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A Nossa Sé da Bahia

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

A NOSSA SÉ DA BAHIA AOS CAPITULARES DO SEU TEMPO.

PONDERA ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO QUAM GLORIOSA HE A PAZ DA RELIGIÃO.

AO ILUSTRISSIMO SENHOR D. Fr. MANUEL DA RESURREYÇÃO.

A MORTE DO MESMO SENHOR SUCCEDIDA DE HUMA FEBRE MALIGNA EM BELLEM ANDANDO EM VISITA.

EPITAFIO À SEPULTURA DO MESMO EXmo. SENHOR ARCEBISPO.

A CHEGADA DO ILLUSTRISSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE OLIVEYRA TENDO SIDO JA BISPO EM ANGOLLA.

A FROTA EM QUE VEYO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.

AO MESMO ILLUSTRISSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILLA DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUYTOS CLERIGOS PARA TOMAREM ORDENS.

A MAGNIFICENCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELLA VlLLA RECEBERAM O DITO SENHOR COM VARIOS ARTIFICIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPEZA O VIGARIO. OBRIGADOS OS ORDENANDOS A CANTAR O CANTO CHAM DESAFINARAM PERTURBADOS A VISTA DO PRELADO, E OS OBRIGOU, A QUE ESTUDASSEM OS SETTE SIGNOS. CELEBRA O POETA ESTE CASO, E LOUVA A PREDICA, QUE FEZ SUA ILLUSTRISSIMA.

A MORTE VIOLENTA QUE LUIZ FERREYRA DE NORONHA CAPITÃO DA GUARDA DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DEO À JOZÉ DE MELLO SOBRINHO DESTE PRELADO.

AO RETIRO QUE FES ESTE ILLUSTRISSIMO PRELADO SENTIDISSIMO, E MAGUADO PELA TYRANNA, E VIOLENTA MORTE QUE O CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA DEO A SEU SOBRINHO.

AOS MISSIONARIOS, À QUEM O ARCEBISPO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEUS RECOMENDAVA MUYTO AS VIAS SACRAS, QUE ENCHENDO A CIDADE DE CRUZES CHAMAVÃO DO PULPITO AS PESSOAS POR SEUS NOMES, REPREHENDENDO, À QUEM FALTAVA.

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA REGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TA, RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO.

AO CURA DA SÉ QUE ERA NAQUELLE TEMPO, INTRODUZIDA ALI POR DINHEYRO, E COM PRESUNÇÕES DE NAMORADO SATYRIZA O POETA COMO CREATURA DO PRELADO.

AO ILLUSTRISSIMO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEOS MUDANDO-SE PARA O SEU NOVO PALACIO, QUE COMPROU.

O DEÃO ANDRE GOMES CAVEYRA SE INTRODUZIO DE TAL MODO COM ÊSTE PRELADO EM DESABONO DO POETA, QUE ESTIMULADO O DITO FÊZ O SEGUINTE.

COMO ACREDITOU ESTE PRELADO MAIS OS MEXERICOS DE CAVEYRA, DO QUE AS LIZONJAS DO POETA, LHE FEZ ESTA SÁTIRA

LOUVA O POETA O SERMÃO, QUE PREGOU CERTO MESTRE NA FESTA, QUE A JUSTIÇA FAZ, AO SPIRITO SANTO NO CONVENTO DO CARMO NO ANO 1686.

CELEBRA O POETA (ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO), A BURLA, QUE FIZERAM OS RELIGIOSOS COM UMA PATENTE FALSA DE PRIOR A FREI MIGUEL NOVELLOS, APELIDADO O LATINO POR IVERTIMENTO EM HUM DIA DE MUYTA CHUVA.

AO VIGARIO DA VILLA DE S. FRANCISCO POR HUMA PENDENCIA, QUE TEVE COM HUM OURIVES A RESPEYTO DE HUMA MULATA, QUE SE DIZIA CORRER POR SUA CONTA.

A OUTRO VIGARIO DE CERTA FREGUEZIA, CONTRA QUEM SE AMOTINÁVAM OS FREGUEZES POR SER MUYTO AMBICIOSO.

AO VIGARIO ANTONIO MARQUES DE PERADA ENCOMENDADO NA IGREJA DA Va DE S. FRANCISCO AMBICIOSO, E DESCONHECIDO.

