Manuel Nunes Viana foi um português radicado na Bahia muito jovem. Ficou conhecido por atos de coragem que o levaram do sertão baiano para a região mineira onde se tornou proprietário de lucrativas lavras de ouro.
Várias lendas circulam sobre ele. O Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil alega que teria assassinado a própria filha, por não aprovar seu amor a um rapaz pobre; que afogava seus inimigos em uma lagoa próxima de sua fazenda; e que apressava a morte dos doentes ricos de sua região para tomar-lhe suas fortunas.
Esteve envolvido na Guerra dos Emboabas com papel preponderante. Era amigo de Pascoal da Silva e despertou a animosidade do governador D. Pedro de Almeida, conde de Assumar.
De Viana do Minho, era filho de Antônio Nunes Viegas. Chegou adolescente à Bahia, recomendado a um rico comerciante. Começou sua vida de trabalho como caixeiro, sina de tantos portugueses que desembocavam no Brasil. Mas era «dócil e inteligente, insinuante e amável».
Notícias das carências no sertão de Minas Gerais fizeram-no levar àquelas montanhas do ouro um rico e abastecido comboio de gêneros; triunfou por sua aptidão, amaneirado para tratar com os fregueses, adquirindo logo confiança e estima. Antonil lhe calculará mais tarde a fortuna em 50 arrobas.
Em Minas, obteve lavras abundantes de ouro a légua e meia de Caeté, nas abas da serra da Piedade e outras em sociedade com seu primo e amigo Manuel Rodrigues Soares, em Catas Altas; passou a ter fazendas de criação de gado no Jequitaí, no rio São Francisco e na Jacobina, pois era também procurador de D. Isabel Guedes de Brito. Esta Isabel era filha do mestre de campo Antônio Guedes de Brito. Deu a Manuel Nunes Viana procuração para defender seu direito sobre o imenso domínio herdado do pai no interior da Bahia.
Sua casa, dizem os cronistas, era um verdadeiro castelo de armas, arsenal completo; o único trabalho, quando do rumor que os Paulistas pretendiam atacá-lo, foi o de chamar sua gente em ordem: numerosa escravatura que formava por si só uma legião de combatentes sob o comando do fiel negro Bigode. Os forasteiros do Sabará e do Rio das Velhas marcharam para o defender e se uniram aos do Caeté. O terror da guerra invadiu então os paulistas, e os principais entre eles trataram de acalmar os ânimos, pois tamb+em muitos deles eram amigos particulares de Manuel Nunes Viana. Lavrou-se termo de tal ajuste, os partidos se obrigando a depor as armas; Manoel Nunes Viana tudo tinha a perder com guerra e intimamente não a desejaria... Queria antes enriquecer mais, engrossar seus cabedais. Seu maior inimigo, Jerônimo Pedroso, retornou então à sua fazenda do Itatiaiaçu donde só sairá mais tarde pª a guerra.
Houve outros incidentes mais tarde, com um certo José Pardo e seus filhos bastardos carijós, que mataram um português em plena rua, mas por sua vez, para outros, seria «homem de grande suposição, inofensivo e benquisto.» Foi renovado outro acordo, desta vez entretanto a duras penas, para haver paz entre os dois grupos. Mas em fins de novembro de 1707 espalhou-se o boato de que os Paulistas, em conluio no rio das Velhas estavam decididos a matar os forasteiros num só dia que seria 10 de janeiro de 1708! Apesar de falso, o boato conseguiu efeito calamitoso.
A procuração dada por D. Isabel Guedes de Brito serviu para obter que o Governo do Estado do Brasil lhe desse o título de regente e mestre-d-campo do rio São Francisco, como tivera Antônio Guedes de Brito: o que equivalia a torná-lo encarregado de vigilância do gado nos limites entre o Morro do Chapéu e as nascentes do rio das Velhas, combater os índios, destruir os quilombos, castigar ladrões e assassinos. Fundou por conta própria grandes currais de gado e se fez construir uma bela casa em Tabua, perto do confluente do rio das Velhas com o rio São Francisco. Atraído logo pelas Minas de Caeté, explorou-as e, paralelamente, favorecia, contra as ordens reais, comércio de gado entre Minas e a Bahia.
Enquanto isso, o governador Artur de Sá Meneses, nas melhores disposições, tomara medidas para organizar o fornecimento de gado aos açougues dos distritos de Minas, e os dera com privilégios (em 1701 e a vigorar até 1706) ao comerciante abastado Francisco do Amaral Gurgel, que dispunha de cabedais ao nível de tal empresa. Amaral Gurgel gastou muito dinheiro no conserto e alinhamento dos caminhos para o sertão e, dispondo de recursos, tinha monopolizado tambem o comércio do fumo em rolo e da aguardente que se importavam da Bahia e eram gêneros indispensáveis aos mineiros. Amaral requereu pois ao governador, já D. Fernando Martins Mascarenhas, a prorrogação, justificando a prorrogação por seu pouco lucro, os sacrifícios feitos e o bem dos povos - abrindo generosamente os cordões da bolsa. Mas o que o povo chamava «estancos do Amaral» eram flagelos, os Paulistas bradavam contra os contratistas, apoiados pelo povo todo.
Puseram-se à testa do movimento Bartolomeu Bueno da Silva, o Feio, depois chamado o Anhangüera, e Domingos Monteiro da Silva. Convocaram uma junta no rio das Velhas e representaram contra a prorrogação do privilégio. D Fernando, o governador, fez o que era comum - pôs uma pedra em cima dos papéis.
Mas, de acordo com o regime, os contratos subiam à aprovação do Rei. À vista da hesitação de D. Fernando, que por ato expresso não queria dar força nova ao contrato, enquanto se esperava a aprovação do Rei, Amaral Gurgel se recolheu à sua fazenda do Bananal. Frei Francisco assumiu o negócio, partindo para o Rio de Janeiro. Uma rês custava nos currais da Jacobina, na Bahia, três ou quatro oitavas, nos currais do São Francisco custava já oito ou nove: vendida nos açougues do rio das Velhas produzia 70-80 mil réis; nos de Ouro Preto ou da vila do Carmo, entre 80-90 mil réis. Estava assim em jogo assim mais de 30 arrobas de ouro: uns compravam, outros vendiam, ganhavam os tropeiros e os fazendeiros dos caminhos que alugavam os pastos de engorda e descanso. Outro frade trinitário, Frei Firmo, era o sublocatário dos açougues do rio das Velhas, um verdadeiro leão na defesa do monopólio. E Nunes Viana, regendo as vastas possessões de D. Isabel, que mediam 160 léguas de extensão no São Francisco, e tendo de suas as fazendas de Jequitaí e da Taboa, claro que se interessava demais pelo assunto dos estancos, pois por tais paragens passavam os gados tanto de Matias Cardoso quanto pelo rio Verde, pelo caminho do Guaratuba. Os "caminhos do gado", aliás, eram da Tranqueira, por Matias Cardoso, e dai à Barra do rio das Velhas, subindo por este rio acima até o arraial do Borba, hoje Arraial Velho; e outro caminho que subia da Tranqueira pelo rio Verde às cabeceiras do Gorutuba ou Guaratatuba, rio das Araras, de onde se acabava no último curral do rio das Velhas a 24 léguas abaixo do Sabará.
Outro interessado em grandes lucros era Sebastião Pereira de Aguilar, rico baiano das Minas, que possuía fazendas de engorda e de criação, entre outras a do ribeirão das Abóboras, a mais vantajosa por ter no seu âmbito o arraial da Contagem, onde se numerava o gado para o pagamento do imposto de duas oitavas e meia por cabeça, quer destinado ao rio das Velhas, quer ao Carmo-Ouro Preto. Tal fazenda era enorme, pois se estendendia das divisas do Curral del Rei até os serrotes do Anhanhonhecanhuva ou Serro Frio. Da Contagem, parte do gado seguia para Sabará, Caeté e outros arraiais da zona do ouro, outra parte para a Itabira e ali se subdividia em lotes para a serra do Ouro Preto pela Cachoeira, ou para a vila do Carmo por Miguel Garcia.
Quando da guerra em 1707 Manuel Nunes Viana tomou a chefia contra os paulistas. Com a chegada porem do governador de São Paulo, Antônio de Albuquerque, retornou à sua fazenda do Jequitaí ou a sua casa da Tábua.
Em 14 de fevereiro de 1715 obteve o perdão de D. João V de seus crimes. Entretanto, dizem os cronistas que constantes abusos d poder (dezembro de 1718) como mestre-de-campo do São Francisco o obrigaram a voltar a viver na Bahia.
