Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Guerra Fria - Página 7  Voltar

Guerra Fria

O fim da aliança

Ao chegar a Potsdam, em 15 de julho, Truman ainda não sabia se a bomba atômica funcionava ou não. Apesar de todo o empenho dos cientistas em realizar o experimento antes que o presidente embarcasse para a conferência, o teste só pôde ser realizado no dia 16, no deserto de Alamogordo, região isolada do estado do Novo México, nos Estados Unidos.

Imediatamente após o teste, o presidente teve as primeiras informações: êxito total. Poucos dias depois, Truman recebeu um relatório mais detalhado do coordenador-geral do Projeto Manhattam, o general Leslie Groves.

Suas palavras mal continham o entusiasmo:

“o efeito [da explosão] bem poderia ser chamado de inaudito, magnífico, maravilhoso, estupendo e terrível. Nunca antes um fenômeno provocado pelo homem revelou força tão tremenda. [..] Palavras são instrumentos inadequados para descrever aos que não estavam presentes os efeitos físicos, mentais e psicológicos. É algo que precisa ser visto para ser compreendido.”

O presidente foi informado ainda de que aquela única bomba explodira com urna potência equivalente a 18 mil toneladas de TNT* - fato que assombrou mesmo os militares mais experientes. Era tudo o que Truman esperava ouvir.

Ao longo de suas 13 sessões plenárias, a conferência de Potsdam deixou algumas coisas bastante claras.

A primeira delas: o que antes era visto como a união dos Três Grandes se transformava rapidamente na disputa entre apenas dois - Estados Unidos e União Soviética. Abalada econômica e militarmente, a Grã-Bretanha tinha pouco cem que afirmar sua posição além dos rasgos de oratória de Winston Churchill. Se havia vencedores naquela guerra com força suficiente para ditar os termos da nova situação mundial, estes eram os norte-americanos e os soviéticos.

Ao velho e declinante império britânico, parecia estar irreversivelmente reservado o papel de potência de segunda importância. A posição da Grã-Bretanha tornou-se ainda mais frágil quando, em plena conferência, Churchill acabou sendo substituído por Clement Attlee. Derrotado nas eleições britânicas, cujos resultados só então foram divulgados, Churchill havia perdido o cargo de primeiro-ministro.

Mas a grande marca da conferência de Potsdam seria seu caráter inconclusivo. Em termos gerais, os pontos de divergência entre norte-americanos e soviéticos ultrapassavam muito os de convergência.

Dificilmente sairia dali um compromisso claro e satisfatório para as partes envolvidas.

A desconfiança mútua abria um fosso cada vez maior entre eles: Stalin não revelava a menor intenção de retirar suas tropas do Leste europeu, como queriam os norte-americanos; estes, por sua vez, resistiam a várias reivindicações do líder soviético. Entre elas estavam o estabelecimento de uma nova fronteira ocidental para a Polônia, formada pelos rios Óder e Neisse, incorporando partes do território alemão (a chamada Linha Óder-Neisse) e, de novo, o pedido de reparações. Também não se chegou a um acordo com relação ao futuro imediato da Alemanha; o clima de disputa impediu a concretização da proposta de controle unificado do país. Pelo menos temporariamente, cada zona de ocupação seria administrada separadamente.

Mais do que qualquer outra coisa, em Potsdam tornou-se claro que a aliança dos anos de guerra não sobreviveria em tempos de paz. Alguns acordos de importância secundária foram obtidos, o que ajudou a salvar as aparências em termos protocolares. Nem mesmo a efetiva criação da Organização das Nações Unidas - cuja assembléia de fundação ocorrera em 26 de junho, reunindo representantes de cinqüenta países - parecia capaz de mudar aquele quadro.

Para Harry Truman, contudo, a maior surpresa tinha sido o fracasso de sua tentativa de intimidar Stalin com o anúncio de que os Estados Unidos agora dispunham da bomba atômica. Em vez de se tornar mais manejável - termo usado pelo secretário de Estado de Truman, James Byrnes, para prever o recuo do líder soviético -, este persistira obstinadamente em suas posições e reivindicações.

Na realidade, Truman não contara novidade alguma a Stalin. Havia muito o serviço soviético de espionagem o vinha informando sobre a existência e o desenvolvimento do Projeto Manhattam. Os soviéticos já tinham até iniciado seu próprio projeto nuclear, coisa de que Truman nem sequer suspeitava.

A fase da diplomacia parecia definitivamente encerrada. Se a mera comunicação da existência da nova arma não havia feito a União Soviética retroceder em sua pretensão de controlar novos territórios no Leste europeu, talvez uma demonstração prática de seu poder de destruição o fizesse.

Hiroshima e Nagasaki, agosto de 1945

Cinco dias após o encerramento da conferência de Potsdam, em 6 de agosto de 1945, a cidade portuária japonesa de Hiroshima foi subitamente arrasada por uma bomba de urânio, jogada por um bombardeiro B-29 norte-americano. Em poucos minutos, morreram pelo menos 78 mil pessoas. O efeito continuado das queimaduras e da radiação, contudo, fez muitas outras vítimas nos anos seguintes. Estima-se que em 1950 foi atingida a quantidade total de duzentos mil mortos - quase dois terços da população da cidade no dia do ataque.

