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Vidas Secas

Graciliano Ramos

Nao sera significativo que em Infancia nao aparecam os instantes agradaveis, felizes, ilusoes e sonhos do menino Graciliano Ramos? Que tenham sido conservados pela memoria, de preferencia, os momentos de infelicidade, tristeza o solidao, as humilhacoes e decepcoes da infancia? E que os primeiros foram superficiais e efemeros, talvez porque menos frequentes, logo esmagados pelos segundos, mais constantes; o foram estes que permaneceram, que lhe marcaram a natureza humana. Quando se decidiu a escrever um livro de memorias, a sensibilidade reagiu em toda a sua exacerbacao; o exprimiu-se pela exteriorizacao daquilo que nela se gravara mais profundamente.

No mundo infantil do Sr. Graciliano Ramos a injustica se erguia no horror dessa divisao: de um lado, criancas submissas e maltratadas, do outro lado, adultos, crueis e despoticos. Pais, maes, mestres, todos os adultos pareciam dotados da missao particular de oprimir as criancas. Um mundo intoleravel de castigos, privacoes e vergonhas. Uma ou outra excecao, que atravessa de leve essas recordacoes, nao chega a partir a unidade na fisionomia de infortunio e desolacao.

Toma quase que o aspecto de uma figura do outro mundo a professora Maria, com a voz suave, com seus impulsos de ternura, que por isso mesmo tanto surpreendeu a principio o menino Graciliano Ramos, ja acostumado, em casa, com o tratamento de "bolos, chicotadas, cocorotes, puxoes de orelhas". A professora Maria, porem, e um episodio que logo desaparece; a realidade que fica e a da professora Maria do O, quase sadica no tratamento impiedoso dado a menina Adelaide. E o que foi o espetaculo da infancia desgracada, para a visao do Sr. Graciliano Ramos, ve-se no capitulo comovente "A Crianca Infeliz," um dos ultimos do livro.

Seria impossivel que esse ambiente de educacao deformada, de crueldade e dureza, nao se refletisse na imaginacao do romancista, nao influisse decisivamente na sua visao dos acontecimentos e dos homens. Alem das sugestoes, indiretas, ele indica claramente as impressoes que guardou para sempre de certos episodios da infancia. Um dia, o seu pai julgou que ele havia escondido um cinturao, quis obriga-lo a encontrar um objeto em que ele nao havia sequer tocado. Foi surrado brutalmente, sem investigacao e sem culpa. Ao reviver agora esta cena, reconstruida no livro com magnifica intensidade literaria, o Sr. Graciliano Ramos ve nela o seu "primeiro contato com a justica", e comenta: As minhas primeiras relacoes com a justica foram dolorosas e deixaram-me funda impressao.

Seu pai, juiz substituto de interior, prendera impulsivamente um pobre-diabo, que nenhuma falta cometera, que nao praticara nenhum crime. Testemunhando esse abuso de autoridade, escreve agora a respeito: Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro - e julgo que a prisao de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribuido tambem para a desconfianca que a autoridade me inspira.

Teve desde cedo a sensacao da desigualdade entre os homens: Notava diferencas entre os individuos que se sentavam nas redes e os que se acocoravam nos alpendres. O gibao do meu pai tinha diversos enfeites; no de Amaro havia numerosos buracos.

O folclore do seu ambiente no interior tornou-o cetico quanto ao heroismo: Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a decisao e o heroismo, quando isto se grava no papel e os gatos se transformam em papa-ratos. De perto, os individuos capazes de amarrar fachos nos rabos dos gatos nunca me causaram admiracao. Realmente sao espantosos, mas e necessario ve-los a distancia, modificados.

Elogiaram-lhe certa vez, com risos, por pilheria, o seu paleto cor de macaco; e ele deixou de acreditar em elogios: Guardei a licao, -conservei longos anos esse paleto.

Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pespontos das minhas acoes cor de macaco. Paciencia, tinham de ser assim.

Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele e realmente: chinfrim e cor de macaco.

Do ambiente familiar, a impressao definitiva que lhe ficou, traduz-se nesta confissao: Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, o pavor.

Do pai e da mae reve "pedacos deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem labios, maos grossas e calosas, finas e leves, transparentes".

Porque nao se sentiu amado, nem teve uma infancia de ternuras e afagos, o Sr. Graciliano Ramos reagiu com sentimentos de indiferenca e desprezo em face de toda a humanidade. Ele nao escreveu estas memorias apenas por motivos literarios, antes para se libertar dessas lembrancas opressivas e torturantes.

Escreveu a historia da sua infancia porque a detesta com amargura. Nao se achou, por isso, obrigado a complacencias para com os outros. Refere-se aos pais com realismo, com objetividade, como se estivesse. desligado deles. Nao manifesta propriamente odio a nenhum dos seres que o fizeram sofrer, mas da-lhes uma retribuicao na frieza, na dureza implacavel com que os revive. E este rigor, este sistema anti-sentimental de observacao, estende-se a si mesmo sem qualquer condescendencia. Verificamos nestas memorias que a atitude do Sr. Graciliano Ramos em face da vida nao e bem a do humour, mas a do sarcasmo, produto da revolta de uma sensibilidade vibratil e tensa. Sensibilidade que, maltratada, macerada, sufocada, reagiu depois por intermedio da criacao de um mundo de ficcao em que se projetaram as sombras e as sensacoes de um pavoroso mundo infantil.

Literariamente, o Sr. Graciliano Ramos encontrou no genero memorias uma forma de rara adequacao para a sua arte de escritor, para o seu estilo. Creio que este e o mais bem escrito de todos os seus livros. Percebe-se aqui o apuro do trabalho de composicao e estilo, o seguro artesanato literario. A secura, a frieza dessas impressoes de infancia encontra a devida correspondencia no seu estilo sobrio, ascetico, livre de adornos. A prosa do Sr. Graciliano Ramos e moderna, no seu aspecto desnudado, no vocabulario, no gosto das palavras e das construcoes sintaticas, e e classica pela correcao, pelo tom como que hieratico das frases. O que a valoriza propriamente nao e a beleza, no sentido hedonistico da palavra, mas a sua precisao, a sua capacidade de transmitir sensacoes e impressoes com um minimo de metaforas e imagens, quase so com o jogo e o atrito de vocabulos, principalmente de adjetivos. Destacaria em Infancia, pelo conteudo dramatico e pela arte literaria, capitulos como.

"O Moleque Jose", "O Cinturao", "Minha Irma Natural", "Um Enterro", "Venta-Romba", "A Crianca Infeliz". Nenhum deles, porem, chega a superar o capitulo final, "Laura", em cujas paginas descreve a passagem da infancia para a adolescencia, com as primeiras inquietacoes da carne e do sexo. Ao lado destes, certos capitulos como "O Fim do Mundo", "O Inferno" e "Antonio do Vale" tornam-se mais ou menos insignificantes.

Imagino que as pessoas sentimentais, ou as educadas normalmente, ficarao constrangidas ao ler as memorias do Sr.

Graciliano Ramos, mas espero que, antes de tudo, tambem se sintam comovidas. Estas paginas determinam igualmente a compreensao dos seus romances, do seu mundo romanesco marcado pela tristeza e pela solidao. Escreveu Wilhelm Dilthey que "a autobiografia nao e senao a expressao literaria da autognosis do homem acerca do curso de sua vida" . A autobiografia do Sr. Graciliano Ramos explica o carater aspero e sombrio da sua obra de romancista: o criador de S. Bernardo e Angustia ja estava no menino amargurado de Infancia, onde encontramos agora as raizes do seu niilismo implacavel e devastador.

Setembro de .

( WILHELM DILn EY - La imaginacion del poeta, in Poetica.

Traduccion del aleman de Elsa Tahernig. Editorial Losada S.A.

Buenos Aires, ).

III - Romances, novelas e contos: visao em bloco de uma obra de ficcionista Um acontecimento ao mesmo tempo literario e editorial e o aparecimento em conjunto de todas as obras de ficcao do Sr. Graciliano Ramos, quatro romances e um livro de contos s. Em rigor, seria preferivel, porque mais exata, esta classificacao: dois romances: Caetes e Angustia; duas novelas: S. Bernardo e Vidas Secas; um volume de contos: Insonia. A distincao nao decorre do tamanho, nem mesmo da qualidade dos livros, mas do espirito de concepcao e realizacao. A falta de diferenciacao neste sentido, e, alias, muito comum na literatura brasileira, na qual a maioria dos livros classificados como romances mereceria com mais propriedade o titulo de novelas. Por coincidencia, em nosso caso, dos dois livros do Sr. Graciliano Ramos que nos parecem especificamente romances, um, Angustia, e a sua obraprima, e uma das realizacoes importantes e caracteristicas da ficcao brasileira, enquanto o outro, Caetes, e uma obra de todo falhada e inexpressiva. As duas novelas, por sua vez, sao ambas excelentes e consideraveis, nao obstante alguns defeitos fundamentais de idealizacao e de construcao, que serao indicados no decorrer destes artigos, com os quais voltamos pela terceira vez a tratar de um autor especialmente estimado e de uma obra calorosamente admirada por todos os seus companheiros de vida literaria .

Nos estudos anteriores, o meu objetivo foi interpretar o sentido geral da obra do Sr. Graciliano Ramos, procurando fixar os tracos de personalidade do escritor e a projecao dela atraves da arte literaria. Tinha imaginado discutir desta vez a significacao politica da sua obra, e com uma opiniao GRACILIANO RAMOS - Caetes. Rio de Janeiro, . GRACILIANO RAMOS - S. Bernardo. Rio de Janeiro, .

GRACILIANO. RAMOS - Vidas Secas. Rio de Janeiro, .

GRACILIANO RAMOS - Insonia. Rio de Janeiro, .

Nao havia nessa epoca ainda nenhum estudo de conjunto - hoje acontece com o tao importante ensaio de Antonio Candido - acerca da criacao ficcionista de Graciliano Ramos. Este Autor, nos presentes capitulos, foi o primeiro a quem coube faze-lo, nao obstante em proporcoes modestas, e nas condicoes possiveis com referencia a um romancista ainda vivo, cuja obra a ninguem seria dado entao saber se estaria ou nao ja concluida como um todo.

contraria a que se acha estabelecida, no que me vejo impedido pelas circunstancias exteriores, pois nao seria leal e correto abrir esse debate num momento que lhe e pouco oportuno, prestando-se a minha atitude a exploracoes extraordinarias". Procuremos, entao, outro terreno para esses comentarios, a fim de que nao redundem em simples repeticao ou variacao dos anteriores. Este terreno podera ser o da evolucao literaria do Sr. Graciliano Ramos, vista melhor atraves de uma leitura de conjunto dos seus romances e novelas, fixada em cada um dos seus livros. Pois a verdade e que este ficcionista, bastante limitado, a certo respeito, nas suas visoes, jogando com um ambiente social reduzido, e nao muito vastos recursos de revelacao psicologica, conseguiu, no entanto, fazer de cada um dos seus livros uma obra independente, sempre com elementos particulares e caracteristicas proprias, sem se repetir, sem transmitir nunca a sensacao de que um deles esta prolongando o outro atraves de aspectos semelhantes. Isso e um resultado da sua arte literaria, da sua capacidade de utilizar, com o maximo proveito, todos os elementos de observacao, inspiracao, imaginacao e cultura, de que dispoe conscientemente.

A primeira edicao de Caetes apareceu em ; o seu autor, nessa epoca, era uma figura municipal, tendo vivido ate a maturidade numa cidade do interior de Alagoas. Nao se tinha ai a estreia de um rapaz, de um jovem, pois ao publica-lo ja entrara o romancista na casa dos quarenta anos. Essa circunstancia explicara, talvez que, sendo Este Autor projetara - e nisto estava interessado o proprio romancista - realizar um estudo de interpretacao da obra de Graciliano Ramos sob o ponto de vista do marxismo, aproveitando a circunstancia de ter-se inscrito ele, dois anos antes, como membro do Partido Comunista. Todavia, isto se tornou impossivel, em realidade etica, porque no momento em que apareceram os seus livros em conjunto, e quando, consequentemente, preparei este ensaio - julho de - os comunistas brasileiros estavam sendo objeto de uma perseguicao policial zoologicamente feroz e brutal por parte do governo do marechal Dutra. Um governo que deve ficar caracterizado pelos intelectuais - e para vergonha e anatema de quem nele ocupou cargos e posicoes - como o mais violento, o mais grosseiro e o mais desonesto de todos os governos republicanos.

um livro falhado e sem valor, Caetes nem sequer tenha deixado suspeitar o grande escritor que surgiria depois em S.

Bernardo, Angustia e Vidas Secas. Nao havia nele as indecisoes, os erros, as perplexidades, os excessos, misturados, porem, a certas revelacoes de talento, que nos livros de alguns estreantes nos levam a jogar certo no futuro deles. Nao; nao era este o caso de Caetes. Tudo nas suas proprias paginas revelava seguranca e estabilidade, mas de ma qualidade. Um livro macicamente ruim. A vulgaridade do ambiente do romance - e todo ele se processa atraves de coisas reles, pequenas intrigas e conversinhas de uma cidade do interior parece ter contaminado a propria arte do romancista, de modo que assunto e realizacao permanecem no mesmo plano mediocre. Logo na primeira pagina, na primeira cena, encontramos a vulgaridade de expressao daquele "e deulhe dois beijos no cachaco", seguida mais adiante de outra, que escolhemos apenas entre os possiveis e numerosos exemplares neste sentido: Que diabo! Se ela me preferisse ao marido, nao fazia mau negocio. E quando o velhote morresse, que aquele trambolho nao podia durar, eu amarrava-me a ela, passava a socio da firma e engendrava filhos muito bonitos.

