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Antônio Conselheiro

1830 - 1897

Antônio Conselheiro é o personagem da história do Brasil que mais tem merecido atenção dos estudiosos nos últimos anos. Nesta página apresentamos os rincipais contecimentos da sua vida, desde 1830, ano em que nasceu, até a fundação de Bello Monte em 1893.

Antônio Conselheiro

A única fotografia de Antônio Conselheiro,

Por Flávio de Barros em Canudos, em 06 de outubro de 1897.

"No tempo da Monarquia

Certos casos sucederam

Que vale a pena contar-se

Pelo que eles mereceram

Castigo que alguns levaram

Desgôsto que outros sofreram"

(Arinos de Belém)

13 de Março - 1830

Nasce na Vila do Campo Maior de Quixeramobim, na província do Ceará, Antônio Vicente Mendes Maciel, nome de batismo daquele que mais tarde ficaria célebre como Antônio Conselheiro. Era filho de Maria Joaquina de Jesus e Vicente Mendes Maciel. Segundo o escritor João Brígido, que foi amigo de infância de Antônio, os Maciéis era uma "família numerosa de homens válidos, ágeis, inteligentes e bravos, vivendo de vaqueirice e a pequena criação" (Brígido, 1919), e se envolveram em conflito com os poderosos Araújos, "família rica, filiada a outras das mais antiga do norte da província" (Ibid), naquela que foi uma das mais longas e trágicas lutas entre famílias, de toda a história do Ceará.

22 de Maio - 1830

Antônio é batizado na Igreja Matriz de Quixeramobim, conforme a certidão:

"Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta baptizei e pus os Santos Oleos nesta matriz de Quixeramobim ao parvulo Antonio pardo nascido aos treze de março do mesmo ano supra (...) Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira"

31 de agosto - 1834

Morre Maria Joaquina. Antônio e suas duas irmãs, Maria e Francisca, ficam órfãos de mãe e seu pai casa-se 1 ano, 5 meses e 11 dias depois com Francisca Maria da Conceição e tem mais uma filha chamada Rufina.

"Antônio teve uma infância sofrida. Marcaram-no os delírios alcoólicos do pai , os maltratos da madrasta, o extermínio de parentes na luta contra os Araújos, além das influências místicas comum ao meio sertanejo" (Dantas, 1966).

O escritor Gustavo Barroso, em artigo publicado na revista O Cruzeiro em 1956, escreve: " José Victor Ferreira Nobre Informava que Antonio Conselheiro cursara as aulas de latim de seu avô, o Professor Manoel Antônio Ferreira Nobre, na cidade de Quixeramobim". Mesmo com dificuldades na família, Antônio consegue se dedicar a uma boa formação escolar e estuda também Português, Aritmética, Geografia e Francês. Possui uma boa caligrafia e torna-se um jovem conceituado na cidade. "Antônio revelava-se muito religioso, morigerado e bom, respeitoso para com os velhos. Protegia e acariciava as crianças. Sofria com as rusgas entre o pai e a madrasta. Consideravam-no a pérola de quixeramobim, por se um moço sério, trabalhador, honesto e religioso" (Montenegro, 1954).

05 de Abril - 1855

Morre Vicente Maciel, pai de Antônio, que a partir de então, passa a cuidar dos negócios da família, ao mesmo tempo em que promove o casamento das irmãs. Francisca Maciel, madrasta de Antônio, morre em Quixeramobim um ano depois.

Antônio Conselheiro

07 de Janeiro - 1857

Antônio Maciel casa-se em Quixeramobim com Brasilina Laurentina de Lima.

"Aos sete dias do mês de janeiro de 1857, nesta matriz de Quixeramobim, pelas oito horas da noite, depois de preenchidas as formalidades de direito, assisti a receberem-se em matrimônio e dei a benção nupciais aos meus paroquianos Antonio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de Lima, naturais e moradores nesta freguesia de Quixeramobim (...) do que para constar mandei fazer este assento que assino.

O Vigário interino José Jacinto Bezerra"

A partir desta época, Antonio muda constantemente de cidade e de profissão, sendo negociante, professor, balconista e advogado provisionado, ou advogado dos pobres como o chamavam.

Em 1861, encontra-se em Ipu (CE), já com dois filhos, e sua esposa inicia uma relação amorosa com um furriel (antigo posto entre cabo e sargento) da polícia local. Profundamente abatido, Antônio abandona tudo e se retira para a Fazenda Tamboril, dedicando-se ao magistério. Tempos depois, vai para Santa Quitéria (CE) e conhece Joana Imaginária, mulher meiga e mística que esculpia imagens de santo em barro e madeira, e com ela teve um filho chamado Joaquim Aprígio.

Mas Antônio tinha alma de andarilho e em 1865 parte novamente. Trabalhando como negociante de varejos, percorre os povoados da região, e de 1869 a 1871 fixa-se em Várzea da Pedra, insistindo com os negócios, mas os fracassos comerciais e a provável influência do Padre Ibiapina levam-no a iniciar uma nova fase de sua vida, peregrinando por todo o Nordeste.

Passados alguns anos, Antônio em uma visita ao Ceará, encontra o escritor João Brígido, e declara: "vou para onde me chamam os mal aventurados", retomando assim uma longa caminhada pelos sertões.

Alto, magro, cabelos e barba crescidos, sandálias de couro, chapéu de palha, vestido sempre com uma túnica azul clara amarrada na cintura por um cordão com um crucifixo na ponta e um bastão na mão; esse era o Peregrino.

Honório Vilanova, sobrevivente de Canudos e irmão de Antônio Vilanova, um dos principais líderes conselheiristas, em depoimento ao escritor Nertan Macedo no ano de 1962, declarou:

Antônio Conselheiro

"Conheci o Peregrino, era eu menino, no Urucu. Se bem me recordo, foi em 1873, antes da grande seca. Ele chegou um dia a fazenda, pedindo esmola para distribuir pelos pobres, como era do seu costume. Donde vinha, não posso me lembrar. Falava-se que dos lados do Quixeramobim, mas a origem pouco importa. Compadre Antônio deu-lhe um borrego nessa ocasião.O Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir, erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará.

Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça.

Era manso de palavra e bom de coração. Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem.

Uma tarde, ele foi embora do Urucu, caminhando vagarosamente, levando no braço o borreguinho que meu irmão Ihe dera. Ficamos olhando a sua figura esquisita, durante algum tempo, do alpendre. Até que sumiu na estrada, não para sempre." Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir, erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará.

Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça.

Era manso de palavra e bom de coração. Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem.

Uma tarde, ele foi embora do Urucu, caminhando vagarosamente, levando no braço o borreguinho que meu irmão Ihe dera. Ficamos olhando a sua figura esquisita, durante algum tempo, do alpendre. Até que sumiu na estrada, não para sempre." (Macedo, 1964).

(ver documentos raros)

22 de Novembro - 1874

O jornal semanário "O Rabudo" editado na cidade de Estância (SE), publica pela 1ª vez uma noticia na imprensa sobre um certo Antônio dos Mares:

A bons seis meses que por todo o centro desta e da Província da Bahia, chegado, (diz elle,) da do Ceará infesta um aventureiro santarrão que se apellida por Antônio dos Mares: (...) O fanatismo do povo tem subido a ponto tal que affirmão muitos ser o próprio Jesus Christo (...) Pedimos providencias a respeito: seja esse homem capturado e levado a presença do Governo Imperial , a fim de prevenir os males que ainda forão postos em prática pela auctoridade da palavra do Fr. S. Antonio dos Mares moderno.

Dizem que elle não teme a nada, e que estará a frente de suas ovelhas. Que audácia! O povo fanático sustenta que n’elle não tocarão; Já tendo se dado casos de pegarem em armas para defende-lo.

O Peregrino caminha incansavelmente, conhece cada palmo do sertão, seus segredos e mistérios. Por onde anda, faz sermões, prega o evangelho e dá conselhos. Antônio se transforma, de peregrino a beato, de beato a conselheiro: Antônio Conselheiro ou Santo Antônio dos Mares ou Santo Antônio Aparecido ou Bom Jesus Conselheiro. Deixa crescer o cabelo e a barba, aprofunda seu já grande conhecimento da Bíblia, e sua fama começa a percorrer todo o interior nordestino, e gradativamente vai formando em torno de si um número crescente de fiéis seguidores.

28 de Junho - 1876

Antônio Conselheiro é preso em Itapicuru (BA), pelo delegado de polícia de Itapicuru, Francisco Pereira Assunção, que em ofício ao Chefe de Policia da Bahia, João Bernardo de Magalhães, escreve:

Antônio Conselheiro

"Peço a v.s. para dar providências, a fim de que não volte o dito fanatizador do povo ignorante; e creio que v.s. assim o fará, porque não deixará de saber da notícia, que há mezes apareceu, de ser elle criminoso de morte na provincia do Ceará ". (Apud Milton, 1902, p.10) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

A prisão do Conselheiro, foi notícia em destaque dos principais jornais de Salvador. Além do Diário de Notícias, o Diário da Bahia (27 de junho e 7 de julho) e o Jornal da Bahia, também a famosa folhinha Laemmert, por conta deste episódio, divulgou pela 1ª vez na capital do Império (RJ) notícia sobre Antônio Conselheiro.

5 de julho - 1876

O Chefe de Policia da Bahia encaminha Antônio Conselheiro ao seu colega do Ceará Vicente de Paula Cascais Teles, com a seguinte recomendação:

" ... suspeito ser algum dos criminosos dessa provincia, que andam foragidos. (...) Entretanto, si por ventura não fôr elle ahi criminoso, peço em todo caso, a v.s. que não perca de sobre elle as suas vistas, para que não volte a esta provincia, ao logar referido, para onde a sua volta trará certamente resultados desagradaveis pela exaltação em que ficaram os espiritos dos phanaticos com a prisão do seu ídolo"

(Apud Milton, 1902, p.12) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

15 de julho - 1876

Conduzido num porão de navio para Fortaleza (CE), Antonio Conselheiro foi espancado severamente na viagem e teve cabelo e barba raspados, chegando em estado lastimável ao Ceará, cujo Chefe de Policia o encaminha ao Juiz Municipal de Quixeramobim, conforme ofício:

" segue, para ahi ser posto à sua disposição, Antonio Vicente Mendes Maciel, que se suppõe ser criminoso neste termo, conforme communica-me o Dr, Chefe de Policia da Provincia da Bahia, que m’o remetteu, afim de que em Juizo, verificando da criminalidade do referido Maciel, proceda como cumpre na fórma da lei." (Apud Benicio, 1899, p. 46) (ver íntegra do ofício em documentos raros)

1° de agosto - 1876

O Juiz Municipal de Quixeramobim, Alfredo Alves Matheus, encerra o episódio em correspondência ao Chefe de Policia do Ceará:

" tendo verificado não ser o referido Maciel criminoso, o mandei pôr em liberdade alguns dias depois de sua chegada a esta cidade.

O Juiz Municipal - Alfredo Alves Matheus."(Apud Benicio, 1899, p. 46)

Mesmo comprovada a sua inocência, o boato de que teria assassinado a mãe e a esposa, perseguiu Antônio Conselheiro até o fim da sua vida. Já agora em liberdade, imediatamente retorna ao sertão da Bahia.

1877

O ano de 1877 foi célebre em todo o Nordeste: era o início da grande seca que durou 2 anos deixando um rastro de 300 mil mortos e um número incalculável de retirantes famintos, muitos dos quais comiam cadáveres nas beiras de estrada. Antônio Conselheiro vivencia a dor e o sofrimento do povo nordestino e continua suas peregrinações pelo sertão adentro, falando para os pobres e explorados, e seu comportamento desagradava cada vez mais setores influentes do latifúndio e da Igreja.

16 de Fevereiro - 1882

O Arcebispo de Salvador (BA), D. Luís José envia aos vigários de todo o Estado da Bahia, uma circular proibindo as pregações de Antônio Conselheiro em suas paróquias.

"Chegando ao nosso conhecimento que, pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado Antônio Conselheiro, pregando ao povo que se reúne pra ouvi-lo doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que esta perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párochos destes lugares, ordenamos à V. Revma. que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos parochianos que lhes prohibimos, absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, (...) Outrosim, se apesar das advertências de V. Revma., continuar o indivíduo em questão a praticar os mesmos abusos, haja V. Revma. de imediatamente comunicar-nos afim de nos entendermos com o Exm. Sr. Dr. chefe de policia, no sentido de tomar-se contra o mesmo as providencias que se julgarem necessárias."

19 de Fevereiro - 1883

Morre aos 76 anos em Santa Fé (PB), o Padre Antônio Ibiapina, lendário missionário que construiu casas de caridade em vários Estados nordestinos. Antônio Conselheiro possivelmente foi muito influenciado pelo Pe. Ibiapina, que antes de se ordenar padre, foi juiz de direito em Quixeramobim (CE) em 1833.

13 de Maio - 1888

Assinada a Lei da Abolição da Escravatura. Teve fim um longo e tenebroso período em que mais de 9 milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil, o penúltimo país do mundo ocidental a abolir a escravidão negra. Esta medida é recebida com entusiasmo por Conselheiro, que há muito tempo já fazia pregações abolicionistas. Muitos ex-escravos, os chamados 13 de maio, não encontrando trabalho e continuando a sofrer violentas discriminações, acompanham o Peregrino em suas andanças, vindo depois a se estabelecer em Canudos. A escravidão era um tema que o preocupava muito e em uma de suas prédicas, ele escreve:

(...) sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ver reduzido o ente humano; a força moral (que tanto a orna) com que ela procedeu à satisfação da vontade divina constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, não era motivo suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem esse povo estava sujeito.

Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um dos ministros Ihe disse:

Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a república como uma ameaça; ao que ela não liga a mínima importância. Assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do mundo mais significativo que era vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com tão belo acontecimento. Porque Já sentiam o braço que sustentava o seu trabalho, donde formavam o seu tesouro, correspondendo com ingratidão e insensibilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho.

E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor ou excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor de seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão." (Macedo, 1974: 180).

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