Em 9 de agosto, três dias depois do bombardeio a Hiroshima, foi realizado um segundo ataque, desta vez à cidade de Nagasaki. Ali uma bomba de plutônio matou pelo menos setenta mil pessoas - número que, cinco anos depois, se elevava a 140 mil mortos. Aturdido pelo golpe inesperado, o governo japonês não teve alternativa a não ser a rendição incondicional às forças norte-americanas.

Os ataques a Hiroshima e Nagasaki certamente serviram para colocar um ponto final na guerra. Mais do que isso, porém, serviram para revelar ao mundo - à União Soviética em particular - a extensão do poderio bélico atingido pelos Estados Unidos.

Tratava-se, na realidade, de um recado a Stalin: os norte-americanos não hesitariam em usar a arma toda vez que seus interesses políticos fundamentais estivessem em jogo. O monopólio nuclear deveria levá-los naturalmente a uma posição de primazia na condução dos assuntos internacionais.

Alguns autores localizam exatamente aí o inicio da chamada guerra fria. Teria sido a partir de Hiroshima e Nagasaki que as tentativas de diálogo entre norte-americanos e soviéticos foram definitivamente substituídas por demonstrações de força e ameaças indiretas. Daí em diante, os caminhos da negociação diplomática ficariam obscurecidos pelas sombras de Hiroshima e pela ameaça de uma nova aventura belicista. Já no final dos anos 40, P. M. S. Blackett, físico britânico envolvido nos projetos de desenvolvimento de armas nucleares, declarava em tom grave que "o lançamento da bomba atômica não foi tanto o último ato militar da Segunda Guerra Mundial, foi mais o primeiro da guerra fria diplomática com a Rússia".

Guerra Fria

O mundo dividido em dois

A partir daí, as relações entre as duas grandes potências vencedoras da guerra deterioraram-se com grande rapidez.

Curiosamente, não foi Truman, mas Churchill, o primeiro a anunciar publicamente a ruptura política entre os antigos aliados.

Recebido pelo presidente norte-americano, o ex-primeiro-ministro britânico proferiu em Fulton, Missouri, em março de 1946, um discurso que se tornaria famoso, no qual atacava a União Soviética e o domínio que esta agora exercia sobre o Leste europeu:

“Uma sombra se abateu sobre o cenário até há pouco iluminado pelas vitórias aliadas. Ninguém sabe o que a Rússia soviética e sua organização comunista internacional pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites - se é que eles existem -para suas tendências expansionistas e proselitistas. [...J De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dela estão todas as capitais dos antigos países da Europa central e do Leste europeu [..J. Não importa que conclusões possamos tirar desses fatos - e fatos eles são -, esta certamente não é a Europa livre que lutamos para construir Tampouco é uma situação capaz de proporcionar uma paz duradoura.”

O discurso indicava claramente que, uma vez superado o inimigo nazista, a União Soviética passava a ser vista como a nova ameaça à liberdade e à democracia, valores que os países capitalistas afirmavam defender. A tarefa desses países agora era conter, a qualquer preço, o que consideravam o perigo comunista.

Tal posição foi definitivamente assumida pelo governo norte-americano no ano seguinte, com o lançamento da chamada Doutrina Truman. Temendo que a Grécia e a Turquia caíssem sob domínio soviético, Truman anunciou em discurso ao Congresso sua disposição de auxiliar financeiramente tais países, como forma de mantê-los na esfera capitalista. Para o presidente, os Estados Unidos tinham não só o direito, mas o autêntico dever de intervir nesses e em quaisquer outros casos em que as ameaças do "terror e da opressão" se fizessem presentes. Na realidade, Truman nem sequer mencionou diretamente os soviéticos em seu discurso, mas o clima político vigente não deixava dúvidas sobre a quem ele se referia.

Pouco depois, as linhas da Doutrina Truman deram origem a um novo programa, conhecido como Plano Marshall. Formulado pelo então secretário de Estado de Truman, George C. Marshall, o plano estendia o auxílio econômico norte­-americano a todos os países da Europa ocidental - inclusive às ex-inimigas Alemanha e Itália. A idéia era fortalecer esses países, cuja economia estava abalada pela guerra, para que tivessem condições de resistir a eventuais avanços soviéticos.

Além disso, foi organizada em 1949 uma aliança militar, com o objetivo específico de proteger a Europa ocidental da ameaça comunista - a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Liderada pelos Estados Unidos e formada pelos países capitalistas europeus, além do Canadá, a OTAN declarava, no texto de seu acordo de criação, que "um ataque armado contra um ou mais membros da aliança, na Europa ou na América do Norte, será considerado um ataque contra todos". O recado aos soviéticos não podia ser mais claro.

O bloqueio de Berlim

Stalin, por sua vez, reagiu à ofensiva. Em 1947 promoveu a criação do Kominform, organismo destinado a unificar a ação dos partidos comunistas e dos governos do Leste europeu sob sua direção, naturalmente. Dois anos depois procurou criar uma versão própria do Plano Marshall através do Comecon, conselho planejado para incrementar o auxílio econômico mútuo entre os países do bloco comunista. A consolidação de sua presença no Leste europeu dependia apenas da solução a ser encontrada para a Alemanha.

Em 1948, após três anos de seguidos desentendimentos sobre o destino a ser dado ao pais, os soviéticos determinaram um bloqueio a Berlim, que ficava dentro de sua zona de ocupação, mas também estava dividida. Três quartos da antiga capital alemã - a parte ocidental - ainda estavam sob domínio das forças britânicas, francesas e norte-americanas. Com o bloqueio, Berlim Ocidental passou a receber apoio e suprimentos através de um corredor aéreo, uma linha de comunicação por avião montada especialmente para isso.

A crise, que elevou perigosamente a temperatura das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, acabou resultando na divisão da Alemanha em dois países, em 1949: República Federal da Alemanha, sob controle norte-americano, e República Democrática Alemã, sob controle soviético. À semelhança do meridiano de Greenwich, que divide o globo terrestre e marca os fusos horários, a linha que agora dividia o mundo capitalista do mundo comunista passava por cima do antigo território alemão. E a divisão da Alemanha transformou-se no símbolo mais forte da impossibilidade de acordo entre Estados Unidos e União Soviética.

O mundo saíra da Segunda Guerra Mundial dividido em dois. Restava apenas esperar que a crescente oposição entre os dois lados não resultasse em uma nova guerra. Os norte-americanos, de qualquer maneira, acreditavam que seu poderio bélico - conquistado através da posse isolada da bomba atômica - afastaria os soviéticos de um confronto direto. Pelo menos do ponto de vista militar, o Ocidente estava bem defendido.

O ano de 1949, contudo, reservava uma última surpresa. No início de setembro, Harry Truman foi informado de que a União Soviética acabara de realizar com êxito um teste nuclear no deserto do Cazaquistão, próximo à cidade de Semipalatinsk.

A novidade deixou o presidente perplexo: estava encerrado o monopólio nuclear norte-americano. Os soviéticos também dispunham da bomba atômica.

A notícia fechava a equação da guerra fria. O mundo do segundo pós-guerra era dominado por duas superpotências rivais e absolutamente incompatíveis. Estava claro que um lado não se sentiria totalmente satisfeito a menos que obtivesse a rendição incondicional do outro. Mas ambos possuíam armas nucleares, o que significava que um confronto entre eles poderia levar o planeta a um desastre de proporções globais. Era nesse terreno literalmente explosivo que a humanidade deveria caminhar nas décadas seguintes.

A “cruzada” pelo capitalismo

Os Estados Unidos da América chegaram ao segundo pós-guerra numa posição nova em sua história: a de superpotência mundial. Antes disso, o país era internacionalmente reconhecido como uma força emergente, mas ainda marginal em termos de influência política. O balanço de poder até então vigente consagrava o tradicional predomínio das potências européias.

Estas, no entanto, chegaram ao final da Segunda Guerra Mundial absolutamente esgotadas do ponto de vista econômico e militar, portanto político. Mesmo a vitoriosa Grã-Bretanha já não tinha condições de se impor como antes. Das cinzas da guerra surgira uma nova ordem mundial, muito diferente da que vigorara até os anos 3O.

No núcleo dela estavam agora os norte-americanos: no complexo jogo das relações internacionais, seus interesses e seus pontos de vista passavam a ocupar uma posição central. O mundo teria que se habituar a ouvir e acatar a retórica e as posições dos Estados Unidos.

O significado da guerra

Ironicamente, o governo dos Estados Unidos havia resistido por um bom tempo à perspectiva de envolver o país na guerra. Sustentando a princípio uma posição de isolacionismo, o presidente Roosevelt encarava o conflito como um assunto essencialmente europeu, que devia ser resolvido pelas partes diretamente envolvidas - alemães e italianos de um lado, ingleses e franceses de outro. Além disso, os Estados Unidos enfrentavam sérios problemas internos, decorrentes da crise de 1929*, o que desaconselhava sua intervenção em cenários externos. Roosevelt fora eleito pela primeira vez em 1932, prometendo reerguer a economia norte-americana; no final dos anos 30, sua prioridade administrativa continuava a ser o desenvolvimento do amplo programa de recuperação interna, conhecido como New Deal.

Mas o assustador avanço da Alemanha nazista, somado à agressão japonesa à base norte-americana de Pearl Harbour, no Havaí, em dezembro de 1941, praticamente forçou os Estados Unidos a entrarem na guerra ao lado de britânicos e soviéticos.

A decisão de recorrer à força das armas logo se revelaria surpreendentemente lucrativa: mais que à vitória nos campos de batalha, a mobilização nacional dos anos de guerra levou à superação definitiva da crise econômica interna. No final de 1945, os norte-americanos podiam comemorar orgulhosamente não só o total êxito militar, mas também o fato de que a produção industrial havia duplicado durante seu envolvimento no conflito.

