PRECEITO 3
Pois no que toca a guardar
dias Santos, e Domingos:
ninguém vejo em mim, que os guarde,
se tem, em que ganhar jimbo.
Nem aos míseros escravos
dão tais dias de vazio,
porque nas leis do interesse,
é preceito proibido.
Quem os vê ir para o templo
com as contas e os livrinhos
de devoção, julgará,
que vão p'ra ver a Deus Trino:
Porém tudo é mero engano,
porque se alguns escolhidos
ouvem missa, é perturbados
desses, que vão por ser vistos.
E para que não pareça,
aos que escutam, o que digo,
que há mentira, no que falo
com a verdade me explico:
Entra um destes pela Igreja,
sabe Deus com que sentido,
e faz um sinal-da-cruz
contrário ao do catecismo.
Logo se põe de joelhos,
não como servo rendido,
mas em forma de besteiro
cum pé no chão, outro erguido.
Para os altares não olha,
nem para os Santos no nicho,
mas para quantas pessoas
vão entrando, e vão saindo.
Gastam nisto o mais do tempo,
e o que resta divertidos
se põem em conversação,
com os que estão mais propínquos
Não contam vidas de Santos,
nem exemplos ao divino,
mas sim muita patarata,
do que não há, nem tem sido.
Pois se há sermão, nunca o ouvem,
porque ou se põem de improviso
a cochilar como negros,
ou se vão escapulindo.
As tardes passam nos jogos,
ou no campo divertidos
dando Leis, e dando arbítrios.
As mulheres são piores,
porque se lhes faltam brincos
manga a volá, broche, troço,
ou saia de labirintos,
não querem ir para a Igreja,
seja o dia mais festivo,
mas em tendo essas alfaias,
saltam mais do que cabritos.
E se no Carmo repica,
ei-las lá vão rebolindo,
o mesmo para São Bento,
Colégio, ou São Francisco.
Quem as vir muito devotas,
julgará sincero, e liso,
que vão na missa, e sermão
a louvar a Deus com hinos.
Não quero dizer, que vão,
por dizer mal do Maridos,
aos amantes, ou talvez
cair em erros indignos.
Debaixo do parentesco,
que fingem pelo apelido,
mandando-lhes com dinheiro
muitos, e custosos mimos.
PRECEITO 4
Vejo, que morrem de fome
os Pais daquelas, e os Tios,
ou porque os vêem Lavradores,
ou porque tratam de ofícios.
Pois que direi dos respeitos,
com que os tais meus mancebinhos
tratam esses Pais depois
que deixam de ser meninos?
Digam-no quantos o vêem,
que eu não quero repeti-lo,
a seu tempo direi como
criam estes morgadinhos.
Se algum em seu testamento
cerrado, ou nuncupativo
a algum parente encarrega
sua alma, ou legados pios:
Trata logo de enterrá-lo
com demonstrações de amigo,
mas passando o Resquiescat
tudo se mate no olvido.
Da fazenda tomam posse
até do menor caquinho;
mas para cumprir as deixas
adoecem de fastio.
E desta omissão não fazem
escrúpulo pequenino,
nem se Ihes dá, que o defunto
arda, ou pene em fogo ativo.
E quando chega a apertá-los
o tribunal dos resíduos,
ou mostram quitações falsas,
ou movem pleitos renhidos.
Contados são, os que dão
a seus escravos ensino,
e muitos nem de comer,
sem Ihes perdoar serviço.
Oh quantos, e quantos há
de bigode fernandino,
que até de noite às escravas
pedem selários indignos,
Pois no modo de criar
aos filhos parecem símios,
causa por que os não respeitam,
depois que se vêem crescidos.
Criam-nos com liberdade
nos jogos, como nos vício,
persuadindo-lhes, que saibam
tanger guitarra, e machinho.
As Mães por sua imprudência
são das filhas desperdício,
por não haver refestela,
onde as não levem consigo.
E como os meus ares são
muito coados, e finos,
se não há grande recato,
têm as donzelas perigo.
Ou as quebranta de amores
o ar de algum recadinho,
ou pelo frio da barra
saem co ventre crescido.
Então vendo-se opiladas,
se não é do santo vínculo,
para livrarem do achaque,
buscam certos abortinhos.
Cada dia o estou vendo,
e com ser isto sabido,
contadas são, as que deixam
de amar estes precipícios.
Com o dedo a todas mostro,
quanto indica o vaticínio,
e se não querem guardá-lo,
não culpam meu domicílio.
PRECEITO 5
Vamos ao quinto preceito,
Santo Antônio vá comigo,
e me depare algum meio,
para livrar do seu risco.
Porque suposto que sejam
quietos, mansos, benignos,
quantos pisam meus oiteiros,
montes, vales, e sombrios;
Pode suceder, que esteja
algum áspide escondido
entre as flores, como diz
aquele provérbio antigo.
Faltar não quero à verdade
nem dar ao mentir ouvidos,
o de César dê-se a César,
o de Deus a Jesus Cristo.