AO PADRE DAMASO DA SYLVA PARENTE DO POETA, E SEU OPPOSTO, HOMEM DESBOCCADO, E PRESUNÇOSO COM GRANDES IMPLUSOS DE SER SER VIGARIO, SENDO POR ALGUM TEMPO EM NOSSA SENHORA DO LORETO.

RETRATO DO MESMO CLERIGO.

AO MESMO CLERIGO APPELLIDANDO DE ASNO AO POETA

AO MESMO COM PRESUNÇÕES DE SABIO, E INGENHOSO.

A OUTRO CLERIGO AMIGO DO FRIZÃO, QUE SE DEZIA ESTAR AMANCEBADO DE PORTAS ADENTRO COM DUAS MULHERES COM HUMA NEGRA, E OUTRA MULATA.

AO PADRE MANUEL ALVARES CAPELLÃO DA MARAPÉ REMOQUEANDO AO POETA HUMA PEDRADA QUE LHE DERAM DE NOYTE ESTANDO SE PROVENDO: E PERGUNTANDOLHE PORQUE SE NÃO SATYRIZAVA DELLA! ESCANDALIZADO, E PICADO, PORQUE O POETA HAVIA SATYRIZADO OS CLERIGOS, QUE VINHÃO DE PORTUGAL.

ENTRA AGORA O POETA A SATIRIZAR O DITO PADRE.

AO PADRE MANUEL DOMINGUES LOUREYRO QUE REHUSANDO IR POR CAPELLÃO PARA ANGOLLA POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, FOY AO DEPOIS PREZO, E MALTRATADO, PORQUE RESISTIO AS ORDENS DO MESMO PRELADO.

AO VIGARIO DA MADRE DE DEOS MANUEL RODRIGUES SE QUEYXA O POETA DE TREZ CLERIGOS QUE LHE FORAM A CASA PELA FESTA DO NATAL, ONDE TAMBEM ELLE ESTAVA E COM GALANTARIA O PERSUADE, A QUE SACUDA OS HOSPEDES FORA DE CASA PELO GASTO, QUE FAZIAM.

AOS MESMOS PADRES HOSPEDES ENTRE OS QUAIS VINHA O Pe PERICO, QUE ERA PEQUENINO.

AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO, QUE LHE MANDÁRA BRITES HUMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL VINHA PARA O POETA HUM CAJÚ.

AO CELEBRE FR. JOANNICO COMPREHENDIDO EM LISBOA EM CRIMES DE SODOMITA.

A FR. PASCOAL QUE SENDO ABBADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAYS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELLE SANTUARIO.

A FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS LACONICOS A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.

HUM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIO AO POETA SUAS APROVAÇÕES SOBRE A MESMA PREDICA, A PEDITORIO DO MESMO PREGADOR NESTE.

O MESMO AMIGO PEDIO AO POETA EM OUTRA OCCASIÃO LHE GLOZASSE ESTE MOTTE, CUJA MATERIA FOY HAVER TRIUNFADO O DITO FR. THOMAZ DE CERTA OPPOSIÇÃO CAPITULAR.

AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALLO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREYRA VOMITADO HUMAS NAUSEAS, QUE LOGO COBRIO COM O CHAPEO.

A CERTO FRADE NA VILLA DE SAM FRANCISCO, A QUEM HUA MOÇA FINGINDOSE AGRADECIDA À SEUS REPETIDOS GALANTEYOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE HUMA PANELLA DE MERDA.

O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO DE ODIVELAS, LHES ENTREGOU HABITO, E MENORES PARA UM FINGIDO ENTREMEZ, E CONHECENDO O CHASCO, EM ALTA NOYTE DEO EM CANTAR O MISERERE, BORRANDO, E OURINANDO TODO O PARLATORIO, PELO QUE A ABADEÇA LHE DEO OS SEUS HÁBITOS, E HUA LANTERNA PARA SE RETIRAR À LISBOA.

A CERTO FRADE, QUE QUERENDO EMBARCAR-SE PARA FORA DA CIDADE, FURTOU HUM CABRITO, O QUAL SENDO CONHECIDO DA MAY PELO BERRO O FOY BUSCAR DENTRO DO BARCO, E COMO NÃO TEVE EFFEYTO O DITO ROUBO,TRATOU LOGO DE FURTAR OUTRO, E O LEVOU ASSADO.

