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Guerra Guaranítica

 

Nome que se dá aos violentos conflitos que envolvem os índios guaranis e as tropas espanholas e luso-brasileiras no sul do Brasil após a assinatura do Tratado de Madri, em 1750.

Os guaranis de Sete Povos das Missões recusam-se a deixar suas terras no território do Rio Grande do Sul e a transferir-se para o outro lado do rio Uruguai, conforme ficara acertado no acordo de limites entre Portugal e Espanha.

Guerra Guaranítica

Com o apoio parcial dos jesuítas, no início de 1753 os guaranis missioneiros começam a impedir os trabalhos de demarcação da fronteira e anunciam a decisão de não sair de Sete Povos.

Em resposta, as autoridades enviam tropas contra os nativos, e a guerra explode em 1754.

Os castelhanos, vindos de Buenos Aires e Montevidéu, atacam pelo sul, e os luso-brasileiros, enviados do Rio de Janeiro sob o comando do general Gomes Freire, entram pelo rio Jacuí. Juntando depois as tropas na fronteira com o Uruguai, os dois exércitos sobem e atacam frontalmente os batalhões indígenas, dominando Sete Povos em maio de 1756.

Chega ao fim a resistência guarani.

Um dos principais líderes guaranis é o capitão Sepé Tiaraju.

Ele justifica a resistência ao tratado em nome do direito legítimo dos índios em permanecer nas suas terras.

Comanda milhares de nativos até ser assassinado em fevereiro de 1756.

Fonte: EncBrasil

Guerra Guaranítica

As Guerras Guaraníticas

As "partidas de limites" do sul foram comandadas pelo capitão-general do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, e pelo marquês espanhol, Val de Lírios.

Estas comissões chegaram a constituir-se, mas logo tiveram seus trabalhos dificultados, pela oposição das populações indígenas dos Sete Povos aos destinos que o Tratado de Madrid lhes dava.

Nas palavras de Darcy Ribeiro em "As Américas e a Civilização", essas missões constituíam "a tentativa mais bem sucedida da Igreja Católica para cristianizar e assegurar um refúgio às populações indígenas, ameaçadas de absorção ou escravização pelos diversos núcleos de descendentes de povoadores europeus, para organizá-las em novas bases, capazes de garantir sua subsistência e seu progresso". Pelo tratado, elas deveriam ser transferidas para as margens ocidentais do rio Uruguai, o que representaria "Para os guaranis das sete reduções condenadas (...) a espoliação, a ruína e o infortúnio, a destruição do trabalho de muitas gerações, a deportação de mais de trinta mil pessoas, segundo as cifras mais modestas".

Quando os indígenas souberam o que os esperava, por decisão comum de portugueses, do rei de Espanha e da própria Companhia de Jesus, que enviou emissários, entre eles o Padre Lopes Luís Altamirano, para impor-lhes a obediência, assim se expressaram seus chefes: "Como poderá a vontade de Deus ser que vós tomeis e arruineis tudo o que nos pertence? Aquilo que possuímos é exclusivamente o fruto de nossas fadigas, e o nosso rei não nos deu coisa alguma...

Não somos apenas os sete povos da margem esquerda, mas doze outras reduções estão decididas a sacrificarem-se conosco desde que tenteis apoderar-vos de nossas terras. . ."

Os jesuítas ficaram entre a cruz e a espada. Se apoiassem os indígenas seriam considerados rebeldes. Se não se solidarizassem com eles, perderiam sua confiança. Alguns se submeteram às ordens da Coroa, outros permaneceram junto aos guaranis apenas por circunstâncias, mas outros ainda, a exemplo do Padre Lourenço Balda, cura de São Miguel, deram todo seu apoio aos indígenas e à organização de sua resistência, não se importando que recaíssem sobre eles as acusações de traidores da pátria e de culpados de crimes de lesa-majestade.

Foi à heróica resistência desses índios à ocupação de suas terras e à escravização que se deu o nome de "Guerras Guaraníticas". Apesar da inferioridade, no tocante a armamentos e a instrução militar, resistiram a ataques isolados ou conjugados de portugueses e espanhóis até 1767, graças à sua tenacidade na luta, às táticas desenvolvidas e à condução de chefes como Sépé Tirayu e Nicolau Languiru.

Para Pombal, a resistência indígena era obra da hostilidade jesuítica. Vem desse tempo a sua Relação Abreviada da República dos Jesuítas, atribuindo a estes a tentativa de criação de um "Império Temporal Cristão" na região das missões.

Em 1759 foram expulsos, por ordem do marquês, de Portugal e demais domínios do reino.

No mesmo ano morreu Fernando VI de Espanha, subindo ao trono Carlos III, que não demorou em denunciar o tratado de 1750. Gomes Freire de Andrade, que comandava as tropas coloniais portuguesas contra os guaranis, em 1761, temendo ter que enfrentar o maior peso da ofensiva indígena, retirou-se, recusando-se a receber os Sete Povos. Pombal, que tentara negociar modificações do tratado com a Espanha, não tivera êxito. Suspendeu, desse modo, sua execução, até que em fevereiro de 1761 firmou em El Pardo um novo tratado anulando o de Madrid.

A questão fronteiriça do sul continuaria, só sendo resolvida por novos acordos em 1777, Santo Ildefonso, e 1801, Badajós, que acomodariam os dois grandes impérios da América do Sul sobre as cinzas dos Povos das Missões.

Estes não conseguiram resistir, e seu epílogo ainda é Darcy Ribeiro quem nos descreve: elas foram "assaltadas pela burocracia colonial, pelos assuncenos e pelos mamelucos paulistas, propositadamente desorganizadas para abolir características tidas como comunizantes. Já em fins do século XVIII, os índios missioneiros haviam sido dispersados, escravizados e conduzidos a regiões longínquas, dissolvidos no mundo dos gaúchos, ou ainda, refugiados nas matas onde se esforçavam por reconstituir a vida tribal, enquanto suas terras e seu gado passavam às mãos de novos donos".

Resistência dos Guaranis

Para entender a Guerra Guaranítica temos de lembrar as disputas entre Portugal e Espanha em relação às terras deste continente e à indefinição de fronteiras de suas colônias. A área mais conflitiva situava-se junto ao estuário do rio da Prata, onde os portugueses haviam fundado a Colônia do Sacramento, em 1680, quase em frente a Buenos Aires. A Espanha não admitia a presença portuguesa na região, sobretudo ali, que era porta de acesso às riquezas minerais do Peru.

No início do século XVIII, com a instalação de algumas vilas no Rio Grande, em decorrência do desenvolvimento da pecuária, houve um acirramento da disputa.

A Colônia do Sacramento permaneceu bloqueada pelas forças espanholas por 22 meses (1735-1737). Após árduas negociações, portugueses e espanhóis assinaram o Tratado de Madrid, em 1750, que legitimava um novo território bem diferente daquele determinado pelo Tratado de Tordesilhas, aliás, nunca cumprido. Portugal cedia a Colônia do Sacramento em troca do território dos Sete Povos das Missões, na margem esquerda do rio Uruguai, onde viviam cerca de 30 mil índios que deveriam ser evacuados.

Quando os Guarani tomaram consciência do acordo entre os portugueses, espanhóis e a própria Companhia de Jesus, que havia mandado missionários pra convencê-los a aceitar o tratado, revoltaram-se. "Como poderá ser a vontade de Deus que vós tomeis e arruineis tudo o que nos pertence? Aquilo que possuímos é exclusivamente o fruto de nossas fadigas, e o nosso rei não nos deu coisa alguma...

Não somos apenas as sete missões da margem esquerda, mas doze outras reduções estão decididas a sacrificarem-se conosco desde que tenteis apoderar-vos de nossas terras..." Os jesuítas ficaram num dilema. Se apoiassem os indígenas seriam considerados rebeldes. Se não se solidarizassem com eles perderiam sua confiança. Dos quatorze jesuítas, onze permaneceram junto aos Guarani, até o fim, como o padre Lourenço Balda, que foi um dos estrategistas da resistência.

Estourou então a Guerra Guaranítica, que durou três anos, de 1753 a 1756. Sepé Tiaraju foi o grande líder a enfrentar as tropas portuguesas e espanholas, juntamente com outros caciques Guarani, como Nicolau Languiru.

Esta terra tem dono. Ela foi dada por Deus e São Miguel!

Esse grito de resistência, lançado pelos Guarani, espalhou-se por todas as reduções, que se prepararam para a guerra. A repressão foi dura, pois neste momento se uniram os exércitos portugueses e espanhóis. Mesmo com a participação direta de vários jesuítas, os Guarani não conseguiram impor-se às forças inimigas. Resistiram até 1767 graças às táticas de guerrilha.

Sepé Tiaraju foi morto numa emboscada, um dia antes da grande batalha de Cayboaté, onde morreu o líder Nicolau Languiru e mais de mil Guarani. Perdida a guerra, os indígenas e os padres abandonaram as aldeias e passaram com os sobreviventes para o lado paraguaio.

Vendo que a presença dos jesuítas dificultava o controle da região, o rei de Espanha os expulsou das províncias platinas em 1768, acabando com um trabalho de quase 160 anos em mais de sessenta aldeias cristãs fundadas nesse período.

Em 1777 foi assinado o Tratado de Santo Ildefonso, que anulava o Tratado de Madri e propunha novas fronteiras. Expulsos de suas terras, os Guarani se espalharam pela Argentina, Paraguai e Brasil, misturando-se com a população de origem européia.

Líderes da Guerra Guaranítica

Sepé Tiaraju - Corregedor da Missão de São Miguel e cacique-geral da Guerra Guaranítica, morto em 1756.
Nicolau Languiru -
Corregedor da Missão de Concepción, sucedeu Sepé no comando geral da guerra. Morreu em 1756 na batalha de Cayboaté.
Cristóforo Acatu, Bartolomeu Candiú e Tiago Pindó
- Caciques das reduções de São Luís e Santo Ângelo, respectivamente.
Miguel Javat -
Corregedor da Missão São Luís e um dos primeiros a comandar a rebelião Guarani.

Fonte: www.terrabrasileira.net

Guerra Guaranítica

À sombra do passado

Índios guaranis, descendentes das reduções jesuíticas dos séculos 17 e 18, sobrevivem de vender réplicas das ruínas de suas cidades em São Miguel, Rio Grande do Sul, morando precariamente nos arredores da cidade. O tempo passou, mas a justiça não.

Guerra Guaranítica
Ruínas de São Miguel

Guerra Guaranítica
Pôr do Sol nas ruínas de São Miguel

No início de 1994, um grupo de guaranis foi enxotado de uma cidade gaúcha, pois os donos do lugar não queriam índios zanzando na região. Colocaram a carga indesejada em uma kombi e a depositaram no município de São Miguel das Missões que, de acordo com a prefeitura descontente, dona da kombi e do direito de ir e vir, lá sim era terra de índio.

Recebidos pela população, os guaranis montaram uma aldeia, onde vivem até hoje. Nos finais de semana e dias de grande movimento, como nas festas de final de ano, famílias inteiras deixam silenciosamente suas casas de lona cobertas com palha - que mais se assemelham a barracos de um acampamento sem-terra - e caminham alguns quilômetros até atingir as ruínas da velha igreja. Não falam com estranhos, talvez por também se sentirem estrangeiros nessa terra.

Chegando, estendem pelo chão onças, corujas, tamanduás, arcos e flechas, cruzes e outros artesanatos feitos de madeira queimada e bambu, contas e outros penduricalhos.

O parco português da maioria é suficiente apenas para dizer os preços aos turistas: a partir de R$ 4,00, dependendo do trabalho gasto na confecção da peça. Ao mesmo tempo em que os pais negociam, as crianças brincam pelo gramado do sítio arqueológico. Correm e jogam futebol, fazendo de traves dois restos de colunas com mais de 300 anos de idade. A bola vai rolando, ignorando a presença de quem quer que seja, enquanto a outra desce vagarosamente em direção ao horizonte pintando o céu de dourado. Provavelmente um presente de Pedro a Miguel, pois é véspera de Natal. Outras crianças, ficam à espera de turistas no estacionamento, correndo em sua direção. “Troquinho, troquinho!.” Esmolas nessa noite são mais difíceis de serem negadas.

Guerra Guaranítica
Índia expõe artesanato a turistas na véspera de Natal

A concentração de visitantes vai aumentando: afinal de contas todos querem assistir a missa nas ruínas do povoado jesuíta de São Miguel Arcanjo, tornado Monumento Nacional desde 1938 e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1983. São Miguel era a antiga capital dos Sete Povos das Missões, cidades guaranis que por conta do trabalho dos padres da Companhia de Jesus, chegaram a juntar milhares de almas pagãs convertidas à fé católica.

Um turista se aproxima, pede licença e abraça uma velha índia enquanto outro tira a foto.

Sai contente, quase se esquecendo de agradecer: “essa vai ficar para história!”. Depois se aproxima de uma parede da igreja e bate outro retrato com o mesmo sorriso no rosto.

Quando a noite cai e a missa começa, já não há mais nenhum guarani nas ruínas. Apenas o refletor iluminando um altar improvisado, cercado pela multidão. Na fala do bispo, convidado da vizinha Santo Ângelo para a cerimônia, graças aos céus por 500 anos de cristianização e três séculos da ação da Companhia de Jesus.

Os índios retornam à aldeia levando de volta suas réplicas de cruz jesuítica que, apesar de fazerem sucesso entre os turistas, não foram totalmente vendidas desta vez. O povo construtor daquela cidade, hoje em ruínas, que já foi senhor de todas as terras ao redor, sobrevive de réplicas de seu passado vendidas a turistas brancos.

Uma fina ironia que, para ser compreendida melhor, necessita de alguns séculos de explicação.

Conquista Espiritual

O crescimento das religiões protestantes por toda a Europa levou a um movimento de contra-reforma pelas mãos da Santa Sé com o objetivo de reduzir as baixas e diminuir os prejuízos. Por um lado, houve algumas mudanças necessárias como o fim da venda e comercialização de indulgências. Porém, quase todas as outras medidas tornavam ainda mais severa a intransigência religiosa.

Onde a argumentação não funcionou foram utilizadas técnicas de intimidação. A Inquisição percorreu boa parte do velho continente buscando hereges e infiéis, porém foi na Península Ibérica e na Itália que alcançou o auge do terror, conseguindo, por fim, apagar desses lugares os vestígios de protestantismo.

Guerra Guaranítica
Escultura em madeira policromada feita por guaranis entre os séculos XVII e XVIII

Em 27 de setembro de 1540, o papa Paulo III deu estatuto religioso à Companhia de Jesus, liderada pelo ex-guerreiro espanhol Inácio de Loyola. Os jesuítas - como conhecidos os seus integrantes - eram, antes de mais nada, soldados que utilizavam como armas a persuasão e o conhecimento das doutrinas da igreja.

Assim, partiram aos mais distantes cantos do mundo para difundir o catolicismo.

Nessa época, Portugal e Espanha lançavam-se às suas conquistas de além mar, invadindo as terras do Novo Mundo e escravizando ou eliminando seus antigos moradores. E um dos locais escolhidos pelos jesuítas foi exatamente o Novo Mundo e suas legiões de pagãos que adoravam a natureza e precisavam ter suas almas salvas.

Os jesuítas permaneceram no Brasil até 1760, data de sua expulsão, cumprindo-se decreto do Marquês de Pombal de um ano antes. Pouco tempo depois, por influência de Pombal, também foram enxotados das terras da Espanha e da França e por fim, extintos pelo papa Clemente XIX em 1773. Iriam ressurgir em 1783 por ordem de Pio VI, mas já sem a força de antes.

Com o objetivo de levar a fé católica aos mais distantes lugares acabaram sendo responsáveis por parte de nosso desenvolvimento urbano, fundando vilas e povoações, entre elas a de São Paulo, em 1554. Mas foi o governo espanhol que viu neles a viabilização para suas nascentes colônias na região da bacia do rio da Prata.

Civilizar para catequizar, organizando politicamente e estruturando o território. E em 1607, começou a ser criada a Província Jesuítica do Paraguai nas terras pertencentes à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas e hoje divididas entre o Paraguai, a Argentina e o Brasil. Os índios, através da ação dos padres, foram convencidos a deixar as aldeias nas matas e montanhas e a morar em povoados, por eles mesmos erguidos. Ao todo, as missões foram compostas por 30 reduções jesuíticas, agrupando dezenas de milhares de índios.

A produção agrícola, destaque para produção de erva mate, e pecuária conseqüente dessa organização social foi muito proveitosa para a coroa espanhola. Além disso, as missões jesuíticas foram responsáveis pela implantação de algumas das primeiras manufaturas da continente americano, do trabalho com o couro à metalurgia.

Guerra Guaranítica
Esculturas do Museu das Missões, dentro do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo

A missão de São Miguel Arcanjo foi fundada em 1632, no centro do atual Estado do Rio Grande do Sul. Simultaneamente às ações da Companhia de Jesus, os bandeirantes partiam país adentro em busca de ouro, pedras preciosas e força de trabalho. A captura e a comercialização de escravos índios foi um dos negócios mais lucrativos dos paulistas e o desenvolvimento desses povoados rapidamente atraiu a atenção sua atenção. Apesar das missões estarem sob a proteção de Madri, os bandeirantes ignoraram Tordesilhas e avançaram sob o consentimento de Lisboa.

Por isso, não muito tempo depois, jesuítas e guaranis foram forçados a abandonar esse povoado e empurrados para o outro lado do rio Uruguai com destino ao atual território da Argentina. Retornaram em 1687, reconstruindo São Miguel Arcanjo, agora em sua localização definitiva.

Sete Povos das Missões

Em território brasileiro, foram criadas sete cidades, sete reduções missioneiras que ficaram conhecidas como os Sete Povos das Missões: São Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço Mártir, São Nicolau, São João Batista, Santo Angelo Custódio e São Miguel Arcanjo.

Os jesuítas não foram santos. Eram soldados e agiam como tal em busca do objetivo. Com o uso da retórica e outros artifícios, forçaram guaranis a mudar o seu secular estilo de vida e a aceitar a religião católica como única forma de salvação. Porém, as reduções serviram também como forma de organizar os índios contra ataques de fazedores de escravos e de garantir um diálogo entre os antigos e os novos donos daquela terra. E se eles nunca tivessem vindo, teria sido melhor ou pior? Discussão que não levaria a lugar nenhum uma vez que, na história, não existe o condicional “se”.

Não os absolvendo, mas levando isso em conta, é impossível não reconhecer a produção cultural no apogeu dos Sete Povos entre os séculos XVII e XVIII.

Muitos jesuítas eram mestres escultores, pintores, músicos, arquitetos, escritores. Esses europeus ensinaram aos guaranis técnicas artísticas, tentando reproduzir o que consideravam o padrão de civilização. Construíram-se instrumentos musicais tocados por orquestras indígenas. Produziram-se tecidos para vestimentas.

Nasceram estátuas de santos e anjos em madeira policromada que adornavam o interior das igrejas e catedrais. Esculturas em arenito, telas pintadas a óleo, criando um estilo novo de arte, o barroco missioneiro.

Os povoados eram projetados e seguiram padrões. O edifício mais imponente era o da igreja, que ficava de frente para a praça, centro de toda a vida social. Em volta dela, ficavam as casas dos índios e o cabildo, ou conselho dos caciques. De um lado da igreja, o colégio, a residência dos padres e oficinas. Do outro, o cemitério e o cotiguaçú, uma casa que recebia os órfãos e as viúvas. Atrás, o pomar e hortas dos jesuítas. Nas redondezas, fontes de água, olarias, cortumes, açudes e plantações.

Guerra Guaranítica
Maquete do povoado de São Miguel Arcanjo que se encontra no sítio arqueológico.
O maior edifício é a catedral. E as dezenas de construções iguais, as casas dos índios

Cada redução possuía dois jesuítas, um responsável pelos assuntos religiosos, outro pela administração da cidade junto com os caciques do cabildo. Alguns autores consideram as missões uma experiência teocrática e escravista, comandadas por padres-soldados que dividiam a manipulação do espírito com a cobiça comercial. Outros que foi uma experiência comunista - apesar das propriedade provada existir livremente. Porém, se considerarmos o contexto histórico, sua organização nos moldes ocidentais de civilização e desconsiderarmos a liberdade da alma - são lembradas como umas das maiores experiências de democracia em todo o mundo. Uma sociedade, vivendo em cidades, nas quais o bem público realmente estava acima do bem pessoal.

