AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO, QUE LHE MANDÁRA BRITES HUMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL VINHA PARA O POETA HUM CAJÚ.
Ao Padre Vigário a flor,
ao pobre Doutor o fruito,
há nisto, que dizer, muito,
e dirá muito o Doutor:
tenho por grande favor,
que a título de compadre
deis, Brites, a flor ao Padre:
mas dando-me o fruito a mim,
o que se me deu assim,
é força, que mais me quadre.
Quadra-me, que o fruito influa,
que uma flor, que eu não queria,
Se dê, a quem principia
e o fruito, a quem continua:
se o fruito faz, que se argua,
que eu sou o dono da planta,
a flor seja tanto, ou quanta,
sempre o dono a quer perdida,
porque pelo chão caída
faz, que o fruito se adianta.
Quem é do fruito Senhor
sabe as Leis d'agricultura,
que todo o fruito assegura,
e despreza toda a flor:
e inda que chamam favor
dar a sua flor a Dama
àquele, por quem se inflama
eu entendo de outro modo,
e ao fruito mais me acomodo,
que honra, e proveito se chama.
Porque na testa vos entre
o mistério, que isto encerra,
quem me dá o fruito da terra,
me pode dar do seu ventre:
e porque se reconcentre
este vaticínio imundo
no vosso peito fecundo,
digo qual bem augureiro,
que quem me deu o primeiro,
me pode dar o segundo.
O Padre andou muito tolo
em vos estimar a flor,
porque era folha o favor,
e o meu todo era miolo:
com meu favor me consolo
de sorte, e tão por inteiro,
que afirmou por derradeiro,
que um favor, e outro suposto,
eu levo de vós o gosto,
e o Padre vigário o cheiro.
Eu do Vigário zombei,
porque vejo, que levou
uma flor, que se murchou,
e eu o fruito vos papei:
este exemplo lhe gravei,
y este desengaño doy
dela dicha, em que me estoy
cantando a su flor ansi,
que ayer maravilla fui,
y oy sombra mia aun no soy.
AO CELEBRE FR. JOANNICO COMPREHENDIDO EM LISBOA EM
CRIMES DE SODOMITA.
Furão das tripas, sanguessuga humana,
cuja condição grave, meiga, e pia,
sendo cristel dos Santos algum dia,
hoje urinol dos presos vive ufana.
Fero algoz já descortês profana
Sua imagem do nicho da enxovia,
Que esse amargoso traje em profecia
Com a lombriga racional se dana.
Ah, Joanico fatal, em que horoscopos,
Ou porque à costa, ou porque à vante deste,
Da camandola Irmão quebraste os copos.
Enfim Papagaio humano te perdeste,
Ou porque enfim darias nos cachopos,
Ou porque em culis mundi te meteste.
A FR. PASCOAL QUE SENDO ABBADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAYS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELLE SANTUARIO.
Prelado de tan alta perfecion,
Que supo em un aplauso, en un festin
Congregar en su casa um serafin
Cercado de tan alta relacion:
Ya mas tenga en su cargo dissension,
Ni en sus Fraylecitos vea motin:
Ninguno Hijuelo suyo sea ruin,
Y los crie en su santa bendicion.
Llena estè la cosina de sarten,
Y siempre el refectorio abunde en pan,
Que bien merece Frayle tan de bien.
A quien el sacro bago se le dan
Regir la casa santa de Belen,
Y que ya sela quite al soliman.
A FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS
LACONICOS A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.
Padre Tomás, se Vossa Reverência
Nos pregar as Paixões desta arte mesma,
Viremos a emender, que na Quaresma
Não há mais pregador do que vossência.
Pregar com tão lacônica eloqüência
Em um só quarto, o que escrevo em resma,
À fé, que o não fazia Frei Ledesma,
Que pregava uma resma de abstinência.
Quando pregar o vi, vi um São Francisco,
Senão mais eficaz, menos chagado,
E de o ter por um Anjo estive em risco.
Mas como no pregar é tão azado,
Achei, que no evangélico obelisco
É Cristo no burel ressuscitado.
HUM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIO AO POETA SUAS APROVAÇÕES SOBRE
A MESMA PREDICA, A PEDITORIO DO MESMO PREGADOR NESTE.
MOTE
Louvar vossas orações
é próprio do Pregador,
e a mim me dá mais temor
o Pregador, que os sermões.
Só o vosso entendimento
vos pode Tomás louvar,
e eu se pudera imitar
qualquer vosso pensamento:
para mostrar seu talento
fez um círculo em borrões
Apeles com dous carvões;
quem vira uma risca vossa?
