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Macartismo

Campanha radical direitista promovida nos EUA, de 1950 a 1954, pelo senador Joseph McCarthy e seus adeptos. Anticomunista, caracterizou-se pela intimidação e delação. Atingiu em grande escala os meios artístico e intelectual.
Campanha radical direitista promovida nos EUA, de 1950 a 1954, pelo senador Joseph McCarthy e seus adeptos. Anticomunista, caracterizou-se pela intimidação e delação. Atingiu em grande escala os meios artístico e intelectual.

Segundo o Dicionário Aurélio, "Macartismo" é atitude política radicalmente infensa ao comunismo, que se desenvolveu nos Estados Unidos, com a campanha desencadeada pelo Senador Joseph Raymond McCarthy, quando presidente do Senate’s Government Operations Committee e; qualquer atitude anticomunista radical. Cabe lembrar, primeiramente, que o Macartismo foi um fenômeno do contexto da Guerra Fria, especificamente nos Estados Unidos; sendo assim, a generalização deste termo a qualquer perseguição anticomunista torna-se anacrônica e equivocada.

No cenário da bipolarização mundial, muitos acontecimentos marcaram esta divisão. Do ponto de vista americano, a Doutrina Truman (Março de 1947) e o Plano Marshall (Junho de 1947) iniciaram este processo que seria, mais tarde, consolidado pela "perda" da China como área de influência ianque (vitória da Revolução Chinesa, em 1949) e pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, em abril de 1949). Já do ponto de vista soviético, a criação do Pacto de Varsóvia (Abril de 1949) e a explosão da sua primeira bomba atômica (1949) intensificaram o clima de histeria e disputa ideológica que desenharam as relações internacionais no mundo do pós-guerra.

Para analisar qualquer desdobramento da Guerra Fria é preciso partir do pressuposto de que as relações entre as duas potências não podem ser tratadas separadamente, porém, não cabe nos prendermos a especificidades da URSS, uma vez que o palco do Macartismo é os EUA.

Também conhecido como "caça às bruxas", o Macartismo representou uma repressão política aos supostos comunistas dos EUA. Joseph McCarthy (1908-1957), Senador republicano pelo estado de Michignan, se notabilizou politicamente após presidir o Permanent Investigating Subcommittee of the Government Operations Committee. Suas perseguições se limitaram ao âmbito do Governo Federal, embora o termo seja amplamente usado em qualquer referência a perseguições comunistas, devido ao fato do Senador ter sido a expressão máxima deste clima de medo.

O próprio termo "Macartismo", portanto, é passível de críticas. Primeiro porque McCarthy se restringia ao Governo, já o termo engloba qualquer tipo de perseguição, seja a artistas, roteiristas, diretores, membros da comunidade acadêmica, cientistas e etc.. Segundo porque responsabilizar uma única pessoa, no caso este Senador, por um fenômeno que começou antes de sua ascensão (ver

Cronologia) e permaneceu após sua morte é, no mínimo, subestimar a dimensão da histeria que tomou conta dos EUA por um longo período da Guerra Fria. Argemiro Ferreira, em seu livro, cita dois autores, Gary Wills e Robert Goldstein, que defendem que a escolha deste nome – Macartismo – teria sido teleológica, ou seja, para estes o termo mais adequado seria "Trumanismo", para evidenciar que o período de perseguição começou antes da criação do Subcomitê presidido por McCarthy.

Uma demonstração do apoio da sociedade civil e, conseqüentemente, de uma relativa diminuição do papel de McCarthy, seria na eleição de dois presidentes, Richard Nixon (1968-1974) e Ronald Reagan (1980-1988), que participaram ativamente das campanhas de perseguição. Não cabe defender a postura de McCarthy neste processo, mas pontuar que suas atitudes não foram isoladas e que seu Comitê só atingiu tamanha repercussão impulsionado pelo clima de ameaças de uma possível invasão comunista.

Uma das facetas do período da caça às bruxas foi caracterizar não só como estrangeiras, mas como abertamente antiamericanas, as políticas econômicas e sociais implementadas pelo New Deal. Um refluxo desta caracterização foi a criação, em 1938, do House Committee for the Investigation of Um-American Activities (HUAC). Apesar de suas atividades terem declinado durante a Segunda Guerra Mundial, fruto da aliança entre EUA e URSS, elas logo seriam retomadas.