A CERTO FRADE QUE PREGANDO MUITOS DESPROPOSITOS NA MADRE DE DEOS FOI APEDREJADO PELOS RAPAZES, E SE FINGIO DESMAYADO POR ESCAPAR: MAS DEPOIS FURTANDO AO POETA UM BORDÃO, E AO ARPISTA DA FESTA UM CHAPEO SE RETIROU: POREM SABENDO-SE DO FURTO LHE FOY AO CAMINHO TIRAR DAS MÃOS HUM MULATO
DE DOMINGOS BORGES.

INDO CERTO FRADE A CASA DE HUMA MERETRIZ LHE PEDIO ESTA QUINZE MlL REIS DANTEMÃO PARA TIRAR HUMAS ARGOLLAS, QUE TINHA EMPENHADAS.

SATYRIZA OUTRO CASO DE HUMA NEGRA QUE FOY ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOY BEM MOIDA COM UM BORDÃO POR SEU AMAZIO, POR CUJA CAUSA SE SAGROU, E SE FINGIO MANCA DE HUM PÉ.

A CERTO FRADE QUE TRATAVA COM HUMA DEPRAVADA MULATA POR NOME VICENCIA QUE MORAVA JUNTO AO CONVENTO, E ATUALMENTE Á ESTAVA VIGIANDO DESTE CAMPANARIO.

AO LOUCO DESVANECIMENTO, COM QUE ESTE FRADE TIRANDO ESMOLLAS CANTAVA REGAÇANDO O HABITO POR MOSTRAR AS PERNAS, COM PRESUNÇÕES DE GENTILHOMEM, BOM MEMBRO, E BOA VOZ.

AO MESMO FRADE TORNA A SATYRIZAR O POETA, SEM OUTRA MATERIA NOVA, SENÃO PRESUMINDO, QUE QUEM O DEMO TOMA HUMA VEZ SEMPRE LHE FICA HUM GEYTO.

A CERTO FRADE QUE INDO PREGAR A HUM CONVENTO DE FREYRAS, E ESTANDO COM HUMA NA GRADE, LHE DEO TAL DOR DE BARRIGA, QUE SE CAGOU POR SI.

4 — A NOSSA SÉ DA BAHIA

com ser um mapa de festas
é um presépio de bestas.

e se nisto maldigo ou me engano,
eu me submeto à Santa Madre Igreja.

Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não Ihe chameis Religioso
chamai-lhe embora de Frade

Jesu, nome de Jesu!

AOS CAPITULARES DO SEU TEMPO

A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presépio de bestas,
se não for estrebaria:
várias bestas cada dia
vemos, que o sino congrega,
Caveira mula galega,
o Deão burrinha parda,
Pereira besta de albarda,
tudo para a Sé se agrega.

PONDERA ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO QUAM GLORIOSA HE A PAZ DA RELIGIÃO

Quem da religiosa vida não se namora, e agrada,
já tem a alma danada,
e a graça de Deus perdida:
uma vida tão medida
pela vontade dos Céus,
que humildes ganham troféus,
e tal glória se desfruta,
que na mesa a Deus se escuta,
no Coro se louva a Deus.

Esta vida religiosa
tão sossegada, e segura
a toda a boa alma apura,
afugenta a alma viciosa:
há cousa mais deliciosa,
que achar o jantar, e almoço
sem cuidado, e sem sobrosso
tendo no bom, e mau ano
sempre o pão quotidiano,
e escusar o Padre nosso!

Há cousa como escutar
o silêncio, que a garrida
toca depois da comida
pare cozer o jantar!
há cousa como calar,
e estar só na minha cela
considerando a panela,
que cheirava, e recendia
no gosto de malvasia
na grandeza da tigela!

Há cousa como estar vendo
uma só Mãe religião
sustentar a tanto Irmão
mais, ou menos Reverendo!
há maior gosto, ao que entendo,
que agradar ao meu Prelado,
para ser dele estimado,
se ao obedecer-lhe me animo,
e depois de tanto mimo
ganhar o Céu de contado!

Dirão réprobos, e réus,
que a sujeição é fastio,
pois para que é o alvedrio,
senão para o dar a Deus:
quem mais o sujeita aos céus,
esse mais livre se vê,
que Deus (como ensina a fé)
nos deixou livre a vontade,
e o mais é mor falsidade,
que os montes de Gelboé.

