiniões.

- Sem dúvida. Mas é tolice querer uma pessoa ter opinião sobre assunto que desconhece. Cada macaco no seu galho. Que diabo! Eu nunca andei discutindo gramática.

Mas as coisas da minha fazenda julgo que devo saber. E era bom que não me viessem dar lições. Vocês me fazem perder a paciência.

Joguei o guardanapo sobre os pratos, antes da sobremesa, e levantei-me. Um bate-boca oito dias depois do casamento! Mau sinal. Mas atirei a responsabilidade para Dona Glória, que só tinha dito uma palavra.

Não me falta não chegava, Glória. Meta-se Todos nós temos as

Capítulo dezenove

Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha pérmanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.

Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.

Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.

- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.

- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador.

Detenho-a: não quero luz.

O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.

- Madalena ...

A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranqüila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! ` A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.

Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.

Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.

- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.

Agitam-se em mim sentimentos colerizo-me e enterneço-me; bato vontade de chorar.

Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.

Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.

O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.

Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...

Não me entende. Não nos entendemos.

inconciliáveis: crina mesa e tenho O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.

Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.

Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.

Capítulo vinte

Conforme declarei, Madalena possuía um excelente coração. Descobri nela manifestações de ternura que me sensibilizaram. E, como sabem, não sou homem de sensibilidades.

É certo que tenho experimentado mudanças nestes dois últimos anos. Mas isto passa.

As amabilidades de Madalena surpreenderam-me. Esmola grande. Percebi depois que eram apenas vestígios da bondade que havia nela para todos os viventes. Paciência.

Eu não devia esperar nem esses sobejos e o que viesse era lucro. Vivemos algum tempo muito bem.

Lembram-se de que deixei a mesa aborrecido com Dona Glória. Pois, passados minutos, Madalena me trouxe uma xícara de café e deu a entender que estava arrependida de haver provocado o incidente.

- Foi uma leviandade.

- Foi, balbuciou Madalena vermelhinha, foi inconsideração.

- Antes de falar, a gente pensa.

- Com certeza, disse ela bastante perturbada. Esqueci que os dois eram empregados e deixei es capar aquela inconveniência. Ah! foi uma inconveniência e grande.

Aí eu peguei a xícara de café e amoleci: - Não, assim também não. Para que exagerar? Houve apenas incompreensão. Obrigado, pouco açúcar. Incompreensão, é o termo. Eu explico. Aqui não é como lá fora. O cinema, o bar, os convites, a loteria, o bilhar, o diabo, não temos nada disso, e às vezes nem sabemos em que gastar dinheiro. Quer que lhe diga? Comecei a vida com cem mil-réis alheios. Cem mil-réis, sim senhora. Pois estiraram como borracha. Tudo quanto possuímos vem desses cem mil-réis que o ladrão do Pereira me emprestou.

Usura de judeu, cinco por cento ao mês.

Madalena ouviu atenta, aprovando, com modos de menina bem-educada: - Acredito, acredito. O que há é que ainda não conheço o meio. Preciso acostumar-me.

Chamei Casimiro Lopes, entreguei-lhe a xícara e a bandeja. Depois acendi o cachimbo: - O que sinto ... Ergui-me: - Nunca me arrependo de nada. O que está feito está feito. Mas enfim cara feia não bota ninguém para diante. E aquilo que eu azuni a Dona Glória...

- Coitada! Ela nem estava prestando atenção à conversa. Falou por falar.

- Foi uma dos diabos. Pois faça-me um favor: mostre a ela, por alto, que não tive intenção de magoá-la. Uma pessoa idosa e respeitável... Que não tive intenção, ouviu? Eu sou mesmo um sujeito meio azuretado.

Vêem que estávamos brandos como duas bananas.

E assim passamos um mês. Por insistência dela, deilhe ocupação: - Faça a correspondência. Quer ordenado. Perfeitamente, depois combinaremos isso. Seu Ribeiro que lhe abra uma conta.