Estilo correto, o do Sr. Graciliano Ramos, desde este primeiro romance, mas ainda sem a justeza, o vigor e a expressividade que lhe sao caracteristicos. O ritmo das frases ainda se apresentava sem regularidade, as vezes saltitante, as vezes telegrafico, como se estivesse comprimido: Acharam-me apatico e murcho. D. Maria Jose perguntou, solicita, se as comidas me desagradavam. Macada.

As comidas eram otimas, respondi, mas o estomago e a cabeca nao me iam bem. O Dr. Liberato me indicou um remedio.

Agradeci e recolhi-me.

Por sua vez o enredo de Caetes e comum e destituido de interesse. Torna-se simplesmente monotona aquela pretensao de Joao Valerio, aquele projeto de conquista amorosa, que nem se realiza, nem gera alguma acao romanesca. Arrastada e a acao, arrastados os dialogos. Alem disso, o processo do romance .e de carater fotografico, com mais pitoresco do que dramaticidade; os personagens sao tipos convencionais, que nao se individualizam nem pelos seus atos nem pelos seus caracteres. Costuma-se dizer que este primeiro romance do Sr. Graciliano Ramos foi muito influenciado por Eca de Queiros. Ora, a nao ser em algumas pilherias, e na pagina final, que realmente parece ter sido inspirada nas ultimas paginas de A Ilustre Casa de Ramires, nao vejo nitidamente as linhas dessa ligacao. Parece-me que mais verdadeiro foi o Sr.

Joao Gaspar Simoes quando o aproximou de Camilo Castelo Branco, naturalmente de um Camilo Castelo Branco despojado do arcaismo e da linguagem artificiosa. Por que nao me agradou nada este romance Caetes? Nao quero ser categorico na minha opiniao; e tomo a iniciativa de sugerir ao leitor que talvez ela tenha decorrido da circunstancia de so agora o haver lido, depois de conhecer toda a capacidade e toda a arte do autor de uma obra como Angustia.

Apenas um ano depois de Caetes, em , aparecia S.

Bernardo, e dir-se-ia que era o livro de um novo escritor, tal a diferenca entre um e outro, quanto ao valor literario e a significacao humana. A nao ser que o primeiro tenha sido escrito muitos anos antes do aparecimento, a evolucao tao fundamente marcada no segundo, num insignificante espaco de tempo, e inexplicavel, e um dos muitos misterios da criacao artistica. Isso seria assunto, alias, para uma pagina de depoimento ou interpretacao, a ser escrita por algum dos companheiros que viveram em intimidade com o Sr. Graciliano Ramos na sua' fase alagoana.

Nao e pelo ambiente que o plano de concepcao e de construcao do romancista se amplia, engrandecido em S.

Bernardo. O ambiente de Caetes e uma pequena cidade do interior; o de S. Bernardo ainda e menor: uma fazenda. Os personagens tambem nao sao nem mais numerosos, nem mais significativos socialmente. Pelo contrario: o mundo romanesco e mais reduzido e concentrado no segundo livro, o que lhe da um carater marcante e segurissimo de novela bem estruturada.

A fazenda S. Bernardo transfigura-se num autentico microcosmo. As figuras apresentam humanidade, paixoes, dramas, miserias, anseios de felicidade e quedas na irremediavel desgraca. O Sr. Graciliano Ramos, ao criar e movimentar personagens como Paulo Honorio e Madalena, parece ter encontrado, definitivamente, o seu plano de ficcionista: o do romance psicologico. A sua especialidade nao e a invencao de acontecimentos, nem mesmo o aproveitamento em extensao, com objetivos dramaticos, de acontecimentos porventura observados ou vividos diretamente.

Neste sentido,. o mundo romanesco do Sr. -Graciliano Ramos e pobre, limitado, deficiente. O que transmite vitalidade e beleza artistica aos seus romances nao e o movimento exterior, mas a existencia interior dos personagens. Os acontecimentos so tem significacao pelos seus reflexos nas almas, nos caracteres, nos pensamentos. E isto constitui a forma superior da ficcao, tanto mais estimavel no Brasil quanto o nosso temperamento nao se mostra muito propicio ao que ela exige de concentracao espiritual, densidade psicologica e complexidade literaria. Com S. Bernardo, o Sr.

