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Os Homens Bons

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

MOTE

Agora que entre candores
a vosso amor dais a palma,
escutai, Senhor, uma alma,
que por vós morre de amores. Todo amante, e todo digno

vos veio estar neste trono,

prestando ao amor de abono

quilates do ardor mais fino:

porém, Senhor, se contino

abrasado estais de amores,

entre tantos resplandores,

que por fineza ocultais,

vede, que nos abrasais

Agora, que entre candores.

De amor tão qualificado

digo, ó cordeiro bendito,

que vos aclame infinito

tanto espírito elevado:

que eu vos não louvo ajustado,

bem que supra afetos d'alma,

pois meu amor nesta calma,

sendo do vosso vencido,

reconheço, que subido

A vosso amor dais a palma.

Mas por amor tão subido

ouvi, como tenro amante,

este pecador constante,

que se chega arrependido:

seja de vós admitido

o pranto, em que se desalma

para crédito da palma,

que dais a vossos amores,

dos humildes pecadores

Escutai, Senhor, uma alma.

Ouvi desta alma humilhada,

Senhor, um fraco conceito,

e é, que entreis em meu peito

a fazer vossa morada:

achareis de boa entrada

tormentos, ânsias, e dores,

que deram os malfeitores

em toda a vossa paixão,

e vereis um coração,

Que por vós morre de amores.

MOTE

Escutai vossos efeitos
em grosseiras humildades
que para vós as verdades
têm mais valor, que os conceitos.


Já sei, meu Senhor, que vivo

depois que em meu peito entrastes,

porque logo me deixastes

ardendo em um fogo ativo:

agora tenho motivo

para melhorar conceitos,

quando dos vossos respeitos

palpita meu peito o ardor,

e para ver vosso amor

Escutai vossos efeitos

Mas se o infinito ardor

pode atalhar, quanto diga,

sempre o meu termo periga

nas eloqüências de amor:

cale-se a língua melhor

em tantas dificuldades,

vos intenta ponderar,

mil erros lhe haveis de achar

Em grosseiras humildades.

Quem, Senhor, na confissão

andara tão acertado,

que do mais leve pecado

soubera ter contrição:

que de todo o coração

com assaz de realidades

sentira essas propriedades

confessando, o que mandais,

pois sei, que não quereis mais

Que para vós as verdades.

Bem advertido, Senhor,

estou, que sois lince vós,

e que penetrais em nós

os movimentos de amor:

tanto conheceis a dor,

que temos em nossos peitos,

que sendo de amor efeitos

os verdadeiros sinais,

convosco verdades tais

Têm mais valor, que os conceitos.

MOTE

Exercite os mais subidos,
quem busca humanos agrados,
que sempre são levantados,
os que são de vós ouvidos.


Oh quem tivera empregados

em vós, meu Amor divino,

cuidados, que de contino

se multiplicam cuidados:

fazei, que a vós levantados

se acreditem de luzidos

pensamentos, que abatidos

seguem do mundo os enganos,

e que deixando os humanos,

Exercite os mais subidos.

Quem conquistando, Senhor,

vosso amor, perdera a vida,

porque a dá por bem perdida

quem a perde em vosso amor!

Se eu, terníssimo Pastor,

acudira a vossos brados,

então sim, que os meus cuidados

coroara de alta dita,

já que fino se acredita

Quem busca humanos agrados.

Porque aqueles, que vos amam,

e em tais delícias se enlevam,

o prêmio consigo levam,

e filhos vossos se aclamam:

que como no amor se inflamam,

os que são vossos amados,

sendo já purificados

por filhos do vosso amor,

quem há de negar, Senhor,

Que sempre são levantados?

Quem de contino a bradar

por vós no maior rigor

nas enchentes desse amor

não acha de graça um mar?

quero com ânsias mostrar

a dor, a pena, os gemidos;

pois sendo a vós repetidos,

serão de vós bem lembrados,

que são bem-aventurados

Os que são de vós ouvidos.

MOTE

Ai Senhor, quem alcançara
um bem tão alto, e divino,
que de meus ais o contino
a tais ouvidos chegara!

Ai meu Deus, quem merecera
trazer-vos tão dentro d'alma,

que abrasado em viva calma

do vosso amor falecera!

Ai Senhor, quem padecera

por vós, e só vos amara!

ai quem por vós desprezara

tanta enganosa ruína,

e vossa graça divina

Ai Senhor, quem alcançara.

Ai quem fora tão ditoso,

que soubera bem amar-vos,

e na ação de conquistar-vos

rejeitara o mais custoso!

quem, Senhor, tão sequioso

todo amante, e todo fino

elevara o seu destino

a beber da fonte clara,

que desta sorte lograra,

Um bem tão alto, e divino.

Quem disposto a padecer

por vós buscara os retiros.

onde com ais, e suspiros

soubera por vós morrer!

quem sabendo comprender

desse vosso amor o fino

se elevara peregrino

por um amor de tal porte,

que me dera a melhor sorte,

Que de meus ais o contino!

Só então fora feliz,

e fora então venturoso,

se conhecera ditoso,

que meus suspiros ouvis:

se minha dor admitis,

ditoso então me chamara;

oh se de uma dor tão rara

ouvísseis um só gernido,

e se um ai enternecido

A tais ouvidos chegara!

MOTE

Porém justamente espera
cada qual chegar-vos logo,
porque a suspiros de fogo
nunca nos negais esfera.


Esta alma, meu Redentor,

que vos busca peregrina,

por vossa grasa divina

suspira em contlnua dor:

diz, e protesta, Senhor,

que se mil vidas tivera,

todas por vós as perdera,

e não só não se embaraça

no pedir da vossa graça,

Porém justamente espera.

Espera, e não estranheis

o confiar de um preverso,

que pertende já converso,

que a todos, Senhor, salveis:

peço-vos, que nos livreis

desse dilúvio de fogo;

ouvi por todos meu rogo,

inda que vos não compete,

que todos juntos, promete

Cada qual chegar-vos logo.

Porque se abrasado o peito

vosso amor está chamando,

não é muito, que chorando

seja cada qual desfeito:

bem posso formar conceito

desta causa, Senhor, logo,

pois vós ouvistes meu rogo,

e atendeis à minha mágoa,

porque vós venceis com água

Porque a suspiros de fogo.

Arde meu peito em calor,

se bem estou anelando,

quando me estou abrasando

em tanto fogo de amor:

se se realça o ardor,

que um peito amante verbera

quem o favor não espera

de tanto carinho ao rogo,

se a chamas de ativo fogo

Nunca vos negais esfera?

MOTE

Ai meu bem! ai meu Esposo!
ai Senhor Sacramentado!
que mal pode o disfarçado
ocultar o poderoso.


Ai meu Deus, que já não sei

vendo, que vos ausentais,

dizer, como me deixais

neste abismo, em que fiquei

ai Senhor! e que farei

para alcançar venturoso,

o que por menos ditoso

perdi, ou talvez de indigno:

ai meu Redentor divino!

Ai meu bem! ai meu Esposo

Ai Senhor, que me deixais

nesta dura soledade

morto na realidade,

bem que vivo me vejais:

mistérios de amor guardais,

porque estais inda encerrado

em dar-me a vida empenhado,

e do vosso amor a palma:

ai amante da minha alma!

Ai Senhor Sacramentado!

Se nos disfarces metido

roubar as almas quereis,

que importa, vos disfarceis,

ficando à vista o vestido?

mas de que (já conhecido

pelo vestido encarnado)

vos importa o rebuçado:

pois conhecido o poder,

tanta luz escurecer

Que mal pode o disfarçado.

Diáfano, e transparente

esse cristal puro, e fino

com resguardar o divino

declara o onipotente:

tanto nele permanente

está sempre o majestoso,

que então brilha mais lustroso

pelas veias do cristal,

e oculta instrumento tal

Ocultar o poderoso.

MOTE


Ai que bem se deixa ver
nessa Hóstia, Rei Supremo,
que quanto é maior o extremo,
tanto é maior o poder.


Cuidei que não permitisse

vosso poder sublimado,

que estando assim disfarçado,

tão claramente vos visse:

mas porque bem arguísse,

qual seja o vosso poder,

breve cheguei a colher

pelo cristal transparente,

o que em vós como acidente

Ai que bem se deixa ver!

Bendito seja, e louvado,

pelo que tem de amoroso,

um Deus, que é tão poderoso,

um Senhor tão sublimado:

deixar de ser exaltado

poder tão grande, não temo,

pois se vê de extremo a extremo,

que a grandeza, que se sabe

cabendo em vós, toda cabe

Nessa Hóstia, Rei Supremo.

Exaltada a Majestade

seja de um Rei tão divino,

e louvada de contino

tão suprema divindade:

porque, Senhor, na verdade

dessas profundezas temo,

quando a razão, Rei Supremo,

responde à minha rudeza

(sobre o subir da grandeza)

Que quanto é maior o extremo.

E colhida a admiração

no Sacramento está visto

quando Pão, ser todo Cristo

quando Cristo, todo Pão

unido na Encarnação

ao divino e humano ser

e sendo imortal morrer

um Deus, que tanto se humilha

sendo grande a maravilha

Tanto é maior o poder

MOTE


Porque, quem em pão se encerra
Ser divino, e Ser humano,
que muito que soberano
fabricasse o céu, e a terra. Se no pão vos disfarçais,

por cobrir vossa grandeza,

já do pão na natureza

toda a grandeza expressais.

melhor no pão publicais

o poder a toda a terra,

pasme o mar, e trema a serra,

e reconheça o percito,

que o Pão é Deus infinito;

Porque quem em pão se encerra?

Neste Pão sacramentado,

que dos Anjos é sustento,

têm as almas grande alento

por meio de um só bocado:

perdoa a todo o pecado

por mais torpe, e desumano,

e eu me confesso tirano,

porque me não arrependo

se estou no Pão conhecendo

Ser divino, e ser humano.

Na Ceia se apresentou

o Senhor com realidade,

neste Pão da divindade,

que a todos sacramentou:

se a cada um transformou,

passando a divino o humano

que muito, que o desumano

pecador já convertido

seja aos Anjos preferido?

Que muito, que soberano?

Quem assim o permitiu

com tão alta onipotência,

que o pó da suma indigência

sobre as esferas subiu:

quem este pó preferiu

à luz, que luzes desterra,

que muito a contrária guerra

pacifique aos elementos?

que muito, que a seus intentos

Fabricasse o Céu, e a terra?

MOTE

Que muito, que vivo alento
desse a um barro insensível
um Deus, que lhe foi possível
dar-se a si mesmo em sustento.

De um barro frágil, e vil,

Senhor, o homem formastes,

cuja obra exagerastes

por engenhosa, e sutil:

graças vos dou mil a mil,

pois em conhecido aumento

tem meu ser o fundamento

na razão, em que se estriba,

se lhe infundis alma viva,

Que muito, que vivo alento.

Depois de feita a escultura,

e por um Deus acabada,

obra não houve extremada

como a humana criatura:

ali para mais ventura

(sendo o barro assaz terrível)

alma lhe deu infalível,

e me admira ver, que aquela

alma, que ali fez tão bela

Desse a um barro insensível.

Possível lhe foi fazer

este Arquiteto divino

participando do Trino

aquela alma a seu prazer:

para mais se engrandecer

engrandeceu o insensível,

desatando-se passível

daquele sagrado nó,

que apertava três, e só

Um Deus, que lhe foi possível.

Foi grandeza do poder

aquele querer mostrar

sendo divino encarnar

para humano vir nascer:

e foi grandeza o morrer

um Deus, que é todo portento;

e se bem no Sacramento

se adverte grande fineza,

de seu poder foi grandeza

Dar-se a si mesmo em sustento.

MOTE


Ó divina Onipotência!
Ó divina Majestade!
que sendo Deus na verdade
sois também Pão na aparência.

Já requintada a fineza

Nesse Pão sacramentado

temos, Senhor, ponderado

vossa inaudita grandeza:

mas o que apura a pureza

da vossa magnificência

é, quererdes, que uma ausência

não padeça, quem deixais,

pois que partindo ficais,

Ó divina Onipotência.

Permiti por vossa cruz,

por vossa morte, e paixão,

que entrem no meu coração

os raios da vossa luz:

clementíssimo Jesus

sol de imensa claridade,

sem vós a mesma verdade,

com que vos amo, periga;

guiai-me, porque vos siga,

Ó divina Majestade.

Na verdade esclarecida

do vosso trono celeste

toda a potência terrestre

de comprender-vos duvida:

porém na forma rendida

de um cordeiro a Majestade

aos olhos da humanidade

melhor a potência informa,

sendo cordeiro na forma,

Que sendo Deus na verdade.

Cá neste trono de neve,

onde humanado vos vejo,

melhor aspira o desejo,

melhor a vista se atreve:

aqui sabe, o que vos deve

(vencendo a maior ciência)

amor, cuja alta potência

adverte nesse distrito,

que sendo Deus infinito,

Sois também Pão na aparência.

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