Taquaruçu Cidade Santa

Taquaruçu Cidade Sante

Os caboclos sobreviventes do massacre do Irani retornam às suas terras na região de Campos Novos e Curitibanos.

Passado um ano, em dezembro de 1913, um dos seguidores do monge, Euzébio Ferreira dos Santos, com toda a sua família, inicia a organização de uma nova irmandade em Taquaruçu, no exato local escolhido um ano antes, por José Maria, para implantar o primeiro reduto.

O acampamento cresce de imediato, pois corre a notícia de que o monge em breve ressuscitaria para orientar os seus fiéis na organização da cidade santa.

O governo de Santa Catarina teme que surjam confrontos entre os acampados e as populações vizinhas e solicita a presença do Exército para garantir a segurança da região.

No primeiro ataque ao reduto, as forças militares são derrotadas pelos caboclos.

A nova peregrinação

Dias antes do combate do Irani, em 22 de outubro de 1912, entre os devotos seguidores do monge e as forças do Regimento da Polícia Militar do Paraná, José Maria diz que iria "morrer" no enfrentamento. Mas não era morrer mesmo, pois ele passaria para o outro reino. Quase que nem Jesus Cristo.

- Vocês me esperem no Taquaruçu. Dentro de um ano eu vou estar de volta para organizar o Exército Encantado de São Sebastião. E, com ele, vamos vencer todos os nossos inimigos.

Euzébio Ferreira dos Santos, pequeno fazendeiro, seguidor das idéias do monge, vive nas suas terras, em Perdizes, município de Curitibanos, aguardando o retorno de José Maria.

Em uma tarde de agosto de 1913, Teodora, a neta do fazendeiro, jura perante o avô:

- O santo monge Zémaria falou comigo. Foi lá embaixo daquela árvore.

As aparições do monge se tornam cada vez mais freqüentes. Ele dá ordens e até cura doenças, sempre através da menina privilegiada.

Depois de algumas semanas, o monge dá o ultimatum à pequena vidente:

- Para que eu continue aparecendo, exijo que dentro de três dias todos vocês se instalem em Taquaruçu. Lá vai ser a nossa Terra da Promissão, a minha cidade santa.

No dia 1º de dezembro de 1913, Euzébio Ferreira dos Santos conclui que havia chegado a hora de encontrar-se com José Maria no Taquaruçu.

De imediato, o pequeno fazendeiro e toda a sua família, com oito cargueiros, abandona as terras em que vive para encaminhar-se ao local assinalado pelo monge.

A volta do monge

A morte de José Maria, no Irani, em 22 de outubro de 1912, determina a completa dispersão dos devotos do monge. Na sua maioria, os sobreviventes da chacina decidem regressar para Santa Catarina; cruzam o Rio do Peixe e voltam a conviver com as suas famílias nos municípios de Curitibanos e Campos Novos.

O movimento fanático-religioso parece extinto. Santa Catarina perde-lhe os passos no decorrer de quase todo o ano de 1913.

No final da primeira semana de dezembro, uma notícia se espalha na região e até pela Serra Abaixo. O estimado frei Rogério, que tinha vindo da cidade de Lages, por solicitação do poderoso coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, havia seguido para um novo acampamento de fanáticos, mais uma vez no Taquaruçu, a fim de conferenciar e obter a dispersão do grupo.

No dia seguinte, já se conhece que os esforços do padre haviam fracassado. E até que ele fora mal recebido e forçado a retirar-se, diante das ameaças de morte. O número de fanáticos é de 60 a 80 homens e todos estão dispostos a oferecer resistência se forem atacados pelo governo.

Boa parte dos acampados saiu dos matos da região. Eles nada têm em comum com os poucos moradores de Taquaruçu, que até se retiraram para outros pontos.

Para o jornal O Dia, de Florianópolis, a notícia da reinstalação do reduto deve preocupar as autoridades públicas e militares, já que renasce a possibilidade de futuros enfrentamentos radicais entre os fanáticos e as forças do governo. "A existência do reduto comprova o grau de fascinação que os celebérrimos monges exercem sobre o espírito da pobre gente ignorante daquelas paragens que, segundo dizem, acha-se reunida para aguardar a volta do monge." (O Dia, 11 e 12, dezembro, 1913).

José Maria aparece em visões

A família de Euzébio Ferreira dos Santos, um dos sobreviventes do primeiro reduto de Taquaruçu, decide abandonar a localidade de Perdizes, onde vive com a família, e instala-se de novo em Taquaruçu, à espera da volta do monge José Maria.

A comitiva entra na pequena localidade e apresenta-se na casa do negociante e amigo Praxedes Gomes Damasceno.