Graciliano Ramos apresentou a sua primeira obra de analise psicologica, de iluminacao interior de personagens, na linha de um processo que daria em seguida todos os seus resultados em Angustia. Acompanhando os assuntos para esse terreno subjetivo, o estilo do romancista adquiriu, por sua vez, a propriedade, a elegancia e o vigor que fazem do Sr.

Graciliano Ramos um dos escritores que melhor manejam atualmente a lingua portuguesa. As vezes, em certos trechos, ele me desagrada pela secura e dureza, como pela ausencia de vibracao e dinamismo, mas isto talvez decorra em grande parte daquela limitacao de assuntos e de problemas, acima sugerida.

O principal defeito de S. Bernardo ja tem sido apontado mais de uma vez: e a inverossimilhanca de Paulo Honorio como narrador, e o contraste entre o livro e seu imaginario escritor, o que se ja verificara em Caetes. De certo modo, em todos os romances escritos na primeira pessoa, concede-se uma margem para a inverossimilhanca. Contudo, em S. Bernardo ela e excessiva e inaceitavel. Uma novela de tanta densidade psicologica, elaborada com tantos requintes de arte literaria, nao suporta o artificio de ser apresentada como escrita por um personagem primario, rustico, grosseiro, ordinario, da especie de Paulo Honorio. Mesmo com um narrador impessoal, alias, ainda subsistiria alguma inverossimilhanca, pois aquele personagem, como aparece no romance, nao podia ter a vida interior que lhe atribui o romancista. E a inverossimilhanca que se verificara, embora sob outro aspecto, em Vidas Secas.

Nota-se a principio uma certa hesitacao na marcha do enredo de S. Bernardo. Os primeiros capitulos se lancam em varias direcoes, como se o proprio romancista nao estivesse ainda no dominio da linha central do desenvolvimento dramatico. Ha mesmo alguns trechos que parecem enxertados, podendo figurar ou nao no conjunto, indiferentemente, como o capitulo VII, com a historia independente de seu Ribeiro.

Como ficcao, rigorosamente, o livro so se afirma e define a partir do casamento de Paulo Honorio com Madalena. E seu nucleo central, com efeito, e a existencia desses dois seres, o patetico do nao entendimento entre eles, o jogo de contraste e separacao daquelas duas criaturas dentro de uma mesma casa. Atraves dessas situacoes, o romancista desvenda e analisa o carater de Paulo Honorio, o que constitui a maior atracao de S. Bernardo. Tratado com uma sobriedade, que as vezes atinge o esquematismo, o assunto se apresenta, no entanto, muito rico em sugestoes, cabendo ao leitor compreender e sentir o que esta alem das palavras e dos episodios. Alias, o valor do livro se engrandece na proporcao em que se aproxima do final. A meu ver, o seu ponto mais alto e o capitulo XXXI no- suicidio de Madalena. A certo respeito, ele sintetiza toda a novela: no principio, uma breve descricao da fazenda naquele momento; depois, uma cena de ciume de Paulo Honorio e a reacao de Madalena, em dialogos e alusoes que resumem o drama de ambos; em seguida, a morte de Madalena. E que sutileza, que originalidade, que senso e gosto literario do escritor na preparacao e na apresentacao do episodio! Ele nao cometeu a banalidade de lancar em cena, objetivamente, o suicidio da mulher, mas por isso mesmo, porque o envolveu numa atmosfera de misterio e de sombra, e que ele comove intensamente. Este capitulo XXXI de S.

Bernardo, sem duvida, e uma pequena obra-prima, que contrabalanca os defeitos e deficiencias que porventura possam ser apontados em toda a novela. Para encontrar paginas semelhantes na obra do Sr. Graciliano Ramos sera preciso busca-las em capitulos culminantes de Angustia, como veremos a seguir.

Em , dois anos depois de S. Bernardo, aparecia Angustia, num momento, alias, em que o Sr.

Graciliano Ramos se achava na cadeia, perseguido de maneira estupida e inexplicavel pela Policia Politica que preparava o ambiente para a ditadura". Nao era ele naquela epoca um homem de partido, mas apenas - e como ainda hoje nos seus livros de ficcao - um escritor independente, tendo a consciencia de sua arte como expressao de realidades humanas, honestamente observadas e superiormente reveladas.