Tudo isso teve um custo, evidentemente. Cerca de trezentos mil soldados norte-americanos morreram na Segunda Guerra. Mas esse número parecia pouco expressivo, em comparação com as perdas de outros países. A contabilidade final da guerra revelava por exemplo que, para cada norte-americano morto, pelo menos cinqüenta soviéticos tinham perdido a vida. Além disso, os Estados Unidos não haviam tido seu território invadido, como a União Soviética, ou suas cidades bombardeadas, como a Inglaterra. O preço por aquela vitória fulgurante parecia, em termos comparativos, bastante baixo.

Um novo inimigo

A pujança econômica e militar, capaz de sustentar uma influência política em escala praticamente global, portanto, dava aos norte-americanos motivos para viver um clima de intenso otimismo no imediato pós-guerra. Vitorioso em todos os sentidos, o país via chegar o momento de assumir o papel de grande líder internacional na reconstrução da ordem mundial em tempos de paz.

Uma sombra, contudo, obscurecia tal otimismo. A vitória na guerra fora obtida ao lado de um parceiro cada vez mais incômodo, a União Soviética.

A inclusão dos soviéticos na aliança que derrotou o nazi-fascismo havia sido fundamental, em termos militares: dificilmente Hitler seria vencido sem a participação do Exército Vermelho. Mas o reconhecimento desse fato não significava que os Estados Unidos estivessem, agora, dispostos a partilhar fraternalmente com os soviéticos o prestígio e a liderança política que haviam conquistado.

Afinal, a União Soviética sempre representara - e continuava representando - a negação de todos os princípios políticos considerados básicos pelos norte-americanos: em lugar da democracia, a ditadura; em lugar da livre iniciativa, o planejamento econômico centralizado; em lugar da liberdade de escolha e de pensamento, a sujeição do indivíduo ao Estado. Em termos ideológicos, dificilmente poderia haver oposição maior do que a que existia entre Estados Unidos e União Soviética.

Como se não bastasse, Stalin apresentara, ao final da guerra, a inabalável disposição de estender seu controle a novas regiões, impondo o comunismo aos países do Leste europeu. Para os analistas do governo norte-americano, isso nada tinha a ver com justiça ou direito a reparações; significava, na verdade, o início de um plano destinado a levar o regime comunista a todas as regiões do planeta. Não era exatamente isso o que, no século anterior, previra Karl Marx, o grande inspirador ideológico do regime soviético?

Levando tal lógica adiante, os mesmos analistas chegaram a uma conclusão surpreendente: ao contrário do que imaginavam os ingênuos e os desavisados, na realidade a guerra não havia terminado. A derrota do nazi-fascismo representara apenas uma primeira etapa na luta maior contra os adversários da liberdade e da democracia.

Essa luta estava longe de ter chegado ao fim; o "mundo livre" era agora ameaçado por um novo e poderoso inimigo, talvez ainda mais temível que o anterior: o movimento comunista internacional, organizado, patrocinado e disseminado pela União Soviética.

O que tornava os soviéticos tão atemorizantes não era apenas o fato de que dispunham de uma formidável máquina militar, como se revelara o Exército Vermelho durante a guerra. O pior, aos olhos do governo norte-americano, era a crença de que eles pareciam dispostos a levar adiante seus planos de conquista através de outros métodos, diferentes dos da guerra convencional. O novo inimigo não mostrava a face, mas infiltrava seus agentes nos partidos políticos, na imprensa, nos meios de comunicação, nas escolas, nos lares. A estratégia seria a de enfraquecer e dividir para depois conquistar, destruindo assim o "mundo livre".

Assim, nessa nova etapa da guerra, as armas seriam bem mais sutis que os tradicionais canhões e bombas. À medida que os países capitalistas ou da esfera de influência capitalista fossem se enfraquecendo ante essa verdadeira guerra psicológica, os soviéticos os iriam anexando um a um, instalando neles governos de sua confiança, como no Leste europeu.

Ora, os Estados Unidos não poderiam assistir a tudo isso passivamente; cabia ao país uma responsabilidade moral correspondente à sua posição de liderança: a de enfrentar decididamente e sem tréguas a "ameaça vermelha". Nessa fase da guerra, travada nos bastidores, longe das trincheiras - por isso denominada guerra fria - os norte-americanos deveriam estar permanentemente alertas contra todas as manobras do inimigo.

Fobia anticomunista

A crença de que os soviéticos estavam empenhados num diabólico plano secreto para dominar o mundo foi rapidamente irradiada do governo norte-americano para a população do país. O grande combate contra o comunismo ocorreria em todas as partes e de várias formas, mas era preciso começá-lo em casa. Era preciso descobrir quem, dentro dos Estados Unidos, simpatizava, colaborara ou operava de acordo com os planos de Moscou. Gradualmente, a perseguição aos comunistas - ou aos que parecessem ser comunistas - tornou-se a grande obsessão nacional.