A Guerra Guaranítica

Dentre os Sete Povos, São Miguel destacou-se entre os demais, tornando-se sua capital. Possuía a mais imponente das igrejas, cujas ruínas, patrimônio da humanidade, ainda existem. Quando, no seu apogeu, atingiu 7 mil habitantes, foi desmembrada e os primogênitos de cada família migraram para uma área próxima fundando o povoado de São João Batista.

Em 1750, as coroas de Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri trocando a Colônia de Sacramento, de posse portuguesa, localizada no rio da Prata, pelos Sete Povos das Missões. Os espanhóis queriam evitar a fuga das riquezas de suas terra que acontecia através de Sacramento ao mesmo tempo em que almejavam a hegemonia na foz do Prata, um dos pontos mais estratégicos da América do Sul. Agora em terras portuguesas, os Sete Povos não receberiam mais proteção da Espanha. Jesuítas e guaranis foram comunicados que deveriam se mudar, cruzando novamente o rio Uruguai.

Guerra Guaranítica
Mulheres guaranis em frente à catedral de São Miguel das Missões

Furiosos e traídos por Madri, negaram-se a sair das cidades que haviam erguido e declararam guerra aos colonizadores. Exércitos conjuntos dos dois impérios foram enviados para pôr fim à revolta. A luta, ficou equilibrada por muito tempo até que, por fim, os índios se viram derrotados, contando seus milhares de mortos. Povoados incendiados, escravos capturados e a experiência democrática dos Sete Povos extinta.

A partir daí as reduções entraram em decadência e, acentuadas pela expulsão dos jesuítas, foram sendo invadidas pelo mato do esquecimento. O cacique Sepé Tiaraju, que liderou a revolta e foi morto em combate, soltou aos colonizadores antes de morrer um grito que ecoaria perdido pelas matas e ruínas das missões nos séculos seguintes: “Essa terra tem dono!”

São Miguel

Mais de 200 anos depois, um pequeno grupo de guaranis volta a São Miguel das Missões - cidade fundada em torno dos remanescentes de São Miguel Arcanjo distante 490 quilômetros da capital Porto Alegre - para fazer aldeia. Em verdade, os guaranis são um povo tradicionalmente nômade. Vagam pelo mundo em busca da “terra sem mal”, um lugar em que nada falta, sem doenças e dor. Quando expulsos da cidade gaúcha do início da reportagem, procuravam o seu paraíso.

Simplificando, o processo é assim: primeiro o pajé, encarregado de descobrir o lugar, sonha com ele. O sonho depois é dividido com a aldeia que, em conjunto, tenta visualizá-lo. Por fim, começa uma busca pelo lugar na esperança de que seja finalmente a terra prometida.

Desde 1994, o acampamento guarani está na área do parque da Fonte Missioneira, uma bica d’água usada pelos jesuítas para abastecimento, pertencente ao patrimônio nacional. “No início, houve uma certa resistência da esfera federal para deixar os índios ficarem em São Miguel”, conta Luís Cláudio Silva, diretor da Tekohá, uma organização não-governamental que vem cuidando da preservação dos remanescentes das missões. Segundo ele, o governo temia que a memória histórica da cidade legitimasse os guaranis a começar uma luta pela retomada das terras locais.

Algumas casas de lona, cada uma abrigando mais de uma família, seguem em uma fila mal feita, pulam um córrego - atravessando o local onde os jesuítas davam de beber aos bois e cavalos - e chegam aos pés de milho que alimentam a aldeia. Ao lado das espigas dos brancos, cresce uma espécie diferente. “Essa é mais robusta e resistente às pragas e é produzida há muito tempo pelos guaranis”, conta Nicanor Benítez Karaí, que prontamente atende os visitantes por ser o maior conhecedor da língua portuguesa - uma espécie de relações públicas de lá. Ele conseguiu as sementes com outra tribo em um dos encontros do conselho dos povos indígenas do Rio Grande do Sul, em que está sempre presente.

As crianças são a maioria. E, apesar do cuidado com as tradições, a cultura ocidental já mudou bastante esta geração

Muitos na aldeia falam espanhol, mas não português. Quase todos moravam na Argentina, próximo a redução jesuítica de San Ignacio Mini, considerado um dos mais belos remanescentes arquitetônicos das missões. Mas como a vida estava difícil por lá, cruzaram o rio Uruguai em busca do paraíso. “Nós guaranis não temos fronteira”, explica Nicanor.

Próximo às casas, um campo de futebol com traves feitas de bambu. Pequeno, terra batida, cercado por um punhado de mata missioneira, como é denominada a vegetação da região - com árvores de porte alto, diferindo de sua prima Atlântica do litoral. Nicanor é vascaíno e comemorou a virada de seu time em cima deste repórter palmeirense, ao mesmo tempo em que discutia a espetacular campanha do São Caetano na Copa João Havelange. No final de semana anterior ao Natal, a aldeia inteira seguiu viagem para Porto Alegre em um ônibus cedido pela prefeitura de São Miguel. Tinham algo importante a resolver, um acordo firmado com os guaranis que vivem nos arredores da capital.

Entre o campo e as casas, a escola guarani, que ficou apenas nas fundações dos troncos de madeira. O objetivo era criar um lugar em que a língua e a cultura guarani fossem passadas às crianças e onde os adultos tivessem a oportunidade de aprender o português. Atualmente, as crianças podem freqüentar as escolas dos brancos caso os pais desejem.

Guerra Guaranítica
Aldeia índigena guarani, com suas lonas de plástico preto e antenas de TV

Apesar de séculos de ataques contra sua cultura, os guaranis das missões conservaram suas tradições e língua, crenças e, na medida do possível, até o estilo de vida. É claro, também tiveram que se adaptar e foram adaptados. Em várias tendas, antenas de televisão colocadas no topo de altos bambus abastecem pequenos televisores movidos à bateria.

Voltando da excursão, os índios estavam um pouco abatidos. Afinal de contas, o time da aldeia havia sido goleado pelos da capital por 6 a 1 em um campo lotado de torcedores guaranis que foram assistir ao amistoso.

Artesanato, cultura e sobrevivência

Floriano Verá Sondaro, possui 36 anos, é cacique de 53 pessoas, das quais 29 são crianças. Seu pai também era cacique mas, quando atingiu certa idade e se sentiu preparado, tornou-se pajé - sendo a ponte da aldeia com o outro mundo até o dia de sua morte.

Floriano Verá, cacique da aldeia, mostra sua casa feita de palha e lona: defende que a cultura guarani não acabou

“Dizem que nós, guaranis, deixamos a cultura de lado. Mentira! Não deixamos de lado. Mas aqui é muito pequeno, não tem mato, não dá para caçar, não dá para pescar, não dá para fazer nada.” De qualquer maneira, involuntariamente, sua cultura vai gradativamente se perdendo à medida em que os velhos morrem e os mais novos descobrem novos interesses pois não conseguem enxergar um futuro.

Esses descendentes guaranis, assim como seus antepassados, também produzem esculturas. Não mais dos santos católicos, mas inspirados na fauna da região e nas ruínas das missões. Não fazem apenas como pura manifestação artística, mas por questão de sobrevivência.

A agricultura de subsistência não é suficiente para abastecer a aldeia devido à quantidade minúscula de terras disponíveis. Isso aliado ao fato de que São Miguel é um grande ponto turístico, o artesanato acaba despontando como uma solução para a renda. Com o consentimento de proprietários da região, eles retiram árvores como o salso e a guajuriva (confecção das esculturas) e bambu e raízes de guaimbé (para cestas e outros trabalhos de palha).

Silvío Reis Karaí faz zarabatanas. Anselmo Ferreira Verá, tartarugas. Todas as famílias produzem em série e vendem o material próximo às ruínas. Nos meses de inverno, cada família consegue entre R$ 200,00 e R$ 300,00 com esse trabalho. “Depois temos que guardar para o verão”, contam Anselmo, Sílvio e Nicanor. Isso porque nos meses mais frios, excursões de estudantes visitam a cidade e são mais gastadores que os turistas de fim de ano.

A bem da verdade, a venda de artesanato é responsável pelo sustento de muitas tribos ao longo do território brasileiro. Mas em São Miguel isso ganha outra conotação devido à sombra dos Sete Povos das Missões.

Terra sem mal

Guerra Guaranítica
Criança observa sementes de milho usadas pelos guaranis,
mais resistentes a praga que o milho branco

Nos últimos tempos soluções mais perenes começaram a surgir. Há alguns meses, o governo do Rio Grande do Sul comprou três áreas no interior do estado para dar aos grupos guaranis - antiga reivindicação de índios e ONGs. De acordo com Luís Cláudio Silva, que participou desse processo, a escolha dos locais se deu em acordo com futuros moradores e seus pajés. A idéia é criar ilhas de espaço para os índios poderem transitar pelo território gaúcho.

Para o grupo de São Miguel foi adquirida uma área preservada de 236 hectares nos limites do rio Nhacapetum, dentro do município. O falecido proprietário e as terras já eras velhos conhecidos da aldeia, pois lá era retirada parte da madeira para a produção de artesanato.

Gumercindo Vargas, coordenador da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) na região, informou que o objetivo é que, até o fim do primeiro trimestre de 2001, eles deixem a aldeia/acampamento de lonas pretas e se instalem em definitivo na nova área.

“Pediram para poderem construir as moradias de duas maneiras: de alvenaria e também no estilo deles, com palha e madeira. Para isso, o governo já concedeu a utilização de madeira apreendida devido a extrações ilegais.” Para Gumercindo, um dos cuidados mais importantes é tentar não alterar sua cultura, trabalhando ao máximo com elementos de sua origem.

Guerra Guaranítica
Nicanor Karaí junto a uma espiga de milho de uma
espécie usada pelos guaranis na horta da aldeia

O programa também fornecerá verba para a compra de bois, cavalos, galinhas além de preparar 10 hectares para a agricultura. Vão ser utilizados o milho, o feijão e a mandioca tradicionais dos guaranis, plantadas espécies de bambus para ajudar no artesanato e cipó e capim para cobrir as casas. A prefeitura entrará com as instalações de fornecimento de água e com a mão de obra para ajudar na construção do conjunto. Gumercindo sugeriu a implantação de painéis solares, energia elétrica limpa e ecologicamente correta. “Mas a decisão final, assim como todas as decisões sobre área, será deles.” Toda a verba destinada ao projeto é considerada a fundo perdido.

No local do atual acampamento, será criado um parque arborizado e instalada uma casa de passagem para ajudar na venda do artesanato, uma vez que a reserva, apesar de ligada por estrada ao município, está distante do centro. Está próxima a uma assentamento de trabalhadores rurais sem-terra com 28 famílias.

Discute-se agora se as crianças guaranis estudarão na mesma escola em que os filhos dos assentados ou terão a sua própria na aldeia - sonho antigo, que permanece nas fundações de madeira do acampamento de lona.

Terra sem mal?

Apesar de os guaranis serem um povo nômade, a aldeia de São Miguel decidiu se estabelecer na reserva, criando laços com a terra. O mesmo laço que seus pais, gerações atrás, tiveram que criar por intermédio da ação dos jesuítas.

Guerra Guaranítica
Criança da aldeia guarani

Atrás do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, fica um lugar chamado ironicamente de Vila da Alegria. Casas pobres, muitas feitas com dificuldades, gente humilde. Lá vivem muitos descendentes dos guaranis da época das missões que, com o tempo, se misturaram ao branco.

Hoje, vivem em uma triste situação de não serem nem brancos, para possuírem as facilidades do colonizador (que se mantêm até hoje), nem índios, e obterem alguns direitos do Estado, como o não pagamento de vários impostos e taxas. São chamados de guaranis invisíveis. Estão em uma espécie de limbo, renegados ao esquecimento, cobertos pelas largas sombras das ruínas da igreja.

“Os guaranis foram usados e depois expulsos. Conseguiram manter sua identidade cultural, mas ainda não possuem estrutura organizada para defender seus direitos”, desabafa Luís Cláudio Silva. O branco incorporou tudo, até o grito do cacique Sepé Tiaraju.

“Essa terra tem dono!”

E não só tem dono como a exploração do passado dos Sete Povos e da imagem guarani tem servido muito bem aos brancos. Uma verdadeira festa, na qual quem a organizou foi expulso e é obrigado a assistir de fora. Celebram-se missas pela memória do passado e esquece-se das necessidades do presente.

Porém, pacientemente, o cacique Floriano ainda espera por dias melhores. Uma espera secular que começou quando seus antepassados viram os primeiros europeus. “É preciso lutar por terras que já foram nossas. As ruínas de estão lá para nos mostrar que é preciso continuar lutando.”

Museu das Missões

O sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo é de responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Dentro dessa área podem ser vistas as ruínas da antiga catedral, projeto do arquiteto jesuíta João Batista Prímoli e que foi construída entre 1735 e 1745.

Em estilo barroco, era toda branca e dentro possuía rica ornamentação de quadros pintados a óleo e estátuas. Foi feita em tijolos de arenito, sem ser utilizada qualquer cimento, cal ou argamassa para uní-los. Foram moldados para que as saliências de um se ajustassem perfeitamente às imperfeições de outro. Ruínas do cemitério, oficinas, escola, casas dos índios também estão espalhadas em torno da praça central do antigo povoado.

O Museu das Missões foi criado em 1940. Projetado por Lúcio Costa - pai da planta urbanística de Brasília -, tem inspiração nas antigas habitações dos índios da época. Possui um acervo com mais de 100 peças de madeira policromada, sinos e esculturas em arenito. Várias de suas obras foram emprestadas à exposição comemorativa aos 500 anos do Brasil em São Paulo.

Todas as noites, há um espetáculo de luz e som em que a história das missões é narrada por atores de teatro e televisão brasileiros.

Leonardo Sakamoto

Fonte: www.reporterbrasil.com.br

Guerra Guaranítica

Conquistados pela Fé

A longa jornada dos jesuítas nos pampas

Os jesuítas disseram: Juráis a Deus e prometáis ao Rei seguir constantemente suas bandeiras, defendê-las até verter a última gota de vosso sangue e não abandonar aos que estiveres mandando em função de guerra ou na preparação para ela..

A conquista espiritual era a missão, a ordem e a promessa da Companhia de Jesus na América. Quando chegaram, nos princípios do século XVII, os padres não sabiam o que iam encontrar na parte sul da América, então espanhola. Sabiam, no entanto, que estava em suas mãos conquistar e controlar os índios. Povoar e dominar a terra cisplatinado lado de cima do rio da Pratapara o rei de Espanha.

Tarefa nem tão árdua. A arma estava na cruz e na lábia dos jesuítas. Diz a lenda que ainda no século I o apóstolo Toméque virou o santoteria aberto o caminho na mente dos guaranis, o povo que controlava a terra então virgem aos olhos europeus.

A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas, quando depois de muitos tempos, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta mesma doutrina., teria dito Pay Zuméou São Toméaos guaranis.

São Tomé, um dos 12 apóstolos teria passado pela América e deixado na mente dos índios a marca da cruz. Antonio Ruiz de Montoya, primeiro superior das Missões nas Américas, garantia que os indícios estavam todos no novo mundo.. Que haja sido São Tomé aquele que, com sua pregação, ilustrou os índios do ocidente., afirmava.

Mas, a conquista espiritual planejada por Montoya não foi tranqüila. A terra e os índios conquistados eram cobiçados pelos portugueses. Primeiro, foram os bandeirantes paulistas. Em 1630, as dezenas de missões fundadas no Guairá, hoje Paraná, e no Rio Grande do Sul, viraram centro de abastecimento de escravos.

Afugentados pelos paulistas, os jesuítas e seus índios fugiram para o lado de lá do rio Uruguai.

Voltaram no final do século. No ano de 1690, o padre Bernardo de La Vega cruzou o rio mais uma vez. Vinha da terra hoje argentina, da missão de Santa Maria La Mayor, trazendo consigo 3.512 índios guaranis, com seus pertences, suas ferramentas, sementes de trigo, milho e erva mate, cabeças de gado e ovelha. De La Vega fundou o quarto povoado missioneiro do lado de cá do Uruguai. Voltava para repovoar a terra que já havia sido parte do império jesuíta.

Foram 70 anos de paz. E aí veio mais uma vez a guerra. Portugueses e Espanhóis negociaram a terra missioneira sem fazer perguntas aos padres ou índios. Em quatro anos de luta, sobraram as índias, os velhos, as crianças. E o gado, trazido pelos padres do então Paraguai. E sobrou o sangue.

Na terra gaúcha que hoje se chama Missões, visitada pelo Correio no nono capítulo da série Redescobrindo o Brasil, a lembrança maior deixada pelas reduções jesuíticas está nas veias de cada um. Cada gaúcho missioneiro tem em si um pouco de guarani, um pouco de espanhol, um pouco de português.

Tem, também, um só meio de vida: o campo. Ainda hoje, o gado que chegou à banda oriental pelas mãos dos jesuítas é rei. É o ganha-pão e o estilo de vida.

O gaúcho missioneiro carrega nos olhos, na pele, nos gestos e na vida o resultado da sua mistura. Em 1626, quando, pela primeira vez, o padre jesuíta espanhol Roque Gonzalez encontrou os guaranis do lado oriental do rio Uruguai começou a se formar o povo que ainda hoje habita as coxilhas da terra denominada missões riograndenses.

Não que a miscigenação fosse o propósito dos jesuítas. Nas Missões, índios

eram mantidos a distância; soldados também. A mescla de raças só começa em 1766, quando os exércitos da Espanha e de Portugal destroem a aventura missionária, matam milhares de índios e expulsam os padres.

Chamou-se Guerra Guaranítica, durou cinco anos e pôs de lado opostos colonizadores de farda e de batinaos nativos formavam a tropa dos evangelizadores.

Com o fim do domínio da Companhia de Jesus, sobraram ali, nas terras cobertas pelo melhor pasto da região, apenas soldados europeus de um lado; mulheres, velhos e crianças indígenas de outro. Após a guerra, os dois lados desapareceram e viraram um povo. Assim, começou a se formar o gaúcho.

Os portugueses e espanhóis, espécie de aventureiros sem leichamados gaudérios, de onde vem a palavra gaúchochegaram quando pouca coisa restava da ordem que os jesuítas criaram. Dividiram a terra. Amigaram-se com as índias. Juntaram e passaram a criar o gado deixado para trás pelos padresfoi um deles, o jesuíta Cristóvam Mendoza que, em 1634, levou da Argentina para o Brasil as primeiras 2,5 mil cabeças de gado.

Por 350 anos, os bois foram a única riqueza da cidade de São Luiz Gonzaga, no passado sede da Missão jesuítica. Até 1960, o povo andava a cavalo, comia a carne, vestia o couro. Mas, a partir da década de 70, outros produtos passaram a engordar a economia do lugar.

.São Luiz entrou numa fase de transição quando o trigo e a soja começaram a ocupar o que antes era só pastagem., comenta Flávio Bettanin, advogado e historiador da cidade. Hoje, toda a riqueza de São Luiz Gonzaga vem do campo. Mas os bois perderam o domínio.

A terra escolhida pelos padres no passado é ainda uma das mais férteis do mundo.. Aqui, o que se planta colhe., diz o prefeito Alseu Braga, dono de sete mil hectares de campo. As mesmas palavras do viajante francês Auguste Saint-Hilaire, que passou pela campanha em 1820.

.Podem-se cultivar com igual sucesso os campos e os bosques; e todos os capões, indistintamente, oferecem terreno absolutamente bom., narrava Saint-Hilaire, especialista em terras e plantas.

Mas o gaúcho que nasceu na lida campeira, como em. gauchês.chama-se o trabalho com a pecuária, tem dificuldade de se adaptar ao trator e à colheitadeira das plantações.