Angustia, por sinal, e o menos "social" dos seus romances, o mais introspectivo, o mais impregnado de subjetivismo, o mais voltado para a vida interior dos personagens, a despeito de alguns aspectos que dizem respeito a organizacao da sociedade. O ambiente nao e mais uma fazenda ou uma pequena cidade do interior: o ambiente de Angustia e a capital de Alagoas, em parte o Rio de Janeiro, atraves das - reminiscencias de Luis da Silva. Simples referencias nominais, porem; pois o problema do espaco, como o do tempo, nao tem limitacoes neste romance. Ele foi colocado num plano em que tanto o autor como o leitor fazem abstracao de locais e de horas. O seu centro vital e o processo psicologico de um personagem, que vai da normalidade espiritual de um modesto burocrata ate a exacerbacao de um delirio de criminoso, cercado de problemas e sugestoes de dramaticidade. Nao obstante este centralizar da acao num so personagem, as situacoes humanas e literarias se desdobram de tal maneira que logo identificamos esta obra como um autentico romance.

Em S. Bernardo e Vidas Secas, novelas, a substancia e a forma estao concentradas numa unica direcao, disposta para a revelacao de um so drama ou episodio. Angustia, ao contrario, desdobra-se em varios episodios, que circulam o drama principal, ou com ele se cruzam em multiplas direcoes, de modo que a acao se processa em diversos planos, dando-lhe a extensao e a amplitude de um romance. Ao lado de Luis da Silva, surgem Juliao Tavares e a criada Vitoria, que provocam rapidamente o nosso interesse como tipos humanos.

Tal como ja acontecera em Caetes e S. Bernardo, o romance Angustia esta escrito na primeira pessoa, com o personagem principal como narrador. Mas enquanto Joao ( Viu-se preso e violentado Graciliano Ramos como objeto de especial perseguicao do general Newton Cavalcanti, uma especie de guarda de campo de concentracao nazi-fascista, em quem, todavia, apuseram no Brasil, como em alguns outros de igual feitio e mentalidade no Exercito, Marinha e Aeronautica, os bordados das mais altas patentes militares).

Valerio, um incapaz absoluto, e Paulo Honorio, um bandido rustico, nao tem verossimilhanca como imaginarios autores daqueles dois primeiros livros, Luis da Silva, no terceiro, em nada se choca com as boas regras do jogo literario nessa debatida e complexa questao do personagem-narrador. E: certo que ele se classifica, logo na primeira pagina, como um pobre-diabo, mas toda a acao do romance, ao contrario do que se observa quanto a Joao Valerio e Paulo Honorio, demonstra que existe adequacao entre ele e a historia que nos oferece como protagonista. Alem disso, Angustia exigia realmente a narracao na primeira pessoa, enquanto S. Bernardo, a meu ver, se tomaria mais verossimil e melhor estruturado com uma narracao impessoal. Assim, uma certa desordem, que se observa em Angustia, com uma linha condutora em ziguezague, nao e um defeito, mas um carater do livro. Defeito de tecnica, talvez, sera que a primeira parte se tenha alongado demais em prejuizo da segunda. De orientacao, porem, nenhum defeito.

Aquela desordem aparente e a consequencia logica e perfeita do estado de espirito do personagem-narrador, por ele proprio assim caracterizado: Ha nas minhas recordacoes estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois, um esquecimento quase completo. As minhas acoes surgem baralhadas e esmorecidas como se fossem de outra pessoa.

Penso nelas com indiferenca. Certos atos parecem inexplicaveis. Ate as feicoes das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez.

O enredo de Angustia nao tem importancia ou significacao, nem e sobre o enredo que repousa o valor deste romance, como de qualquer outro do Sr. Graciliano Ramos. Numa rua modesta, Luis da Silva apaixona-se por uma moca, Marina, que nada apresenta de especial ou extraordinario. Ajustado ja o casamento, aparece Juliao Tavares, gordo, rico e cretino, que envolve Marina no comum processo de seducao, separando-a de Luis da Silva, tomando-a sua amante por algum tempo. Enredo simples, ate banal, como se ve. Contudo, o que principalmente valoriza Angustia e que sobre um enredo dessa especie o Sr.

Graciliano Ramos tenha realizado um dos mais apaixonantes e intensos romances da nossa literatura contemporanea. De que se formou, entao, o romance? Da vida interior e da analise psicologica de Luis da Silva. E nao pode por isso ser resumido, nem mesmo apresentado ao leitor. Sera preciso le-lo por inteiro, e mais de uma vez, acompanhando com emocao aquela figura angustiada de Luis da Silva, no tumulto e desordem dos seus pensamentos, sentimentos, reminiscencias, intencoes, projetos, delirios. Por detras da aparente desordem, a mao do romancista reune, dispoe, compoe com a mestria de um demiurgo. Se tivesse de indicar dois trechos, como os pontos culminantes da arte literaria do Sr.

