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Os Homens Bons

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

Quem não cuida de si, que é terra........................................erra

Que o alto Rei por afamado..................................................amado,

E quem lhe assiste ao desvelado .........................................lado

Da morte ao ar não desaferra................................................aferra.

Quem do mundo a mortal loucura..........................................cura,

A vontade de Deus sagrada..................................................agrada,

Firmar-lhe a vida em atadura.................................................dura.

Ó voz zelosa, que dobrada....................................................brada,

Já sei, que a flor da formosura...............................................usura

Será no fim desta jornada......................................................nada.

CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRAVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS.

Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,

Te lembra hoje Deus por sua Igreja,

De pó te faz espelho, em que se veja

A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,

E como o teu baixel sempre fraqueja

Nos mares da vaidade, onde peleja,

Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta pois, que o vento berra,

E se assopra a vaidade, e incha o pano,

Na proa a terra tens, amaina, e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano

Se busca a salvação, tome hoje terra,

Que a terra de hoje é porto soberano.


CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA
CONTA, E VIDA RELAXADA.



Ai de mim! Se neste intento,

e costume de pecar

a morte me embaraçar

o salvar-me, como intento?

que mau caminho freqüento

para tão estreita conta;

oh que pena, e oh que afronta

será, quando ouvir dizer:

vai, maldito, a padecer,

onde Lucifer te aponta.

Valha-me Deus, que será

desta minha triste vida,

que assim mal logro perdida,

onde, Senhor, parará?

que conta se me fará

lá no fim, onde se apura

o mal, que sempre em mim dura,

o bem, que nunca abracei,

os gozos, que desprezei,

por uma eterna amargura.

Que desculpa posso dar,

quando ao tremendo juízo

for levado de improviso,

e o demônio me acusar?

Como me hei de desculpar

sem remédio, e sem ventura,

se for para aonde dura

o tormento eternamente,

ao que morre impenitente

sem confissão, nem fé pura.

Nome tenho de cristão,

e vivo brutualmente,

comunico a tanta gente

sem ter, quem me dê a mão:

Deus me chama co perdão

por auxílios, e conselhos,

eu ponho-me de joelhos

e mostro-me arrependido;

mas como tudo é fingido,

não me valem aparelhos.

Sempre que vou confessar-me,

digo, que deixo o pecado;

porém torno ao mau estado,

em que é certo o condenar-me:

mas lá está quem há de dar-me

o pago do proceder:

pagarei num vivo arder

de tormentos repetidos

sacrilégios cometidos

contra quem me deu o ser.

Mas se tenho tempo agora,

e Deus me quer perdoar,

que lhe hei de mais esperar,

para quando? ou em qual hora?

que será, quando traidora

a morte me acometer,

e então lugar não tiver

de deixar a ocasião,

na extrema condenação

me hei de vir a subverter.


AO DIA DO JUIZO.

O alegre do dia entristecido,

O silêncio da noite perturbado

O resplandor do sol todo eclipsado,

E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,

Que é de ti mundo? onde tens parado?

Se tudo neste instante está acabado,

Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,

A que a vivos, e mortos traz o aviso

Da desventura de uns, d'outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,

Erga-se o morto, deixe a sepultura,

Porque é chegado o dia do juízo.


A CONCEYÇÃO IMMACULADA DE MARIA SANTISSIMA.



Para Mãe, para Esposa, Templo, e Filha

Decretou a Santíssima Trindade

Lá da sua profunda eternidade

A Maria, a quem fez com maravilha.

E como esta na graça tanto brilha,

No cristal de tão pura claridade

A segunda Pessoa humanidade

Pela culpa de Adão tomar se humilha

Para que foi aceita a tal Menina?

Para emblema do Amor, obra piedosa

Do Padre, Filho, e Pomba essência trina:

É logo conseqüência esta forçosa,

Que Estrela, que fez Deus tão cristalina

Nem por sombras da sombra a mancha goza.

A CONCEYÇÃO IMMACULADA DE MARIA SANTISSINA


Como na cova tenebrosa, e escura,

A quem abriu o Original pecado,

Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;

Podíeis vós cair, ó virgem pura?

Nem Deus, que o bem das almas só procura,

De todo vendo o mundo arruinado,

Permitira a desgraça haver entrado,

Donde havia sair nova ventura.

Nasce a rosa de espinhos coroada

Mas se é pelos espinhos assistida,

Não é pelos espinhos magoada.

Bela Rosa, ó virgem esclarecida!

Se entre a culpa se vê, fostes criada,

Pela culpa não fosse ofendida.


AO MESMO ASSUMPTO.

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora, estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa, que foi depois,

nascer, Virgem, comprendida

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fostes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

para Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

Louvem-vos os serafins,

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

0 Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu. estrelas, lua, e sol.

A N. SENHORA DO ROSARIO.

A Rainha celestial,

venceu o seu contrário,

nosso pobre cabedal

hoje do Santo Rosário

lhe faz um arco triunfal.

O arco é de paz, e guerra,

com que sempre há de triunfar,

e tal virtude em si encerra,

que por ele hei de chegar

ao alto céu desde a terra.

