Vinte mosteiros guardam, há quase dez séculos, sinais vivos do mundo bizantino. No Monte Athos, norte da Grécia, monges e eremitas ortodoxos mantêm aceso um quotidiano de outro tempo, o tempo em que Istambul se chamava Constantinopla ou Bizâncio. Relato de uma viagem aos mosteiros ortodoxos do Monte Athos.
A Grécia deve, certamente, muito do que é ao Monte Athos.
O conjunto de mosteiros da fé ortodoxa que ocupa uma parte da península da Calcídica, na Macedónia, teve um importante papel como reservatório da cultura e da identidade do país e, portanto, de resistência cultural - e até, de certa maneira, política - durante os quatro séculos de dominação turca.

Vista sobre o Golfo de Athos, Grécia
Também a sobrevivência de todo esse património durante os últimos mil anos não deixa de suscitar perplexidade. Os últimos dez séculos foram pródigos em convulsões na Europa e em torno do Mediterrâneo. E não foram apenas os sucessos do império otomano na região dos Balcãs. Os ataques piratas e os subsequentes saques, assim como as duas guerras mundiais no século XX, representaram factores de perturbação da vida monástica, a que se acrescentaram os incêndios que destruíram alguns mosteiros. Mas consta que os patriarcas ortodoxos, a seguir à queda de Constantinopla, em 1453, souberam negociar com os sultões a independência dos mosteiros, ainda que posteriormente os impostos e a confiscação de bens por parte das autoridades otomanas tivessem significado o seu depauperamento. Em contrapartida, o apoio dos czares russos e de certos príncipes da Europa central e oriental transformou-se num instrumento fundamental para a sobrevivência da vida monástica no Monte Athos, que acabou por se tornar, afinal, uma reserva espiritual de todo o mundo ortodoxo, sobretudo da Sérvia e da Grécia.
O Monte Athos designa uma montanha de mais de dois mil metros de altitude no extremo da península e é por esse nome que é conhecido o conjunto de vinte mosteiros que albergam cerca de 1700 monges de diferentes nacionalidades. Alguns vivem em ermitérios, prática ascética comum na península há uns bons mil anos. O território é destino habitual de peregrinações de seguidores da fé ortodoxa. Gregos, romenos, búlgaros, russos, sérvios, etc., dirigem-se ao longo do ano aos mosteiros habitados por monges das suas nacionalidades e não só: tanto quanto a resistência física e o tempo disponível permitem, as peregrinações cobrem vários mosteiros.

Mosteiro São Paulo, Monte Athos
Mas existe um outro condicionamento para estas peregrinações, o mais decisivo, afinal. O território beneficia de um regime de semi-autonomia, fixado em 1924 e ratificado pela Constituição grega de 1975. O acesso depende obrigatoriamente de uma autorização especial emitida pelas autoridades gregas (o «Diamonitirion»), normalmente válida para uma visita de seis dias no caso dos seguidores da fé ortodoxa, e de apenas quatro dias para os estrangeiros e para os não professantes da fé ortodoxa. Estes últimos podem, no entanto, prolongar a autorização para o máximo de oito dias à chegada a Karyes, junto das autoridades eclesiásticas. A concessão do Diamonitirion aos não ortodoxos exige, contudo, uma justificação, que pode passar pelo interesse cultural ou o estudo da arte ou da cultura bizantina (de que o Monte Athos representa um imenso museu com os seus ícones e frescos).
Na prática, a visita - ou peregrinação - aos mosteiros implica a realização de um trekking de vários dias por trilhos centenários que atravessam um território que é uma autêntica reserva natural. Não há povoações (salvo o pequeno porto de Daphne e a aldeia de Karyes) e para além da agricultura de subsistência a única actividade económica é a exploração de madeiras por alguns mosteiros na parte norte.