Odil Escobar Ribas, de 55 anos, nasceu no campo. Tentou a vida em uma granjafazendas onde há apenas a plantaçãoe terminou na estância Santa Inês, das maiores da região. Corta cana para alimentar o gado, faz vacina e a marcação no couro do boi.. Na granja é um trabalho ingrato. Nem de noite se pára, tem que preparar a terra., conta.

Na fazenda de gado não se trabalha muito menos. A Santa Inês emprega três peões e um capataz, Luis Carlos de Lima Paraíba, de 35 anos. Em todas as fazendas de Avelino de Moraes, o maior fazendeiro da região7,5 mil hectares de terra declarados, o dobro disso segundo as histórias da cidadesão apenas 18 homens.

.É trabalho duro. Mas para a gente que se criou em cima do cavalo, com esse horizonte grande pela frente, não dá para enfrentar a cidade., explica Luis Carlos. O capataz tentou a vida na cidade. Foi ser açougueiro para ganhar um pouco mais do que os R$ 130 do salário mínimoo máximo que qualquer peão recebe nas redondezas. Voltou correndo.. Ficar o dia todo encurralado, sem ver o sol, não dá., desabafa.

Mas, mesmo nos pampas, o campo gaúcho, não tem mais lugar para todo mundo.. O peão não está acostumado a ser tratorista, a dirigir caminhão., explica Eugênio Hartmann, o padre de São Luiz Gonzaga, um especialista no desemprego que assola a região.. Quando esse homem perde o cavalo e os arreios, perde a identidade., completa. O gaúcho a pé não sabe como viver.

Juarez Coimbra Antunes carrega um nome de herança nobre. Nas veias, a mistura do guarani com espanhol e português. Tem a pela morena, os cabelos escuros e os gestos calmos que herdou dos seus antepassados. Como eles, Antunes nasceu na lida campeira.

Perdeu o emprego, foi parar na vila Boa Esperança onde a esperança fica apenas no nome, periferia miserável de São Luiz.. Vou todos os dias à cidade ver se arrumo um trabalho, mas não tem nada., lamenta enquanto do outro lado da cidade, os peões saem cedo a cavalo para juntar o gado. E o chimarrão segue esquentando à beira do fogo de chão. É assim há quase 300 anos.

Fonte: www2.correioweb.com.br

Guerra Guaranítica

Guerra Guaranítica no Rio Grande do Sul (1752-1756)

Originalmente, a população nativa do Rio Grande do Sul era formada por cinco nações de indígenas: charruas, minuanos, patos, tapes e guaycanans; a maior influência nos hábitos e valores dos gaúchos veio das nações de índios charruas e minuanos, que eram os mais bravos e guerreiros. Habitavam uma região formada pelo atual Estado do Rio Grande do Sul e parte do Estado de Santa Catarina, que foi longamente disputada por Espanha e Portugal.

Pelo Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha em 1494 (logo após a descoberta da América por Cristóvão Colombo), a Portugal perteceriam todos os territórios descobertos a leste de um meridiano situado 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde, ou seja, a leste de uma linha imaginária ligando as atuais cidades de Belém, do Pará; e Laguna, de Santa Catarina. O Tratado permaneceu válido até 1750, quando pelo Tratado de Madri passou a vigorar o princípio de que a terra pertence a quem a ocupa.

Conforme previsto, os espanhóis vieram ocupar logo seus territórios, fundando cidades como Buenos Aires e Assunção, em 1536. Fundaram, também, por intermédio dos jesuítas, diversas povoações na bacia do Rio Uruguai; no lado oriental, fundaram reduções como São Miguel (a primeira, em 1627), São João, São Lourenço, São Luiz, São Nicolau, São Borja e Santo Ângelo (a última, em 1707).

Todavia, aventureiros paulistas aterrorizavam constantemente qualquer iniciativa de povoação ou colonização de terras, que dificultava enormemente a expansão espanhola na área. De outro lado, as andanças de aventureiros portugueses, a procura de gado ou de índígenas para serem levados embora, encorajou a Coroa Portuguesa a dominar de forma mais definitiva a região.

Por isso, resolveu fundar, em 1680, em frente a Buenos Aires, uma fortificação chamada Colônia do Sacramento, para atestar seu domínio sobre os territórios a leste do Rio da Prata. A Colônia foi arrasada no mesmo ano; entretanto, via negociações, foi retomada em 1683.

Foi novamente entregue aos espanhóis em 1703 e retomada (em função do Tratado de Utrecht) em 1716. Com a tomada de Montevidéu pelo governador de Buenos Aires, Colônia do Sacramento ficou sitiada, e, por isso, abandonada pelos portugueses em 1736, que recuaram até Rio Grande, onde fundaram em 1737 o Presídio Jesus Maria José (sob comando do brigadeiro José da Silva Paes).

O Tratado de Madri tinha a intenção de resolver os conflitos de terras entre Portugal e Espanha; trocava os Sete Povos das Missões (que ficaria para Portugal) por Colônia do Sacramento (que ficaria para a Espanha); pelo Tratado, os índios deveriam retirar-se com seus pertences móveis para o outro lado do Rio Uruguai; todavia, estas determinações causaram grande revolta entre os povos indígenas, que se rebelaram contra os signatários do Tratado (Portugal e Espanha); por isso, entraram em guerra contra os exércitos português e espanhol (chamada de Guerra Guaranítica); após pequenas escaramuças, em que morreu o líder Sepé Tiaraju, foram severamente vencidos na batalha de Caiboaté, em 1756; nesse combate, morreram mais de 1.200 guerreiros indígenas, inclusive o novo chefe Nicolau Languiru.

Derrotados nos combates e perseguidos nos próprios entrincheiramentos, abandonaram suas terras e se refugiaram nas matas e nas serras.

Fonte: www.terragaucha.com.br

Guerra Guaranítica

História de San Angel Custódio

San Angel Custódio integra o conjunto dos Trinta Povos Guarani, entre fundações, deslocamentos e a estrutura definitiva das Reduções Jesuítico- Guarani, a redução de San Angel, uma das últimas, foi fundada em 12 de agosto de 1706 pelo Padre Diogo Hase.

A origem de San Angel deu-se pela necessidade de deslocamento de parte dos habitantes da Redução de Concepción (hoje território argentino localizado na Província de Misiones) que, em 1706, alcançava mais de 5.600 pessoas, e em média, os povoados missioneiros comportavam de dois a cinco mil índios.

Outro motivo apresentado para a fundação de San Angel foi o medo de que doenças poderiam alastrar-se e dizimar a população de Concepción (CARBONEL DE MASY, 1992: 97).

A fundação de San Angel, confirmada por pesquisas bibliográficas e documentais a data de 12 de agosto de 1706, entre os rios Ijuí Grande e Ijuizinho, porém o local escolhido não oferecia condições favoráveis para a expansão do povoado e, no ano seguinte, foi transferido mais para o norte, onde hoje se encontra o município de mesmo nome (Santo Ângelo).

A escolha dos terrenos para localização dos povoados missioneiros era feita com cuidado pelos Jesuítas, pois deveriam ter solos férteis, presença de água, vegetação e uma grande preocupação com a defesa, dando preferencia a lugares altos, com matas, que poderiam servir de esconderijos.

Quanto à denominação dada a San Angel Custódio, sabe-se que os Jesuítas costumavam adotar nomes de santos que eram considerados padroeiros dos povoados. Na literatura religiosa, é considerado como “anjo da guarda”.

Na Espanha, a data consagrada ao anjo da guarda é 2 de outubro. Isso permite deduzir que na redução de San Angel a festa em homenagem ao padroeiro se realiza nesta data, tradição que se mantém até hoje.

Com relação ao crescimento populacional da redução, se enquadra em alta natalidade e uma mortalidade reduzida, trazendo um saldo positivo de crescimento natural. Média de 4.199 habitantes e, no auge do desenvolvimento, mais ou menos 5.417 habitantes. A partir de 1768, a população de San Angel, como as demais, começa a decrescer, chegando a 1827 com apenas 103 habitantes.

Como as demais reduções, a de San Angel seguia basicamente a mesma distribuição espacial. Hoje são inúmeras as análises feitas por estudiosos que, segundo Cardiel, buscam descobrir o modelo para a forma dos povoados guaraníticos missioneiros.

Palácios (1991: 131) diz que foi inspirado no greco-romano que originou o plano renascentista espanhol levado para a América, o modelo urbanista das Missões era em forma de “plano damero”, que se baseava em toda uma legislação que continha recomendações para fundação dos povoados.

Segundo Cabrer, Santo Ângelo não correspondia totalmente às demais reduções, o Cotiguaçu estaria localizado no estremo sul do povoado e a igreja voltada para o sul e não para o norte.

Conforme registros feitos pelo Padre Antonio Sepp, o material utilizado na construção da igreja foi a pedra cupim (itacuru), que era só escavar a terra para encontrá-la. Em 1828, a igreja estava em péssimo estado de conservação, porém não deixava de mostrar a sua beleza, assemelhava-se às demais igrejas missioneiras.

As casas dos índios eram construídas com taipas (taquara com barro) ou com adobes (tijolos de barro seco ao sol) colocados sobre fileiras de pedras até uma certa altura para proteger da umidade. As cobertas eram de telhas.

Como as demais reduções, a de Santo Ângelo ressalta-se, também na pintura, na escultura, no importante papel da evangelização dos Guarani missioneiros. O trabalho artístico tinha caráter didático, útil à evangelização, utilizando a estatuária para transmitir mensagens visuais aos indígenas, complementar o ensino da catequese as imagens de Cristo, dos anjos e dos santos de devoção.

A economia das Reduções visava à autosuficiência e cada povoado dispunha de recursos diferenciados, com sistema de intercâmbio entre as Reduções de suas produções para suplementação das necessidades de cada um. Mais tarde, com a produção excedente, as Reduções passaram a comercializar, permitindo, assim, o pagamento dos tributos reais e a aquisição de armas e outros produtos.

A Redução de Santo Ângelo comercializava erva-mate e algodão. No aspecto econômico das Reduções, destacava-se a singularidade e o desenvolvimento alcançado pelos povoados do Guarani, administrados por Jesuítas, onde o aproveitamento simultâneo e racional de recursos agrícolas, pecuários e florestais, de atividades artesanais e industriais, transforma-se em um ambiente favorável e fundamental para proporcionar a satisfação das necessidades básicas dos Guarani nos povoados.

A organização político-administrativa de Santo Ângelo, como das demais, estava inserida na esfera jurídica da administração colonial espanhola, mesclando elementos tradicionais da sociedade Guarani com instituições da cultura espanhola, mas que adquire aspectos originais. O Cabildo, sede administrativa, adaptado para a sociedade guaranítica, garantia a segurança externa, mantinha a ordem interna e as funções eram desempenhadas por caciques indígenas e Jesuítas.

A decadência de Santo Ângelo, assim como as demais dos povoados missioneiros da banda oriental do rio Uruguai, inicia com a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, que delimitava fronteiras entre Portugal e Espanha. Nessa negociação as terras dos Sete Povos eram trocadas pelas terras da Colônia do Sacramento.

Na tentativa de transferência dos índios dos Sete Povos para terras espanholas, a resistência dos índios em abandonar seus povoados, plantações, etc., fez com que os mesmos se rebelassem, tentando defender suas terras dos portugueses, originando-se, assim, a difamação dos Jesuítas na América e na Europa, acusados de serem os responsáveis pela resistência dos índios.

Muitas negociações entre índios, portugueses e espanhóis foram realizadas, mas em vão. É deflagrada a Guerra Guaranítica em 1754. Batalhas acontecem, queima de postos, mortes de muitos índios. Uma das maiores batalhas dessa guerra foi a de Caiboaté, em 1756, onde as tropas guaraníticas foram derrotadas, e é quando inicia a debandagem e o abandono de seus povoados. Os exércitos portugueses e espanhóis vão tomando os povoados para assegurar a partida dos índios.

A expulsão dos Jesuítas, em 1768, muda as diretrizes administrativas, pois os novos administradores, religiosos de outras ordens e civis, não estavam preparados e a economia, educação e a religião entram em declínio. A situação de servidão dos índios levou os mesmos a procurar trabalho como peões.

Repovoamento de Santo Ângelo

A primeira tentativa de povoamento foi logo após o Tratado de Madrid pelo governo luso, trazendo casais açorianos que aguardavam em Viamão, Rio Grande e Porto Alegre. A retirada dos índios dos povoados missioneiros se fez para dar continuidade ao processo de colonização desse espaço, mas esse processo fracassou devido aos acontecimentos como a Guerra Guaranítica, por exemplo.

Em 1824, novos projetos de colonização, do governo do Estado, trazendo uma leva de imigrantes alemães que se instalou em São João. Em 1831, começam a chegar famílias paulistas (portuguesas), adquirindo grandes áreas de terras, as sesmarias, por volta de 1850/1860.

Foram considerados grandes latifundiários: Francisco de Paula e Silva, Antônio Manoel de Oliveira, Francisco Corrêa Taborda, Alfredo Pinheiro Machado, Bento Barbosa de Lima, Antônio José Antunes, entre outros. Desses, dois resolveram restaurar o povoado de Santo Ângelo, em 1859, Antônio Manoel de Oliveira e Alfredo Pinheiro Machado que, limpando o espaço da antiga redução, encontraram vestígios da igreja e de outras construções do período Jesuítico-Guarani, iniciando, assim, a nova Santo Ângelo.

Oficialmente, as terras de Santo Ângelo até 1822 pertenciam ao município de Rio Pardo. A partir daí, passaram a integrar o novo município de Cachoeira do Sul. Em 1857, com emancipação de Cruz Alta, Santo Ângelo passa a integrar o novo município. E, em 22 de março de1873, pela Lei provincial número 835, Santo Ângelo foi elevado à condição de Vila e sede do município, desmembrando suas terras dos municípios de Cruz Alta e São Borja.

Hoje Santo Ângelo possui uma população estimada em torno de 76.000 habitantes, formada por uma grande diversidade étnica. A base econômica do município é o comércio, a prestação de serviços, pequenas indústrias e a atividade agropastoril.

Atualmente, o município de Santo Ângelo integra a “Rota Missões”, um dos roteiros turísticos da região missioneira, onde, neste município, pode-se visitar atrativos como:

Catedral Angelopolitana - construída no mesmo espaço da antiga igreja jesuítico-guarani, a partir de 1929, sendo concluída no final da década de 1950. O estilo da igreja lembra a arquitetura das igrejas missioneiras. Em seu interior, possui uma escultura do período missioneiro e que retrata a imagem de Cristo, esculpida em madeira; um painel retratando a saga missioneira do artista plástico Tadeu Martins. No pórtico da igreja, encontram-se esculturas feitas pelo escultor austríaco Valentin Von Adamovichi, em pedra grês, retratando os sete padroeiros dos Sete Povos das Missões.

Museu Municipal Doutor José Olavo Machado

O prédio que hoje abriga o museu foi construído entre 1870/1880, foi residência do último intendente de Santo Ângelo, Ulisses Rodrigues. O museu foi inaugurado em 1985, abriga várias etapas da História de Santo Ângelo desde o pré-jesuítico, o período jesuítico-guarani até o repovoamento de Santo Ângelo, com um espaço do museu destinado a exposições temporárias.

Memorial da Coluna Prestes

O prédio que abriga o memorial hoje foi a antiga Estação Ferroviária de Santo Ângelo, construída a partir de 1917, inaugurada em 1921.

Desde dezembro de 1996, abriga o Memorial da Coluna Prestes que retrata o maior movimento revolucionário invicto da história mundial, que partiu de Santo Ângelo em outubro de 1924. Ao lado do memorial, funciona o museu ferroviário.

Capela do Colégio Teresa Verzeri

Em seu interior, possui pintura sacra do italiano Emílio Sessa.

Centro de Cultura Missioneira

Localizado no campus da URI, oferece sessão de vídeos sobre a História das Missões, possui uma biblioteca setorial com excelente acervo sobre a História do Rio Grande do Sul e Missões, entre outros.

Fonte: www.urisan.tche.br

Guerra Guaranítica

Médio Paraná

É difícil dar um nome a esta área. Considerando que ela é limitada a oeste pelo curso do rio Paraguai, que a sudeste abrange a bacia do alto Uruguai, e que ultrapassa para leste, sem limites definidos, o curso do Paraná, pensamos na expressão "Mesopotâmia Platina", que, entretanto, se aplicaria mais adequadamente à região mais ao sul, entre o Uruguai e o Paraná.

Considerando a quase (ou total, se levarmos em conta a tendência a tomar os guaiaquis também como guaranis) exclusividade da presença guarani, talvez pudéssemos denominá-la "Área Guarani". Por outro lado, há guaranis fora desta área, os chiriguanos (ditos guaranis ocidentais), que estão no Chaco, o que tornaria inadequada também essa segunda denominação.

Os guaranis propriamente ditos se dividem atualmente em quatro ramos: os pain-taviterã, conhecidos no Brasil como caiuás; os avá-catu-etê, conhecidos no Brasil como nhandevas; os mbiás; e os chiriguanos, que estão em outra área etnográfica, o Chaco.

Na verdade, se considerássemos todos os falantes do guarani (com exceção, obviamente daqueles que, apesar de o falarem, não se consideram índios, e que são a maioria) e mais aqueles a que se tende hoje a estender a identificação de guarani (guaiaquis, guaraios) numa mesma área etnográfica, esta área se prolongaria mais para o norte, e dividiria no meio a área Mamoré, deixando a sub-área de Chiquitos de um lado e a de Mojos do outro.

Diferentes destinos

Os guaranis, a partir da conquista européia, tiveram destinos diferentes. Aqueles que viviam na margem esquerda do rio Paraguai, ao norte e ao sul da cidade de Assunção, a princípio julgaram estar estabelecendo uma relação de aliança com os espanhóis, cedendo-lhes suas mulheres, tomando-os como cunhados, até perceberem que na verdade estavam subjugados.

Eram conhecidos como "cários", termo que não sei se constitui uma outra maneira de dizer "carijós", o nome aplicado aos guaranis do litoral sul do Brasil no século XVI. Depois de vencidos os levantes que fizeram para tentar corrigir o logro em que tinham caído, esses guaranis entraram no regime de serviços pessoais para encomenderos e os trabalhos obrigatórios temporários da mita.

Afastadas desta área, a princípio em afluentes do rio Paraná em território que hoje é brasileiro, os jesuítas estabeleceram as reduções, onde os índios estavam livres daqueles trabalhos forçados, mas tinham sua vida rigidamente controlada pelos missionários.

No final do século XVI e início do século XVII, os bandeirantes paulistas fizeram várias incursões escravizadoras sobre essas reduções, até que os jesuítas conseguiram autorização para equipar os índios com armas de fogo, de modo que eles derrotaram os bandeirantes em Mbororé. Os guaranis escravizados pelos bandeirantes foram utilizados no trabalho nas vizinhanças de São Paulo e quiçá até vendidos para a região açucareira do Nordeste.

A derrota dos bandeirantes em Mbororé levou-os a dirigirem suas expedições noutra direção, mais para noroeste. Outras missões se instalaram no rio Uruguai. No Atlas Histórico Escolar, publicado pelo então Ministério da Educação e Cultura em 1960, há um mapa das missões jesuíticas na página 41.

Os jesuítas também estabeleceram missões nas terras dos guaranis itatins, entre o rio Paraguai e seus afluentes, o Apa e o Miranda, portanto, em território hoje brasileiro. Essas missões foram atacadas em 1648 pelo bandeirante Antônio Raposo Tavares. Os itatins dispersados se dirigiram mais para o sul e seu território foi ocupado pelos ramo guaicuru dos cadiuéus, que aí vivem até hoje.

Os guaranis do rio Uruguai acabaram envolvidos nas questões de limites entre Portugal e Espanha. O tratado de Madrid, assinado pelas duas metrópoles em 1750 entregava a Portugal as terras onde estavam instaladas as missões da margem esquerda do rio Uruguai a troco da colônia do Sacramento, no rio da Prata, em frente a Buenos Aires, prevendo também a transferência dos índios para as terras da colônia de Sacramento.

Os guaranis e os tapes guaranizados se revoltaram contra a decisão e o combate contra eles tomou o nome de Guerra Guaranítica. Nessa luta morreu o líder indígena Sepé Tiaraju, presente até hoje na memória gaúcha. O confronto decisivo, de espanhóis e portugueses contra os índios, ocorreu em 1756 e deu o tema ao poema épico Uruguai ("O Uraguai"), do mineiro José Basílio da Gama, publicado em 1769. A derrota e dispersão dos índios, a expulsão dos jesuítas em 1767, a anulação do tratado de Madrid (com a devolução dos sete povos das missões à Espanha pelo tratado de Santo Ildefonso em 1777) e, finalmente, a conquista da região por brasileiros em 1801, marcaram em definitivo o fim dos aldeamentos indígenas do rio Uruguai, alguns dos quais viraram ruínas (o mais conhecido é o de Santo Ângelo), e outros, ocupados por brancos, deram origem a cidades modernas (como São Borja).

A origem dos atuais subgrupos guaranis se explica em parte pelas diferentes situações em que se colocaram perante as missões jesuíticas do período colonial.

Miguel Bartolomé (1991: 31-32), com base em León Cadogan (que combinou pesquisa documental com história oral), fala-nos de uma separação que ocorreu devido ao conflito entre dois líderes: Paragua, favorável à redução e à evangelização, combateu Guaira. Os seguidores do segundo se refugiaram nas profundezas da selva e deram origem aos guaranis geralmente chamados de Ka’aguygua ou Kaingua (caiuás).

Os seguidores do primeiro habitaram as missões do sul do Paraguai. Com a expulsão dos jesuítas em 1768, voltaram à vida na selva para evitar cair nas mãos dos encomenderos, dando origem aos avá catu etê ou nhandevas. Quanto aos mbiás (: 81), nunca estiveram em missão.

Sobreposição de áreas

A província argentina de Misiones tem como população indígena exclusivamente os guaranis. O mesmo acontece com o oriente do Paraguai, com a única exceção dos achés, que, não obstante, também pertencem à mesma família lingüística. No Brasil,entretanto, a área etnográfica do Médio Paraná se sobrepõe à do Planalto Meridional Brasileiro, a ponto de podermos até pensar em fazermos desta uma sub-área daquela.

É verdade que há no Brasil setores exclusivamente guaranis, como a extremidade meridional de Mato Grosso do Sul. Aí, com exceção da reserva de Dourados, que também abriga terenas, todas as terras indígenas são guaranis, habitadas em sua maioria por caiuás, mas também por nhandevas. Aliás, no Brasil, os caiuás se concentram aí, estando ausentes nos outros estados.

Outro setor exclusivo dos guaranis é o litoral do sudeste e do sul do Brasil: ao norte de Vitória, no Espírito Santo; nas vizinhanças de Parati, no Rio de janeiro; a nordeste e sudoeste de Santos, em São Paulo; na baía de Paranaguá, no Paraná; nos arredores de Florianópolis, em Santa Catarina; nas vizinhanças de Porto Alegre e ao longo da margem ocidental da lagoa do Patos, no Rio Grande do Sul. Note-se que em todos esses lugares eles são mbiás, com exceção do litorais de São Paulo, onde há também nhandevas, e do Espírito Santo, onde há também tupiniquins.

Já no interior dos estados sulinos, há uma predominância nhandeva, mas que vai diminuindo ao mesmo tempo em que cresce a mbiá à medida que se avança para o sul.

Três quadros incluídos neste capítulo mostram a distribuição dos subgrupos guaranis pelas terras indígenas no Brasil. Os números que precedem os nomes das terras indígenas são os mesmos pelos quais elas são indicadas no volume Povos Indígenas no Brasil — 1991/1995, publicado pelo Instituto Socioambiental.

Essa distribuição dos guaranis no Brasil apresenta, em primeiro lugar, uma correspondência com sua distribuição no Paraguai, onde os caiuás ficam ao norte, os mbiás ao sul e os nhandevas na posição intermediária. Em segundo lugar, aponta uma crescente expansão dos mbiás pelos litoral.

Vale acrescentar que a expansão mbiá alcançou até um país que já não dispunha de populações indígenas, o Uruguai, localizando-se em dois pontos junto ao rio que dá nome ao país.

A atual distribuição dos guaranis no Brasil decorre em grande parte de migrações recentes. Os antigos guaranis do oeste do Paraná foram extintos nos dois primeiros séculos do período colonial, pelo menos como grupos organizados, devidos aos assaltos dos bandeirantes preadores de índios às missões jesuíticas. Os do litoral sul, os carijós, tiveram o mesmo destino nas mãos daqueles que buscavam ouro. Finalmente, os do extremo sul foram destruídos pela Guerra Guaranítica e confrontos posteriores.

Os guaranis que hoje habitam os estados brasileiros do sul são provenientes de migrações recentes.

Algumas, desde o século passado, tiveram como motivo a procura da Terra sem Males, que ativou os distintos ramos dos guaranis em momentos diversos: os nhandevas, no final do século passado e início deste; os mbiás, mais recentemente; e eventualmente também os caiuás (Schaden 1974: 166-75). Antes da pesquisa de Schaden, que começou em 1946, os mbiás já haviam chegado ao Espírito Santo (: 5).

Os guaranis do Brasil, faz meio século

Com base em numerosas e curtas visitas a grupos locais de diferentes áreas geográficas, de 1946 a 1954, a etnografia de Egon Schaden tem o mérito de ser um dos raros trabalhos, talvez o único, que nos dá uma visão geral da cultura dos guaranis, pelo menos daqueles estabelecidos no Brasil.

Ele esteve entre os guaranis do litoral (Rio Branco, Bananal e Itariri) e do interior (Araribá) do Estado de São Paulo, do oeste do Paraná (Laranjinha), de Mato Grosso do Sul (Dourados, Panambi, Amambaí, Taquapiri e Jacareí) e também do Paraguai (Paso Yovai), além de entrevistar aqueles que visitavam São Paulo e São Vicente (: xi-xii).

Schaden começa pelo aspecto físico, lembra o abandono do furo labial para a inserção do tembetá pelos nhandevas, mas a sua manutenção por boa parte dos mbiás e mais ainda pelos caiuás (: 19). A aceitação do casamento com civilizados (o mais freqüentemente de mulher indígena com homem sertanejo) não eram raras no caso dos nhandevas, mas evitadas pelos mbiás, sob alegação de que estranhos não poderiam participar satisfatoriamente das cerimônias religiosas (: 22-3).

Os guaranis viviam em pequenas casas destinadas a famílias elementares. Schaden ainda viu três casas grandes de estilo antigo em aldeias caiuás (: 25-8).

Descreve também as peças do vestuário tradicional que ainda usavam (: 31-5), mais numerosas entre os caiuás. Sobre os ombros os homens caiuás usavam o ponchito, isto é, um poncho pequeno; cobriam-se da cintura até abaixo dos joelhos com o txiripá, um retângulo de pano com franjas em três lados (já havia desaparecido uma outra peça menor, que lhe era alternativa, chamada tambéaó); traziam na cintura a faixa txumbé (tinham também um cinto ricamente ornamentado chamado kúákuahá, mas de uso exclusivamente ritual); nos pés tinham sandálias com solas de pneu, chamadas aparato, corruptela de "alpargata".

Ao txiripá dos homens correspondia a então já desaparecida peça feminina tupái; também já não mais existia a vata, ou seja, "bata", uma blusa com mangas, de uso feminino.

Os nhandevas de Mato Grosso do Sul usavam algumas peças semelhantes às dos caiuás, mas no litoral de São Paulo não guardavam nenhuma. Aí, entretanto, as mulheres usavam o tipói, um saco que as cobria até meia canela, com orifícios para a cabeça e os braços.

Os homens mbiás no Brasil já não guardavam nenhuma peça tradicional, mas no Paraguai tinham o tambéaó, peça diferente da homônima caiuá, pois era uma faixa de tecido que passava entre as pernas, presa à cintura por um cinto de couro ou algodão, por sobre o qual caiam uma ponta para a frente e outra para trás.

No litoral de São Paulo (Itariri) essa peça era usada por debaixo das calças. As mulheres cobriam-se com a typýdjaá, menos ampla que a tupái caiuá, desde logo abaixo dos seios; no litoral de São Paulo (Itariri) algumas a usavam debaixo do vestido.

Na agricultura destaca Schaden o milho, importante no calendário ritual, a ponto de se poder falar numa "religião do milho" (: 43). Plantavam o milho mole ou saboró para consumo interno e elaboração de bebida fermentada, que os mbiás não faziam (: 57, nota 10), e o duro, destinado à comercialização.

O feijão era cultivado duas vezes por ano, uma delas junto com o milho ("feijão das águas"). Além disso plantavam a cana-de-açúcar, amendoim, mandioca (: 38-9) e ainda batata-doce, abóbora, morango (abóbora-moranga?), algodão (: 42).

Schaden reproduz uma interessante explicação dada por um nhandeva sobre os cuidados tomados para evitar a degenerescência do milho (: 41-2), que, embora não pareça concordar inteiramente com a moderna Genética, implica, de qualquer modo, numa seleção das sementes a serem cultivadas.

A mandioca utilizada era geralmente a mansa (macaxeira ou aipim), a não ser no litoral de São Paulo, onde, por influência dos caiçaras, faziam a farinha de mandioca brava (: 43).

Uma planta de largo uso ritual era o urucu (: 45). O tabaco era usado pelos caiuás sob a forma de rapé, colocado entre o lábio interior e a gengiva. Os três ramos dos guaranis faziam uso de cachimbos. Os mbiás fumavam cigarros e os ofereciam até a crianças bem pequenas, que, por vezes, o rejeitavam, para não ficarem tontas (: 45).

Ao tratar do uso das armadilhas na caça e na pesca, da aplicação dos mbiás a esta última atividade, causa-nos uma incrédula nostalgia a referência de Schaden ao eventual aparecimento de uma vara de porcos selvagens na faixa litorânea de São Paulo (: 46-8).

As atividades agrícolas de subsistência dos guaranis eram até certo ponto prejudicadas pelo trabalho remunerado ("changa") que desenvolviam nas terras de fazendeiros e sitiantes, que incluía, no Mato Grosso do Sul, a safra da erva-mate (: 39). Faziam também a coleta da guavira para as fábricas de aguardente e vinagre (: 46).

Schaden notou a decadência dos mutirões, devido à diminuição da coesão dos grupos de vizinhança e aos gastos necessários para alimentar os participantes e sua substituição por outras formas de trabalho, como conceder a empreitada a um outro guarani. Por outro lado, o mutirão ganhava uma outra função naquelas áreas onde os guaranis estavam mais entrosados com os civilizados, que era a de estreitar essas relações (: 49-54).

Surgiu, por outro lado, entre aqueles que se dedicavam à confecção de artefatos para turistas e freqüentadores de praias, a figura do empreendedor guarani, que convocava os companheiros a trabalharem, vendendo seus produtos e empregando parte do lucro em compra de mantimentos para eles (: 53).

Apesar disso, Schaden chama a atenção para a incompatibilidade entre a mentalidade voltada para o lucro e a competição econômica e os ideais religiosos dos guaranis (: 55-6).

Diz-nos Schaden de um grande respeito dos guaranis pelas crianças, a ponto de tratá-las quase como adultos. O número de seus brinquedos era reduzido. O dinheiro que ganhavam, gastavam-no como lhes aprazia. A instrução formal era descurada, mas não os cuidados mágicos para favorecer seu desenvolvimento. A crença na reencarnação dos nhandevas convergia para esse tipo de atitude, uma vez que chegavam a ver em certas crianças o retorno de determinados falecidos (: 59-64).

Schaden toma a precária estabilidade do casamento como indício da desorganização social dos guaranis, com exceção dos mbiás, e a relaciona ao esfacelamento da família extensa (: 70-1).

Ao contrário do comumente esperado entre os tupis, para os quais a mãe não gera, os guaranis admitiam que a criança do sexo masculino provém do pai, e a do feminino, da mãe (: 82-108).

A primeira menstruação era marcada pelo corte de cabelo, recolhimento da jovem e evitação de certos alimentos, sobretudo carne de caça (: 84-6). O rapaz tinha o lábio perfurado para o uso do tembetá, o que não mais se realizava entre os nhandevas e, por decisão de um líder religioso, entre os mbiás do litoral de São Paulo (: 89-92).

A par do líder religioso, paí ou ñanderú, o grupo local contava no Brasil, com um capitão nomeado pelo chefe de posto, que se ocupava das relações com os brancos e medidas policiais (: 95-101). Vale registrar que, conforme Miguel Bartolomé (1991: 34), os nhandevas do Paraguai mantêm alguma lealdade a um "chefe máximo", chamado Juan Pablo Vera, a quem os índios acorrem para consultar, viajando dezenas de quilômetros para expor problemas não solucionados pelos chefes locais, geralmente referentes a práticas religiosas que precisam de continuar, apesar das pressões em contrário de missionários católicos e protestantes.

O curioso é que os guaranis visitados em Paso Yovai (Yrosã), no Paraguai, por Egon Schaden, tinham entre eles um velho líder chamado Pablo Vera (Schaden 1974: xii, 36, 89, 134). Neste lugar viviam mbiás e não nhandevas, devendo tratar-se, portanto, de líderes distintos.

A religião guarani

Mas é à religião aquele aspecto de sua cultura a que os guaranis mais se dedicam e, por isso, tem recebido mais atenção dos pesquisadores. Schaden aponta o contraste entre uma fixidez e uniformidade notáveis no conjunto das doutrinas privativas dos sacerdotes, de um lado, e representações religiosas públicas sujeitas a grande variação, de outro (: 107).

Um tema sempre levantado é o quanto de influência cristã sobre a religião dos guaranis, uma vez que uma boa parte deles descende daqueles que viveram nas missões jesuíticas. A crença numa divindade suprema e criadora, o uso freqüente da cruz, a relação entre o destino da alma e a responsabilidade moral do indivíduo, por exemplo.

Entretanto, sua visão de mundo está fundada numa cosmogonia própria, de que faz parte o mito dos gêmeos Sol e Lua, que o livro de Miguel Bartolomé, referente aos nhandevas, examina em detalhe. Vale notar que esse mito apresenta vários episódios que se podem encontrar entre indígenas muito distantes, como os teneteharas do Maranhão, no mito do Kwarúp dos camaiurás do alto Xingu, e até entre índios não-tupis, como os marubos do sudoeste do Amazonas.

Outro tema é o da multiplicidade ou dualidade de almas e a possibilidade da reencarnação. Esta é plenamente admitida pelos nhandevas, reservada somente às crianças cuja morte seja muito sentida pela família segundo os caiuás, e negada pelos mbiás (: 109-110).

Para os nhandevas há pelo menos duas almas. Uma, associada à fala, portanto à comunicação entre seres humanos, relaciona-se aos desejos, sentimentos e manifestações mais nobres do indivíduo. Destina-se ao céu, caso não volte a se reencarnar. A outra corresponde mais ao temperamento e fica vagando pela terra depois da morte, como ser perigoso, se não vier a reencarnar-se juntamente com a primeira (: 110-115).

Os mbiás admitem a existência de pelo menos três almas. Uma benévola e outra malévola produzem manifestações referentes a outras pessoas, estejam próximas ou a grande distância. A terceira protege a pessoa de que é integrante.

A pessoa morre se todas as almas a abandonam ao mesmo tempo. Porém, tal como entre os nhandevas, o que está em jogo é um dualismo das inclinações sociais e anti-sociais. A parte boa da pessoa vagueia numa região intermediária até que se complete a decomposição do corpo, depois do que entra no Céu. A parte má erra pela terra como assombração (: 115-7).

Os caiuás também têm uma concepção dualista da alma. só que a menos boa não nasce com a pessoa; vai-se formando ao longo de sua existência terrena (: 117-8).

Um terceiro tema é o das freqüentes rezas. A reza, porahêi, ora é comunitária, ora familiar, dirigidas pelo nhanderú ou pelo chefe da família, umas são antigas, transmitidas por ensinamento, outras são de posse individual, aprendidas de um espírito protetor, em sonho. Só os caiuás não dispõem desta última modalidade.

As coletivas são em linguagem arcaica, mas ainda compreensível aos conhecedores. Os homens as cantam com seus maracás, enquanto as mulheres batem no chão com um grosso e longo tubo de taquara. O nhanderú distingue-se dos demais pela maior quantidade de rezas que possui.

Abstinência de carne e, em determinadas circunstâncias, a prática da castidade estão entre os procedimentos para tornar-se um nhanderú. Sobre o nhanderú ou paí nhandeva pode-se encontrar mais detalhes no livro de Miguel Bartolomé (1991), que o inclui na categoria de xamã.

As rezas têm finalidades práticas, de interesse coletivo ou individual, principalmente para propiciar o plantio e desenvolvimento do milho. Schaden não dá exemplos de rezas menos voltadas a fins práticos. Sua reiterada afirmação do misticismo guarani é contrabalançada com a revelação da existência da reza de fazer mal e da prática de feitiço (: 124-8). Nos grupos locais muito atingidos pela desorganização social, a reza ainda se pratica em família; mas em Dourados Schaden nunca ouviu um nhandeva cantar sua reza (: 118-24).

Finalmente, talvez o mais marcante de todos os temas é a busca da Terra sem Males. Essa procura foi motivo de muitas das migrações dos grupos guaranis. Além de ser um modo de fugir à possível implosão do mundo, a busca desse lugar de bem-aventurança parece ter sido estimulada pela insatisfação dos guaranis com as condições em que vivem perante os brancos. A crença tem diferentes nuances, conforme se trate dos nhandevas, caiuás ou mbiás, e as migrações que provocaram afetaram esses distintos subgrupos em momentos diversos (: 161-77).

Os guaranis e a teoria

A etnografia guarani tem suscitado vários problemas. Um deles é saber até que ponto os jesuítas deixaram sua marca nas crenças indígenas atuais. A veneração da cruz, uma divindade principal e criadora, enfim o lugar central que ocupam as atividades e crenças religiosas no cotidiano dos guaranis têm sido objeto dessa discussão.

Outra questão é a da modificação do sistema de parentesco, que se supõe admitisse no passado o casamento com a filha da irmã. Tema hoje um tanto esquecido, foi discutido por Watson (1952).

O fato de o guarani atual manter-se alheio a certos valores da civilização ocidental tem levado os brancos e outros índios com que têm contato a situá-los de modo bastante desfavorável. O antigo Serviço de Proteção aos Índios, por exemplo, transferiu índios terenas para o interior de São Paulo, a fim de estimularem os guaranis a se "civilizarem".

Nas reservas da regiões sudeste e sul do Brasil, os guaranis vivem ao lado de índios de outras etnias, o mais freqüentemente caingangues; mesmo nas reservas criadas primordialmente para abrigar os guaranis, eles são colocados em posição hierarquicamente inferior pelas outras etnias.

Mas, talvez, o tema guarani que mais discussão tenha provocado entre os estudiosos seja a procura da Terra sem Males. A princípio, o exemplo guarani, ou tupi, de um modo geral, serviu para mostrar que as crenças messiânicas não têm de estar necessariamente ligadas à situação de contato com a sociedade ocidental, podem preexistir a ela. Depois, a busca da Terra sem Males serviu de base à teoria de Clastres segundo a qual consistiria num mecanismo que impediria o aparecimento do Estado.

Vale notar, por outro lado, que autores como Susnik e Melià parecem admitir que a crença na Terra sem Males era a principio um pouco mais voltada para este mundo. Seria a terra propícia para os guaranis se estabelecerem e desenvolverem todas as suas expectativas culturais do que entendiam por bem viver. Na medida em que a conquista européia, ao mesmo tempo em que os submetia, instalava um sistema predatório dos recursos naturais, a Terra sem Males foi deixando de ser procurada neste mundo e se tornou cada vez mais mística.

Fonte: www.geocities.com

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