Não houve desde o final das Guerras Napoleônicas, em 1815, até a deflagração da Grande Guerra, em 1914, guerras internacionais envolvendo todas ou mesmo a maioria das grandes potências (predominantemente européias). Houve algumas guerras - como, por exemplo, a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) - entre duas grandes potências.

A maior parte delas encerrou-se em um pequeno espaço de alguns meses, ou mesmo de algumas semanas, com um número de perdas de vidas humanas relativamente reduzido. Uma delas - a Guerra da Criméia (1854-1856) - chegou a envolver três grandes potências (Rússia, Inglaterra e França), durou quase dois anos e custou a perda de mais de 450 mil vidas (dois terços das quais russas). Fora da Europa, na periferia da política mundial, algumas guerras foram empreendidas por poderes imperialistas ou por estados com ambições imperialistas contra estados mais fracos (notadamente, nas Américas, a Guerra Mexicana, 1846-1848 entre os EUA e o México). Houve também duas guerras civis bastante extensas e extremamente selvagens - as Guerras Taiping, na China (nas décadas de 1850-60), com perdas de vida incalculáveis, e a Guerra Civil americana (1861-1865), na qual morreram mais de 600 mil soldados da União e da Confederação - e, no México, com início em 1910 (bem no final do "longo século XIX"), uma violenta revolução social. Finalmente, na América do Sul, ocorreram diversas guerras - a maior parte delas de menor importância - entre os estados independentes recentemente formados a partir da emancipação dos antigos impérios espanhol e (no caso do Brasil) português, sobretudo envolvendo estados que tinham interesses conflitantes, quer no tocante a costa do Pacífico, quer ao Rio da Prata.
A mais longa, mais sanguinolenta e mais destrutiva das guerras que assolaram a América do Sul no século XIX foi a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, que começou com a declaração de guerra pelo Paraguai em primeiro lugar ao Brasil e depois à Argentina, seguida por uma invasão aos territórios desses dois países, e acabou por se tornar uma guerra travada entre Brasil, Argentina e Uruguai para a destruição do Paraguai. Foi sem dúvida a mais prolongada e - com exceção da Guerra da Criméia - a mais violenta guerra interestados já ocorrida em qualquer parte do mundo entre 1815 e 1914. Durou mais de cinco anos (de outubro/novembro de 1864 a março de 1870) e consumiu cerca de 300 mil vidas (embora, à luz da pesquisa moderna, o número de 200 mil ou até 150 mil vidas possa ser considerado uma estimativa mais razoável). Além disso, a guerra teve um impacto profundo sobre os assuntos econômicos, sociais e políticos de todos os quatro países nela envolvidos.
Foi um episódio inserido na guerra civil extremamente longa entre blancos e colorados, no Uruguai - a rebelião do general Venâncio Flores (do Partido Colorado) contra o governo Blanco do presidente Bernardo Berro, em abril de 1863 -, que detonou a seqüência de eventos que culminou com a invasão do Brasil e da Argentina pelo Paraguai e, portanto, com a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. A Guerra do Paraguai tem suas raízes, sob certo ponto de vista, nas lutas entre Espanha e Portugal, nos séculos XVII e XVIII, e entre as então recém-independentes Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina); e, mais especificamente ainda, entre a província de Buenos Aires, e, primeiro, Portugal, e depois, o recém-independente Império do Brasil, nas segunda e terceira décadas do século XIX pelo controle da chamada "Banda Oriental" (ou Lado Oriental) do Rio da Prata. Esse conflito havia sido, no entanto, amplamente resolvido, muito antes dos eventos que levaram diretamente à deflagração da Guerra do Paraguai. Em 1828, após a mediação britânica, tinha sido criada a República Independente do Uruguai, estabelecida como um estado "pára-choque" (ou intermediador) entre a Argentina e o Brasil. E, em 1851-52, o ditador argentino Juan Manuel de Rosas, o principal inimigo do Uruguai independente, havia sido derrotado por uma Tríplice Aliança prévia (liderada por Entre-Rios e seu caudilho, o general Justo José de Urquiza), que reunia o Uruguai, o Brasil e as províncias argentinas, que se opunham a Rosas e a uma dominação por parte de Buenos Aires. Na verdade, em 1863-64, Argentina e Brasil, pela primeira vez, estavam do mesmo lado numa crise no Uruguai e não tinham intenção de entrar em guerra - pelo menos não entre si.