- Peço uma pousada nesses terrenos para esperar o Zémaria, que deve estar chegando.

Praxedes Gomes e seu irmão Joaquim Gomes Damasceno haviam acompanhado José Maria até o Irani e ambos foram feridos no combate de 1912. Por isso não queriam mais entrar na confusão.

Euzébio e família recebem autorização para acampar dois quilômetros mais à frente, ao redor da casa de Francisco Paes de Farias, o Chico Ventura.

Euzébio dos Santos e Chico Ventura fornecem comida e até dinheiro para os caboclos que se agregam ao acampamento. Em poucos dias, já estão reunidos 170 homens, fora mulheres e crianças.

Instalado o acampamento, o monge não aparece em pessoa, mas fala aos caboclos através de Teodora, a neta de 11 anos de Euzébio.

Logo, logo, o monge deixa de lado a menina como porta-voz e se comunica com Manoel, filho de Euzébio, um jovem de 17 anos.

Sempre que precisa entrar em contato com o monge, Manoel se retira para o mato. Recebe as ordens e, ao repassá-las em reunião de todo o grupo, os caboclos ouvem-no com atenção.

Uma série de lendas se espalha de imediato.

Uma delas é que a intimidade entre Manoel e o monge é tão profunda que o jovem é capaz de distinguir nos matos os ramos das árvores que o monge tocou quando por ali estivera. E, por isso, ramos e árvores se tornam objeto de veneração.

Em determinadas ocasiões, os devotos chegam a beijar as mãos e os pés do jovem.

Conta-se, igualmente, que Manoel, na hora das refeições, conduz para o mato, numa bandeja, as iguarias mais apetitosas dizendo serem para o monge. Horas depois, volta com a bandeja vazia.

- O monge estava com uma fome de todo o tamanho!

O sonho da cidade santa

Euzébio Ferreira dos Santos, um homem avançado em anos, líder dos acampados, é um paranaense que vive no município de Curitibanos desde 1878.

Quando chegou à região, ainda jovem, era posseiro de umas terras devolutas e sobre elas começou a criar uma ponta de gado, que lhe deu razoável sustentação econômica.

Com o aparecimento do monge, Euzébio deixou-se envolver com as idéias do "santo homem" e com ele conviveu no primeiro acampamento de Taquaruçu, no segundo semestre de 1912.

Naquele tempo era assim. O interessado entrava nas terras-sem-dono, escolhia um pedaço, tomava posse e depois tentava requerer as terras mediante o "Título de Legitimação de Posse".

Euzébio Ferreira dos Santos e Elias de Morais estavam lutando pelo título de propriedade, mas não conseguiam porque elas haviam sido compradas por um especulador de Florianópolis.

O pequeno fazendeiro não acompanhou José Maria na aventura do Irani. E até andou escondido, logo após a morte do líder. Com a instalação do segundo reduto, Euzébio é um fervoroso crente da anunciada ressurreição do monge.

E vive dizendo:

- Feliz daquele que avistar a cola do cavalo de São Sebastião.

Euzébio Ferreira dos Santos tem plena certeza que o Exército Encantado de São Sebastião vai levantar a cidade santa de Jerusalém, ali mesmo, no Taquaruçu.

"E então Euzébio exibia aos amigos um canivete, cujo cabo, aparelhado com uma lente, mostrava lá dentro a cidade santa de Taquaruçu, tal como José Maria costumava descrevê-la, templos de pedra, edificações majestosas, ruas largas, imensos jardins - uma lindeza de cidade." (SASSI, Guido Wilmar. Geração do Deserto. Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1964, pág. 53).

A vida no reduto

No reduto, Euzébio Ferreira dos Santos e o amigo Chico Ventura realizam venda de gado e outros bens para organizar o Exército Encantado de São Sebastião e para alimentar os quase 200 caboclos, fora as mulheres e as crianças. Todos se encontram no trabalho de levantar a nova Jerusalém.

Perto da residência de Chico Ventura levanta-se uma igreja de madeira. Em torno dela vai crescendo rápido um conjunto de casas improvisadas com lascas de pinheiros e distribuídas em ruelas surgidas ao acaso. Com o passar do tempo, 500 metros adiante, foi instalada uma segunda parte do reduto.

Durante a primeira semana do ajuntamento, qualquer pessoa pode entrar e sair do reduto. Mas, logo em seguida, quem entra para receber comida ou para visitar parentes e conhecidos é obrigado a permanecer.

Euzébio tem um filho chamado Manoel, que se diz intérprete do monge, que ainda não apareceu. Manoel diz que se comunica com o monge, cujas ordens transmite aos acampados. Todas as manhãs os fiéis vão beijar-lhe os pés.

Nas primeiras semanas da vida em comum, os caboclos ocupam o tempo em rezar e em repetir procissões de louvor e de cantorias. Em todas elas, Manoel abre o desfile, acompanhado pelas virgens, meninas colocadas a serviço do monge, jovens e mulheres não casadas. Depois, vêm as mulheres casadas sem filhos, em seguida, as casadas com filhos. Os homens encerram o desfile com as suas armas e com os meninos, que preferem acompanhar os pais.

A alimentação é preparada com gêneros comprados e pagos à vista. Os animais abatidos para o consumo também são pagos a dinheiro.

O filho de Euzébio, de vez em quando, vai ao mato próximo. Lá, ouve o que lhe diz o monge para ser comunicado ao reduto.

"A vida no reduto é de orações e súplicas às vezes, acompanhadas com razoável consumo de cachaça". (O Dia, 23, dezembro, 1913). Os caboclos afirmam que não pretendem fazer mal a ninguém. Segundo ordens recebidas de José Maria, eles desejam levantar uma cidade só deles e onde possam viver em paz com todos, e felizes com eles mesmos.

Disciplina militar

O jovem Manoel, porta-voz do monge, também fala com São Sebastião e dele recebe ordem para organizar o Exército Encantado.

A vida no reduto toma um novo rumo pois, ao lado das rezas e das procissões para atrair as bênçãos do santo, os caboclos são submetidos a uma rígida disciplina militar para se tornarem capazes de repelir as maldições dos homens.

Exercícios militares acontecem todas as manhãs e são orientados por um tal Manecão Teixeira, um negro pernambucano, desertor do Exército.

A bandeira branca que se movimenta do alto de um tronco é a cor-símbolo dos acampados, a mesma dos revolucionários maragatos de 1891-1894. É proibido usar o vermelho, o distintivo dos pica-paus, os governistas daquele tempo.

O pano está atravessado por uma faixa verde em forma de cruz para copiar a bandeira de Carlos Magno e também para lembrar as cruzes de aroeira que o monge João Maria e o sucessor andaram plantando por todo o Planalto. A cruz pode ser substituída pela imagem de São Sebastião, padroeiro da capela de Perdizes, onde vivia Euzébio Ferreira dos Santos quando formou a Irmandade.

Laços de fita branca no chapéu largo com as abas caídas para trás, de longe, também distinguirão os escolhidos da cidade santa daqueles que não fazem parte do reduto.

Ao mesmo tempo em que se intensificam os exercícios militares, Manoel determina que o reduto passe a fabricar facões de madeira e que os fiéis de São José Maria realizem exercícios de combate simulado.

Santo e devasso

os residentes do Taquaruçu acreditam que José Maria aparece ao Manoel, um jovem de 17 anos, filho de Euzébio Ferreira dos Santos, o líder maior da nova cidade santa. Entre as ordens dadas pelo monge através do jovem está o rígido treinamento militar, que inclui combates simulados com facões de madeira.

Depoimento de Francisco Palhano, em 1984:

"O Izébio tinha um menino, o Mané Izébio, que era o deus. Bobão que era, não sei como era que o pessoar foram se iludi com ele. E quem não fosse beijá nos pés dele pra vê o que acontecia. Tinha que beijá, tinha que chegá, se benzê, se apoiá, beijá nos pé dele, aquele amardiçoado, todos tinha que fazê isso, não tinha bão.

Diziam que Deus tava junto ali, mas Deus não podia tá junto, fazendo aquele banditismo que faziam pros outro, faziam só banditismo, surrava com a espada, fazia o pessoar passá acordado. Toda a noite faziam porcissão também, rezavam de luz acesa, caminhando. Nóis também fumo nessa porcissão, aí, nóis tinha medo, né. O véio Izébio tinha a espada, surrava com a espada. Passemo sono e não sei o que mais, passemo tudo isso, nóis passemo". (THOMÉ, Nílson. Os Iluminados. Florianópolis, Ed. Insular, 1999, pág. 171).

Certa vez, por decisão de José Maria, Manoel passou a dormir entre três donzelas. No fim de um mês, o escândalo: o santo fizera mal às três moças. As virgens deixaram de sê-lo. O santo é demitido. No lugar dele, entra o sobrinho Joaquim, 12 anos.

De qualquer maneira, o poder no reduto continuava nas mãos de Euzébio Ferreira dos Santos, o "presidente de um sistema parlamentarista" que já havia nomeado três primeiros-ministros da mesma família: a neta Teodora, o filho Manoel e, agora, o neto Joaquim.