Capítulo vinte e um

Pois, apesar das precauções que tomamos, do asbesto que usamos para amortecer os atritos, veio nova desinteligência. Depois vieram muitas. Pela manhã Madalena trabalhava no escritório, mas à tarde saía a passear, percorria as casas dos moradores. Garotos empalamados e beiçudos agarravam-se às saias dela.

Foi à escola, criticou o método de ensino do Padilha e entrou a amolar-me reclamando um globo, mapas, outros arreios que não menciono porque não quero tomar o incômodo de examinar ali o arquivo. Um dia, distraidamente, ordenei a encomenda. Quando a fatura chegou, tremi. Um buraco: seis contos de réis. Seis contos de folhetos, cartões e pedacinhos de tábua para os filhos dos trabalhadores. Calculem. Uma dinheirama tão grande gasta por um homem que aprendeu leitura na cadeia, em carta de ABC, em almanaques, numa Bíblia de capa preta, dos bodes. Mas contive-me. Contive-me porque tinha feito tenção de evitar dissidências com minha mulher e porque imaginei mostrar aquelas complicações ao governador quando ele aparecesse aqui. Em todo o caso era despesa supérflua.

Assinei a duplicata, pus o chapéu e saí. Ao pas sar pelo estábulo, notei ração.

- Isto vai mal. E gritei: - Marciano! Gritei em vão. Desci a ladeira, com raiva. Lá embaixo, à porta da escola, descobri Marciano escanchado num tamborete, taramelando com Padilha.

- Já para as suas obrigações, safado.

- Acabei o serviço, Seu Paulo, gaguejou Marciano perfilando-se.

- Acabou nada! - Acabei, senhor sim. Juro por esta luz que nos alumia.

- Mentiroso. Os animais estão morrendo de fome, roendo a madeira.

Marciano teve um rompante: - Ainda agorinha os cochos estavam cheios. Nunca vi gado comer tanto. E ninguém agüenta mais viver nesta terra. Não se descansa.

Era verdade, mas nenhum morador me havia ainda falado de semelhante modo.

- Você está se fazendo besta, seu corno? Mandei-lhe o braço ao pé do ouvido e derrubei-o. Levantou-se zonzo, bambeando, recebeu mais uns cinco trompaços e levou outras tantas quedas. A última deixou-o esperneando na poeira. Enfim ergueuse e saiu de cabeça baixa, trocando os passos e limpando com a manga o nariz, que escorria sangue. Estive uns minutos soprando. Depois voltei-me para o Padilha: - O culpado é você. - Eu? - Sim, você, que anda enchendo de folhas ventas daquele sem-vergonha.

que os animais não tinham as Padilha defendeu-se, pálido: - Não ando enchendo nada não, Seu Paulo. É injustiça. Ele veio de enxerido, acredite. Não chamei, até disse: "Marciano, é melhor que você vá dar comida aos bichos".

Não escutou e ficou aí, lesando. Eu estava enjoado, por Deus do céu, que não gosto da cara desse moleque.

Ia pregar-lhe uma descompostura, mas avistei Madalena, que, no paredão do açude, se virava para as ruínas do Marciano. Fui ao encontro dela, resmungando: - Insolente! dá-se o pé, e quer tomar a mão. Mas a cólera tinha desaparecido. O que agora me importunava eram as caixas com o material pedagógico inútil nestes cafundós.

Para que aquilo? O governador se contentaria se a escola produzisse alguns indivíduos capazes de tirar o título de eleitor. - Tomando fresca, hem? perguntei a Madalena, que tinha a vista presa no telhado escuro do estábulo. Não deu resposta. Pus-me a olhar o bebedouro dos animais, o leito vazio do riacho além do sangradouro do açude e, longe, na encosta da serra, a pedreira, que era apenas uma nódoa alvacenta. A mata ia enegrecendo. Um vento frio começou a soprar. As últimas cargas de algodão chegaram ao descaroçador. Houve um apito demorado e os trabalhadores largaram o serviço. Consultei o relógio: seis horas.