Após cerca de um década, durante a qual Buenos Aires tinha ficado independente, as províncias do Rio da Prata haviam finalmente - e, como se viu mais tarde, definitivamente - sido unificadas, em 1861. Na decisiva batalha de Pavón, o general Bartolomé Mitre - o governador liberal de Buenos Aires, que, em 1862, viria a se tornar o primeiro presidente eleito da República Unida da Argentina - tinha recebido apoio do general Flores e dos colorados (liberais) uruguaios. Em abril de 1863, por sua vez, Mitre apoiou Flores em sua tentativa de derrubar o governo blanco (conservador) em Montevidéu. A principal preocupação de Mitre era garantir que o Uruguai não voltasse, mais uma vez, a concentrar um possível foco de oposição residual federalista nas províncias, ameaçando uma Argentina unificada sob a hegemonia de Buenos Aires.
Durante a década de 1850, o Brasil havia aumentado enormemente os seus interesses econômicos e financeiros, bem como a sua influência política sobre o Uruguai. Já no final dessa década, mais de 20 mil súditos brasileiros, na maioria gaúchos, juntamente com seus escravos, ali se haviam estabelecido. Os brasileiros constituíam mais de 10% da população uruguaia. Eles possuíam, talvez, 30% da terra, incluindo algumas das melhores propriedades disponíveis, e transportavam livremente o seu gado para as charqueadas no Rio Grande do Sul. Mas a administração de Berro, eleita em 1860, tinha começado a adotar uma linha mais dura, tentando restringir o assentamento de brasileiros (e o direito de possuir escravos) e procurando controlar - e taxar - o comércio feito através da fronteira. O Rio Grande do Sul, estado dominado por tendências liberais, que há apenas 15 anos tinha desistido da luta para se tornar independente julgou que o governo imperial do Rio de Janeiro fosse proteger os seus interesses no Uruguai. À medida que as tendências políticas nacionais ficavam cada vez mais simpáticas aos liberais (culminando, em janeiro de 1864, com a nomeação de um governo liberal-progressista, sob a liderança de Zacarias Góis e Vasconcelos), os governos brasileiros foram se tornando cada vez mais sensíveis às pressões vindas do Rio Grande do Sul. Assim o Brasil, a exemplo da Argentina, apoiou a rebelião colorada, iniciada pelo general Flores, no Uruguai, em abril de 1863.
Foi exatamente nessas circunstâncias que o governo blanco, no Uruguai, voltou-se para o Paraguai como seu único possível aliado contra os colorados, agora apoiados tanto pela Argentina como pelo Brasil.
O Paraguai, uma província de fronteira do Vice-Reinado do Rio da Prata, havia conseguido separar-se tanto da Espanha como de Buenos Aires, em 1811-1813. O país já era e permanecia sendo não apenas geograficamente isolado (até a derrota da Bolívia na Guerra do Pacífico, no final do século, o Paraguai era o único Estado latino-americano cercado por terra), uma nação que falava predominantemente a língua guarani, como era também um país culturalmente isolado. Sob a ditadura do doutor José Gaspar Rodríguez de Francia (1813-1840) e, em menor proporção (pelo menos até a década de 1850), sob a ditadura do seu sucessor, Carlos Antonio López, o Paraguai tinha se isolado política e economicamente de seus vizinhos. Seu papel fora bem pouco significativo nas guerras civil e interestados do Rio da Prata durante a primeira metade do século XIX.
Ele tinha, contudo, muito receio e alimentava sentimentos de profunda desconfiança com relação aos dois vizinhos - muito maiores, muito mais populosos do que ele e potencialmente predatórios -, as Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina) e o Brasil, que, por sua vez, tinham pendências envolvendo domínio territorial contra o Paraguai. A Argentina reconheceu a independência do Paraguai em 1852. Havia pontos de atrito com os dois países sobre a liberdade (ou não) de navegação no sistema hidroviário Paraguai-Paraná. O Brasil pediu ao Paraguai que desse à província de Mato Grosso acesso ao Rio Paraná, e portanto, ao Atlântico, via Rio Paraguai. A Argentina deveria dar ao Paraguai acesso ao Atlântico através do Rio Paraná. Durante a década de 1850 - visto que primeiramente o Brasil e, a seguir a Argentina ultrapassaram os obstáculos para a consolidação da sua unidade interna e da sua estabilidade, e que sobretudo o Brasil adotou uma atitude que o Paraguai encarava como uma política imperialista com relação ao Uruguai -, o governo de Carlos Antonio López passou a implementar, com crescente empenho, uma política de modernização econômica - e militar -, passando então a fazer uso efetivo da tecnologia e dos técnicos britânicos.
Francisco Solano López - a quem o governo de Berro, em Montevidéu, tinha recorrido em busca de ajuda em julho de 1863, após as conseqüências da invasão empreendida por Flores - tinha assumido o poder no Paraguai, em outubro de 1862, depois da morte do pai. Inicialmente hesitante em estabelecer uma aliança formal com os blancos - seus aliados naturais - contra os colorados, no Uruguai, agora que estes últimos contavam com o apoio tanto do Brasil como da Argentina, durante a segunda metade daquele ano, López começou, numa espiral ascendente, a advertir a Argentina e o Brasil contra o que ele considerava uma ameaça crescente ao equilíbrio de poderes existente no Rio da Prata, que, em sua opinião, garantia a segurança, a integridade territorial e a independência do Paraguai. Ele também vislumbrou uma oportunidade de fazer sua presença sobressair na região, uma chance de desempenhar um papel que estivesse à altura do novo poder econômico e militar do Paraguai. No início de 1864, López começou a se mobilizar, tendo em vista uma possível guerra.
Depois que toda diplomacia havia fracassado nas tentativas de resolver as diferenças com o governo uruguaio, a administração de Zacarias, no Rio de Janeiro, acabou por expedir, em 4 de agosto de 1864, um ultimatum ao Uruguai, com ameaças de retaliação em resposta a pretensas ofensas sofridas por súditos brasileiros, bem como uma intervenção direta em favor dos rebeldes colorados, López enviou um ultimato ao Brasil, em 30 de agosto, contra qualquer intervenção no Uruguai. Quando o aviso foi ignorado e as tropas brasileiras invadiram o Uruguai, em 16 de outubro, López tomou a fatídica decisão de declarar guerra ao Brasil, capturando o navio Marquês de Olinda, que rumava para o Mato Grosso, através do rio Paraguai e, em dezembro de 1864, invadiu esta província brasileira. A Argentina recusou permissão para que o Exército paraguaio atravessasse o território das Missiones - motivo de tantas contendas e altamente despovoado - e invadisse o Rio Grande do Sul e, em última análise, o Uruguai. López declarou guerra também à Argentina e, em abril de 1865, invadiu a província argentina de Corrientes.
Assim, Francisco Solano López iniciou o que veio a se tornar a Guerra do Paraguai. Até que ponto suas ações foram racionais, provocadas pelo Brasil e pela Argentina, essencialmente em defesa de interesses nacionais ameaçados (talvez mesmo em defesa da sobrevivência do seu país); ou irracionais, agressivas e expansionistas, tendo a intervenção brasileira no Uruguai servido de pretexto ou de oportunidade para que uma personalidade megalomaníaca realizasse o sonho de construir um império - esses são ainda pontos a serem debatidos. Mas, qualquer que tenha sido o pensamento inspirador das ações, qualquer que tenha sido a sua motivação, a decisão de López de declarar guerra primeiro ao Brasil e depois à Argentina, e de invadir os territórios dos dois países, constituiu um erro gravíssimo de cálculo, erro que traria conseqüências trágicas para o povo paraguaio. Na pior das hipóteses, López lançou-se em um jogo arriscado - e perdeu.
Ele superestimou o poder econômico e militar do Paraguai. Ele subestimou o potencial (sem considerar o efetivamente existente) do poder militar brasileiro - e a disposição para a luta do Brasil. Enganou-se ao imaginar que a Argentina ficaria neutra numa guerra entre Paraguai e Brasil. Por diversas ações, como vimos, tanto a Argentina como o Brasil apoiaram os colorados na sua luta contra os blancos, e Mitre não acreditou que os interesses argentinos, inclusive a contínua independência do Uruguai, estivessem ameaçados pelo que ele esperava ser uma breve intervenção cirúrgica do Brasil no Uruguai, em defesa de seus próprios interesses. López também exagerou na avaliação das contradições internas da Argentina e na possibilidade de que, por exemplo, Entre-Rios (ainda sob a liderança de Urquiza) e Corrientes impedissem a Argentina de entrar na guerra contra o Paraguai, ou que, caso houvesse guerra, ficassem do lado paraguaio e contra Buenos Aires.
Dessa forma, as imprudentes ações de López trouxeram à tona exatamente a coisa que mais ameaçava a segurança e até mesmo a existência de seu país, uma união entre os dois vizinhos poderosos - na verdade, visto que Flores tinha finalmente conseguido tomar o poder em Montevidéu, em fevereiro de 1865, uma união dos três vizinhos - em uma guerra contra ele. Nem o Brasil nem a Argentina tinham uma contenda suficientemente séria com o Paraguai que justificasse uma situação de guerra. Eles não desejaram nem planejaram uma guerra com o Paraguai. A guerra não contava com o apoio nem era uma reivindicação popular. Na verdade, a guerra provou ser impopular, falando em termos genéricos, nos dois países, mas sobretudo na Argentina. Mas a necessidade de se defender contra a agressão paraguaia (fosse ela em grande parte provocada ou justificada) ofereceu aos dois países (Brasil e Argentina) uma oportunidade de fazer um "acerto de contas" com o Paraguai, bem como de punir e enfraquecer, talvez mesmo de destruir, um poder emergente e preocupante dentro de sua região.
Mitre e D. Pedro II não confiavam em López. Além disso, Mitre agarrou essa oportunidade de remover um regime que, a exemplo dos blancos, no Uruguai, ele encarava como um foco perpétuo de resistência federalista para Buenos Aires e, portanto, como uma ameaça constante ao processo de tornar a Argentina uma verdadeira nação. Por sua vez, D. Pedro aproveitou a chance de afirmar a inquestionável hegemonia brasileira na região (talvez em toda a América do Sul) e, sobretudo, de estabelecer uma hegemonia sobre o Paraguai, em lugar de uma hegemonia argentina.
Determinar até que ponto o Brasil e a Argentina também estavam à espreita de minar e destruir um "modelo" paraguaio de desenvolvimento econômico "autônomo" liderado pelo Estado, que supostamente representava uma ameaça ao avanço do "modelo" do capitalismo liberal na região; saber se, como "neocolônias" britânicas, os dois países foram, ou não, estimulados ou manipulados a deflagrar uma guerra contra o Paraguai, a fim de abrir a única economia fechada remanescente na América Latina para os produtos manufaturados e para o capital britânicos - estas são questões que procurei tratar em meu ensaio, neste volume. Meu argumento é que existe muito pouca - se é que há alguma - evidência capaz de dar suporte a esta tese "revisionista", muito embora os empréstimos britânicos para a Argentina e, mais especificamente, para o Brasil, antes e durante a guerra - bem como a venda de armas britânicas -, sem dúvida tenham sido uma contribuição muito importante para a eventual vitória dos aliados sobre o Paraguai.
Em 1o de maio de 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai assinaram um tratado de Aliança contra o Paraguai. Os objetivos dos aliados eram: (a) acabar com a ditadura de López; (b) garantir a livre navegação nos rios Paraguai e Paraná; e (c), secretamente, conquistar definitivamente para o Brasil o território sobre o qual ele julgava ter direito, situado no noroeste do Paraguai, e, para a Argentina, o território que ela reclamava para si no leste e oeste do Paraguai. À medida que a guerra foi se desenvolvendo, tornou-se, tanto para o Brasil como para a Argentina, uma guerra pela civilização contra o barbarismo - apesar do fato bastante estranho de que, após a emancipação dos escravos ocorrida nos Estados Unidos, em 1863, durante a Guerra Civil, o Brasil era (além da colônia espanhola de Cuba) o único Estado em todo o hemisfério ocidental a ter uma sociedade e uma economia baseadas no trabalho escravo (além de continuar sendo a única Monarquia).