Oh quem, meu Jesus amante,
do Frade mais descontente
me fizera tão parente,
que fora eu seu semelhante!
Quem me vira neste instante
tão solteiro, qual eu era,
que na Ordem mas austera
comera o vosso maná!
Mas nunca direi, que lá
virá a fresca Primavera.

AO ILUSTRISSIMO SENHOR D. Fr. MANUEL DA RESURREYÇÃO.

Subi a púrpura já, raio luzente
Do sol Americano, que em dourado
Dossel o Tibre vos verá sagrado
Dar um dia leis à sua corrente.

Entonces da Tiara a vossa frente,
E vosso Patriarca coroado
Um redil deveremos, e um cajado
Às vossas claves, e a seu zelo ardente.

Subi a cumes tão esclarecidos,
ó vos, de cuja remendada capa
sombras são já purpúreos resplandores.

Em quem divinamente reunidos
Os brasões de Seráfico, e de Papa
Verão os vossos dous Progenitores.

A MORTE DO MESMO SENHOR SUCCEDIDA DE HUMA FEBRE MALIGNA EM BELLEM ANDANDO EM VISITA.

Neste túmulo a cinzas reduzido
Da virtude o Herói mais portentoso
Se oculta, feito estrago lastimoso
Da dura Parca, de que foi vencido.

De um incêndio cruel ficou rendido
Aquele peito forte, e valeroso,
Que por Deus tantas vezes amoroso
Tinha grandes incêndios padecido.

Porém a Parca andou muito advertida
Em Ihe tirar a vida desta sorte,
E tirana não foi, sendo homicida.

Que se o matou em um incêndio forte,
Foi, porque se de incêndios teve a vida,
De incêndios era bem tivesse a morte.

EPITAFIO À SEPULTURA DO MESMO EXmo. SENHOR ARCEBISPO

Este mármore encerra, ó Peregrino,
Se bem, que a nossos olhos já guardado,
Aquele, que na terra foi sagrado,
Para que lá no céu fosse divino.

De seu merecimento justo, e digno
Prêmio, pois na terra nunca irado
Se viu o seu poder, e o seu cajado
Neste nosso hemisfério ultramarino.

Enfim relíquias de um Prelado santo
Oculta este piedoso monumento:
As lágrimas detém, enxuga o pranto.

Prosta-te reverente, e beija atento
As cinzas, de quem deu ao mundo espanto,
E a todos os Prelados documento.

A CHEGADA DO ILLUSTRISSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE OLIVEYRA TENDO SIDO JA BISPO EM ANGOLLA.

Hoje os Matos incultos da Bahia
Se não suave for, ruidosarnente
Cantem a boa vinda do Eminente
Príncipe desta Sacra Monarquia.

Hoje em Roma de Pedro se Ihe fia
Segunda vez a Barca, e o Tridente,
Porque a pesca, que fez já no Oriente,
A destinou para a do meio-dia.

Oh se quisera Deus, que sendo ouvida
A Musa bronca dos incultos Matos
Ficasse a vossa púrpura atraída!

Oh se como Arion, que a doces tratos
Uma pedra atraiu endurecida,
Atraísse eu, Senhor, vossos sapatos!

A FROTA EM QUE VEYO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.

Tal frota nunca viram as idades
De rota, desmembrada, e detençosa,
Mui Santa deve ser, e religiosa,
Pois de dous em dous veio, como frades.

Não Ihe duvido eu destas qualidades,
Se veio na Almirante venturosa
Aquela insígnia Santa, e poderosa,
Que à Mitra episcopal dá potestades.

Chegou o Pálio enfim, que de um Prelado,
Que nos veio a medida do desejo
Tão merecido foi, como esperado.

Eu ouço repicar, e folgar vejo:
Repica a Sé, o Carmo está folgado,
Louco devo eu de ser, pois não doudejo.

AO MESMO ILLUSTRISSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILLA DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUYTOS CLERIGOS PARA TOMAREM ORDENS.

Bem-vindo seja, Senhor, Vossa llustríssima
A este sítio famoso do Seráfico,
Onde nesta canção de verso alcaico
Ouça a ovelha balar sua amantíssima

Aqui verá correr água claríssima
Do grande Seregipe rio antártico,
Onde para tomar o eclesiástico
Caráter Santo há gente prestantíssima.

Aqui de Pedro a rede celebérrima
Cuido, que fez os lanços hiperbólicos,
Que na Bíblia se lêem Santa integérrima.