Lauren Bacall e H.Bogarth, casal sob suspeita
Lauren Bacall e H.Bogarth, casal sob suspeita

A partir de então, a HUAC perseguiria ex-colaboradores de Roosevelt e, no mesmo período, voltaria suas investigações também para Hollywood, dando origem às famosas listas negras de atores,

roteiristas e técnicos. Fernando Peixoto remonta a paranóica máquina de traição e medo; diz que a inclusão de Hollywood na rota das perseguições seria uma ajuda inestimável para desencadear uma ampla campanha publicitária de um patriotismo doentio. Na década de 50, a HUAC ainda teria importante papel na perseguição de professores de diferentes áreas, gerando uma limitação às atividades acadêmicas e uma consensual mudança na produção das Ciências Humanas.

A HUAC representava o grande motor que impulsionou o clima de delação, importante característica do Macartismo. Em 1970, anos após a morte de Joseph McCarthy, este Comitê muda de nome para ISC (International Security Committees), demonstração de que seus objetivos iniciais permaneceriam. O Comitê intimava pessoas suspeitas a depor e estas, ao longo do interrogatório, teriam que indicar nomes de outros possíveis comunistas para entrarem no mesmo processo. Esta

MacCarthy mostrando o mapa da presença comunista nos EUA

atitude era muito pressionada pelos membros do Comitê, embora muitas das vezes, estes já tivessem posse dos nomes, com a possível ajuda de instituições como o FBI e a CIA. Isso demonstra a atmosfera criada: o delator como uma figura positiva e o que se recusasse, associado à idéia de anti-americano. Ser delatado significava automaticamente entrar para as listas negras, o que, por sua vez, significava desemprego, clandestinidade e exílio. Como não havia perspectivas de sair das listas, muitos eram levados ao desespero e, em casos extremos, ao suicídio.

Aqueles que se recusassem a delatar mesmo permanecendo nas tais listas, apoiavam-se nas I e V Emendas da Constituição dos Estados Unidos. Porém, tais Emendas só poderiam ser utilizadas ao iniciar do interrogatório. Caso o interrogado se recusasse a responder qualquer pergunta sem ter evocado a I ou a V Emendas no início, ele seria preso por desacato ou perjúrio.

Em 1952, é eleito para a presidência dos EUA, o republicano Dwight Eisenhower, um general da reserva do Exército. Para sua candidatura, o apoio de McCarthy foi fundamental, uma vez que o adversário democrata teve sua base desequilibrada pelas acusações do Senador.

Em dezembro de 1953, McCarthy exige o direito de acesso aos arquivos confidenciais das Forças Armadas relativos à lealdade, imaginando que teria apoio do Governo e de membros do próprio Exército. O presidente não aprova sua iniciativa e, a partir de então, todos os que também eram contra ele se revelam, inclusive membros do próprio partido republicano. Este acontecimento lhe custou a perda do apoio do partido e de Eisenhower, bem como muitas sanções, como o veto a convites para freqüentar a Casa Branca e barreiras às suas propostas no Senado.

Nos filmes sobre o tema, nota-se a reflexão sobre a questão de quem seriam os vilões e os heróis. Numa análise superficial, a associação óbvia seria de que o delator é automaticamente o grande inescrupuloso, anti-ético. Este tipo de análise não permite perceber a faceta humana desta história, uma vez que, muitas vezes, a delação poderia ser a única saída. Não foram perseguidos só famosos e pessoas ricas; pequenos atores, professores, estudantes também se viam presos àquela situação. Muitas vezes estes delatavam quem já constava na lista ou quem já estava morto, na tentativa de saírem desta rede de intrigas. Porém, sendo isto inviável, a não ser pela "colaboração" para com a HUAC, o arrependimento se refletia em muitos suicídios, depressões, infartos. O vilão, portanto, foi aquele que lucrou, que se elegeu, enfim, que obteve benefícios com a máquina da delação. Toda esta polêmica se catalizou a partir do famoso discurso de Dalton Trumbo (ver quadro 1) na entrega de um prêmio no Sindicato dos Escritores, sindicato este que não o representou durante a cruzada anticomunista, pelo contrário, contribuiu para tal máquina.

