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São Bernardo

Graciliano Ramos

No fim do pátio um moleque passou, com um bodoque na mão. Estava ali para que servia a escola. Vadiando, matando passarinhos, num dia de descanso, bom para soletrar a cartilha e riscar papel.

Seis contos de tábuas, mapas, quadros 'e outros enfeites de parede. Seis contos! Carrancudo, olhei de esguelha para Madalena, que ficou sossegada, como se aquilo não tivesse sido feito por ela.

Acendi o cachimbo, furiosamente, e procurei distrair-me. O rancho de Margarida escondia-se entre as folhas das bananeiras. Marciano saiu do estábulo e veio vindo, banzeiro, derreando-se; diante da casagrande tirou o chapéu e escondeu o. cigarro. A pedreira, lá em cima, estava quase invisível depois que o caminho para ela se tinha fechado.

A Prefeitura não queria mais comprar pedras, as construções na fazenda estavam terminadas. E Mestre Caetano, gemendo no catre, recebia todas as semanas um dinheirão de Madalena. Sim senhor, uma panqueca. Visitas, remédios de farmácia, galinhas.

- Não há nada como ser entrevado. Necessitava, é claro, mas se eu fosse sustentar os necessitados, arrasava-me.

0 Além de tudo vestido de seda para a Rosa, sapatos e lençóis para Margarida. Sem me consultar. á viram descaramento assim? Um abuso, um roubo, positivamente um roubo.

Voltei a sentar-me. Madalena entrou a falar com o Padilha, mas não percebi o que diziam. O constrangimento foi desaparecendo. Padilha tinha os olhos baixos.

Por que era que eu não punha o Padilha fora de casa, aquele parasita que me levava cento e cinqüenta mil-réis por mês com a tapeação da escola e estava fuxicando, visivelmente fuxicando? Virei o rosto e descansei a vista no pátio, muito alvo, coberto de pedra miúda e areia. Andavam ali àquela hora pombos como os diabos, voando baixo, passeando, emproados, beliscando o chão. Contei uns cinqüenta. Perdi a conta, recomecei sem resultado. Eram bem duzentos.

Recordei o tempo em que aquilo só tinha muçambês e lama. O riacho, um pouco de água turva num sulco estreito e tortuoso, derramava-se pela várzea, empapando o solo.

E as cercas do Mendonça avançando.

Que diferença! Senti desejo de levantar-me e exclamar: - Vejam isto. Estão dormindo? Acordem. As casas, a igreja, a estrada, o açude, as pastagens, tudo é novo. O algodoal tem quase uma légua de comprimento e meia de largura. E a mata é uma riqueza! Cada pé de amarelo! cada cedro! Olhem o descaroçador, a serraria. Pensam que isto nasceu assim sem mais nem menos? Padilha continuava tagarelando com Madalena. Ergui os ombros: - Para o inferno, para a casa da peste! Seu Ribeiro aprovava com gravidade as tolices de Dona Glória.

Casimiro Lopes veio sentar-se num degrau da calçada. Picando fumo com a faca de ponta e preparando o cigarro de palha, deitava os olhos de cão ao prado, ao açude, à igreja, às plantações. Pobre do Casimiro Lopes. Ia-me esquecendo dele. Calado, fiel, pau para toda a obra, era a única pessoa que me compreendia. Mandou-me um sorriso triste. Estirei o beiço, dizendo em silêncio: - Isto vai ruim, Casimiro.

Casimiro Lopes arregaçou as ventas numa careta desgostosa.

Os outros continuavam a zumbir. Sebo! Uns insetos. Não valia a pena prestar atenção a semelhantes insignificâncias. Gente besta.

Ergui-me bocejando. O que eu estava era cansado. O dia inteiro no campo, inquirindo, esmiuçando. Senti as pernas bambas. Cansado.

A noite chegava. Um pretume no interior da casa. Lembrei-me do dínamo encrencado. Mais esta. Deixei o alpendre e entrei: - Maria das Dores, acenda os candeeiros.

O pequeno berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para Dona Glória e Madalena: - Vão ver aquele infeliz. Isso tem jeito? Aí na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A criança esgoelando-se! Madalena tinha tido menino.

Capítulo vinte e quatro

Fazia dois anos que eu estava casado, e por isso João Nogueira, Padre Silvestre e Azevedo Gondim jantavam conosco.

Ora, exatamente nesse dia repreendi Padilha e ele me gaguejou umas desculpas a que não liguei importância, mas que depois de algumas horas cresceram muito.

- Ó Padilha, chegue cá, disse-lhe de mánhã no jardim, onde ele colhia flores. Ninguém aqui está preso. Se o serviço lhe desagrada, é arribar.

- Por quê, Seu Paulo? exclamou Luís Padilha atordoado.

- Ora por Olhe o relógio.

- Foi a Dona Madalena que mandou tirar umas rosas.

- Você é jardineiro? A Dona Madalena não dá ordens. Você me anda gastando o tempo com falatórios! - Isso não é comigo, defendeu-se Padilha. Queixe-se dela. A moça me pediu umas flores para enfeitar a mesa, à tarde. Que é que eu havia de fazer? Havia de negar? E quanto às conversas, Seu Paulo compreende. Uma senhora instruída meter-se nestas quê? Apanhando flores, homem! bibocas! Precisa uma pessoa com quem possa entreter de vez em quando palestras amenas e variadas. Achei graça. E não prestei mais atenção a Padilha, que, espetando os dedos nos espinhos, devastou uma roseira, à pressa, e escapuliu-se. Palestras amenas! Mais tarde, no escritório, uma idéia indeterminada saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante quebrando louça e deu o fora. Quando tentei agarrá-la, ia longe.

Interrompi a leitura da carta que tinha diante de mim e, sem saber por quê, olhei Madalena desconfiado. Estava de pé, encostada à carteira, mexia distraída as folhas do razão e contemplava pela janela os paus-d'arco distantes.

Maquinalmente, assinei o papel; Madalena estendeu-me outro, maquinalmente. Nisto a idéia voltou. Movia-se, porém, com tanta rapidez que não me foi possível distingui-la.

Estremeci, e pareceu-me que a cara de Madalena estava mudada. Mas a impressão durou pouco.

Embrenhei-me no trabalho e, à tarde, quando os amigos desceram do automóvel, sentia-me perfeitamente tranqüilo.

- Ora, sejam bem aparecidos.

Como não eram de cerimônia, levei-os para o interior, fui matar a sede do Gondim, que quando chega a São Bernardo, exige conhaque.

Durante o jantar, estiveram todos muito animados. E até eu, que ignoro os assuntos que eles debatiam, entrei na dança.

Para começar, Azevedo Gondim, a quem o conhaque tinha tirado as peias da língua, elogiou a vida campestre: - Isto é que é! Vejam se na cidade, ciscando no fundo dos quintais, se criava um peru deste tamanho. Que bicho fornido! Benza-o Deus.

Dona Glória deu um muxoxo e desviou a vista do centro da mesa onde, acocorado na travessa, um peru recebia aqueles louvores despropositados. Padre Silvestre acompanhou o movimento de Dona Glória e deu com os olhos nos canteiros do jardim e nas alamedas do pomar.

- Realmente deve ser uma delícia viver neste paraíso. Que beleza! - Para quem vem de fora, atalhei. Aqui a gente se acostuma. Afinal não cultivo isto como enfeite. para vender.

- As flores também? perguntou Azevedo Gondim.

- Tudo. Flores, hortaliças, fruta...

- Está aí! exclamou Padre Silvestre balançando a cabecinha grisalha e enrugando a testa estreita. O que é ter senso! Se todos os brasileiros pensassem assim, não estaríamos presenciando tanta miséria.

- Política, Padre Silvestre? fez João Nogueira sorrindo.

Padre Silvestre arregalou os olhinhos baços: - Por que não? O senhor há de confessar que estamos à beira de um abismo.

Padre Silvestre é desorientado. Com uma freguesia trabalhosa, anda no mundo da lua. Danadamente liberal.

Padilha meteu o bedelho na conversa: - Apoiado.

- Um abismo, repetiu Padre Silvestre.

- Que abismo? perguntou Azevedo Gondim. O reverendo estudou uma resposta enérgica: - Isso que se vê. É a falência do regime. Desonestidades, patifarias.

- Quais são os patifes? inquiriu João Nogueira. Padre Silvestre estirou o beiço inferior e amoitouse. As opiniões dele são as opiniões dos jornais. Como, porém, essas opiniões variam, Padre Silvestre, impossibilitado de admitir coisas contraditórias, lê apenas as folhas da oposição. Acredita nelas. Mas experimenta às vezes dúvidas. Elas juram que os homens do governo são malandros, e ele conhece alguns respeitáveis. Isso prejudica as convicções que a letra impressa lhe dá. Necessitando acomodar as suas observações com as afirmações alheias, acha que os políticos, individualmente, são criaturas como as outras, mas em conjunto são uns malfeitores.

- Ora essa! Não me compete denunciar ninguém. Os fatos são os fatos. Observe.

- É bom apontar, insistiu João Nogueira.

- Para quê? A facção dominante está caindo de podre. O país naufraga, seu doutor. É o que lhe digo: o país naufraga.

Passei-lhe uma garrafa e informei-me: - Que foi que lhe aconteceu para o senhor ter essas idéias? Desgostos? Cá no meu fraco entender, a gente só fala assim quando a receita não cobre a despesa. Suponho que os seus negócios vão bem.

- Não se trata de mim. São as finanças do Estado que vão mal. As finanças e o resto. Mas não se iludam. Há de haver uma revolução! - Era o que faltava. Escangalhava-se esta gorra.

- Por quê? perguntou Madalena.

- Você também é revolucionária? exclamei mau modo.

- Estou apenas perguntando por quê.

