Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Naxos  Voltar

Naxos

É a maior e a mais fértil das ilhas Cíclades. Por trás dos seus montes áridos e secos escondem-se vales verdes por onde - milagre! - correm riachos que só secam no Verão. Ao contrário das outras ilhas gregas, Naxos não precisa dos milhares de turistas que lhe enchem as praias. Mas eles vão chegando e, mais que isso, muitos acabam por ficar.

O NEXO DE NAXOS

Viagem agitada, com um meltémi frio e incontrolável a correr toda a gente dos decks. O ferry balançava nas ondas muito azuis de um Mediterrâneo inquieto.

A Khora - o inevitável nome que os gregos dão à cidade mais importante de cada ilha - apareceu como uma fortaleza cubista: um quadriculado de casas brancas empilha-se, em pirâmide, à volta de um velho castelo. Mais ao longe levanta-se um monte árido, como uma gigantesca onda de terra petrificada. Duas capelas brancas agarram-se rocha, quase no cimo, e uma colmeia de casas aninha-se na encosta nua. Dezenas de barquitos jazem inertes sobre uma água pálida, indiferentes à fúria do vento. No fim de uma estreita língua de terra, um gigantesco portal de pedra parece simbolizar a entrada no mundo virtual dos deuses do Olimpo.

Naxos
Porto da Khora, em Naxos

Esta é a primeira face de Naxos. A segunda, a dos seus habitantes, assalta-nos mal pomos o pé no cais: uma turba mal controlada pelos guardas do porto acena fotografias de hotéis e chama por quem desce do barco, oferecendo quartos “no centro”, com descontos e ofertas múltiplas. Estamos no fim de Setembro, a época turística está a acabar e requer esforço manter os pequenos negócios de família. Uma velhinha de chapéu de palha e olhos doces prende-me a atenção - e o braço. Num inglês pior que o meu diz que a casa é perto, e arrasta-nos com o sorriso.

Há quartos para todos os gostos: os do cimo têm terraço e os de baixo partilham a casa de banho e as querelas familiares.

São três mulheres: a mãe, Anna, e duas filhas. De sangue na guelra, discutem tudo bem alto e sorriem-nos de esguelha, piscando o olho. Sentadas ao lado dos hóspedes, descascam as batatas do almoço para uma bacia, dobram os lençóis lavados de fresco e, à hora da chegada do ferry, saem de albúm de fotografias debaixo do braço, para mostrar os quartos aos que chegam de novo.

Procurávamos amigos, ele, grego de Atenas, ela, canadiana.

Acabamos por encontrar uma comunidade crescente, que viu nas ilhas gregas a melhor das oportunidades para começar vida nova: meteorologia sem sobressaltos, paisagens relaxantes, uma procura turística favorável ao aparecimento dos pequenos negócios individuais. Aluga-se de tudo, de casas a motoretas, passando por pranchas de windsurf e guarda-sóis. Dezenas de restaurantes oferecem pitéus locais ou pratos de sabores mais longínquos, para matar as saudades de casa. O Café Picasso optou pela comida mexicana, o Papagalos pelas especialidades vegetarianas; o truque é descobrir qual o nicho vazio, que clientela não falta durante a longa época alta, que vai da Páscoa a Setembro. Há lojas tradicionais com produtos locais, roupas made in India, Internet de aluguer, ginásios para quem não descura a cultura física nem nas férias, enfim, tudo o que se pode encontrar numa capital, e ainda a atmosfera descontraída de uma ilha soalheira.

A sesta, por exemplo, é ponto assente: a não ser nos excitantes meses de Julho e Agosto, quase tudo fecha à uma da tarde, para abrir de novo depois das quatro, até às nove ou dez da noite.

Naxos
Portal de um templo junto à khora

Mas Naxos nunca procurou o turismo. Enquanto outras, pouco habitadas, se foram tornando pequenos paraísos privados e, mais tarde, locais populares entre estrangeiros ou atenienses em férias, o desenvolvimento de Naxos foi sempre gradual e, pela sua auto-suficiência, a ilha nunca caíu nas mãos de grupos ou modas exteriores, que foram determinando clientelas especiais para certas ilhas. Ios, por exemplo, é agora conhecida como refúgio de alcóolicos e toxicodependentes; Santorini é procurada por artistas e personagens da élite internacional; Mykonos disputa com Ibiza o lugar de eleição para homossexuais.

E Naxos?

Naxos continua associada ao seu famoso vinho, à batata de semente que vai para o resto da Grécia, às excelentes frutas e legumes (tomates, beringelas, amêndoas, figos, uvas, limão) e ao kytron, a típica aguardente de folhas de limoeiro. Também não faltam os rebanhos de cabras e ovelhas, que produzem o melhor queijo kefalotiri que comi em todo o país. E iogurte, azeitonas e mel.

Decididamente, Naxos foi abençoada por Dionísio - Baco, para os romanos - que aqui criou o armazém de iguarias necessárias aos seus banquetes.

Possível, graças à abundância do que falta em todas as outras Cíclades: nascentes de água que correm livremente dos montes, tornando os vales verdes e férteis.

Penetrando no interior da ilha, pelas estradas sinuosas e estreitas que ligam as povoações, entramos num mundo agrícola e antiquado, onde os canados de leite ainda são transportados em cima de burros, e as uvas são pisadas com os pés. O tempo parece não querer passar, e é o que acontece a muita gente, que vai ficando... Não se pode dizer que o turismo não tenha chegado aqui. Em quase todas as aldeias há o incontornável sinal “rooms to let”, e os donos do kafenío local já se habituaram ao inglês essencial para atender os estrangeiros. Mas há uma diferença abismal entre os clientes do circuito praia-restaurante-bar-discoteca e os que por aqui param, à procura da Grécia pré-turística.

Naxos
Igreja Pangia Drosiana, Naxos

voltar 123avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal