O movimento sertanejo ao redor de Antônio Conselheiro em Canudos teve uma forte conotação messiânica. Esse tipo de fenômeno sócio-religioso ocorre geralmente em situações de grave crise política (ameaça de invasões, brusca mudança de regime, etc..) e reflete um desespero e um temor crescente e insuportável, uma crença nas proximidades do Juízo Final e na necessidade da chegada de um salvador (messias) para resgatar a comunidade em perigo de morte.
"O messias é alguém enviado por uma divindade para trazer a vitória do Bem sobre o Mal, ou para corrigir a imperfeição do mundo, permitindo o advento do Paraíso Terrestre, tratando-se pois de um líder religioso e social" (Maria Isaura, p. 27). Obviamente que esse líder não é uma pessoa qualquer, mas sim alguém que revelou ter "qualidades pessoais extraordinárias, provadas por meio de faculdades mágicas que lhe dão autoridade; trata-se pois de um líder essencialmente carismático" (idem, p. 27).
O referencial mais remoto que anuncia a chegada desse salvador encontra-se numa passagem de Isaias: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam o país tenebroso. Multiplicaste o povo, aumentaste o teu prazer. Vão alegrar-se diante de ti, como na alegria da colheita, como no prazer dos que repartem despojos de guerra. Porque como no dia de Madjiã, quebraste a canga de suas cargas, a vara que batiam em suas costas e o bastão do capataz de trabalhos forçados. Porque toda a bota que pisa com barulho e toda capa empapada de sangue serão queimadas, devoradas pelas chamas.
Porque nasceu para nós um menino, um filho foi dado: sobre seu ombro está o manto real, e eles se chamam "Conselheiro Maravilhoso" ... Grande será seu domínio, e a paz não terá fim sobre o trono de Davi e seu reino, firmado e reforçado com direito e a justiça, desde agora e sempre. O zelo de Javé dos exércitos é quem realizará isso". (Isaías, 9).
A isso juntam-se as passagens do Apocalipse que relatam o retorno de Jesus como um vingador do povo humilhado, como um guerreiro que vem formar um novo exército de santos e que garantirá a todos que atenderem a sua mensagem de salvação a imortalidade por mil anos: " ...parecia um filho de Homem, vestindo uma longa túnica; no peito, um cinto de ouro; nos cabelos brancos como lã, como neve; os olhos pareciam uma chama de fogo; os pés eram como bronze de forno, cor de brasa; a voz era como um estrondo de águas torrenciais; na mão tinha sete estrelas; de sua boca saía uma espada afiada, de dois cortes; seu rosto era como um sol brilhando ao meio-dia.
Não tenha medo eu sou o Primeiro e o Último. Sou o Vivente. Estive morto, mas estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos". (Apocalipse, 1).
Formado o grupo de fiéis em torno do novo messias eles passam a sentir-se perseguidos pelas autoridades a quem consideram como o Anticristo ou de estar a serviço do próprio demônio. Refugiam-se em algum lugar - a Nova Jerusalém - e preparam-se para resistir ao Mal. Ali se dará a batalha final. Não se importam em morrer porque o messias lhes garante vida eterna caso sejam atingidos. Viverão ao lado do senhor por outros mil anos: "Esse louco - o Anticristo - na sua cólera implacável conduzirá um exército e cercará a montanha onde os justos procurarão refúgio. E quando esses se sentirem cercados, clamarão pelo Senhor por auxílio e Deus há de ouvi-los e enviar-lhes-á um libertador (...) e toda uma multidão de ateus será aniquilada e correrão rios de sangue." (Lactâncio, século IV).
O Sebastianismo foi um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI como conseqüência da morte do rei D. Sebastião na batalha de AlcacerQuibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português terminou nas mãos do rei espanhol Felipe II. Apesar do corpo do rei ter sido removido para Belém o povo nunca aceitou o fato divulgando a lenda de que o rei encontrava-se ainda vivo, apenas esperando o momento certo para volver ao trono e afastar o domínio estrangeiro. Seu mais popular divulgador foi o poeta Bandarra que produziu incansáveis versos clamando pelo retorno do Desejado. Explorando a crendice popular vários oportunistas se apresentavam como o rei oculto na tentativa de obter benefícios pessoais. O maior intelectual a aderir ao movimento foi o Padre Vieira.
Finalmente em 1640, pelo golpe restauracionista liderado pelos Braganças, no Porto, Portugal voltou a ser independente e o movimento começou a arrefecer no interior do Nordeste, também ser motivo da crença na chegada de um "rei bom". Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e depois nordestinas. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.
