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São Bernardo

Graciliano Ramos

Com certeza ninguém tinha bulido na fechadura nem nas telhas. Maluqueiras de sonho. Talvez as pisadas também tivessem sido abusão de sonho. Um pesadelo. Isso. Um pesadelo. Era possível que o assobio fosse grito de coruja.

Uma pancada no relógio da sala de jantar. Que horas seriam? Meia? uma? uma e meia? ou metade de qualquer outra hora? Não podia dormir. Contava de um a cem, e dobrava o dedo mindinho; contava de cem a duzentos, dobrava o seu vizinho; assim por diante, até completar mil e ter as duas mãos fechadas. Depois contava cem, e soltava o dedo grande; mais cem, o fura-bolo; e quando chegava a dois mil, as duas mãos estavam abertas. Repetia a leseira, imaginava para cada dedo que se movia um conto de réis de lucro no balanço, o que me rendia fortuna imensa, tão grande que me enjoava dela e interrompia a contagem.

Segunda pancada no relógio. Uma hora? uma e qmeia? Só vendo. Erguia-me, pisava com força. Madalena continuava a dormir.

Destrancava e trancava a porta do corredor. Tornava a destrancar, tornava a trancar. E examinava o rosto de Madalena. Que sono! Ali descansada, e eu me roendo por dentro. Descansada como se tudo estivesse muito direito. Tinha desejo de acordá-la, recomeçar a contenda em que vivíamos. Dormir assim, quando eu estava preocupado, seriamente preocupado, não era justo. Preocupado com quê? Afinal que fazia ali, com a mão na chave e os olhos esbugalhados para Madalena? - Por que diabo estou mexendo nisto? Ah! sim! ver as horas. Empurrava a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma coisa saber as horas.

Sentava-me no meu lugar à mesa. No começo das nossas desavenças todas as noites aqui me sentava, arengando com Madalena. Tínhamos desperdiçado tantas palavras! . - Para que serve a gente discutir, explicar-se? Para quê? Para quê, realmente? O que eu dizia era simples, direto, e procurava debalde em minha mulher concisão e clareza. Usar aquele vocabulário, vasto, cheio de ciladas, não me seria possível. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expressões mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas, picavam e tinham significação venenosa.

Capítulo trinta e um

Uma tarde subi à torre da igreja e fui ver Marciano procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e à noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente.

Eu desejava assistir à extinção daquelas aves amaldiçoadas.

Lá de cima escutava o barulho que Marciano, invisível, fazia. E, pelas quatro janelinhas abertas aos quatro cantos do céu, contemplava a paisagem. Por uma delas via embaixo um pedaço do escritório, uma banca e, sentada à banca, minha mulher escrevendo. Com um ligeiro desvio de olhos, afastava a cena familiar e corriqueira, divisava o oitão da casa, portas, janelas, a cama de Dona Glória, um canto da sala de jantar. Levantava a cabeça e o horizonte compunha-se de telhas, argamassa, lambrequins. Mais para cima, campos, serra, nuvens.

O capim-gordura tinha virado grama, e os bois que pastavam nele eram como brinquedos de celulóide. O algodoal galgava colinas, descia, tornava a mostrar-se mais longe, desbotado. Numa clareira da mata escura, quase negra, desmaiavam na sombra figurinhas de lenhadores.

Uma coruja gritava. E Marciano surgia de escon derijos cheios de treva, o pixaim branco de teias de aranha: - Mais uma. - um corujão da peste, Seu Paulo. Eu fungava: - Em que estará pensando aquela burra? Escrevendo. Que estupidez! Rosa do Marciano atravessava o riacho. Erguia as saias até a cintura. Depois que passava o lugar mais fundo ia baixando as saias. Alcançava a margem, ficava um instante de pernas abertas, escorrendo água, e saía torcendo-se, com um remelexo de bunda que era mesmo uma tentação.

A distância arredondava e o sol dourava cocoruPareciam extraordinárias cabeças tos de montes. de santos.

- Se aquela zo, estaria aqui belezas.

Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena mosca-morta prestasse e tivesse juíaproveitando esta catervagem de consideração. Desci, pois, as escadas em paz com Deus e com os homens, e esperava que aqueles pios infames me deixassem enfim tranqüilo.

Matutando, penetrei no jardim e encaminhei-me ao pomar, fazendo tenção de ver se a poda estava em regra.

Defronte do escritório descobri no chão uma folha de prosa, com certeza trazida pelo vento. Apanhei-a e corri a vista, sem interesse, pela bonita letra redonda de Madalena. Francamente, não entendi. Encontrei diversas palavras desconhecidas, outras conhecidas de vista, e a disposição delas, terrivelmente atrapalhada, muito me dificultava a compreensão. Talvez aquilo fosse bem-feito, pois minha mulher sabia gramática por baixo da água e era fecunda em riscos e entrelinhas, mas estavam riscados períodos certos, e em vão tentei justificar as emendas.

- Ocultar com artifícios o que deve ser evidente! Passeando entre as laranjeiras, esqueci a poda, reli o papel e agadanhei idéias indefinidas que se baralharam, mas que me trouxeram um arrepio. Diabo! Aquilo era trecho de carta, e de carta a homem. Não estava lá o nome do destinatário, faltava o princípio, mas era carta a homem, sem dúvida.

Lia a folha pela terceira vez, atordoado, detendome nas expressões claras e procurando adivinhar a significação dos termos obscuros.

- Está aqui a prova, balbuciei assombrado. A quem serão dirigidas estas porcarias? As suspeitas voaram para cima de João Nogueira, do Dr. Magalhães, de Azevedo Gondim, do Silveira da escola normal. Reli a carta um pelotão de vezes, e enquanto lia, praguejava como um condenado, e as fontes me latejavam.

Afinal a noite caiu, não enxerguei mais as letras.

Sim senhor! Carta a homem! Estive um tempão caminhando debaixo das fruteiras.

- Eu sou algum Marciano, bando de filhos das putas? E voltei furioso, decidido a acabar depressa com aquela infelicidade. Zumbiam-me os ouvidos, dançavam-me listras vermelhas diante dos olhos.

Ia tão cego que bati com as ventas em Madalena, que saía da igreja.

- Meia-volta, gritei segurando-lhe um braço. Temos negócio.

- Ainda? perguntou Madalena.

E deixou-se levar para a escuridão da sacristia. Acendi uma vela e, encostando-me à mesa carregada de santos, sobre o estrado onde Padre Silvestre se paramenta em dias de missa: - Que estava fazendo aqui? Rezando? É capaz de dizer que estava rezando.

- Ainda? repetiu Madalena.

Esperei que ela me sacudisse desaforos, mas enganei-me: pôs-se a observar-me como se me quisesse comer com os olhos muito abertos. Ferviam dentro de mim violências desmedidas. As minhas mãos tremiam, agitavam-se em direção a Madalena. Apertei-as para conter os movimentos e, com os queixos contraídos: - A senhora escreveu uma carta.

O vento frio da serra entrava pela janela, mordia-me as orelhas, e eu sentia calor. A porta gemia, de quando em quando dava no batente pancadas coléricas, depois continuava a gemer. Aquilo me irritava, mas não me veio a idéia de fechá-la. Madalena estava como se não ouvisse nada. E eu, diri 0 gindo-me a ela e a uma litografia pendurada à parede.

- Cuidam que isto vai ficar assim? O pequeno mais velho do Marciano entrou nas pontas dos pés. Sem me voltar para ele, bradei: - Vai-te embora.

O menino aproximou-se da janela. - Vai-te embora, berrei de novo. Provavelmente o meu aspecto lhe causou estranheza. Balbuciou: - Fechar a igreja, Seu Paulo.

Percebi que os meus modos eram desarrazoados e respondi com simulada brandura: - Perfeitamente. Volta mais tarde, ainda é cedo. Nove horas no relógio da sacristia.

O nordeste começou a soprar, e a porta com fúria. Mergulhei os dedos nos cabelos. - Que estás fazendo, peste? O cabrito fugiu.

Nem sei quanto tempo estive ali, em pé. A minha raiva se transformava em angústia, a angústia se transformava em cansaço.

- Para quem era a carta? E olhava alternadamente Madalena e os santos do oratório. Os santos não sabiam, Madalena não quis responder.

O que me espantava era a tranqüilidade que havia no rosto dela. Eu tinha chegado fervendo, projetando matá-la. Podia viver com a autora de semelhante maroteira? À medida, porém, que as horas se passavam, sentia-me cair num estado de perplexidade e covardia. As imagens de gesso não se importavam com a minha aflição. E Madalena tinha quase a impassibilidade delas. Por que estaria assim tão calma? bateu Afirmei a mim mesmo que matá-la era ação justa. Para que deixar viva mulher tão cheia de culpa? Quando ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos.