Riscai vós, para que eu possa
Louvar vossas orações.
A causa é melhor, que o efeito
na boa filosofia,
e assim é vossa energia
menor, que o vosso sujeito:
logo se no humano peito
não há alcançar o primor
nas obras de tal autor,
mal a causa alcançarão,
pois o pregar do sermão
É próprio do Pregador.
Se louvo vossa alta idéia,
sou culpado em me atrever,
e sou culpado em meter,
a fouce em seara alheia:
nesta empresa, em que receia
entrar o engenho major,
entra o néscio sem pavor,
porque a louca valentia
dá ao néscio a ousadia,
E a mim me dá mais temor.
Ou cobarde, ou atrevido,
ou ousado, ou não ousado
hei de dizer empenhado,
o que calava entendido:
um amigo a vós rendido
pede a vossas orações
as minhas aprovações,
e eu calando lhe obedeço,
porque fique em maior preço
O Pregador, que os sermões.
O MESMO AMIGO PEDIO AO POETA EM OUTRA OCCASIÃO LHE
GLOZASSE ESTE MOTTE, CUJA MATERIA FOY HAVER TRIUNFADO
O DITO FR. THOMAZ DE CERTA OPPOSIÇÃO CAPITULAR.
MOTE
Nuvens, que em oposição
o sol querem desluzir,
seus raios sabem sentir
por ser seu cuidado em vão.
No Céu pardo de Francisco
pardo à força de nublados
há vapores humilhados,
e soberbos com seu risco:
o soberbo ao sol arisco
se põe, e o humilhado não,
e o sol menos queima então
as nuvens, que chegar vê
em acatamentos, que
Nuvens, que em oposição.
As nuvens, que se lhe opõem
com tão néscio atrevimento,
o sol de um raio violento
queima, abrasa, e descompõe:
tudo o mais o sol dispõe
pare o manter, e cobrir
criar, e reproduzir,
e com razão não tem fé
co’as nuvens ingratas, que
O sol querem desluzir.
O sol por sua altiveza,
e nativo luzimento
não recebe abatimento
e abatê-lo é louca empresa:
quando se atreve a vileza
do vapor, que o vai seguir
na nuvem, que o quer cobrir,
se a subir não tem desmaios,
ao resistir dos seus raios
Seus raios sabem sentir.
Sentem com tanto pesar,
que têm por melhor partido
não haver ao sol subido
que subir para baixar:
era força escarmentar
na queda de Faetão,
e na Icária perdição,
que estes outros se arruinaram,
quando ao sol subir cuidaram,
Por ser seu cuidado em vão.
AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALLO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREYRA VOMITADO HUMAS NAUSEAS, QUE LOGO COBRIO COM O CHAPEO.
Quem vos mete, Fr. Tomás,
em julgar as mãos de amor,
falando de um amador
que pode dar-vos seis e ás?
Sendo vós disso incapaz,
quem vos mete, Fr. Franquia,
julgar, se foi policia
o vômito, que arrotastes,
se quando vós o julgastes,
vomitastes uma asnia:
Sabeis, por que vomitou
aquele amante em jejum?
lembrou-lhe o vosso budum,
e a lembrança o enjoou;
e porque considerou,
que o tal budum vomitado
era um fedor refinado,
por não ver poluto um céu,
o cobriu com seu chapéu,
e em cobri-lo o fez honrado.
Vós sois um pantufo em zancos,
mais oco do que um tonel,
e se estudais no burel,
entendereis de tamancos:
que as ações dos homens brancos,
tão brancos como Fuão,
não as julga um maganão
criado em um oratório,
julgador de refectório,
que dá o nosso Guardião.
O que sabeis, Frei Garrafa,
é a traça, e a maneira,
com que estafais uma Freira,
dizendo, que vos estafa:
vós saís com a manga gafa
do palangana, e tigela
d'ovos moles com canela,
e tão mal correspondeis,
que esse tempo, que a comeis,
são as têmporas para ela.
Item sabeis tresladar
falto de próprios conselhos
de trezentos sermões velhos
um sermão para pregar:
e como entre o pontear,
e cirgir obras alheias
se enxergam vossas idéias,
mostrais pregando de falso,
que sendo um Frade descalço,
andais pregando de meias.
E pois vossa Reverência
quis ser julgador de nora,
tenha paciência, que agora
se lhe tira a residência:
e inda que a minha clemência
se há com dissimulação,
livre-se na relação
dos cargos, em que é culpado
ser glutão como um capado,
como um bode fodinchão.
A CERTO FRADE NA VILLA DE SAM FRANCISCO, A QUEM HUA MOÇA
FINGINDOSE AGRADECIDA À SEUS REPETIDOS GALANTEYOS, LHE MANDOU
EM SIMULAÇÕES DE DOCE HUMA PANELLA DE MERDA.
Reverendo Frei Antônio
se vos der venérea fome,
praza a Deus, que Deus vos tome,
como vos toma o demônio:
uma purga de antimônio
devia a moça tomar,
quando houve de vos mandar
um mimo, em que dá a emender,
que já vos ama, e vos quer
tanto, como o seu cagar.
Fostes-vos mui de lampeiro
vós, e os amigos de cela
ao miolo da panela,
e achastes um camareiro:
metestes a mão primeiro,
de que vos desenganásseis,
e foi bem feito, que achásseis,
cagalhões, que então sentistes,
porque aquilo, que não vistes,
quis o demo, que cheirásseis.
A hora foi temerária,
o caso tremendo, e atroz,
e essa merda para vós
se não serve, é necessária:
se a peça é mui ordinária,
eu de vós não tenho dó:
e se não dizei-me: é pó
mandar-vos a ponto cru
a Moça prendas do cu,
que tão vizinho é do có?
Se vos mandara primeiro
o mijo num panelão,
não ficáreis vós então
mui longe do mijadeiro:
mas a um Frade malhadeiro
sem correia, nem lacerda,
que não sente a sua perda,
seu descrédito, ou desar,
que havia a Moça mandar,
senão merda com mais merda?
Dos cagalhões afamados
diz esta plebe inimiga,
que eram de ouro de má liga
não dobrões, porém dobrados:
aos Fradinhos esfamiados,
que abrindo a panela estão,
daí por cabeça um dobrão,
e o mais mandai-o fechar;
que por isso, e por guardar,
manhã serei guardião.
Se os cagalhões são tão duros,
tão gordos, tão bem dispostos,
é, porque hoje foram postos,
e ainda estão mal maduros:
que na enxurrada dos tais
é de crer, que abrandem mais,
porque a Moça cristãmente
não quer, que quebreis um dente,
mas deseja, que os comais.
O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO
DE ODIVELAS, LHES ENTREGOU HABITO, E MENORES PARA UM FINGIDO
ENTREMEZ, E CONHECENDO O CHASCO, EM ALTA NOYTE DEO EM CANTAR
O MISERERE, BORRANDO, E OURINANDO TODO O PARLATORIO, PELO QUE
A ABADEÇA LHE DEO OS SEUS HÁBITOS, E HUA LANTERNA PARA SE RETIRAR
À LISBOA.
Reverendo Frei Carqueja,
quentárida com cordão,
magano da religião,
e mariola da Igreja:
Frei Sarna, ou Frei Bertoeja,
Frei Pirtigo, que o centeio
moes, e não dás receio,
Frei Burro de Lançamento,
pois que sendo um Frei Jumento,
és um jumento sem freio.
Tu, que nas pardas cavernas
vives de um grosso saial,
és carvoeiro infernal,
pois andas com saco em pernas:
lembram-te aquelas fraternas,
que levaste a teu pesar,
quando a Prelada Bivar
por culpa, que te cavou,
de dia te desfradou
para à noite te expulsar.
Pela dentada, que Adão
deu no vedado fruteiro,
de folhas fez um cueiro,
e cobriu seu cordavão:
a ti o querer ser glutão
de outra maçã reservada,
ao vento te pôs a ossada,
mas com diferença muita,
que se nu te pôs a fruita,
tu não lhe deste a dentada.
De José se diz cad'hora,
que o fez um seno de chapa
deixar pela honra a capa
nas mãos da amante senhora:
tu na mão, que te namora,
por honra, e por pundonor
deixas hábito, e menor,
mas com desigual partido,
que José de acometido,
e tu de acometedor.
Desfradado em conclusão
te vistes em couro puro,
como vinho bem maduro,
sendo, que és um cascarrão:
era pelo alto serão,
quando a gente às adivinhas
viu entre queixas mesquinhas
na varanda um Frade andeiro
saído do Limoeiro
a berrar pelas casinhas.
Como Galeno na praça
apareceste ao luar
pobre, roubado do mar,
que era ver-te um mar de graça:
quando um pasma, e outro embaça;
não me tenham por visão,
frade sou inda em cueiros,
tornei-me aos anos primeiros,
e Bivar foi meu Jordão.
Porque luz se te não manda,
tu por não dar num ferrolho,
dizem, que abriste o teu olho,
que é cancela, que tresanda:
chovias por uma banda,
e por outra trovejavas,
viva tempestade andavas,
porque à comédia assistias,
que era tramóia fingias,
e na verdade o passavas.
Ninguém há, que vitupere
aquele lanço estupendo,
quando o teu pecado vendo
tomaste o teu miserere:
mas é bem, que me exaspere
de ver, que todo o sandeu,
que nos tratos se meteu
de Freiras, logo confessa,
que isso lhe deu na cabeça,
e a ti só no cu te deu.
Dessa hora temerária
ficou a grade de guisa,
que se até ali foi precisa,
desde então foi necessária:
tu andaste como alimária,
mas isso não te desdoura,
porque fiado na coura
da brutesca fradaria
estercaste estrebaria,
o que gostas manjedoura.
Que és frade de habilidade,
dás grandíssima suspeita,
pois deixas câmara feita,
o que foi té agora grade:
tu és um corrente Frade
nos lances de amor, e brio,
pois achou teu desvario
ser melhor, e mais barato,
do que dar o teu retrato,
pôr na grade o teu feitio.
Corrido enfim te ausentaste,
mas obrando ao regatão,
pois levaste um lampião
pela cera, que deixaste:
sujamente te vingaste
Frei Azar, ou Frei Piorno,
e estás com grande sojorno,
e posto muito de perna,
sem veres, que essa lanterna
te deram, por dar-te um corno.
O com que perco o sentido,
é ver, que em tão sujo tope
levando a Freira o xarope
tu ficaste o escorrido:
na câmara estás provido
e de ruibarbo com capa,
mas lembro-te Frei Jalapa,
que por cagar no sagrado
o cu tens excomungado,
se não recorres ao Papa.
Muito em teus negócios medras
com furor, que te destampa,
pois sendo um louco de trampa,
te tem por louco de pedras:
é muito, que não desmedras,
vendo-te trapo, e farrapo,
antes co’a Freira no papo,
como no sentido a tinhas,
parece, que a vê-la vinhas,
pois vinhas com todo o trapo.
Tu és magano de lampa,
Bivar é Freira travessa,
a Freira pregou-te a peça,
mas tu armaste-lhe a trampa:
se o teu cagar nunca escampa,
nunca estie o seu capricho,
e pois ta pregou, Frei Mixo,
chame-se por todo o mapa
ela travessa de chapa,
e tu magano de esguicho.
A CERTO FRADE, QUE QUERENDO EMBARCAR-SE PARA FORA
DA CIDADE, FURTOU HUM CABRITO, O QUAL SENDO CONHECIDO
DA MAY PELO BERRO O FOY BUSCAR DENTRO DO BARCO, E
COMO NÃO TEVE EFFEYTO O DITO ROUBO,TRATOU LOGO DE
FURTAR OUTRO, E O LEVOU ASSADO.
De fornicário em ladrão
se converteu Frei Foderibus
o lascivo em mulieribus,
o mui alto fodinchão:
foi o caso, que um verão
tratando o Frade maldito
de ir da cidade ao distrito,
querendo a cabra levar,
para mais a assegurar,
embarcou logo o cabrito.
Mas a cabra esquiva, e crua
a outro pasto já inclinada
não quis fazer a jornada,
nem que a faça cousa sua:
balou uma, e outra rua
com tal dor, e tal paixão,
que respondendo o mamão
alcançou todo o distrito
nas respostas do cabrito
o codilho do cabrão.
Estava ele muito altivo
com seu jogo bem assaz,
porém, por roubar sem ás
perdeu bolo, cabra, e chibo:
porque sem pôr pé no estrivo
saltou na barca do Alparca,
e dizendo desembarca
saiu co filho a correr,
porque então não quis meter
com tal cabrão pé em barca.
O Frade ficou num berro,
porque temia o maldito
se não levasse o cabrito,
de achar, que lhe pegue um perro:
e por não cair nesse erro
num rebanho em boa fé
outro, a quem o Frei Caziqui,
quando ele dizia mihi,
ele respondia mé.
Do mé desaparecido
foi logo o dono avisado,
que o Frade lhe havia achado
antes dele o haver perdido:
e sendo o sítio corrido,
se achou, que a modo de pá
num forno o cabrito está,
que o Frade é destro ladrão
porém nesta ocasião
saiu-lhe a fornada má.