"As fases singulares da sua existência não são talvez, períodos sucessivos de uma moléstia grave, mas são com certeza, resumo abreviado dos aspectos predominantes de mal social gravíssimo. Por isso o infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o hospício."
(p. 111).
(...) "Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante."
(p. 111)
"Antônio Conselheiro foi um gnóstico bronco"
(p. 113).
"A sua frágil consciência oscilava ... entre o bom senso e a insônia. Paroi aí indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos e se acotovelam gênios e degenerados. Não a transpôs."
(p. 114).
"No seio de uma sociedade primitiva, que pelas qualidades étnicas e influxo das santas missões malévolas compreendia melhor a vida pelo incompreendido dos milagres, o seu viver misterioso rodeou-o logo de não vulgar prestígio, agravando-lhe, talvez o temperamento delirante."
(p. 121).
"Ele ali subia e pregava. Era assombroso ... Uma oratória bárbara e arrepiadora, feita de excertos truncados das Horas Marianas, desconexa, obstrusa, agravada, às vezes, pela ousadia extrema das citações latinas; transcorrendo em frase sacudidas; misto inextricável e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdrúxulas ...
Era truanesco e era pavoroso.
Imagine-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse ...
(...) A multidão sucumbida abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob estranho hipnotismo daquela insânia formidável.
E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu único milagre: conseguia não se tornar ridículo ... (p. 126)
"Espécie de grande homem pelo avesso, Antônio Conselheiro reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que formam o coeficiente doentio da nossa nacionalidade. Arrastava o povo sertanejo não porque dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele. Favorecia-o o meio e ele realizava, às vezes, como vimos, o absurdo de ser útil"
(p. 132).
"Viu a república com maus olhos e pregou, coerente, a rebeldia contra as novas leis. Assumiu desde 1893 uma feição de combate inteiramente nova (...) Ao surgir essa novidade (editais para a cobrança de impostos que visavam a autonomia municipal) Antônio Conselheiro estava em Bom Conselho. Irritou-o a imposição; e planeou revide imediato. Reuniu o povo num dia de feira e, entre gritos sediciosos e estrepitar de foguetes, mandou queimar as tábuas numa fogueira, no largo ... pregou abertamente a insurreição contra as leis."
(p. 133).
"Era um lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito" (p. 35).
"A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O novo povoado surgia, dentro de algumas semanas já feito ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelo cômoros, atulhando as canhadas, cobrindo área enorme, truncado nas quebradas, revolto nos pendores - tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto" (p. 136).
"Não se distinguiam as ruas. Substituía-as dédalo desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos ..." (p. 138).
"[os casebres] Cobertas de camadas espessas de vinte centímetros de barro, sobre ramos de iço, lembravam as choupanas dos gauleses de César. Traiam a fase transitória entre a caverna primitiva e a casa. (...). O mesmo desconforto e, sobretudo, a mesma pobreza repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a miséria do homem, a decrepitude da raça." (p. 138).
"Canudos, imunda ante-sala do Paraíso" (p. 147)
"Na falta de uma irmandade de sangue, a consangüinidade moral dera-lhe a forma exata de um clã , em que as leis era o arbítrio do chefe e a justiça as suas decisões irrevogáveis. Canudos estereotipava o fácies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros. O sertanejo simples transmudava-se penetrando-o, no fanático destemeroso e bruto. Absorvia-o a psicose coletiva. E adotava, ao cabo, o nome até então consagrado aos turbulentos de feira, aos valentões de refregas eleitorais e saqueadores de cidades - jagunços." (p. 141).
"Os jagunços errantes ali armavam (em Canudos) pela derradeira vez as tendas, na romaria miraculosa para os céus ..." (p. 142).
"A nossa civilização de empréstimo arregimentava, como sempre o fez, o banditismo sertanejo." (p. 145).
"Delineara-a o próprio Conselheiro, velho arquiteto de igrejas, requintara no monumento que lhe cerraria a carreira. Levantava, volvida para o levante, aquela fachada estupenda, sem módulos, sem proporções, sem regras; estilo indecifrável, mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito a testada de um hipogue desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante". (p. 147).
"Surpreendiam-se igualmente ao vê-lo admiradores e adversários. O aspecto reduzia-lhe a fama, de figura diminuta - um tórax desfriado sobre pernas arcadas em parêntesis - era organicamente inapto para a carreira que abraçara" (p. 222).
(...) Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grava em placidez enganadora." (p. 223).
(*) Todos esses trechos foram extraídos da 27ª edição de "Os Sertões" da Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1968.
Fonte: www.terra.com.br