As minhas mãos contraíam-se, moviam-se para ela, mas agora as contrações eram fracas e espaçadas.

- Fale, exclamei com - Para quê? - Há uma carta. Eu preciso saber, compreende? Meti a mão no bolso e apresentei-lhe a folha, já amarrotada e suja. Madalena estendeu-a sobre a mesa, examinou-a, afastou-a para um lado.

- Então? - Já li.

A vela acabou-se. Acendi outra e fiquei com o fósforo entre os dedos até queimar-me.

- Diga alguma coisa.

Pareceu-me que havia ali um equívoco e que, se Madalena quisesse, tudo se esclareceria. O coração dava-me coices desesperados, desejei doidamente convencer-me da inocência dela.

- Para quê? murmurou Madalena. Há três anos vivemos uma vida horrível. Quando procuramos entender-nos, já temos a certeza de que acabamos brigando.

- Mas a carta? Madalena apanhou gou-mo: - O resto está no escritório, na minha banca. Provavelmente essa folha voou para o jardim quando eu escrevia.

- A quem? - Você verá. Está em cima da caso para barulho. Você verá.

- Bem.

voz mal segura. , o papel, dobrou-o e entre banca.

Não e Respirei. Que fadiga! - Você me perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo? - Julgo que tive as minhas razões. - Não se trata disso. Perdoa? Rosnei um monossílabo.

- O que estragou tudo foi esse ciúme, Paulo. Palavras de arrependimento vieram-me à boca. Engoli-as, forçado por um orgulho estúpido. Muitas vezes por falta de um grito se perde uma boiada. - Seja amigo de minha tia, Paulo. Quando desaparecer essa quizília, você reconhecerá que ela é boa pessoa.

Eu era tão bruto com a pobre da velha! - Conseqüência desse mal-entendido. Ela também tem culpa. Um bocado ranzinza.

- Seu Ribeiro é trabalhador e honesto, você não acha? - Acho. Antigamente deu cartas e jogou de mão. Hoje é refugo. Um sujeito decente, coitado.

- E o Padilha...

- Ah! não! Um enredeiro. Nem está direito você torcer por ele. Safadíssimo.

- Paciência! O Marciano ... Você é rigoroso com o Marciano, Paulo.

- Ora essa! exclamei enfadado. Que rosário! - Não se zangue, disse Madalena sem erguer a voz.

- O que eu queria ... Sentei-me num banco.

O que eu queria era que ela dúvidas.

- Que é que você queria? sentando-se também.

- Sei lá! me livrasse daquelas perguntou Madalena sono embrulhado e penoso. Creio que sonhei com rios cheios e atoleiros.

Quando dei acordo de mim, a vela estava apagada e o luar, que eu não tinha visto nascer, entrava pela . janela. A porta continuava a ranger, o nordeste atirava para dentro da sacristia folhas secas, que farfalhavam no chão de ladrilhos brancos e pretos. O relógio tinha parado, mas julgo que dormi horas. Galos cantaram, a lua deitou-se, o vento se cansou de gritar à toa e a luz da madrugada veio brincar com as imagens do oratório.

Ergui-me, o espinhaço doído da posição incômoda. Estirei os braços. Moído, como se tivesse levado uma surra.

Saí, dirigi-me ao curral, bebi um copo de leite. Conversei um instante com Marciano sobre as corujas. Em seguida fui passear no pátio, esperando que o dia clareasse de todo.

Realmente a mata, enfeitada de paus-d'arco, estava uma beleza.

Três anos de casado. Fazia exatamente um ano que tinha começado o diabo do ciúme.

A serraria apitou; as suíças de Seu Ribeiro surgiram a uma janela; Maria das Dores abriu as portas; Casimiro Lopes apareceu com uma braçada de hortaliças.

Desci ao açude. Derreado, as cadeiras doendo. Que noite! Despi-me entre as bananeiras, meti-me na água, mergulhei e nadei.

Quando cheguei a casa, o sol já estava alto. O espinhaço ainda me doía. Que noite! Subindo os degraus da calçada, ouvi gritos horríveis lá dentro.

- Que diabo de chamego é este? 'a.'iriaitlL Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com algumas pessoas soltando exclamações. Arredei-as e estaquei: Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca.

Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado. Parado.

No soalho havia mancha de líquido e cacos de vidro.

Dona Glória, caída no tapete, soluçava, estrebuchando. A ama, com a criança nos braços, choramingava, Maria das Dores gemia.

