
Roma e Cartago A Primeira Guerra Púnica
O desfecho das Guerras Púnicas moldou a história como conhecemos atualmente.
A queda de Cartago definiu a hegemonia romana no mediterrâneo e como maior
potencia do mundo antigo. Um dos maiores genocídios da antiguidade aniquilou
uma civilização que prosperava e, pela agressividade do povo vencedor, não
sobrou nada de muito concreto para posteridade para o seu estudo, sobrando
como relato os escritos do antigo historiador Tito Lívio.
Foram ao total três guerras.
A Primeira Guerra surgiu com a quebra de um acordo entre Roma e Cartago, que até então tinham uma convivência pacifica, em não ocupar a Sicilia, em que romanos se instalaram na Messana. Os púnicos retaliaram os romanos com uma série de ataques ao sul da Itália. Estava declarada a guerra.
Roma era boa com sua infantaria terrestre e, até o inicio da guerra, não possuíam frotas navais, algo que os cartagineses dominavam por maestria. Porém, com a captura de um dos navios dos poeni como os cartagineses eram conhecidos pelos romanos Roma obteve o conhecimento da infantaria naval e, como muita rapidez construiu e adaptaram navios as suas necessidades e para seu modo de luta construindo as pontes de abordagem, que transformava a batalha naval em combate corporal, no que Roma era infinitamente superior.
A vitória estava próxima, se não fosse o apoio de um mercenário espartano Xantipo aos cartagineses que ensinou os soldados púnicos a utilizarem elefantes como montaria, o que surpreendeu o exercito romano. Isso retardou o triunfo romano, porém Cartago teve sérios danos como perda de territórios e até uma crise interna com mercenários derrotados que exigiam pagamento.
A conjuntura interna foi abafada por Amílcar, general que depois disso investiu em uma expedição na Espanha e, graças à extração de minérios, conseguiu novo fôlego aos poeni para a segunda e mais memorável das guerras da antiguidade.
Jonathan Diniz de Souza
Fonte: historica.me
Consequências da Primeira Guerra Púnica
Depois da desastrosa derrota das ilhas Egates, os Cartagineses concederam a Amílcar Barca plenos poderes para negociar a paz com Roma. Na verdade, Amílcar desejoso de se dissociar de qualquer admissão de derrota, agiu através de um dos seus oficiais, Gesgão. O consulado de Catulo estava prestes a terminar, e a ânsia de conquistar os louros pela conclusão de uma guerra tão importante antes que os seus sucessores lhe roubassem a gloria terá tomado o cônsul mais conciliatório. Uma exigência romana inicial de que o exército siciliano de Amílcar entregasse de imediato as armas e todos os desertores romanos e italianos para serem punidos foi prontamente rejeitada. Os mercenários abandonariam a ilha como um exército, na posse das suas armas e com a honra imaculada. Mas esta concessão parece ter sido a única que os Cartagineses conseguiram obter pois noutros aspectos os termos de paz deixaram bem claro que tinham sido derrotados e que Roma não estava a negociar de igual para igual.
A paz entre Roma e Cartago seria declarada desde que cumpridas as seguintes condições:
(a) Os Cartagineses deveriam abandonar por completo a Sicília;
(b) Nenhuma das partes faria a guerra aos aliados da outra nem procuraria subverter a sua aliança aliando-se diretamente com eles ou interferindo nos seus assuntos internos. Nenhuma das partes recrutaria soldados nem reuniria dinheiro para construir edifícios públicos no território da outra;
(c) Os Cartagineses libertariam gratuitamente todos os prisioneiros romanos e pagariam um resgate pelos seus;
(d) Os Cartagineses pagariam ao Estado romano uma indenização de 2200 talentos de Eubeia durante um período de vinte anos.
Os cônsules romanos careciam de autoridade para concluir a paz a título definitivo,
devendo os tratados ser ratificados pelo povo romano por votação nos Comitia
Centuriata, a mesma assembleia que gozava de poderes para declarar a guerra.
Por conseguinte. Catulo solicitou a Roma a aprovação dos termos propostos.