Nos anos do imediato pós-guerra, havia um clima de autêntico pânico coletivo. Se o inimigo se infiltrava por todos os lados, então todos eram suspeitos até prova em contrário. Quem poderia garantir que o próprio vizinho não era, disfarçado, um perigoso espião a serviço do movimento comunista internacional, sustentado e cuidadosamente treinado pela União Soviética?

O primeiro passo, portanto, era identificar os comunistas infiltrados. Com esse objetivo, foi desenvolvida toda uma campanha, que contava até com filmes oficiais, veiculados diariamente nos cinemas, nas escolas e naquela novidade que se tornava cada vez mais popular, a televisão.

Um desses filmes ensinava:

“Para reconhecer um comunista, as aparências podem enganar [..] Se alguém lê ou sustenta publicações comunistas, talvez seja um comunista. Se apóia organizações com doutrinas comunistas, ou organizações assim consideradas por Washington, talvez seja um comunista. Se defende as atividades dos paises comunistas e critica sistematicamente a política interna e externa dos Estados Unidos, talvez seja um comunista. Mas se alguém faz tudo isso ao mesmo tempo, certamente é um comunista.”

O segundo passo, naturalmente, era procurar banir quem fosse identificado como comunista.

Qualquer um assim considerado passava a ser visto como um verdadeiro perigo público: perderia o emprego e seria cuidadosamente segregado, quando não hostilizado diretamente. Empregar ou exibir laços de amizade com comunistas não eram apenas atos impatrióticos, mas acima de tudo atos suspeitos. Manter qualquer tipo de ligação com elementos subversivos significaria, no fundo, simpatia pela subversão. O comunismo era encarado como um mal contagioso, que exigia o rigoroso isolamento do indivíduo contaminado.

Nesse trabalho de vigilância, alguns setores deveriam receber atenção redobrada, em especial aqueles ligados às artes, ao ensino, à divulgação de notícias e ao movimento sindical. Acreditava-se que a partir daí os simpatizantes da União Soviética disseminariam seus ataques aos valores tradicionais norte-americanos.

Além das organizações patrióticas que passaram a se multiplicar por todo o país, o próprio Congresso mobilizou-se para enfrentar o perigo vermelho. Uma comissão especial ali criada já em 1945 o Comitê de Atividades Anti-Americanas - passou, principalmente a partir de 1947, a investigar a vida de figuras públicas suspeitas de subversão, convocando-as para depor em audiências abertas.

Se não concordasse em participar desses depoimentos ou não pudesse explicar satisfatoriamente aos rigorosos inquiridores eventuais ligações ou simpatias com a esquerda, o suspeito tinha a carreira encerrada: ele não mais encontraria trabalho nos Estados Unidos.

Os grandes estúdios de cinema, por exemplo, recebiam periodicamente da comissão uma relação - conhecida como lista negra - com os nomes dos roteiristas, diretores e atores a serem banidos. Muitos deles nunca mais voltariam a atuar profissionalmente.

Mesmo figuras aparentemente acima de qualquer suspeita foram investigadas e condenadas. O físico Robert Oppenheimer, antes encarado como um verdadeiro herói nacional por sua decisiva participação no desenvolvimento da bomba atômica, teve de enfrentar um processo em 1953 - era acusado de traição, de manter ligações clandestinas com movimentos de esquerda e de realizar espionagem pró-soviética. Não foram obtidas provas de tais acusações mas, daí em diante, a carreira de Oppenheimer entraria em franco declínio. Ele só seria parcialmente reabilitado dez anos depois, ao receber um prêmio das mãos do presidente Johnson.

O grande articulador da campanha anti-subversão no Congresso foi o senador Joseph McCarthy, que logo ganhou notoriedade nacional como "caçador de comunistas". McCarthy, de fito, parecia ser capaz de enxergar subversão em toda parte: suas bombásticas declarações incluíam denúncias até contra integrantes do governo e das Forças Armadas norte-americanas. Em 1953, ele atacou o próprio presidente Eisenhower (eleito no ano anterior), que a seu ver não vinha promovendo com a eficiência necessária a eliminação de funcionários suspeitos de subversão. O macarthismo - movimento assim batizado em referência a seu coordenador e inspirador - chegou a promover cerimônias públicas de queima de livros considerados pró-comunistas.

A bomba

A crença de que agentes soviéticos procuravam se infiltrar por todos os lados era apenas uma das faces do clima de pavor anticomunista vivido pelos norte-americanos. Desde 1949, quando a União Soviética realizou seu primeiro teste nuclear, havia também o receio de que os soviéticos subitamente decidissem utilizar a bomba atômica.

Gradualmente, foi se cristalizando na opinião pública dos Estados Unidos a idéia de que a União Soviética preparava em segredo um fulminante ataque nuclear contra o território norte-americano, a ser desencadeado sem prévio aviso. Imaginava-se que os impiedosos soviéticos não hesitariam em cometer assassinato em massa, como parte de seu projeto de conquistar o mundo. A crença de que o apocalipse nuclear poderia acontecer a qualquer momento - talvez dali a cinco minutos - acentuava o clima de pânico.