Comecei a friccionar as mãos de Madalena, tentando reanimá-la. E balbuciava: - A Deus nada é impossível.

Era uma frase ouvida no campo, dias antes, e que me voltava, oferecendo-me esperança absurda.

Pus um espelho diante da boca de Madalena, levantei-lhe as pálpebras. E repetia maquinalmente: - A Deus nada é impossível.

- Que desastre, Senhor Paulo Honório, que irreparável desastre! murmurou Seu Ribeiro perto de mim.

E Padilha, encolhido por detrás dele: - Num momento como este a minha obrigação era vir.

- Agradecido, muito agradecido.

E encaminhei-me ao escritório, levado pelo hábito, murmurando sempre: - A Deus nada é impossível.

Sobre a banca de Madalena estava o envelope de que ela me havia falado. Abri-o. Era uma carta extensa em que se despedia de mim. Lia-a, saltando pedaços e naturalmente compreendendo pela me tade, porque topava a cada passo aqueles palavrões que a minha ignorância evita. Faltava uma página: exatamente a que eu trazia na carteira, entre faturas de cimento e orações contra maleitas que a Rosa anos atrás me havia oferecido.

Capítulo trinta e dois

Enterrou-se debaixo do mosaico da capela-mor. Vesti-me de preto; encomendei uma lápida; o Dr. Magalhães, Padre Silvestre, João Nogueira, Azevedo Gondim, os proprietários vizinhos, vieram trazer-me pêsames. Deixei a cama de casal e mudei-me para um quarto pequeno que tinha, à beira do telhado, um ninho de carriças. Pela manhã as carriças pipilavam desesperadamente. Na mesa da cabeceira amontoavam-se telegramas e envelopes tarjados.

Como necessitava distração, dediquei-me nervosamente a uma derrubada de madeira na mata. Depois mandei consertar o paredão do açude, que vazava.

Mas o entusiasmo esfriou depressa. Aquilo era meio de vida, não era meio de morte.

E pensava em Madalena. Creio na verdade que a lembrança dela sempre esteve em mim. O que houve foi que, na atrapalhação dos primeiros dias, confundiu-se com uma chusma de azucrinações diferentes umas das outras. Mas quando essas azucrinações se tornaram apenas um sedimento no meu espírito, veio à superfície. Raramente conseguia agitar-me e dissolvê-la: recompunha-se logo e ficava em suspensão. E os assuntos mais atraentes me traziam enfado e bocejos.

Vivia agora a passear na sala, as mãos nos bolsos, o cachimbo apagado na boca. Ia ao escritório, olhava os livros com tédio, saía, atravessava os corredores, percorria os quartos, voltava às caminhadas na sala.

Certo dia, na horta, espiava um formigão que se exercitava em marchas e contramarchas inconseqüentes. Inconseqüentes para mim, está visto, que ignorava as intenções dele. A voz antipática de Dona Glória interrompeu-me a observação: - Vim dizer adeus. Vou-me embora. Levantei a cabeça e vi-a diante de mim, lutada naquele vestido velho malfeito, que nos ombros quando ela se aprumava.

- Para onde? Dona Glória descreveu descarnado, um arco: - Vou-me embora.

- A senhora não tem para onde ir.

E procurei o formigão, que tinha desaparecido. - Vou, respondeu firme Dona Glória. Esforcei-me por dissuadi-la: - Isso não tem cabimento, mundo sem destino! Crie juízo.

Dona Glória continuou, direita como um cabo de vassoura: - Não estou pedindo conselho. Vim despedirme, que não saio como negro fugido. Mande-me as suas ordens.

Encetei um dos meus intermináveis passeios, de um lado para outro: - Está bem. Cada qual é Quando volta? vagamente, tesa, enentufava com o dedo mulher. Ganhar o dono do seu nariz.

0 - Nunca. - Está bem. Apressei o passo: - Com quem vai? - Com Deus.

- Pois sim. O ta-se.

- Obrigada. Vou a pé. Aí eu queimei as alpercatas: - Vai nada! Parei soprando: - Largar-se pelo mundo, à toa, e dizer que eu botei a senhora de casa para fora, que sou morto a fome, que arribou daqui com a roupa do corpo, não é? Dona Glória, cada vez mais espichada, agastou-se: - E o senhor me prende? Não matei, não roubei, não difamei... Vou.

E eu: - Quem está falando em prender a senhora? Deixe de doidice. Quer dar o fora? Perfeitamente, não lhe seguro as pernas. Se quisesse ficar, podia viver aí até criar canhão, que ninguém lhe pisava nos calos. Mas se não quer, acabou-se. Agora o que não tem jeito é escafeder-se como quem vai tangido. Isso não. Ao deus-dará, com uma no cano, outra no fecho, não. Prepare-se, arranje os seus picuás. - Estão arranjados.

- Então é viajar como gente, com decência. É necessário que se saiba onde vai morar e quanto precisa para se manter.

- Não preciso de nada. Onde vou morar não sei. O que sei é que tenho de sair hoje.

- Não seja criança, disse eu arrastando as palavras. A senhora é capaz de pegar no pesado? Não automóvel tem gasolina. Divir vtn; dá meia missa. Encruou nos romances e até os assenrntamentos de batizados lhe seriam difíceis. EPouco a pouco Dona Glória abrandou. Ignoro se procncedeu assim em conformidade com o hábito de abrirandar ou se tinha vindo resolvida a abrandar. - Pense no aluguel das casas na cidade, pense no preço dos remédios. Adoecer é fácil, Dona Glória„., mas tirar a moléstia do corpo é um trabalhão. Pennse no mercado, no cobrador da luz, na pena de águua.

Hoje em dia a vida é difícil em toda a parte, maas na cidade a vida é um buraco, Dona Glória.

I Dona Glória confessou que a vida na cidade é de fatoio um buraco. Tinha mostrado o desprendimento e aea altivez indispensáveis. Não era justo exigir mais.

Declarei que devia a Madalena o ordenado de três ano-os. Dona Glória acreditou, ou fingiu acreditar.

- - É razoável a senhora receber isso. I Dona Glória concordou.

Dei-lhe dinheiro para a viagem, marquei-lhe uma peu.nsão de duzentos mil-réis mensais e remeti-a a Josoão Nogueira, que a hospedou por uma noite e a emmbarcou.

Passados alguns dias Seu Ribeiro demitiu-se. - - Está falando sisudo, Seu Ribeiro? - - Esta casa me provoca recordações muito pungen-ntes.

- - E a mim, homem. Que diabo! Mas a sua saída é ti tolice.

- - Não duvido, Senhor Paulo Honório, não duvidbdo.

- - Ofereceram-lhe algum emprego? - - Nenhum.

- - Então! É tolice. E o pior é que nem lhe posso datar uma recomendação. O senhor com essa idade nãaão se coloca. Felizmente está aqui há anos e tem feito economia. Vai retirar uma fortuna. Sempre dá para ir roendo.

- Levo muita saudade, Sr. Paulo Honório, gemeu Seu Ribeiro limpando os olhos. Saudade cruciante. Parto com o coração dilacerado.

- Pois não vá, homem. Todos gostam do senhor. Fique.

- Impossível, inteiramente impossível. A minha resolução é inabalável.

- Está bem.

E olhei com tristeza o escritório, mais desatravancado depois que a banca de Madalena tinha sido afastada para um canto.

Assim o excelente Seu Ribeiro, que eu esperava enterrar em São Bernardo, foi terminar nos cafés e nos bancos dos jardins a sua velhice e as suas lembranças.

Capítulo trinta e três

Padilha começou a andar no pátio, aproximandose da casa e fazendo, quando me via, grandes cumprimentos. Afinal chegou ao alpendre e demorou-se um instante. Fingi não perceber esses manejos.

- Emboque, Padilha.

O prazo de um mês que eu tinha marcado para ele retirar-se voara. Padilha entrou, ficou. Deixá-lo. Sempre era uma companhia.

Enquanto eu, carrancudo e cheio de preguiça, olhava as cercas de Bom-Sucesso e pensava nas duas Mendonça, que viviam quase na miséria, Padilha falava. Falava como quem bebeu água de chocalho. Eu não prestava atenção ao que ele dizia. Nada. Sempre era uma voz humana.

Afastou-se logo.

Um dia Azevedo Gondim trouxe boatos de revolução. O sul revoltado, o centro revoltado, o nordeste revoltado.

- É um fim de mundo. Padilha. esfregou as mãos: - Afinal a postema rebentou, com os diabos! A noite o chefe político escreveu-me pedindo armas e cabroeira. De madrugada enviei-lhe um caminhão com rifles e homens.

rá.e.

Depois os boatos engrossaram e viraram fatos: batalhões aderindo, regimentos aderindo, colunas organizando-se e deslocando-se rapidamente, bandeiras encarnadas por toda a parte, o governo da República encurralado no Rio.

- Uma invasão de bárbaros! Gondim. Estamos perdidos.

Padilha, numa agitação constante, devorava manifestos e roía as unhas. Enfim, quando a onda vermelha inundou o Estado, desapareceu subitamente. João Nogueira elucidou o caso: - Padilha e Padre Silvestre incorporaram-se às tropas revolucionárias e conseguiram galões.gritava Azevedo

Capítulo trinta e quatro

Na cidade havia um fuxico nojento. E eu, que nunca tive gosto para safadezinhas de lugar miúdo, entoquei-me.

Lamentava, sem dúvida, que o meu partido tivesse ido.abaixo com um sopro. Que remédio! - É comer agora da banda podre. E calado. Os Gama, o Pereira, o Fidélis, iam serrar de cima e fazer-me picuinhas. Aborrecia-me de tudo isso. Também não fariam grande coisa. Cortar o arame da cerca, mandar o delegado de polícia tomar a faca de um cabra, na feira, e sapecar-lhe o zinco. Natural. O pior era Padilha ter seduzido uns dez ou doze caboclos bestas, que haviam entrado com ele no exército revolucionário. Voltariam.

Para quê? Era melhor ficarem na malandragem, nos exercícios.

Bocejava. Cada bocejo de quebrar queixo. Vida estúpida! É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele. Tão franzino, tão amarelo! - Se melhorar, entrego-lhe a serraria. Se crescer assim bambo, meto-o no estudo para doutor.

Lá vinham os projetos. Diabo leve os projetos. O mundo que me cercava ia-se tornando um hor rível estrupício. E o outro, grande, era uma balbúrdia, uma confusão dos demônios, estrupício muito maior.

Os amigos e os jornais traziam-me a revolução. - Uma peste! bradava Azevedo Gondim. Foi um blu f f . Ameaças pelo telégrafo e pelo rádio, boletins jogados por aeroplanos todo o mundo se pelava de medo. Isto é o povo mais covarde que Deus fabricou.

- Exagero, opinava o advogado. Houve bravura. - Que bravura! berrava Gondim. Gente que devia pegar no pau-furado escondeu-se.

- Os da situação passada. Entre os revolucionários é diferente: há idealismo, há coragem. Não digo isto em público, mas há.

- Diabo leve o idealismo deles. E quanto a coragem...

- Vamos ser justos, Gondim, intervinha eu conciliador e murcho. Essa coisa estava na massa do sangue do povo. Não valia a pena brigar.

- Não valia! Ora não valia! Todos iam pensando assim e eles foram entrando. E que falta de vergonha! Figurões do governo apareceram de repente com lenços vermelhos no pescoço.

- Isso foi em Alagoas, atalhava João Nogueira. - Foi em toda a parte, homem. E mesmo agora, muitos não se passam porque não são aceitos.

- Quanto a mim, declarava Nogueira, tanto me faz estar em cima como embaixo, que política nunca me rendeu nada. Estou embaixo e não pretendo subir. É verdade que sempre achei a democracia um contra-senso. Muitas vezes lhe disse. O diabo é que votei na chapa do governo. Mas, aqui entre nós, a ditadura só não presta porque estamos no chão. Gondim protestava, indignava-se. E eu: - Só queria ver Padre Silvestre fardado de tenente.

- Que interesse tem ele em bancar o patriota? dizia Nogueira.

- Animal! resmungava Azevedo Gondim. O Cruzeiro tinhá perdido a subvenção. Conversas assim, repetidas, distraíam-me. Uma vez por semana os dois jantavam comigo. E na cidade sujeitos exaltados começavam a espalhar que São Bernardo era um ninho de reacionários.

- Como vai o fusuê? - Mal.

E lá vinham notícias de violências desnecessárias, vinganças, comissões de sindicância lavando roupa suja.

Nogueira, moderado, desejava um acordo entre vencedores e vencidos.

Gondim détestava acordos. Dente por dente, percebíamos? Dava-nos conselhos violentos, a mim, ao Nogueira, às árvores do pomar, e instigava-nos a uma contra-revolução (quanto mais depressa melhor) que varresse do poder aquela cambada de parlapatões. Queria um governo enérgico, sim senhor, duro, sim senhor, mas sensato, um governo que trabalhasse, restabelecesse a ordem, a confiança do credor e a subvenção de cento e cinqüenta mil-réis mensais ao Cruzeiro. Como íamos é que não podíamos continuar.

Atirava-nos palavrões encorpados que no jornal lhe serviam para tudo. São Paulo havia de se erguer, intrépido; em São Paulo ardia o fogo sagrado; de São Paulo, terra de bandeirantes, sairiam novas bandeiras para a conquista da liberdade postergada.

- Você fala bem, Gondim, murmurava eu im pressionado. Você havia de trepar, Gondim, se o nosso partido não tivesse virado de pernas para o ar. João Nogueira metia as botas na eleição e inculcava os conselhos técnicos. Gondim gostava do voto comode um filho pequeno e só admitia técnicos nas comissões da Câmara.

Casimiro Lopes, afastado, sombro.

Eu olhava a torre da igreja. E o meu pensamento estirava-se pela paisagem, encolhia-se, descia as escadas, ia ao jardim, ao pomar, entrava na sacristia.

João Nogueira condenava a literatura revolucionária, a patriotice alambicada.

O oratório, sobre a mesa, estava cheio de santos; na parede penduravam-se litografias; a porta dava pancadas no batente; apagava-se a vela, eu acendia outra e ficava com o fósforo entre os dedos até queimar-me. As casas dos moradores eram úmidas e frias. A família de Mestre Caetano vivia num aperto que fazia dó. E o pobre do Marciano tão esbodegado, tão escavacado, tão por baixo! Azevedo Gondim reclamava liberdade, aos gritos. Contenta-se com a renda mofina do jornal e deve os cabelos da cabeça. Conforma-se com isso. O que deseja é ver a Gazeta de mangas arregaçadas, espumando, e o bilhar do Sousa, quando a carambola falha, insultar os políticos, umas toupeiras.

Agora a vela estava apagada. Era tarde. A porta gemia. O luar entrava pela janela. O nordeste espalhava folhas secas no chão. E eu já não ouvia os berros do Gondim.

Capítulo trinta e cinco

Entrei nesse ano com o pé esquerdo. Vários fregueses que sempre tinham procedido bem quebraram de repente. Houve fugas, suicídios, o Diário O f icial se emprenhou com falências e concordatas. Tive de aceitar liquidações péssimas.

O resultado foi desaparecerem a avicultura, a horticultura e a pomicultura. As laranjas amadureciam e apodreciam nos pés. Deixá-las. Antes isso que fazer colheita, escolha, embalagem, expedição, para dá-las de graça.

Uma infelicidade não vem só. As fábricas de tecidos, que adiantavam dinheiro para a compra de algodão, abandonaram de chofre esse bom costume e até deram para comprar fiado. Vendi uma safra no fuso, e enganaram-me na classificação.

Era necessário adquirir novas máquinas para o descaroçador e para a serraria, mas na hora dos cálculos vi que ia gastar uma fortuna: o dólar estava pelas nuvens.

- Vamos deixar de novidade. Sacrificar-me e no fim entregar a mercadoria de mão beijada a esses velhacos! Ainda por cima os bancos me fecharam as portas. Não sei por quê, mas fecharam. E olhem que nunca atrasei pagamentos. Enfim uma penca de caiporismos. Cheguei a dizer inconveniências a um gerente: - Pois se os senhores não querem transigir, acabem com isso. Ou os papéis valem ou não valem. Se valem, é passar o arame. Pílulas! Eu encomendei revolução? Em seis meses havia tão grande quebradeira que torrei nos cobres o automóvel para não me protestarem uma letra vagabunda de seis contos.

- Maré vazante. Agora ganham os preguiçosos. Quem devia estar vivo era o velho Mendonça, que deixava a propriedade coberta de capoeira e o engenho de fogo morto.

Trabalhar para formiga! É cruzar os braços.

E cruzei os braços.

Um dia em que, assim de braços cruzados, contemplava melancolicamente o descaroçador e a serraria, João Nogueira me trouxe a notícia de que o Fidélis e os Gama iam remexer as questões dos limites. E o pior era que o Dr. Magalhães estava noutra comarca.

- Belezas da revolução, comentou Nogueira. Um funcionário inamovível! E um juiz decente como o Magalhães! um juiz íntegro! Encolhi os ombros, desanimado. João Nogueira desanimou também. Paciência.

E recomecei os meus passeios mecânicos pelo interior da casa. Às vezes empurrava a porta do escritório para dar uma ordem a Seu Ribeiro. Parecia-me ver Dona Glória malucando no pomar, com o romance.

E os meus passos me levavam para os quartos., como se procurassem alguém.

Capítulo trinta e seis

Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir discutir política, isto se tornou insuportável.

Foi aí que me surgiu a idéia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta história. A idéia gorou, o que já declarei. Há cerca de quatro meses, porém, enquanto escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um grito de coruja e sobressaltei-me.

Era necessário mandar no dia seguinte Marciano ao forro da igreja.

De repente voltou-me a idéia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois de vacilar um instante, porque nem sabia começar a tarefa, redigi um capítulo.

Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.

Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova.

Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias per didos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto.

Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil-réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.

O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo São Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.

Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o Diabo e levar tudo? Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar abandonados; os marrecos de Pequim mortos; o algodão, a mamona secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.

Está visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de sol a sol, alimegtada com farinha de mandioca e barbatanas de bacalhau; caminhões rodariam novamente, conduzindo mercadorias para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de movimento e rumor.

Mas para quê? Para quê? não me dirão? Nesse movimento e nesse humor haveria muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédio e leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes.

Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.

Bichos. Alguns mudaram de espécie e estão no Exército, volvendo à esquerda, volvendo à direita, fazendo sentinela. Outros buscaram pastos diferentes.

Se eu povoasse os currais, teria boas safras, depositaria dinheiro nos bancos, compraria mais terra e construiria novos currais. Para quê? Nada disso me traria satisfação.

Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor de doce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a Mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha.

Além disso estou certo de que a escrituração mercantil, os manuais de agricultura e pecuária, que forneceram a essência da minha instrução, não me tornaram melhor que o que eu era quando arrastava a peroba. Pelo menos naquele tempo não sonhava ser o explorador feroz em que me transformei.

Quanto às vantagens restantes casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. - é preciso convir em que tudo está fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada.

Se houvesse continuado a arear o tacho de cobre da velha Margarida, eu e ela teríamos uma existência quita. Falaríamos pouco, pensaríamos pouco, e à noite, na esteira, depois do café com rapadura, rezaríamos rezas africanas, na graça de Deus.

Se não tivesse ferido o João Fagundes, se tivesse casado com a Germana, possuiria meia dúzia de cavalos, um pequeno cercado de capim, encerados, cangalhas, seria um bom almocreve. Teria crédito para comprar cem mil-réis de fazenda nas lojas da cidade e pelas quatro festas do ano a mulher e os meninos vestiriam roupa nova.

Os meus desejos percorreriam uma órbita acanhada. Não me atormentariam preocupações excessivas, não ofenderia ninguém. E, em manhãs de inverno, tangendo os cargueiros, dando estalos com o buranhém, de alpercatas, chapéu de ouricuri, alguns níqueis na capanga, beberia um gole de cachaça para espantar o frio e cantaria por estes caminhos, alegre como um desgraçado.

Hoje não canto nem rio.

Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam.

Penso no povoado onde Seu Ribeiro morou, há meio século. Seu Ribeiro acumulava, sem dúvida, mas não acumulava para ele. Tinha uma casa grande, sempre cheia, o jerimum caboclo apodrecia na roça e por aquelas beiradas ninguém tinha fome, Imagino-me vivendo no tempo da monarquia, à sombra de Seu Ribeiro. Não sei ler, não conheço iluminação elétrica nem telefone. Para me exprimir recorro a muita perífrase e muita gesticulação. Tenho, como todo o mundo, uma candeia de azeite, que não serve para nada, porque à noite a gente dorme. Podem rebentar centenas de revoluções. Não receberei noticia delas. Provavelmente sou um sujeito feliz.

Com um estremecimento, largo essa felicidade que não é minha e encontro-me aqui em São Bernardo, escrevendo.

As janelas estão fechadás. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.

Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.

Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena dor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me persegue-me. Diligencio afasta-la e caminho em refiro com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.

De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa: - Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.

A agitação diminui.

- Estraguei a minha vida estupidamente.

Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos ... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu.

Não consigo modificar-me, é ò que me aflige.

A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele.

Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além.

Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.

Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.

Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.

E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também conseqüëncia da profissão.

Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.

Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.

A vela está quase a extinguir-se. Julgo que delirei e sonhei com cheios e uma figura de lobisomem.

Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.

É horrível! Se aparecesse alguém ... Estão todos dormindo.

Se ao menos a criança chorasse ... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria! Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes! E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.

Fonte: 4shared.com

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