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Guerra de Canudos

História

"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos, e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados"    Euclides da Cunha

Ele vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha uma barba longa e um cabelo comprido. Usava um chapéu de abas largas para se proteger do Sol, e sandálias para caminhar no sertão. Andava sempre com um cajado, e cumprimentava as pessoas dizendo " Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo". Seus seguidores respondiam-lhe: "Para sempre seja Louvado". Era chamado de "Santo Antônio" por uns, e de "Bom Jesus" por outros. Mas, ficou mais conhecido como "Antônio Conselheiro". Seu nome de Batismo era Antônio Vicente Mendes Maciel, e entrou para história como um dos personagens mais pertubadores, e figura central num dos episódios mais trágicos da História do Brasil: A Guerra de Canudos.

Em 5 de outubro de 1897 após 4 expedições militares, um ano de sangrentas batalhas, e uma resistência feroz dos defensores, caiu o arraial de Canudos, e seu saldo foi trágico: estima-se que morreram 15.000 pessoas. Quase nada sobrou daquele arraial, uma espécie de santuário, ou como Euclides da Cunha descreveu em seu célebre livro "Os Sertões", um local "misterioso", onde habitavam jagunços e beatos, que se opunham à ordem representada pelo governo da República e o Exército Nacional. O arraial nada mais era que, uma multidão de casas de taipa, desordenadas, em volta do que era uma praça. Em primeiro momento, o exército calculou em 25.000 o número de seus habitantes, o que o tornaria a segunda maior cidade da Bahia na época, perdendo apenas para Salvador. Atualmente, este número é contestado. Na praça, havia duas Igrejas: uma menor, conhecida como "igreja velha", e a maior, a "igreja nova",uma grandiosa obra dos conselheiristas, mas nunca acabada.A Igreja Nova, foi o centro da guerra, na qual, em suas torres inacabadas, escondiam-se os sertanejos para alvejar seus inimigos, e por sua vez, tornava-se o alvo principal do canhoneiro dos soldados.

As prisioneiras - Guerra de Canudos
As prisioneiras - foto de Flávio de Barros

Conforme o relato de um dos comandantes militares, quando, no finzinho da guerra, caiu a última torre da Igreja, houve grandes manifestações de júbilo entre os soldados, e por sua vez, "uma entusiástica e violenta vaia da jagunçada". Outro fato histórico que dá o ar de "misterioso" ao arraial, era que, depois de um dia inteiro de combates, tiros, mortes, correria e cansaço de lado a lado, caia a noite, depunham-se as armas, e o silêncio tomava conta da região. De repente, um rumor começava a insinuar-se na escuridão. Percebia-se que era um coro de vozes humanas, com predominância de vozes femininas, que Euclides da Cunha explica: "O inimigo, embaixo, no arraial invisível - rezava".

As Expedições

Canudos e suas Áreas de Influência

A Guerra começou de um equívoco. Em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, correu um boato que, os conselheiristas invadiriam a cidade, em represália ao atraso de uma encomenda de madeira que solicitaram para construir a Nova Igreja do arraial. A população apavorou-se com o boato, e o juiz local comunicou o governador do Estado, Luis Viana, que prontamente, resolveu enviar a Canudos, uma expedição punitiva em novembro de 1896. A expedição, composta de 107 homens, e comandada pelo tenente Pires Ferreira, estava destinada ao primeiro dos sucessivos vexames que seriam impostos aos militares. Quando os soldados estavam próximos do arraial de Canudos, estacionados no povoado de Uauá, perceberam a aproximação de um estranho cortejo. Parecia uma procissão de penitência, pois haviam pessoas rezando, e na frente um estandarte do Divino. Mas era uma armadilha: era um batalhão do Conselheiro, munido de paus, pedras, facões, foices e trabucos - tudo o que eles conseguiram encontrar pela frente. Depois de quatro horas de combate, e de ter mais baixas que os militares, os conselheiristas puseram os inimigos a correr. Este era o término do que passou para História como a Primeira Expedição.

A Segunda Expedição, já com 560 homens, e comandada pelo major Febrônio de Brito usou Monte Santo como base de apoio para a ofensiva, assim como as outras duas expedições seguintes. A Segunda expedição quando chegou a cidade, foi recebida com ares de festa: mas tudo isso foi muito rápido. Bastaram dois dias para os conselheiristas botarem mais uma expedição para correr. A humilhação era demasiada. E por isso, foi chamado o herói de Guerra o comandante Moreira César, que com uma tropa de 1300 soldados estava prestes a invadir Canudos. Ao se aproximar de Canudos, ordenou que se disparassem dois tiros de um de seus quatro canhões Krupp. "Lá vão dois cartões de visita ao Conselheiro", disse. Ao longo da marcha, sua única preocupação, era que os conselheiristas fugissem do arraial, privando-o da glória de derrotá-los. À medida que se aproximava, seu otimismo aumentava: "Vamos tomar o arraial sem disparar mais um tiro, a baioneta". Mas Moreira César tinha um outro adversário: ele sofria de epilepsia (teve dois ataques durante a campanha de Canudos) e era muito instável e impulsivo.

Comandou o ataque pessoalmente, e num ato de desespero, partiu em direção ao arraial dizendo "Vou dar brio áquela gente". Não foi muito além. Atingido por uma bala no ventre, acabou morrendo horas depois. Seu sucessor no comando, o coronel Pedro Nunes Tamarindo, também não teve muito tempo de vida: numa tocaia no córrego do Angico, morreu e seu corpo foi recolhido pelos conselheiristas que, o empalaram e o ergueram num galho, demonstrando assim, que quem desafiava Canudos, teria o mesmo fim.

A morte do cultuado coronel elevou a potência máxima o clima nacional da histeria. Jornais do Rio de Janeiro e São Paulo só falavam de "vingança" e "morte aos monarquistas", como os conselheiristas passaram a ser chamados. Criavam-se todos os tipos de fantasia: correram rumores de um certo cabo Roque, ficou até seu último cartucho defendendo o corpo de Moreira César, e que morreu heroicamente, servindo a pátria, e lutando contra os jagunços. Uma rua em São Paulo e no Rio receberam o nome do cabo Roque, como forma de homenagem póstuma. Eis que, repentinamente, aparece o cabo Roque, são e salvo, entre os últimos fujões retardatários, e destrói o Roque da fantasia. Em julho de 1897 o jornal carioca O País, dirigido pelo então eminente Quintino Bocaiúva, publicou um artigo em que se lia: "O Monstro de Canudos": "O Monstro, ao longe, nas profundezas do sertão misterioso, escancara as guelras insaciáveis, pedindo mais gente, mais pasto de corações republicanos, um farnel mais opulento de heróis, e a fera ir-se-á abastecendo e devorando até que, num assombro de raiva, ao sentir a falta de ucharia, desse abastecimento de corpos, desgrenhe a juba, e com um arranque de sua pata monstruosa, queira esmagar a pátria, em crepe pela morte de seus filhos mais amados, pelo massacre de seu exército glorioso!"

Uma grande mobilização social seguiu-se a derrocada da Terceira Expedição. A Quarta Expedição deveria ser muito maior, e mais equipada, sendo comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, e tendo mais de 5000 soldados em suas linhas. Reuniram-se batalhões do Rio Grande do Sul ao Amazonas, e as forças desta vez foram divididas em duas colunas. A primeira vinha de Monte Santo, liderada pelo general Arthur Oscar, e tinha uma arma assombrosa: um canhão Withworth de 32 milímetros, que seria apelidado de "matadeira" pelos sertanejos. A segunda coluna estava saindo de Aracaju, comandada pelo general Cláudio Savaget. Depois de um mês de combate, dos 5000 soldados, 900 já estavam fora de combates - mortos ou feridos. Foi quando o Ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, resolveu comandar o próximo ataque, suplementando a coluna com mais 3000 soldados. Mas não foi no aumento das tropas, nem nos movimentos estratégicos, que se deu a virada na guerra. Ele decidiu comprar burros mansos, e organizar comboios para levar comida aos combatentes. Regularizado o abastecimento, o Exército começou a ganhar a guerra.

E veio o cerco, o bombardeio impiedoso, o massacre, o incêndio do arraial. Tornaram-se célebres as degolas praticadas em Canudos - as "gravatas vermelhas" aplicadas nos pescoços dos conselheiristas. Os soldados exigiam que os conselheiristas, antes de morrer gritassem "Viva a República!", mas muitos gritavam "Viva o Conselheiro!". As degolações antes eram feitas apenas á noite, mas logo, devido ao número de prisioneiros começou a ser feita durante o dia, e o número de vítimas duplicou, triplicou..."

Em 22 de setembro, morre o Conselheiro. Sua morte ficou cercada de dúvidas. Uns achavam que a causa foi uma desinteria. Outros acreditavam que foi complicações de um ferimento leve, segundo uma outra versão, talvez da desolação e da tristeza que cresciam a seu redor naqueles derradeiros momentos.