A CERTO FRADE QUE PREGANDO MUITOS DESPROPOSITOS
NA MADRE DE DEOS FOI APEDREJADO PELOS RAPAZES, E SE
FINGIO DESMAYADO POR ESCAPAR: MAS DEPOIS FURTANDO
AO POETA UM BORDÃO, E AO ARPISTA DA FESTA UM CHAPEO
SE RETIROU: POREM SABENDO-SE DO FURTO LHE FOY AO CAMINHO
TIRAR DAS MÃOS HUM MULATO DE DOMINGOS BORGES.
Reverendo Padre em Cristo,
Fr. Porraz por caridade,
Padre sem paternidade
salvo a tem pelo Anticristo:
não me direis, que foi isto,
que dizem, quando pregastes,
tão depressa vos pagastes,
que antes que o sermão findara
tanto cascalho embolsastes.
Pregastes tanta parvoíce
de tolo, e de beberrão,
que o povo bárbaro então
entendeu, que era louquice:
quis-vos seguir a doudice,
e posto no mesmo andar,
em lugar de persignar
uma pedrada vos prega,
que a testa ainda arrenega
de tal modo de pregar.
Aqui-d'EI-Rei me aturdistes,
e como um Paulo pregáveis,
entendi, quando gritáveis,
que do cavalo caístes:
vós logo me desmentistes,
dizendo, não tenho nada,
fingi aquela gritada,
porque entre tantos maraus
com seixos, limões, e paus
não viesse outra pedrada.
Bem creio eu, Peralvilho,
que sois cavalo de Troia,
e fazeis uma tramóia
co'a morte no garrotilho:
mas se perdendo o codilho,
que ganhais a mão, dizeis,
a vós o engano fazeis,
porque se quem compra, e mente,
se diz, que na bolsa o sente,
vós na testa o sentireis.
Vendo-vos escalavrado
o Vigário homem do céu
em casa vos recolheu,
por vos salvar no sagrado:
vós sois tão desaforado,
que não quisestes cear,
não mais que pelo poupar,
sendo que sois tão má preia,
que lhe poupastes a ceia,
por lhe roubar o jantar.
Fostes-vos de madrugada,
deixando-lhe aberta a porta,
mas a porta pouco importa,
importa a casa roubada:
fizestes uma trocada,
que só a pudera fazer
um beberrão a meu ver,
d’um por outro chapéu podre,
que trocar odre por odre
venha o demo a escolher.
Ficou o Mestre solfista
sem chapéu destro, ou sinestro,
e ainda que na arpa é destro,
vós fostes maior arpista:
quem por ladrão vos alista,
saiba, que sois mau ladrão,
que não perdendo ocasião,
lá em cima na vossa estada,
levastes a bordoada,
cá em baixo o meu bordão.
Tomastes do rio a borda,
e vendo os amigos Borges,
que leváveis tais alforjes,
trataram de dar-vos corda:
mas vendo, que vos engorda,
mais do que a vaca, o capim,
puseram-vos um selim,
um freio, e um barbicacho,
porque sendo um burro baio
logreis honras de rocim.
Vendo-vos ajaezado,
pela ocasião não perder,
botastes logo a correr
atrás das éguas mangado:
apenas tínheis chegado
de Caípe à casaria,
quando um Mulataço harpia
arrogante apareceu,
e vos tirou o chapéu
sem vos fazer cortesia.
Tirou-vos o meu cajado,
porque sois ladrão tão mau,
que levastes o meu pau,
que não serve a um barbado:
e vendo-vos despojado
dos furtos deste lugar
vos pusestes a admirar,
de que um Mulato valente
de vos despir se contente,
podendo-vos açoutar.
Nunca vós, borracho alvar,
a pregar-nos vos metais,
que se a rapazes pregais,
eles vos lá hão de pregar:
tratai logo de buscar
alguma Dona Bertola,
para pregar pela gola,
como aqui sempre fizestes,
que esse é o pregar, que aprendestes,
do que podeis pôr escola.
E guardai-vos, maganão
bêbado, jeribiteiro,
de tornar a este oiteiro
fazer vossa pregação:
que o Mestre Pantaleão,
e o Doutor, a quem roubastes,
e os mais, que aqui encontrastes
vos esperam com escarbas.
para arrancar-vos as barbas,
se é que a vinho as não pelastes.
INDO CERTO FRADE A CASA DE HUMA MERETRIZ LHE PEDIO
ESTA QUINZE MlL REIS DANTEMÃO PARA TIRAR
HUMAS ARGOLLAS, QUE TINHA EMPENHADAS.
