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Guerra Fria

A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, impossível. Com essa frase, o pensador Raymond Aron definiu o período em que a opinião pública mundial acompanhou o conturbado relacionamento entre os Estados Unidos e a União Soviética.

A divisão do mundo em dois blocos, logo após a Segunda Guerra Mundial, transformou o planeta num grande tabuleiro de xadrez, em que um jogador só podia dar um xeque-mate simbólico no outro. Com arsenais nucleares capazes de destruir a Terra em instantes, os jogadores, Estados Unidos e União Soviética, não podiam cumprir suas ameaças, por uma simples questão de sobrevivência.

A paz era impossível porque os interesses de capitalistas e de comunistas eram inconciliáveis por natureza. E a guerra era improvável porque o poder de destruição das superpotências era tão grande que um confronto generalizado seria, com certeza, o último. Hoje, podemos ver isso claramente. Mas, na época, a situação se caracterizava como o equilíbrio do terror.

Quando começou e quando terminou a Guerra Fria

Não existe um consenso sobre a data exata do início da Guerra Fria. Para alguns estudiosos, o marco simbólico foi a explosão nuclear sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Outros acreditam que seu início data de fevereiro de 1947. Foi quando o presidente norte-americano Harry Truman lançou no Congresso dos Estados Unidos a Doutrina Truman, que previa uma luta sem tréguas contra a expansão comunista no mundo. E há também estudiosos que lembram a divisão da Alemanha em dois Estados, em outubro de 1949. O surgimento da Alemanha Oriental, socialista, estimulou a criação de alianças militares dos dois lados, tornando oficial a divisão da Europa em dois blocos antagônicos. Poderia ser esse o marco inicial da Guerra Fria.

Não há consenso também sobre quando terminou a Guerra Fria. Alguns historiadores acreditam que foi em novembro de 1989, com a queda do Muro de Berlim, um dos grandes símbolos do período de tensão entre as superpotências. Nessa mesma perspectiva, o marco final da Guerra Fria poderia ser a própria dissolução da União Soviética, em dezembro de 1991, num processo que deu origem à Comunidade dos Estados Independentes. E outros analistas, ainda, consideram que o período terminou não em dezembro, mas em fevereiro de 1991, quando os Estados Unidos saíram da Guerra do Golfo como a maior superpotência de uma nova Ordem Mundial.

"Quando se tenta delimitar os marcos da Guerra Fria, as pessoas escolhem datas que enfatizam aquilo que lhes parece ser o mais importante. Por exemplo, aqueles que acham que a questão nuclear é o principal, dirão que a Guerra Fria começou em 1945, com Hiroshima e Nagasaki, e terminou em 72, com os acordos do Salt-1.

Para aqueles que acham que o principal foi a relação entre os blocos, os marcos serão, provavelmente, a Doutrina Truman, em 1947, e a queda do Muro de Berlim, em 1989. Mas a Guerra Fria foi muito mais do que apenas uma disputa armamentista ou geopolítica. Ela teve uma importante dimensão cultural, que colocou em movimento um jogo simbólico do Bem contra o Mal.

Ela mexeu com a imaginação das pessoas, criou e reforçou preconceitos, ódios e ansiedades.

Nesse sentido mais amplo, dois marcos parecem ser mais adequados quando se trata de dar à Guerra Fria o seu conteúdo simbólico mais abrangente: o seu início foi a conquista de um novo poder, a bomba atômica, e o seu fim foi a Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos escolheram outros símbolos do Mal para ocupar o lugar que antes pertencia ao comunismo, como o chamado fanatismo islâmico ou o narcotráfico."

Socialismo e capitalismo: dois ideais de felicidade

A Guerra Fria se manifestou em todos os setores da vida e da cultura, representando a oposição entre dois ideais de felicidade: o ideal socialista e o ideal capitalista. Os socialistas idealizavam uma sociedade igualitária. O Estado era o dono dos bancos, das fábricas, do sistema de crédito e das terras, e era ele, o Estado, que deveria distribuir riquezas e garantir uma vida decente a todos os cidadãos. Para os capitalistas, o raciocínio era inverso. A felicidade individual era o principal. O Estado justo era aquele que garantia a cada indivíduo as condições de procurar livremente o seu lucro e construir uma vida feliz. A solução dos problemas sociais vinha depois, estava em segundo plano. É por isso que a implantação de um dos dois sistemas, em termos mundiais, só seria viável mediante o desaparecimento do outro. Nenhum país poderia ser, ao mesmo tempo, capitalista e comunista.

Esta constatação deu origem ao maior instrumento ideológico da Guerra Fria: a propaganda.

A força da propaganda

A partir do final dos anos 40 e nas décadas de 50 e 60, o mundo foi bombardeado com imagens que tentavam mostrar a superioridade do modo de vida de cada sistema. Para ridicularizar o inimigo, os dois lados utilizavam muito a força das caricaturas. A propaganda serviu para consolidar a imagem do mundo dividido em blocos.

A novidade era o surgimento do bloco socialista na Europa, formado pelos países com governos de orientação marxista: Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, Albânia e Bulgária. No mundo ocidental, os capitalistas procuravam mostrar que do seu lado a vida era brilhante.

As facilidades tecnológicas estavam ao alcance de todos. Os cidadãos comuns possuíam carros e bens de consumo, tinham liberdade de opinião e de ir e vir.

Segundo a propaganda ocidental, a vida no lado socialista, retratada em diversos filmes de Hollywood, era triste e sem brilho, controlada pela polícia política e pelo Partido Comunista. No mundo socialista, as imagens mostravam exatamente o contrário. A vida no socialismo era alegre e tranqüila. Os trabalhadores não precisavam se preocupar com emprego, educação e moradia. Tudo era garantido pelo Estado. A cada dia, as novas conquistas tecnológicas, especialmente na área militar e espacial, mostravam a superioridade do socialismo. A propaganda socialista mostrava, ainda, o mundo ocidental como decadente e individualista, onde o capitalismo garantia, para alguns, uma vida confortável. E para a maioria, uma situação de miséria, privações e desemprego.

