Conquistados Pela Fé

CONQUISTADOS PELA FÉ

A longa jornada dos jesuítas nos pampas

Os jesuítas disseram:. Juráis a Deus e prometáis ao Rei seguir constantemente suas bandeiras, defendê-las até verter a última gota de vosso sangue e não abandonar aos que estiveres mandando em função de guerra ou na preparação para ela..

A conquista espiritual era a missão, a ordem e a promessa da Companhia de Jesus na América. Quando chegaram, nos princípios do século XVII, os padres não sabiam o que iam encontrar na parte sul da América, então espanhola. Sabiam, no entanto, que estava em suas mãos conquistar e controlar os índios. Povoar e dominar a terra cisplatinado lado de cima do rio da Pratapara o rei de Espanha.

Tarefa nem tão árdua. A arma estava na cruz e na lábia dos jesuítas. Diz a lenda que ainda no século I o apóstolo Toméque virou o santoteria aberto o caminho na mente dos guaranis, o povo que controlava a terra então virgem aos olhos europeus.. A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas, quando depois de muitos tempos, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta mesma doutrina., teria dito Pay Zuméou São Toméaos guaranis.

São Tomé, um dos 12 apóstolos teria passado pela América e deixado na mente dos índios a marca da cruz. Antonio Ruiz de Montoya, primeiro superior das Missões nas Américas, garantia que os indícios estavam todos no novo mundo.. Que haja sido São Tomé aquele que, com sua pregação, ilustrou os índios do ocidente., afirmava.

Mas, a conquista espiritual planejada por Montoya não foi tranqüila. A terra e os índios conquistados eram cobiçados pelos portugueses. Primeiro, foram os bandeirantes paulistas. Em 1630, as dezenas de missões fundadas no Guairá, hoje Paraná, e no Rio Grande do Sul, viraram centro de abastecimento de escravos. Afugentados pelos paulistas, os jesuítas e seus índios fugiram para o lado de lá do rio Uruguai.

Voltaram no final do século. No ano de 1690, o padre Bernardo de La Vega cruzou o rio mais uma vez. Vinha da terra hoje argentina, da missão de Santa Maria La Mayor, trazendo consigo 3.512 índios guaranis, com seus pertences, suas ferramentas, sementes de trigo, milho e erva mate, cabeças de gado e ovelha. De La Vega fundou o quarto povoado missioneiro do lado de cá do Uruguai. Voltava para repovoar a terra que já havia sido parte do império jesuíta.

Foram 70 anos de paz. E aí veio mais uma vez a guerra. Portugueses e Espanhóis negociaram a terra missioneira sem fazer perguntas aos padres ou índios. Em quatro anos de luta, sobraram as índias, os velhos, as crianças. E o gado, trazido pelos padres do então Paraguai. E sobrou o sangue.

Na terra gaúcha que hoje se chama Missões, visitada pelo Correio no nono capítulo da série Redescobrindo o Brasil, a lembrança maior deixada pelas reduções jesuíticas está nas veias de cada um. Cada gaúcho missioneiro tem em si um pouco de guarani, um pouco de espanhol, um pouco de português. Tem, também, um só meio de vida: o campo. Ainda hoje, o gado que chegou à banda oriental pelas mãos dos jesuítas é rei. É o ganha-pão e o estilo de vida.

O gaúcho missioneiro carrega nos olhos, na pele, nos gestos e na vida o resultado da sua mistura. Em 1626, quando, pela primeira vez, o padre jesuíta espanhol Roque Gonzalez encontrou os guaranis do lado oriental do rio Uruguai começou a se formar o povo que ainda hoje habita as coxilhas da terra denominada missões riograndenses.

Não que a miscigenação fosse o propósito dos jesuítas. Nas Missões, índios

eram mantidos a distância; soldados também. A mescla de raças só começa em 1766, quando os exércitos da Espanha e de Portugal destroem a aventura missionária, matam milhares de índios e expulsam os padres.

Chamou-se Guerra Guaranítica, durou cinco anos e pôs de lado opostos colonizadores de farda e de batinaos nativos formavam a tropa dos evangelizadores.