Esteve em Lisboa de 1725 a 1728 onde recebeu testemunhos do favor do Rei. Retornando à Bahia, teria morrido em 1738. Antonil diz que em 1710 teria, assim como Manuel de Borba Gato, pouco menos arrobas de ouro que as 50 de Francisco do Amaral Gurgel ou seja...800 quilos!
Manoel Nunes Viana figura nas cartas que escreveu o governador ao Ouvidor do rio das Velhas sobre motins que promovia no sertão. Por exemplo, em 12 de dezembro de 1718 escreve o conde de Assumar:
« Recebi carta de vm de 8 do corrente e pelos termos que vm remete vejo tudo o que se passou nessa expedição e no que toca aos cabeças do motim supondo vm que o principal deles é Manuel Nunes Viana, o segundo era o padre Curvelo porque quando o primeiro foi para baixo, foi dizendo ao Povo ´Tenhamos mão pela nossa Bahia´, e quando chegou a Garça onde se avistou com o Padre Curvelo, e seus sequazes, é de crer que ali se ajustou toda a maquina porque no mesmo dia saía o dito padre dela, publicando excomunhões a todos os moradores que ouvissem e aos que publicassem o meu bando, e depois disto estar o dito Manoel Nunes Viana em Jequitaí dois dias de viagem daqueles povos para lhe dar todo o calor e para encobrir melhor a sua malignidade, escreveu uma carta (cujo original aqui tenho) a Martim Afonso de Melo, dizendo-lhe que por obedecer as minhas ordens e ao termo que tenho assignado para se não meter com as coisas de D. Isabel lhe ordenava que se tivesse recebido alguns foros os fosse entregar a seus donos e sendo grande seu amigo mudou de frase, descompondo-o na sua carta e tratando-o de embusteiro, e que tenha conta em si daqui por diante que se não desvaneça com as honras. E algumas pessoas a que eu tinha escrito, sendo notificados apar irem receber as cartas antes de as lerem traziam as respostas feitas de casa do Manuel Nunes Viana, e estimo que vm pelas provisões que viu do Padre Curvelo achasse que não era tão frivola a mina informação sobre ele se ter passado do distrito da barra do Rio das Velhas, sem jurisdição nenhuma, e tomará perguntar daquela gente se o Governo (?) todos a uma voz confessaram quee eram colonos d D. Isabel mesmo não o sendo; não duvido que este caso lhe fizesse a vm lembrar as Guerras de Portugal com Castela, e a mim entre outras muto me tem ocorrido que a desgraça deste Governo é ser necessário (sic) fazer tudo por oficiais de justiça, cuja profissão é muito boa para o Tribunal, mas se aqui se acharem três e até quatro oficiais que se tivessem achado em outras semelhantes pouco se lhe havia de dar de roncos do Povo, e tenha vm entendido que Sua Majestade sempre diminui quando suas ordens não são obedecidas pelos povos, e para isso ou aqueles fiquem a B.a(?) ou a este Governo reconheço que não importa nada - mas importa muito que os Povos se não costumem a qualquer coisa a dizer que não convem, e Sua Majestade nem deve, nem costuma estranhar o castigarem os povos rebeldes ainda que seja com desasocego porque a quitação que eles cedem é antes que eles mostrem a sua desobediência.»
Amedrontava o conde o poder de Manuel Nunes Viana, de os sitiar nas Minas por fome! Em pos data, escreve o governador ao ouvidor:
«Agora tive outro aviso de que Manuel Nunes Viana mandara 40 homens de Jequitaí para aumentar o número do povo, quando foi falar a vm e que estes alguns dias antes andaram em tropel pelas fazendas levando a maior parte da gente por força, tanto assim que a um fulano Falcão, homem principal dali e que vivia sumamente escandalizado de Manuel Nunes Viana, lhe disseram que ou morrer ou ir com o povo, e a dois homens que estavam por despedir boiadas para estas Minas, lhas quiseram tomar e depois os desembaraçaram só com a condição de se juntar com o povo como fizeram por necessidade, por onde vm verá que na distância em que todos aqueles moradores vivem, não era dificultoso surpreender a cada um em sua casa e levá-los contra sua vontade. Também é certo que o dito Manoel Nunes Viana despachou um próprio pelos Currais à Bahia e lhe prometeu que dentro de 28 dias lhe havia de trazer a resposta. Eu agora acabo de entender que Manuel Nunes, tendo também procuração de D. Isabel Guedes de Brito para subestabelecer, o que fez em Manuel Roiz Soares, e que este será um pretexto para se querer ir chegando para a barra do rio das Velhas e dai para os Currais: atalhe vm este danoso, e veja que a Segurança deste Governo está hoje na sua mão; eu lhe escrevo a carta inclusa que vm verá para ver se o posso trazer à presença de vm para se executar do que lhe aviso. Conde D. Pedro d Almeida.»