Porque estes Pescadores tão católicos
Nunca uma pesca fazem tão pulquérrima,
Que os buchos nos não deixem melancólicos.

A MAGNIFICENCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELLA VlLLA RECEBERAM O DITO SENHOR COM VARIOS ARTIFICIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPEZA O VIGARIO.

Apareceram tão belas
no mar canoas, e truzes,
que se o céu é mar de luzes,
o mar era um céu de estrelas:
era uma armada sem velas
movida de outro elemento,
era um prodígio, um portento
ver com tanto desafogo
esta navegar com fogo,
se outras arribam com vento.

Sua Ilustríssima estava
assustado sobre absorto,
porque via um rio morto
o fogo, em que se abrasava:
grande cuidado Ihe dava ver,
que o mar morria então
infamado na opinião,
e como um judeu queimado,
sendo, que o mar é sagrado,
que inda é mais que ser cristão.

Lá no vale ardia o ar,
e por ser, comua a guerra,
no mar há fogo de terra,
na terra há fogo do mar:
toda a esfera a retumbar
fazia correspondência,
e com alegre aparênca
luzia na ardente empresa
fogo do ar por alteza,
e do mar por excelência.

Em cima as rodas paravam,
que varia a fortuna toda
desandava a sua roda,
e as do fogo não paravam:
os mestres se envergonhavam,
que era Lourenço, e Diogo:
e eu vi, que a Lourenço logo
a face se quebrantava,
com que a mim mais me queimava
o seu rosto, que o seu fogo.

Deu-se fogo em conclusão
a uma roda de encomenda,
foi como a minha fazenda,
que ardeu num abrir de mão:
estava em meio do chão
um rasto, para que ardesse
uma câmara, e parece,
que uma faísca caiu,
disparou: quem jamais viu,
que o fogo em câmeras desse.

Era grande a multidão
do Clero, e dos Seculares,
que a graça destes folgares
consiste na confusão:
Sua llustríssima então
se foi, que o fogo não zomba,
aqui queima, ali arromba:
segue-lhe o vigário os trilhos,
que as rodas não tinham filhos
mas pariam muita bomba.

A gente ficou pasmada,
porque viu a gente toda,
que era a resposta da roda
de bombarda respostada:
ficou a turba enganada,
porque enfim nos perturbarnos:
mas todos nos alegramos,
que isto somos, e isso fomos,
que então alegres nos pomos
quando mais nos enganamos.

Entre o desar, e entre o risco
a noite alegre passou:
que mais noite! se a gabou
té o Padre São Francisco:
nas mais paróquias foi cisco,
foi sombra, foi ar, foi nada
do nosso Prelado a entrada,
e a desconfiança é vã
de o Cura ter bolsa chã,
se a vontade é tão sobrada.

OBRIGADOS OS ORDENANDOS A CANTAR O CANTO CHAM DESAFINARAM PERTURBADOS A VISTA DO PRELADO, E OS OBRIGOU, A QUE ESTUDASSEM OS SETTE SIGNOS. CELEBRA O POETA ESTE CASO, E LOUVA A PREDICA, QUE FEZ SUA ILLUSTRISSIMA.

Senhor; os Padres daqui
por b quadro, e por b mol
cantam bem ré mi fá sol,
cantam mal lá sol fá mi:
a razão, que eu nisto ouvi,
e tenho para vos dar,
é, que como no ordenar
fazem tanto por luzir,
cantam bem para subir,
cantam mal para baixar.

Porém como cantariam
os pobres perante vós?
tão bem cantariam sós,
quão mal, onde vos ouviam:
quando o fabordão erguiam
cad'um parece, que berra,
e se um dissona, o outro erra,
mui justo me pareceu,
que sempre à vista do Céu
fique abatido, o que é terra.

Os Padres cantaram mal
como está já pressuposto,
e inda assim vos deram gosto,
que eu vi no riso o sinal.
foi-se logo cada qual
direito às suas pousadas
a estudar nas tabuadas
da música os sete signos,
não por cantar a Deus hinos,
mas por vos dar badaladas.

Vós com voz tão doce, e grata
enleastes meus sentidos,
que ficaram meus ouvidos,
engastados nessa prata:
tanto o povo se desata
ouvindo os vossos espritos!
que com laudatórios gritos
dou eu fé, que uma Donzela
disse, qual outra Marcela,
o cântico Benedictus.