O povo romano, de forma algo característica, decidiu que as condições eram
demasiado brandas e foi enviada uma comissão senatorial à Sicília para modificar
o tratado. A indenização foi aumentada para 3200 talentos, 1000 pagáveis de
imediato e os restantes em dez anos, talvez um reflexo do desejo do Estado
de pagar os empréstimos contraídos para a construção da última esquadra -
por tradição, os Romanos esperavam que os inimigos vencidos contribuíssem
para pagar os custos do seu esforço de guerra. A outra alteração foi a inclusão
de uma cláusula exigindo que Cartago evacuasse a totalidade das pequenas ilhas
existentes entre a Sicília e África.
Resulta evidente que a expulsão integral dos Cartagineses da Sicília se tornara
o principal objetivo de guerra dos Romanos, independentemente de seguirmos
ou não Polibio e datarmos esta ambição da queda de Agrigento, em 261. A invasão
da África, em 256, nunca se destinou a estabelecer uma presença romana permanente,
mas sim a aplicar pressão adicional sobre os Cartagineses na esperança de
os levar a submissão. Este objetivo primário foi atingido na integra. Atém
do mais, o poderio naval púnico foi quebrado e deixou de dominar o Mediterrâneo
Ocidental, mais por causa da perda de bases em ilhas do que pelas perdas em
navios, que podiam ser colmatadas com o tempo. Mas Cartago não perdeu nenhum
do seu poder na África nem na Hispânia, e manteve-se na posse da Sardenha.
Ao contrário do que tinham feito após a conclusão de quase todas as suas guerras
travadas em Itália, os Romanos não procuraram integrar Cartago na sua rede
de aliados. Em parte, isto refletiu a realidade da situação. Depois de vinte
e três anos de luta, ambos os lados estavam exaustos e desejosos de se entenderem.
A continuação da guerra até uma das partes ser destruída como entidade politica
independente não era exequível. Em dimensão, territórios e prosperidade econômica,
Cartago estava num nível muito superior ao dos Estados italianos com os quais
Roma lidara no passado. Atém disso, os Romanos parecem ter reconhecido as
diferenças entre a Península Itálica e as terras separadas das suas pelo mar.
A Sicília não foi absorvida do mesmo modo que as comunidades italianas nem
povoada com colônias de cidadãos. De início, uma grande parte da ilha foi
administrada por Hierão de Siracusa, mas a dada altura foi nomeado um governador
- seria um pretor - para administrar a parte ocidental da ilha, criando a
primeira província de Roma na acepção que entendemos do termo. Não sabemos
exatamente quando isto aconteceu mas poderá ter sido depois, de cerca de 227
a.e.c., quando o número de pretores eleitos anualmente foi aumentado para
quatro, muito provavelmente para providenciar governadores para a Sicília
e para a Sardenha, onde parecem ter sido estabelecidas guarnições romanas
permanentes. Ao contrário dos aliados italianos, as comunidades da província
romana possuíam uma ligação diferente ao Estado romano, tendo como principal
obrigação o pagamento de impostos e não o fornecimento de soldados para combater
no exército romano. Os cereais da Sicília tornaram-se rapidamente uma importante
fonte de alimentos para a própria cidade de Roma e muitos cidadãos romanos,
em especial membros da Ordem Equestre, terão feito fortuna com o negócio dos
cereais.
Olhando para trás, é difícil descortinar qualquer ocasião em que os Cartagineses
tenham estado perto da vitória. As perdas romanas mais sérias deveram-se ao
mau tempo e não a ação inimiga. Na primeira fase, se tivessem conseguido impedir
a expedição romana de atravessar o Estreito de Messina ou derrotar o exército
de Cláudio após o seu desembarque, talvez tivessem dissuadido os Romanos de
novas aventuras ultramarinas, pelo menos no curto prazo, o que, para todos
os efeitos, teria impedido a crise de se transformar numa guerra. Mas era
muito difícil esquadras de gales conseguirem bloquear uma extensão de água,
e as forças púnicas que se encontravam na Sicília em 264 eram totalmente inadequadas
para alcançar tão rapidamente uma vitória sobre um exército consular romano.
