É proclamada a República. A terra e a renda continuariam concentradas na mão das elites e o poder político não foi democratizado. Novas medidas começam a entrar em vigor, como a separação entre o Estado e a Igreja, o casamento civil e a cobrança de impostos. Conselheiro não aceita o novo regime e passa a combate-lo com firmeza, escrevendo nas prédicas:.
Agora tenho de falar-vos de um assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis, de um assunto que só a incredulidade do homem ocasionaria semelhante acontecimento: a República, que é incontestavelmente um grande mal para o Brasil que era outrora tão bela a sua estrela, hoje porém foge toda a segurança, porque um novo governo acaba de ter o seu invento e do seu emprego se lança mão como meio mais eficaz e pronto para o extermínio da religião. Admiro o procedimento daqueles que têm concorrido com o seu voto para realizar-se a República, cuja idéia tem barbaramente oprimido a Igreja e os fiéis: chegando a incredulidade a ponto de proibir até a Companhia de Jesus; quem pois não pasma à vista de tão degradante procedimento? Quem diria que houvesse homens que partilhassem de semelhante idéia. A república é o ludíbrio da tirania para os fiéis. Não se pode qualificar o procedimento daqueles que têm concorrido para que a República produza tão horroroso efeito!! Homens que olham por um prisma, quando deviam impugnar generosamente a República, dando assim brilhante prova de religião.
Demonstrado, como se acha, que a República quer acabar com a religião, esta obra-prima de Deus que há dezenove séculos existe e há de permanecer até o fim do mundo; (...) Considerem portanto, estas verdades que devem convencer àquele que concebeu a idéia da República, que é impotente o poder humano para acabar com a religião.
O presidente da república, porém, movido pela incredulidade que tem atraído sobre ele toda sorte de ilusões, entende que pode governar o Brasil como se fora um monarca legitimamente constituído por Deus; tanta injustiça os católicos contemplam amargurados. (...) É evidente que a república permanece sobre um princípio falso e dele não se pode tirar conseqüência legítima: sustentar o contrário seria absurdo, espantoso e singularíssimo; porque, ainda que ela trouxesse o bem para o país, por si é má, porque vai de encontro à vontade de Deus, com manifesta ofensa de sua divina lei. Como podem conciliar-se a lei divina e as humanas, tirando o direito de quem tem para dar a quem não tem? Quem não sabe que o digno príncipe o senhor dom Pedro 3.° tem poder legitimamente constituído por Deus para governar o Brasil? Quem não sabe que o seu digno avô o senhor Dom Pedro 2.°, de saudosa memória, não obstante ter sido vítima de uma traição a ponto de ser lançado fora do seu governo, recebendo tão pesado golpe, que prevalece o seu direito e, conseqüentemente, só sua real família tem poder para governar o Brasil? (...). Afirmo-vos, penetrado da mais íntima certeza, que o Senhor Jesus é Todo-Poderoso e fiel para cumprir a sua promessa é um erro de aquele que diz que a família real não há de governar mais o Brasil: se este mundo fosse absoluto, devia-se crer na vossa opinião; mas não há nada de absoluto neste mundo, porque tudo está sujeito à santíssima Providência de Deus, que dissipa o plano dos homens e confunde do modo que quer, sem mover-se do seu trono.
A república há de cair por terra para confusão daquele que concebeu tão horrorosa idéia. Convençam-se, republicanos, que não hão de triunfar porque a sua causa é filha da incredulidade, que a cada movimento, a cada passo está sujeita a sofrer o castigo de tão horroroso procedimento. (...) Mas este sublime sentimento não domina no coração do presidente da república, que a seu talante quer governar o Brasil, praticando tão clamorosa injustiça, ferindo assim o direito mais claro, mais palpável da família real, legitimamente constituída para governar o Brasil. Creio, nutro a esperança que mais cedo ou mais tarde há de triunfar o seu direito, porque Deus fará devida Justiça, e nessa ocasião virá a paz para aqueles que generosamente tem impugnado a República. (Macedo, 1974, 175).
As prédicas de Antônio Conselheiro calavam fundo na alma do povo oprimido e explorado, em uma visita ao Ceará, encontra o escritor João Brígido, antigo colega de infância, e declara: "vou para onde me chamam os mal aventurados". Consolidava-se o mito em torno da sua figura, e o séqüito que o acompanhava nas andanças pelo sertão nordestino era cada vez maior.

Como um semeador de oásis no deserto, Conselheiro ergue templos sagrados para o povo em muitos lugares esquecidos e abandonados por onde passa. São igrejas, cemitérios e até açudes. Nestas construções, Conselheiro tinha como mestres-de-obras Manoel Faustino e Manoel Feitosa.
No depoimento a Nertan Macedo, Honório Vilanova declarou:
"O Peregrino disse a quantos o ouviram no Urucu que tinha uma promessa a cumprir: erguer vinte e cinco igrejas. Que não as construiria, contudo, em terras do Ceará. Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos Ihe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça. Era manso de palavra e bom de coração . Só aconselhava para o bem. Nunca pensei, eu e compadre Antônio, que um dia nossos destinos se cruzariam com o desse homem" (Macedo, 1964).