Quinze mil-réis dantemão
Cota a pedir-me se atreve,
o diabo a mim me leve,
se ela val mais que um tostão:
que outra fêmea de canhão,
por seis tostões, que lhe dei
toda a noite a pespeguei,
e a quem faz tal peditório
Borrório.
Ora está galante o passo;
Menina, não me direis,
se vos deu quinze mil-réis,
quem vos tirou o cabaço?
fazeis de mim tão madraço,
que vos dê tanto dinheiro
por um triste parrameiro,
que está junto ao cagatório?
Borrório.
Quereis argolas tirar
Co'as moedas, que são minhas?
para tirar argolinhas
só lança vos posso dar;
vós pedis por pedinchar
sem vergonha, nem receio,
como se eu tivera cheio
de dinheiro um escritório:
Borrório.
Saís muito à vossa Mãe
nos costumes de pedir,
e eu em não contribuir
me pareço com meu Pai:
essa petição deixai;
quereis sustentar-vos só
vossa Mãe, e vossa Avó,
e todo o mais avolório?
Borrório.
Vindes a mui ruim mato,
Menina, fazer a lenha,
que outra fêmea mais gamenha
mo fazia mais barato:
buscai outro melhor pato;
quereis depenar, a quem
a penas segura tem
a ração do refeitório?
Borrório.
Quereis, que o Prelado astuto
me tome conta da esmola,
e que a bom livrar dê a sola?
que tal faça! fideputo:
eu não sou amba macuto,
nem sou tampouco matreiro,
que vós comais o dinheiro,
e eu fique de gorgotório?
Borrório.
Vós quereis sem mais nem mais,
que no sermão de repente
eu faça chorar a gente,
para que vós vos riais?
tão ruim alma me julgais,
que para as vossas cobiças
tome capelas de missas,
e que chore o Purgatório?
Borrório.
Ora enfim vós a pedir,
e eu Cota a vo-lo negar,
ou vós havei de cansar,
ou eu me hei de sacudir:
com que venho a inferir
destas vossas petições,
que heis de pedir-me os culhões,
a parvoíce, e zimbório
Borrório.
SATYRIZA OUTRO CASO DE HUMA NEGRA QUE FOY ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOY BEM MOIDA COM UM BORDÃO POR SEU AMAZIO, POR CUJA CAUSA SE SAGROU, E SE FINGIO MANCA DE HUM PÉ.
Nunca cuidei do burel,
nem menos do seu cordão,
que fosse tão cascarrão,
tão duro, nem tão cruel:
mas vós como sois novel,
e ignorais o bom, e o mau,
e o que tirastes do escote
foi ver, que era o seu picote
tão duro como um bom pau
Vós fostes bem esfregada
do burel esfregador,
mas depois o pão do amor
vos deixou mais bem pisada:
no bananal enramada
vos atastes ao cordão,
que vos fez a esfregação;
depois quem vos vigiou,
nas costas vos assentou
as costuras cum bordão.
Fingistes-vos mui doente,
e atastes no pé um trapo,
sendo a doença o marzapo
do Franciscano insolente:
enganastes toda a gente
fingidamente traidora,
mas eu soube na mesma hora,
que nos tínheis enganado,
e por haver-vos deitado,
fingis deitar-vos agora.
Eu sinto em todo o rigor
os vossos sucessos maus,
pois levastes com dois paus
um do Frade, outro do amor:
qual destes paus foi pior
vós nos haveis de dizer,
que eu não deixo de saber,
que sendo negras, ou brancas
é sempre um só pau de trancas
pouco para uma mulher.
Não vades ao bananal,
que e cousa escorregadia,
e eis de levar cada dia
lá no có, cá no costal:
sed libera nos a mal
dizei no vosso rosário,
e se o Frade é frandulário,
vá folgar a seu convento,
que vós no vosso aposento
tendes certo o centenário.
Muito mal considerastes,
no que o sucesso parou,
que o Frade vos não pagou,
e vós em casa o pagastes:
tal miserere levastes,
que vos digo na verdade,
fora melhor dá-lo ao Frade
porque é maior indecência
dá-lo a vossa negligência,
que à sua Paternidade.
A CERTO FRADE QUE TRATAVA COM HUMA DEPRAVADA MULATA POR NOME VICENCIA QUE MORAVA JUNTO AO CONVENTO, E ATUALMENTE Á ESTAVA VIGIANDO DESTE CAMPANARIO.