- Ora por quê! Porque o crédito se sumia, o câmbio baixava, a mercadoria estrangeira ficava pela hora da morte. Sem falar na atrapalhação política. - Seria magnífico, interrompeu Madalena. Depois se endireitava tudo.

- Com certeza, apoiou Luís Padilha. - Vocês sabem o que estão dizendo? - O que admira é Padre Silvestre desejar a revolução, disse Nogueira. Que vantagem lhe traria ela? - Nenhuma, respondeu o vigário. A mim não traria vantagem. Mas a coletividade ganharia muito. - Esperem por isso, atalhou Azevedo Gondim. Os senhores estão preparando uma fogueira e vão assar-se nela.

- Literatura! resmungou Padilha.

- Literatura não, gritou Azevedo Gondim. Se rebentar a encrenca, há de sair boa coisa, hem, Nogueira? - O fascismo.

- Era o que vocês queriam. Teremos o comunismo.

Dona Glória benzeu-se e Seu Ribeiro opinou: - Deus nos livre.

- Tem medo, Seu Ribeiro? perguntou Madalena sorrindo.

- Já vi muitas transformações, excelentíssima, e todas ruins.

- Nada disso, asseverou Padre Silvestre. Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome.

Seu Ribeiro passou os dedos pela careca lustrosa: - No tempo de Dom Pedro, corria pouco dinheiro, e quem possuía um conto de réis era rico. Mas havia fartura, a abóbora apodrecia na roça.

f Qual seria a opinião de Madalena? - Aí Padre Silvestre tem razão, concordou Gondim. A religião é um freio.

- Bobagem! disse Nogueira. Quem é cavalo para precisar freio? Qual seria a religião de Madalena? Talvez nenhuma. Nunca me havia tratado disso.

- Monstruosidade.

E repeti baixinho, lentamente e sem convicção: - Monstruosidade! Materialista. Lembrei-me de ter ouvido Costa Brito falar em materialismo histórico. Que significava materialismo histórico? A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o Diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível.

Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. "Palestras amenas e variadas." Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.

- Sem dúvida, respondi a uma lengalenga que Padre Silvestre me infligia.

Seu Ribeiro e Azevedo Gondim amolavam-se, com pachorra. Dona Glória cochilava. Padilha fumava a um canto.

- Provavelmente.

Creio que disse disparate, porque padre Silvestre divergiu e sapecou-me uma demonstração incompreensível.

0 Procurei Madalena e avistei-a derretendo-se e sorrindo para o Nogueira, num vão de janela.

Confio em mim. Mas exagerei os olhos bonitos do Nogueira, a roupa bem-feita, a voz insinuante. Pensei nos meus oitenta e nove quilos, neste rosto vermelho de sobrancelhas espessas. Cruzei descontente as mãos enormes, cabeludas, endurecidas em muitos anos de lavoura. Misturei tudo ao materialismo e ao comunismo de Madalena e comecei a sentir ciúmes.

Capítulo vinte e cinco

Comecei a sentir ciúmes. O meu primeiro desejo foi agarrar o Padilha pelas orelhas e deitá-lo fora, a pontapés. Mas conservei-o para vingar-me. Arredei-o de casa, a bem dizer prendi-o na escola. Lá vivia, lá dormia, lá recebia alimento, bóia fria, num tabuleiro.

Estive quatro meses sem lhe pagar o ordenado. E quando o vi sucumbido, magro, com o colarinho sujo e o cabelo crescido, pilheriei: - Tenha paciência. Logo você se desforra. Você é um apóstolo. Continue a escrever os contozinhos sobre o proletário.

O infeliz defendia-se. Com as humilhações continuadas, limitava-se por fim a engolir em seco. Um dia chorou, pediu-me soluçando que lhe arranjasse uma colocação no fisco estadual.

- Impossível, Padilha. Espere o soviete. Você se colocará com facilidade na guarda vermelha. Quando isso acontecer, não se lembre de mim não, Padilha, seja camarada.

Na casa-grande, que Tubarão e Casimiro Lopes guardavam, a vida era uma tristeza, um aborrecimento. Dona Glória passava as tardes debaixo das laranjeiras, empalhando-se com brochuras e folhe tins. Madalena bordava e tinha o rosto coberto de sombras.

Às vezes as sombras se adelgaçavam. E findo o trabalho, tudo convidava a gente às conversas moles, aos cochilos, ao embrutecimento.

Uma aragem corria. Vinham-me arrepios bons, desejo de empreguiçar-me. Via o monte, que a fita vermelha da estrada contorna, a mata, o algodoal, a água parada do açude.

Madalena soltava o bordado e enfiava os olhos na paisagem. Os olhos cresciam. Lindos olhos.

Sem nos mexermos, sentíamos que nos juntávamos, cautelosamente, cada um receando magoar o outro. Sorrisos constrangidos e gestos vagos.

Eu narrava o sertão. Madalena contava fatos da escola normal. Depois vinha o arrefecimento. Infalível. A escola normal! Na opinião do Silveira, as normalistas pintam o bode, e o Silveira conhece instrução pública nas pontas dos dedos, até compõe regulamentos. As moças aprendem muito na escola normal.

Não gosto de mulheres sabidas. Chamam-se intelectuais e são horríveis. Tenho visto algumas que recitam versos no teatro, fazem conferências e conduzem um marido ou coisa que o valha. Falam bonito no palco, mas intimamente, com as cortinas cerradas, dizem: - Me auxilia, meu bem.

Nunca me disseram isso, mas disseram ao Nogueira. Imagino. Aparecem nas cidades do interior, sorrindo, vendendo folhetos, discursos, etc. Provavelmente empestaram as capitais. Horríveis.

Madalena, propriamente, não era uma intelectual. Mas descuidava-se da religião, lia os telegramas estrangeiros.

E eu me retraía, murchava.

Requebrando-se para o Nogueira, ao pé da janela, sorrindo! Sorrindo exatamente como as outras, as que fazem conferências. Perigo. Quem se remexer para João Nogueira estrepa-se. Bom advogado, negócios direitos, sim sim, não não; mas no gênero mulher é uma rede, não deita água a pinto. E aquela conversa teria sido a primeira? Antes da minha bruta cabeçada, eles se entendiam. Talvez namorassem. Quando, em casa do Dr. Magalhães, eu tinha encontrado Madalena, João Nogueira estava lá. Tapado, o Dr. Magalhães, tapadíssimo. Escuta-lo é pior que ouvir serrar madeira. "Sou juiz, entende? Juiz. Levanto-me pela manhã... " O Nogueira, de olho duro, gramando aquilo! Interesse. Começara a falar em política, Madalena levantara a cabeça, curiosa. E, com dois anos de casada, num vão de janela, desmanchava-se toda para ele.

Erguia-me, insultava-a mentalmente: - Perua! Até com o Padilha! Como diabo tinha ela coragem de se chegar a uma lazeira como o Padilha? A questão social.

- Está aqui para a questão social. O que há é sem-vergonheza.

Depois a colaboração no jornal do Gondim. Continuava a colaborar. Pouco, mas continuava. O Gondim e ela tinham sido unha com carne. Lembram-se da tarde em que ele me deu parabéns, estupidamente? Familiaridade. E discutiam as pernas e os peitos dela! Eu tinha razão para confiar em semelhante mulher? Mulher intelectual.

E a minha cara devia ser terrível, porque Madalena empalidecia e dava para tremer.

a; Se eu soubesse ... Soubesse o quê! Há lá marido que saiba nada? Era possível que os caboclos do eito estivessem mangando de mim. Até Marciano e a Rosa comentariam o caso, na cama, de noite.

O Marciano conheceria as minhas relações com a Rosa? Não conhecia. Tive sempre o cuidado de mandá-ló à cidade, a compras, oportunamente. E talvez não quisesse conhecer.

Também se podia admitir que fosse dotado de pouca penetração.

- Enfim certeza, certeza de verdade, ninguém tem.

Que diria Seu Ribeiro? Que diria Dona Glória? Afastava-me, lento, ia ver o pequeno, que engatinhava pelos quartos, às quedas, abandonado. Acocorava-me e examinava-o.

Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da mãe. Olhos agateados. Os meus são escuros. Nariz chato. De ordinário as crianças têm o nariz chato.

Interrompia . o exame, indeciso: não havia sinais meus: também não havia os de outro homem.

E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam dó. Gritava dia e noite, gritava como um condenado, e a ama vivia meio doida de sono. Às vezes ficava roxo de berrar, e receei que estivesse morrendo quando Padre Silvestre lhe molhou a cabeça na pia. Com a dentição encheu-se de tumores, cobriram-no de esparadrapos: direitinho uma rês casteada. Ninguém se interessava por ele. Dona Glória lia. Madalena andava pelos cantos, com as pálperas vermelhas e suspirando. Eu dizia comigo: - Se ela não quer bem ao filho! E o filho chorava, chorava continuadamente. Ca simiro Lopes era a única pessoa que lhe tinha amizade. Levava-o para o alpendre e lá se punha a papaguear com ele, dizendo histórias de onças, cantando para o embalar as cantigas do sertão. O menino trepava-lhe às pernas, puxava-lhe a barba, e ele cantava: Eu nasci de sete meses, Fui criado sem mamar Bebi leite de cem vacas Na porteira do curral.

Boa alma, Casimiro Lopes. Nunca vi ninguém mais simples. Estou convencido de que não guarda a lembrança do mal que pratica. Toda a gente o julga uma fera. Exagero.

A ferocidade aparece nele raramente. Não compreende nada, exprime-se mal e é crédulo como um selvagem.

Capítulo vinte e seis

Fui indo sempre de mal a pior. Tive a impressão de que me achava doente, muito doente. Fastio, inquietação constante e raiva. Madalena, Padilha, Dona Glória, que trempe! O meu desejo era pegar Madalena e dar-lhe pancada até no céu da boca. Pancadas em Dona Glória também, que tinha gasto anos trabalhando como cavalo de matuto para criar aquela cobrinha.