Com o fim do domínio da Companhia de Jesus, sobraram ali, nas terras cobertas pelo melhor pasto da região, apenas soldados europeus de um lado; mulheres, velhos e crianças indígenas de outro. Após a guerra, os dois lados desapareceram e viraram um povo. Assim, começou a se formar o gaúcho.

Os portugueses e espanhóis, espécie de aventureiros sem leichamados gaudérios, de onde vem a palavra gaúchochegaram quando pouca coisa restava da ordem que os jesuítas criaram. Dividiram a terra. Amigaram-se com as índias. Juntaram e passaram a criar o gado deixado para trás pelos padresfoi um deles, o jesuíta Cristóvam Mendoza que, em 1634, levou da Argentina para o Brasil as primeiras 2,5 mil cabeças de gado.

Por 350 anos, os bois foram a única riqueza da cidade de São Luiz Gonzaga, no passado sede da Missão jesuítica. Até 1960, o povo andava a cavalo, comia a carne, vestia o couro. Mas, a partir da década de 70, outros produtos passaram a engordar a economia do lugar.

.São Luiz entrou numa fase de transição quando o trigo e a soja começaram a ocupar o que antes era só pastagem., comenta Flávio Bettanin, advogado e historiador da cidade. Hoje, toda a riqueza de São Luiz Gonzaga vem do campo. Mas os bois perderam o domínio. A terra escolhida pelos padres no passado é ainda uma das mais férteis do mundo.. Aqui, o que se planta colhe., diz o prefeito Alseu Braga, dono de sete mil hectares de campo. As mesmas palavras do viajante francês Auguste Saint-Hilaire, que passou pela campanha em 1820.

.Podem-se cultivar com igual sucesso os campos e os bosques; e todos os capões, indistintamente, oferecem terreno absolutamente bom., narrava Saint-Hilaire, especialista em terras e plantas.

Mas o gaúcho que nasceu na lida campeira, como em. gauchês.chama-se o trabalho com a pecuária, tem dificuldade de se adaptar ao trator e à colheitadeira das plantações.

Odil Escobar Ribas, de 55 anos, nasceu no campo. Tentou a vida em uma granjafazendas onde há apenas a plantaçãoe terminou na estância Santa Inês, das maiores da região. Corta cana para alimentar o gado, faz vacina e a marcação no couro do boi.. Na granja é um trabalho ingrato. Nem de noite se pára, tem que preparar a terra., conta.

Na fazenda de gado não se trabalha muito menos. A Santa Inês emprega três peões e um capataz, Luis Carlos de Lima Paraíba, de 35 anos. Em todas as fazendas de Avelino de Moraes, o maior fazendeiro da região7,5 mil hectares de terra declarados, o dobro disso segundo as histórias da cidadesão apenas 18 homens.

.É trabalho duro. Mas para a gente que se criou em cima do cavalo, com esse horizonte grande pela frente, não dá para enfrentar a cidade., explica Luis Carlos. O capataz tentou a vida na cidade. Foi ser açougueiro para ganhar um pouco mais do que os R$ 130 do salário mínimoo máximo que qualquer peão recebe nas redondezas. Voltou correndo.. Ficar o dia todo encurralado, sem ver o sol, não dá., desabafa.

Mas, mesmo nos pampas, o campo gaúcho, não tem mais lugar para todo mundo.. O peão não está acostumado a ser tratorista, a dirigir caminhão., explica Eugênio Hartmann, o padre de São Luiz Gonzaga, um especialista no desemprego que assola a região.. Quando esse homem perde o cavalo e os arreios, perde a identidade., completa. O gaúcho a pé não sabe como viver.

Juarez Coimbra Antunes carrega um nome de herança nobre. Nas veias, a mistura do guarani com espanhol e português. Tem a pela morena, os cabelos escuros e os gestos calmos que herdou dos seus antepassados. Como eles, Antunes nasceu na lida campeira.

Perdeu o emprego, foi parar na vila Boa Esperança onde a esperança fica apenas no nome, periferia miserável de São Luiz.. Vou todos os dias à cidade ver se arrumo um trabalho, mas não tem nada., lamenta enquanto do outro lado da cidade, os peões saem cedo a cavalo para juntar o gado. E o chimarrão segue esquentando à beira do fogo de chão. É assim há quase 300 anos.

Fonte: www2.correioweb.com.br