A montagem de abrigos subterrâneos antiatômicos tornou-se um dos ramos mais lucrativos da indústria de construção civil nos anos 50: nenhuma família se sentiria totalmente protegida a menos que contasse com um deles em sua casa. A Defesa Civil, por sua vez, desenvolveu esquemas de emergência, a serem imediatamente ativados caso alguma cidade norte-americana fosse vítima de um ataque nuclear.

Assistindo à televisão, as crianças aprendiam como deveriam agir, caso tal ataque fosse realizado.

Um personagem de desenho animado - Burt, a tartaruga - repetia as instruções: "Jogue-se ao chão, cubra os olhos!" Outro filme, também repetido à exaustão, dava mais detalhes:

“Este é Tony, um escoteiro mirim. Tony sabe que a bomba pode explodir a qualquer momento. Mas ele está preparado: jogue­-se ao chão, cubra os olhos! Muito bem, Tony! O clarão da bomba exige reflexos rápidos! [...J Tony sabe o que fazer - não se desespera, nem sai correndo. Fica parado, até o perigo passar A Defesa Civil virá socorrê-lo. Ela nos protege em caso de ataque nuclear. Devemos obedecer suas instruções. Devemos saber nos abrigar também nos ônibus escolares ou coletivos: jogue-se ao chão, cubra os olhos! E afaste-se das janelas, por causa dos cacos de vidro!”

Preparar a população para o caso de um ataque atômico era apenas uma das medidas a serem tomadas. Outras tinham a ver com a conquista de uma superioridade nuclear inquestionável em relação à União Soviética. Se os Estados Unidos não eram mais o único país a dispor de bombas atômicas, então que ao menos possuísse mais e melhores bombas. O governo passou a investir um volume cada vez maior de recursos no desenvolvimento de novos modelos de bombas nucleares, sempre mais poderosas.

Em novembro de 1952, finalmente, foi realizado o primeiro teste com a bomba de hidrogênio, também conhecida como bomba H. Ao contrário da que tinha sido jogada no Japão em 1945, baseada no principio da fissão nuclear*, a bomba de hidrogênio funciona com base na fusão nuclear* - o que implica uma explosão muitas vezes mais destrutiva. A primeira bomba H, que explodiu no teste realizado na ilha de Elugelab, no atol de Eniwetok, no Pacífico, tinha uma potência quase mil vezes superior à da bomba de Hiroshima. No futuro seriam desenvolvidos novos modelos de bomba H, ainda mais poderosos. Nenhum preço parecia alto demais na luta contra a subversão em escala internacional.

A “cruzada” pelo capitalismo

A idéia de que seu papel era o de empreender uma guerra sem tréguas contra o comunismo soviético passou a orientar todas as ações do governo norte-americano desde o imediato pós-guerra. Internamente, os instrumentos para tanto eram a perseguição indiscriminada a ativistas de esquerda e o desenvolvimento de campainhas alarmistas junto à população. Em termos externos, a norma passou a ser o apoio irrestrito aos governos alinhados com a política anticomunista de Washington e o combate aos governos que se recusassem a seguir o mesmo caminho. Convencidos de que a nova ordem internacional lhes atribuía o papel de defensores da ordem capitalista, os norte-americanos passaram a intervir nos assuntos internos de outros países.

Isso, contudo, não podia ser feito sempre abertamente. Naquele ambiente político tenso, algo como o desembarque de soldados norte-americanos para derrubar um governo não-alinhado constituiria uma provocação direta a Moscou. Os soviéticos poderiam sentir-se autorizados a fazer o mesmo para defender esse governo, sob o risco do confronto nuclear entre as superpotências.

A solução foi o desenvolvimento de um tipo de ação invisível aos olhos do público -ás chamadas operações encobertas. Para tanto, foi criada a Central Intelligence Agency (CIA), um serviço secreto capaz de agir eficazmente no exterior. Recrutando milhares de agentes, técnicos, analistas e informantes, a CIA tornou-se o instrumento secreto de intervenção dos Estados Unidos no cenário externo durante todo o período da guerra fria.

O caso Rosenberg

Certo de que espiões comunistas haviam passado os segredos da construção da bomba atômica aos soviéticos, o governo norte-americano promoveu uma investigação que culminou com a execução do casal Rosenberg, em 1953. Julius e Ethel Rosenberg eram, de fato, militantes comunistas, e durante a guerra haviam convencido o irmão de Ethel, David Greenglass, que trabalhava no Projeto Manhattam, a desviar informações sigilosas para serem repassadas aos soviéticos. Mas as informações reunidas por Greenglass eram de importância absolutamente secundária; certamente não foi a partir delas que a União Soviética desenvolveu a bomba atômica. Mesmo assim, o casal Rosenberg foi condenado à morte e executado na cadeira elétrica. O presidente Eisenhower, que poderia ter transformado a pena em prisão perpétua, relembraria depois em suas memórias que estava então determinado a fazer do caso um exemplo de como o governo dos Estados Unidos tratava aqueles que considerava traidores e espiões.