- É horrível! bradou Madalena. - Como? - Horrível! insistiu. - Que é? - O seu procedimento. Que barbaridade! Despropósito.

- Que diabo de história...

Estaria tresvariando? Não: estava bem acordada, com os beiços contraídos, uma ruga entre as sobrancelhas.

- Não entendo. Explique-se. Indignada, a voz trêmula: - Como tem coragem de espancar uma criatura daquela forma? - Ah! sim! por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa séria. Assustou-me.

Naquele momento não supus que um caso tão insignificante pudesse provocar desavença entre pessoas razoáveis.

- Bater assim num homem! Que horror! Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.

- Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.

- Por quê? - Eu sei lá. Foi vontade de Deus. lambo.

- Claro. Você vive a humilhá-lo.

- Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já ele era molambo.

- Provavelmente porque sempre pontapés.

- Qual nada! É molambo porque nasceu molambo.

Madalena calou-se, deu as costas e começou a subir a ladeira. Acompanhei-a embuchado. De repente voltou-se e, com voz rouca, uma chama nos olhos azuis, que estavam quase pretos: - Mas é uma crueldade. Para que fez aquilo? Perdi os estribos: É um mo foi tratado a - Fiz aquilo porque achei que devia fazer aquilo. E não estou habituado a justificar-me, está ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, três ou quatro muxicões num cabra. Que diabo tem você com o Marciano para estar tão parida por ele?

Capítulo vinte e dois

Dona Glória gostava de conversar com Seu Ribeiro. Eram conversas intermináveis, em dois tons: ele falava alto e olhava de frente, ela cochichava e olhava para os lados. Quando me via, calava-se.

Compreendo perfeitamente essas mudanças. Fui trabalhador alugado e sei que de ordinário a gente miúda emprega as horas de folga depreciando os que são mais graúdos.

Ora, as horas de folga de Dona Glória eram quase todas.

Dormia, almoçava, jantava, ceava, lia romances à sombra das laranjeiras e atenazava Maria das Dores, que endoidecia com a colaboração dela. Queixava-se de tudo: dos ratos, dos sapos, das cobras, da escuridão. Afetava na minha presença uma atitude de vítima. Não se cansava de gabar a cidade, fora de propósito. Passava parte dos dias no escritório.

Seu Ribeiro tratava-a por excelentíssima senhora (Madalena era apenas excelentíssima). Julguei perceber, por certas palavras, gestos e silêncios, que ela ia ali deplorar a sorte da sobrinha. Estava sempre ao pé da carteira, amolando.

Madalena batia no teclado da máquina. Seu Ribeiro escrevia com lentidão trêmula, às vezes se aperreava procurando a régua, a borracha, o frasco de cola, que se ausentavam, porque Dona Glória tinha o mau costume de mexer nos objetos e não os pôr nunca onde os encontrava. Eu me danava com essa desordem, fechava a cara, dava ordens secas rapidamente e saía para não estourar. Enfim desabafei. Num dia quatro o balancete do mês passado não estava pronto.

- Por que foi esse atraso, Seu Ribeiro? Doença? O velho esfregou as suíças, angustiado: - Não senhor. É que há uma diferença nas somas. Desde ontem procuro fazer a conferência, mas não posso.

- Por quê, Seu Ribeiro? E ele calado.

- Está bem. Ponha um cartaz ali na porta proibindo a entrada às pessoas que não tiverem negócio. Aqui trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, ouviu? Sem exceção.

- Isso é comigo? disse Dona Glória esticando-se. - Prepare logo o cartaz, Seu Ribeiro.

- Perguntei se era comigo, tornou Dona Glória diminuindo um pouco.

- Ora, minha senhora, é com toda a gente. Se eu digo que não há exceção, não há exceção.

- Vim falar com minha sobrinha, balbuciou Dona Glória reduzindo-se ao seu volume ordinário. - Sua sobrinha, enquanto estiver nesta sala, não recebe visitas, é um empregado como os outros. - Eu não sabia. Pensei que não interrompesse. - Pensou mal. Ninguém pode escrever, calcular e conversar ao mesmo tempo.

Dona Glória saiu descrevendo um ângulo reto: esgueirou-se da carteira até a parede e, beirando-a, alcançou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente. Sentei-me e comecei a confrontar o diário com o razão. Seu Ribeiro aproximou-se para auxiliar-me.

- Obrigado.

Seu Ribeiro aprontou, com o canivete e a régua, um quadrado de papelão. Madalena levantou-se, cobriu a máquina, trouxe-me as cartas, esperou que eu terminasse a leitura delas e retirou-se. Assinei as cartas e meti-as nos envelopes.

- Que é que Dona Glória vem fuxicar aqui, Seu Ribeiro? - Nada de importância, respondeu o guarda-livros. A senhora Dona Glória é um coração de ouro e versa diferentes temas com proficiência, mas eu, para ser franco, não a tenho escutado com a devida atenção.

Achei ridículo interrogar aquele homem grave sobre os mexericos de Dona Glória.

- Excelente senhora, afirmava Seu Ribeiro pautando a lápis o quadrado de papelão.

- Mais ou menos. Levantei-me: - Cuidado com os intrusos.

- Perfeitamente, respondeu Seu Ribeiro.

No salão encontrei Madalena caída no sofá, acabrunhada. Enxugou os olhos à pressa: - Por que foi aquela brutalidade? Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe.

Uma compensação. Sentei-me e, para não desgostá-la: - Foi realmente brutalidade. Brutalidade necessária, mas enfim brutalidade. É uma peste recorrer a isso.

- E para que recorre? chasqueou Madalena.

- Já você começa. Esses modos não, tenha paciência. Detesto picuinhas. Comigo é trás zás, nó cego. Subterfúgios, não.

- Quem é que está com subterfúgios? Foi uma brutalidade.

- Necessária.

- Desnecessária. Vê-se bem que você não gosta de minha tia.

- Eu? Nem gosto nem desgosto. Pensei que ela quisesse alguma ocupação. A propósito, é bom você deixar a máquina. Aquilo é ruim para a barriga. Não se sente mal? - Não.

- Em todo o caso uns meses antes e uns meses depois do parto tem férias.

- Obrigada.

- Como ia dizendo, julguei que sua tia quisesse trabalhar. Até uma vez dei a ela uns conselhos, no trem. Espinhou-se. Vive aí com as mãos abanando, lendo bobagens.

Não lhe quero mal por isso. Agora o que não acho direito é empatar o serviço dos outros.

- Escute, Paulo, soluçou Madalena. Está enganado. Não tem razão, garanto que não tem razão. Minha tia é uma criatura digna.

- Efetivamente, ela tem uma espécie de dignidade, às vezes, mas a dignidade nela dura pouco. Madalena prosseguiu: - Não conheço ninguém que trabalhe mais que Dona Glória.

- Ora essa! bradei com um espanto que me levantou do sofá.

- Vai sair? Pensando bem, creio que não foi o espanto que me levantou. Provavelmente foi o costume que eu tinha de me dirigir ao campo todos os dias pela manhã. É verdade que o meu espírito estava completamente afastado da lavoura, mas Dona Glória e Madalena já me haviam retardado quase uma hora, e o movimento que fiz correspondia a uma necessidade que se tornou clara quando me pus em pé.

- Vamos? Madalena acompanhou-me e em caminho falou desta forma: - Você, pelo que me disse, principiou a vida muito pobre.

- Sei lá como principiei! Quando dei por mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas da velha Margarida. Já lhe contei.

- Já. Lutou muito. Mas acredite que Dona Glória tem desenvolvido mais atividade que você. - Estou esperando. Que fez ela? - Tomou conta de mim, sustentou-me e educou-me.

- Só? - Acha pouco? É porque você não sabe o esforço que isso custou. Maior que o seu para obter São Bernardo. E o que é certo é que Dona Glória não me troca por São Bernardo.