Reverendo Fr. Sovela,
saiba vossa Reverência,
que a caríssima Vivência
põe cornos de cabidela:
tão vária gente sobre ela
vai, que não entra em disputa,
se a puta é mui dissoluta,
sendo, que em todos os povos
a galinha põe os ovos
e põe os cornos a puta.
Se está vossa Reverência
sempre à janela do coro,
como não vê o desaforo
dos Vicêncios co'a Vicência?
como não vê a concorrência
de tanto membro, e tão vário,
que ali entra de ordinário?
mas se é Frade caracol,
bote esses cornos ao sol
por cima do campanário.
Do alto verá você
a puta sem intervalos
tangida de mais badalos,
que tem a torre da Sé:
verá andar a cabra mé
berrando atrás dos cabrões,
os ricos pelos tostões
os pobres por piedade,
os leigos por amizade,
os Frades pelos pismões.
Verá na realidade
aquilo, que já se entende
de uma puta, que se rende
às porcarias de um Frade:
mas se não vê de verdade
tanto lascivo exercício,
é, porque cego do vício
não lhe entra no oculorum
o secula seculorum
de uma puta de ab initio.
AO LOUCO DESVANECIMENTO, COM QUE ESTE FRADE TIRANDO ESMOLLAS CANTAVA REGAÇANDO O HABITO POR MOSTRAR AS PERNAS, COM PRESUNÇÕES DE GENTILHOMEM, BOM MEMBRO, E BOA VOZ.
Ouve, Magano, a voz, de quem te canta
Em vez de doces passos de garganta
Amargos pardieiros de gasnate:
Ouve, sujo Alparcate,
As aventuras vis de um Dom Quixote
Revestido em remendo de picote.
Remendado dos pés até o focinho
Me persuado, que és Frade Antoninho:
Por Frei Basílio sais de São Francisco,
E entras Frei Basilisco,
Pois que deixas à morte as Putas todas,
Ou já pela má vista, ou pelas fodas.
Tu tens um membralhaz aventureiro,
Com que sais cada trique ao terreiro
A manter cavalhadas, e fodengas,
Com que as putas derrengas;
Valha-te: e quem cuidara, olhos de alpistre,
Que seria o teu membro o teu enristre!
Gabas-te, que se morrem as Mulatas
Por ti, e tens razão, porque as matas
De puro pespegar, e não de amores,
Ou de puros fedores,
Que exalam, porcalhão, as tuas bragas,
Com que matas ao mundo ou as estragas.
Dizem-me, que presumes de três partes,
E as de Pedro serão de malas artes:
Boa voz, boa cara, bom badalo,
Que é parte de cavalo:
Que partes podes ter, vilão agreste,
Se não sabes a parte, onde nasceste?
Vestido de burel um salvajola
Que partes pode ter? de mariola:
Quando o todo é suor, e porcaria,
A parte que seria?
Cada parte budum, catinga, e lodos,
Que estas as partes são dos Frades todos.
Não te desvaneça andar-te a puta ao rabo,
Que Joana Lopes dormirá c’o diabo;
E posto que a Mangá também forniques,
Que é moça de alfiniques,
Supõe, que tinha então faminta a gola,
E que te quis mamar o pão da esmola.
Não hão mister as putas gentilezas,
Que arto bonitas são, arto belezas:
O que querem somente, é dinheiro,
E se as cavalgas tu, pobre sendeiro,
É, porque dando esmolas, e ofertório,
Quando as pespegas, geme o refectório.
Prezas-te de galã, bonito, e pulcro,
E os fedores da boca é um sepulcro
A cães mortos te fede a dentadura,
E se há puta, que te atura
Tais alentos de boca, ou de traseiro,
É porque tu as incensas com dinheiro.
O hábito levantas no passeio,
E cuidas, que está nisso o galanteio,
Mostras a perna mui lavada, e enxuta,
Sendo manha de puta
Erguer a saia por mostrar as pernas,
Com que és hermafrodita nas cavernas.
Tu és Filho de um sastre de bainhas,
E botas muito mal as tuas linhas,
Pois quando fidalgão te significas,
A ti mesmo te picas,
E dando pontos em grosseiro pano,
Mostras pela entertela, que és magano.
Torna em teu juízo, louco Durandarte,
Se algum dia o tiveste, a quem tornar-te;
Teme a Deus, que em tão louco desatino
De algum celeste signo
Hei medo, que um badalo se despeça,
E te rompa a cabaça, ou a cabeça.
Se és Frade, louva ao Santo Patriarca,
Que te sofre calçar-lhe a sua alparca,
Que juro a tal, se ao século tornaras,
Nem ainda te fartaras
De ser um tapanhuno de carretos,
Por não ser mariola, onde há pretos.
AO MESMO FRADE TORNA A SATYRIZAR O POETA, SEM OUTRA
MATERIA NOVA, SENÃO PRESUMINDO, QUE QUEM O DEMO
TOMA HUMA VEZ SEMPRE LHE FICA HUM GEYTO.
Reverendo Fr. Fodaz,
não tenho matéria nova,
de que vos faça uma trova,
mas de antiga tenho assaz:
que como sois tão capaz
de ires de mau a pior,
suponho de vosso humor,
que enquanto a velha, e o frade
sois sempre em qualquer idade
mais ou menos fodedor.
Na boa filosofia
mais ou menos não difere,
e assim vós que estais, se infere,
na mesma velhacaria:
Lembra-me a mim cada dia
tanto sucesso indecente,
que de vós refere a gente,
que inda que d'outra monção,
sei, que de hoje para então
nada tendes diferente.
Se o burel, que se remenda,
e o ser frade, e ser vilão
vos fazem mais fodinchão,
como haveis de ter emenda?
Será inútil contenda
querer, que vos emendeis,
pois como vós não deixeis
de ser frade, e ser vilão,
sempre heis de ser fodinchão,
fodereis, mais fodereis.
Quem a causa não desfaz,
não destrói o seu efeito,
com que vós no hábito estreito
sempre haveis de ser fodaz.
Valha o diabo o mangaz,
que em vendo a pinta, e a franga
aqui, em Jacaracanga,
em público, e em secreto,
se lhe cheira o vaso preto,
logo a porra se lhe emanga.
De um pirtigo tão velhaco,
que tão súbito se engrossa,
que direi, senão que almoça
vinte picas de Macaco:
membro, que em todo o buraco
se quer meter apressado,
qual arganaz assustado,
fugindo ao ligeiro gato,
que direi, que é membro rato?
Não: porque este é consumado.
Pois logo que hei de dizer,
como, e com que paridade
porei o membro de um frade,
a quem não farta o foder?
Eu não me sei nisto haver,
nem por que apodo me reja:
mas o mundo saiba, e veja,
que o membro deste mangado
é já membro desmembrado
da justiça, mais da Igreja.
A CERTO FRADE QUE INDO PREGAR A HUM CONVENTO DE FREYRAS, E
ESTANDO COM HUMA NA GRADE, LHE DEO TAL DOR DE BARRIGA, QUE SE
CAGOU POR SI.
Ficaram neste intervalo
pagos a Freira, e o Frade,
ela a ele deu-lhe a grade,
que a vós não convém correr
com homem tão despejado,
ele a ela deu-lhe o ralo:
fê-lo ir com tanto abalo
o seu sujo proceder,
que se andar tão desatado,
logo vos há de feder.
Estas novas enxurradas
fizeram com novo estilo
na casa da grade um Nilo,
catadupa nas escadas:
não foram mal suportadas
dos vizinhos do lugar,
se chegaram a alcancar
(como ouvimos referir)
que os índios perdem o ouvir,
cá perdessem o cheirar.
Ao Frade, que assim vos trata,
porque outra vez não se entorne,
mandai, que à grade não torne,
até soldar a culatra:
que escopeta, que não mata,
quando tão junto atirou,
bem mostra, que se errou,
e toda a munição troca,
não rebentou pela boca,
pela escorva rebentou.
Neste hediondo tropel
cem mil causas achareis,
que não são para papéis,
posto que as ponha em papel:
o passo foi tão cruel,
que a dizê-lo me tentou:
se bem lastimado estou,
do que deste Frade ouvi,
torne ele mesmo por si,
já que por si se entornou.
Do monte Olimpo se conta,
que quando há maior tromento
deixa sua altura isenta,
porque das mais se remonta:
não sei, se vós nessa conta
entrastes, Senhora, então
naquela suja ocasião;
só sei, que o Frade seria,
pelo que dele corria,
monte, mais o limpo não.
Deste Frade ouvi dizer,
e é cousa digna de riso,
que tendo-se por Narciso,
fez fonte para se ver:
e deve-se reprender,
Dama bela, se vos praz
o que este Narciso faz,
pois ofende o fino amante,
deixando claro diante,
ver-se no escuro de trás.
Foi o Padre aqui mandado
para pregar: grande error!
Não pode ser pregador
um Frade tão despregado:
seja do ofício privado,
e de entre a gente falar,
pois todos vêem alcançar
o seu salvo presumir,
que sendo mau para ouvir,
é pior para cheirar.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br