Os fatos mais insignificantes avultaram em demasia. Um gesto, uma palavra à-toa logo me despertavam suspeitas.

Mulher de escola normal! O Silveira me tinha prevenido, indiretamente. Agora era agüentar as conseqüências da topada, para não ser besta.

Agüentar! Ora agüentar! Eu ia lá continuar a agüentar semelhante desgraça? O que me faltava era uma prova: entrar no quarto de supetão e vê-la na cama com outro.

Atormentava-me a idéia de surpreendê-la. Comecei a mexer-lhe nas malas, nos livros, e a abrirlhe a correspondência. Madalena chorou, gritou, teve um ataque de nervos.

Depois vieram outros ataques, outros choros, outros gritos, choveram descomposturas e a minha vida se tornou um inferno.

-i r s Um dia, de passagem pela fazenda, o Dr. Magalhães almoçou comigo. Espreitando-o, notei que as amabilidades dele para Madalena foram excessivas. Efetivamente nas palavras que disseram não descobri mau sentido; a intenção estava era nos modos, nos olhares, nos sorrisos. Houve, segundo me pareceu, cochichos e movimentos equívocos.

À noite não consegui dormir. Passei horas sentado, odiando Madalena, que se enroscava num canto da cama, as pernas encolhidas apertando Oestômago.

Com o Dr. Magalhães, homem idoso! Considerei que também eu era um homem idoso, esfreguei a barba, triste. Em parte, a culpa era minha: não me tratava. Ocupado com o diabo da lavoura, ficava três, quatro dias sem raspar a cara. E quando voltava do serviço, trazia lama até nos olhos: dêem por visto um porco. Metia-me em água quente, mas não havia esfregação que tirasse aquiló tudo.

Que mãos enormes! As palmas eram enormes, gretadas, calosas, duras como casco de cavalo. E os dedos eram também enormes, curtos e grossos. Acariciar uma fêmea com semelhantes mãos! As do Dr. Magalhães, homem de pena, eram macias como pelica, e as unhas, bem aparadas, certamente não arranhavam. Se ele só pegava em autos! Madalena ressonava. Tão franzina, tão delicada! Ultimamente ia emagrecendo.

Levantei-me e aproximei-me da luz. As minhas mãos eram realmente enormes. Fui ao espelho. Muito feio, o Dr. Magalhães; mas eu, naquela vida dos mil diabos, berrando com os caboclos o dia inteiro, ao sol, estava medonho. Queimado. Que sobrancelhas! O cabelo era grisalho, mas a barba embranquecia. Sem me barbear! Que desleixo! 0 No dia seguinte encontrei Madalena escrevendo. Avizinhei-me nas pontas dos pés e li o endereço de Azevedo Gondim.

- Faz favor de mostrar isso? Madalena agarrou uma folha que ainda não havia sido dobrada.

- Não tem que ver. Só interessa a mim.

- Perfeitamente. Mas é bom mostrar. Faz favor? - Já não lhe disse que só interessa a mim? Que arrelia! - Mostra a ombros.

Madalena defendia-se, ora levantando com os braços estirados, ora escondendo-o das costas: - Vá para o inferno, trate da sua vida. Aquela resistência enfureceu-me: - Deixa ver a carta, galinha. Madalena desprendeu-se e entrou quarto, gritando: - Canalha! Dona Glória chegou à porta assustada: - Pelo amor de Deus! Estão ouvindo lá Perdi a cabeça: - Vá amolar a puta que a pariu. Está mouca, aí, com a sua carinha de santa? >r isto: puta que a pariu. E se achar ruim, rua. A senhora e a boa de sua sobrinha, compreende? Puta que pariu as duas. Dona Glória fugiu com o lenço nos olhos.

- Miserável! bradou Madalena. E eu só sabia dizer: - Mostra a carta, perua.

Madalena rasgou o papel em pedacinhos e atirou-os pela janela: carta, insisti segurando-a pelos o papel atrás a correr pelo fora.

- Miserável! Saiu como um gritou: - Assassino! Atordoado, murmurei: - Cachorra! redemoinho. No corredor ainda E fiquei olhando os pedaços de papel que na manhã de vento esvoaçavam pelo jardim, entre as folhas das roseiras. Longe, no salão ou na cozinha, Madalena continuava a gritar: - Assassino! Os outros nomes feios que ela me havia dito não tinham significação. Aquele tinha uma significação. Era o que me atormentava. Mulheres, criaturas sensíveis, não devem meter-se em negócios de homens.

Antes dela, a única pessoa que, na tábua da venta, me tachou de assassino foi Costa Brito, pela seção livre da Gazeta. Justamente quando acabava de darlhe o troco, tinha-me encangado a Madalena. Canga infeliz! Não era melhor que eu tivesse quebrado uma perna? Mais vale uma boa amigação que certos casamentos.

