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Os Homens Bons

Gregório de Matos

( Crônica do Viver Baiano Seiscentista )

MOTE

Ó Soberana Comida!
Ó maravilha excelente!
pois em vós é acidente,
o que em mim eterna vida.
À mesa do Sacramento

cheguei, e vendo a grandeza

admirei tanta beleza,

dei graças de tal portento:

com santo conhecimento

só então folguci ter vida,

pois vendo-a convosco unida

na flama de tanta calma

disse (recebendo-a n'alma)

Ó Soberana Comida!

Naquela mesa admirando

anda a graça tanto a rodo,

que dando-se a todos, todo

vos estais comunicando:

e de tal modo exaltando

vosso ser onipotente,

que quando estais tão patente

nessa nevada pastilha,

vos louvam por maravilha,

Ó maravilha excelente!

Como num excelso trono

realmente verdadeiro,

na Hóstia estais todo inteiro,

Senhor, por maior abono:

se por ser das almas dono

vos empenhais tão patente,

hei de apelidar contente

com a voz ao céu subida,

que esse Pão me seja vida,

Pois em vós é acidente.

Neste excesso do poder

só podia o majestoso

obrar ali de amoroso,

o que chegou a emprender:

eu, que venho a merecer

lograr a Deus por comida,

tenho por cousa sabida

neste excesso do Senhor

serem delíquios do amor,

O que em mim eterna vida.

MOTE


Ó poder sempre infinito,
que o céu admira suspenso,
pois se encerra um Deus imenso
em tão pequeno distrito.
Três vezes grande, Senhor,

o mesmo céu nos publica,

e este louvor multiplica

com repetido clamor:

não cessa o santo louvor,

porque não cessando o grito

de tanto elevado esprito,

isso mesmo é propriedade,

que defende a majestade

O poder sempre infinito.

Quem chegar a compreender

essa grande imensidade,

há de pasmar na verdade

reconhecido o poder:

porém eu hei de dizer,

que nesse globo in extenso

vejo aquele sol imenso,

que tantos pasmos conduz,

vejo aquela imensa luz,

que o Céu admira suspenso.

Tal a meus olhos exposto

vos vejo no Sacramento.

que supre esse entendimento

os delírios do meu gosto:

porém se encobris o rosto,

já desanimo suspenso,

e vós sabeis por extenso

da águia, que se vos aplica,

qual se desmaia, e qual fica,

Pois se encerra um Deus imenso.

Quando em partes dividido

vos creio nas partes todo,

e vos vejo em raro modo

todo nas partes unido:

e de empenho tão subido

a inteligência repito,

pois me informa o infinito,

que estar pode na verdade

do Céu toda a majestade

Em tão pequeno distrito.


MOTE

 

Com razão, divina neve,
a vós se prostram coroas,
pois inclue três pessoas
a partícula mais breve.

Sol de justiça divino

sois, Amor onipotente,

porque estais continuamente

no luzimento mais fino:

porém, Senhor, se o contino

resplandecer se vos deve,

fazendo um reparo breve

desse sol no luzimento,

sois sol, mas no Sacramento

Com razão divina neve.

Só em vós, meu Redentor,

S tanta grandeza se encerra:

porque dos céus, e da terra

sois absoluto Senhor:

da terra o poder maior

um tempo em ardentes loas

humilharam três pessoas,

prostrando-se ao vosso pé

bem advertidos, de que

A vós se prostram coroas.

Mas porém se o disfarçado

não diminui o valor,

como ocupais, meu Senhor,

um lugar tão limitado?

de maior porém penhado

nos dais advertências boas;

mas convencendo as coroas,

mostrais ao peito arrogante

que esse lugar é bastante,

Pois inclue três pessoas.

A maravilha maior,

que causa o vosso portento,

é, que estais no Sacramento

todo em partes por amor:

porém se o maior valor

ao mais humilde se deve,

e so quem menos se atreve,

esse voz goza, e vos prende,

com razão vos compreende

A partícula mais breve.

MOTE

 

Ora quereis doce Esposo,
quereis, luz dos meus sentidos,
que fiquemos sempre unidos
em um vínculo amoroso?


Agora, Senhor, espero,

que consintais, no que digo;

quereis vós ficar comigo,

que eu partir convosco quero?

que o permitais considero

fazendo-me a mim ditoso,

pois vos prezais de amoroso:

já quero as entranhas dar-vos,

e vede se assim tratar-vos,

Ora quereis, doce Esposo.

Já, Senhor, seguir-vos posso,

pois vosso amor me rendeu,

ser todo vosso, e não meu,

nada meu, e todo vosso:

permiti como Pai nosso,

não andemos divididos,

mas antes que muito unidos

estejamos entre nós,

porque eu já quero, o que vós

Quereis, luz dos meus sentidos.

Façamos, Senhor, um laço

entre nós tão apertado,

que de vós mais apartado

não possa mudar um passo:

porque com este embaraço

andemos tão prevenidos,

que não ousem meus sentidos

sair de vossos cuidados,

e de tal sorte ajustados,

Que fiquemos sempre unidos.

Seja pois este querer-nos

de tal sorte requintado,

que fique todo admirado,

quem assim chegar a ver-nos:

onde possa conhecer-nos

o mundo de curioso

me inveje pelo ditoso,

vendo, que comigo amante

vos ajustais mui constante

em um vínculo amoroso

MOTE

Levantai minha humildade
humilhai vossa grandeza,
porque em vós seja fineza,
o que em mim felicidade. Não é minha voz ousada

a pedir-vos mas prossigo,

que quoirais estar comigo,

inda que, Senhor, sou nada:

e se minha alma ilustrada

quereis, que fique em verdade,

pois que sem dificuldade

me podeis engrandecer,

ao auge do vosso ser

Levantai minha humildade.

Tenho, Senhor, no sentido

para duvidar de ousado,

que mal pode o desairado

pertender o esclarecido:

de minhas culpas tolhido

na abominável torpeza,

vendo em vós tanta beleza,

mal posso, Senhor, chegar-vos,

e para poder lograr-vos

Humilhai vossa grandeza.

Fazei por mim, meu Senhor,

tudo quanto possa ser,

e pois tendes tal poder

me podeis dar vosso amor:

uni o vosso valor

com a minha singeleza,

e fique a vossa grandeza

unida, Senhor, comigo;

fazei isto, que vos digo,

Porque em vós seja fineza.

Vosso corpo por inteiro

introduzi no meu peito,

porque assim ficarei feito

um sacrário verdadeiro:

ostentai, manso cordeiro,

com a minha indignidade

vossa grande Majestade,

suposto que o não mereça,

porque traça em vós pareça

O que em mim felicidade.

MOTE

Uni meu sujeito indigno
a esse objeto soberano,
fareis do divino humano,
fareis do humano divino. Mostrai, Senhor, a grandeza

de tão imenso poder,

unindo este baixo ser

a tão suprema beleza:

uni, Senhor, com firmeza

a este barro nada fino

o vosso ser tão divino,

ligai-vos comigo amante,

convosco em laço constante

Uni meu sujeito indigno.

Fazei, Senhor, com que fique

desta união tal memória,

que tão peregrina história

a vosso amor se dedique:

justo será, que publique

em seu pergaminho lhano

vossa glória o peito humano,

e que o mundo suspendido

vejo um pecador unido

A esse objeto soberano.

Como da vossa grandeza

não há mais onde subir,

será realce o vestir as túnicas da vileza:

muito o vosso amor se preza

de abater o soberano;

serei eu o Publicano

indigno do vosso amor:

vinde a meu peito, Senhor,

Fareis do divino humano.

Fareis humanado em mim

créditos à divindade,

porque o vosso incêndio há de

transformar-me em serafim:

fareis deste barro enfim

frágua de incêndio mais digno,

fareis do grosseiro o fino,

que isso é glória do saber

e por timbre do poder

Fareis do humano divino.

MOTE


Ai quem tal bem merecera!
que de vós não se apartara!
ai quem melhor vos amara!
ai quem só em vós vivera!


Ai quem bem considerara

na glória só de vos ver,

que abrasado em seu querer

salamandra vos buscara!

ai quem tanto vos amara,

que tudo por vós perdera!

ai quem por vós padecera!

ai quem já pudera ver-vos!

ai quem soubera queter-vos!

Ai quem tal bem merecera!

Quem bem convosco se unira,

meu Senhor, e por tal arte,

que juntos em qualquer parte

um, e outro amor se vira!

quem tanto bem conseguira,

e quem tanto vos amara,

que um instante não deixara

de assistir-vos cuidadoso!

e quem fora tão ditoso

Que de vós não se apartara!

Ai quem soubera adorar-vos

de tal sorte, meu Senhor,

que deixara o próprio amor

nas pertendências de amar-vos!

quem, a alma querendo dar-vos,

o coração não deixara,

que desse modo lograra

a glória, Senhor, de ver-vos!

ai quem soubera querer-vos!

Ai quem melhor vos amara!

Quem morto se imaginara

nas glórias da humana vida!

vida em bonanças perdida,

vida, que a morte prepara:

ai quem tão só vos buscara,

que para o mundo morrera!

quem por ganhar-vos perdera

todas as glórias do mundo!

ai quem morrera ao imundo!

Ai quem só em vós vivera!

MOTE

Ai quem soubera querer-vos!
ai quem soubera agradar-vos!
ai quem soubera explicar-vos!
quanto anela o bem de ver-vos.


Quem fora tão fino amante,

que mostrara a seu objeto

bem nas entranhas do afeto

prendas do amor palpitante:

quem nessa pira flamante

purificara o temer-vos!

ai quem temera ofender-vos

só por amor de agradar-vos!

ai quem soubera pagar-vos!

Ai quem soubera querer-vos!

Quem submergido na pena

prantos a mares vertera,

que outro Pedro parecera,

ou qual outra Madalena!

mas se contudo é pequena

para em justiça obrigar-vos

ai quem no rumo de amar-vos,

que de outro amor me desterra,

fora cos olhos na terra!

Ai quem soubera agradar-vos!

Se a vossa divina mão,

amantíssimo Pai nosso,

(como a de Tomé o vosso)

palpara o meu coração:

ai que delícias então

sentira a razão de amar-vos!

ai quem pudera mostrar-vos

o fino do meu amor!

e as circunstâncias da dor

Ai quem soubera explicar-vos!

Entrai, Senhor, no meu peito,

onde ao ver-vos retratado

causa sereis, meu amado,

inseparável do efeito:

entrai, que sois bem aceito,

pelo que sei já querer-vos,

e se dentro chego a ter-vos

desta minha indignidade

haveis de ver na verdade,

Quanto anela o bem de ver-vos.

MOTE


Mas se sois lince divino,
que o mais oculto estais vendo:
se estais, luz minha, sabendo
o mesmo, que eu imagino.


Bem sei, meu amado objeto,

fazendo um breve conceito,

que penetrais do meu peito

o mais oculto, e secreto:

bem vê meu constante afeto

da vossa potência o fino,

porque neste vidro indigno

raiando desse Oriente,

se sois sol, não só persente,

Mas se sois lince divino.

Deixo à parte haver gerado

vosso justo entendimento

os astros, o firmamento,

e todo o demais criado:

e fico como elevado

no poder, a que me rendo,

admirando: porém vendo

vossa grandeza, e poder,

quando chego a comprender,

Que o mais oculto estais vendo.

Quando isento o pensamento

de toda a minha maldade,

vós lá dessa imensidade

vedes também meu intento:

se um oculto movimento

patente, e claro estais vendo,

fico por fé conhecendo

desse poder penetrante,

que não obsta estar distante,

Se estais, luz minha, sabendo.

E posto encubrais o rosto

no acidental Sacramento,

mui bem vedes meu intento,

pois a tudo estais exposto:

muda a língua, e fixo o gosto

em vós, meu lince divino,

já reconheço, que o fino

deste arnor penetrareis,

porque, Senhor, bem sabeis

O mesmo, que eu imagino.

MOTE


Que importa, que meus cuidados
não sejam bem referidos,
se para serem sabidos
não dependem de explicados. Se todo a vós me dedico,
quando todo a mim vos dais,

porque vós em mim ficais,

eu também em vós me fico:

vosso querer justifico,

tendo em vós assegurados

afetos tão requintados;

e se amor é compaixão,

a culpa, meu coração,

que importa? que? meus cuidados.

Deus amado, e Deus amante,

oh quem trouxera ajustados

seus amorosos cuidados,

que sem vós nem um instante!

mas pois que o mundo inconstante

perturba amantes sentidos,

valham ardentes gemidos

de afetos interiores

pelo instante, em que os amores

não sejam bem referidos.

Fazei, que eu logre a vitória

de uns atrevidos cuidados,

que quando quero explicados

perturbam minha memória:

oh se me alcançara a glória

de ter estes atrevidos

na confissão oprimidos,

onde não posso explicar,

se os conduzo a castigar,

Se para serem sabidos.

Sempre nesta explicação

de meus cuidados secretos

quero mostrar uns afetos

de anelante coração:

vaidosa demonstração

de amores mal informados

que repetir meus cuidados

é nescedade de amor,

quando convosco, Senhor,

Não dependem de explicados.

MOTE

Assim pois vós sabeis tudo
ó diviníssimo objeto,
valha-se só meu afeto
de estilo, que fala mudo.

Nada, meu Senhor, vos digo,

nada quisera dizer-vos,

porque os atos de querer-vos,

têm pelas vozes perigo:

tanto, Senhor, que comigo

hei de acabar de ser mudo,

e de tal maneira rudo,

que quando me perguntares

responderei (se escutares)

Assim, pois vós sabeis tudo.

Porém calar-me não quero,

quero convosco explicar-me,

vede, se quereis levar-me,

onde louvar-vos espero:

porque se bem considero

distante o golpe secreto,

levando-me vós o afeto,

de que servem meus sentidos

prostrados, e desunidos,

Ó diviníssimo objeto

Convosco meu ser se abraça,

e não pareçam delírios

procurar cândidos lírios

da vossa divina graça:

pois neles a alma se enlaça,

e convosco, amado objeto,

diz, que quer ir em secreto

purificar seu valor:

aqui do vosso favor

Valha-se só meu afeto.

Finalmente os meus cuidados

ordenai, Amor, de sorte,

que aos círculos de seu norte

correspondam empenhados:

meus sentidos desvelados

com excesso sobreagudo

vos venerem mais que tudo

em finíssimos extremos:

porém, meu Senhor, mudemos

De estilo, que fala mudo.

Fonte: www.cce.ufsc.br

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