Localidades onde Conselheiro construiu igrejas: Crisópolis (BA), Biritinga (BA), Itapicuru (BA), Rainha dos Anjos (BA), Aporá (BA), Olindina (BA), Tobias Barreto (SE), Nova Soure (BA), Simão Dias (SE), Chorrochó (BA), Esplanada (BA) e Canudos.
Localidades onde Conselheiro construiu cemitérios: Timbó (BA), Entre Rios (BA), Ribeira do Amparo (BA), Cristinápolis (SE), Aporá (BA), Itapicuru (BA), Simão Dias (SE) e Canudos.
Ocorre em Masseté (BA) o primeiro confronto armado entre o governo e os conselheiristas. A força militar, composta de 30 soldados e 1 tenente, foi enviada de Salvador (BA), após Antônio Conselheiro liderar um movimento que destruiu na praça pública de Natuba (atual Nova Soure - BA), os editais republicanos de cobrança de impostos, atitude que provocou a ira das autoridades locais.

Em Masseté, os conselheiristas, sob a direção de João Abade e armados de garruchas, cacetes e espingardas de caça, reagiram prontamente ao ataque da força militar, provocando a fuga desordenada da tropa. Após este fato, Conselheiro percebe que a pressão do governo republicano, da Igreja e dos latifundiários tendia a crescer. Então, reúne seus seguidores e abandona o Vale do Itapicuru, centro de suas atividades por muitos anos, partindo sertão a dentro, em busca da "Terra Prometida" ( ver Bello Monte).

Fonte: www.portfolium.com.br
Chamava-se Antônio Vicente Mendes Maciel. Quando chegou aos sertões da Bahia e Sergipe, em 1874, apresentou-se como Antônio dos Mares. Seus adeptos, numerosos desde os primeiros tempos, consideravam-no santo, Santo Antônio dos Mares. Depois Santo Antônio Aparecido, Santo Conselheiro, Bom Jesus Conselheiro. Historicamente, tornou-se Antônio Conselheiro, o mais divulgado dos seus apelidos.

Tinha 44 anos no tempo da chegada. Magro, barba e cabelos crescidos e mal tratados, metido num camisolão azul, impressionava a gente sertaneja. Conversava pouco, mas pregava muito. Rezava e fazia rezar. Dava conselhos. Condenava o luxo, preconizava o jejum, verberava contra a mancebia. Seus acompanhantes deviam ser unidos pela benção da Igreja. Levantava muros de cemitérios, construía e reconstruía capelas, abria tanques d’água. Prestava grandes serviços à comunidade do sertão, fazendo que toda a gente trabalhasse nas suas obras beneméritas.
Ainda no Ceará, declarou a um conhecido que fizera uma promessa de levantar 25 igrejas. Talvez não alcançasse o número pretendido. Porém ornou os sertões de templos. Em Mocambo, hoje Olindina, no Cumbe, agora Euclides da Cunha, em Manga, atualmente Biritinga. O tempo e os homens destruíram as capelas mencionadas. Nada, porém, abalou os alicerces das igrejinhas de N. S. do Bonfim (Chorrochó), 1885, e a de Crisópolis, sob a proteção do Bom Jesus, 1892. As armas da Quarta Expedição contra Canudos derrubaram duas capelas ali erguidas a de Santo Antônio e a do Bom Jesus, esta última ainda em construção. Antônio Vicente faz jus ao título de grande construtor de pequenos templos.
A voz era suave, mansa, na hora de conversar com seus acompanhantes. Tornava-se agressiva ao combater os republicanos, os maçons, os protestantes. Desafiava-os. “Apareçam os republicanos!”gritava, levantando o cajado de pastor d`almas.
Chamava a todos de meu irmão e os irmãos tratavam-no como meu pai. Meu pai Conselheiro, beijando-lhe as mãos e até o camisolão que usava. Não queria que os fiéis se ajoelhassem diante dele. “Deus é outra pessoa”, declarava. Agradava-lhe dizer-se um simples peregrino, um pecador a purgar seus pecados.
Santo para o povão dos sertões, era acusado de prática criminosa pelos seus inimigos. Diziam que havia perpetrado, em sua província natal, um crime hediondo. Matara a esposa e a própria mãe. Levaram-no preso para Quixeramobim, a vila cearense onde nascera, a 13 de março de 1830. Nenhum delito cometera. Ele ainda não completara cinco anos quando morreu sua genitora e a esposa infiel viveu muitos anos após a separação do casal. O Juiz de Direito da comarca colocou-o em liberdade. Retornou aos sertões baianos num ano dramático, em 1877, no tempo de grande seca. Procurou ajudar os homens e mulheres vítimas da calamidade.
Além de levantar igrejas e muros de cemitério, contribuiu para a fundação de cidades. Crisópolis, Chorrochó, Olindina, nos primeiros tempos da sua formação, contaram com o trabalho do grande líder dos desafortunados nos últimos anos do século passado. Fez obra construtiva.