A MORTE VIOLENTA QUE LUIZ FERREYRA DE NORONHA CAPITÃO DA GUARDA DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DEO À JOZÉ DE MELLO SOBRINHO DESTE PRELADO.

Brilha em seu auge a mais luzida estrela,
Em sua pompa existe a flor mais pura,
Se esta do prado frágil formosura,
Brilhante ostentação do céu aquela.

Quando ousada uma nuvem a atropela,
Se a outra troca em lástima a candura,
Que há também para estrelas sombra escura,
Se para flores há, quem as não zela.

Estrela e flor, José, em ti se encerra,
Porque ser flor, e estrela mereceu
Teu garbo, a quem a Parca hoje desterra.

E para se admirar o indulto teu,
Como flor te sepultas cá na terra,
Como estrela ressurges lá no céu.

AO RETIRO QUE FES ESTE ILLUSTRISSIMO PRELADO SENTIDISSIMO, E MAGUADO PELA TYRANNA, E VIOLENTA MORTE QUE O CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA DEO A SEU SOBRINHO.

Um benemérito peito,
uma Sacra Dignidade
sentir vem na soledade
da parca o cruel efeito:
que de um golpe sem respeito
quis cortar o vital fio,
sem atender Senhorio,
nem ver, o despojo horrendo,
de quem se agravara, vendo
desautorizado o brio.

Já de todo o mal distando
em Belém busca o retiro,
onde um, e outro suspiro
a pena estão aumentando:
e no pesar contemplando
jamais será divertido,
vendo de todo perdido
por culpa de um traidor vil
aquele Adônis gentil
a cadáver reduzido

Se a lei se deve observar,
como agora falta, e tarda?
a Justiça apenas guarda,
que agradou por aguardar:
privou por se depravar
pela via nunca usada,
deu ao vício franca entrada,
e bem se pode entender,
que enquanto vivo há de ser
privado pela privada.

Mas que muito haja amparado
um Calígula tirano
a seu amigo inumano
Capitão de cama, e lado?
o vulgo tem murmurado,
e a maldade não se doma,
e a sem-razão, que se assoma,
como demais já sobeja
contra um Ministro da Igreja
um nefando de Sodoma.

AOS MISSIONARIOS, À QUEM O ARCEBISPO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEUS RECOMENDAVA MUYTO AS VIAS SACRAS, QUE ENCHENDO A CIDADE DE CRUZES CHAMAVÃO DO PULPITO AS PESSOAS POR SEUS NOMES, REPREHENDENDO, À QUEM FALTAVA .

Via de perfeição é a sacra via,
Via do céu, caminho da verdade:
Mas ir ao Céu com tal publicidade,
Mais que à virtude, o boto à hipocrisia.

O ódio é d'alma infame companhia,
A paz deixou-a Deus à cristandade:
Mas arrastar por força, uma vontade,
Em vez de perfeição é tirania.

O dar pregões do púlpito e indecência,
Que de Fulano? venha aqui sicrano:
Porque o pecado, o pecador se veja:

E próprio de um Porteiro d'audiência,
E se nisto maldigo, ou mal me engano,
Eu me submeto à Santa Madre Igreja.

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA REGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TA, RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO.

Inda está por decidir,
meu Padre Provincial,
se aquele sermão fatal
foi de chorar, se de rir:
cada qual pode inferir,
o que melhor lhe estiver,
porque aquela má mulher
da preversa sinagoga
fez no sermão tal chinoga,
que o não deixou entender.

Certo, que este lava-pés
me deixou escangalhado,
e quanto a mim foi traçado
para risonho entremez:
eu lhe quero dar das três
a outro qualquer Pregador,
seja ele quem quer que for,
já filósofo, ou já letrado,
e quero perder dobrado,
se fizer outro pior.

E vossa Paternidade,
pelo que deve à virtude,
de tais pensamentos mude,
que prega mal na verdade:
faça atos de caridade,
e trate de se emendar,
não nos venha mais pregar,
que jurou o Mestre Escola,
que por pregar pare Angola
o haviam de degradar.

AO CURA DA SÉ QUE ERA NAQUELLE TEMPO, INTRODUZIDA ALI POR DINHEYRO, E COM PRESUNÇÕES DE NAMORADO SATYRIZA O POETA COMO CREATURA DO PRELADO.

O Cura, a quem toca a cura
de curar esta cidade,
cheia a tem de enfermidade
tão mortal, que não tem cura:
dizem, que a si só se cura
de uma natural sezão, que lhe dá na ocasião
de ver as Moças no eirado,
com que o Cura é o curado,
e as Moças seu cura são.

Desta meizinha se argúi,
que ao tal Cura assezoado
mais lhe rende o ser curado,
que o Curado, que possui,
grande virtude lhe influi
o curado exterior:
mas o vício interior
Amor curá-lo procura,
porque Amor todo loucura,
se a cura é de louco amor.

Disto cura o nosso Cura,
porque é curador maldito,
mas ao mal de ser cabrito
nunca pôde dar-lhe cura:
É verdade, que a tonsura
meteu o Cabra na Sé,
e quando vai dizer "Te
Deum laudamus" aos doentes,
se lhe resvela entre dentes,
e em lugar de Te diz me.

Como ser douto cobiça,
a qualquer Moça de jeito
onde pôs o seu direito,
logo acha, que tem justiça:
a dar-lhe favor se atiça,
e para o fazer com arte,
não só favorece a parte,
mas toda a prosápia má,
se justiça lhe não dá,
lhe dá direito, que farte.

Porque o demo lhe procura
tecer laços, e urdir teias,
não cura de almas alheias,
e só do seu corpo cura:
debaixo da capa escura
de um beato capuchinho
é beato tão maligno
o cura, que por seu mal
com calva sacerdotal
é sacerdote calvino.

Em um tempo é tão velhaco,
tão dissimulado, e tanto,
que só por parecer santo
canoniza em santo um caco:
se conforme o adágio fraco
ninguém pode dar, senão
aquilo, que tem na mão,
claro está que no seu tanto
não faria um ladrão santo,
senão um Santo Ladrão.

Estou em crer, que hoje em dia
já os cânones sagrados
não reputam por pecados
pecados de simonia:
os que vêem tanta ousadia,
com que comprados estão
os curados mão por mão,
devem crer, como já creram,
que ou os cânones morreram,
ou então a Santa unção.

AO ILLUSTRISSIMO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEOS MUDANDO-SE PARA O SEU NOVO PALACIO, QUE COMPROU.

Sacro Pastor da América florida,
Que para o bom regímen do teu gado
De exemplo fabricastes o cajado,
E de frauta te sene a mesma vida.

Outros tua virtude esclarecida
Cantem: mas teu palácio por sagrado
Cante Apolo de raios coroado
Na musa humilde de álamos cingida.

Gusano a tua folha me alimente,
Tua sombra me ampare peregrino,
Passarinho o teu ramo me sustente.

Tecerei tua historia em ouro fino,
De meus versos serás templo freqüente,
Onde glórias te cante de contino.

O DEÃO ANDRE GOMES CAVEYRA SE INTRODUZIO DE TAL MODO COM ÊSTE PRELADO EM DESABONO DO POETA, QUE ESTIMULADO O DITO FÊZ O SEGUINTE.

MOTE

O mundo vai-se acabando,
cada qual olhe por si,
porque dizem, que anda aqui
uma Caveira falando.

Chegou o nosso Prelado
tão galhardo, e tão luzido,
tão douro, e esclarecido,
tão nobre, e tão ilustrado,
e não houve Prebendado,
que para o ir enganando
se lhe não fosse chegando;
mas só Caveira asnaval
é, quem co Prelado val:
O mundo vai-se acabando.

Como não há de acabar-se,
se uma Caveira tão feia
ao Prelado galanteia
a risco de enamorar-se!
onde se viu galantear-se
o roxete carmesi
pela caveira de Heli?
não é mentira, é verdade;
pois para seguridade
cada qual olhe por si.

Olhe por si cada qual,
e não se dêem por seguros,
sabendo, que anda extramuros
esta Caveira infernal:
ela anda pelo arrebal,
e dacolá para aqui,
eu por mil partes a vi:
o leigo, o frade, e o monge
não a imaginem de longe,
Porque dizem, que anda aqui.

Aqui anda, e aqui está
rosnando sempre entre nós,
Deão com cara de algoz,
e pertensões de Bispá:
ele é, o que os pontos dá,
e os vícios vai acusando
com zelo torpe, e nefando,
com que nos bota a perder:
porque quem não há de crer
Uma Caveira falando.

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