Em 6 de outubro de 1897, um dia depois da tomada de Canudos, descobriu-se o local onde tinha sido enterrado Antônio Conselheiro. Foi desenterrado, e fotografaram o cadáver. Então com uma faca afiada, deceparam-no, e mandaram sua cabeça para Salvador, para que fosse analisada pelo professor Nina Rodrigues, que acreditava que, loucos, criminosos, e perturbados de toda a espécie, apresentavam, traços de seus desvios medonhos já a partir da formação do crânio.

O professor Nina Rodrigues não encontrou no crânio do Conselheiro nenhum traço de insânia. O crânio do Conselheiro ficou "guardado" na Faculdade de Medicina da Bahia até que, em 1905 um incêndio destruiu o prédio e a relíquia. O caso do Conselheiro, é apenas um entre muitos na nossa História, que sempre adotou a prática de se cortar cabeças. Podemos citar como exemplos: Zumbi dos Palmares, Tiradentes, o líder da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, Gumercindo Saraiva, o cangaceiro Lampião e sua mulher Maria Bonita, e os crentes da Comunidade do Caldeirão, um fenômeno ocorrido em 1930 no Ceará, e quase parecido com o de Canudos. Mas essas, são outras histórias, que contaremos em outra oportunidade...

Observações: Deve-se ressaltar que este material aqui apresentado não possui nenhum intuito de divulgar ideologias, apenas servindo de trabalho acadêmico, e como tal, deve-se citar suas devidas fontes. O material utilizado para pesquisa foi o Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, e a Revista Veja, edição de 3 de setembro de 1997. As imagens aqui registradas são do fotógrafo Flávio de Barros e foram coletadas através de outros sites sobre o tema (devidamente relatados na seção links).

Personagens

Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro
Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel, naceu em Quixeramobim no Ceará em 1830, e foi professor primário, comerciante e advogado prático(rábula) antes de se tornar beato. Não era pobre nem ignorante. Alguns atribuem a guinada que deu em sua vida por uma desilusão amorosa. Em 1874 e então com 44 anos, se tem notícia do primeiro registro de Antônio Conselheiro. O jornal O Rabudo da cidade de Estância, Sergipe, conta sobre um certo Antônio dos Mares que, em andança pelo sertão, vinha atraindo um número espantoso de seguidores. Conselheiro começou sua peregrinação pelos sertões da Bahia. A República foi proclamada, e Conselheiro continuou a percorrer cidades, vilas e arraiais, e por onde passava, reformava cemitérios, igrejas, e construia capelas, além de colecionar simpatizantes e inimigos.

No início de 1890, o Conselheiro já era um grande incômodo para as lideranças político e religiosas da região. Em 1893 foram mobilizadas forças policiais que tentaram prender o Conselheiro, mas foram derrotadas em Masseté. Fugindo de seus perseguidores, resolve fundar um arraial para congregar seus seguidores, e o lugar escolhido foi Canudos. Se sozinho, Conselheiro já era um problema, ao edificar a cidade, a coisa piorou: muitas pessoas saiam das fazendas para ir morar na "Nova Terra" e seguir os ensinamentos do Conselheiro. Com o esvaziamento da força de trabalho empregada nos latifúndios dos coronéis do sertão, o ódio por Canudos aumentou consideravelmente, pois ao mesmo tempo que drenava a mão-de-obra das fazendas, retirava da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado.

O motivo de Conselheiro ser considerado monarquista, foi que, com a Proclamação da República, Antônio Conselheiro por ser muito tradicionalista, recusou-se a aceitar o novo regime. Dizia que a República era o Anti-Cristo, pois ousava separar a Igreja e o Estado. Outra característica foi instituir o Casamento Civil, que tirava da Igreja o poder exclusivo do matrimônio. O episódio de Masseté, e que teve um saldo de 3 mortos de cada lado, começou na cidade de Natuba, com os moradores locais inconformados com a cobrança de impostos. Nesta cidade, o Conselheiro incentivou a população a destruir os editais de cobrança, e mostrou seu primeiro gesto de desobediência civil. Em consequência, uma tropa policial saiu em seu encalço, e resultou no episódio de Masseté.

Com a guerra deflagrada, o Conselheiro começou a ficar muito entristecido com a destruição de sua cidade e seu povo, e veio a morrer dias antes de ver seu sonho de uma nova sociedade ser totalmente aniquilado pelo exército.

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