Impertinência do Paraná

A notícia do ajuntamento dos devotos do monge de Taquaruçu levanta uma forte reação nos meios políticos do Paraná. Não pelo perigo que o reagrupamento pudesse trazer à região do Contestado, já que, afinal, o reduto estava localizado em terras que mansa e pacificamente são admitidas como pertencentes ao Estado de Santa Catarina.

A impertinência é política e se torna bem mais nervosa a partir de 1904 e, principalmente, depois de 1909, quando, nas duas vezes, o Supremo Tribunal Federal decide que o Paraná não detém nenhum direito nas terras localizadas ao sul dos rios Negro e Iguaçu.

Face ao rápido crescimento do novo reduto, Curitiba garante que os caboclos estão sendo reagrupados dentro de um plano das autoridades de Florianópolis. A lógica intervenção das forças federais iria garantir a posse de todo o território Contestado para as gulas de Santa Catarina. A análise dos paranaenses que envolve os acampados do Taquaruçu não passa de considerações puramente especulativas e por isso recebe pronta resposta do governo Vidal Ramos:

"Só uma grande dose de má-fé pode encontrar correlação entre o novo levantamento do reduto e um possível desejo por parte de Santa Catarina de ampliar a sua jurisdição sobre o território que está em litígio no Supremo Tribunal Federal. A impertinência injustificada e a mania de perseguição dos nossos vizinhos esperam arrebatar um território que sempre pertenceu a Santa Catarina conforme, por duas vezes, acaba de definir o Supremo Tribunal Federal".

Tentativa de padre fracassa

A notícia do ajuntamento dos devotos de José Maria, em dois locais, um distante do outro cerca de meio quilômetro, no reduto de Taquaruçu, bem como a sua nítida organização e treinamento militares, deixa em sobressalto a cidade de Curitibanos.

Notícias alarmantes chegam de todos os lados. As autoridades municipais começam a temer possíveis ataques dos caboclos em busca de alimentos ou de armas.

Antes de solicitar a presença de um reforço militar para restabelecer a tranqüilidade da região, o coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, convence o frei Rogério, agora vivendo em Curitibanos, a deslocar-se ao reduto para tentar a dissolução dos acampados.

Das memórias de frei Rogério:

"No dia 8 de dezembro, às 10h da noite, cheguei debaixo de uma chuva torrencial à casa de Praxedes Gomes Damasceno. Disseram-me que o grupo de Euzébio estava ali a dois quilômetros, organizado ao redor da casa de Chico Ventura. Às 7h do dia 9, com quatro pessoas, consigo entrar no acampamento. Exponho o motivo da minha visita.

"Eu vos considero como meus filhos. Quero bem a vós todos. Até estou pronto a dar a minha vida por vós. Convido-vos para assistir à Santa Missa e, depois, cada um volte para a sua casa".

A demorada entrevista se mostra inútil. Euzébio e o filho Manoel se recusam a desfazer o acampamento. Continua o frade:

"Dirigi-me a algumas mulheres pedindo que, por amor aos seus filhinhos, se retirassem. Replicou uma delas:

- Se morrermos, morreremos na fé de Deus.

Montei na mula, dirigindo-me, ainda uma vez, a Euzébio:

- Se o senhor não quiser aceitar meus conselhos, digo-lhe o último adeus, porque o senhor morrerá".

Remédios inúteis

Os órgãos de Segurança do Exército nacional vêem o ressurgimento do reduto de Taquaruçu com os olhos ainda voltados sobre os destroços da estratégia militar aplicada em Canudos. A nova Canudos, plantada no sertão de Santa Catarina, deve ser cortada nas suas raízes, tanto mais que ela está brotando pela segunda vez. Mas a tropa se mantém calada, em estado de alerta, recolhida aos quartéis, à espera da manifestação concreta dos governadores de Santa Catarina ou do Paraná.

Em 16 de dezembro de 1913, o presidente do Estado do Paraná, Carlos Cavalcanti, através de telegrama, despacha um recado autoritário ao seu vizinho do Sul.

"Mais uma vez está ameaçada a paz pública com os fatos que se estão desenrolando nos sertões de Taquaruçu. A única causa que determina esses fatos e continuará a determinar de futuro, é a situação criada pela questão dos limites entre os dois estados, porque ela torna incerta, hesitante e precária a ação dos respectivos governos, em certos pontos do Contestado. Adotemos o arbitramento para dirimir a nossa contenda."

No dia seguinte, Vidal Ramos devolve o troco.

