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O Burgo

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

PRECEITO 3

Pois no que toca a guardar

dias Santos, e Domingos:

ninguém vejo em mim, que os guarde,

se tem, em que ganhar jimbo.

Nem aos míseros escravos

dão tais dias de vazio,

porque nas leis do interesse,

é preceito proibido.

Quem os vê ir para o templo

com as contas e os livrinhos

de devoção, julgará,

que vão p'ra ver a Deus Trino:

Porém tudo é mero engano,

porque se alguns escolhidos

ouvem missa, é perturbados

desses, que vão por ser vistos.

E para que não pareça,

aos que escutam, o que digo,

que há mentira, no que falo

com a verdade me explico:

Entra um destes pela Igreja,

sabe Deus com que sentido,

e faz um sinal-da-cruz

contrário ao do catecismo.

Logo se põe de joelhos,

não como servo rendido,

mas em forma de besteiro

cum pé no chão, outro erguido.

Para os altares não olha,

nem para os Santos no nicho,

mas para quantas pessoas

vão entrando, e vão saindo.

Gastam nisto o mais do tempo,

e o que resta divertidos

se põem em conversação,

com os que estão mais propínquos

Não contam vidas de Santos,

nem exemplos ao divino,

mas sim muita patarata,

do que não há, nem tem sido.

Pois se há sermão, nunca o ouvem,

porque ou se põem de improviso

a cochilar como negros,

ou se vão escapulindo.

As tardes passam nos jogos,

ou no campo divertidos

dando Leis, e dando arbítrios.

As mulheres são piores,

porque se lhes faltam brincos

manga a volá, broche, troço,

ou saia de labirintos,

não querem ir para a Igreja,

seja o dia mais festivo,

mas em tendo essas alfaias,

saltam mais do que cabritos.

E se no Carmo repica,

ei-las lá vão rebolindo,

o mesmo para São Bento,

Colégio, ou São Francisco.

Quem as vir muito devotas,

julgará sincero, e liso,

que vão na missa, e sermão

a louvar a Deus com hinos.

Não quero dizer, que vão,

por dizer mal do Maridos,

aos amantes, ou talvez

cair em erros indignos.

Debaixo do parentesco,

que fingem pelo apelido,

mandando-lhes com dinheiro

muitos, e custosos mimos.


PRECEITO 4

Vejo, que morrem de fome

os Pais daquelas, e os Tios,

ou porque os vêem Lavradores,

ou porque tratam de ofícios.

Pois que direi dos respeitos,

com que os tais meus mancebinhos

tratam esses Pais depois

que deixam de ser meninos?

Digam-no quantos o vêem,

que eu não quero repeti-lo,

a seu tempo direi como

criam estes morgadinhos.

Se algum em seu testamento

cerrado, ou nuncupativo

a algum parente encarrega

sua alma, ou legados pios:

Trata logo de enterrá-lo

com demonstrações de amigo,

mas passando o Resquiescat

tudo se mate no olvido.

Da fazenda tomam posse

até do menor caquinho;

mas para cumprir as deixas

adoecem de fastio.

E desta omissão não fazem

escrúpulo pequenino,

nem se Ihes dá, que o defunto

arda, ou pene em fogo ativo.

E quando chega a apertá-los

o tribunal dos resíduos,

ou mostram quitações falsas,

ou movem pleitos renhidos.

Contados são, os que dão

a seus escravos ensino,

e muitos nem de comer,

sem Ihes perdoar serviço.

Oh quantos, e quantos há

de bigode fernandino,

que até de noite às escravas

pedem selários indignos,

Pois no modo de criar

aos filhos parecem símios,

causa por que os não respeitam,

depois que se vêem crescidos.

Criam-nos com liberdade

nos jogos, como nos vício,

persuadindo-lhes, que saibam

tanger guitarra, e machinho.

As Mães por sua imprudência

são das filhas desperdício,

por não haver refestela,

onde as não levem consigo.

E como os meus ares são

muito coados, e finos,

se não há grande recato,

têm as donzelas perigo.

Ou as quebranta de amores

o ar de algum recadinho,

ou pelo frio da barra

saem co ventre crescido.

Então vendo-se opiladas,

se não é do santo vínculo,

para livrarem do achaque,

buscam certos abortinhos.

Cada dia o estou vendo,

e com ser isto sabido,

contadas são, as que deixam

de amar estes precipícios.

Com o dedo a todas mostro,

quanto indica o vaticínio,

e se não querem guardá-lo,

não culpam meu domicílio.



PRECEITO 5

Vamos ao quinto preceito,

Santo Antônio vá comigo,

e me depare algum meio,

para livrar do seu risco.

Porque suposto que sejam

quietos, mansos, benignos,

quantos pisam meus oiteiros,

montes, vales, e sombrios;

Pode suceder, que esteja

algum áspide escondido

entre as flores, como diz

aquele provérbio antigo.

Faltar não quero à verdade

nem dar ao mentir ouvidos,

o de César dê-se a César,

o de Deus a Jesus Cristo.

Não tenho brigas, nem mortes

pendências, nem arruídos,

tudo é paz, tranqüilidade,

cortejo com regozijo:

Era dourada parece,

mas não é como eu a pinto

porque debaixo deste ouro

tem as fezes escondido.

Que importa não dar aos corpos

golpes, catanadas, tiros,

e que só sirvam de ornato

espada, e cotós limpos?

Que importa, que não se enforquem

os ladrões, e os assassinos,

os falsários, maldizentes,

e outros a este tonilho?

Se debaixo desta paz,

deste amor falso, e fingido

há fezes tão venenosas,

que o ouro é chumbo mofino

É o amor um mortal ódio,

sendo todo o incentivo

a cobiça do dinheiro,

ou a inveja dos ofícios.

Todos pecam no desejo

de querer ver seus patrícios

ou da pobreza arrastados,

ou do crédito abatidos.

E sem outra cousa mais

se dão a destro, e sinistro

pela honra, e pela fama

golpes cruéis, e infinitos.

Nem ao sagrado perdoam,

seja Rei, ou seja Bispo,

ou Sacerdote, ou Donzela

metida no seu retiro.

A todos enfim dão golpes

de enredos, e mexericos

tão cruéis, e tão nefandos,

que os despedaçam em cisco.

Pelas mãos nada; porque

não sabem obrar no quinto;

mas pelas línguas não há

leões mais enfurecidos.

E destes valentes fracos

nasce todo o meu martírio;

digam todos, os que me ouvem,

se falo a verdade, ou minto.


PRECEITO 6

Entremos pelos devotos

do nefando Deus Cupido,

que também esta semente

não deixa lugar vazio.

Não posso dizer, quais são

por seu número infinito,

mas só digo, que são mais

do que as formigas, que crio.

Seja solteiro, ou casado,

é questão, é já sabido

não estar sem ter borracha

seja do bom, ou mau vinho.

Em chegando a embebedar-se

de sorte perde os sentidos.

que deixa a mulher em couros,

e traz os filhos famintos:

Mas a sua concubina

há de andar como um palmito,

para cujo efeito empenham

as botas com seus atilhos.

Elas por não se ocuparem

com costuras, nem com bilros,

antes de chegar aos doze

vendem o signo de Virgo.

Ouço dizer vulgarmente

(não sei, é certo este dito)

que fazem pouco reparo

em ser caro, ou baratinho.

O que sei é, que em magotes

de duas, três, quatro, cinco

as vejo todas as noites

sair de seus esconderijos

E como há tal abundância

desta fruita no meu sítio,

para ver se há, quem as compre,

dão pelas ruas mil giros.

E é para sentir, o quanto

se dá Deus por ofendido

não só por este pecado,

mas pelos seus conjuntivos:

como são cantigas torpes,

bailes, e toques lascivos,

venturas, e fervedouros,

pau de forca, e pucarinhos.

Quero entregar ao silêncio

outros excessos malditos,

como do Pai carumbá,

Ambrósio, e outros pretinhos.

Com os quais estas formosas

vão fazer infames brincos

governados por aqueles,

que as trazem num cabrestinho.