A Guerra do Paraguai não era inevitável. Também não era necessária. Mas, uma vez que Flores saiu de Buenos Aires em direção ao Uruguai, em abril de 1863, ela apenas poderia ter sido evitada: (a) se o Brasil tivesse sido menos veemente em defesa dos interesses dos seus súditos no Uruguai e, sobretudo, se não tivesse intervindo militarmente em seu favor; (b) se a Argentina tivesse ficado neutra no conflito entre o Paraguai e o Brasil; e, mais importante que tudo, (c) se o Paraguai tivesse agido com mais prudência, reconhecendo as realidades em termos de poderes na região e procurando defender seus interesses por meios diplomáticos, e não bélicos.
Considerando-se a enorme disparidade entre os dois lados em termos de tamanho, riqueza e população (e, portanto, em termos de recursos materiais e humanos, tanto reais como potenciais), a Guerra do Paraguai, desde o início, se nos apresenta como uma luta desigual. O Brasil (população de quase 10 milhões, incluindo entre 1,5 e 2 milhões de escravos), a Argentina (população de 1,5 milhão) e o Uruguai (população de 250 mil a 300 mil) uniram forças contra o Paraguai (população de 300 mil a 400 mil (?), certamente muito menos do que o 1 milhão ou mais ainda freqüentemente mencionados). Em termos militares, no entanto, os dois lados estavam em proporções mais bem equiparadas. Na verdade, no início da guerra (e, pelos menos, durante o primeiro ano), o Paraguai provavelmente tinha, ao menos numericamente, uma clara superioridade militar. Estima-se, muito disparatadamente, que o Exército Regular paraguaio tinha entre 28 mil e 57 mil homens, mais os reservistas (entre 20 mil e 28 mil) o que significa dizer que, virtualmente, toda a população masculina adulta estava pronta para combate. Isto deve ser comparado com o Exército argentino de 25 mil a 30 mil homens (dos quais somente 10 mil ou 15 mil estavam disponíveis no caso de uma guerra externa, o que nos mostra o grau de fragilidade da recém-conquistada unidade e estabilidade argentinas); com o Exército do Uruguai de 5 mil homens (se tanto), e o do Brasil, de 17 mil a 20 mil (embora o Brasil também contasse com os corpos policiais das províncias e uma ampla reserva, de até 200 mil homens, na forma da Guarda Nacional.)
No decorrer da guerra, o Paraguai mobilizou pelo menos de 70 mil a 80 mil homens (embora provavelmente menos do que os 100 mil homens algumas vezes mencionados). Ele podia mobilizar de 30 mil a 40 mil a qualquer momento, mas após a derrota de Tuyuti, em maio de 1866, raramente enviou para o campo de batalha mais de 20 mil homens. Depois que as forças paraguaias foram expulsas do território argentino (e não parecia haver nenhuma possibilidade concreta de retorno), a Argentina reduziu o seu envolvimento com o esforço de guerra aliado, de maneira que, por volta do final da guerra, havia somente um contingente de cerca de 4 mil homens no solo paraguaio. O Uruguai teve uma presença meramente simbólica no teatro das operações. Por outro lado, o Brasil, que foi assumindo responsabilidades cada vez maiores, considerando-se a campanha como um todo - por exemplo, em agosto de 1867, havia de 40 mil a 45 mil soldados da Aliança no campo (três quartos destes brasileiros) -, expandiu seu Exército Regular para 60 mil ou 70 mil homens durante o primeiro ano das hostilidades, lançando mão de recrutamento forçado, do uso de escravos (que recebiam alforria em troca do serviço na guerra) e de unidades militares formadas por voluntários (os Voluntários da Pátria, que também incluíam muitos negros nascidos livres, como por exemplo, o Príncipe Obá, tema de um ensaio da autoria de Eduardo Silva neste volume). Ao longo da guerra, estima-se que o Brasil tenha mobilizado entre 130 mil e 150 mil homens (embora, provavelmente, não os 200 mil relatados por alguns historiadores), e a proporção de tropas recrutadas da Guarda Nacional caiu de cerca de 75%, em 1866, para menos de 45%, em 1869.
Além disso, ao contrário do Paraguai, que tinha que confiar em seu próprio arsenal e estaleiros, os aliados também tinham acesso armas e navios de guerra fabricados e comprados no exterior, na maior parte na Europa, bem como a empréstimos levantados na City de Londres para ajudar no pagamento desse "reforço". E os aliados, ou seja, o Brasil, possuíam uma superioridade naval absoluta. No início da guerra, o Brasil já dispunha da maior e mais poderosa marinha da região (33 embarcações a vapor e 12 a vela); e, em dezembro de 1865, o primeiro de uma série de encouraçados, o Brasil, entrou em cena.
Os combates em si podem ser divididos em três fases. A primeira teve início com as limitadas ofensivas paraguaias contra o Mato Grosso, em dezembro de 1864, e Corrientes, em abril de 1865. Em maio de 1865, o Exército paraguaio finalmente atravessou as Missiones e invadiu o Rio Grande do Sul. No começo muito bem-sucedida, a invasão acabou sendo contida pelas forças aliadas. Os paraguaios nunca chegaram a alcançar o Uruguai. O comandante paraguaio, coronel Estigarribia, rendeu-se ao presidente Mitre (comandante das forças aliadas durante os primeiros dois anos e meio da guerra), ao Imperador D. Pedro II - em sua única visita à zona de guerra - e ao presidente Flores, em Uruguaiana, em 14 de setembro. O Exército paraguaio recuou, atravessando o rio Paraná, e preparou-se para defender a fronteira sul do país. No final do primeiro ano de guerra, as únicas tropas paraguaias que permaneciam em solo aliado eram umas poucas unidades localizadas em Mato Grosso (que continuou como um front secundário dentro da guerra). Nesse ínterim, em 11 de junho, em Riachuelo, no rio Paraná, logo abaixo do porto fluvial de Corrientes, na única batalha naval da guerra que realmente foi importante, a Marinha Imperial destruiu a esquadra paraguaia e instituiu um efetivo bloqueio do Paraguai, mantido até o final da guerra.
A segunda e principal fase (que incluiu diversos períodos em que quase não havia luta de fato) começou quando os aliados finalmente invadiram o Paraguai, em abril de 1866, e estabeleceram seu quartel-general em Tuyuti, logo acima da confluência dos rios Paraná e Paraguai. Nesse local, em 24 de maio, eles rechaçaram uma violenta investida paraguaia e ganharam a primeira grande batalha terrestre da guerra. Contudo, passaram-se mais de três meses até que os exércitos aliados começassem a avançar, subindo o rio Paraguai. Quase imediatamente, em Curupaiti, em 22 de setembro apenas dez dias depois de um encontro entre Mitre e López, em Yatayti-Corá, no qual López ofereceu vantagens que incluíam concessões territoriais para que a guerra pudesse chegar ao fim, contanto que ele próprio fosse poupado e que o Paraguai não fosse totalmente desmembrado e ocupado de forma permanente, proposta definitivamente rejeitada -, os aliados sofreram a sua pior derrota na guerra. Eles não renovaram seus esforços de avanço até julho de 1867, quando foi iniciado um movimento para cercar a grande fortaleza fluvial de Humaitá (a Sebastopol do Paraguai), que bloqueou o acesso ao rio Paraguai e à capital paraguaia, Assunção. Mesmo assim, foi preciso mais de um ano (agosto de 1868) até que Humaitá fosse finalmente ocupada, e mais uns cinco meses (janeiro de 1869) até que, após uma derrota decisiva e a destruição virtual do Exército paraguaio na batalha de Lomas Valentinas (em 27 de dezembro), as tropas aliadas (na maior parte brasileiras), que, desde janeiro de 1868, estavam sob a liderança do comandante-em-chefe brasileiro, o Marquês de Caxias, finalmente invadiram Assunção e colocaram um ponto final na guerra - ou assim pensavam eles, na época.
Houve, entretanto, uma terceira fase da guerra. López constituiu um novo exército na Cordillera a leste de Assunção e liderou uma campanha de guerrilha que, embora limitada, foi bem-sucedida, contra as forças aliadas. Finalmente foi derrotado e teve suas tropas massacradas, em 16 de agosto de 1869, na última grande batalha dessa guerra, em Campo Grande, ou Acosta Nhu. O próprio López escapou novamente. Ele e sua companheira irlandesa, Elisa Alicia Lynch, foram perseguidos, em direção ao norte, pelas tropas brasileiras, por mais uns seis meses, até que López foi finalmente encurralado e morto em Cerro Corá, no lado extrema da região nordeste do Paraguai, em 1o de março de 1870.
Por que foi preciso tanto tempo para que os aliados conseguissem dar um fim bem-sucedido a essa guerra a despeito da esmagadora superioridade naval e, pelo menos após Tuyuti, terrestre? Bem no início da guerra, Mitre tinha declarado que os aliados estariam dentro de Assunção em um período de três meses. Na verdade, foram necessários quase quatro anos para que os aliados chegassem à capital paraguaia. E, mesmo então, a guerra ainda se arrastou por mais um outro ano. A explicação está, por um lado, na parte dos aliados, ou melhor, na parte do Brasil, visto que, após o primeiro ano, mais ou menos, este travou a guerra praticamente sozinho. O governo brasileiro enfrentou enormes problemas logísticos, primeiro organizando seus contingentes, depois transportando-os por milhares de quilômetros, tanto por terra, como por mar e por rio, e, finalmente, tendo que abastecer as tropas. Destruir as excelentes defesas terrestres e fluviais do Paraguai não era uma tarefa nada fácil. Mas também não se pode negar que os comandantes aliados, inclusive os brasileiros, demonstraram um elevado grau de falta de aptidão, tática e estratégica (Nota do Copista: É bom não esquecer que os generais brasileiros nunca antes travaram uma guerra remotamente parecida com esta. E também lembrar como o próprio Marquês de Caxias comparava a fartura de meios de comunicação que os generais da União e da Confederação tiveram na Guerra Civil americana em comparação com a penúria de meios materiais dentro de um país hostil e totalmente desconhecido em termos topográficos)Por outro lado, as tropas paraguaias - na verdade, o povo paraguaio - permaneceram fiéis a López e lutaram com uma tenacidade extraordinária. No final, quando a sobrevivência nacional estava em jogo, lutaram heroicamente. Isto e a determinação dos aliados de levarem a guerra té o final mais doloroso explicam por que o confronto foi tão sangrento.
A guerra foi, para o Paraguai, um desastre quase que absoluto. No final, ele sobreviveu como um Estado independente (muito embora, no período imediatamente pós-guerra, tenha ficado sob a tutela do Brasil). A mais extrema conseqüência da derrota, o desmembramento total, foi evitada, quanto mais não fosse por causa da rivalidade entre os vencedores. O orgulho nacional dos paraguaios permaneceu intacto, talvez até acrescido. Mas o território foi reduzido em cerca de 40%. Embora a perda populacional tenha sido grosseiramente exagerada - até mesmo calculada em 50% da população paraguaia do período anterior à guerra (em geral aumentada), ou seja, 200 mil, 300 mil ou meio milhão de mortos - , estimativas mais recentes de 15% a 20% (até menos) de uma população de pré-guerra, estimada em contingente muito menor, ou seja, entre 50 mil e 80 mil mortes, tanto nos campos de batalha quanto por doenças (sarampo, varíola, febre amarela e cólera), constituem percentuais extremamente elevados segundo os padrões de qualquer guerra moderna. A economia do Paraguai ficou em ruínas, suas bases de produção e de infra-estrutura foram destruídas, seus primeiros passos de desenvolvimento voltados para fora, através de um comércio mais amplo e de uma integração mais estreita com a economia mundial, levaram uma geração ao retrocesso. Indenização vultosa foi imposta pelos vencedores, embora acabasse sendo revista (não no caso do Brasil, até a Segunda Guerra Mundial). O que sobrou do Exército paraguaio foram tropas desprovidas de armamentos e as fortificações fluviais, famosas e poderosas, ficaram permanentemente inutilizadas. Tropas brasileiras (e algumas argentinas) mantiveram a posição no Paraguai por quase uma década.
Dentre os dois principais vencedores - visto que o Uruguai tinha sido um participante relativamente insignificante e foi muito pouco afetado pela guerra, quer de forma positiva ou negativa -, a Argentina sofreu (possivelmente com alguns exageros) perdas estimadas de 18 mil homens em batalhas, mais 5 mil em distúrbios internos provocados pela guerra, e 12 mil na epidemia de cólera. O território que conseguiu conquistar ficou aquém de suas ambições - a astuta diplomacia brasileira manteve a Argentina fora da região norte do Chaco. Mas ela conseguiu assegurar finalmente as Missiones e o Chaco Central, até o rio Pilcomayo. Um Paraguai cada vez mais forte e potencialmente expansionista havia sido erradicado da política do Rio da Prata. E, no saldo final, a guerra tinha contribuído positivamente para a consolidação nacional. Entre-Rios e Corrientes mantiveram a união. As rebeliões dos montoneros, em diversas províncias tinham sido debeladas. Buenos Aires foi aceita como a capital inquestionável de uma República Argentina unida. A identidade nacional argentina ficara consideravelmente mais fortalecida. O solo estava pronto para receber as notáveis transformações econômicas, sociais e políticas da Argentina durante a metade do século seguinte.
No caso do Brasil, a quem coube a principal contribuição para o esforço de guerra responsável pela vitória, os custos, mas também os benefícios da vitória, foram ainda maiores. As perdas humanas totalizaram pelo menos 25 mil ou 50 mil em combates, acrescidas das mortes por doenças (embora muito provavelmente menos do que o número de 100 mil por vezes mencionado).
Entretanto, o Brasil conquistou do Paraguai todo o território que ele reivindicava, entre o rio Apa e o rio Branco. E o próprio Paraguai, até mais que o Uruguai, estava agora firmemente sob a influência e o controle brasileiros.
O custo da guerra deixou uma grande nódoa nas finanças públicas do Brasil. Mas essa mesma guerra também estimulou a indústria brasileira - sem chegar a mencionar as fábricas de produtos têxteis (para uniformes do Exército) e o arsenal do Rio de Janeiro - e, de alguma maneira, modernizou a infra-estrutura do país.
O recrutamento, o treinamento, o fornecimento de vestuário, de armamentos e o transporte para um exército tão grande tinham desenvolvido a organização ainda rudimentar do Estado brasileiro. A guerra também aguçou as tensões sociais de diversas maneiras, mas, no saldo final, estimulou a causa da reforma social.
De maneira bastante significativa, em maio de 1867, D. Pedro anunciou que, após guerra, seriam tomadas medidas no sentido de emancipar os escravos brasileiros. De fato, foi preparado o terreno para o que veio a se tornar a Lei do Ventre Livre (1871), a legislação mais importante que levou à abolição final da escravatura, em 1888. A guerra também estimulou a discussão sobre a reforma política no Brasil. Não foi por acaso que o último ano da guerra presenciou o nascimento no Partido Republicano (1870).
Finalmente, a guerra produziu, pela primeira vez no Brasil, um exército moderno e profissional interessado em desempenhar um papel político.
A ligação entre a Guerra do Paraguai e o golpe militar de 1889, que estabeleceu a República no Brasil, é demasiadamente conhecida e dispensa que aqui se teçam maiores comentários.
É muito fácil constatar por que, para o Império Brasileiro, baseado sobre a escravidão, a vitória na Guerra do Paraguai é tantas vezes representada como uma vitória de Pirro.
Fonte: www.militar.com.br