Este é o arco dos céus,

que sobre as nuvens se vê,

dado para nós por Deus,

por cujo meio com fé

teremos grandes troféus.

Porque o rosário rezado

quando a alma em graça está,

é sinal, que Deus tem dado,

de que não me afogará

no dilúvio do pecado.

Este é o arco triunfal,

por onde a alma gloriosa

livre do corpo mortal

vai aos céus a ser esposa

do Príncipe celestial.

Tem o homem seu contrário

dentro em sua mesma terra,

que lhe vence de Ordinário,

e a Virgem por esta guerra

dá-lhes as contas do Rosário.

Esta é boa artilharia

para o justo, e pecador,

tirai a alma em pontaria

co fogo do vosso amor,

e co'as balas de Maria.

Toda alma, que fizer conta

de si, e sua salvação,

ouça, o que a Virgem lhe aponta:

suba, que em sua oração

será degrau cada conta.


AS LAGRIMAS QUE SE DIZ, CHOROU N. SENHORA DE MONSARRATE.


Temor de um dano, de uma oferta indício

Pronta em divina Origem desatado,

Que tendo por horrível ao pecado

Sois a Deus agradável sacrifício.

Esperança da fé, terror do vício,

Enigma em dois assuntos decifrado,

Que pareceis castigo ameaçado

E sois executado benefício.

Duas cousas qualquer delas possível

Tendes, ó pranto, para ser forçoso,

e envolveis o prodígio para crível.

Tendo um motivo ingrato, outro piedoso,

Um na minha dureza aborrecível,

Outro no vosso amparo generoso.

A S. FRANCISCO TOMANDO O POETA O HABITO DE TERCEYRO.

Ó magno serafim, que a Deus voaste

Com asas de humildade, e paciência,

E absorto já nessa divina essência

Logras o eterno bem, a que aspiraste:

Pois o caminho aberto nos deixaste,

Para alcançar de Deus também clemência

Na ordem singular de penitência

Destes Filhos Terceiros, que criaste.

A Filhos, como Pai, olha queridos,

E intercede por nós, Francisco Santo,

Para que te sigamos, e imitemos.

E assim desse teu hábito vestidos

Na terra blasonemos de bem tanto,

E depois para o Céu juntos voemos.

AO GLORIOSO PORTUGUEZ SANTO ANTONIO


MOTE



Deus, que é vosso amigo d'alma,
na palma se vos vem pôr,
para mostrar, que de amor
só vós levastes a palma. Quando o livrinho perdestes

lá na mata do botão,

Antônio, grande aflição

dentro em vossa alma tivestes:

e se da dor, que vencestes

levastes vitória, e palma,

bem se colhe, que em tal calma

tal dor, e tal agonia

só aliviar-vos podia

Deus, que é vosso amigo d'alma.

Fez-vos Deus nessa ocasião

visita bem lisonjeira,

e por não puxar cadeira,

se sentou na vossa mão:

foi larga a conversação,

que o assunto foi de amor,

e porque um Frade menor,

(sendo menor que o Menino)

era de tal palma digno,

Na palma se vos vem pôr.

Convosco o Menino então

um jogo, Antônio, jogou:

ele a palma vos ganhou,

mas vós ganhastes por mão:

não jogou entonces não

com o seu Servo o Senhor

para mostrar, que o favor

nasceu da ociosidade,

senão por mais majestade

Para mostrar, que de amor.

Mostrou, que em quererdes bem

a um Deus, a quem imitastes,

não só premissas pagastes,

mas os dízimos também:

e por deixar em refém

deste amor a mais pura alma,

pois todas deixais em calma,

cantam os coros celestes,

que porque a palma a Deus destes

Só vos levastes a palma.

AO MESMO ASSUMPTO.


MOTE

Qual dos dois terá mor gosto,

Antônio em braços com Cristo,

ou Cristo em seus braços posto?


Gosta Cristo de mostrar

que é de Antônio amante fino,

por isso se faz menino,

para em seus braços estar:

mas quem poderá falar,

quando está de rosto a rosto

Cristo com Antônio posto,

Antônio com Cristo em braços

em tão amorosos laços

Qual dos dois terá mor gosto?

Mas sendo Cristo o que vem

para em seus braços se ver,

com razão se há de dizer,

que Cristo mor gosto tem:

mas se ainda houver alguém,

que duvide assim ser isto,

em seus braços bem se há visto

Cristo, porque quis mostrar,

que somente pode estar

Antônio em braços com Cristo.

Foi tão raro, e peregrino

este Santo Lusitano,

que mereceu, sendo humano,

adorações de divino:

finalmente foi tão digno

de excelências, que em seu rosto

realça de Cristo o gosto:

pois onde Cristo estiver,

logo Antônio se há de ver,

Ou Cristo em seus braços posto.

AO MESMO QUE LHE DERAM A GLOZAR.


MOTE

Bêbado está Santo Antônio


Entrou um bêbado um dia

pelo templo sacrossanto

do nosso Português Santo,

e para o Santo investia:

a gente, que ali assistia,

cuidando, tinha o demônio,

lhe acudiu a tempo idôneo,

gritando-lhe todos, tá,

tem mão, olha, que acolá,

Bêbado, está Santo Antônio.

A CANONIZAÇÃO DO BEATO STANISLAO KOSCA.

Na conceição o sangue esclarecido,

No nascimento a graça, consumada,

Na vida a perfeição mais regulada,

E na morte o triunfo mais devido.

O sangue mal na Europa competido,

A graça nas ações sempre admirada,

A profissão no breve confirmada,

O triunfo no eterno merecido.

Tudo se vincula ao ser profundo

De Estanislau, que a glória do seu norte

Foi ser portento ao céu, prodígio ao mundo.

Por isso teve a fama de tal sorte,

Que o fazem nela unidos sem segundo

Conceição, Nascimento, Vida, e Morte.

SOLILOQUIO DE Me. VIOLANTE DO CEO AO DIVINISSIMO
SACRAMENTO: GLOZADO PELO POETA,
PARA TESTEMUNHO DE SUA DEVOÇÃO, E CREDITO
DA VENERAVEL RELIGIOSA.


MOTE


Soberano Rei da Glória,
que nesse doce sustento
sendo todo entendimento
quisestes ficar memória.


Numa cruz vos exaltastes,

meu Deus, para padecer,

e nas ânsias de morrer

ao Eterno Pai clamastes:

sangue com água brotastes

do lado para memória,

e como consta da História,

quisestes morrer constante

por serdes tão fino amante,

Soberano Rei da Glória.

Se na glória, em que reinais,

amante vos concedeis

bem mostrais, no que fazeis,

que extremosamente amais:

mas se em pão vos disfarçais,

dando-vos por alimento,

pergunta o entendimento,

onde assistis com mais luz?

mas direis, doce Jesus

Que nesse doce sustento.

Sabendo enfim, que morríeis,

amante vos entregastes,

e no Horto, quando orastes

ânsias de morte sentíeis:

já, divino Amor, sabíeis,

da vossa morte o tormento,

e já desde o nascimento

todo o saber comprendestes,

porque, Senhor, já nascestes

Sendo todo entendimento.

Vivas lembranças deixastes

da vossa morte, Senhor,

e para maior amor

mesmo em lembrança ficastes:

numa ceia apresentastes

vosso corpo em tanta glória,

que para contar a história

da vossa morte, e tormento,

no divino Sacramento

Quisestes ficar memória.


MOTE


Sol, que estando abreviado
nesse cândido Oriente,
abonais o mais ardente,
ostentando o mais nevado.
Sendo Sol, que dominais

dos céus a máquina fera,

em tão limitada esfera,

como esse Sol ostentais?

creio, que a entender nos dais,

meu Redentor extremado,

que em lugar tão limitado

só o amor caber se atreve

como num círculo breve

Sol, que estando abreviado

Bem nesse lugar tão breve

vemos com tanto arrebol

abrasar-se tanto sol

nos epiciclos da neve:

muito a vosso amor se deve,

pois como Sol no nascente

pelo cristal transparente

divinamente ilustrais,

e todo vos abrasais

Nesse cândido Oriente.

Todo neve na brancura,

todo sol, no que brilhais,

como sol nos abrasais,

sendo neve na frescura:

mas tanto o divino apura

no cristal o transparente,

que ali fazendo patente

o quanto estais empenhado,

de fino amor abrasado

Abonais o mais ardente.

Nascem desempenhos tais

desses divinos primores,

que em requintados amores

todo a nós nos dedicais:

mas bem que vos empenhais,

vejo-vos mui bem trajado

nessa gala de encarnado,

que tomastes de Maria,

agora por bizarria

Ostentando o mais nevado.

MOTE

Emblema de amor mais puro,
enigna de amor mais raro,
que sendo à vista tão claro,
sois também à vista escuro.


Depois de crucificado

vos admirei, bom Senhor,

fino retrato do amor,

quando vos vi retratado:

então de um iluminado

sanguinosamente escuro,

se bem que estou mui seguro

das finezas do Calvário,

vos contemplei no sudário

Emblema de amor mais puro

E suposto o pensamento

se pasma do escuro enigma,

mais o mistério sublima

vendo-vos no Sacramento:

ali meu entendimento

conhecendo-vos tão claro,

melhor esforça o reparo

de que estais tão luzido,

quando melhor comprendido

Enigma de amor mais raro

Que no Sacramento estais

todo, e toda a divindade,

conheço com realidade,

suposto que o disfarçais:

para que vos ocultais

nesse mistério tão raro,

se a maravilha reparo,

penetrando-vos atento,

mais claroao entendimento,

Que sendo à vista tão claro?

Que se de neve coberto

fica o divino admirado,

bem se pode um disfarçado

conhecer melhor ao perto:

porém vós andais tão certo,

e tanto em recatos puro,

que se ver-vos me asseguro

nesse disfarce, em que andais,

inda que patente estais,

Sois também à vista escuro.

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