PRECEITO 7

Já pelo sétimo entrando

sem alterar o tonilho,

digo, que quantos o tocam

sempre o tiveram por crítico

Eu sou, a que mais padeço

de seus efeitos malignos,

porque todos meus desdouros

pelo sétimo têm vindo.

Não falo (como lá dizem)

ao ar, ou libere dicto,

pois diz o mundo loquaz,

que encubro mil latrocínios

Se é verdade, eu o não sei,

pois acho implicância nisto

porque o furtar tem dous verbos

um furor, outro surrípio.

Eu não vejo cortar bolsas,

nem sair pelos caminhos,

como fazem nas mais partes

salvo alguns negros fugidos.

Vejo, que a forca, ou picota

paga os altos do vazio,

e que o carrasco não ganha

nem dous réis para cominhos

Vejo, que nos tribunais

há vigilantes Ministros,

e se houvera em mim tal gente

andara à soga em contino.

Porém se disto não há,

com que razão, ou motivo

dizem por aí, que sou

um covil de Latrocínios!

Será por verem, que em mim

é venerado, e querido

Santo Unhate, irmão de Caco,

porque faz muitos prodígios.

Sem questão deve de ser,

porque este Unhate maldito

faz uns milagres, que eu mesma

não sei, como tenho tino.

Pode haver maior milagre

(ouça bem quem tem ouvidos)

do que chegar um Reinol

de Lisboa, ou lá do Minho

ou degredado por crimes

ou por Moço ao Pai fugido,

ou por não ter que comer

no Lugar, onde é nascido:

E saltando no meu cais

descalço, roto, e despido,

sem trazer mais cabedal,

que piolhos, e assobios:

Apenas se ofrece a Unhate

de guardar seu compromisso,

tomando com devoção

sua regra, e seu bentinho:

Quando umas casas aluga

de preço, e valor subido,

e se põe em tempo breve

com dinheiro, e com navios?

Pode haver maior portento,

nem milagre encarecido,

como de ver um Mazombo

destes cá do meu pavio,

que sem ter eira, nem beira

engenho, ou juro sabido

tem amiga, e joga largo

veste sedas, põe polvilhos?

Donde Ihe vem isto tudo?

Cai do Céu? Tal não afirmo;

ou Santo Unhate Iho dá,

ou do Calvário é prodígio.

Consultam agora os sábios,

que de mim fazem corrilhos

se estou ilesa da culpa,

que me dão sobre este artigo.

Mas não quero repetir

a dor e o pesar, que sinto

por dar mais um passo avante

para o oitavo suplício.


PRECEITO 8

As culpas, que me dão nele,

são, que em tudo o que digo,

me aparto do verdadeiro

com ânimo fementido.

Muito mais é, do que falo,

mas é grande barbarismo,

quererem, que pague a albarda,

o que comete o burrinho.

Se por minha desventura

estou cheia de percitos,

como querem, que haja em mim

fé, verdade, ou falar liso?

Se como atrás declarei,

se oudera cobro nisto,

a verdade aparecera

cruzando os braços comigo.

Mas como dos tribunais

proveito nenhum se há visto,

a mentira está na terra,

a verdade vai fugindo.

O certo é, que os mais deles

têm por gala, e por capricho

não abrir a boca nunca

sem mentir de fito a fito.

Deixar quero os pataratas,

e tornando a meu caminho,

quem quiser mentir o faça,

que me não toca impedi-lo.


PRECEITO 9

Do nono não digo nada,

porque para mim é vidro,

e quem o quiser tocar,

vá com o olho sobreaviso.

Eu bem sei, que também trazem

o meu crédito perdido,

mas valha sem sê-lo ex causa,

ou Ihos ponham seus maridos.

Confesso, que tenho culpas,

porém humilde confio,

mais que em riquezas do mundo,

da virtude num raminho.


PRECEITO 10

Graças a Deus que cheguei

a coroar meus delitos

com o décimo preceito,

no qual tenho delinqüido.

Desejo, que todos amem,

seja pobre, ou seja rico,

e se contentem com a sorte,

que têm, e estão possuindo.

Quero finalmente, que

todos, quantos têm ouvido,

pelas obras, que fizerem,

vão para o Céu direitinhos.

QUEIXAS DA SUA MESMA VERDADE

Quer-me mal esta cidade...................................pela verdade,

Não há, quem me fale, ou veja..........................de inveja,

E se alguém me mostra amor............................é temor.


De maneira, meu Senhor,
que me hão de levar a palma

meus três inimigos d'alma

Verdade, Inveja, e Temor.

Oh quem soubera as mentiras.............................do Milimbiras,
Fora aqui senhor do bolo.................................. como tolo,

E feito tolo, e velhaco........................................fora um caco.


Meteria assim no saco
Servindo, andando e correndo

as ligas, que vão fazendo

Milimbiras, Tolo, e Caco.

Tirara cinzas tiranas............................................das bananas,
Outro se os meus dez réis...................................de pastéis,

E porque isento não fosse...................................até do doce.


Teria assim, com que almoce
o meu amancebamento,

pois lhe basta por sustento

Bananas, Pastéis, e Doce.

Prendas, que a empenhar obrigo..........................pelo amigo,
Dobrar-lhe eu o valor..........................................e primor,

Cobrando em dous bodegões...............................os tostões.


E seus donos asneirões
ao desfazer da moeda

perdem da mesma assentada

Amigo, Primor, Tostões.

Ao jimbo, que se lhe conta........................................boa conta,
E já por amigo vejo...................................................sem ter pejo,

Pois lhe tira de corrida..............................................a medida.


Mas verdadeira, ou mentida
a conta ajustada vem,

sendo um homen, que não tem,

Conta, Pejo, nem Medida.

Dever-me-ão camaradas..........................................mil passadas,
E o triste do companheiro.......................................o dinheiro,

E à conta das minhas brasas.....................................as casas.


Assim lhe empatara as vazas,
pois o mesmo, que eu devia,

por força me deveria

Passadas, Dinheiro, e Casas.

TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA
UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.
Que falta nesta cidade?.....................................Verdade

Que mais por sua desonra.................................Honra

Falta mais que se lhe ponha...............................Vergonha.


O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,

numa cidade, onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.


Quem a pôs neste socrócio?...............................Negócio

Quem causa tal perdição?...................................Ambição

E o maior desta loucura?....................................Usura.


Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,

que não sabe, que o perdeu

Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?......................Pretos

Tem outros bens mais maciços?..................................Mestiços

Quais destes lhe são mais gratos? ........................Mulatos.


Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,

que estima por cabedal

Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?.............................Meirinhos

Quem faz as farinhas tardas?..................................Guardas

Quem as tem nos aposentos?..................................Sargentos.


Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,

porque os vão atravessando

Meirinhos, Guardas, Sargentos,

E que justiça a resguarda? ....................................Bastarda

É grátis distribuída?..............................................Vendida

Quem tem, que a todos assusta?............................Injusta.


Valha-nos Deus, o que custa,

o que EL-Rei nos dá de graça,

que anda a justiça na praça

Bastarda, Vendida, Injusta.


Que vai pela clerezia?..............................................Simonia

E pelo membros da Igreja?.......................................Inveja

Cuidei, que mais se lhe punha?..................................Unha.


Sazonada caramunha!

enfim que na Santa Sé

o que se pratica, é

Simonia, Inveja, Unha.

E nos Frades há manqueiras?...................................Freiras

Em que ocupam os serões?......................................Sermões

Não se ocupam em disputas?....................................Putas.


Com palavras dissolutas

me concluís na verdade,

que as lidas todas de um Frade

são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?.............................................Baixou

E o dinheiro se extinguiu?........................................Subiu

Logo já convalesceu?................................................Morreu.


À Bahia aconteceu

o que a um doente acontece,

cai na cama, o mal lhe cresce,

Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?.............................................Não pode

Pois não tem todo o poder?....................................Não quer

É que o governo convence?...................................Não vence.


Quem haverá que tal pense,

que uma Câmara tão nobre

por ver-se mísera, e pobre

Não pode, não quer, não vence,

Fonte: www.cce.ufsc.br

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