Assassino! Como achara ela uma ofensa tão inesperada? Acaso? Ou teria lido o jornal do Brito? O mais provável era Padilha haver referido alguns mexericos que por aí circulam. Sim senhor! Estava o Padilha mudando em indivíduo capaz de fazer mal. Que graça! O Padilha! Recordei-me do caso do Jaqueira, mas a recordação desapareceu, e comecei a dizer mentalmente: - Assassino! Assassino! Encolerizei-me por estar tolices.

perdendo tempo com - Madalena, Dona Glória, Padilha, puta que pariu a todos.

Ali malucando, e a gente do eito à vontade, cobrindo mato. Espreguicei-me. Uma noite sem dormir! Depois estremeci e olhei as mãos. As minhas mãos eram enormes, com efeito.

O Jaqueira... Ah! sim! tinha sido anos atrás. De repente achei que Madalena estava sendo ingrata com o pobre do Casimiro Lopes. Afinal... Assassino! Que sabia ela da minha vida? Nunca lhe fiz confidências. Cada qual tem os seus segredos. Seria interessante se andássemos dizendo tudo uns aos outros. Cada um tem os seus achaques.

Madalena, que vinha da escola normal, devia ter muitos. Podia eu conhecer o passado dela? O presente era ruim, via-se que era ruim.

Ainda em cima ingrata. Casimiro Lopes levava o filho dela para o alpendre e embalava-o, cantando, aboiando. Que trapalhada! que confusão! Ela não tinha chamado assassino a Casimiro Lopes, mas a mim. Naquele momento, porém, não vi nas minhas idéias nenhuma incoerência. E não me espantaria se me afirmassem que eu e Casimiro Lopes éramos uma pessoa só.

O Padilha! Cabra ruim é que desgraça um homem. Quem havia de supor que o Jaqueira ... Outra vez o Jaqueira. Aqui vai, resumido, o caso do Jaqueira. Jaqueira era um sujeito empambado, e os moleques, as quengas de pote e esteira, batiam nele. Jaqueira recebia as pancadas e resmungava: - Um dia eu mato um peste.

Toda a gente dormia com a mulher do Jaqueira. Era só empurrar a porta. Se a mulher não abria logo, Jaqueira ia abrir, bocejando e ameaçando: - Um dia eu mato um peste.

Matou. Escondeu-se por detrás de um pau e descarregou a lazarina bem no coração de um freguês. No júri, cortaram a cabeça por seis votos (patifaria). Saiu da cadeia e tornou-se um cidadão respeitado. Nunca mais ninguém buliu com o Jaqueira.

Capítulo vinte e sete

Quando serenei, pareceu-me que houvera barulho sem motivo. O Dr. Magalhães tinha feitio para dirigir amabilidades a qualquer senhora sem, que ninguém desconfiasse dele. E o papel endereçado ao Gondim devia ser literatura para composição. Não era senão isso. Coisas tão fúteis e em conseqüência um arranca-rabo estúpido, com desaforo grosso, Maria das Dores ouvindo, Seu Ribeiro ouvindo. Sebo! Madalena era honesta, claro. Não mostrara o papel para não dar o braço a torcer, por dignidade, claríssimo. Ciúme idiota.

Mais bem-comportada que ela só num convento. Circunspecta, sem nó pelas costas. E caridosa, de quebra, até com os bichinhos do mato. A respeito de pensamento nada se sabia, que no pensamento de outra pessoa ninguém vai; mas quanto a palavras e obras era inatacável. Podia ter-me dito insultos piores. Pior que assassino? Muito duro. Mas não me queixava dela, queixava-me do Padilha, aquele descarado.

Depois da violência da manhã, sentia-me cheio de otimismo, e a brutalidade que há em mim virava-se para o mestre-escola.

Sem-vergonha! Era despedi-lo. À tarde fui tratar disso.

Padilha ofereceu-me a cadeira, sentou-se num tamborete e, sério, em atitude de galinha assada: - Às suas ordens, Seu Paulo Honório.

- Uma notícia desagradável. Não preciso mais dos seus serviços.

- Por quê? disse Padilha aturdido. Que foi que eu fiz? - Ora essa! Pergunta a mim? Você deve saber o que fez.

- Não fiz nada. Que é que havia de fazer, trancado? A minha sujeição é maior que a dos presos da cadeia. Não saio. Se me afasto vinte passos, é com o Casimiro no cós das calças. Que foi que eu fiz? Aponte uma falta.

- Não dou explicações. Padilha baixou a cabeça: - Está certo. Sempre na linha, e por fim uma desta! Entra ano, sai ano, e o trouxa do empregado no toco, direito como um fuso, cumprindo as obrigações, procurando agradar. Quando espera aumento de ordenado, lá vem pontapé.

Levantou-se: - Dê-me ao menos alguns dias para arrumar os troços e cavar um osso. Eu não posso sair assim com uma mão atrás, outra adiante.

Ergui-me também: - Tem um mês para se retirar.

- Muito obrigado, balbuciou Padilha. A gente ainda deve agradecer. Bem-feito. Se eu não servisse de espoleta a sua mulher, não acontecia isto. Indignou-se.