O mundo em perigo: armamentismo e corrida espacial

A guerra da propaganda ganhou ainda mais impulso com o acirramento da corrida armamentista, nos anos 50. A corrida teve início com a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Quatro anos depois, em 49, foi a vez de a União Soviética anunciar a conquista da tecnologia nuclear. Foi o mesmo ano da criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. A resposta viria em 1955, quando a União Soviética construiu sua própria aliança, o Pacto de Varsóvia. As superpotências passaram a acumular um poder nuclear capaz de aniquilar o planeta em instantes.

Um componente fundamental da corrida armamentista foi a disputa pelo espaço. Em 1957, os soviéticos colocaram em órbita da Terra o primeiro satélite construído pelo homem, o Sputnik-1.

Em 61, os soviéticos fariam uma nova demonstração de avanço tecnológico: lançaram o foguete Vostok, a primeira nave espacial pilotada por um ser humano. O jovem cosmonauta Yuri Gagarin viajou durante cerca de 90 minutos em órbita da Terra, a uma altura média de 320 quilômetros.

Os Estados Unidos reagiram. Num histórico discurso em maio de 61, o presidente John Kennedy prometeu que, em menos de 10 anos, um astronauta norte-americano pisaria o solo da Lua. Toda a estrutura tecnológica e científica foi direcionada para o programa espacial.

Cumprir a promessa de Kennedy era mais do que um desafio científico: era um compromisso político.

Em 20 de julho de 1969, o grande momento: o astronauta Neil Armstrong, comandante da missão Apollo-11, e o piloto Edwin Aldrin pisam o solo lunar. A conquista norte-americana foi transmitida ao vivo pela TV, e acompanhada por mais de 1 bilhão de pessoas no mundo todo.

É claro que a corrida espacial tinha também, desde o começo, um significado militar. Se um foguete podia levar ao espaço uma cachorrinha como a Laika, sem dúvida poderia transportar equipamentos bem menos inofensivos, como ogivas nucleares. A combinação da tecnologia nuclear com as conquistas espaciais colocou o mundo na era dos mísseis balísticos intercontinentais. Um míssil disparado em Washington, por exemplo, poderia atingir Moscou em cheio em apenas 20 minutos. O aperfeiçoamento constante das armas acentuou a corrida armamentista.

A conquista sistemática de novas tecnologias, nos dois blocos, incentivou o desenvolvimento de um ofício milenar: a espionagem.

CIA x KGB

A espionagem foi um dos aspectos da Guerra Fria mais explorados pelo cinema. O espião mais famoso das telas, James Bond, criado por um ex-agente do serviço secreto britânico, Ian Fleming, vivia aventuras glamourosas e bem distantes da realidade. No mundo real, as duas grandes agências de espionagem, a KGB soviética e a CIA americana, treinavam agentes para atos de sabotagem, assassinatos, chantagens e coleta de informações. Nos dois lados criou-se um clima de histeria coletiva, em que qualquer cidadão poderia ser acusado de espionagem a serviço do inimigo. Na União Soviética, Stalin contribuiu para esse clima, confinando muitos de seus adversários em campos de concentração na Sibéria. Nos Estados Unidos, o senador anticomunista Joseph McCarthy promoveu uma verdadeira caça às bruxas, levando ao desespero inúmeros intelectuais e artistas de Hollywood, acusados de colaborar com Moscou.

Um dos momentos dramáticos da história da espionagem na Guerra Fria aconteceu em 1962. O presidente americano, John Kennedy, reagiu duramente contra a iniciativa soviética de instalar uma plataforma de mísseis em Cuba. Chegou a advertir o líder soviético Nikita Khruschev de que usaria armas nucleares se fosse necessário. Depois de três semanas, a União Soviética recuou. Durante esse tempo, o mundo viveu o pavor de um confronto nuclear entre as superpotências.

O terrorismo ganha força

O clima de terror que pairava no mundo não era simples paranóia. Nada disso. Havia realmente a sensação que a vida humana poderia deixar de existir de um momento para outro, se um dos lados apertasse o célebre "botão vermelho". Nesse clima, o diálogo político foi bastante prejudicado. Era difícil falar em negociações de paz com os dois blocos apontando mísseis um para o outro. Esse equilíbrio baseado na força contribuía para aumentar o descrédito dos políticos junto à opinião pública.

Na época da Guerra Fria, a falta de confiança na classe política era problemática.

O ambiente internacional, contaminado pelo relacionamento pouco amistoso entre as superpotências, contribuía para a expansão de um dos maiores obstáculos à paz no mundo: o terrorismo. O uso da força e o terror estão presentes em todo o século XX. Mas, foi no período da Guerra Fria que se multiplicaram as ações de grupos radicais. Organizações antigas, como o grupo basco ETA e o IRA, Exército Republicano Irlandês, intensificaram suas atividades.

No Oriente Médio, a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, surgiu em 64 e centralizou as atividades de diversos grupos radicais palestinos. Nos anos 70, as Brigadas Vermelhas, na Itália, e o grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, formados por estudantes e intelectuais, praticaram atentados desvinculados de compromissos políticos ou ideológicos.

O terrorismo assustou muito os países da Europa nos anos 70. Diante do terror não há paÍses atrasados ou adiantados, fortes ou fracos. Todo o planeta sente a mesma insegurança sob o fantasma constante de bombas lançadas contra pessoas inocentes. O fato de o terrorismo atingir em cheio os países desenvolvidos deixava temporariamente em segundo plano uma visão imperialista muito utilizada pelas superpotências nos anos 60, que dividia o planeta em Primeiro Mundo e Terceiro Mundo.

O termo "Terceiro Mundo", surgido nos anos 40, designa um conjunto de mais de cem países da África, Ásia e América Latina que não faz parte do grupo de países industrializados do Primeiro Mundo, e nem do grupo de países socialistas do Segundo Mundo. Com o tempo, no entanto, os termos "Primeiro Mundo" e "Terceiro Mundo", passaram a ser empregados como um conceito econômico, dividindo o planeta em grupos de países ricos e pobres. Foram justamente os países ricos da Europa o cenário principal da Guerra Fria, por razões de natureza histórica e geográfica. Mas as outras regiões do planeta foram incluídas no xadrez das superpotências por conta da própria lógica do jogo, que previa a destruição completa de um dos dois jogadores.

A Guerra Fria na Ásia

Uma dessas regiões, a Ásia, entrou de forma espetacular nesse contexto. Foi em 1949, quando o líder comunista Mao Tsé-tung tomou o poder na China, um país que na época contava 600 milhões de habitantes. O comunismo chinês alterou o equilíbrio geopolítico no continente asiático. A revolução de Mao Tsé-tung encorajou a Coréia do Norte a atacar a Coréia do Sul, em 1950.

A guerra, que teve a intervenção militar dos Estados Unidos, durou 3 anos e causou a morte de mais de dois milhões de pessoas. Na época, a Índia, que havia conquistado sua independência em 1947, mantinha-se neutra, sem aderir a nenhum dos grandes blocos econômicos. Em 1954, foi a vez de a França sofrer uma derrota humilhante na Ásia, durante a Guerra da Indochina. A vitória do líder comunista vietnamita Ho Chi Min consolidou a formação do Vietnã do Norte e aumentou a preocupação dos Estados Unidos com o rumo político dos países do sudeste asiático.

Alarmado com a expansão comunista na região, o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, envolveu seu país na Guerra do Vietnã, em 1960. Depois de treze anos de batalhas, a maior superpotência do planeta seria derrotada por soldados pobremente armados e por guerrilheiros camponeses munidos de facas e lanças de bambu. Os Estados Unidos perderam a guerra não pelas armas, mas pela falta de apoio da opinião pública de todo o mundo, em particular da americana.

A oposição à Guerra do Vietnã foi uma das bandeiras dos jovens no final dos anos 60, quando explodiram, nos dois blocos, movimentos por liberdade e democracia. No lado ocidental, em 68, os jovens saíram às ruas em Paris e em outros centros importantes, como Londres e São Francisco. No Brasil, os protestos foram principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Todas essas manifestações culminaram num grande evento pacifista, contra a Guerra do Vietnã e o racismo: o Festival de Woodstock, realizado numa fazenda no estado de Nova York, em agosto de 69. No lado socialista, o movimento atingiu o auge com a Primavera de Praga, na antiga Tchecoslováquia, em 1968. A luta pela democracia naquele país foi duramente reprimida pelas forças do Pacto de Varsóvia

A Guerra Fria no Oriente Médio

A Guerra Fria envolveu também uma das áreas mais fascinantes e estratégicas do planeta: o Oriente Médio. Habitada desde tempos imemoriais, a região destaca-se por três razões. Do ponto de vista econômico, é a mais rica em reservas de petróleo. Do ponto de vista geopolítico, serve de passagem entre Ásia e Europa.

E no aspecto cultural, é o berço das três principais religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Com todas essas características, o Oriente Médio tornou-se um dos centros nevrálgicos da Guerra Fria. O interesse pela região já era visível nos anos 40, quando as principais potências mundiais negociaram a criação do Estado de Israel, em 1948. Havia muitos interesses geopolíticos em jogo no Oriente Médio.

A União Soviética, de um lado, e os Estados Unidos, de outro lado, acreditavam que Israel poderia se tornar um importante parceiro político na região. Os palestinos e os países árabes vizinhos, no entanto, nunca aceitaram a criação de Israel. A primeira guerra árabe-israelense, vencida por Israel em 1949, teve como conseqüência o fim do Estado árabe-palestino. Foi dividido entre Israel, Jordânia e Egito. Nas décadas seguintes, outras três guerras modificariam o panorama geopolítico do Oriente Médio. Por trás de cada conflito estava um jogo de alianças internacionais que evidenciava o interesse das superpotências na região. Somente em 1993, quando Israel e a OLP assinaram um acordo de paz, é que se acendeu uma pequena luz de esperança na região.

Em outra parte do Oriente Médio, no entanto, havia um elemento complicador: em 1979, o Irã converteu-se ao islamismo xiita, com pretensões de levar o mundo na direção da fé muçulmana. Uma situação que fugia à lógica da Guerra Fria. O aiatolá Khomeini tratava Estados Unidos e União Soviética como o Grande Satã, como inimigos que deveriam ser combatidos em nome do Islã.

A revolução iraniana era um fato novo no cenário internacional no fim dos anos 70. Até hoje, terminada a Guerra Fria, o Islã continua sendo um grande enigma contemporâneo. A Guerra Fria, na verdade, permeou os principais fatos políticos no mundo inteiro, desde o término da Segunda Guerra até o final dos anos 80. O complexo jogo das superpotências envolveu todos os continentes, inclusive a África.

A Guerra Fria na África

Havia um motivo peculiar para o interesse dos países desenvolvidos pela África: as ditaduras africanas, miseráveis e violentas, eram excelentes compradoras de armas. Só por esse fato o continente ganhou destaque no panorama global do período. Na África, a Guerra Fria foi particularmente acirrada pelo fim do colonialismo português, em 1975. A saída de Portugal abriu caminho para o surgimento de regimes comunistas em Angola e Moçambique, e para a deflagração de conflitos tribais em diversos países do continente. As disputas internas e regionais estimularam os governantes a investir em armas poderosas, apesar da situação de miséria de suas populações.

O fim da Guerra Fria não mudou a situação no continente africano. O único fato de grande importância nos anos 90 foi o fim do regime racista da África do Sul e a ascensão ao poder do líder negro Nélson Mandela, em 1994. No aspecto político e econômico, a África não exercia influência no cenário internacional.

A Guerra Fria na América Latina

Na verdade, no chamado Terceiro Mundo era a América Latina o principal foco de atenção das superpotências. Esse interesse, natural por causa da proximidade geográfica dos Estados Unidos, aumentou bastante a partir de 1959, quando Fidel Castro chegou ao poder em Cuba. A partir desse momento, não demorou para que as superpotências se preocupassem com o Brasil, o maior país da América Latina. O golpe militar no Brasil, em março de 64, atendia à estratégia política dos Estados Unidos para a América Latina. A Casa Branca tinha medo que de a revolução cubana, que resultou num regime socialista, se espalhasse pelas Américas. Por causa disso, passou a patrocinar ditaduras em toda a América Latina. No Brasil, o quadro político e econômico favorecia os conspiradores.

O presidente João Goulart era apontado como simpatizante do socialismo e a economia do país estava em crise, com índices elevados de inflação. Nos anos que se seguiram ao golpe de 64, o regime militar tornou-se mais forte e repressivo. O Ato Institucional número 5, de 1968, restringiu as liberdades democráticas e deu ao regime poderes quase irrestritos para governar, prender, torturar e eliminar adversários.

A ditadura militar, conseqüência direta da Guerra Fria, teve um nítido impacto negativo na vida cultural. Durante duas décadas, o governo censurou a imprensa, a literatura e as artes de um modo geral. Experiências inovadoras, como o Tropicalismo, e o talento de artistas como Chico Buarque, Geraldo Vandré e Augusto Boal, entre muitos outros, foram sufocados pela censura imposta pelo regime.

Nos anos 80, ganharam força os movimentos pela democratização no Brasil, com o movimento pelas Diretas-Já, e em outros países sul-americanos, como o Paraguai, o Chile, o Uruguai e a Argentina.

No Brasil, o grande marco da volta à democracia foi o restabelecimento da eleição direta para presidente da República, em 1989. E também nos anos 80 começava a se configurar o quadro político internacional que viria a culminar no fim da Guerra Fria, simbolizado pela queda do Muro de Berlim, em 89. O fim do muro foi resultado do intenso processo de reformas na União Soviética, iniciado em 85 pelo dirigente Mikhail Gorbatchev.

Gorbatchev e o fim da Guerra Fria

No plano econômico, Gorbatchev instituiu a Perestroika, ou Reconstrução, buscando novas formas de conduzir a economia soviética. No plano político, retomou negociações para pôr fim à corrida armamentista. Internamente, libertou opositores do regime, viabilizou o abrandamento da censura e permitiu que os problemas fossem discutidos abertamente pela população. As reformas iniciadas em Moscou logo se refletiram na Europa socialista, onde os movimentos democráticos ganharam força para mudar todo o panorama político do antigo bloco soviético. Esse processo iniciado por Gorbatchev culminou no fim da própria União Soviética, em 1991.

A partir daí, os Estados Unidos, vencedores da Guerra Fria, tornaram-se a única superpotência mundial e encontraram novos inimigos contra os quais lutar, como os fanáticos do Islã, de um lado, e os narcotraficantes, de outro lado. Ou seja, novos elementos para a mesma fórmula do Bem e do Mal dos tempos da Guerra Fria. É um mundo que enfrenta novos problemas, como o ressurgimento de conflitos nacionais e étnicos; a disputa entre blocos econômicos; e as grandes máfias que controlam o crime organizado internacional. Para entender esse mundo temos de voltar nossos olhos ao passado recente e fazer uma reflexão que, talvez, nos indique o caminho para um futuro melhor.

José Arbex Jr.

Fonte: www.colegioparaiba.com.br

Guerra Fria

A GUERRA FRIA: 1945 - 1987

I - INTRODUÇÃO

Com o fim da II Grande Guerra, emergiam do teatro de batalhas duas grandes potências bélicas: os Estados Unidos da América (EUA), cuja economia fundava-se no capitalismo e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), um Estados formado por diversas repúblicas reunidas pela força centralizadora do stalinismo, cuja base econômica socialista foi imposta pela a Revolução bolchevique de 1917, que derrubou o último dos imperadores czaristas, da família Romanov.

As palavras-chave na guerra fria eram a “ameaça nuclear”: havia um temor constante, alimentado pela instabilidade da relações entre as duas superpotências, de que a qualquer momento num simples apertar de botões estaria a humanidade face a face com o armagedom, com a completa destruição da vida pelas armas nucleares, cujo potencial destrutivo fora testado e apresentado ao mundo em agosto de 1945 sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

A ameaça nuclear de destruição da humanidade, enfim os instrumentos de equilíbrio de força para a guerra fria, a guerra de ameaças que duraria até 1986 e 1987 com as Conferências de Reykjavik e Conferência de Washington, respectivamente, tiveram seu ponto de partida com as explosões nucleares sobre o Japão. O domínio da energia nuclear e da técnicas para produção de armamentos nucleares passou a significar um importante elemento de geopolítica dos Estados, especialmente entre as duas superpotências. À corrida nuclear associou-se a corrida armamentista e um época de graves conflitos armados nos Estados do “terceiro mundo”, os “filhos pobres” do capitalismo de primeiro mundo e contraponto dos países socialistas do segundo mundo, ao lado de outros Estados denominados não-alinhados, aos quais cumpriria interessante papel na condução das resoluções na Assembléia Geral da então recém-criada Organização das Nações Unidas.

Analisando com desprendimento este período de mais de quarenta anos de guerra fria, tendo em mente as duas grandes guerras que assolaram a Europa neste século, verifica-se, curiosamente, nestes anos de ameaças um grande avanço das ciências humanas, da economia internacional, das relativa promoção e estabelecimento de relações pacíficas entre os Estados.

A Carta das Nações Unidas foi concebida como um grande sistema integrado de princípios tendentes à solução pacífica de controvérsias; criou um monopólio do uso da força e o atribuiu ao um Conselho de Segurança que representava, além das duas superpotências emergentes do conflito, também os aliados de guerra.

Contudo, infelizmente, este sistema esteve relegado por todo o período da guerra fria a um ostracismo que revelava cada vez mais nítido um mundo bipolarizado que somente viria a se desmantelar com a derrocada do socialismo soviético a partir de 1987.

Não se pode haver, contudo, como homogêneo todo o período de guerra fria. Logo no início da década de 70, mais precisamente em 1973, as drásticas alterações na economia internacional por conta da primeira crise do petróleo provocada pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e as revoluções sociais que eclodiram na África, Ásia, Oriente e América Latina, provocaram uma ruptura não somente temporal, mas também política e econômica no período da guerra fria. Diz-se, então, ter havido uma primeira (1945-1973) e uma segunda guerra fria (1973-1987).

A primeira guerra fria foi marcada pelo mais intensa ameaça de destruição nuclear e pelo desenvolvimento da indústria armamentista, o que explica o significativo número de resoluções da Assembléia Geral e de tratados internacionais sobre armas nucleares neste período, mas, curiosamente uma fase de próspero desenvolvimento econômico global.

O segundo período foi marcado por duas crises econômicas globais, ambas causadas pela intervenção da OPEP sobre o petróleo: em 1973 e 1979, esta última agravada pela revolução cultural islâmica no Irã, que derrubou o Xá Reza Pahlevi, o qual havia sido reconduzido ao trono em1953 pela CIA, guindando ao poder o Aiatolá Khomeini. Encerrando este período de graves conflitos armados, em 1986 e 1987, diante de um flagrante processo de degeneração econômica do bloco socialista, URSS (Gorbachev) e EUA (Reagan) promovem a assinatura de dois tratados internacionais, em Helsinque e Washington, respectivamente, colocando um fim na guerra fria entre os EUA e a debilitada URSS.

O marco de uma nova era teria lugar dois anos mais tarde, em 1991, quando se pôs abaixo o maior ícone de um mundo bipolarizado que não mais existia: o muro de Berlim.

Até os acordos de Reykjavik (1986) e Washington (1987) o mundo conviveu com o constante confronto entre as duas superpotências emergentes da Segunda Guerra, EUA e URSS, conflito que os historiadores denominaram de “guerra fria.

A origem da guerra fria está inserida no contexto da Segunda Guerra, pois foi entre 1943 e 1945, nas Conferências de Yalta, que os Chefes de Estado aliados - Roosevelt, Churchill e Stalin - traçaram as linhas demarcatórias da nova geografia mundial, dividindo o mundo entre as duas superpotências emergentes, EUA e URSS, entre dois sistemas econômicos diferentes: capitalismo e socialismo.

Assim, a proposta deste trabalho é apresentar um breve resumo deste curioso período de nossa história, a guerra fria, que segundo alguns é a primeira guerra que jamais se findou ou a terceira guerra, que nem se lutou.

II - O MUNDO PÓS-II GUERRA.

Antes de apresentarmos um breve panorama do novo mapa global (especialmente da Europa), vejamos de que trata o termo superpotência. O termo superpotência não equivalia somente a um poderio econômico, mas também a um poderio militar que emergia da guerra como instrumento de política, de força. A partir de Hiroshima, o poder militar, o poder de destruição, tornou-se instrumento de política, de geopolítica.

Entre os aliados, ao fim da guerra, somente os EUA demonstravam saúde econômica para enfrentar o que se previa como um dos mais negros e críticos períodos da economia internacional, previsão tomada a partir dos efeitos percebidos após a I GGM, tal como a Crise de 1929. Numa perspectiva de força, a URSS contava com 12 milhões de soldados no Exército Vermelho e a confiança por parte dos aliados de que somente com a ajuda soviética poderia ser vencido Hitler. A Inglaterra de Churchill, de sua vez, estava economicamente debilitada no pós-guerra e não possuía um poderio militar que pudesse contrastar com os EUA e URSS.

Assim, os aliados cuidaram de dividir a Europa de acordo com as forças de ocupação dos EUA e URSS. A Alemanha, de forma particular, teve dividida sua capital, Berlim, entre EUA e URSS, a despeito de sua localização Oriental. Os soviéticos não tiveram força suficiente para repelir a ingerência americana neste ponto de seu território. No que se refere à Áustria, esta foi transformada numa segunda Suíça com a retirada dos ex-beligerantes. Na Europa oriental prevaleceu o domínio de Moscou, exceção feita à Iugoslávia de Tito (1948).

Fora da Europa, no oriente, o General McArthur ocupava unilateralmente para os EUA o Japão, excluindo todos os demais aliados.

Ao fim da guerra, como já se asseverou, existiam dois sistemas econômicos em confronto - capitalismo e socialismo - que dividiram o mundo em três categorias econômicas distintas: primeiro, segundo e terceiro mundos. No pós guerra os Estados do terceiro Mundo e os pós-coloniais, apesar de não se afinarem com a política dos EUA, eram em sua maioria anti-comunistas na ordem interna e não-alinhados (nãosoviéticos) em assuntos internacionais, constituindo um bloco de Estados que ficou conhecido nas Nações Unidas como “Grupo dos 77”, o qual consegui aprovar uma série de resoluções contra o sistema neo-colonialista e se fixação da soberania absoluta dos Estados sobre seus assuntos internos.

Nos primeiros anos das Nações Unidas destacam-se duas resoluções da Assembléia Geral de grande importância: a Convenção sobre Prevenção e Punição do Crime de Genocídio e a Declaração Universal do Direitos do Homem, ambas de 1948.

III – POR QUE GUERRA FRIA?

Deste o início deste estudo destacou-se que a guerra fria foi marcada pela constante ameaça de um conflito nuclear, embora não se possa afirmar, com certeza, que em algum momento preciso se estivesse na iminência de um conflito desta natureza.

A guerra fria foi uma guerra de ameaças, não de confrontos. Jamais houve um confronto direto entre EUA e URSS durante os 43 anos de guerra fria. Se não houve uma “guerra quente”, talvez tenha havido, como diz HOBSBAWN, um “paz fria”.

Embora não tenha havido confrontos direitos entre os EUA e URSS, ainda sim pode-se falar em “guerra”, já que guerra, adotada a concepção hobbesiana para o termo, não é somente batalha, mas também a clara e expressa vontade de disputar pela batalha, durante certo período de tempo. A guerra fria foi isso, uma guerra de ameaças, de ameaças nucleares e de extinção de toda a humanidade.

Durante todo o período da guerra fria a humanidade conviveu com o constante temor de extermínio da humanidade pelas armas nucleares, temor maximizado pelo desconhecimento leigo da energia nuclear e pela instabilidade das relações entre EUA e URSS. Até mesmo os mais incrédulos com a possibilidade de uma guerra não excluíam, em absoluto, a possibilidade de que ela ocorresse.

IV - PRIMEIRA GUERRA FRIA: 1945 A 1973

Neste primeiro período da guerra fria será que houve um real perigo de um confronto nuclear? Difícil dizer. Neste período, sem dúvida, o mais conturbado período foi a era Truman (1947/1951) e de sua doutrina (política americana de apoiar os povos livres da tentativa de sub-julgação por minorias armadas ou forças externas).

Em sua política exterior Truman lançou os EUA em três campanhas: na China em 1949, na Coréia em 1950 e na Revolução Iugoslava de Tito em 1948, todas com contraponto soviético.

Em 1949, o poder político na China, um país até então não-alinhado, era tomado por Mao Tsé Tung e os comunista, os quais iniciaram de imediato uma guerra a Coréia. Entre 1950 e 1953, os norte-americanos envolveram-se oficialmente na conflito.

Abalados com a derrota na China, os EUA e seus aliados (ONU) intervieram na Coréia para impedir que o regime comunista do Norte se estendesse ao Sul. Do lado chinês, a força aérea era reforçada por experientes pilotos soviéticos, o que foi desconsiderado politicamente pelos EUA, informação desmentida por Moscou, que não desejava um conflito com EUA, tampouco a vitória deste. Outro fato que pode ser lembrado é a questão dos mísseis soviéticos em Cuba (1962), onde a maior preocupação de ambos os lados era não tomar atitudes que pudessem ser interpretadas como agressões diretas ao outro lado.

Assim que a URSS anunciou e testou sua primeira arma nuclear na Sibéria, em 1953, as duas superpotências abandonaram a guerra como instrumento de política, pois isto equivaleria a um pacto suicida.

Se a partir deste momento não estava mais clara a possibilidade de uma guerra nuclear entre EUA e URSS, não menos obscuras eram as possibilidades de guerras nucleares destes contra terceiros: EUA X Vietnã, em 1965 e URSS X China em 1969, conflitos nos quais não houve o emprego de qualquer artefato nuclear.

Não existia, em termos objetivos, apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados, perigo iminente de guerra mundial, sobretudo do lado americano, pois os governos das superpotências aceitaram a divisão de forças ao fim da Segunda Guerra, que equivaleria a um equilíbrio desigual de poder, mas que não contestado em sua essência. Havia, sim, o medo da destruição mútua inevitável (bem traduzida na sigla MAD - Mutual Assured Destruction) que impedia a ambos os lados de apertar o botão que destruiria toda a humanidade. O medo e a divisão concertada do mundo entre as duas superpotências fez criar duas áreas de influência bem delineadas e respeitadas por ambos os lados.

Para a Europa, os EUA criaram o plano Marshall de recuperação econômica; a URSS, no entanto, não fixou plano algum para seu domínio.

No entanto, havia algumas áreas indefinidas (fora da Europa) nas quais as duas superpotências continuaram a competir: ex-colônias imperiais da África e Ásia (Angola, Vietnã e Coréia).Estes Estados recém saídos do colonialismo mergulharam em extensa crise política e econômica, situações agravadas no início da década de 70 resultante da 1ª crise do petróleo.

Neste período de intensa instabilidade política internacional, as superpotências confiaram na possibilidade de uma coexistência pacífica, sem um ataque direto entre as duas forças armadas.

Até 1970, a guerra Fria foi tratada como uma Paz Fria. Evidências: em 1953 os tanques soviéticos avançaram sobre a Alemanha Oriental sem qualquer reação dos EUA. Era mais uma evidência do concerto sobre a divisão do Mundo. Ficou evidente, a partir de então, que o discurso anticomunista americano não passava de retórica. Fato semelhante aconteceu em 1956 no que se refere à revolução húngara.

Havia uma confiança mútua de que ambos os lados não queria a guerra.

Confiança abalada em 1962 com a mencionada crise dos mísseis cubanos a qual, por alguns dias, deixou o mundo à beira de uma guerra desnecessária (Kruschev decidiu colocar mísseis em Cuba em resposta aos mísseis americanos colocados do outro lado da fronteira soviética com a Turquia). Mais tarde se descobriria que os mísseis americanos e soviéticos eram obsoletos e que portanto, como já sabia Kennedy, não faziam diferença alguma no equilíbrio de forças.

Mas como justificar quase 45 anos de confrontos armados e mobilizados baseados somente na suposição de que a instabilidade do planeta era de tal ordem que uma guerra mundial poderia por fim a toda a humanidade?

Primeira justificativa que se apresenta é de que este temos era preponderantemente Ocidental. Uma estratégia de política interna e de Geopolítica. Os EUA acreditavam que o mundo do pós-guerra mergulharia numa crise sem precedentes, com problemas que minariam a estabilidade econômica, política e social do mundo. Era evidente que os aliados, à exceção dos EUA, estavam saindo muito abalados da II GGM.

Além disso a URSS fora favorecida pelo desmoronamento internacional do pós-guerra, propiciando a ela a influência sobre extensas áreas do mundo, especialmente na Europa. Um bom exemplo desta instabilidade foi a ameaça francesa de adotar o regime comunista se os EUA não fornecessem ajuda financeira ao país (1946).

Ao contrário do pensamento americano, contudo, a URSS não demonstrava interesses expansionistas, já que não avançou para além das fronteiras estabelecidas em Yalta. Na verdade, nas áreas controladas por Moscou, os regimes locais (comunistas) não estavam dispostos a erguer Estados semelhantes ao modelo soviético, mas economias mistas sob regime parlamentar multipartidário, muito distinto da ditadura de proletariado unipartidária de Moscou (o único Estado Europeu que rompeu com o modelo de Moscou foi a Iugoslávia de Tito, em 1948). Além disso, deve- -se considerar que a URSS diminuiu seu Exército de 12 milhões em 1945 para 3 milhões de soldados em 1948.

A posição da URSS era frágil ao final da II GGM. A única estratégia para se manter os domínios conquistados na guerra era a contumaz negativa a revisão do acordo de Yalta. Stalin sabia das deficiências da URSS, de sorte que não haveria negociações sobre posições já conquistadas. ë de se recordar, também, que os EUA “perderam” o pedido de ajuda financeira feito por Moscou ainda no último período da guerra.

No outro lado do front, os EUA se preocupavam com o perigo da supremacia da URSS, enquanto esta se preocupava com a hegemonia de fato dos EUA.

Ao lado deste embate entre EUA e URSS, a corrida armamentista ganhava fôlego: em 1952 os ingleses conseguem produzir sua primeira bomba nuclear, proclamando sua independência em relação aos EUA; em 1953, como mencionado, a URSS testa sua primeira bomba nuclear, dando início à corrida armamentista e desenvolvimento de complexos industriais militares que não mais se voltavam para a guerra direta, mas para o lucrativo mercado internacional de armas. Finalmente em 1960, os chineses constróem sua primeira bomba nuclear.

Enquanto durou a guerra fria, os artefatos nucleares da Inglaterra e China em nada influenciaram a política entre as duas superpotências. Os problemas surgiriam, como de fato surgiram, com o final da guerra fria, com o descontrole da produção de armas nucleares, que se deslocaram em tecnologia e material contrabandeado para perigosos focos de tensões históricas, a exemplo do Paquistão e da Índia.

Afinal, quem foi o responsável pela guerra fria. Certamente o medo do mútuo confronto, mais acentuado no Ocidente, fundado na idéia de “conspiração comunista”, plataforma política que definitivamente elegeu Robert Kennedy nos EUA.

Nesta primeira fase, a guerra fria inspirou dois conflitos armados de grande relevância: a guerra da Coréia (1950/1953) e a guerra do Vietnã (1965/1975), que se estendeu até o início da Segunda fase da guerra fria.

Juntamente com a guerra do Vietnã surgiram os primeiros movimentos contra a guerra fria, bem como movimentos ambientalistas contra as armas nucleares e experimentos nucleares.

Entre as consequências políticas e econômicas da guerra fria no panorama internacional, pode-se identificar os seguintes:

1. Polarizou o mundo controlado por EUA e URSS em dois grupos bem definidos (pró-comunistas e anti-comunistas).

2. Ameaça americana de intervenção na Itália se os comunistas vencessem as eleições de 1948.

3. Criação da “Internacional Comunista”, extinta em 1953.

4. Criação de um sistema unipartidário permanente no Japão e Itália, excluindo os comunistas.

5. Alteração da política internacional do continente europeu. Provocou a reação e a criação da Comunidade Européia em 1957, pelo acordo de 06 Estados (França, Alemanha, Itália, Países baixos, Bélgica e Luxemburgo)

6. Criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN (1949) aliança militar anti-soviética (pacto de Varsóvia), baseada na força da economia alemã, rearmada pelos EUA.

7. Enfraquecimento do dólar com o estabelecimento do “Pacto do ouro” para estabilização do preço do metal no mercado internacional (a paridade ouro-dólar extinta em 1971, retirando dos EUA o controle do sistema de pagamentos internacional).

O início da década de 60 foi marcado pelo afrouxamento da tensão entre EUA e URSS, fato denominado no meio diplomático como détent. Josef Stalin falecera em 1953 ao mesmo tempo que a guerra da Coréia havia terminado sem um conflito nuclear. Na URSS Nikita Kruschev estabeleceu sua liderança após a morte de Stalin.

O período de détent se estenderia até o ano de 1973, rompido somente pela crise dos mísseis cubanos em 1962 Curiosamente em 1977 a Assembléia Geral aprovava a Resolução 23/155 que encerrava a Declaração sobre Aprofundamento e Consolidação da Detent Internacional.

Nesta fase inicial de détent, concluia-se a construção do Muro de Berlin (1961)e se estabelecia a “linha quente” entre Moscou e Washington (1963). Nesta mesmo ano, Kennedy foi assassinado em Dallas, Texas; no ano seguinte Kruschev seria substituído por Leonid Brejnev, que mergulharia a URSS num “período de estagnação” de 20 anos.

Neste período de estagnação da URSS, entre 1961 e 1981, estabeleceram-se uma séria de tratados sobre o uso do espaço cósmico e controle de armas nucleares: tratados de proibição de testes, tentativas de deter a proliferação de armas nucleares; tratado de limitação de armas estratégicas (SALT) entre EUA e URSS, acordo sobre mísseis antibalísticos (ABMs) de cada lado.

Vejam-se, por exemplo, somente com relação à primeira guerra fria (1945-1973), a Declaração sobre a Proibição do Uso de Armas Nucleares e Termonucleares de 1961, a Declaração sobre os Princípios Legais de Governo das Atividades dos Estados na Exploração e uso do Espaço de 1963, o Tratado sobre Não Proliferação de Armas Nucleares de 1968, o Tratado sobre Proibição de Depósito de Armas Nucleares e outras Armas de Destruição em Massa na Plataforma, no Fundo Oceânico e no Subsolo Oceânicos de 1970, a Convenção sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção, Estocagem de Armas Bacteriológicas (Biológicas) e Tóxicas e sobre sua Destruição de 1971, o Tratado sobre Princípios de Governo das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, inclusive a Lua e outros Corpos Celestes de 1966, o Acordo sobre Resgate de Astronautas, o retorno de Astronautas e de Objetos Lançados ao Espaço de 1967, a Convenção sobre Responsabilidade por Danos Causados por Objetos Espaciais de 1971, a Convenção sobre Registro de Objetos Lançados ao Espaço de 1974 e a Declaração sobre Cooperação Internacional para o Desarmamento de 1979.

Este também foi um período de reconhecimentos em direitos da mulher - Convenção sobre Direitos Políticos das Mulheres de 1952, das crianças - Declaração sobre os Direitos da Criança de 1959; da auto-determinação das ex-colônias - Declaração de Outorga de Independência aos Estados e Povos Coloniais de 196017 e a Declaração sobre a Inadmissibilidade de Intervenção nos Assuntos Internos dos Estados e de Proteção de sua Independência e Soberania de 1965; da eliminação da discriminação racial - Declaração das Nações Unidas sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1963, retomada em 1965 e a Convenção Internacional sobre a Supressão e Punição do Crime de Apartheid de 1973; de reconhecimento de direitos humanos - Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, a Convenção sobre não-aplicabilidade do Estatuto de Limitações para Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade de 1968; e segurança internacional – a Convenção sobre Missões Especiais e Protocolo Opcional relativo à Solução de Disputas Compulsória de 1969, a Declaração sobre os Princípios de Direito Internacional relativos às Relações Amistosas e Cooperação entre Estados de acordo com a Carta das Nações Unidas de 1970, e a Declaração sobre Segurança Internacional de 1970.

Em resumo, nos anos que antecederam a primeira crise do petróleo, começava a florescer o comércio entre EUA e URSS, em excelente perspectiva, ao mesmo tempo que se procurava equacionar a questão da corrida armamentista não somente entre os EUA e a URSS, mas também com relação a outros Estados (Inglaterra, França, China) que buscavam uma maior independência em relação a ambos os sistemas – capitalista e socialista. Este período, sem dúvida, ficou marcado como uma era de ameaças de um conflito nuclear capaz de destruir toda a humanidade. Iniciava neste período, contudo, os principais movimentos de independência da África, os quais teriam grande instabilidade na economia global, masca do segundo período da guerra fria.

V - 2ª GUERRA FRIA

O período da Segunda guerra fria iniciou com uma grande crise econômica global provocada pela repentina superelevação dos preços do petróleo provocada pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), agravada em 1979 por uma segunda grande crise coincidente com a Revolução Cultural do Islã promovida pelo Aiatolá Khomeini.

Em 1973 o cartel internacional de petróleo (OPEP) provocou uma mudança drástica na economia internacional a aumentar o preço do produto, enfraquecendo o domínio dos EUA.

Como se não bastasse este fato, os EUA estavam desmoralizados com os sucessivos fracassos na Guerra do Vietnã e com a infeliz campanha na Guerra do Yom Kipur (1973) na qual apoiou Israel em sua guerra contra o Egito e Síria (apoiados pela URSS). Neste conflito, nem mesmo os aliados europeus apoiaram a investida americana, recusando autorização de uso de bases americanas em seus território (o que foi autorizado somente por Portugal - Açores).

Foi também nesta ocasião que o Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger fez soar o primeiro alarme de guerra nuclear desde a crise dos mísseis cubanos.

A OPEP queira cortar o fornecimento de petróleo para Israel, ao fazer isso descobriram o poder de controle do mercado de petróleo. Sem dúvida o Vietnã e o Yom Kipur enfraqueceram a posição política americana, mas não alteraram o cenário da GF.

No entanto, entre 1974 e 1979 uma nova onde de revoluções eclodiu na África (confirmada anos mais tarde na Declaração sobre a Situação Crítica da África de 1984), Oriente e América, propiciando à URSS a instalação de bases militares em alguns Estados.

Foi a coincidência desta terceira onda de revoluções mundiais, associada ao fracasso político americano, que fez surgir a Segunda guerra fria. Transferia-se, assim, a área de competição das superpotências da Europa para o 3ª Mundo. Logo após a crise de 1973, as Nações Unidas editaram a Resolução 3201 (S-VI) contendo a Declaração sobre o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional e no final daquele mesmo ano a Carta dos Direitos e Deveres Econômicos dos Estados de 197428, sem descuidar do tema sempre presente dos conflitos armados com a edição da Resolução 3314 (XXIX) sobre a Definição de Agressão.

A mudança de foco de conflitos e tensões (détent), deu ao Presidente norte americano Richard Nixxon e ao Secretário de Estado Henry Kissinger a oportunidade de duas importantes vitórias militares e políticas: a expulsão dos soviéticos do Egito e o recrutamento informal da China para a aliança anti-comunista.

Do lado soviético, Leonid Brejnev, o líder da era da estagnação, afundava a URSS em dívidas com armas. O resultado desta corrida armamentista foi que em meados da década de 80 a URSS superava os EUA em produção de ferrogusa, aço e tratores, mas descuidou da economia do silício e do software.

Em 1979 a OPEP mais uma vez elevou os preços do petróleo, agravando ainda mais o quadro da economia internacional. Coincidentemente com a revolução islâmica do Irã, a maior revolução social deste período.

Neste panorama de crise política assumiu Ronald Reagan (1980/88) com a missão de reconquistar o prestígio americano. Para tanto promoveu a invasão de Granada (1983), o ataque à Líbia (1986) e a invasão do Panamá (1989).

Do outro lado da mesa de negociações estava o presidente soviético Mikail Gorbachev, que com a política de perestroika e intensas negociações com o governo Reagan, pôs fim à guerra fria através de dois acordos assinados em 1986, em Reykjavik, e em 1987, em Washington.

Encerrando vinte anos de estagnação na URSS, em 1988 Gorbachev promoveu a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão após 08 anos de ajuda ao governo que lutava contra guerrilheiros financiados pelos EUA e abastecidos pelo Paquistão.

Com a queda do Muro de Berlim (1991), dois anos após o Acordo de Washington, deixava-se clara a queda do socialismo, em maior parte devido às suas próprias mazelas, sem que significasse uma vitória do capitalismo, que sobrevivera melhor respondendo aos anos de crise e instabilidade política do pós-guerra.

Entre 1973 e 1991 a comunidade internacional não deixou de lado a corrida armamentista (Declaração da Década de 80 como a Segunda Década de Desarmamento de 1980, a Declaração sobre Prevenção de Catástrofe Nuclear de 1981 e a Declaração da Década de 90 como a Terceira Década de Desarmamento de 1990) ou a independência soberana dos Estados (Declaração sobre a Inadmissibilidade de Intervenção e Interferência nos Assuntos Internos dos Estados de 1981, mas passou a atentar também para outras matérias de interesse de preservação da própria vida do Homem. Em 1972, na Conferência de Estocolmo, consolidavam-se num instrumento internacional princípios de direito internacional do meio ambiente, que serviram e vêm servindo de fundamento para novos instrumentos de direito ambiental, a exemplo da Carta Mundial da Natureza de 1982.

Ganhou também vulto os debates em torno do direito ao desenvolvimento (Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento de 1986, o qual comportava um exercício soberano dos Estados sobre suas próprias riquesas naturais.

Rodrigo Fernandes More

Fonte: www.more.com.br

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