"Permita que eu manifeste o meu desacordo quanto à afirmação de que a causa única das lamentáveis ocorrências, que vêm perturbar a tranqüilidade das populações dos nossos dois estados, seja a velha questão de limites. Em minha opinião, esses tristes fatos têm sua origem na degradante e mesquinha condição a que o analfabetismo reduz os infelizes habitantes dos nossos sertões. Quanto ao arbitramento, sérios motivos me levam a discordar desse processo, em se tratando de pleitos ainda não julgados definitivamente."

O Exército nacional e os dois governadores manejam línguas diferentes. Estratégia militar, procedimentos jurídicos e ações do governo no campo da educação, tudo no mesmo laboratório, são remédios inadequados para dissuadir os caboclos a abandonarem pacificamente a cidade santa que estão construindo, sob as bênçãos de São José Maria.

Relato sobre os fanáticos

O coronel Zacharias de Paula Xavier, proprietário da Fazenda Butiá Verde, próxima ao reduto do Taquaruçu, entrevistado por um jornal da Capital, presta as seguintes informações:

- Coronel, o que nos diz em relação aos fanáticos?

- Eles estão acampados em dois grupos, um a meio quilômetro do outro, chefiados por Praxedes de tal, Euzébio e seu filho, que tem grande influência sobre o pessoal.

- Qual o verdadeiro intento dos sertanejos?

- Sei que não os anima ideal algum. São fanáticos simplesmente, cujo desejo é o de brigarem se forem atacados. Contam mesmo com a vitória, profetizada pelo filho de Euzébio, que se diz vidente.

- É verdade que os fanáticos estão armados?

- Sei que parte dos fanáticos está armada com facões fabricados no Rio Negro e em Blumenau. Outra parte carrega facões de pau e outra tem cacetes falquejados em quatro faces com um prego na ponta. Poucos são os que carregam carabinas.

- Parece que eles têm uma organização militar?

- É verdade. Dizem que todas as manhãs há exercícios de ataque e defesa, servindo de instrutor um soldado do Exército que desertou.

- De onde tiram os elementos para a sua subsistência?

- Todos eles são abastecidos por Euzébio e seus lugares-tenentes, os quais alardeiam possuir 10 contos de réis para sustentar os acampados. A verdade é que até agora não atentaram contra a propriedade alheia. Entre eles existem, ao que consta, homens honestos e abastados.

Perigo à vista

A notícia da presença, no Taquaruçu, de um grupo de seguidores do monge José Maria, reacende a movimentação das autoridades civis e militares de Santa Catarina.

A cada dia que passa, aumentam os boatos sobre o número de acampados. Num primeiro momento, frei Rogério pôde contar "entre 60 e 80 homens capazes de oferecer resistência". Dois dias mais tarde, os fanáticos seriam 200, pois o frade não viu uns tantos outros que podiam estar reunidos no acampamento não visitado. Uma semana decorrida, a confusão e os boatos misturam os números para baixo e para cima.

- Dizem alguns informantes que esse número não passa de 100 homens; outros, que ele se eleva a 300.

Informado através de seu compadre, coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, superintendente municipal de Curitibanos, o governador Vidal Ramos comunica a existência dos caboclos acampados ao presidente do Estado do Paraná e ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar com sede em Curitiba.

O governador catarinense não se limita apenas a expedir telegramas. No dia 9 de dezembro, o chefe de polícia do Estado, o desembargador Sálvio Gonzaga, acompanhado por um destacamento de 60 praças do Regimento de Segurança, inicia viagem a Curitibanos. O objetivo da operação é "evitar que a ignorância explorada pelo banditismo produza derramamento de sangue, perturbando consideravelmente a ordem nos sertões catarinenses".

O desembargador-policial leva instruções positivas e severas de Vidal Ramos para, antes do emprego da força e da violência, lançar mão de todos os meios possíveis para conseguir "suasoriamente a dispersão e o desarmamento" dos caboclos acantonados.

Plano para o ataque

O coronel Vidal Ramos, governador do Estado, comunica ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar com sede em Curitiba, que no lugar denominado Taquaruçu foi localizado um ajuntamento de 150 homens e 50 mulheres, a maior parte, armados.

Quatro dias depois, em outro telegrama, remetido ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, Rivadávia da Cunha Corrêa, Vidal Ramos solicita do governo federal medidas eficazes para evitar que "o bando de fanáticos, como da outra vez, tome o caminho de Palmas, ou se interne pelos sertões de Canoinhas e Timbó".

O governador catarinense toma a liberdade de sugerir que a força federal, dois contingentes, seja transportada pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Um destacamento deveria desembarcar na estação de Rio Caçador para tomar a direção de Curitibanos e o outro teria como destino Herval ou Capinzal e daí seguir para Campos Novos.

Os dois grupos deveriam reunir-se, nas proximidades de Taquaruçu, com um outro destacamento da Polícia Militar de Santa Catarina que já estava subindo de Florianópolis, para Lages e Curitibanos.

O governo federal atende à sugestão do governo catarinense. De Porto União da Vitória, despacha dois destacamentos expedicionários. Os 100 homens, sob as ordens do capitão Adalberto de Menezes, desembarcam em Rio Caçador, e outros 60, sob o comando do capitão Esperidião de Almeida, seguem até a estação do Herval.

As ordens recebidas, tanto de Curitiba quanto de Florianópolis, são claras: "Observar os movimentos de um grupo de fanáticos que se reuniu em Taquaruçu, mas evitar hostilizá-lo."

Marchas fora de compasso

A marcha, via terrestre e a pé, desde Rio Caçador até Taquaruçu, da tropa do capitão Adalberto de Menezes, convive com uma série enorme de imprevistos. Primeiro, o capitão deve bater-se com inúmeros contratempos para organizar o sistema de apoio que acompanhará o grupo. Os tropeiros e os proprietários das mulas levantam dúvidas sobre o pagamento do aluguel e a indenização dos que se perderem ou forem mortos.

Os animais são conseguidos porque o negociante Guilherme Gaertner decide servir como fiador da operação de empréstimo. Foi muito difícil pôr em marcha a tropa de mulas. Algumas delas corcoveavam e disparavam com a carga que lhes era colocada sobre as costas. Acontece ainda que os soldados não sabem conduzir a tropa, que deveria atravessar terrenos montanhosos e praticamente sem veredas adequadas para permitir a passagem do animal carregado com a respectiva bruaca.

No trajeto, o capitão se depara com a péssima qualidade dos caminhos. Os soldados equipados, em completa ordem de marcha, com o farnel de comida e demais apetrechos, desde logo, sentem-se extenuados pelas íngremes subidas e descidas bastante freqüentes. A coluna é obrigada a parar muitas vezes para aguardar que um ou outro animal desgarrado retome o trilho, ou para carregá-lo novamente porque ele cuspiu a carga aos corcovos, diante do obstáculo que se apresentava à sua frente.

Três frentes da confusão

O plano de ataque ao Taquaruçu foi elaborado pelo capitão do Exército Lebon Régis, secretário-geral dos Negócios do Estado de Santa Catarina. Dentro do esquema, três destacamentos militares marchariam por veredas separadas em demanda ao ajuntamento.

Do norte, a partir de Rio Caçador, desceriam 100 homens do capitão Adalberto de Menezes; do sul, desde Herval-Campos Novos, subiriam os 60 soldados do capitão Esperidião de Almeida; de Curitibanos, marchariam rumo noroeste, os 60 praças da Polícia Militar de Santa Catarina, comandados pelo capitão Euclides de Castro.

Ao todo eram 220 soldados bem armados e muito bem guarnecidos de armamentos, nele incluído algumas metralhadoras. Os três destacamentos trazem ordens expressas do governador Vidal Ramos:

"Dispersar e desarmar os sertanejos sem derramamento de sangue. Em seguida, fazer incidir sobre os criminosos a ação enérgica da polícia."

O capitão Esperidião de Almeida, na sua qualidade de oficial mais antigo, é o comandante-geral das forças em marcha. Os três destacamentos iniciam a caminhada em pinça sobre Taquaruçu, desde Caçador-Campos Novos-Curitibanos. A partir de uma certa altura da marcha, nenhum dos três grupos dispõe de mapas, de informações sobre o terreno, de garantia da colaboração dos guias, os vaqueanos.

Antes da chegada ao reduto, a uma légua de distância, a tropa do capitão Adalberto junta-se ao destacamento dos soldados da Polícia Militar. Mas os soldados do capitão Esperidião de Almeida não se reúnem aos companheiros, já que o comandante prefere permanecer alojado em uma fazenda das proximidades.

Trapalhadas e festejos

O destacamento da Polícia Militar de Santa Catarina está aquartelado nas proximidades de Taquaruçu enquanto aguarda a chegada de uma força do Exército, sob o comando do capitão Adalberto de Menezes. O grupo catarinense está constituído por 60 praças, um capitão, um alferes e 60 civis. Também integra o destacamento o desembargador Sálvio Gonzaga, chefe de Polícia do Estado.

No dia 27 de dezembro, os dois destacamentos, já agrupados, recebem correspondência do capitão Esperidião de Almeida, comandante do outro grupo e de toda a operação, determinando que a marcha sobre o reduto ocorra no dia 29. E iniciaria o ataque o contingente que primeiro chegasse ao local. Para confirmar que tinham recebido a notícia sobre o dia do ataque, quatro civis são enviados à fazenda onde está acampado o comando-geral. Os emissários são confundidos com espiões. Oficiais e praças do capitão Almeida ameaçam-nos de morte e seqüestram-lhes as armas que levam.

Para complicar o mapa do ataque, com a proximidade do entrevero, vários civis incorporados ao destacamento da Polícia Militar, sob diferentes pretextos, desligam-se do batalhão catarinense. A fileira de civis vai rareando a cada hora que passa e fica reduzida a 15 homens, para supremo desgosto e irritação do desembargador Sálvio Gonzaga.

No dia 29, às portas do reduto, caboclos e militares se enfrentam em inesperado tiroteio. A coluna do capitão Adalberto é recebida à bala quando se aproxima de Taquaruçu. Há troca de tiros durante três horas.

Taquaruçu está defendida só por nove caboclos. Os outros tinham ido fazer guarda ao sul da cidade santa, pois esperavam o ataque da coluna do capitão Esperidião. Um tiro de metralhadora feriu Euzébio na perna. Os caboclos, entrincheirados, balançam bandeiras e dão vivas a Zémaria.

O tiroteio atraiu os outros caboclos. A coluna descobre a possível chegada de reforço dos caboclos. Ela sai em correria e abandona aquilo que não pode carregar. A derrota das forças legais convence os fanáticos que eles são invencíveis porque estão protegidos pelo monge. A notícia se espalha por toda a região e mais gente adere ao movimento dos caboclos.

Retirada em ordem

O capitão Adalberto de Menezes relê o relatório que vai encaminhar ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar, sobre o ataque-surpresa dos caboclos às forças militares do governo.

"Após 3 horas e 40 minutos de lenta marcha, alcançamos a casa do chefe Chico Ventura, abandonada, porém tendo ainda aceso o fogo de lenha. Estávamos, portanto, em pleno Taquaruçu.

Contávamos encontrar ao menos um insignificante povoado. Mas Taquaruçu não é absolutamente o que se nos afigurava. De tanto repetir o nome, esperávamos entrar em um enorme aglomerado de ranchos e acampamentos.

De repente, uma descarga de Winchester desaba sobre as nossas tropas. Um soldado cai atingido. Uma enorme confusão de nossa parte deixa escapar o prisioneiro que nos havia servido como guia para chegar até o reduto. Apesar do tiroteio, a força sob o meu comando avança em ordem, procurando posição para melhorar o ataque e a defesa.

Uma incessante fuzilaria mostrou a impossibilidade de sustentar o combate. Ao toque de preparação para cessar-fogo, tudo entrou em ordem, mesmo ouvindo-se o continuado estrépito das Winchester dos fanáticos.

Respondemos com as nossas metralhadoras. Mas a luta tornou-se inviável, já que a força do capitão Almeida não apareceu para nos auxiliar. Uma retirada em regra se impunha diante da impossibilidade de uma vitória, nada provável, devido à natureza do terreno e do tipo de inimigo a combater.

Infelizmente tenho a registrar a morte do segundo-sargento Augusto César de Oliveira, vítima de uma lesão cardíaca."

Vitória do Exército Encantado

Para os acampados no reduto de Taquaruçu, o Exército Encantado de São Sebastião havia derrotado, quase sem sangue, os inimigos do santo monge, mesmo representados por dois destacamentos militares do Exército Nacional e um da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina.

Depois do encontro, é voz corrente no reduto:

"Só oito de nós enfrentamos os atacantes. O resto todo estava deitado na grama esperando os ‘peludos’. Mas os ‘pés redondos’ debandaram desde o primeiro instante, com medo de nossas espadas e de nossos facões.

A confusão entre os soldados foi tanta que um dos nossos laçou uma metralhadora e arrastou ela amarrada na chincha do cavalo."

Também servem para aumentar a auto-estima dos "soldados" do Exército Encantado outros fatos acontecidos no decorrer do enfrentamento. Durante a fuzilaria, grande parte da tropa de mulas que trazia armamento e alimentação para os soldados da Polícia Militar disparou para o meio do mato e muitos animais foram mortos pelos tiros das próprias forças militares.

O mais comentado é o fato que o capitão Euclides de Castro não conseguiu comandar em ordem a sua tropa, carente de qualquer instrução militar para exercício real de ataque e defesa. Na sua maior parte, os praças de Santa Catarina sempre estiveram em destacamentos com pouco exercício para enfrentar um inimigo de verdade e muito bem organizado.