- Espoleta! "Vá buscar um livro, Seu Padilha." Eu ia. "Traga papel, Seu Padilha." Eu trazia. "Co pie esta página, Seu Padilha." Eu copiava. "Apanhe umas laranjas, Seu Padilha." Até apanhar laranjas! Espoleta! Aquela mulher foi a causa da minha desgraça.

- Emende a língua, ordenei.

- Que foi que eu disse? Que era espoleta. Era. Por isso o senhor me demite.

- Nada! O que há é que você andava fazendo fuxicos, homem. Andava intrigando, homem. Andava tecendo enredos, homem.

Luís Padilha embatucou. Depois, de um fôlego: - Quais são as intrigas, os fuxicos, os enredos? O senhor não mostra um. Eu sou culpado de sua mulher ter idéias avançadas? Se é isso ...

- Não, não é isso. - Então não sei.

- Escute, Padilha. Eu estou pegando cinqüenta anos e tenho corrido mundo. Você não me bota papa na língua não. Vejo muita coisa e fecho os olhos, filho de Deus.

Se eu afirmo que você vivia com fuxicos, é porque você vivia com fuxicos.

Padilha catava pulgas: - Pois diga. A minha consciência não me acusa. Diga. Quando a gente sabe, diz.

- Deixe de chove-não-molha, repliquei troçando com ele. Você não contou invenções a Madalena? Você não falou de mim? Falou ou não falou? - Não falei não, Seu Paulo. Se eu não sei nada! - Tire o cavalo da chuva, rapaz. Eu ouvi. Padilha encabulou: - Está bem. Se o senhor ouviu, não discutimos. Naturalmente ouviu o que eu não disse.

- Ouvi o que você disse. Não teime. Tenho bom ouvido.

- Se ouviu, concedeu Padilha, foi a história da morte do Mendonça. Dona Madalena já sabia... - Sabia o quê? - O que o povo resmunga. Calúnias. Eu expliquei tudo e defendi o senhor: "Dona Madalena, isso é um caso antigo, e mexer nele não dá vida a ninguém. O velho Mendonça era uma postema, furtava as terras dos vizinhos. Quanto ao que espalham por aí, não acredite: são aleives. Seu Paulo tem bom coração e é incapaz de matar um pinto".

Lembrei-me da briga da manhã. Exatamente o que eu tinha presumido: mexericos daquele traste. - Ó Padilha, por que foi que você disse que Madalena era a causa da sua desgraça? - E o senhor quer negar? Se não fosse ela, eu não perdia o emprego. Foi ela. E, veja o senhor, eu não gostava daquilo. Muitas vezes opinei, sem rebuço: "Dona Madalena, Seu Paulo embirra com o socialismo. É melhor a senhora deixar de novidades. Essas conversas não servem". Está aí. Papagaio come milho, periquito leva a fama. O periquito sou eu. Fraquejei: - Que diabo discutiam vocês? O meu ciúme tinha-se tornado sorriu e respondeu, hipócrita: - Literatura, política, artes, religião... Uma senhora inteligente, a Dona Madalena. E instruída, é uma biblioteca. Afinal eu estou chovendo no molhado. O senhor, melhor que eu, conhece a mulher que possui.

Capítulo vinte e oito

"O senhor conhece a mulher que possui." Que frase! Padilha sabia alguma coisa. Saberia? Ou teria falado à toa? Conjecturas. O que eu desejava era ter uma certeza e acabar depressa com aquilo. Sim ou não. "O senhor conhece a mulher que possui." Conhecia nada! Era justamente o que me tirava o apetite. Viver com uma pessoa na mesma casa, comendo na mesma mesa, dormindo na mesma cama, e perceber ao cabo de anos que ela é uma estranha! Meu Deus! Mas se eu ignoro o que há em mim, se esqueci muitos dos meus atos e nem sei o que sentia naqueles meses compridos de tortura! Já viram como perdemos tempo em padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar-se um vivente por gosto? Será? não será? Para que isso? Procurar dissabores! Será? não será? Se eu tivesse uma prova de que Madalena era inocente, dar-lhe-ia uma vida como ela nem imaginava. Comprar-lhe-ia vestidos que nunca mais se acabariam, chapéus caros, dúzias de meias de seda. Seria atencioso, muito atencioso, e chamaria os melhores médicos da capital para curar-lhe a palidez e a magrém. Consentiria que ela oferecesse roupa às mulheres dos trabalhadores.

E se eu soubesse que ela me traía? Ah! Se eu soubesse que ela me traía, matava-a, abria-lhe a veia do pescoço, devagar, para o sangue correr um dia inteiro.

Mas logo me enjoava do pensamento feroz. Que rendia isso? Um crime inútil! Era melhor abandonála, deixá-la sofrer. E quando ela tivesse viajado pelos hospitais, quando vagasse pelas ruas, faminta, esfrangalhada, com os ossos furando a pele, costuras de operações e marcas de feridas no corpo, darlhe uma esmola pelo amor de Deus.

Seria? não seria? Insignificâncias. No meio das canseiras a morte chega, o diabo carrega a gente, os amigos entortam o focinho na hora do enterro, depois esquecem até os pirões que filaram.

Que me importavam as opiniões do Padilha, de Seu Ribeiro, de Dona Glória, de Marciano? Casimiro Lopes é que não tinha opinião. Quem me dera ser como Casimiro Lopes! - Isto vai mal, Casimiro f dizia eu com os olhos. Casimiro Lopes concordava, erguendo os ombros.

Capítulo vinte e nove

Quando as dúvidas se tornavam insuportáveis, vinha-me a necessidade de afirmar. Madalena tinha. manha encoberta, indubitavelmente.

- Indubitavelmente, indubitavelmente, endem? Indubitavelmente.

As repetições continuadas traziam-me cie de certeza.

Esfregava as mãos. Indubitavelmente. que oscilar de um lado para outro.

Via-se muito bem que Dona Glória era viteira. Passadas mansinhas, olhos baixos, voz sumida estava mesmo a preceito para alcoviteira. Antigamente devia ter dado com os burros na água. Alcoviteira, desencaminhara a sobrinha. Sempre de acordo, aquelas duas éguas.

Enfim o Padilha tinha sido até camarada. Monologava com raiva: - Obrigado, Padilha. Sim senhor, boa bisca. chorro em São Bernardo mento dela.

"Aquela mulher foi a causa da minha desgraça." Que falta de respeito! Há quem atire semelhante compreuma espéAntes isso alco Não havia gato nem caque ignorasse o procedi heresia em cima de uma senhora casada, nas barbas do marido? Há? Não há. Querem mais claro? Padre Silvestre passou por São Bernardo e eu fiquei de orelha em pé, desconfiado. Deus me perdoe, desconfiei. Cavalo amarrado também come. A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os caboclos, sim senhor.

Às vezes o bom senso me puxava as orelhas: - Baixa o fogo, sendeiro. Isso não tem pé nem cabeça.

Realmente, uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos a pituim. Os meus olhos me enganavam. Mas se os olhos me enganavam, em que me havia de fiar então? Se eu via um trabalhador de enxada fazer um aceno a ela! Com esforço e procurando distração, conseguia reprimir-me. Era intuitivo que o aceno não podia ser para ela. Não podia.

Ora não podia! - Mulher não vai sabe qual é o macho.

Uma tarde em que a velha Margarida subiu a ladeira a vara e a remo para visitar-nos, vigiei-a uma hora, com receio de que a pobre fosse portadora de alguma carta.

Creio que estava quase maluco.

Com carrapato porque não

Capítulo trinta

À noite parecia-me ouvir passos no jardim. Por que diabo aquele Tubarão não ladrava? O safado do cachorro ia perdendo o faro.

Erguia-me, pegava o rifle, soprava a luz, abria a janela: - Quem está aí? Seria inimigo, gente dos Gama, do Pereira, do Fidélis? Pouco provável. As ameaças tinham cessado: eu e Casimiro Lopes criávamos ferrugem. Instintivamente, resguardava-me colado à parede. Julgava distinguir um vulto.

- Quem está aí? É bicho de fôlego ou é marmota? Não responde não? E lá ia no silêncio um tiro que assustava os moradores, fazia Madalena saltar da cama, gritando. Fechava a janela e acendia o candeeiro.

- Que foi? gemia Madalena aterrada.

- São os seus parceiros que andam rondando a casa. Mas não tem dúvida: qualquer dia fica um diabo aí estirado.

Madalena abraçavá-se aos travesseiros, soluçando. Um assobio, longe. Algum sinal convencionado. - É assobio ou não é? Marcou entrevista aqui no quarto, em cima de mim? É só o que falta. Quer que eu saia? Se quer que eu saia, é dizer. Não se acanhe.

Madalena chorava como uma fonte. Entristecia-me. Grosseiro, monstruosamente grosseiro.

E se as passadas e o assobio não fossem por causa dela? Ah! Sendo assim, eu picado para lingüiça não pagava o que devia. E se as passadas e o assobio não existissem? Lembrava-me de uma noite em que me aperreei de verdade e puxei a lambedeira, com medo de um rato. Há neste mundo cada engano! E decidia corrigir-me: - Vamos deixar de choradeira. Lá por assobiarem no pomar e passearem no jardim não é preciso a senhora se desmanchar em água. É melhor acabar com essa cavilação.

Madalena chorava, chorava, até que por fim, cansada de chorar, pegava no sono. Encolhia-me à beira da cama, para evitar o contato dela. Quando ia adormecendo, percebia o ranger de chave em fechadura e o rumor de telhas arrastadas. Despertava num sobressalto e continha a respiração. Quem estaria futucando portas? Quem estaria destelhando a casa? Aproximava-me de Madalena, observava-lhe o rosto. Teria ouvido? Ou estaria a fingir que dormia? Levantava-me, arrastava uma cadeira, sentava-me. Madalena ressonava.

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