Não tenho brigas, nem mortes
pendências, nem arruídos,
tudo é paz, tranqüilidade,
cortejo com regozijo:
Era dourada parece,
mas não é como eu a pinto
porque debaixo deste ouro
tem as fezes escondido.
Que importa não dar aos corpos
golpes, catanadas, tiros,
e que só sirvam de ornato
espada, e cotós limpos?
Que importa, que não se enforquem
os ladrões, e os assassinos,
os falsários, maldizentes,
e outros a este tonilho?
Se debaixo desta paz,
deste amor falso, e fingido
há fezes tão venenosas,
que o ouro é chumbo mofino
É o amor um mortal ódio,
sendo todo o incentivo
a cobiça do dinheiro,
ou a inveja dos ofícios.
Todos pecam no desejo
de querer ver seus patrícios
ou da pobreza arrastados,
ou do crédito abatidos.
E sem outra cousa mais
se dão a destro, e sinistro
pela honra, e pela fama
golpes cruéis, e infinitos.
Nem ao sagrado perdoam,
seja Rei, ou seja Bispo,
ou Sacerdote, ou Donzela
metida no seu retiro.
A todos enfim dão golpes
de enredos, e mexericos
tão cruéis, e tão nefandos,
que os despedaçam em cisco.
Pelas mãos nada; porque
não sabem obrar no quinto;
mas pelas línguas não há
leões mais enfurecidos.
E destes valentes fracos
nasce todo o meu martírio;
digam todos, os que me ouvem,
se falo a verdade, ou minto.
PRECEITO 6
Entremos pelos devotos
do nefando Deus Cupido,
que também esta semente
não deixa lugar vazio.
Não posso dizer, quais são
por seu número infinito,
mas só digo, que são mais
do que as formigas, que crio.
Seja solteiro, ou casado,
é questão, é já sabido
não estar sem ter borracha
seja do bom, ou mau vinho.
Em chegando a embebedar-se
de sorte perde os sentidos.
que deixa a mulher em couros,
e traz os filhos famintos:
Mas a sua concubina
há de andar como um palmito,
para cujo efeito empenham
as botas com seus atilhos.
Elas por não se ocuparem
com costuras, nem com bilros,
antes de chegar aos doze
vendem o signo de Virgo.
Ouço dizer vulgarmente
(não sei, é certo este dito)
que fazem pouco reparo
em ser caro, ou baratinho.
O que sei é, que em magotes
de duas, três, quatro, cinco
as vejo todas as noites
sair de seus esconderijos
E como há tal abundância
desta fruita no meu sítio,
para ver se há, quem as compre,
dão pelas ruas mil giros.
E é para sentir, o quanto
se dá Deus por ofendido
não só por este pecado,
mas pelos seus conjuntivos:
como são cantigas torpes,
bailes, e toques lascivos,
venturas, e fervedouros,
pau de forca, e pucarinhos.
Quero entregar ao silêncio
outros excessos malditos,
como do Pai carumbá,
Ambrósio, e outros pretinhos.
Com os quais estas formosas
vão fazer infames brincos
governados por aqueles,
que as trazem num cabrestinho.
PRECEITO 7
Já pelo sétimo entrando
sem alterar o tonilho,
digo, que quantos o tocam
sempre o tiveram por crítico
Eu sou, a que mais padeço
de seus efeitos malignos,
porque todos meus desdouros
pelo sétimo têm vindo.
Não falo (como lá dizem)
ao ar, ou libere dicto,
pois diz o mundo loquaz,
que encubro mil latrocínios
Se é verdade, eu o não sei,
pois acho implicância nisto
porque o furtar tem dous verbos
um furor, outro surrípio.
Eu não vejo cortar bolsas,
nem sair pelos caminhos,
como fazem nas mais partes
salvo alguns negros fugidos.
Vejo, que a forca, ou picota
paga os altos do vazio,
e que o carrasco não ganha
nem dous réis para cominhos
Vejo, que nos tribunais
há vigilantes Ministros,
e se houvera em mim tal gente
andara à soga em contino.
Porém se disto não há,
com que razão, ou motivo
dizem por aí, que sou
um covil de Latrocínios!
Será por verem, que em mim
é venerado, e querido
Santo Unhate, irmão de Caco,
porque faz muitos prodígios.
Sem questão deve de ser,
porque este Unhate maldito
faz uns milagres, que eu mesma
não sei, como tenho tino.
Pode haver maior milagre
(ouça bem quem tem ouvidos)
do que chegar um Reinol
de Lisboa, ou lá do Minho
ou degredado por crimes
ou por Moço ao Pai fugido,
ou por não ter que comer
no Lugar, onde é nascido:
E saltando no meu cais
descalço, roto, e despido,
sem trazer mais cabedal,
que piolhos, e assobios:
Apenas se ofrece a Unhate
de guardar seu compromisso,
tomando com devoção
sua regra, e seu bentinho:
Quando umas casas aluga
de preço, e valor subido,
e se põe em tempo breve
com dinheiro, e com navios?
Pode haver maior portento,
nem milagre encarecido,
como de ver um Mazombo
destes cá do meu pavio,
que sem ter eira, nem beira
engenho, ou juro sabido
tem amiga, e joga largo
veste sedas, põe polvilhos?
