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Antônio Conselheiro

1830 - 1897

Antônio Conselheiro é o personagem da história do Brasil que mais tem merecido atenção dos estudiosos nos últimos anos. Nesta página apresentamos os rincipais contecimentos da sua vida, desde 1830, ano em que nasceu, até a fundação de Bello Monte em 1893.

Antônio Conselheiro

A única fotografia de Antônio Conselheiro,

Por Flávio de Barros em Canudos, em 06 de outubro de 1897.

"No tempo da Monarquia

Certos casos sucederam

Que vale a pena contar-se

Pelo que eles mereceram

Castigo que alguns levaram

Desgôsto que outros sofreram"

(Arinos de Belém)

13 de Março - 1830

Nasce na Vila do Campo Maior de Quixeramobim, na província do Ceará, Antônio Vicente Mendes Maciel, nome de batismo daquele que mais tarde ficaria célebre como Antônio Conselheiro. Era filho de Maria Joaquina de Jesus e Vicente Mendes Maciel. Segundo o escritor João Brígido, que foi amigo de infância de Antônio, os Maciéis era uma "família numerosa de homens válidos, ágeis, inteligentes e bravos, vivendo de vaqueirice e a pequena criação" (Brígido, 1919), e se envolveram em conflito com os poderosos Araújos, "família rica, filiada a outras das mais antiga do norte da província" (Ibid), naquela que foi uma das mais longas e trágicas lutas entre famílias, de toda a história do Ceará.

22 de Maio - 1830

Antônio é batizado na Igreja Matriz de Quixeramobim, conforme a certidão:

"Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta baptizei e pus os Santos Oleos nesta matriz de Quixeramobim ao parvulo Antonio pardo nascido aos treze de março do mesmo ano supra (...) Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira"

31 de agosto - 1834

Morre Maria Joaquina. Antônio e suas duas irmãs, Maria e Francisca, ficam órfãos de mãe e seu pai casa-se 1 ano, 5 meses e 11 dias depois com Francisca Maria da Conceição e tem mais uma filha chamada Rufina.

"Antônio teve uma infância sofrida. Marcaram-no os delírios alcoólicos do pai , os maltratos da madrasta, o extermínio de parentes na luta contra os Araújos, além das influências místicas comum ao meio sertanejo" (Dantas, 1966).

O escritor Gustavo Barroso, em artigo publicado na revista O Cruzeiro em 1956, escreve: " José Victor Ferreira Nobre Informava que Antonio Conselheiro cursara as aulas de latim de seu avô, o Professor Manoel Antônio Ferreira Nobre, na cidade de Quixeramobim". Mesmo com dificuldades na família, Antônio consegue se dedicar a uma boa formação escolar e estuda também Português, Aritmética, Geografia e Francês. Possui uma boa caligrafia e torna-se um jovem conceituado na cidade. "Antônio revelava-se muito religioso, morigerado e bom, respeitoso para com os velhos. Protegia e acariciava as crianças. Sofria com as rusgas entre o pai e a madrasta. Consideravam-no a pérola de quixeramobim, por se um moço sério, trabalhador, honesto e religioso" (Montenegro, 1954).

05 de Abril - 1855

Morre Vicente Maciel, pai de Antônio, que a partir de então, passa a cuidar dos negócios da família, ao mesmo tempo em que promove o casamento das irmãs. Francisca Maciel, madrasta de Antônio, morre em Quixeramobim um ano depois.

Antônio Conselheiro

07 de Janeiro - 1857

Antônio Maciel casa-se em Quixeramobim com Brasilina Laurentina de Lima.

"Aos sete dias do mês de janeiro de 1857, nesta matriz de Quixeramobim, pelas oito horas da noite, depois de preenchidas as formalidades de direito, assisti a receberem-se em matrimônio e dei a benção nupciais aos meus paroquianos Antonio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de Lima, naturais e moradores nesta freguesia de Quixeramobim (...) do que para constar mandei fazer este assento que assino.

O Vigário interino José Jacinto Bezerra"

A partir desta época, Antonio muda constantemente de cidade e de profissão, sendo negociante, professor, balconista e advogado provisionado, ou advogado dos pobres como o chamavam.

Em 1861, encontra-se em Ipu (CE), já com dois filhos, e sua esposa inicia uma relação amorosa com um furriel (antigo posto entre cabo e sargento) da polícia local. Profundamente abatido, Antônio abandona tudo e se retira para a Fazenda Tamboril, dedicando-se ao magistério. Tempos depois, vai para Santa Quitéria (CE) e conhece Joana Imaginária, mulher meiga e mística que esculpia imagens de santo em barro e madeira, e com ela teve um filho chamado Joaquim Aprígio.

Mas Antônio tinha alma de andarilho e em 1865 parte novamente. Trabalhando como negociante de varejos, percorre os povoados da região, e de 1869 a 1871 fixa-se em Várzea da Pedra, insistindo com os negócios, mas os fracassos comerciais e a provável influência do Padre Ibiapina levam-no a iniciar uma nova fase de sua vida, peregrinando por todo o Nordeste.

Passados alguns anos, Antônio em uma visita ao Ceará, encontra o escritor João Brígido, e declara: "vou para onde me chamam os mal aventurados", retomando assim uma longa caminhada pelos sertões.

Alto, magro, cabelos e barba crescidos, sandálias de couro, chapéu de palha, vestido sempre com uma túnica azul clara amarrada na cintura por um cordão com um crucifixo na ponta e um bastão na mão; esse era o Peregrino.

Honório Vilanova, sobrevivente de Canudos e irmão de Antônio Vilanova, um dos principais líderes conselheiristas, em depoimento ao escritor Nertan Macedo no ano de 1962, declarou:

Antônio Conselheiro

"Conheci o Peregrino, era eu menino, no Urucu. Se bem me recordo, foi em 1873, antes da grande seca. Ele chegou um dia a fazenda, pedindo esmola para distribuir pelos pobres, como era do seu costume. Donde vinha, não posso me lembrar. Falava-se que dos lados do Quixeramobim, mas a origem pouco importa. Compadre Antônio deu-lhe um borrego nessa ocasião.O Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir, erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará.

Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça.

Era manso de palavra e bom de coração. Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem.

Uma tarde, ele foi embora do Urucu, caminhando vagarosamente, levando no braço o borreguinho que meu irmão Ihe dera. Ficamos olhando a sua figura esquisita, durante algum tempo, do alpendre. Até que sumiu na estrada, não para sempre." Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir, erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará.

Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça.

Era manso de palavra e bom de coração. Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem.

Uma tarde, ele foi embora do Urucu, caminhando vagarosamente, levando no braço o borreguinho que meu irmão Ihe dera. Ficamos olhando a sua figura esquisita, durante algum tempo, do alpendre. Até que sumiu na estrada, não para sempre." (Macedo, 1964).

(ver documentos raros)

22 de Novembro - 1874

O jornal semanário "O Rabudo" editado na cidade de Estância (SE), publica pela 1ª vez uma noticia na imprensa sobre um certo Antônio dos Mares:

A bons seis meses que por todo o centro desta e da Província da Bahia, chegado, (diz elle,) da do Ceará infesta um aventureiro santarrão que se apellida por Antônio dos Mares: (...) O fanatismo do povo tem subido a ponto tal que affirmão muitos ser o próprio Jesus Christo (...) Pedimos providencias a respeito: seja esse homem capturado e levado a presença do Governo Imperial , a fim de prevenir os males que ainda forão postos em prática pela auctoridade da palavra do Fr. S. Antonio dos Mares moderno.

Dizem que elle não teme a nada, e que estará a frente de suas ovelhas. Que audácia! O povo fanático sustenta que n’elle não tocarão; Já tendo se dado casos de pegarem em armas para defende-lo.

O Peregrino caminha incansavelmente, conhece cada palmo do sertão, seus segredos e mistérios. Por onde anda, faz sermões, prega o evangelho e dá conselhos. Antônio se transforma, de peregrino a beato, de beato a conselheiro: Antônio Conselheiro ou Santo Antônio dos Mares ou Santo Antônio Aparecido ou Bom Jesus Conselheiro. Deixa crescer o cabelo e a barba, aprofunda seu já grande conhecimento da Bíblia, e sua fama começa a percorrer todo o interior nordestino, e gradativamente vai formando em torno de si um número crescente de fiéis seguidores.

28 de Junho - 1876

Antônio Conselheiro é preso em Itapicuru (BA), pelo delegado de polícia de Itapicuru, Francisco Pereira Assunção, que em ofício ao Chefe de Policia da Bahia, João Bernardo de Magalhães, escreve:

Antônio Conselheiro

"Peço a v.s. para dar providências, a fim de que não volte o dito fanatizador do povo ignorante; e creio que v.s. assim o fará, porque não deixará de saber da notícia, que há mezes apareceu, de ser elle criminoso de morte na provincia do Ceará ". (Apud Milton, 1902, p.10) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

A prisão do Conselheiro, foi notícia em destaque dos principais jornais de Salvador. Além do Diário de Notícias, o Diário da Bahia (27 de junho e 7 de julho) e o Jornal da Bahia, também a famosa folhinha Laemmert, por conta deste episódio, divulgou pela 1ª vez na capital do Império (RJ) notícia sobre Antônio Conselheiro.

5 de julho - 1876

O Chefe de Policia da Bahia encaminha Antônio Conselheiro ao seu colega do Ceará Vicente de Paula Cascais Teles, com a seguinte recomendação:

" ... suspeito ser algum dos criminosos dessa provincia, que andam foragidos. (...) Entretanto, si por ventura não fôr elle ahi criminoso, peço em todo caso, a v.s. que não perca de sobre elle as suas vistas, para que não volte a esta provincia, ao logar referido, para onde a sua volta trará certamente resultados desagradaveis pela exaltação em que ficaram os espiritos dos phanaticos com a prisão do seu ídolo"

(Apud Milton, 1902, p.12) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

15 de julho - 1876

Conduzido num porão de navio para Fortaleza (CE), Antonio Conselheiro foi espancado severamente na viagem e teve cabelo e barba raspados, chegando em estado lastimável ao Ceará, cujo Chefe de Policia o encaminha ao Juiz Municipal de Quixeramobim, conforme ofício:

" segue, para ahi ser posto à sua disposição, Antonio Vicente Mendes Maciel, que se suppõe ser criminoso neste termo, conforme communica-me o Dr, Chefe de Policia da Provincia da Bahia, que m’o remetteu, afim de que em Juizo, verificando da criminalidade do referido Maciel, proceda como cumpre na fórma da lei." (Apud Benicio, 1899, p. 46) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

1° de agosto - 1876

O Juiz Municipal de Quixeramobim, Alfredo Alves Matheus, encerra o episódio em correspondência ao Chefe de Policia do Ceará:

" tendo verificado não ser o referido Maciel criminoso, o mandei pôr em liberdade alguns dias depois de sua chegada a esta cidade.