Além da decisão de prosseguir a guerra e enviar um grande exército para a
Sicília depois da derrota de Siracusa petos Romanos, o esforço de guerra cartaginês
foi essencialmente passivo, uma série de reações às iniciativas romanas, integralmente
destinadas a proteger a sua posição na Sicília. Mesmo quando procuraram flagelar
o inimigo com incursões sobre a costa italiana, o seu objetivo primordial
foi induzir a retirada de forças romanas da Sicília. Na ilha propriamente
dita, a sua estratégia seguiu o padrão tradicional cartaginês de aguentar
a investida inimiga e tentar manter o controle do maior número possível de
praças-fortes, esperando que o inimigo enfraquecesse para poder recuperar
o terreno cedido. Quando os Romanos chegaram à Sicília, há séculos que Cartago
se vinha envolvendo em conflitos esporádicos na região; nunca conseguira garantir
o controle total da ilha, nem nunca fora completamente expulsa.
Os Romanos não eram como Pirro, que desistiu da sua ofensiva quando não conseguiu
garantir o apoio generalizado das comunidades gregas da Sicília, e o seu poderio
também não era tão precário como o dos sucessivos tiranos de Siracusa. A persistência
romana foi, no mínimo, idêntica à cartaginesa, e combinou-se com um modo extremamente
agressivo de fazer a guerra, aplicando continuamente pressão sobre o inimigo
para forçar uma decisão. Durante todo o conflito, os Romanos estiveram consistentemente
ao ataque, expandindo de forma metódica o território que controlavam na Sicília
e continuando a faze-lô mesmo quando o moral dos seus exércitos caiu a pique
devido a derrota de Régulo. Mais importante ainda, estiveram dispostos a escalar
o conflito na tentativa de derrotar o inimigo, invadindo a África e, acima
de tudo, decidindo construir uma armada e prosseguir a guerra no mar apesar
das suas perdas colossais. Os enormes recursos humanos de Roma tornaram-lhe
possível absorver perdas colossais, mas isto não chega para explicar a determinação
com que a população continuou disposta a servir na guerra.
A substituição anual dos comandantes supremos poderá significar que eram geralmente
menos experientes do que os seus opositores, mas é difícil encontrar exemplos
concretos da afirmação de Zonaras de ter sido esta a causa de numerosas derrotas
romanas. Das principais batalhas terrestres e navais, todas menos duas foram
vitórias romanas, e é provável que a maioria das suas derrotas tenha sido
em combates de pequena envergadura. Amílcar Barca, considerado por Polibio
o comandante mais capaz da guerra, demonstrou o seu talento em incursões e
escaramuças relativamente menores. Em certo sentido, a chegada anual de novos
comandantes romanos poderá ter-se revelado um ativo, ao garantir que o exército
e a marinha eram liderados de forma extremamente agressiva, com os comandantes
a procurarem distinguir-se na sua curta vigência no cargo. A estratégia romana
manteve-se continuamente agressiva, ainda que por vezes inconsistente. Se
isto deu origem a atos de grande audácia ou até de temeridade, como os malogrados
ataques de surpresa a Lipara, em 260, e a Drépane, em 249, também gerou alguns
êxitos notáveis, tais como a vitória de Régulo em Adis. Na globalidade, o
desempenho dos generais romanos foi bastante bom.
Com o evoluir da guerra, aumentou o número de homens que ocupavam o cargo
pela segunda vez, o que poderá ter garantido comandantes mais experientes,
se bem que, no caso de Cipião Asina, cônsul em 260 e 254, a experiência foi
de derrota e cativeiro. Dos quarenta e sete cônsules eleitos durante os vinte
e três anos de guerra - o número impar resulta da morte de Quinto Cecidio,
pouco depois de assumir o cargo, em 256, e da sua substituição por Régulo
-, onze já tinham exercido o cargo e de entre estes apenas dois não o tinham
ocupado durante o conflito. Outros dois ascenderiam a um segundo consulado,
depois de 241. A proporção de múltiplos consulados foi muito semelhante nas
décadas anteriores à guerra e poderá ter sido mais um reflexo da política
da época e do domínio de algumas famílias aristocráticas do que o desejo,
por parte do eleitorado, de escolher comandantes experientes durante uma guerra
difícil. Uma alteração no equilíbrio politico explicará talvez o ligeiro declínio
no número de múltiplos consulados nos anos que mediaram entre a Primeira e
a Segunda Guerras Púnicas.
Depois do desastre de Drépane, em 249, o Senado selecionou efetivamente um comandante com base na sua experiência e influência politica, ao tomar a raríssima medida de nomear um ditador militar para tomar o seu cargo as operações na Sicília. A escolha recaiu em Aulo Atilio Caiatino, fora pretor em 257 e que na qualidade de cônsul, em 258 e 254, comandara em duas campanhas na Sicília. Contudo, o Senado fez pouco uso da sua prerrogativa de prolongar o imperium dos magistrados (o prolongamento do comando dos que eram comprovadamente capazes), algo que se tornaria comum na Segunda Guerra Púnica.
Isto deveu-se, em parte, ao fato de o teatro de operações da Primeira Guerra
Púnica ser mais restrito, mas também refletiu a reduzida percentagem de baixas
entre os oficiais superiores romanos em comparação com a Guerra Anibalica.
Nas campanhas da Primeira Guerra Púnica, os cônsules operaram juntos com mais
frequência do que no passado. As discordâncias entre homens de igual estatuto
partilhando o comando de um exército figurariam proeminentemente nas explicações
dos desastres romanos da Segunda Guerra Púnica, mas não se encontram vestígios
deste tipo de situação no conflito anterior, talvez porque houve menos derrotas
para justificar. O diferendo entre Catulo e Faltão ocorreu depois da vitória
e não terá dado origem a nenhuma dificuldade durante a conduta da campanha.
As duas grandes derrotas da guerra ocorreram com um único cônsul no comando
e Agrigento, a única batalha terrestre em que o comando foi partilhado, saldou-se
por uma clara vitória romana. Todavia, as batalhas campais foram raras durante
o conflito e eram as sutis manobras que as antecediam que proporcionavam mais
oportunidades para um comando dividido gerar confusão.
Os comandantes cartagineses seriam mais "profissionais" do que os
seus homólogos romanos e não ha dúvida de que permaneciam no seu posto durante
mais tempo, mas poucos teriam muita experiência de comando de forças tão grandes
como as utilizadas com frequência durante a guerra. Este fato aplica-se particularmente
aos almirantes nomeados para controlar as operações das esquadras de dimensões
inéditas formadas em varias ocasiões. A sua inexperiência de comando a esse
nível agudizou as acentuadas dificuldades de coordenação dos movimentos de
centenas de navios de guerra a remos, e terá sido outro fator a negar a marinha
cartaginesa as vantagens que deveria ter derivado da perícia superior das
suas tripulações. Vários generais púnicos foram crucificados em consequência
de fracassos militares durante a guerra, geralmente, ao que parece, por ordem
dos seus subordinados imediatos. Mas houve lideres vencidos que escaparam
ao castigo e foram nomeados para outros comandos, o que sugere que o seu destino
foi determinado não só pela sua responsabilidade, mas também pela sua influência
politica. Os Romanos foram consideravelmente mais brandos para os seus magistrados
que presidiram a desastres militares, concedendo triunfos a uma sucessão de
almirantes que tinham perdido a maior parte das suas esquadras devido ao mau
tempo. Apenas Cláudio foi julgado sob a acusação de perduellio no sentido
de "causar o descrédito do Estado" pelo seu comportamento em Drépane,
mas escapou por um triz à condenação, sendo antes considerado culpado de uma
acusação menor e multado. No entanto, o subsequente julgamento da irmã sugere
que a família foi tida como politicamente vulnerável nos anos seguintes.
Fonte: www.roma.templodeapolo.net