O Macartismo não foi, por sua vez, um caso isolado. Ele pertenceu ao período da Guerra Fria e, apesar de ter sido específico dos EUA na década de 50, paralelos podem ser traçados, visto que o mundo se encontrava numa ordem bipolar. Uma possível relação seria o exemplo brasileiro à época do decreto do AI-5 (1968), que significou uma institucionalização das perdas de liberdades individuais.

A história norte americana ficou marcada não só por perseguições, mas também pela crise dos poderes, uma vez que não é função do Senado executar, nem julgar. Lêda Boechat analisa este fenômeno sob uma outra ótica que não somente a da histeria. Ela pontua a omissão do Judiciário como um pilar fundamental para o espaço que se abriu a essas Comissões, permitindo uma maior mobilidade de ação.

Uma discussão bastante atual, seja em reportagens americanas (ver listas de sites), seja no âmbito da academia tem sido a possível relação entre o Macartismo e discurso de George W. Bush. Cabe ressaltar que Macartismo foi um fenômeno com tempo e espaço bem delimitados na História, o que não significa não significa dizer que tenha se repetido, somente alguns de seus traços. A histeria, não mais em torno do comunismo, ganha forças. O mal, porém, agora se veste de burca ou chadô. Terrorismo se tornou o novo alvo da cruzada norte americana. Pelo medo de um possível ataque, a sociedade permite que certas liberdades lhe sejam tolhidas. A política externa voltou a ser a mesma, os EUA como os agentes mundiais da liberdade, partindo do mesmo pressuposto que a reprime, a intolerância

DISCURSO DE DALTON TRUMBO NO SINDICATO DOS ESCRITORES

"Em nada ajudará uma busca de vilões ou de heróis, de santos ou de demônios. Eles não existiram. Houve apenas vítimas. Alguns sofreram menos do que outros, alguns cresceram, outros se apequenaram. Mas no cômputo final, fomos todos vítimas porque, quase sem exceção, cada um de nós sentiu-se compelido a dizer coisas que não queria dizer, a fazer coisas que não queria fazer, a desferir e a sofrer golpes que verdadeiramente não queria trocar. Daí porque nenhum de nós – direita, esquerda ou centro – emergiu sem pecado daquele longo pesadelo."

DISCURSO DE HARRY TRUMAM, PROFERIDO EM MARÇO DE 1947, NA OCASIÃO DO ANÚNCIO DA DOUTRINA TRUMAM

"Não realizaremos nossos objetivos – dizia o presidente – se não estivermos dispostos a ajudar povos livres a manter suas instituições livres e sua integridade nacional contra movimentos agressivos que procuram impor-lhes regimes totalitários. Isso não é mais que um franco reconhecimento de que os regimes totalitários impostos aos povos livres, por agressão direta ou indireta, solapam os fundamentos da paz internacional e, por conseguinte, a segurança dos Estados Unidos."

Cronologia

1927/1928: Côrte Suprema reforma jurisprudência firmada em 1880. À partir desta data, o Judiciário passou a não mais interferir nas políticas de cidadãos privados e associações, possibilitando o desenvolvimento das Comissões Parlamentares de Inquérito.

1930: New Deal. Programa aplicado pelo então presidente Franklin Roosevelt.

1938: Instalada, na Câmara dos Deputados, a Comissão para Investigação de Atividades Anti-Americanas, conhecida como HUAC (House Commitee for the Investigation on Um-American Activities).
1939: Act Hatch. Lei que proibia os funcionários federias dos EUA de serem membros de quaisquer organização revolucionária. Ocasionou o declínio do funcionalismo público.

Fev.1945: Conferência de Yalta.

Abr.1945: Morre Franklin Roosevelt, deixando a presidência para o seu vice, Harry Truman.

Jun.1945: Fim da aliança entre EUA e URSS contra o eixo nazi-fascista.

Set.1945: Recomeçam as audiências da HUAC sobre subversões comunistas, envolvendo possíveis infiltrações em sindicatos e espionagens.

Fev.1946: Diplomata George Kennam, da Embaixada dos EUA em Moscou envia à Washington sua mensagem telegráfica de oito mil palavras sobre a necessidade de conter os soviéticos. Ficou conhecido como "Telegrama das Oito Mil Palavras".

Mar.1946: "Dircurso da Cortina

Fonte: pt.wikipedia.org

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