Graciliano Ramos neste livro, eles seriam os que se encontram as paginas - e - desta terceira edicao.* O primeiro deles descreve o movimento da ideia do crime a entrar e a instalar-se na cabeca ja perturbada de Luis da Silva. Dias antes, em casa, ele olhara um cano com a sensacao de que aquele objeto era uma arma terrivel. Olhou-o com mais insistencia e pareceu-lhe que ` o cano se estirava ao pe da parede, como corda". Agora, no trecho destacado, um amigo lhe traz de presente uma corda. E a visao dela comeca a provocar em Luis da Silva reminiscencias de crimes, de enforcados, ate fixar-se nele o projeto de assassinar Juliao Tavares com esse instrumento. Este e um capitulo magistral, em que se sentem como que as marchas e as voltas de um pensamento, conduzido por uma forca secreta e misteriosa para um ponto que, conscientemente, procura afastar com horror. Dai por diante, Luis da Silva ja nao se pertence, nem se domina. Ve-se jogado cada vez mais para dentro de uma atmosfera de sombra e anormalidade, movimentando-se como um possesso, em estado de vertigem e de alucinacao. Assim, num crescimento, ele chega ao delirio com que se encerra o romance. E este e o outro trecho que eu destacaria como um dos pontos culminantes de Angustia. Deve-se ainda assinalar que, dentro embora de um processo de romance universalmente utilizado, Angustia nao se liga particularmente a qualquer modelo europeu ou norteamericano, sendo um livro brasileiro quanto ao espirito e a forma.

Alias, o mais brasileiro dos livros do Sr. Graciliano Ramos e sem duvida a novela Vidas Secas, publicada em (Nota da Editora - Estes dois trechos se encontram as pags. - e - da ' ed. ilustrada de Angustia).

. Revelaram-se nesta obra algumas das melhores qualidades do seu autor, ausentes no que escrevera antes.

Antes, em S. Bernardo e Angustia, a sua atitude humana era quase simplesmente de sarcasmo e revolta egoista. Em Vidas Secas, ele se mostra mais humano, sentimental e compreensivo, acompanhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua familia com uma simpatia e uma compaixao indisfarcaveis. Alias, nao sera significativo e explicativo a este respeito que Vidas Secas seja a sua primeira obra de ficcao em que a pessoa encarregada de narrar a historia nao e nu personagem, mas o proprio romancista. Nao sera isto um sinal de que antes deixava os personagens entregues a propria sorte, enquanto agora se identifica com os desgracados nordestinos de Vidas Secas? Eis uma novidade desta obra quanto a forma: a narrativa na terceira pessoa, como o autor a movimentar diretamente os seres da sua criacao. Contudo, tecnicamente, Vidas Secas apresenta dois defeitos consideraveis. Um deles e que a novela, tendo sido construida em quadros, os seus capitulos, assim independentes, nao se articulam formalmente com bastante firmeza e seguranca. Cada um deles e uma peca autonoma, vivendo por si mesma, com um valor literario tao indiscutivel, alias, que se poderia escolher qualquer um, conforme o gosto pessoal, para as antologias. O outro defeito e o excesso de introspeccao em -personagens tao primarios e rusticos, estando constituida quase toda a novela de monologos interiores. A inverossimilhanca, neste caso, nao provem da substancia da novela, roas da tecnica. Se houvesse maior proporcao entre episodios e monologos, entre a vida exterior e a interior dos personagens, este problema da ficcao teria sido resolvido de maneira perfeita. Porque, no mais, nenhuma inverossimilhanca, nenhum defeito fundamental sera encontrado em Vidas Secas. Tudo o que o romancista, nos monologos interiores, atribui a Fabiano, sua mulher e seus filhos, sao pensamentos e eflexoes a altura do que lhes poderia ter ocorrido realmente. Eles pensam, imaginam e sentem o que seriam pessoalmente capazes de pensar, imaginar e sentir. O romancista caiu numa inverossimilhanca quanto a tecnica de disposicao dos monologos, mas se salvou dessa falha no que diz respeito ao conteudo deles. Por outro lado, a falta de unidade formal, acima assinalada, nao se verifica na parte do assunto. Na substancia, a novela apresenta uma perfeita unidade, uma completa harmonia interior. O drama do primeiro capitulo repete-se no ultimo; e tudo o mais que se encontra entre eles constitui uma materia de ligacao entre os dois episodios semelhantes.

Alem de ser o mais humano e comovente dos livros de ficcao do Sr. Graciliano Ramos, Vidas Secas e o que contem maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que e aspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estao ligados teluricamente. O que impulsiona os seres desta novela, o que lhes marca a fisionomia e os caracteres, e o fenomeno da seca. No primeiro capitulo, Fabiano e a sua familia sao retirantes, em busca de um novo. pedaco de terra.