Caminhante inveterado, conhecia as regiões banhadas pelos rios Itapicuru, Vaza-Barris, São Francisco. Deparamos sempre com notícias de sua passagem pelos mais distantes pontos localizados nos vales dos três rios. Fazia o novo e reconstruía o antigo. Em 1892, numa das suas visitas a Monte Santo dedicou-se a restaurar as capelinhas ali levantadas por frei Apolônio de Todi, no século anterior.
Manifestou-se a favor da abolição do cativeiro e deu guarida aos negros “treze de maio”. Os caboclos dos aldeamentos de Rodelas, Mirandela, de Massacará formaram ao seu lado. No Belo Monte, uma das ruas era denominada dos negros, outra dos caboclos. Ao lado dos índios e negros apareciam os brancos em expressivo número, muitos deles homens de recursos, proprietários de pequenos lotes de terra e donos de casas de comércio. Canudos era um mundo.
A partir de 1892, a imprensa baiana começou a divulgar que o Conselheiro combatia a República. Era verdade, inexistindo, todavia, qualquer contato do chefe sertanejo com os restauradores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Partidários do Bom Jesus, em 1893, destruíram no nordeste baiano, no Soure, tábuas de impostos colocadas pelas autoridades municipais. Reagiu o Governo Estadual. Uma expedição policial, enviada para prender Antônio Vicente, foi batida na noite de 26 de maio. O Governo desistiu de remeter novas forças para vingar o insucesso sofrido. Por seu lado, suspendeu Antônio Conselheiro suas andanças, indo viver no povoado de Canudos, que ele transformou em Belo Monte, à margem esquerda do rio Vaza-Barris. A população cresceu assustadoramente. Belo Monte ficou sendo um estado dentro do Estado. Tentou-se, por intermédio de frades capuchinhos, em 1895, dissolver pacificamente a gente conselheirista. A iniciativa não foi bem sucedida. Frei João Evangelista de Monte Marciano, que dirigiu a missão, relatou seu malogro num relatório, enviado ao Arcebispo da Bahia, D. Jerônimo Tomé. As notícias do frade alarmaram as classes dirigentes. Os republicanos exaltados pediram providências.
A guerra contra o Bom Jesus Conselheiro começou em novembro de 1896. O Juiz de Direito de Juazeiro, Bahia, que tinha divergências com o Conselheiro, solicitou ao Governador do Estado, Luiz Viana, a remessa de força pública para impedir que a cidade fosse invadida pelos Conselheiristas. O Conselheiro fizera e pagara antecipadamente encomenda de madeira para a igreja nova e como o pedido ainda não fora satisfeito, boatejava-se que o povo de Belo Monte iria forçar a entrega do taboado. A solicitação do Dr. Arlindo Leone atendida, determinou a ida de uma tropa do exército, comandada pelo tenente Manoel da Silva Pires Ferreira. Era para defender Juazeiro e terminou rumando contra Canudos. No povoado de Uauá, perto do Belo Monte os soldados de linha foram atacados pelos jagunços. Os atacantes abandonaram o campo da luta mas os vencedores, sem condições para perseguir o inimigo, bateram em retirada. A primeira Expedição contra Canudos fora vencida. Nova Expedição, prontamente organizada, rumando para Monte Santo, sob o comando do major Febrônio de Brito não teve melhor sorte. Aproximou-se do arraial conselheirista, mas preferiu recuar. Vencida a 2ª Expedição, o Governo da República entregou ao coronel Antônio Moreira Cézar, soldado temido, a tarefa de defender o regime instalado em 1889, que parecia ameaçado pela gente sertaneja.
Força poderosa, mais de 1.200 homens de todas as armas, sofreu em março de 97, defronte ao povoado, uma derrota tremenda. A tropa fugiu espavorida, sem ordem, aos grupos. Morreu na peleja o famoso coronel Cézar. Os jagunços guardaram as armas e munições dos derrotados. Sobressalto nacional. República em perigo. Grupos jacobinos no Rio de Janeiro e em São Paulo empastelaram gazetas monarquistas, incendiaram carros, atentaram contra vidas. Canudos ganhou proporções de problema alarmante. Preparou-se a Quarta Expedição, chefiada por um general-de-brigada Arthur Oscar de Andrade Guimarães, com mais dois generais comandantes de colunas, oficiais superiores em grande número. Milhares de homens d`armas vindos de quase todos os estados. A tropa poderosa levou meses para abater a heróica resistência dos sertanejos. Somente em outubro, com inúmeras baixas, as milícias republicanas dominaram e arrasaram o chamado Império do Belo Monte. O vencedor, sem grandeza, degolou vencidos, que se haviam entregue. Um dos maiores, senão mesmo o maior fratricídio da história do Brasil. Uma página negra. A tragédia de Canudos merece ser recordada como uma advertência, que visa a defesa dos direitos humanos.
Fonte: www.euclidesdacunha.org