Vaidade. Professorinhas de primeiras cola normal fabricava às dúzias. Uma como São Bernardo era diferente.

- Não há comparação.

- Morávamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita, Dona Glória sentava-se num caixão de querosene. A saleta de jantar era o meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se à parede. Trabalhei ali muitos anos. À noite baixava a luz do candeeiro, por economia.

Dona letras a espropriedade Glória ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se. O hábito que ela tem de cochichar e caminhar nas pontas dos pés vem desse tempo. Dormíamos as duas numa cama estreita. Se eu adoecia, Dona Glória passava a noite sentada; quando não agüentava de sono, deitava-se no chão.

Madalena calou-se. Impressionado com pobreza, exclamei: - Diabo! Vocês comeram uma cachorra insossa. - Quem não adoecia era Dona Glória, continuou Madalena. Eu saía para a escola e ela punha o xale, ia cavar a vida. Tinha muitas profissões. Conhecia padres e fazia flores, punha em ordem alfabética os assentamentos de batizados, enfeitava altares. Conhecia desembargadores e copiava os acórdãos do tribunal. A noite vendia bilhetes no Floriano. E como o padeiro nosso vizinho era analfabeto, escriturava as contas dele num caderno de balcão. Está claro que, dedicando-se a tantas ocupa= ções miúdas, era mal paga.

- Deve compreender. . , murmurei vagamente, olhando os dorsos vermelhos das novilhas mergulhadas no capim-gordura.

Madalena interrompeu-me: - Enos exames ainda tinha tempo de cabalar os examinadores, Deus e o mundo para eu não ser reprovada. Dona Glória é incansável. O que ela não pode é dedicar-se a um trabalho continuado: consome-se em trabalhos incompletos. É por isso a inquietação em que vive. Aqui não há os bilhetes do cinema, os acórdãos do tribunal, os assentamentos de batizados, o caderno de contas do padeiro. Dona Glória vê máquinas e homens que funcionam como as máquinas. Entretanto Dona Glória procura ser útil: vai à igreja, põe flores nos altares e limpa os vidros aquela das imagens na sacristia; tenta cozinhar e não se entende com Maria das Dores; oferece-se para ajudar Seu Ribeiro; já experimentou escrever em máquina.

Um caminhão rodou em direção à serraria; vinham da mata pancadas secas de machado; carros de bois chiavam para os lados de Bom-Sucesso.

- Como tenho dito, não concordo com esse esbanjamento de energia. A gente deve habituar-se a fazer uma coisa só.

- Dona Glória nada ganharia se se aperfeiçoasse em vender bilhetes no cinema ou escrever os batizados: a paga seria sempre insignificante.

- Por que não se empregou em ofício mais rendoso? - Difícil. Demais é necessário haver quem venda os bilhetes e copie os acórdãos.

Calei-me e não senti nenhuma simpatia à pobre da Dona Glória. Continuei a julgá-la uma velha bisbilhoteira e de mãos lastimáveis, que deitavam a perder o que pegavam.

Aquelas ocupações espalhadas aborreciam-me. Levantei os ombros. E, para não descontentar Madalena: - Pode ser que você tenha razão. Eu discordo. Mas enfim cada qual tem lá o seu modo de matar pulgas.

Capítulo vinte e três

Era domingo, de tarde, e eu voltava do descaroçador e da serraria, onde tinha estado a arengar com o maquinista. Um volante empenado e um dí namo que emperrava.

O homem prometera endireitar tudo em dois dias. Contratempo. Montes de madeira, algodão enchendo os paióis.

- Desleixados.

À beira do riacho, topei a velha Margarida sentada numa pedra, lavando as canelas finas como gravetos.

- Boa tarde, Mãe Margarida.

- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, respondeu a negra procurando reconhecer-me com o nariz e com a orelha.

Descobri-me entre cheiros e ruídos: - An! - Como vai isso, Mãe Margarida? A saúde? - Aqui vamos dando, meu filho. Melhor do que mereço a Deus, disse a velha enxugando na saia de riscado os cambitos das pernas.

- Falta alguma coisa lá no rancho? - Falta nada! Tem tudo, a sinhá manda tudo. Um despotismo de luxo: lençóis, sapatos, tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu pé não vai. E não me cubro. Só preciso uma esteira. Uma esteira e o fogo.

- Está direito, Mãe Margarida. Passe bem.

E saí, agastado com Madalena. Avistei na outra banda Marciano, que tangia o gado.

- Espera lá.

Atravessei a pinguela e fui ver o último produto limosino-caracu.

- Magreirão.

Não estava, mas achei que estava. - Não me responda, entupa-se.

A culpada era Madalena, que tinha oferecido à Rosa um vestido de seda. É verdade que o vestido tinha um rasgão. Mas era disparate.

- Deitasse fora, foi o que eu disse a Madalena. Se estava estragado, era deitar fora. Não é pelo prejuízo, é pelo desarranjo que traz a esse povinho um vestido de seda.

Madalena respondeu-me com quatro pedras na mão, e ficamos de venta inchada uma semana. Eu por mim remoí um rancor excessivo.

O telhado da serraria era uma nódoa vermelha que as chuvas, aqui e ali, haviam tingido de preto. Na outra margem do riacho a cabeça curvada de Margarida mexia-se lentamente por cima das hastes do capim. E, subindo uma vereda, a figurinha Marciano colava-se às reses.

- Estúpida! exclamei com raiva. E pensei no vestido da Rosa, nos lençóis da velha Margarida.

- Desperdício.

Depois recordei o volante e o dínamo. - Estúpida! Está visto que Madalena não tinha nada com o descaroçador e a serraria, mas naquele momento não de sapatos e nos refleti nisso: misturei tudo e a minha cólera aumentou. Uma cólera despropositada. Esqueci os presentes que, há alguns anos, a Rosa me comeu (pó-dearroz, voltas de conta) e as despesas que fiz com Margarida, até automóvel ao sertão, até clichês para o jornal do Gondim. O que me pareceu foi que Madalena estava gastando à toa.

- A toa, percebem? Repeti para convencer-me: - A toa. Desperdício.

Por cima do capim-gordura já não se via a cabecinha branca de Margarida. Num cotovelo do caminho o vulto de Marciano tinha desaparecido. Com o descambar do sol, o telhado da serraria estava mais vermelho.

- Não seria mau despedir o maquinista. - Que gente! Concentrei-me no caso do dínamo, que era o que me havia predisposto a considerar prodigalidades os sapatos, os lençóis e o vestido de seda. Depois tranqüilizei-me.

Arredar o maquinista, sim senhor, boa solução.

Demorei-me um instante vendo um casal de papacapins namorando escandalosamente. Uma galinhagem desgraçada. Dentro de alguns dias aquilo se descasava, cada qual tomava seu rumo, sem dar explicações a ninguém. Que sorte! E dirigi-me a casa. No alpendre Madalena, Padilha, Dona Glória e Seu Ribeiro conversavam. Com a minha chegada calaram-se.

Puxei uma cadeira e sentei-me longe deles. Era possível que a palestra não me interessasse, mas suspeitei que estivessem falando mal de mim. Provavelmente. Dona Glória sempre com segredinhos ao ouvido de Seu Ribeiro. E Madalena escutando o Padilha. O Padilha, que tinha uma alma baixa, na opinião dela. Para o inferno. Tão bom era um como o outro. Entretidos, animados. Conspiração. Talvez não fosse nada.

Mas para quem, como eu, andava com a pulga atrás da orelha! Aborrecia.

Estavam constrangidos, certamente adivinhando o que eu pensava. Padilha mastigava com os dentes estragados o sorriso servil.

Levantei-me, encostei-me à balaustrada e comecei a encher o cachimbo, voltando-me para fora, que no interior da minha casa tudo era desagradável.

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