Alojam-se como servidores de uma fazenda, e ai que vamos conhece-los atraves de alguns episodios e muitos monologos. A cada figura da novela - Fabiano, Vitoria, sua mulher, o menino mais velho e o menino mais novo - o romancista dedica um capitulo, que e como que um retrato de caracterizacao, em que o proprio personagem se apresenta ao leitor. Da familia tambem faz parte a cachorra Baleia, e o capitulo que lhe e dedicado se acha revestido de uma humanidade talvez maior que a dos seres humanos, sendo esta uma das paginas mais famosas do Sr. Graciliano Ramos. Em Vidas Secas, no entanto, nenhum capitulo me agrada mais do que "Festa", em que, ao poder descritivo e a capacidade de visualizacao, o ficcionista ajuntou uma sutileza de tons e de notas psicologicas realmente admiravel; ou ainda "Inverno", quadro de uma familia em noite de frio e miseria. Por fim, tambem a nova fazenda e atingida pela seca; e Fabiano se decide a partir, numa outra etapa do seu destino de movimentar-se sempre como um judeu errante em busca de uma nunca atingida terra da promissao. O final do livro e uma retirada, como o principio fora uma chegada, dentro de uma fatalidade que o romancista sugere ao dizer que eles "dali se afastavam rapidos, como se alguem os tangesse".

Parece-me que Vidas Secas representa ainda uma evolucao na obra do Sr. Graciliano Ramos quanto ao estilo e a qualidade estritamente literaria. Em nenhum outro dos seus livros encontramos tanta beleza e tanta harmonia na construcao verbal. E somente aqui este autor, de espirito tao pouco poetico,, consegue atingir as vezes um estado de poesia. Foi tambem em Vidas Secas que o Sr. Graciliano Ramos pela primeira vez se libertou por inteiro de algumas quedas no mau gosto ou na vulgaridade de expressao, com que nos surpreende, tao frequentemente, em S. Bernardo e ate em Angustia. Afinal, se Angustia e a sua maior realizacao como ficcionista, Vidas Secas e a obra que nos oferece toda a sua medida como escritor, juntamente com Infancia.

O volume de contos Insonia, com excecao de duas ou tres pecas, representa a parte fraca da obra do Sr. Graciliano Ramos, somente nao comparavel a Caetes pelas qualidades de estilo. Creio que quase todos estes contos sao paginas de circunstancia, escritas para jornais e revistas, sem grandes cuidados. Rigorosamente, nenhum deles e um conto. "Insonia" e "O Relogio do Hospital" sao dois monologos magnificos, mas como classifica-los ' na categoria de contos? Do mesmo genero e o capitulo "Paulo", mas de qualidade inferior. Estes tres capitulos, alias, sao variacoes sobre um mesmo tema. "Um Ladrao', que provoca- a principio um interesse apaixonante, decepciona em seguida pelo convencionalismo do desfecho.

Pecas como "A Prisao de J. Carmo Gomes", "A Testemunha", "Ciumes" e "Uma Visita", so desejariamos que nunca houvessem sido escritas; elas sao literariamente indignas de qualquer escritor, ainda mais de um escritor da especie do Sr.

Graciliano Ramos. A meu ver, os capitulos de mais significacao e valor literario deste volume, sao "Dois Dedos" e "Minsk", sendo tambem aqueles que mais se aproximam do que ha de particular e especifico no conto. Reparando bem, a verdade e que uma peca como "Minsk" salva todo um volume, vivendo por si mesma de maneira definitiva. Entre os capitulos que sao pequenas obras-primas, no sentido de perfeitas e completas, dentro da obra geral de ficcionista do Sr. Graciliano Ramos, a historia de "Minsk" bem merece ser incluida ao lado da "Baleia" de Vidas Secas. Alias, o assunto de "Minsk" e tambem um bicho; e quem sabe se o Sr. Graciliano Ramos, a este respeito, nao esta sentimentalmente proximo do seu personagem Fabiano, que "vivia longe dos homens" e "so se dava bem com animais"? Com meia duzia de livros, a obra do Sr. Graciliano Ramos ja avulta hoje como uma das mais expressivas e valiosas da literatura brasileira, a despeito da desproporcao que existe entre a riqueza da sua vida interior e a insuficiencia do seu material de observacao, entre a sua arte de escrever e o seu pequeno mundo de ficcao.

Fonte: www.tutomania.com.br

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