O conde governador decidira ripostar às ameaças de Manuel Nunes Viana, e escreveu buscando trazer gado de Curitiba para as Minas. Carta sua ao Ouvidor da Comarca de São Paulo, Rafael Roiz Pardinho, escrita na vila do Carmo a 13 de dezembro de 1718:
«O famoso Manoel Nunes Viana, bem conhecido pelos seus levantamentos e pelas suas insolências, veio a este país e não sendo eu de humor de os sofrer a ninguém, muito menos a esse sujeito por ser prezado de levantadiço, e como saísse daqui pouco satisfeito do modo como o tratei, foi fazendo das suas pelos confins deste Governo, lá junto para os Currais da Bahia, onde foi causa de se levantar o povo para que houvesse o motivo de que não entrem gados neste país; e eu desejava retrucar-lhe pelo mesmo jogo sendo eu quem lhos embaraçasse porém não faço esta diligência sem saber o número de currais que da Curituva me podem aqui introduzir; e como esta seja uma diligência de muita consequência para o serviço de Sua Majestade e conservação deste país, encomendo a VM muito particularmente se queira informar de todos os criadores dessa cidade que gado podem aqui introduzir e por que tempo, e dar-lhes todo o calor para que o façam com a brevidade que se pode conseguir do passo do Boi; e VM lhe segurará da minha parte se que acaso puderem vir de 18 até 20.000 cabeças de Gado, então mandarei certamente fechar os Currais da Bahia, e também se forem até 15.000; com isto nos remediaremos e como isto é tanto do meu empenho não haverá coisa que lhe não franqueie e lhe não facilite para o bom sucesso do seus negócios e espero que VM me ajude da sua parte a consegui-lo, pois não só fará nisto um grande serviço a Sua Majestade mas castigará este régulo, pondo-o a ele de sitio, como aqui nos quer fazer, e assim fico com grande confiança na grande atividade e zelo de VM. José Gois, me dizem que tem muitos currais para aquelas partes e dois sargentos-mores que estão em Santos, e tanto que VM lhes tiver feito a estes e aos demais a proposta, despachará dois índios com toda a diligência porque carece muito disto o negócio para eu saber o que hei de obrar e para tudo o que for do gosto de VM me achará sempre mui pronto. Deus guarde a VM muitos anos. Vila do Carmo em 13 de dezembro de 1718. Conde D. Pedro d Almeida.»
E, afinal, escreveria ao próprio, que considerava ´régulo insolente´, em 15 de dezembro de 1718. "O Ouvidor da comarca do rio das Velhas me deu conta do sucedido nos Papagaios e do mau sucesso que teve na execução de minha ordem, e por outros avisos particulares que depois tive, soube que do distrito de Jequitaí tinham saido 40 homens a fomentar o povo e aumentar-lhe o número, para lhe dar maior calor da sua desordem, ao que ainda agora não me posso persuadir, sabendo que vm se achava naquela Fazenda e se quisesse mostrar o mundo que era verdadeiro vassalo de Sua Majestade havia de atalhar semelhante sucesso com a mais razão que ninguem, pois lhe consta pelas ordens de Sua Majestade que a vm lhe mostrei quão perverso lhe tinham segurado que era vm ao seu real serviço e para desvanecer esta idéia, quando fosse falsa, devia vm desempenhar todo o resto para que eu me persuadisse o contrário e pudesse dar a Sua Majestade uma informação qual eu desejava, e assim se vm sobre este particular não der uma pública satisfação, contribuindo no que pode para o sossego daquele povo, obrarei nesta matéria como Sua Majestade me ordena, advertindo que sou fidelíssimo executor de suas ordens. Deus guarde a vm muitos anos. Vila do Carmo, conde D. Pedro d Almeida.»
Fonte: pt.wikipedia.org