Donde Ihe vem isto tudo?
Cai do Céu? Tal não afirmo;
ou Santo Unhate Iho dá,
ou do Calvário é prodígio.
Consultam agora os sábios,
que de mim fazem corrilhos
se estou ilesa da culpa,
que me dão sobre este artigo.
Mas não quero repetir
a dor e o pesar, que sinto
por dar mais um passo avante
para o oitavo suplício.
PRECEITO 8
As culpas, que me dão nele,
são, que em tudo o que digo,
me aparto do verdadeiro
com ânimo fementido.
Muito mais é, do que falo,
mas é grande barbarismo,
quererem, que pague a albarda,
o que comete o burrinho.
Se por minha desventura
estou cheia de percitos,
como querem, que haja em mim
fé, verdade, ou falar liso?
Se como atrás declarei,
se oudera cobro nisto,
a verdade aparecera
cruzando os braços comigo.
Mas como dos tribunais
proveito nenhum se há visto,
a mentira está na terra,
a verdade vai fugindo.
O certo é, que os mais deles
têm por gala, e por capricho
não abrir a boca nunca
sem mentir de fito a fito.
Deixar quero os pataratas,
e tornando a meu caminho,
quem quiser mentir o faça,
que me não toca impedi-lo.
PRECEITO 9
Do nono não digo nada,
porque para mim é vidro,
e quem o quiser tocar,
vá com o olho sobreaviso.
Eu bem sei, que também trazem
o meu crédito perdido,
mas valha sem sê-lo ex causa,
ou Ihos ponham seus maridos.
Confesso, que tenho culpas,
porém humilde confio,
mais que em riquezas do mundo,
da virtude num raminho.
PRECEITO 10
Graças a Deus que cheguei
a coroar meus delitos
com o décimo preceito,
no qual tenho delinqüido.
Desejo, que todos amem,
seja pobre, ou seja rico,
e se contentem com a sorte,
que têm, e estão possuindo.
Quero finalmente, que
todos, quantos têm ouvido,
pelas obras, que fizerem,
vão para o Céu direitinhos.
QUEIXAS DA SUA MESMA VERDADE
Quer-me mal esta cidade...................................pela verdade,
Não há, quem me fale, ou veja..........................de inveja,
E se alguém me mostra amor............................é temor.
De maneira, meu Senhor,
que me hão de levar a palma
meus três inimigos d'alma
Verdade, Inveja, e Temor.
Oh quem soubera as mentiras.............................do Milimbiras,
Fora aqui senhor do bolo.................................. como tolo,
E feito tolo, e velhaco........................................fora um caco.
Meteria assim no saco
Servindo, andando e correndo
as ligas, que vão fazendo
Milimbiras, Tolo, e Caco.
Tirara cinzas tiranas............................................das bananas,
Outro se os meus dez réis...................................de pastéis,
E porque isento não fosse...................................até do doce.
Teria assim, com que almoce
o meu amancebamento,
pois lhe basta por sustento
Bananas, Pastéis, e Doce.
Prendas, que a empenhar obrigo..........................pelo amigo,
Dobrar-lhe eu o valor..........................................e primor,
Cobrando em dous bodegões...............................os tostões.
E seus donos asneirões
ao desfazer da moeda
perdem da mesma assentada
Amigo, Primor, Tostões.
Ao jimbo, que se lhe conta........................................boa conta,
E já por amigo vejo...................................................sem ter pejo,
Pois lhe tira de corrida..............................................a medida.
Mas verdadeira, ou mentida
a conta ajustada vem,
sendo um homen, que não tem,
Conta, Pejo, nem Medida.
Dever-me-ão camaradas..........................................mil passadas,
E o triste do companheiro.......................................o dinheiro,
E à conta das minhas brasas.....................................as casas.
Assim lhe empatara as vazas,
pois o mesmo, que eu devia,
por força me deveria
Passadas, Dinheiro, e Casas.
TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA
UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.
Que falta nesta cidade?.....................................Verdade
Que mais por sua desonra.................................Honra
Falta mais que se lhe ponha...............................Vergonha.
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?...............................Negócio
Quem causa tal perdição?...................................Ambição
E o maior desta loucura?....................................Usura.
Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?......................Pretos
Tem outros bens mais maciços?..................................Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos? ........................Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos?.............................Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?..................................Guardas
Quem as tem nos aposentos?..................................Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,
E que justiça a resguarda? ....................................Bastarda
É grátis distribuída?..............................................Vendida
Quem tem, que a todos assusta?............................Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que EL-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
Que vai pela clerezia?..............................................Simonia
E pelo membros da Igreja?.......................................Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?..................................Unha.
Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.
E nos Frades há manqueiras?...................................Freiras
Em que ocupam os serões?......................................Sermões
Não se ocupam em disputas?....................................Putas.
Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.
O açúcar já se acabou?.............................................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?........................................Subiu
Logo já convalesceu?................................................Morreu.
À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.
A Câmara não acode?.............................................Não pode
Pois não tem todo o poder?....................................Não quer
É que o governo convence?...................................Não vence.
Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence,
Fonte: www.cce.ufsc.br
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