Desde o início, a CIA procurou aliar o máximo de eficiência com o mínimo de visibilidade pública. Poucas pessoas notaram que, escondido entre as diversas leis que o presidente Truman enviou ao Congresso para aprovação, em 1947, estava um discreto parágrafo que autorizava o governo a criar uma agência de serviço secreto para operar no exterior. Subordinada diretamente à Presidência da República, o único escalão a quem devia prestar contas de suas ações, a CIA encontrou amplo espaço para expandir-se e desenvolver suas operações.

A primeira delas foi feita já em 1948, na Itália. Naquele ano foram realizadas eleições gerais no país, em uma campanha na qual os comunistas pareciam ter razoáveis chances de vitória. Sigilosamente, a CIA promoveu uma campanha de desmoralização do Partido Comunista Italiano e de apoio ao Partido Democrata Cristão - que acabou vencendo as eleições.

As próximas operações da CIA, contudo, iriam além da mera interferência em processos eleitorais. Passaram a incluir planos de assassinato de políticos de esquerda, apoio a golpes de Estado, estímulo à formação de governos militares de direita e reforço dos órgãos policiais de repressão política.

Para o governo norte-americano, existia um motivo para tudo isso. Em sua luta permanente contra o comunismo soviético, os Estados Unidos consideravam-se como verdadeiros cruzados em defesa do capitalismo e da democracia.

A favor do socialismo

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas chegou ao segundo pós-guerra numa posição nova em sua história: a de superpotência mundial. Antes disso, o primeiro - e até então o único - Estado socialista do planeta havia sofrido um implacável processo de marginalização, num cenário internacional dominado pelas nações capitalistas. Estas haviam primeiro tentado derrubar seu governo revolucionário, depois promoveram seu isolamento político e econômico.

A participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial servira para revelar ao mundo a extensão de seu poderio militar. Mesmo sofrendo grandes perdas, o país contribuíra decisivamente para a derrota do nazi-fascismo. Dentro da ordem internacional que agora se estabelecia, a presença, os interesses e os pontos de vista dos soviéticos não poderiam mais ser ignorados - quisessem ou não os países capitalistas. O mundo teria de se habituar a ouvir e acatar a retórica e as posições da União Soviética.

O significado da guerra

Apesar de tudo, o governo soviético havia resistido por um bom tempo à perspectiva de envolver o país na guerra. Para Stalin, a principio aquele era um conflito capitalista, que devia ser resolvido por quem o havia iniciado - os países capitalistas. A União Soviética nada tinha a ver com as disputas entre alemães e italianos de um lado, ingleses e franceses de outro. Se eles queriam assassinar-se uns aos outros em sua luta por mercados e influência política, que o fizessem - mas que deixassem os soviéticos fora disso.

Era justamente para ficar tão longe quanto possível da guerra que, em agosto de 1939, Stalin havia firmado um pacto de não-agressão com aquele que parecia o mais bélico dos líderes europeus: Adolf Hitler.

Além disso, a União Soviética vivia uma fase particularmente decisiva em sua revolução. Enfrentando todos os obstáculos e resistências internas, o governo de Stalin conduzia com mão de ferro um processo de coletivização das propriedades agrícolas e de industrialização acelerada do pais, consideradas metas prioritárias para a construção do socialismo. Em 194O, havia sido atingida a marca de quase 97% de coletivização no campo, com a substituição de propriedades privadas por kolkhozes (fazendas coletivas controladas pelo Estado). Pouco antes, a União Soviética, um país predominantemente agrário mesmo depois da revolução de 1917, chagara à posição de terceira nação industrial do mundo, uma marca impressionante pela rapidez com que fora conquistada.

Tudo isso, naturalmente, havia exigido sacrifícios enormes do povo soviético: dezenas de milhões de camponeses que haviam resistido à coletivização, por exemplo, tinham sido transferidos de região, presos ou mortos. Mas, pelo menos para Stalin, esse era o preço a ser pago em nome do socialismo. Agora era o momento de consolidar a revolução internamente, e não de participar de aventuras no exterior.

A determinação de ficar fora da guerra, contudo, foi por terra em junho de 1941, quando Hitler desencadeou um ataque de surpresa contra a União Soviética.

Em pouco tempo, a avassaladora ofensiva nazista colocou sob domínio alemão vastas regiões do território soviético, como a Bielo-Rússia e parte da Ucrânia e da Criméia. As tropas de Hitler chegaram a conquistar posições a cerca de trinta quilômetros de Moscou. Foi preciso um tremendo esforço para organizar a resistência ao invasor. Mas, pouco a pouco, o Exército Vermelho conseguiu rechaçar o inimigo, primeiro reconquistando as regiões perdidas e depois fazendo os nazistas retrocederem até a Alemanha. Quando Berlim finalmente capitulou, em maio de 1945, eram tropas soviéticas que cercavam e ocupavam a cidade.

O custo da vitória, no entanto, tinha sido terrível. Mais de 20 milhões de soviéticos morreram em conseqüência da guerra - entre eles 9,5 milhões de civis atacados pela fome, pelas doenças ou simplesmente executados pelo inimigo.