O Juiz Municipal - Alfredo Alves Matheus."(Apud Benicio, 1899, p. 46)

Mesmo comprovada a sua inocência, o boato de que teria assassinado a mãe e a esposa, perseguiu Antônio Conselheiro até o fim da sua vida. Já agora em liberdade, imediatamente retorna ao sertão da Bahia.

1877

O ano de 1877 foi célebre em todo o Nordeste: era o início da grande seca que durou 2 anos deixando um rastro de 300 mil mortos e um número incalculável de retirantes famintos, muitos dos quais comiam cadáveres nas beiras de estrada. Antônio Conselheiro vivencia a dor e o sofrimento do povo nordestino e continua suas peregrinações pelo sertão adentro, falando para os pobres e explorados, e seu comportamento desagradava cada vez mais setores influentes do latifúndio e da Igreja.

16 de Fevereiro - 1882

O Arcebispo de Salvador (BA), D. Luís José envia aos vigários de todo o Estado da Bahia, uma circular proibindo as pregações de Antônio Conselheiro em suas paróquias.

"Chegando ao nosso conhecimento que, pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado Antônio Conselheiro, pregando ao povo que se reúne pra ouvi-lo doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que esta perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párochos destes lugares, ordenamos à V. Revma. que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos parochianos que lhes prohibimos, absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, (...) Outrosim, se apesar das advertências de V. Revma., continuar o indivíduo em questão a praticar os mesmos abusos, haja V. Revma. de imediatamente comunicar-nos afim de nos entendermos com o Exm. Sr. Dr. chefe de policia, no sentido de tomar-se contra o mesmo as providencias que se julgarem necessárias."

19 de Fevereiro - 1883

Morre aos 76 anos em Santa Fé (PB), o Padre Antônio Ibiapina, lendário missionário que construiu casas de caridade em vários Estados nordestinos. Antônio Conselheiro possivelmente foi muito influenciado pelo Pe. Ibiapina, que antes de se ordenar padre, foi juiz de direito em Quixeramobim (CE) em 1833.

13 de Maio - 1888

Assinada a Lei da Abolição da Escravatura. Teve fim um longo e tenebroso período em que mais de 9 milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil, o penúltimo país do mundo ocidental a abolir a escravidão negra. Esta medida é recebida com entusiasmo por Conselheiro, que há muito tempo já fazia pregações abolicionistas. Muitos ex-escravos, os chamados 13 de maio, não encontrando trabalho e continuando a sofrer violentas discriminações, acompanham o Peregrino em suas andanças, vindo depois a se estabelecer em Canudos. A escravidão era um tema que o preocupava muito e em uma de suas prédicas, ele escreve:

(...) sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ver reduzido o ente humano; a força moral (que tanto a orna) com que ela procedeu à satisfação da vontade divina constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, não era motivo suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem esse povo estava sujeito.

Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um dos ministros Ihe disse:

Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a república como uma ameaça; ao que ela não liga a mínima importância. Assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do mundo mais significativo que era vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com tão belo acontecimento. Porque Já sentiam o braço que sustentava o seu trabalho, donde formavam o seu tesouro, correspondendo com ingratidão e insensibilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho.

E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor ou excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor de seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão." (Macedo, 1974: 180).

15 de Novembro - 1889

É proclamada a República. A terra e a renda continuariam concentradas na mão das elites e o poder político não foi democratizado. Novas medidas começam a entrar em vigor, como a separação entre o Estado e a Igreja, o casamento civil e a cobrança de impostos. Conselheiro não aceita o novo regime e passa a combate-lo com firmeza, escrevendo nas prédicas:.

Antônio Conselheiro

Agora tenho de falar-vos de um assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis, de um assunto que só a incredulidade do homem ocasionaria semelhante acontecimento: a República, que é incontestavelmente um grande mal para o Brasil que era outrora tão bela a sua estrela, hoje porém foge toda a segurança, porque um novo governo acaba de ter o seu invento e do seu emprego se lança mão como meio mais eficaz e pronto para o extermínio da religião. Admiro o procedimento daqueles que têm concorrido com o seu voto para realizar-se a República, cuja idéia tem barbaramente oprimido a Igreja e os fiéis: chegando a incredulidade a ponto de proibir até a Companhia de Jesus; quem pois não pasma à vista de tão degradante procedimento? Quem diria que houvesse homens que partilhassem de semelhante idéia. A república é o ludíbrio da tirania para os fiéis. Não se pode qualificar o procedimento daqueles que têm concorrido para que a República produza tão horroroso efeito!! Homens que olham por um prisma, quando deviam impugnar generosamente a República, dando assim brilhante prova de religião.

Demonstrado, como se acha, que a República quer acabar com a religião, esta obra-prima de Deus que há dezenove séculos existe e há de permanecer até o fim do mundo; (...) Considerem portanto, estas verdades que devem convencer àquele que concebeu a idéia da República, que é impotente o poder humano para acabar com a religião.

O presidente da república, porém, movido pela incredulidade que tem atraído sobre ele toda sorte de ilusões, entende que pode governar o Brasil como se fora um monarca legitimamente constituído por Deus; tanta injustiça os católicos contemplam amargurados. (...) É evidente que a república permanece sobre um princípio falso e dele não se pode tirar conseqüência legítima: sustentar o contrário seria absurdo, espantoso e singularíssimo; porque, ainda que ela trouxesse o bem para o país, por si é má, porque vai de encontro à vontade de Deus, com manifesta ofensa de sua divina lei. Como podem conciliar-se a lei divina e as humanas, tirando o direito de quem tem para dar a quem não tem? Quem não sabe que o digno príncipe o senhor dom Pedro 3.° tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil? Quem não sabe que o seu digno avô o senhor Dom Pedro 2.°, de saudosa memória, não obstante ter sido vítima de uma traição a ponto de ser lançado fora do seu governo, recebendo tão pesado golpe, que prevalece o seu direito e, conseqüentemente, só sua real família tem poder para governar o Brasil? (...). Afirmo-vos, penetrado da mais íntima certeza, que o Senhor Jesus é Todo-Poderoso e fiel para cumprir a sua promessa é um erro de aquele que diz que a família real não há de governar mais o Brasil: se este mundo fosse absoluto, devia-se crer na vossa opinião; mas não há nada de absoluto neste mundo, porque tudo está sujeito à santíssima Providência de Deus, que dissipa o plano dos homens e confunde do modo que quer, sem mover-se do seu trono.

A república há de cair por terra para confusão daquele que concebeu tão horrorosa idéia. Convençam-se, republicanos, que não hão de triunfar porque a sua causa é filha da incredulidade, que a cada movimento, a cada passo está sujeita a sofrer o castigo de tão horroroso procedimento. (...) Mas este sublime sentimento não domina no coração do presidente da república, que a seu talante quer governar o Brasil, praticando tão clamorosa injustiça, ferindo assim o direito mais claro, mais palpável da família real, legitimamente constituída para governar o Brasil. Creio, nutro a esperança que mais cedo ou mais tarde há de triunfar o seu direito, porque Deus fará devida Justiça, e nessa ocasião virá a paz para aqueles que generosamente tem impugnado a República. (Macedo, 1974, 175).

As prédicas de Antônio Conselheiro calavam fundo na alma do povo oprimido e explorado, em uma visita ao Ceará, encontra o escritor João Brígido, antigo colega de infância, e declara: "vou para onde me chamam os mal aventurados". Consolidava-se o mito em torno da sua figura, e o séqüito que o acompanhava nas andanças pelo sertão nordestino era cada vez maior.

Antônio Conselheiro

Como um semeador de oásis no deserto, Conselheiro ergue templos sagrados para o povo em muitos lugares esquecidos e abandonados por onde passa. São igrejas, cemitérios e até açudes. Nestas construções, Conselheiro tinha como mestres-de-obras Manoel Faustino e Manoel Feitosa.

No depoimento a Nertan Macedo, Honório Vilanova declarou:

"O Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir: erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará. Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça. Era manso de palavra e bom de coração . Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem" (Macedo, 1964).

Localidades onde Conselheiro construiu igrejas: Crisópolis (BA), Biritinga (BA), Itapicuru (BA), Rainha dos Anjos (BA), Aporá (BA), Olindina (BA), Tobias Barreto (SE), Nova Soure (BA), Simão Dias (SE), Chorrochó (BA), Esplanada (BA) e Canudos.

Localidades onde Conselheiro construiu cemitérios: Timbó (BA), Entre Rios (BA), Ribeira do Amparo (BA), Cristinápolis (SE), Aporá (BA), Itapicuru (BA), Simão Dias (SE) e Canudos.

Antônio Conselheiro

26 de Maio - 1893

Ocorre em Masseté (BA) o primeiro confronto armado entre o governo e os conselheiristas. A força militar, composta de 30 soldados e 1 tenente, foi enviada de Salvador (BA), após Antônio Conselheiro liderar um movimento que destruiu na praça pública de Natuba (atual Nova Soure - BA), os editais republicanos de cobrança de impostos, atitude que provocou a ira das autoridades locais.

Antônio Conselheiro

Em Masseté, os conselheiristas, sob a direção de João Abade e armados de garruchas, cacetes e espingardas de caça, reagiram prontamente ao ataque da força militar, provocando a fuga desordenada da tropa. Após este fato, Conselheiro percebe que a pressão do governo republicano, da Igreja e dos latifundiários tendia a crescer. Então, reúne seus seguidores e abandona o Vale do Itapicuru, centro de suas atividades por muitos anos, partindo sertão a dentro, em busca da "Terra Prometida" ( ver Bello Monte).

Antônio Conselheiro

Fonte: www.portfolium.com.br

Antônio Conselheiro

1830 - 1897

Chamava-se Antônio Vicente Mendes Maciel. Quando chegou aos sertões da Bahia e Sergipe, em 1874, apresentou-se como Antônio dos Mares. Seus adeptos, numerosos desde os primeiros tempos, consideravam-no santo, Santo Antônio dos Mares. Depois Santo Antônio Aparecido, Santo Conselheiro, Bom Jesus Conselheiro. Historicamente, tornou-se Antônio Conselheiro, o mais divulgado dos seus apelidos.

Tinha 44 anos no tempo da chegada. Magro, barba e cabelos crescidos e mal tratados, metido num camisolão azul, impressionava a gente sertaneja. Conversava pouco, mas pregava muito. Rezava e fazia rezar. Dava conselhos. Condenava o luxo, preconizava o jejum, verberava contra a mancebia. Seus acompanhantes deviam ser unidos pela benção da Igreja. Levantava muros de cemitérios, construía e reconstruía capelas, abria tanques d’água. Prestava grandes serviços à comunidade do sertão, fazendo que toda a gente trabalhasse nas suas obras beneméritas.

Ainda no Ceará, declarou a um conhecido que fizera uma promessa de levantar 25 igrejas. Talvez não alcançasse o número pretendido. Porém ornou os sertões de templos. Em Mocambo, hoje Olindina, no Cumbe, agora Euclides da Cunha, em Manga, atualmente Biritinga. O tempo e os homens destruíram as capelas mencionadas. Nada, porém, abalou os alicerces das igrejinhas de N. S. do Bonfim (Chorrochó), 1885, e a de Crisópolis, sob a proteção do Bom Jesus, 1892. As armas da Quarta Expedição contra Canudos derrubaram duas capelas ali erguidas a de Santo Antônio e a do Bom Jesus, esta última ainda em construção. Antônio Vicente faz jus ao título de grande construtor de pequenos templos.

A voz era suave, mansa, na hora de conversar com seus acompanhantes. Tornava-se agressiva ao combater os republicanos, os maçons, os protestantes. Desafiava-os. “Apareçam os republicanos!”gritava, levantando o cajado de pastor d`almas.

Chamava a todos de meu irmão e os irmãos tratavam-no como meu pai. Meu pai Conselheiro, beijando-lhe as mãos e até o camisolão que usava. Não queria que os fiéis se ajoelhassem diante dele. “Deus é outra pessoa”, declarava. Agradava-lhe dizer-se um simples peregrino, um pecador a purgar seus pecados.

Santo para o povão dos sertões, era acusado de prática criminosa pelos seus inimigos. Diziam que havia perpetrado, em sua província natal, um crime hediondo. Matara a esposa e a própria mãe. Levaram-no preso para Quixeramobim, a vila cearense onde nascera, a 13 de março de 1830. Nenhum delito cometera. Ele ainda não completara cinco anos quando morreu sua genitora e a esposa infiel viveu muitos anos após a separação do casal. O Juiz de Direito da comarca colocou-o em liberdade. Retornou aos sertões baianos num ano dramático, em 1877, no tempo de grande seca. Procurou ajudar os homens e mulheres vítimas da calamidade.

Antônio Conselheiro

Além de levantar igrejas e muros de cemitério, contribuiu para a fundação de cidades. Crisópolis, Chorrochó, Olindina, nos primeiros tempos da sua formação, contaram com o trabalho do grande líder dos desafortunados nos últimos anos do século passado. Fez obra construtiva.

Caminhante inveterado, conhecia as regiões banhadas pelos rios Itapicuru, Vaza-Barris, São Francisco. Deparamos sempre com notícias de sua passagem pelos mais distantes pontos localizados nos vales dos três rios. Fazia o novo e reconstruía o antigo. Em 1892, numa das suas visitas a Monte Santo dedicou-se a restaurar as capelinhas ali levantadas por frei Apolônio de Todi, no século anterior.

Manifestou-se a favor da abolição do cativeiro e deu guarida aos negros “treze de maio”. Os caboclos dos aldeamentos de Rodelas, Mirandela, de Massacará formaram ao seu lado. No Belo Monte, uma das ruas era denominada dos negros, outra dos caboclos. Ao lado dos índios e negros apareciam os brancos em expressivo número, muitos deles homens de recursos, proprietários de pequenos lotes de terra e donos de casas de comércio. Canudos era um mundo.

A partir de 1892, a imprensa baiana começou a divulgar que o Conselheiro combatia a República. Era verdade, inexistindo, todavia, qualquer contato do chefe sertanejo com os restauradores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Partidários do Bom Jesus, em 1893, destruíram no nordeste baiano, no Soure, tábuas de impostos colocadas pelas autoridades municipais. Reagiu o Governo Estadual. Uma expedição policial, enviada para prender Antônio Vicente, foi batida na noite de 26 de maio. O Governo desistiu de remeter novas forças para vingar o insucesso sofrido. Por seu lado, suspendeu Antônio Conselheiro suas andanças, indo viver no povoado de Canudos, que ele transformou em Belo Monte, à margem esquerda do rio Vaza-Barris. A população cresceu assustadoramente. Belo Monte ficou sendo um estado dentro do Estado. Tentou-se, por intermédio de frades capuchinhos, em 1895, dissolver pacificamente a gente conselheirista. A iniciativa não foi bem sucedida. Frei João Evangelista de Monte Marciano, que dirigiu a missão, relatou seu malogro num relatório, enviado ao Arcebispo da Bahia, D. Jerônimo Tomé. As notícias do frade alarmaram as classes dirigentes. Os republicanos exaltados pediram providências.

A guerra contra o Bom Jesus Conselheiro começou em novembro de 1896. O Juiz de Direito de Juazeiro, Bahia, que tinha divergências com o Conselheiro, solicitou ao Governador do Estado, Luiz Viana, a remessa de força pública para impedir que a cidade fosse invadida pelos Conselheiristas. O Conselheiro fizera e pagara antecipadamente encomenda de madeira para a igreja nova e como o pedido ainda não fora satisfeito, boatejava-se que o povo de Belo Monte iria forçar a entrega do taboado. A solicitação do Dr. Arlindo Leone atendida, determinou a ida de uma tropa do exército, comandada pelo tenente Manoel da Silva Pires Ferreira. Era para defender Juazeiro e terminou rumando contra Canudos. No povoado de Uauá, perto do Belo Monte os soldados de linha foram atacados pelos jagunços. Os atacantes abandonaram o campo da luta mas os vencedores, sem condições para perseguir o inimigo, bateram em retirada. A primeira Expedição contra Canudos fora vencida. Nova Expedição, prontamente organizada, rumando para Monte Santo, sob o comando do major Febrônio de Brito não teve melhor sorte. Aproximou-se do arraial conselheirista, mas preferiu recuar. Vencida a 2ª Expedição, o Governo da República entregou ao coronel Antônio Moreira Cézar, soldado temido, a tarefa de defender o regime instalado em 1889, que parecia ameaçado pela gente sertaneja.

Força poderosa, mais de 1.200 homens de todas as armas, sofreu em março de 97, defronte ao povoado, uma derrota tremenda. A tropa fugiu espavorida, sem ordem, aos grupos. Morreu na peleja o famoso coronel Cézar. Os jagunços guardaram as armas e munições dos derrotados. Sobressalto nacional. República em perigo. Grupos jacobinos no Rio de Janeiro e em São Paulo empastelaram gazetas monarquistas, incendiaram carros, atentaram contra vidas. Canudos ganhou proporções de problema alarmante. Preparou-se a Quarta Expedição, chefiada por um general-de-brigada Arthur Oscar de Andrade Guimarães, com mais dois generais comandantes de colunas, oficiais superiores em grande número. Milhares de homens d`armas vindos de quase todos os estados. A tropa poderosa levou meses para abater a heróica resistência dos sertanejos. Somente em outubro, com inúmeras baixas, as milícias republicanas dominaram e arrasaram o chamado Império do Belo Monte. O vencedor, sem grandeza, degolou vencidos, que se haviam entregue. Um dos maiores, senão mesmo o maior fratricídio da história do Brasil. Uma página negra. A tragédia de Canudos merece ser recordada como uma advertência, que visa a defesa dos direitos humanos.

Fonte: www.euclidesdacunha.org

Antônio Conselheiro

1830 - 1897

Antônio Vicente Mendes Maciel, era filho de um pequeno comerciante. Nasceu em Quixeramobim, no Ceará, em 1828, não se sabe o dia nem o mês. Aos seis anos ficou órfão de mãe. Estudou aritmética, português, geografia, francês e latim. Gostava de ler. Uma de suas leituras preferidas eram as aventuras do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França, adaptações populares de lendas da Idade Média.

Perdeu o pai aos 27 anos. Passou então a cuidar do armazém da família, com o qual sustentava suas quatro irmãs. Ficou só dois anos à frente do negócio, pois casou e passou a dar aula numa escola de fazenda.

Graças ao que aprendera na escola e sobretudo a seu esforço pessoal, tornou-se escrivão de cartório, solicitador (encarregado de encaminhar as petições ao Poder Judiciário) e rábula (advogado sem diploma).

Em 1861, depois de ter sido abandonado pela mulher, começou a andar pelo Nordeste, reformando igrejas e cemitérios e pregando o Evangelho, o que atraiu muitos camponeses. Como dava conselhos baseados em mensagens religiosas, ficou conhecido como Antônio Conselheiro.

Em 1874, Conselheiro fundou o Arraial Bom Jesus, a 217 km de Salvador. Conselheiro incomodava os grandes proprietários de terra, que perdiam empregados que o seguiam, e o clero, que não tolerava um leigo como portador da palavra de Deus.

No ano de 1878, uma grande seca atingiu o sertão, matando milhares de pessoas de fome. Antônio Conselheiro, percorreu as regiões afetadas pela seca para socorrer os flagelados. Passou a ser considerado um santo, aumentando o número de pessoas que o acompanhavam.

Em 1893, ao passar pela cidade de Bom Conselho, Antônio Conselheiro mandou arrancar e queimar as ordens de cobrança de impostos, coladas nos postes da cidade.

Além dos latifundiários e da Igreja, Conselheiro ganhou a inimizade das autoridades do governo republicano.

Foi nesse mesmo ano que o grupo do Conselheiro chegou a uma fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, numa afastada região do norte da Bahia. Lá surgiria o arraial de Belo Monte, mais conhecido como Canudos.

Rapidamente o arraial se transformou numa verdadeira cidade. Cerca de 3 mil pessoas viviam no arraial. Na maioria, eram sertanejos típicos - pobres, pardos e analfabetos. O estilo de vida do arraial atraía os miseráveis do sertão e desafiava o poder dos coronéis. A repressão não demorou.

Entre 1896 e 1897, houve três tentativas de arrasar o arraial. Os sertanejos enfrentaram as bem armadas tropas federais com espingardas, facões, foices e enxadas e valendo-se das táticas de guerrilha, como pequenos ataques de surpresa. As derrotas do governo assustaram as autoridades e a população. Destruir Canudos significava salvar a República!

A partir de junho de 1897 o cerco foi-se fechando. Em setembro, uma proposta de perdão atraiu muitos seguidores de Conselheiro. Era uma armadilha. Canudos caiu no dia 5 de outubro. O arraial foi incendiado. O corpo de Antônio Conselheiro - morto alguns dias antes _ foi desenterrado e degolado. A cabeça do beato foi enviada a Salvador. Ali serviu para enfeitar a ponta de uma lança durante um desfile militar.

Fonte: br.geocities.com

Antônio Conselheiro

1830 - 1897

O movimento camponês de Canudos, no interior da Bahia, durante o governo de Prudente de Morais, infelizmente ainda não foi estudado em todas as suas diversas vertentes e devida profundidade. A obra de Euclides da Cunha Os sertões tornou-se um clássico literário e aqueles que procuram analisar e interpretar esse acontecimento histórico quase sempre partem de suas informações. Uma pesquisa sistemática e exaustiva, por isto mesmo, ainda não foi feita com a profundidade que o tema merece. Um dos defeitos mais visíveis é ignorar-se a importância de Antônio Vicente Mendes Maciel (O Conselheiro) como líder, agitador e organizador. Ele é sempre visto como um místico, messiânico, quando não um desequilibrado mental. O seu crânio, após a sua degola, foi enviado a Salvador, para estudos médico-legais e antropológicos por cientistas influenciados pela Escola de Lombroso, para serem procurados nele os estigmas do ‘criminoso nato’ .

Até hoje, por outro lado, não possui um biógrafo que o estudasse por meio de pesquisas modernas e de uma metodologia satisfatória. O livro de Edmundo Moniz, no particular, que vai nessa direção, ressente-se de falhas teóricas muito acentuadas. O certo é que a figura de Antônio Conselheiro é sempre apresentada como se fosse a de uma individualidade mórbida, desligada do contexto social do qual surgiu e sem nenhuma ligação funcional e dinâmica com os problemas e as contradições emergentes da região em que a luta eclodiu.

Por essas razões, poucas vezes é lembrado como abolicionista e pregador para a massa escrava. Mas, esse personagem, que percorreu a partir de 1874 grande parte do território cuja população escrava era considerável, não podia deixar de interessar-se pelos cativos, muitos deles egressos dos quilombos da região ou com a revolta latente em face das condições em que viviam.

Em primeiro lugar, devemos ver as suas raízes étnicas, pois quase todos os que dele se ocuparam afirmam ter sido branco. No entanto, no seu batistério ele é registrado como pardo. Vejamos:

Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio pardo nascido aos treze de março do mesmo ano, filho natural de Maria Joaquina: foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo em que me assinei. O Vigário Domingos Álvaro Vieira.

Como podemos ver, pela sua certidão de batismo, foi considerado pardo pelo padre que o batizou. Se isto, porém, não é de grande significado para avaliar o seu abolicionismo, serve para repor a verdade. O que é importante é apurar-se se na sua biografia pode se constatar uma postura abolicionista nas suas pregações e mais especialmente se essas prédicas foram dirigidas aos próprios escravos.

Quem toma como fonte de informações de sua vida o texto de Os Sertões de Euclides da Cunha certamente nada encontrará. O seu racismo no particular é evidente pois, como acentua muito bem o professor José Calasans, apoiado em livro que Pedro A. Pinto organizou sobre o vocabulário do livro, as palavras escravo e escravidão não se encontram ali uma vez sequer .

Outras fontes, porém, revelam um Antônio Conselheiro preocupado com a escravidão e a sorte dos cativos, dirigindo-se aos próprios escravos, os quais posteriormente irão engrossar as suas hostes. Ainda o professor Calasans escreve que o jornalista Manoel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, junto às forças em operações contra os jagunços, autor de um bom livro relativo à vida dos conselheiristas e de seu guia, percebeu e registrou a posição adotada pelo "Bom Jesus" em face do problema da escravidão:

"Ignorante e enraizado nos velhos hábitos da administração de então, desconfiado como são todos os sertanejos" escreveu Manuel Benício, "de índole conservadora por nascença, achava que toda reforma na administração e toda inovação na economia política eram um meio de se roubar o povo. Fora contra a introdução do sistema métrico-decimal no comércio e a única reforma que encontrou sua aquiescência mais tarde, em 1888, foi a abolição dos escravos. Talvez porque grande porção de quilombos e mucambeiros acautelassem sua errante cruzada."

Para José Calasans, ele "transmitiu aos escravos os ensinamentos dos Evangelhos. Não estando formulando uma hipótese", prossegue:

Baseamos nossa assertiva num depoimento contemporâneo, perdido nas folhas de uma gazeta baiana de 1897, no auge da luta fratricida. Um italiano, que trabalhava na construção da estrada de ferro Salvador-Timbó, narrou, nesses termos, seu encontro com o peregrino: "Veja como este povo", disse-lhe o Conselheiro apontando a gente que aguardava a sua pregação, "na sua totalidade escrava vive pobre e miserável. Veja como ele vem de quatro e mais léguas para ouvir a palavra de Deus. Sem alimentar-se, sem saber como se alimentará amanhã, ele nunca deixa de atrair pressuroso às palavras religiosas, que, indigno servo de Deus e por ele amaldiçoado, iniciei neste local para a redenção dos meus pecados". No lugarejo mencionado, que outro não era senão Saco, entre Timbó e Vila do Conde, na então província da Bahia, durante o dia quase não havia viva alma. Mais de duas mil pessoas, porém, surgiram de noite, ansiosas para ouvirem os conselhos do Bom Jesus. "Ao anoitecer", prosseguiu o empreiteiro, "começavam a chegar e às 8 horas a praça estava cheia, tendo mais de mil pessoas, todas escravas, e após o sermão, que em seguida um explicava ao outro, visto que somente os vizinhos podiam ouví-lo, todos cantavam as seguintes estrofes: Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, ao que as mulheres e meninos respondiam para sempre seja louvado o santo nome de Maria, e isto até a meia noite, algumas vezes. De manhã não havia pessoa alguma no arraial".

A informação transcrita, documenta, com segurança, as relações do Conselheiro com os escravos da zona citada, que atentamente escutavam a pregação do ‘santo’ de Quixeramobim. Convém esclarescer, desde logo, que na região de Itapicuru, onde Antônio Conselheiro passou grande parte de sua vida de pregador, havia, na época aqui estudada, apreciável número de pequenos engenhos, o que explica a presença de grande quantidade de escravos. Os cativos necessitavam da palavra de conforto e de ajuda do bondoso peregrino, que conforme escreveu o informante acima citado, distribuía apreciáveis quantias às famílias pobres, naturalmente obtidas nas casas dos mais ricos, daqueles senhores de engenhos e negociantes mais generosos.

Convém notar que, na zona de Itapicuru, existiu um quilombo que durante muito tempo deu trabalho às autoridades e do qual certamente Antônio Conselheiro ouvira falar, assim como na região de Tucano, um dos locais que forneceu grande número de adeptos ao Conselheiro. José Calasans, cujo notável trabalho estamos acompanhando, escreve ainda que

Outros elementos poderão ser apresentados no mesmo sentido, isto é, comprobatório do papel desempenhado pelo Conselheiro, junto à população escrava no Nordeste baiano, que ele mais de perto conheceu e assistiu. Num interessante artigo publicado no Jornal de Notícias, da Bahia, edição de 5 de março de 1897, o doutor Cícero Dantas, barão de Geremoabo, proprietário no município de Itapicuru, e prestigioso chefe político, contou que com a abolição da escravatura aumentara o número de acompanhantes do ‘Bom Jesus Conselheiro’. "O povo em massa", declarou Geremoabo, "abandonava suas casas e seus afazeres para acompanhá-lo. Com a abolição do elemento servil ainda mais se faziam sentir os efeitos da propaganda pela falta de braços livre no trabalho. A população vivia como que em delírio ou êxtase e tudo quanto fosse útil ao inculcado enviado de Deus facilmente não prestava. (...) Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem precisa regularidade".

O mesmo autor, refutando as razões do barão de Geremoabo, afirma que talvez esse chefe conservador tivesse confundido a causa com o efeito, pois não teria sido Antônio Vicente quem afastou das propriedades agrícolas os negros libertados pela Lei de 1888. O Santo Conselheiro outra coisa não teria feito senão recebê-los e, possivelmente, ampará-los, quando eles próprios, sequiosos de desfrutarem a liberdade alcançada, fugiram dos antigos locais de cativeiro. (...) Não foram poucos os ex-escravos recebidos na comunidade conselheirista. Antonio de Cerqueira Galo, morador em Tucano, localidade baiana donde saíram inúmeros seguidores do Conselheiro, numa carta enviada ao barão de Geremoabo, dando notícias dos habitantes de Canudos, destacou que o contingente de ex-escravos formava a maioria. "Lá os vultos que estão disinvolvendo (sic) a revolta" escreveu o missivista, "é o mesmo Conselheiro com os seus sequazes d’entre estes soldados e desertores de diversos Estados e o povo 13 de maio que é a maior parte."

O depoimento altamente esclarecedor de José Calasans, descobrindo novas fontes de informações que recolocam não apenas o pensamento, mas também, a ação de Antônio Conselheiro em relação ao sistema escravista e suas contradições estruturais, é plenamente corroborado pelas próprias palavras do líder de Canudos no manuscrito que sobreviveu à chacina (sabemos que ele redigiu ou ditou outros que certamente foram destruídos) intitulado Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a República.

A obra foi encontrada em uma velha caixa, no santuário, por João Pondé, médico baiano que se encontrava na expedição. Afrânio Peixoto recebeu-o de quem o encontrou e fez a doação do mesmo a Euclides da Cunha cuja reação sobre o seu texto ninguém sabe. O certo é que o subestimou, pois refere-se a outros manuscritos encontrados nos escombros, mas silencia sobre este.

Dizia Antônio Vicente Mendes Maciel nesse manuscrito, referindo-se à escravidão e à abolição do trabalho escravo:

É preciso, porém, que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família imperial, porque sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ser reduzido o ser humano; a força moral (que tanto a orna), com que ela procedeu à satisfação da vontade divina, constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, (mas) não era suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem o povo estava sujeito. Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um ministro lhe disse: Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a República como ameaça; ao que ela não ligou a mínima importância, assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do modo mais significativo que era a vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com o belo acontecimento, porque já sentiam o braço que sustentava o seu tesouro, correspondendo com a ingratidão e a irresponsabilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho. E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor do excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor do seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão.

Pelo exposto, podemos concluir que Antônio Conselheiro não foi aquele personagem bronco ou louco como se costuma afirmar nos ensaios tradicionais sobre Canudos, mas um agente de dinamização social no período que vai da escravidão e posteriormente de 13 de maio até a luta e a destruição do arraial de Belo Monte. Na primeira fase, reunia os escravos e com eles falava mediante um código de linguagem ligado à simbologia religiosa para denunciar a sua situação e sugerir a necessidade de se libertarem, com isto atraindo, numa região de pequena densidade demográfica na época, cerca de dois mil escravos para ouvirem suas prédicas, segundo testemunha da época.

Em 1897, escreve em um dos seus muitos manuscritos a aprovação que deu à abolição e procura explicar, a seu modo, porque a princesa Isabel estava apoiada nas forças divinas ao assinar a Lei de 13 de Maio, defendendo a necessidade de se acabar com a escravidão que para ele era uma situação que chegava aos limites da degradação humana.

Finalmente, quando os ex-escravos fugiam das terras que simbolizavam para eles a escravidão, Antônio Conselheiro abre-lhes um espaço físico, social e humano no qual eles se integraram, participando ativamente como agentes históricos da comunidade de Canudos até o seu final. Fizeram parte de seu componente militar, religioso e político. Lutaram juntamente com o líder que os reintegrou na sua condição humana. E, antes, quando eram ainda escravos, acenava-lhes com a possibilidade da liberdade, com eles reunindo-se e esclarecendo a possibilidade de mudança social capaz de libertá-los, palavra que era transmitida de boca em boca.

Queremos crer, por tudo isto, que Antônio Conselheiro foi um abolicionista plebeu, atuando na área rural do Nordeste, em uma região em que os líderes tradicionais do abolicionismo nunca atuaram dinamicamente, com uma mensagem dirigida às populações oprimidas e à massa dos escravos descontentes, muitos dos quais, possivelmente, saíam dos quilombos para ouvi-lo.

Fonte: www.oolhodahistoria.ufba.br

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