Por último, caiu prisioneiro um soldado ferido, que veio a morrer no dia seguinte. Pouco antes de morrer ele solicita:

"Quero que me tirem o fardamento e que me ponham roupa civil. Vou morrer paisano."

Capitão de campo limpo

O capitão de Exército Esperidião de Almeida, na qualidade de oficial mais antigo, era o comandante-geral das forças que participaram do ataque ao reduto de Taquaruçu.

Na impossibilidade de cronometrar uma operação coordenada pelos três destacamentos militares, ficou decidido que a força que primeiro alcançasse o reduto, a ela competiria romper o fogo. Portanto, não se tratava mais de dialogar com a liderança da cidade canta. Era atacar e pronto. No entanto, as ordens do ministro da Justiça e Negócios Interiores e do governador Vidal Ramos eram claras: procurar por todos os meios possíveis impedir o derramamento de sangue.

O capitão Esperidião de Almeida, por uma estranha decisão, não chegou a incorporar-se aos dois destacamentos ,que acabaram sendo atacados pelo reduto. Informado da surpresa do ataque dos caboclos, o capitão preferiu retornar a Campos Novos com o seu destacamento já que, segundo ele, nenhum dos vaqueanos que o acompanhava conhecia o terreno no local das operações. Os vaqueanos conheciam muito bem o terreno, pois eram da região.

Em Curitiba, o capitão justifica o fracasso da missão. "Não atacamos o reduto porque não ouvimos o tiroteio das forças do capitão Adalberto. O local era extremamente perigoso. Parece que existe telepatia entre os fanáticos. Eles tudo sabem, enquanto nós, os atacantes, nada sabemos.

Tudo indica que os habitantes da região estão de acordo com esses malfeitores, já que nada informam sobre o reduto. Apenas dizem que são homens inofensivos, dominados por idéias religiosas. O capitão Albino Barros, do Herval, me disse que o atual movimento do Taquaruçu se parece muito com uma fita cinematográfica. Enquanto gritam fogo, uns correm e abandonam o bando; outros sabem que não há fogo e ficam nos seus lugares tranqüilamente.

Os catarinenses estão interessados em perturbar a ordem na zona contestada. Eles levam o terror às autoridades paranaenses, a fim de que estas abandonem os seus postos para deixarem o campo limpo às pretensões de Santa Catarina sobre a posse de todo o Contestado." (O Dia, 13, janeiro, 1914).

Inobservância do dever militar

Em julho de 1915, os catarinenses tomam conhecimento de um fato bastante desagradável ocorrido dentro das forças armadas que se empenham na luta contra os rebeldes do Planalto.

Dezoito meses antes, mais precisamente em 13 de janeiro de 1914, o Supremo Tribunal Militar havia condenado o capitão Esperidião José de Almeida a 14 meses de prisão simples, com acréscimo de sexta parte, pelo crime de inobservância do dever militar. O comandante do destacamento havia deixado de colaborar com uma coluna do Exército e outra da Polícia Militar de Santa Catarina, que acabaram desbaratadas pelos rebeldes entocados no reduto de Taquaruçu, em 13 de dezembro de 1913.

O capitão havia recorrido da sentença, mas o tribunal confirmou a punição. O governo do Estado de Santa Catarina, um dos denunciantes, manda publicar em primeira página do jornal O Dia (3, julho, 1915), os termos da sentença confirmatória.

O fato incriminatório ao comportamento do capitão teve início quando a tropa do capitão Adalberto Gonçalves de Menezes quase foi destroçada pelos fanáticos acampados no reduto que deveria ser tomado pela força das armas.

Meio que justificando a vergonheira do desastre, o capitão Adalberto, um dos derrotados, apresenta relatório ao general inspetor da XI Região Militar, em Curitiba, comunicando que o capitão Esperidião José de Almeida, com sua tropa, havia deixado de colaborar com o assalto ao reduto, uma vez que permaneceu inativo a menos de seis quilômetros do local do enfrentamento.

A ausência do reforço acarretou perdas de vidas durante o ataque e posterior retirada das forças militares

Em sua defesa, o capitão incriminado alega que não se uniu às forças legais atacadas pelos fanáticos pela falta de guias, os vaqueanos, capazes de conduzi-lo às portas do reduto. O Supremo Tribunal Militar confirmou a sentença, baseado numa lei da Física: mesmo sem guias, o capitão poderia ter-se orientado pelo tiroteio, que durou cerca de três horas.

Fonte: www.alca-bloco.com.br