Há controvérsias sobre esses números: segundo o historiador James Gormly, o total de mortos ficou entre vinte e 25 milhões de soviéticos. Só em Leningrado, que resistira heroicamente ao cerco nazista, morreram mais soviéticos que a soma de todos os soldados que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, juntos, perderam na guerra.

Vastas regiões foram arrasadas e a economia quase totalmente desarticulada.

Não era à toa que Stalin insistira tanto na questão das reparações, nas conferências dos Três Grandes: seu país estava praticamente esgotado pela guerra.

Um novo inimigo

Mesmo assim, a União Soviética havia obtido uma incontestável e retumbante vitória. Sem sua participação na mobilização contra o Eixo, dificilmente Hitler teria deixado de vencer a guerra. Por maiores que fossem os problemas relacionados com a reconstrução econômica do país, mais importante permanecia o fato de que o Exército Vermelho havia demonstrado a capacidade de mobilização e o poderio soviético ao mundo. A partir dali, qualquer nação teria de pensar duas vezes antes de agredir a pátria do socialismo.

Mais ainda, uma série de países do Leste europeu - Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, Bulgária, Albânia e, pouco depois, a Alemanha Oriental - vivia agora sob o regime socialista, contando com governos amigos de Moscou. A revolução fora ampliada, tirando a União Soviética do isolamento anterior. Existia agora não apenas um país, mas todo um bloco socialista, sob a liderança firme da própria União Soviética.

A participação naquela sangrenta guerra capitalista tinha, afinal, rendido seus frutos. Mas, assim que a guerra acabou, um novo inimigo surgiu no horizonte. Até então aliados, os Estados Unidos passaram a hostilizar cada vez mais duramente os soviéticos com ameaças veladas e atos unilaterais que visavam reduzir sua influência internacional.

Havia uma lógica nisso. A guerra fizera dos norte-americanos os novos líderes do mundo capitalista e, como tais, estes haviam também assumido a liderança na oposição ao regime soviético - que declaradamente lutava pelo fim do capitalismo no planeta.

Seu objetivo era claro: agir de todas as maneiras para fazer refluir a revolução, se possível exterminá-la totalmente, reintegrando os países do bloco socialista no circuito de exploração capitalista.

O Estado soviético sempre tivera muitos inimigos, mas este parecia especialmente agressivo. Logo os Estados Unidos iniciaram uma campanha difamatória, visando apresentar a União Soviética como uma potência expansionista, empenhada em estender seu controle a novos países através da conquista. Isso era falso, pelo menos naquele momento. Sua prioridade era reerguer uma economia arrasada pela guerra e consolidar as recentes conquistas no Leste europeu; mesmo que tivessem tais planos expansionistas, os soviéticos não teriam como sustentá-los no futuro imediato. Stalin nem sequer estimulara a eclosão da revolução chinesa, tendo antes recomendado prudentemente a Mao Tse-tung que procurasse manter a aliança com o governo nacionalista de Chang Kai-chek.

Várias medidas precisavam ser tomadas, portanto, para que a União Soviética fosse capaz de enfrentar os norte-americanos. Uma das mais importantes tinha a ver com o desenvolvimento da bomba atômica. Enquanto perdurasse a vantagem dos Estados Unidos em termos nucleares, raciocinava Stalin, o bloco socialista correria um perigo permanente. O projeto nuclear soviético, iniciado em 1943, foi intensamente acelerado no pós-guerra. Sua coordenação foi entregue a Lavrenty Beria, homem forte dentro do regime e uma das pessoas em quem Stalin parecia ter confiança absoluta. Beria também dirigia, com status de ministro, o poderoso Comissariado do Povo para a Segurança do Estado, responsável pela polícia política e pelos serviços de espionagem.

O teste nuclear realizado com êxito no deserto do Cazaquistão em 1949 não representara o ponto final nessa verdadeira epopéia, apenas o inicio. A partir daí, norte-americanos e soviéticos passariam a competir pelo desenvolvimento de novos modelos de armas nucleares, mais avançados e poderosos. Menos de um ano depois que os Estados Unidos explodiram em teste sua primeira bomba de hidrogênio, em 1952, os soviéticos fizeram o mesmo.

E depois que os norte-americanos realizaram uma nova experiência, fazendo explodir uma bomba mais poderosa que todas as anteriores no atol de Bikini, em março de 1954, os soviéticos responderam realizando mais um teste: jogaram pela primeira vez uma bomba H de um avião, em novembro de 1955.

O crescente arsenal nuclear soviético foi sendo elevado à categoria de orgulho nacional, com mísseis e ogivas sendo gloriosamente exibidos à população nas paradas militares comandadas pelo Partido Comunista. O governo era obrigado a gastar um volume cada vez maior de recursos para manter-se na corrida nuclear, em detrimento do investimento em outros setores - por exemplo, no aperfeiçoamento da economia ou na melhoria da qualidade de vida dos soviéticos.

Nada disso parecia importar: o Estado soviético não recuaria em sua responsabilidade de defender a revolução. Nessa nova etapa de sua permanente luta contra a agressão imperialista - nessa guerra fria - os soviéticos novamente demonstraram sua capacidade de sacrifício em nome do socialismo.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal