
Segunda Guerra Púnica - República Romana (509 - 49 a.e.c.)
Desde a sua eclosão, a Segunda Guerra Púnica foi uma contenda muito mais
séria do que a Primeira, que rebentou na Sicília e foi essencialmente uma
luta pelo controle da ilha. A invasão de Régulo colocou os Cartagineses à
beira da capitulação mas resultou numa derrota e não foi repetida pelos Romanos.
O conflito converteu-se numa prova de resistência que acabou por ser decidida
com a derrota da última esquadra púnica nas ilhas Egates. O tratado de paz
deixou Cartago forte na África e capaz de se expandir na Hispânia, mas afigurou-se
mais duro depois de Roma se ter apoderado da Sardenha.
A Segunda Guerra Púnica foi um conflito muito mais simples, pela supremacia,
na qual os territórios foram sempre de importância secundária. A tentativa
cartaginesa de reconquista da Sardenha foi débil e as movimentações contra
a Sicília só tiveram inicio alguns anos depois da eclosão da guerra. Em ambos
os casos, a iniciativa partiu de lideres das ilhas e não de Cartago. A conquista
de territórios ao inimigo e a persuasão dos seus aliados para que desertassem
foram meios de exercer pressão e não fins a atingir. Os tratados que garantiram
a Estados como Cápua ou Tarento a independência de Cartago deixaram claro
que não havia a intenção de estabelecer uma província púnica no Sul do Lácio.
A guerra foi travada para forçar o adversário a submeter-se e a aceitar um
tratado muito favorável para o vencedor. Em 218, ambas as partes planejaram
atacar o coração do território inimigo, os Romanos a África e na Hispânia,
Hannibal na Itália. Apesar dos reveses, das distrações e das discórdias no
seio das lideranças rivais, este objetivo manteve-se até ao fim, com Asdrúbal
e Magão renovando a invasão da Itália e Cipião terminando a guerra na África.
À medida que ambos os lados procuraram lançar ataques adicionais e incrementar
a pressão sobre o inimigo o conflito alastrou a outros teatros. Mas estes
estiveram sempre subordinados ao esforço principal.
A maior intensidade da Segunda Guerra Púnica é ilustrada pelo equilíbrio verificado
entre os três tipos de combate principais, as batalhas, os cercos e as incursões.
As batalhas campais foram muito mais comuns mas os recontros navais foram
poucos e em escala reduzida, nada que se compare as grandes batalhas navais
da Primeira Guerra Púnica. Entre 218 e 202, registaram-se cerca de doze batalhas
campais, três vezes o número das travadas entre 265 e 241, e talvez outros
doze embates de alguma dimensão. As breves narrativas de muitos recontros
tornam difícil discernir a sua escala. A sua natureza é, por vezes, o seu
desfecho, o que faz com que os números supra-referidos sejam aproximados.
Um pouco mais da metade das batalhas foi travada na Itália, as restantes na
África e na Hispânia. Tal como na Primeira Guerra Púnica, o terreno da Sicília
não favoreceu a ocorrência de batalhas campais formais e o mesmo aconteceu
em grande parte da Hispânia, da Ilíria e da Grécia. E além de as batalhas
campais se concentrarem em certas regiões, tenderam a ocorrer em períodos
de campanha breves e de extrema intensidade. Hannibal travou três grandes
batalhas e vários combates importantes entre 218 e 216, e muito menos nos
anos posteriores.
Cipião Africano travou uma batalha na Hispânia, em 208, tentou infrutiferamente
travar outra em 207, e completou a sua vitória com uma última batalha, em
206. Repetiu este padrão na África, travando grandes batalhas em 203 e 202.
As batalhas tinham mais tendência a ocorrer quando o general agia de forma
excepcionalmente agressiva, de um modo geral internando-se profundamente em
território inimigo, como foram os casos, por exemplo, das primeiras invasões
da Itália e da África, ou das grandes incursões de Cipião na província púnica
da Hispânia. A resposta romana a este tipo de ameaça foi a batalha campal,
e foram necessárias sucessivas derrotas até que comandantes como Fábio Máximo
instilassem alguma cautela nas operações romanas na Itália. A ocorrência de
uma batalha campal exigia um grau tão elevado de consentimento mútuo que até
generais tão competentes como Hannibal e Cipião se viram frequentemente incapazes
de obrigarem o inimigo a combater. Esta realidade toma a decisão de Cipião
de atacar uma posição tão formidável como a de Asdrúbal em Bécula tão notável
como o seu sucesso.
Os Romanos perderam vários recontros de menor dimensão mas só foram derrotados
numa batalha campal por Hannibal, na Itália. As derrotas de Públio e Gneu
Cipião, em 212, resultaram de uma série de embates confusos, gerados por uma
situação estratégica marcadamente desfavorável. À exceção destes casos, os
exércitos romanos demonstraram, em batalhas campais, uma superioridade inegável
sobre todos os outros exércitos e generais púnicos.
O exército de Hannibal na Itália foi, sem qualquer sombra de dúvida, o melhor
jamais alinhado por Cartago, beneficiando da liderança carismática de Hannibal
e dos longos anos de campanha na Hispânia. Outra das suas vantagens foi um
rácio cavalaria/infantaria excepcionalmente elevado, que chegou a ser de 1:3
a 1:4, mais do dobro da media de ambas as partes. Os continuados êxitos de
Hannibal sobre os Romanos conferiram ao seu exército uma vantagem em termos
de moral que, até ao fim da campanha italiana, nunca perdeu. Outros exércitos
púnicos apresentaram uma mistura similar de nacionalidades e tipos de tropas,
mas o seu desempenho no campo de batalha foi medíocre. Os outros generais
eram muito inferiores a Hannibal como lideres e táticos, e não tiveram a oportunidade
para converter os dispares contingentes que comandavam numa unidade coesa
através da combinação de uma instrução longa e da participação em operações
bem sucedidas sob oficiais que lhes eram familiares. As fontes apresentam
com frequência um elemento como a única parte verdadeiramente fiável e eficaz
do exército, como por exemplo, os Líbios em Ilipa ou os Celtiberos nas Grandes
Planícies. E nem Hannibal conseguiu, no pouco tempo disponível, fundir os
três exércitos da África para a campanha de Cannae.
O sistema de milícia romano produzia exércitos muito mais homogéneos em termos
de língua, cadeia de comando, instrução e organização. Isto facilitava a integração
de legiões de diferentes forças num mesmo exército. O prolongado tempo de
serviço aumentava inexoravelmente a eficácia dos exércitos romanos, um processo
que era muito mais rápido do que numa força púnica de várias nacionalidades.
As legiões da Segunda Guerra Púnica serviram durante muito mais tempo do que
quaisquer outras tropas romanas até então, pelo que na fase final da guerra
muitos soldados estavam tão bem instruídos e confiantes como quaisquer tropas
profissionais. A flexibilidade tática demonstrada pelos Romanos no Metauro,
em Ilipa e em Zama foi uma prova tangível desta realidade. Soldados e oficiais
tinham-se tornado capazes de feitos que seriam inimagináveis em 218. Estes
exércitos eram muitíssimo superiores a maioria das forças púnicas e mesmo
em grande inferioridade numérica conseguia derrotar o inimigo, como Cipião
demonstrou. Com a evolução do conflito, o desdém que os Romanos mostravam
por todos os exércitos e generais cartagineses - à exceção de Hannibal - foi-se
fundamentando cada vez mais na realidade.
Apesar do considerável número de batalhas e recontros importantes tratados
na Segunda Guerra Púnica, não deixaram de ser acontecimentos raros na experiência
da maioria dos soldados, que participaram com muito mais frequência em incursões
ou cercos. As incursões não se destinavam primariamente a providenciar comida
para os exércitos, embora pudessem ser combinadas com esta atividade. O seu
objetivo principal era provocar o máximo de danos possível às zonas rurais
do inimigo, matando ou capturando as populações, destruindo quintas e aldeias,
incendiando as colheitas e roubando o gado. Todas estas atividades exigiam
tempo e esforço, e algumas, como por exemplo, a destruição das colheitas,
só podiam ser concretizadas durante as semanas que antecediam a apanha. Os
danos tendiam a limitar-se a uma área e tinham pouco efeito a longo prazo
mas eram inegavelmente horríveis para as vítimas. Mas quando as incursões
prosseguiam durante um longo período, as consequências para a região podiam
ser muito graves. As perdas em mão-de-obra rural, devido a captura, a morte
ou a conscrição, e os danos prolongados aos campos, as colheitas e ao gado,
reduziam a produtividade e davam origem a uma escassez de alimentos que por
sua vez enfraquecia a população e encorajava o aparecimento de doenças, provocando
um declínio adicional na produção. Algumas áreas, especialmente o Brútio e
outras partes do Sul de Itália, onde Hannibal e o seu exército estiveram confinados
durante anos, foram palco das repetidas incursões dos beligerantes e terão
sofrido grandemente. Uma das grandes controvérsias da Segunda Guerra Púnica,
que discutiremos num capitulo posterior, é o seu impacto sobre a população
e a economia rural da Itália.
A consequência mais imediata das incursões eram os danos causados ao prestigio
do inimigo por não conseguir defender o seu territorio. A visão das quintas
a arder deixadas pela marcha de Hannibal, em 217, incitou Flaminio a persegui-lo
incautamente, desejoso de vingar aquela humilhante demonstração da debilidade
de Roma. Mais tarde, ainda no mesmo ano, Fábio Maximo tornou-se muito impopular
por se negar a impedir tais depredações. Um Estado que se revelava incapaz
de proteger os seus aliados contra as depredações do inimigo perdia prestigio
e poderia também perder os seus aliados. Isto aplicou-se particularmente à
áreas como a Sicília ou a Hispânia, onde as comunidades revelaram um empenho
compreensivelmente diminuto para com ambos os lados. O fracasso de Hannibal
em proteger das incursões romanas muitos dos seus aliados italianos foi um
fator de peso no seu lento mas inexorável regresso à aliança com Roma.
As cidades muralhadas estavam a salvo das incursões, e só as menores poderiam
eventualmente sucumbir a um assalto. As cidades constituíam os centros políticos
da maioria dos povos envolvidos no conflito, controlando amplas áreas circundantes.
As incursões podiam intimidar a população de uma região, mas só a ocupação
das suas praças-fortes mais importantes garantia o seu controle em termos
permanentes. A vitória romana na Sicília decorreu da conquista dos dois principais
bastiões inimigos, Siracusa e Agrigento. Durante toda a guerra, nenhuma das
partes conseguiu conquistar a capital inimiga, demasiado grande e defendida,
ainda que, em várias ocasiões, tanto Roma como Cartago se tenham sentido diretamente
ameaçadas. A conquista de posições fortificadas foi sempre extremamente difícil,
o que constituiu um dos motivos para a predominância dos cercos na propaganda
dos "Grandes Reis", dos faraós em diante. Só quando o exército profissional
romano combinou as capacidades de engenharia com a predisposição para aceitar
as baixas inevitáveis nos assaltos é que a balança começou a pender para os
sitiantes. Os ataques diretos contra uma grande cidade apenas tinham sucesso
quando combinavam a surpresa com a traição ou com o conhecimento de pontos
fracos nas defesas. Os bloqueios demoravam muito mais tempo e exigiam a permanência
de forças consideráveis no mesmo lugar durante meses ou anos, agudizando o
problema do aprovisionamento. Foi a superioridade numérica dos Romanos e a
sua capacidade para alimentar os seus exércitos que lhes permitiu montar os
longos e vitoriosos assédios À Cápua e Siracusa.
A devastação dos campos, a conquista das cidades e as batalhas campais eram
os três meios de sapar a determinação do inimigo para prosseguir a luta. O
equilíbrio entre estes três meios variou de teatro para teatro mas o maior
impacto adveio sempre de uma grande derrota em combate. A guerra terminou
com a vitória romana de Zama, tal como a Primeira Guerra Púnica terminara
com as Ilhas Egates. Outras batalhas revelaram-se vitorias táticas mais completas
mas não tiveram um efeito tão decisivo. Isto aplica-se particularmente à série
de vitórias esmagadoras que Hannibal alcançou na Itália e que forçaram os
Romanos a admitir que não podiam enfrenta-lo em campo aberto. Hannibal assolou
as terras por onde passou e, no Sul, promoveu a defecção de muitos aliados
de Roma. Mas apesar de tudo isto, os Romanos recusaram ceder. Quando reconquistou
Cápua e Tarento, os mais importantes Estados desertores, Roma já se tinha
reapoderado da maior parte das áreas que tinham desertado e o poder de Hannibal
na Itália estava em declínio. Nenhuma cidade latina aderiu à sua causa. As
tentativas para o reforçar com novos exércitos fracassaram e tornou-se óbvio
que não poderia vencer. Entretanto, os Romanos haviam reconquistado a Sicília,
tinham expulsado os Cartagineses da Hispânia e estavam instalados na África.
É difícil ver o que mais poderia Hannibal ter feito para alcançar a vitória.
Nunca saberemos a que ponto estiveram os Romanos de admitir a derrota. Talvez
uma marcha sobre Roma após Canaae tivesse levado os Romanos a perder o sangue-frio,
mas não podemos estar certos de que assim seria e essa opção teria constituído
um risco enorme. Um dos problemas principais dos Cartagineses foi terem ao
seu dispor um general soberbo à frente de um exército excelente num dado teatro,
enquanto que em outros dispuseram de generais medíocres com exércitos medianos
ou generais medianos com exércitos medíocres. Desde o principio, os Romanos
conseguiram produzir, em quantidade considerável, exércitos e generais de
qualidade mediana, com vantagem sobre todos os adversários à exceção de Hannibal.
Com a evolução do conflito, os lideres e os soldados romanos adquiriram experiência
e a sua superioridade sobre os outros exércitos púnicos tornou-se ainda mais
vincada. Se os Romanos não tivessem encontrado tropas para travarem e vencerem
as campanhas nas frentes fora da Itália, o desfecho da guerra teria seguramente
sido muito diferente. O Senado romano teve o mérito imenso de continuar a
empenhar homens e recursos em teatros de operações distantes quando o desastre
parecia ameaçar a Itália.
Sob ameaça direta, Roma e Cartago comportaram-se de forma fundamentalmente
diferente. Quando um exército romano apareceu às portas da cidade, em 255,
203 e 202, a liderança cartaginesa respondeu procurando a paz. Lívio acredita
que o fizeram com falsidade em 203, e neste ano e em 255 retomaram as hostilidades
quando não conseguiram garantir os termos que consideravam apropriados ao
seu poderio, que ainda era considerável. Em 216, 212 ou em outra fase negativa
da guerra, nunca o Senado ou qualquer general romano contemplou seriamente
admitir a derrota e negociar com o inimigo. Apesar das perdas calamitosas,
da sucessão de derrotas humilhantes, da defecção de alguns aliados e da continuação
da nefasta presença do exército de Hannibal na Itália, os Romanos recusaram
pura e simplesmente entender-se com os Cartagineses, tal como se tinham negado
a negociar com Pirro. Depois, levaram o inimigo de vencido em todas as outras
frentes e obrigaram Hannibal, apesar de invicto, a abandonar o Lácio e a regressar
a Cartago para a proteger. Os Cartagineses contavam que as guerras terminassem
com uma paz negociada. Os Romanos contavam que as guerras terminassem com
a sua vitória total ou com a sua própria aniquilação, algo que nenhum Estado
contemporâneo dispunha de recursos para conseguir. Foi esta atitude que impediu
os Romanos de perderem a guerra e que lhes deu a vitória.
O fator mais importante que permitiu a Roma adotar esta atitude tão rígida
foi provavelmente a sua enorme reserva de potenciais soldados. As suas perdas
foram colossais, muito superiores as da Primeira Guerra Púnica, com particular
incidência sobre as classes mais abastadas, os senadores, os membros da Ordem
Equestre e os lavradores que serviam na infantaria pesada das legiões. Nos
primeiros anos de guerra, Roma terá talvez perdido 25% dos homens qualificados
para o serviço militar devido a mortes e defecções, mas mesmo assim o número
de legiões foi aumentado. Tornaram-se algumas medidas de exceção para colmatar
a lacuna de recrutas, alistando homens mais novos e mais velhos do que o habitual,
reduzindo as posses mínimas exigidas para o cumprimento do serviço militar
e formando legiões com condenados e escravos. No seu conjunto, esta expansão
foi possibilitada pela anuência dos cidadãos comuns em submeterem-se a anos
de severa disciplina militar e de campanhas extremamente perigosas. É vital
não nos esquecermos de que, em Roma e na maioria dos aliados, todas as classes
mantinham fortes laços de lealdade entre si e para com o Estado. Verificaram-se
algumas exceções, nomeadamente a recusa das doze colônias latinas de fornecerem
mais homens, em 209, mas foram extremamente raras. E note-se que estas colônias
apenas declararam ter esgotado os seus recursos. Não recomendaram nenhum entendimento
com o inimigo nem tomaram nenhuma medida tendente a desertarem. Do mesmo modo,
alguns homens tentaram evitar o serviço militar, outros procuraram lucrar
custa das tropas que deveriam abastecer e alguns, muito poucos, desertaram
e combateram ao lado do inimigo; mas a esmagadora maioria não fez nada disto
e foi movida, por orgulhoso patriotismo, a sacrificar-se pelo Estado.
Os Cartagineses sofreram muito menos baixas, quer em número, quer em percentagem
do total dos cidadãos. Os cidadãos púnicos apenas entraram em campanha em
número significativo na África, e as suas perdas nas Grandes Planícies e em
Zama não foram elevadas. Parece nunca ter faltado dinheiro para contratar
mercenários, mas o que frequentemente escasseou foi o tempo para os recrutar
e converter num exército eficaz. A verdade é que Cartago não estava tão organizada
para a atividade bélica como Roma, onde a guerra era parte integral do sistema
politico. O Senado romano decidia anualmente a atribuição de comandos e recursos
militares, e durante a Guerra Anibálica assistiu-se a uma simples continuação
deste procedimento normal. Não se pode afirmar peremptoriamente que os Romanos
faziam a guerra com mais ou menos frequência do que outros povos contemporâneos,
mas do que não restam dúvidas é de que a faziam com maior eficácia e entrega.
Polibio acerta em cheio no alvo ao destacar a organização politica, a estrutura
social e as instituições militares de Roma como chaves da sua vitória sobre
Cartago. Durante a Guerra Anibálica, todas elas tiveram que ser modificadas
para lidar com a crise. Tornaram-se comuns as múltiplas magistraturas e promagistraturas,
as lacunas nas fileiras do Senado foram preenchidas em massa, recrutaram-se
escravos para o exército e a instrução ministrada às legiões foi de molde
a permitir-lhes atingirem níveis inéditos de eficácia. Cada uma destas instituições
revelou-se suficientemente flexível para se adaptar sem ter que alterar a
sua natureza essencial. No meio século seguinte, dariam a Roma o domínio do
mundo mediterrânico.
Cartago reconhece sua derrota na Segunda Guerra Púnica
Depois da batalha, Hannibal e o seu estado-maior fugiram para a sua base
principal, em Adrumeto. Os Romanos reuniram os prisioneiros e pilharam o acampamento
púnico. Cipião recebeu a noticia animadora de que se aproximava de Castra
Cornelia um comboio com mantimentos, e Lélio foi de novo enviado a Roma para
dar conta da vitória. A derrota do seu último exército deixou Cartago com
a única alternativa de procurar novamente a paz. Cipião conduziu a esquadra
numa demonstração de força junto da própria cidade de Cartago, uma pressão
adicional para que se submetesse. Em termos militares, os Romanos pouco poderiam
ameaçar uma urbe tão bem fortificada. Mesmo recorrendo a todo o seu exército,
o cerco de Cartago teria sido uma empresa enormíssima e de desfecho incerto.
Cipião rejeitou prontamente a ideia, apesar de, segundo Lívio, ter sido advogada
por vários dos seus oficiais. Não obstante ter-se negado a receber uma primeira
embaixada de paz púnica, o general romano estava desejoso de chegar a um entendimento.
Em particular, estaria de novo preocupado com a manutenção do seu comando
e com a obtenção da glória que a vitória lhe merecera. De fato, mesmo com
a guerra prestes a acabar, um dos cônsules de 201 tentou substituir Cipião
no comando na África mas depois da intervenção de alguns dos tribunos da plebe
e de novos debates senatoriais acabou por substituir Nero no comando naval.
Os termos do tratado ditado por Cipião foram duros. Entrega, sem resgate,
de todos os prisioneiros e desertores romanos. Confiscação de todos os elefantes
de guerra. Redução da armada a dez trirremes. Cartago manteve a maior parte
do seu território na África mas perdeu todas as suas possessões ultramarinas,
e até na África foi obrigada a reconhecer Masinissa como soberano de um reino
substancialmente aumentado. Cartago foi obrigada a pagar uma indenização de
10.000 talentos de prata, em prestações anuais, durante mais de cinquenta
anos, uma recordação constante da sua derrota. Outra indicação do seu novo
estatuto foi a estipulação de que Cartago não poderia entrar em guerra fora
da África, e na África só com autorização de Roma. Cartago continuaria a ser
governada pelas suas próprias leis mas ficava claramente subordinada a Roma
em todos os assuntos extemos. Por fim, os Cartagineses deveriam fornecer alimentos
e provisões ao exército de Cipião durante três meses, e custear o seu soldo
até a ratificação do tratado. E em pagamento pelo que os Romanos consideravam
ser a sua recente traição, deveriam também indenizar a perda de bens romanos
aquando da violação da trégua e do ataque ao comboio naval. Foram selecionados
reféns entre as famílias nobres da cidade, como garantia para que não se repetisse
o mesmo tipo de incidente durante as negociações.
A mensagem do tratado foi clara e talvez reforçada se, como afirma Apiano,
os Cartagineses passariam a ser designados como Amigos e Aliados
do povo romano, a formula usada para os aliados subordinados de Roma na Itália.
E tinham-se efetivamente tornado, de forma inequívoca, aliados subordinados
de um Estado superior ao qual pagavam um tributo anual e a cuja autoridade
se submetiam em questões importantes de politica externa. O império ultramarino
e a marinha orgulhosa que o protegera foram abolidos. Não admira que alguns
líderes púnicos pretendessem rejeitar tão dura paz. Quando um dos senadores
embarcou num discurso nesta veia, Hannibal, sempre realista, arrastou-o do
pódio dos oradores. Pediu desculpa pelo seu comportamento, dizendo que trinta
e seis anos de ausência de Cartago o tinham levado a esquecer a etiqueta politica,
mas instou com veemência os líderes a não rejeitarem uma paz que, tendo em
conta a situação de Cartago, poderia ter sido muito pior. Por fim, o senado
púnico aceitou esta via e enviou delegações a Roma para confirmar os termos.
Foi somente no principio da Primavera de 201 que o Senado confirmou finalmente
a sua decisão anterior de aceitar quaisquer termos de paz propostos por Cipião.
Imediatamente após o regresso dos emissários, acompanhados por representantes
do clero romano, os feciais, para supervisionar os importantes rituais envolvidos,
as provisões do tratado começaram a ser implementadas. Um grande número de
navios de guerra púnicos, 500 segundo algumas das fontes de Lívio, saiu do
grande porto da cidade e foi depois incendiado.
Aos desertores que tinham combatido pelos Cartagineses, estava reservado um destino terrível: os romanos foram crucificados e os latinos decapitados. Cipião regressou a Roma, onde celebrou um triunfo espetacular.
As causas da Segunda Guerra Púnica
Existiram decerto momentos de tensão depois da Primeira Guerra Púnica, mas
as relações entre Roma e Cartago não eram inteiramente hostis. Renovado o
intercâmbio comercial, os mercadores púnicos eram uma visão tão familiar em
Roma como os italianos parecem ter sido em Cartago. Com efeito, terá sido
durante estes anos que foram criados laços de hospitalidade - ou ressuscitados
os anteriores a 265 -, uma característica tão comum das relações internacionais
no mundo antigo, ligando famílias aristocráticas púnicas e romanas. A paz
concluída em 241 durou vinte e três anos, se descontarmos a ameaça romana
de reabrir as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando
Hannibal Barca, comandante supremo cartaginês na Hispânia, atacou a cidade
ibérica de Sagunto, que estava sob proteção romana. Nenhuma das partes se
mostrou muito relutante em entrar em guerra, não obstante as memórias do conflito
anterior que fora renhido e dispendioso. Os motivos que as levaram a guerra
têm sido tema de intensos debates desde então, debates que procuram quase
sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequência, os historiadores
têm caído na armadilha de analisar os eventos em função de padrões modernos,
esquecendo-se de que até Estados antigos mais politicamente avançados entravam
em guerra com frequência e entusiasmo, em especial quando contavam vencer
e imaginavam os benefícios que a vitória lhes traria. Antes de abordarmos
estas questões, convirá passarmos em revista à sucessão de acontecimentos
que levaram à declaração de guerra por parte de Roma.
Provavelmente em 226, Asdrúbal aceitou as exigências de emissários romanos
no sentido de os Cartagineses não atravessem o rio Ebro. A ideia de colocar
uma fronteira física ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas
as culturas. Nesse caso, não se tratou de uma grande restrição, já que o coração
da província púnica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que
o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul não convencem, e são ainda
menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram
a não intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia
de qualquer ligação direta à Hispânia, exceto se considerarmos que a sua aliada,
Massília, tinha comunidades dependentes em Empório e Rode.
Em determinada altura, depois de 226, Roma associou-se à cidade de Sagunto
(a moderna Sagunto, perto de Valência). Polibio diz-nos que isto aconteceu
"alguns anos" antes da época de Hannibal. Mas seria plausível a
sua menção no tratado do Ebro se a ligação já existisse, dado que a cidade
se localizava muito a sul do rio. A discussão sobre se existia ou não um tratado
formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente
requereu a proteção de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos
Mercenários, não é relevante para o nosso propósito. A dada altura, o Senado
romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente
entre facções rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a
execução de vários nobres saguntinos. Parecem óbvios para a cidade hispânica
os atrativos de uma aliança com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de importância
local, assistiria com preocupação a expansão da província cartaginesa na sua
direção. O apoio romano oferecia a maior segurança possível contra o seu poderoso
vizinho. O motivo pelo qual os Romanos aceitaram a aliança é menos claro e
está estreitamente associado à causa da guerra.
Em 221, Hannibal, então com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou
a agressiva politica expansionista na Hispânia, levando a cabo operações muito
mais vastas do que os seus antecessores. Conduziu os seus exércitos contra
as tribos da Hispânia Central, avançando bastante para norte, até região da
moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma
tribo vizinha, acusada de realizar incursões no seu território. Os pormenores
são obscuros e até o nome do povo em causa é incerto, mas a tribo era aliada
de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana
apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a existência do
tratado do Ebro, avisando-o também para não atacar Sagunto. A embaixada foi
recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exigências.
O jovem general também pediu instruções a Cartago, e na Primavera conduziu
o seu exercito contra a cidade. Sagunto situava-se numa posição forte, no
cimo de uma colina, a quilómetro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores
espanhóis de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ibéricas, romanas e
mouras da cidade repeliram vários ataques lançados por um dos mais capazes
comandantes de Napoleão, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar
da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua intenção era toma-la de
assalto e não submetê-la pela fome. As suas tácticas foram muito mais agressivas
do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira
Guerra Púnica, pelo que as baixas também foram mais elevadas. Lívio diz mesmo
que o próprio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado próximo da
peleja.
Os Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio.
Lívio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia
é irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio não menciona semelhante
iniciativa, mais vale rejeitá-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras
semanas de 218, e a noticia poderá ter chegado a Roma num mês.
No fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que incluía os dois
cônsules de saída, Lúcio Emilio Paulo e Marco Lívio Salinator. Lívio diz que
a delegação era chefiada por Quinto Fábio Máximo, ficando assim completo o
trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece
mais provável que o líder fosse Marco Fábio Buteão, o experiente ex-censor
que combatera na Sicília quando era cônsul, em 245. A embaixada protestou
contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprovação do senado
cartaginês. Os Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem
Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem
punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma. O estilo de diplomacia praticado
pelas embaixadas romanas raramente parece ter sido muito sutil, mas neste
caso os Romanos eram claramente obrigados a vingarem um ataque contra um aliado.
Numa versão da história, que refere um poderoso partido oposto aos Barcas,
um certo Hanão terá condenado as ações de Hannibal mas os Cartagineses, na
sua maioria, responderam furiosamente as bruscas exigências romanas. Negaram-se
a reconhecer o tratado do Ebro, dizendo que nunca o tinham ratificado, citaram
o exemplo de Catulo, que em 241 submetera os termos de paz a apreciação de
Roma, e contestaram a sua obrigatoriedade de terem que reconhecer qualquer
relação entre Roma e Sagunto. Reza a história que Fábio se plantou no meio
da câmara e anunciou que trazia nas dobras da toga a paz e a guerra, e que
deixaria cair a que os Cartagineses escolhessem. Os ânimos dos senadores púnicos
exaltaram-se e o sufeta presidente gritou-lhe que escolhesse ele. Quando Fábio
respondeu que deixava cair a guerra, o salão encheu-se com um grande grito
de "Aceitamos". Assim foi declarada a guerra, mas talvez já fosse
inevitável. Regressado aos aquartelamentos de Inverno depois da queda de Sagunto,
Hannibal fez seguramente preparativos para a invasão da Itália, e também é
bastante possível que os Comitia Centuriata já tivessem votado a favor da
guerra caso os embaixadores não conseguissem uma resposta satisfatória de
Cartago.
Polibio discute com algum detalhe as causas subjacentes à retoma das hostilidades
e conclui que foram três os fatores principais. O primeiro foi o ressentimento
ou a raiva de Amílcar Barca no fim da Primeira Guerra Púnica, ao ser forçado
a capitular apesar de invito na Sicília. O segundo fator - e o mais importante
- foi a descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando Cartago ainda
se encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercenários. Esta humilhação,
além de aumentar o ressentimento de Amílcar, propalou o ódio a Roma a toda
a população púnica. Foi com o objetivo de construir uma base de poder para
usar contra Roma que Amílcar se deslocou para a Hispânia, lançando-se de corpo
e alma num programa de expansão. Os êxitos da sua família na Península Ibérica
constituíram a terceira causa, pois o crescimento do poderio cartaginês encorajou
os Púnicos a julgarem-se suficientemente fortes para derrotarem a sua antiga
rival.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado
por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco
antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou
no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter,
mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis,
chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe
se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira
poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente,
implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz
na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos
Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava
conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu
em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade.
Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o
garoto prometendo inimizade eterna a Roma.
Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra
contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia
planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos
aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano
de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão
ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi
um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores
tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores
e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais.
O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia
dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta
matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir
na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que
lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido
do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha
forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas
são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas
sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar
inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series
de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é
difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração
mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes
na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente
receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado
- daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque
travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras
para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande
parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército
na Hispânia. Há muito que os oficiais púnicos recrutavam soldados hispânicos,
mas a província bárcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme
reserva de recursos humanos. As comunidades da Hispânia produziam um excedente
de jovens que não podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se
bandidos ou mercenários. Em pelo menos uma ocasião, Amílcar recrutou para
o seu exército guerreiros inimigos capturados, dado que a remoção deste elemento
da sociedade tornava as conquistas mais seguras. Os exércitos da Primeira
Guerra Púnica tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes
soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra Púnica o seu número
seria ultrapassado, de longe, pelos Hispânicos. Na sua maioria, estes guerreiros
hispânicos não serviriam como mercenários, por dinheiro, mas sim na qualidade
de aliados.
A Hispânia proporcionou aos Barcas e - dependendo da perspectiva que se tenha
da independência do seu poder - a Cartago uma força militar formidável e a
riqueza para a sustentar. Embora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir
a guerra com tanta eficácia, isto não significa necessariamente que tenha
sido criado para a fazer. Poderá argumentar-se que o incremento do poderio
militar púnico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma proteção contra
atos romanos tão arbitrários como o roubo da Sardenha. A perda da guerra contra
Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe
para o orgulho de um império poderoso. A empresa hispânica poderia simplesmente
ter sido uma tentativa de reafirmação da sua independência. Contudo, para
validar esta afirmação seria necessário acreditar que o ataque de Hannibal
a Sagunto foi uma mera declaração de revivalismo do poderio púnico, que não
contava provocar uma guerra com Roma. A rapidez com que Hannibal deu início
aos colossais preparativos para a expedição à Itália torna esta hipótese extremamente
improvável. Os Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante
as atividades dos Barcas na Hispânia, como comprova o número de embaixadas
que aí enviaram.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que
terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão.
Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória
completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça
ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual
fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados
a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse
em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande
e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera
grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la
como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um
exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se
perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia
foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes
limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos
se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de
território romano. A aceitação de uma ligação com Sagunto recordou aos Cartagineses
que os Romanos não se submetiam aos mesmos constrangimentos. O pagamento anual
da indenização era uma lembrança constante da derrota de Cartago, mas estaria
provavelmente concluído em meados da década de 220, e foi talvez nesta altura
que Roma se começou a interessar cada vez mais pela Península Ibérica. Um
antigo inimigo que aparentasse estar a converter-se de novo numa potência
independente e rival seria considerado pelos Romanos uma ameaça inequívoca,
independentemente da realidade da situação militar. As intervenções das embaixadas
romanas serviram para recordar a Cartago o seu estatuto. Até 219, os Cartagineses
cederam sempre perante as exigências romanas. É muitíssimo provável que o
Senado contasse que o fizessem de novo quando a delegação disse a Hannibal
para não atacar Sagunto, e a surpresa dos senadores quando ele ignorou a proibição
ajuda a explicar porque é que os Romanos não enviaram nenhuma ajuda a cidade.
Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado
subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava
que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder
real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria,
especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação
da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com
extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam
bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior
a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de
reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para
fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma
das hostilidades afigura-se menos surpreendente.
O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para
os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos
poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente
de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar.
Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela
ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar
Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra,
e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável
entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem
general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via
motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas
tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal
que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.Existiram
decerto momentos de tensão depois da Primeira Guerra Púnica, mas as relações
entre Roma e Cartago não eram inteiramente hostis. Renovado o intercâmbio
comercial, os mercadores púnicos eram uma visão tão familiar em Roma como
os italianos parecem ter sido em Cartago. Com efeito, terá sido durante estes
anos que foram criados laços de hospitalidade - ou ressuscitados os anteriores
a 265 -, uma característica tão comum das relações internacionais no mundo
antigo, ligando famílias aristocráticas púnicas e romanas. A paz concluída
em 241 durou vinte e três anos, se descontarmos a ameaça romana de reabrir
as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal
Barca, comandante supremo cartaginês na Hispânia, atacou a cidade ibérica
de Sagunto, que estava sob proteção romana. Nenhuma das partes se mostrou
muito relutante em entrar em guerra, não obstante as memórias do conflito
anterior que fora renhido e dispendioso. Os motivos que as levaram a guerra
têm sido tema de intensos debates desde então, debates que procuram quase
sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequência, os historiadores
têm caído na armadilha de analisar os eventos em função de padrões modernos,
esquecendo-se de que até Estados antigos mais politicamente avançados entravam
em guerra com frequência e entusiasmo, em especial quando contavam vencer
e imaginavam os benefícios que a vitória lhes traria. Antes de abordarmos
estas questões, convirá passarmos em revista à sucessão de acontecimentos
que levaram à declaração de guerra por parte de Roma.
Provavelmente em 226, Asdrúbal aceitou as exigências de emissários romanos
no sentido de os Cartagineses não atravessem o rio Ebro. A ideia de colocar
uma fronteira física ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas
as culturas. Nesse caso, não se tratou de uma grande restrição, já que o coração
da província púnica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que
o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul não convencem, e são ainda
menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram
a não intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia
de qualquer ligação direta à Hispânia, exceto se considerarmos que a sua aliada,
Massília, tinha comunidades dependentes em Empório e Rode.
Em determinada altura, depois de 226, Roma associou-se à cidade de Sagunto
(a moderna Sagunto, perto de Valência). Polibio diz-nos que isto aconteceu
"alguns anos" antes da época de Hannibal. Mas seria plausível a
sua menção no tratado do Ebro se a ligação já existisse, dado que a cidade
se localizava muito a sul do rio. A discussão sobre se existia ou não um tratado
formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente
requereu a proteção de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos
Mercenários, não é relevante para o nosso propósito. A dada altura, o Senado
romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente
entre facções rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a
execução de vários nobres saguntinos. Parecem óbvios para a cidade hispânica
os atrativos de uma aliança com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de importância
local, assistiria com preocupação a expansão da província cartaginesa na sua
direção. O apoio romano oferecia a maior segurança possível contra o seu poderoso
vizinho. O motivo pelo qual os Romanos aceitaram a aliança é menos claro e
está estreitamente associado à causa da guerra.
Em 221, Hannibal, então com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou
a agressiva politica expansionista na Hispânia, levando a cabo operações muito
mais vastas do que os seus antecessores. Conduziu os seus exércitos contra
as tribos da Hispânia Central, avançando bastante para norte, até região da
moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma
tribo vizinha, acusada de realizar incursões no seu território. Os pormenores
são obscuros e até o nome do povo em causa é incerto, mas a tribo era aliada
de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana
apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a existência do
tratado do Ebro, avisando-o também para não atacar Sagunto. A embaixada foi
recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exigências.
O jovem general também pediu instruções a Cartago, e na Primavera conduziu
o seu exercito contra a cidade. Sagunto situava-se numa posição forte, no
cimo de uma colina, a quilómetro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores
espanhóis de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ibéricas, romanas e
mouras da cidade repeliram vários ataques lançados por um dos mais capazes
comandantes de Napoleão, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar
da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua intenção era toma-la de
assalto e não submetê-la pela fome. As suas tácticas foram muito mais agressivas
do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira
Guerra Púnica, pelo que as baixas também foram mais elevadas. Lívio diz mesmo
que o próprio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado próximo da
peleja.
Os Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio.
Lívio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia
é irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio não menciona semelhante
iniciativa, mais vale rejeitá-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras
semanas de 218, e a noticia poderá ter chegado a Roma num mês.
No fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que incluía os dois
cônsules de saída, Lúcio Emilio Paulo e Marco Lívio Salinator. Lívio diz que
a delegação era chefiada por Quinto Fábio Máximo, ficando assim completo o
trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece
mais provável que o líder fosse Marco Fábio Buteão, o experiente ex-censor
que combatera na Sicília quando era cônsul, em 245. A embaixada protestou
contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprovação do senado
cartaginês. Os Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem
Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem
punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma.
O estilo de diplomacia praticado pelas embaixadas romanas raramente parece
ter sido muito sutil, mas neste caso os Romanos eram claramente obrigados
a vingarem um ataque contra um aliado. Numa versão da história, que refere
um poderoso partido oposto aos Barcas, um certo Hanão terá condenado as ações
de Hannibal mas os Cartagineses, na sua maioria, responderam furiosamente
as bruscas exigências romanas. Negaram-se a reconhecer o tratado do Ebro,
dizendo que nunca o tinham ratificado, citaram o exemplo de Catulo, que em
241 submetera os termos de paz a apreciação de Roma, e contestaram a sua obrigatoriedade
de terem que reconhecer qualquer relação entre Roma e Sagunto. Reza a história
que Fábio se plantou no meio da câmara e anunciou que trazia nas dobras da
toga a paz e a guerra, e que deixaria cair a que os Cartagineses escolhessem.
Os ânimos dos senadores púnicos exaltaram-se e o sufeta presidente gritou-lhe
que escolhesse ele. Quando Fábio respondeu que deixava cair a guerra, o salão
encheu-se com um grande grito de "Aceitamos". Assim foi declarada
a guerra, mas talvez já fosse inevitável. Regressado aos aquartelamentos de
Inverno depois da queda de Sagunto, Hannibal fez seguramente preparativos
para a invasão da Itália, e também é bastante possível que os Comitia Centuriata
já tivessem votado a favor da guerra caso os embaixadores não conseguissem
uma resposta satisfatória de Cartago.
Polibio discute com algum detalhe as causas subjacentes à retoma das hostilidades
e conclui que foram três os fatores principais. O primeiro foi o ressentimento
ou a raiva de Amílcar Barca no fim da Primeira Guerra Púnica, ao ser forçado
a capitular apesar de invito na Sicília. O segundo fator - e o mais importante
- foi a descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando Cartago ainda
se encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercenários. Esta humilhação,
além de aumentar o ressentimento de Amílcar, propalou o ódio a Roma a toda
a população púnica. Foi com o objetivo de construir uma base de poder para
usar contra Roma que Amílcar se deslocou para a Hispânia, lançando-se de corpo
e alma num programa de expansão. Os êxitos da sua família na Península Ibérica
constituíram a terceira causa, pois o crescimento do poderio cartaginês encorajou
os Púnicos a julgarem-se suficientemente fortes para derrotarem a sua antiga
rival.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado
por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco
antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou
no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter,
mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis,
chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe
se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira
poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente,
implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz
na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos
Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava
conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu
em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade.
Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o
garoto prometendo inimizade eterna a Roma.
Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra
contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia
planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos
aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano
de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão
ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi
um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores
tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores
e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais.
O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia
dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta
matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir
na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que
lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido
do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha
forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas
são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas
sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar
inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series
de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é
difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração
mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes
na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente
receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado
- daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque
travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras
para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande
parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército
na Hispânia.
Há muito que os oficiais púnicos recrutavam soldados hispânicos, mas a província
bárcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme reserva de recursos
humanos. As comunidades da Hispânia produziam um excedente de jovens que não
podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se bandidos ou
mercenários. Em pelo menos uma ocasião, Amílcar recrutou para o seu exército
guerreiros inimigos capturados, dado que a remoção deste elemento da sociedade
tornava as conquistas mais seguras. Os exércitos da Primeira Guerra Púnica
tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes soldados
ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra Púnica o seu número seria ultrapassado,
de longe, pelos Hispânicos. Na sua maioria, estes guerreiros hispânicos não
serviriam como mercenários, por dinheiro, mas sim na qualidade de aliados.
A Hispânia proporcionou aos Barcas e - dependendo da perspectiva que se tenha
da independência do seu poder - a Cartago uma força militar formidável e a
riqueza para a sustentar. Embora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir
a guerra com tanta eficácia, isto não significa necessariamente que tenha
sido criado para a fazer. Poderá argumentar-se que o incremento do poderio
militar púnico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma proteção contra
atos romanos tão arbitrários como o roubo da Sardenha. A perda da guerra contra
Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe
para o orgulho de um império poderoso. A empresa hispânica poderia simplesmente
ter sido uma tentativa de reafirmação da sua independência. Contudo, para
validar esta afirmação seria necessário acreditar que o ataque de Hannibal
a Sagunto foi uma mera declaração de revivalismo do poderio púnico, que não
contava provocar uma guerra com Roma. A rapidez com que Hannibal deu início
aos colossais preparativos para a expedição à Itália torna esta hipótese extremamente
improvável. Os Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante
as atividades dos Barcas na Hispânia, como comprova o número de embaixadas
que aí enviaram.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que
terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão.
Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória
completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça
ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual
fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados
a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse
em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande
e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera
grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la
como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um
exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se
perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia
foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes
limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos
se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de
território romano.
A aceitação de uma ligação com Sagunto recordou aos Cartagineses que os Romanos
não se submetiam aos mesmos constrangimentos. O pagamento anual da indenização
era uma lembrança constante da derrota de Cartago, mas estaria provavelmente
concluído em meados da década de 220, e foi talvez nesta altura que Roma se
começou a interessar cada vez mais pela Península Ibérica. Um antigo inimigo
que aparentasse estar a converter-se de novo numa potência independente e
rival seria considerado pelos Romanos uma ameaça inequívoca, independentemente
da realidade da situação militar. As intervenções das embaixadas romanas serviram
para recordar a Cartago o seu estatuto. Até 219, os Cartagineses cederam sempre
perante as exigências romanas. É muitíssimo provável que o Senado contasse
que o fizessem de novo quando a delegação disse a Hannibal para não atacar
Sagunto, e a surpresa dos senadores quando ele ignorou a proibição ajuda a
explicar porque é que os Romanos não enviaram nenhuma ajuda a cidade.
Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado
subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava
que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder
real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria,
especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação
da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com
extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam
bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior
a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de
reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para
fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma
das hostilidades afigura-se menos surpreendente.
O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para
os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos
poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente
de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar.
Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela
ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar
Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra,
e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável
entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem
general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via
motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas
tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal
que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.
Antecedentes da Segunda Guerra Púnica
Os Romanos reagiram com muita lentidão ao ataque a Sagunto, provavelmente
em parte, como vimos, por esperarem que os Cartagineses se submetessem à pressão
diplomática. Além disso, a prática bélica romana ainda estava muito ligada
ao ano consular. Quando o Senado soube que Sagunto estava sitiada, os cônsules
desse ano já se encontravam no estrangeiro, no comando da esquadra e do exército
em campanha na Ilíria. Esta guerra ainda estava em curso, e mesmo que um cônsul
fosse chamado levaria algum tempo a recrutar um novo exército. Por conseguinte,
a época de campanha já estaria bastante adiantada quando um exército romano
chegasse a Hispânia, e serlhe-ia difícil conseguir alguma coisa antes que
o Inverno pusesse fim às operações. Era mais sensato e, pelos padrões romanos,
próprio para o Senado aguardar e atribuir a importante guerra contra Cartago
como responsabilidade especial aos cônsules de 218, que assumiriam o cargo
em Março. Obviamente, isto de pouco serviu aos Saguntinos, que lutaram sozinhos
até ao fim contra um inimigo avassalador mas é duvidoso que lhes pudesse ter
sido enviado qualquer auxilio eficaz.
O plano do Senado para a conduta da guerra era simples e direto, de um modo
caracteristicamente romano. Os cônsules operariam separadamente, um indo para
a Hispânia para fazer frente a Hannibal, enquanto o outro iria para a Sicília,
de onde lançaria uma invasão ao Norte da África. Assim, o general inimigo
que provocara a guerra seria derrotado em combate e as autoridades cartaginesas
que o tinham apoiado ver-se-iam a braços com um ataque direto à sua cidade.
Ao confrontarem o inimigo nos seus pontos mais fortes, os Romanos colocavam
uma forte pressão sobre os pilares da sua oposição. Cartago quase se vergara
sob esta pressão em 256-255, e não havia razões para pensar que não voltaria
a faze-lo. De fato, dada a tendência de Cartago de ceder às ameaças romanas
nas décadas entre as guerras, os Romanos terão contado que seria menos resistente
em caso de guerra.
Quanto aos cônsules de 218, Público Cornélio Cipião recebeu a Hispânia como
província e Tibério Semprônio Longo a Sicília e a África. Foram criadas seis
legiões para esse ano, consistindo cada uma de 4000 infantes e 300 cavaleiros.
Foi atribuído a cada cônsul um exército consular padrão de duas legiões apoiadas
por duas alas latinas. No total, Cipião recebeu 14.000 infantes e 1.600 cavaleiros
aliados, e Longo 16.000 infantes e 18000 cavaleiros. As restantes legiões,
juntamente com 10.000 infantes e 1.000 cavaleiros aliados, foram enviadas
para a Gália Cisalpina, sob o comando do Pretor Lúcio Mânlio Vulsao. A prontidão
para alterar o tamanho dos contingentes aliados de modo a lidar com a escala
do problema demonstra mais uma vez que o sistema militar romano não era tão
rígido como às vezes se julga. A avaliação que o Senado fez da tarefa em mãos
refletiu-se também na distribuição dos recursos navais. Longo, cuja projetada
invasão da África contaria possivelmente com a oposição de uma poderosa esquadra
púnica, recebeu 160 quinquerremes e vinte navios mais ligeiros. Cipião teria
muito menos probabilidades de encontrar uma forte armada inimiga ao deslocar
o seu exercito para a Hispânia, pelo que lá foram atribuídos sessenta "cincos".
A recente guerra na Ilíria terá garantido a boa condição da marinha romana.
Antes que pudesse ser empreendida qualquer movimentação contra Cartago, eclodiu
uma rebelião na Gália Cisalpina, novamente provocada pelo ressentimento das
tribos perante as incursões dos colonos romanos. Os Boios e os Insubres expulsaram-nos
das colônias de Cremona e Placência, que ainda não estavam fortificadas, e
perseguiram-nos até a cidade de Mutina. Depois, os Gauleses plantaram-se junto
s muralhas da urbe e deram início a um bloqueio. Três comissários senatoriais,
enviados para organizarem a distribuição de terras nas novas colônias, foram
presos ao tentarem negociar. Partiu imediatamente uma coluna de socorro, sob
o comando do pretor Mânlio Vulsão. Marchando rapidamente e negligenciando
o reconhecimento do terreno, foi emboscada ao avançar por um trilho numa região
densamente arborizada e sofreu pesadas baixas - Lívio afirma que se perderam
500 homens numa primeira emboscada e 700 e seis estandartes na segunda. O
exército, muito maltratado, conseguiu chegar a uma cidadezinha chamada Taneto,
onde ficou também bloqueado.
A situação era grave e a agitação na Gália Cisalpina demasiado próxima de
Roma para que o Senado a ignorasse até a conclusão da guerra contra Cartago.
O exército de Cipião estava a reunir-se no Norte de Itália antes de partir
para a Hispânia, pelo que o Senado ordenou a outro pretor, Gaio Atulio Serrano,
que assumisse o comando de uma legião e 5000 soldados aliados e socorresse
Mânlio, uma missão que ele cumpriu com rapidez e sem oposição. Cipião recebeu
ordens para recrutar uma nova legião e tropas aliadas adicionais para substituir
estas unidades, mas não é claro se o total avançado por Lívio de seis legiões
constituídas para esse ano inclui este contingente. A demora consequente significou
o adiamento do avanço para a Hispdnia. Entretanto, Longo rumou a Lilibeu,
onde empreendeu grandes preparativos pana a expedição africana. No entanto,
a guerra não seria travada como o Senado contava.
Durante a Primeira Guerra Púnica, os Cartagineses tinham invariavelmente respondido
as movimentações romanas em vez de tentarem eles próprios ditar o rumo da
contenda. Tinham sido sempre os seus oponentes a escalar o conflito e a procurar
um resultado decisivo. Pois a Segunda Guerra Púnica foi muito diferente desde
o início, e a principal razão para que assim tenha sido prende-se com a influência
de um homem, Hannibal Barca. Nas fontes, Hannibal é apresentado como o autor
de todas as decisões cruciais para organizar o esforço bélico púnico inicial,
em 219-218, não só na Hispânia, mas também na África. Por norma, os Cartagineses
interferiam muito pouco com os generais que nomeavam para as suas missões,
chegando frequentemente ao ponto de não os apoiarem nas operações subsequentes,
mas os recursos ao dispor imediato do jovem general eram enormes. É nesta
altura, mais do que em qualquer outra, que Hannibal aparenta ser o senhor
do principado semi-independente da Hispânia retratado por alguns estudiosos.
A guerra eclodira a propósito de uma disputa local na Hispânia, com os Cartagineses
deixando de reconhecer as restrições que os Romanos lhes tinham imposto na
região. Os Romanos esperavam claramente que os Cartagineses permanecessem
no local e travassem uma guerra defensiva para protegerem o seu território,
semelhança da que tinham travado na Sicília. Com as forças ao seu dispor,
Aníbal encontrava-se numa posição sólida para enfrentar qualquer invasão.
De fato, beneficiaria de uma grande superioridade numérica sobre o único exército
consular que Cipião ia conduzir para a Península, e derrotá-lo-ia facilmente
se conseguisse forçá-lo ao combate. Contudo, a experiência da Primeira Guerra
Púnica mostrara que a destruição de uma esquadra ou de um exército romanos
significaria simplesmente que seriam substituídos por outros. A tenaz persistência
que os Romanos haviam demonstrado face a perdas colossais tornava improvável
que desistissem rapidamente.
Quanto mais se prolongasse a guerra na Hispânia, menos sólidas pareceriam
as conquistas dos Barcas. Muitas tribos tinham ficado atemorizadas face ao
poderio militar púnico mas a sua lealdade poderia não perdurar na presença
de um exército hostil cujos comandantes não poupariam seguramente esforços
para seduzirem os chefes hispânicos. A prática bélica cartaginesa, mais tradicional,
resistir ao inimigo até o seu poder começar a enfraquecer, na melhor das hipóteses,
a perspectiva de um impasse prolongado ou, no pior dos cenários, a derrota
quando o inimigo era Roma. Hannibal rejeitou a partida à opção defensiva e
decidiu que deveriam ser empreendidos todos os esforços para derrotar Roma.
Dado que as pesadas perdas sofridas por Roma no estrangeiro pouco tinham enfraquecido
o seu poder, Roma teria que ser confrontada e vencida no seu próprio território,
na Itália.
Em muitos aspectos, a invasão da Itália foi uma operação marcadamente "romana",
aplicando diretamente uma força poderosa contra um ponto forte do inimigo.
Neste sentido, talvez fosse de esperar que os Romanos tivessem ficado menos
surpreendidos quando Hannibal escolheu esta opção, mas a forma de guerrear
púnica, conhecida do passado, não indiciava uma iniciativa arrojada, especialmente
tendo em conta as inerentes dificuldades de ordem prática. Em 218, uma invasão
anfíbia não era exequível.
Sem bases na Sicília, até o Sul de Itália ficava no limite máximo do alcance
operacional de uma esquadra de gales operando a partir do Norte da África,
e o poderio naval púnico na Hispânia não era substancial. Em qualquer dos
casos, o desembarque numa costa hostil, provavelmente face à oposição de uma
poderosa marinha romana, era uma empresa extremamente arriscada e não é de
crer que pudesse ser desembarcado um exército suficientemente grande para
operar com um mínimo de eficácia. Restava a opção de uma invasão terrestre
a partir da Hispânia, mas as dificuldades eram formidáveis. A expedição implicaria
uma marcha de centenas de quilômetros pelo território de tribos neutrais -
no melhor dos cenários - ou potencialmente hostis, e a travessia do importante
obstáculo formado pelos Alpes. Na Itália, o exército púnico não disporia de
nenhuma base nem de mantimentos, e teria pela frente um número crescente de
inimigos. Foi uma empresa arriscada, e o fato de conhecermos a história não
nos deve levar a ignorar o choque que os Romanos terão tido quando souberam
que fora precisamente essa a opção de Hannibal.
Depois da queda de Sagunto, Hannibal retirou para invernar em Nova Cartago,
onde recompensou prodigamente os seus soldados com parte dos despojos. As
tropas hispânicas foram autorizadas a regressar aos seus lares, com ordens
para se apresentarem no princípio da Primavera. Prevendo corretamente as movimentações
romanas, Hannibal tomou medidas para melhorar as defesas da África e da Hispânia.
Os números relativos às forças envolvidas são invulgarmente precisos pelos
padrões antigos, e Polibio diz-nos que provieram de uma inscrição erguida
por ordem do próprio Hannibal durante a sua estada na Itália. A África foi
reforçada com 13.850 infantes e 1200 cavaleiros ibéricos, apoiados por 870
dos selvagens fundibulários das Baleares. Um pequeno destacamento destas tropas
foi estacionado na cidade de Cartago, juntamente com 4000 infantes Ilírios,
que entregaram reféns como penhor do bom comportamento das suas comunidades.
O grosso das forças foi instalado na região Líbia conhecida por Metagônia.
Asdrúbal, irmão de Hannibal, recebeu o comando da província hispânica, dando
continuidade à tradição de governo pelos Barcas. Asdrúbal parece ter sido
um homem capaz e gozava indubitavelmente da confiança do irmão, mas outro
motivo para a tomada desta decisão poderá ter sido a natureza pessoal da lealdade
entre as tribos hispânicas. Além dos aliados que podiam ser recrutados na
província, Asdrúbal recebeu um poderoso contingente de soldados africanos.
No total, dispunha de vinte e um elefantes, 2500 cavaleiros (450 líbio-fenícios
e líbios, 300 ilergetes e 1800 númidas oriundos de quatro tribos) e 12.650
infantes, na sua maioria líbios mas incluindo 300 ligures e 500 fundibulários
das Baleares. O apoio naval era garantido por uma pequena esquadra de 50 "cincos",
2 "quatros" e 5 "três", mas apenas uma parte - trinta
e duas quinquerremes e todas as trirremes - se encontrava devidamente guarnecida
e em estado de prontidão. O intercâmbio de soldados recrutados na Hispânia
e na África era considerado um bom método para garantir a sua lealdade, dificultando-lhes
a possibilidade de desertarem e regressarem a casa.
O grosso dos preparativos prendeu-se com a expedição à Itália, congregando,
segundo Polibio, o gigantesco total de 12.000 cavaleiros e 90.000 infantes.
Infelizmente, Polibio não entra em pormenores quanto à sua composição, embora
seja provável que estivessem presentes a maioria das nacionalidades e tipos
de tropas constantes dos outros contingentes. O grosso provinha evidentemente
da Península Hispânica, e os acontecimentos posteriores mostram claramente
a presença de representantes dos principais povos da região - Iberos, Lusitanos
e Celtiberos. Estes povos tribais forneceram tropas de qualidade, cavalaria
para combater em ordem cerrada e infantaria para combater em ordem cerrada
e aberta. Incluíam-se ainda um forte contingente de infantaria regular africana,
bem treinada e disciplinada, cavaleiros ligeiros e talvez alguns infantes
númidas, e uma unidade de elefantes de guerra - Apiano fala em trinta e sete.
Este exército era muito maior do que qualquer outra força registada para os
Cartagineses durante o século, e é provável que muitos soldados, em particular
os hispânicos, tivessem sido recrutados recentemente. O núcleo do exercito
era constituído pelas tropas que, sob o comando de Hannibal, de seu pai e
seu cunhado, tinham vencido as muitas guerras de conquista na Hispânia. Eram
lideradas por um conjunto de oficiais superiores que conheciam e em quem confiavam.
Estes homens tinham fundido os guerreiros de muitas raças díspares numa força
de combate extremamente eficaz e que, para o número dos seus efetivos, era
provavelmente melhor do que quaisquer outras forças então existentes no mundo
mediterrânico.
Pelos padrões da época, esta gigantesca tropa requeria um gigantesco apoio
logístico para se alimentar, vestir e equipar. Este problema terá ocupado
Hannibal e os seus oficiais durante todo o Inverno e provavelmente durante
muitos meses ou anos antes. Houve quem sugerisse que as campanhas hispânicas
de Hannibal, a partir de 221, tiveram como um dos seus objetivos principais
a conquista de algumas das regiões mais férteis da Península de modo a garantir
o abastecimento de cereais para a projetada expedição à Itália. E havia muitos
outros preparativos que não podiam ser completados rapidamente. Foram enviados
homens para obterem o máximo possível de informações sobre a rota que se pensava
seguir para Itália e, em particular, sobre os grandes obstáculos como os Alpes.
Foram enviados representantes as tribos localizadas ao longo do caminho, em
especial as da Gália Cisalpina, procurando o seu apoio contra Roma quando
o exército chegasse à Itália.
A memória recente das pesadas derrotas infligidas pelos Romanos desde 225 garantiu uma calorosa recepção a estas aproximações. Com aliados transalpinos, Hannibal poderia contar com provisões e acrescentar muitos guerreiros ao seu exército. Polibio diz-nos que os emissários regressaram no fim do Inverno e garantiram a Hannibal um bom acolhimento. Isto significa que terão partido logo após a queda de Sagunto, o mais tardar, e é bem possível que tenham partido antes. Todos estes preparativos indiciam que a expedição à Itália, e consequentemente a guerra contra Roma, vinham sendo ponderadas há muito e talvez ativamente preparadas pelo jovem general púnico. Alguns autores vêem na expectativa de auxilio gaulês como parte do plano à prova de que o conceito não pode ter sido elaborado antes de 225, pelo que, no máximo, terá sido uma criação de Asdrúbal e não de Amílcar. Todavia, talvez isto signifique apenas que um plano anterior se tornou mais exequível a partir dessa data. Mais uma vez, na ausência da perspectiva cartaginesa, resta-nos especular.
Aníbal empreendeu outro preparativo no Inverno, talvez tão importante
como todos os outros pelos padrões antigos - não pelos modernos:
deslocou-se a Gades para sacrificar no Templo de Melcarte-Hércules, uma divindade
associada aos Barcas e que surge em algumas moedas por eles cunhadas. Cumpriu
votos antigos e fez novos votos em nome do êxito da expedição.
Qual foi o objetivo de Hannibal ao invadir a Itália? Há muito que este tópico
vem sido sujeito a intenso debate, frequentemente centrado na sua decisão
de não marchar sobre Roma quando teve a oportunidade para o fazer, em 217
ou 216. A opinião hoje mais comum é a de que o plano de Hannibal nunca foi
conquistar a cidade, mas sim enfraquecer o seu poder persuadindo o maior número
possível dos seus aliados italianos e latinos a desertar. Por consequência,
quando Hannibal negociou uma aliança contra Roma com Filipe V da Macedônia,
os termos previam claramente que Roma continuaria a existir, num estado enfraquecido,
depois da sua vitória conjunta. De modo similar, Lívio diz que depois de Cannae,
em 216, Hannibal se dirigiu aos prisioneiros romanos e lhes garantiu que não
combatia para os aniquilar, mas sim "pela honra e pelo poder".
A resposta é muito mais simples do que a controvérsia sobre esta matéria sugeriria. Hannibal atacou a Itália para ganhar a guerra. No período em causa, raramente era possível um beligerante aniquilar por completo o inimigo, a menos que os Estados envolvidos fossem muito pequenos e um deles detivesse uma vantagem esmagadora. Mais tarde, em 146, Roma possuiu este tipo de vantagem sobre Cartago e conseguiu, depois de uma luta renhida destrui-la como entidade politica. Por norma, as guerras, em particular entre Estados tão grandes como Cartago ou Roma, terminavam quando um dos lados perdia a vontade de prosseguir o combate, e não a capacidade para o fazer. Chegado a esse ponto, tal como Cartago esteve a ponto de fazer em 255 e fez efetivamente em 241, reconhecia a derrota e aceitava termos de paz que a refletissem. O objetivo de qualquer guerra era encurralar o inimigo numa posição em que seria obrigado a ceder. O método poderia ser vencê-lo em uma ou em várias batalhas campais, conquistar-lhe cidades, devastar-lhe os campos e incendiar-lhe aldeias ou, mais frequentemente, uma combinação de todas estas coisas.
Todos os Estados mais poderosos tinham absorvido muitas comunidades pequenas como aliados subordinados com vários graus de aceitação. Uma demonstração de fraqueza por parte dos seus amos às mãos de um invasor daria seguramente lugar a defecções, com cada comunidade procurando alinhar-se com o potencial vencedor do conflito. A maioria das cidades-estado e tribos estavam fraturadas por disputas internas cujas facções não costumavam ter pejo em alinharem com uma potência estrangeira que estivesse disposta a colocá-los no controle do seu próprio povo. Foi assim que as cidades sicilianas se juntaram rapidamente a Roma depois dos seus êxitos iniciais, em 264, e que os Líbios, em 240, alinharam de imediato com os mercenários rebeldes. Durante a Segunda Guerra Púnica, as tribos hispânicas mostraram-se sempre prontas a renegarem uma aliança e a juntarem-se ao lado que aparentasse estar na mó de cima. Um Estado que visse os seus aliados e súditos a romperem consigo ver-se-ia ainda mais pressionado para entrar num compromisso e aceitar a derrota. Por consequência, não é irrazoavel acreditar que, se Hannibal conseguisse chegar à Itália e começasse a obter vitórias, os aliados começariam a vacilar. Hannibal não estava a adotar uma estratégia novel, e não é necessário declarar que ele compreendeu que a verdadeira força de Roma assentava na sua rede de aliados. Hannibal estava simplesmente a travar uma guerra como soíam travar-se. Aquilo que os seus planos tiveram de invulgar, pelo menos em comparação com as recentes práticas bélicas cartaginesas, foi a predisposição para agir de modo tão agressivo e levar a guerra a uma conclusão.
Roma após a Segunda Guerra Púnica
A conquista romana do Mediterrâneo trouxe como consequência inevitável profundas
mudanças na vida política, social e econômica de Roma e da Itália. No âmbito
politico, a conduta do Senado com respeito ao esforço realizado na guerra
com Hannibal e seus subsequentes triunfos no Leste grego comportou uma aceitação
geral entre as pessoas do governo senatorial; a legislação popular e os ataques
a ordem estabelecida foram muito pouco frequentes no século seguinte ao tribunado
de C. Flaminio em 232 a.e.c.. Foi um período de aparente calma e estabilidade
politica, mas Cícero o recordaria como a idade de ouro do mandato senatorial.
O Senado mesmo foi dominado pelos nobres, que se encontravam divididos em
dois campos totalmente opostos. Esses grupos adotaram uma forma de alianças
ad hoc entre amigos e parentes que se uniam para promover programas políticos
próprios e mobilizavam seus clientes e seguidores para votar e favorecer seus
candidatos nas eleições. Na verdade, essas facções não eram partidos políticos
permanentes, e, apesar de algumas amizades terem durado mais tempo que outras,
isso não é suficiente para supor que os políticos romanos fossem dominados
por alianças preestabelecidas e hereditárias de famílias nobres ou gentes.
As rivalidades entre indivíduos e grupos eram habituais, o que garantia uma
espécie de equilíbrio; mas as tensões dentro da oligarquia senatorial ressurgiram
em consequência do aumento da retribuição pelos cargos e da forte concorrência
pelas magistraturas principais.
No curso da guerra contra Hannibal, as necessidades militares obrigaram, na
prática, a prolongar os mandatos dos generais vitoriosos para além do limite
regulamentar de um ano. Ainda que isso pudesse ser justificado do ponto de
vista prático, teve como resultado perigosas consequências politicas, já que
gerou ambições pessoais como as de Cipião, que minaram de fora o sistema das
magistraturas anuais. Esses homens também se destacaram de seus iguais por
levar um estilo de vida afetado e luxuoso e por vangloriar-se de seu conhecimento
da cultura grega. Outros nobres se apressaram a segui-los, e o resultado foi
a intensificação da luta pelos cargos, o auto-enriquecimento, a corrupção
e um indiscriminado culto ao helenismo. A oposição a essas tendências foi
assumida por Catão, o Censor (234-149 a.e.c.), que adotou deliberadamente
um tom austero de vida, imitando com isso um dos grandes homens do passado,
M. Cúrio Dentato. Catão ridicularizou o frívolo exibicionismo dos helenistas,
advogou pelas virtudes simples e mostrou profundo respeito pelas tradições
nacionais italianas. Seus esforços por manter a coesão tradicional da oligarquia
lhe permitiram levar a cabo um ataque politico contra Cipião, que se viu obrigado
a tirar-se por algum tempo da vida pública em 184 a.e.c. Catão apoiou o cumprimento
de leis suntuárias e se opôs com frequência aos subornos, à corrupção e aos
abusos de poder.
A oposição de Catão ao helenismo não se baseou em simples preconceitos. Ele
mesmo falava grego e conhecia a cultura grega muito melhor que muitos daqueles
que atacava; favoreceu de fato que se tomassem emprestadas idéias gregas,
sempre que pudessem ser adaptadas às necessidades romanas. Foi Catão quem
ordenou, durante o período de censura que ele mesmo iniciou, a construção
da primeira basílica romana, no estilo das construções gregas. É um dos numerosos
exemplos de construções públicas de tipo grego que se ergueram nessa época.
Mas o exemplo mais notável da adaptação das idéias gregas às necessidades
romanas é o desenvolvimento da literatura latina, para o que Catão contribuiu
decisivamente. O primeiro escritor da literatura latina foi Lívio Andrônico,
um grego levado preso para Roma depois da tomada de Tarento em 272 a.e.c.
A Lívio Andrônico se deve a tradução para o latim da Odisseia; ele compôs
também tragédias baseadas em originais gregos. Seu exemplo foi seguido por
Cneu Névio (para 275-200 a.e.c.) e Quinto Ênio (239-169), que escreveram poemas
épicos e obras teatrais.
Vale destacar que não eram latinófonos: Cneu Névio, procedente
da Campânia, era de fala osca, e Quinto Ênio era um messápio de Rúdias. Idêntica
situação foi a do Úmbrio Tito Mácio Plauto, do celta Célio Estácio e de Públio
Terêncio Áfer, que produziram durante a primeira metade do século II a.e.c.
comédias latinas ao estilo grego (as de Tito Plauto e as de Públio Terêncio
Áfer tem o mesmo estilo). Outras figuras proeminentes da literatura latina
inicial foram os autores trágicos M. Pacúvio (220 - por volta de 130 a.e.c.)
e C. Acio (170 - por volta de 90 a.e.c.) e o satírico C. Lucilo (por volta
de 180-20 a.e.c.). O grande êxito de Catão foi a criação da literatura latina
em prosa. Entre suas obras, há discursos, 142 dos quais foram conhecidos por
Cícero, que os admirou muito; uma obra sobre agricultura, que se conservou;
e uma obra histórica sobre Roma e a Itália intitulada Origines. As historias
mais antigas de Roma (por exemplo, a de Fábio Pictor) foram escritas em grego.
Uma das características das Origines foi que incluía tanto a historia dos
povos italianos como a dos romanos.
Assim, os esforços de Catão se voltaram para a exploração construtiva da cultura
grega tomada de empréstimo e a recusa da influência corruptora da riqueza,
do luxo e da busca do poder, que ele associava ao helenismo como produto indireto
da conquista militar. Mas, como podemos ver, Catão não se dava conta das profundas
e sérias consequências do imperialismo romano. Durante sua vida, a economia
rural da Itália foi transformada por um processo que levou a uma crise agrária
grave. Os sintomas mais óbvios dessa mudança foram o empobrecimento e deslocamento
do campesinato italiano, como resultado de mais de meio século de guerras
continuas.
A guerra afetou a política econômica da Itália em dois aspectos:
primeiro, com os efeitos diretos da invasão de Hannibal, que teve por resultado
uma extensa devastação do campo, sobretudo no Sul da Itália, e a aniquilação
de comunidades inteiras. Por exemplo, quando Tarento caiu nas mãos dos romanos
em 209 a.e.c., a maior parte de sua população foi escravizada, e aquela cidade,
antes próspera, se transformou num lugar desolado. A devastação afetou necessariamente
a capacidade produtiva do terreno agrícola, e a destruição das colheitas,
das edificações do gado foi suficiente para arruinar muitas famílias de camponeses
e para despovoar grandes áreas do território. Os efeitos indiretos das continuas
guerras foram até mais sérios para os camponeses que tiveram de suportar a
carga de um prolongado serviço militar. O exército romano tradicional foi
uma milícia camponesa que se mostrou eficiente enquanto as guerras eram locais
e os conflitos eram com as comunidades vizinhas; mas foi insuficiente para
as necessidades militares romanas durante e depois da guerra contra Hannibal,
quando se recrutaram grandes contingentes de soldados para servir por muitos
anos em áreas distantes do Mediterrâneo.
Estimou-se que, em media, os exércitos combinados de romanos e italianos,
durante os 35 anos que se seguiram à derrota de Hannibal, superavam os 130.000
homens; isso representa uma proporção muito elevada do total de homens adultos
da Itália. A média de cidadãos romanos homens adultos em serviço por certo
tempo durante os dois últimos séculos da República é calculada em cerca de
13 por cento. Isso significa que mais da metade dos homens adultos serviu
regularmente nas legiões por no mínimo sete anos. Tal nível de dedicação à
guerra foi desastroso para o pequeno campesinato. Muitas famílias de camponeses
ficaram assim privadas da força de trabalho essencial durante longos períodos
e até permanentemente, Se seus homens morressem no campo de batalha. As fazendas
foram abandonadas, contraíram-se dividas, e a isso se seguiu o despojamento
através da venda ou do despejo. O processo se acelerou pelo fato de os ricos
buscarem investir os ganhos das guerras vitoriosas em terras italianas. Isso
permitiu o crescimento de grandes fazendas (latifundia) mediante a acumulação
por parte de poucos da terra que antes o pequeno campesinato havia trabalhado.
Famílias inteiras de camponeses foram afastadas de suas terras por esses endinheirados
investidores e substituídas por escravos. Estes eram fornecidos em abundância
graças às vitórias militares e às escravizações maciças de populações vencidas;
organizados em verdadeiras equipes de trabalhadores para proporcionar o trabalho
necessário às empresas agrícolas em grande escala, eram relativamente baratos,
e havia a vantagem adicional de os escravos serem isentos do serviço militar.
Assim, o desenvolvimento dos latifundia se viu favorecido pelo influxo da
riqueza e dos escravos, produto das vitórias conseguidas pelos esforços e
sacrifícios dos camponeses italianos que serviram no exército.
Como diz Keith Hopkins:
"Os soldados camponeses romanos lutaram para ser desalojados".
O desenvolvimento dos latifúndios no século II a.e.c. foi acompanhado de novos métodos de cultivo, pensados para proporcionar aos latifundiários ausentes s rendas da venda dos produtos excedentes. O novo regime foi bem exemplificado na obra de Catão De Agricultura, manual dirigido aos proprietários de fazendas de tipo médio (ele especifica propriedades de 25 a 60 hectares) trabalhadas por escravos e supervisionadas pelos vilici, escravos administradores residentes.
Catão trata especialmente dos cultivos de vinhas e oliveiras, que dão bons lucros, mas requerem um alto investimento de capital inicial e posses relativamente extensas para conseguir economias em grande escala. Igualmente proveitosa era a prática da criação de gado e do pastoreio de ovelhas, mas também requeria capital e grandes áreas. Havia pastos extensivos disponíveis no Sul da Itália, onde a totalidade das regiões tinha ficado despovoada na Segunda Guerra Púnica.
Muitas daquelas terras se transformaram tecnicamente em agerpublicus, ao terem sido confiscadas por Roma aos Estados aliados que se tinham unido a Hannibal.
Mas o governo romano não foi muito exigente diante da expropriação de tais
terras e não fez cumprir as restrições legais à extensão das propriedades.
Parece provável que acontecesse o mesmo com o agerpublicus em outras partes
da Itália.
Muitos dos camponeses deslocados emigraram para as vilas ou cidades da Itália
e especialmente para Roma, onde começaram a ser criadas possibilidades de
emprego devido aos grandes gastos dos ricos em luxos, serviços, subornos políticos
e diversões. Assim, os gastos públicos contribuíram para o desenvolvimento
de uma economia de mercado urbanizada. As receitas estatais em forma de butim,
indenizações e taxas foram imensas; depois da colonização da Macedônia em
167 a.e.c., aboliu-se o tributum e não se exigiram taxas diretas sobre as
propriedades dos cidadãos romanos. Uma elevada proporção das receitas públicas
foi reinvestida em conquistas ulteriores, ou seja, foi gasta em pagamentos
e fornecimentos ao exército. O restante serviu para levar a cabo extensos
projetos de obras públicas empreendidos por todas as partes em Roma e nas
cidades da Itália durante o século II a.e.c. (isso demonstra que não houve
um declínio na atividade construtora na década de 130, como às vezes se disse).
O desenvolvimento ou crescimento das cidades criou um mercado para os produtos
dos grandes Latifundiários, enquanto as necessidades do exército deram conta
de grande parte da lã e do couro que se produziam nas fazendas do Sul da Itália.
Os povos e as cidades também foram centros de intensa produção e de certa
atividade industrial em pequena escala, provavelmente baseada no trabalho
dos escravos. O principal mercado de produtos manufaturados foi indubitavelmente
o exército, que necessitava regularmente de provisões de roupas, equipamento
e armas. A organização do fornecimento era levada a efeito por setores privados
que competiam pelos contratos com o governo. Esses contratistas privados eram
chamados publicanos "publicani". Faziam contratos para a construção
e reforma dos prédios públicos e das estradas e outros serviços, e foram ele
que adquiriram os direitos de exploração das propriedades mineiras do Estado
e de arrecadação dos impostos indiretos (como pedágios e direitos portuários),
bem como das rendas do erário público. Os contratos que cada cinco anos os
censores emitiam foram imensamente lucrativos e de grande importância econômica.
Polibio conta que quase não houve ninguém em Roma que não estivesse envolvido
na venda desses contratos ou nos negócios que surgiam deles. Isso implicou
riqueza e poder para os principais publicanos, que formaram um grupo de pressão
muito influente fora do Senado (aos senadores não era permitido participar
dos contratos públicos).
Referências Bibliográficas
B.RANKOV e P. SABIN, The Second Punic War: A Reappraisal, British Institute
of Classical Studies Supplement 67: Londres, 1996;
J.F.LAZENBY, Hannibal's War: Warminster, 1978;
J.ROTH, The Logistics of the Roman Army at War: Brill, 1999;
V.D. HANSON, Warfare and Agriculture in Classical Greece, ed. rev: Califórnia,
1998.
Fonte: www.roma.templodeapolo.net
A segunda guerra púnica e a construção da armadilha cívica nas Histórias, de Políbio
1.1. Prelúdio da guerra
Pensando a história antiga de modo relacional, percebemos que no início do
séc. III a.C., enquanto diversos reinos surgiam como desdobramento da fragmentação
do Império Macedônico, a aproximação dos romanos com a Sicília, especificamente
com a cidade de Taras (a Tarentum romana), promoveu um rompimento no acordo
antes feito com a pólis dotada da maior frota da península itálica[1]. Estava
claro que Roma, então republicana, não ignoraria o apelo advindo de seus aliados
da Magna Grécia e que Taras não permitiria a presença das tropas romanas no
golfo tarentino. Com isso, instaurou-se uma situação cujo fruto final seria
a intervenção de Pirro nos assuntos peninsulares, justificando tal postura
pela defesa dos gregos contra um poder estrangeiro (xenos), como fizera Filipe
II quase oitenta anos antes contra os persas.
Após Pirro, os gregos do sul da península itálica perceberam que não poderiam
fazer frente aos romanos e, em 272, os tarentinos decidiram aceitar a aliança
proposta por eles. O resultado da campanha de Pirro provocou no cenário político
do Mediterrâneo ocidental abalo suficiente para fazer com que o reino ptolomaico
entrasse em relações diplomáticas com Roma, provando o reconhecimento dos
romanos diante dos reinos subseqüentes ao império alexandrino.
Além disso, encurtou a distância com o maior poder do Mediterrâneo
ocidental, isto é, a cidade fundada pelos fenícios no séc. VIII a.C. e que
agora se mostrava interessada em assumir o controle da Sicília: Cartago.
No contexto de fixação do conflito armado contra os cartagineses, o recrutamento
do mercenário espartano Xantipo como comandante das forças armadas terrestres
púnicas obedece a uma lógica estranha ao exército cívico romano.
Nesses termos, deve ser percebido que o grande problema do exército
cartaginês era o mesmo dos persas no séc. V a.C.: a carência de uma
tradição de infantaria pesadamente armada. A inexistência de infantes que
cumprissem função tática semelhante a dos hoplitas ou legionários era ainda
agravada com o fato dos comandantes cartagineses (antes da reforma elaborada
por Xantipo) desconhecerem as formas básicas de integração tática, difundidas
em toda a Hélade e nos reinos sucessores do Império de Alexandre.
No momento em que Xantipo , então contratado pelos cartagineses, observou
a quantidade de cavalos e elefantes (elephantas) dos quais dispunham Cartago,
deduziu, de acordo com Políbio, que perdiam as batalhas para os romanos devido
imperícia de seus comandantes. Ao dispor as tropas contra o
cônsul romano e suas legiões, o mercenário fez marchar a frente do exército
os elefantes, na tentativa de suprir a deficiência de tropas de choque
com o ataque intimidador dos animais. Atrás da investida inicial seguia a
infantaria cartaginesa, a uma distância segura e ladeada pela cavalaria.
Os romanos, em contrapartida, temendo o ataque dos elefantes, densificaram
as linhas centrais no intuito de barrar a investida, mas falharam totalmente
em seus cálculos contra a cavalaria cartaginesa, muito superior à romana[2].
A partir da vitória nas alas, os cavaleiros cercaram os legionários que começavam
a repelir o ataque dos elefantes, mas se viram obrigados a combater tanto
os cavaleiros que os flanqueavam quanto a infantaria cartaginesa que lhes
chegava intacta e ordenada. A partir de Xantipo (que assegurou apenas essa
vitória como comandante, segundo Políbio), as forças cartaginesas combateram
de modo taticamente integrado, ora executando manobras que supriam o problema
da infantaria de choque, ora empregando mercenários ou elefantes como substituto
para a carência de exército que marchava sob o princípio da eutaxia.
Por meio da Campanha Pírrica, os romanos entraram em contato direto com a
tradição militar helenística, que se desenvolvia paralelamente à fixação de
uma cultura militar pautada na defesa do militarismo cívico. No entanto, a
reforma tática que permitiu o avanço das tropas romanas em campo de batalha,
sem sofrer os efeitos do envolvimento de manobra de tipo macedônico, ocorreu
apenas alguns anos depois, durante a Segunda Guerra Púnica. A vitória sobre
Pirro não eliminou, portanto, os problemas aos quais foram submetidas às legiões
quando enfrentavam um exército helenístico bem preparado. Isto se deveu especialmente
ao fato de que, diante do interesse crescente pela Sicília por parte das maiores
cidades do Mediterrâneo ocidental, os exércitos mercenários se impuseram como
necessários, uma vez que os cartagineses não possuíam qualquer tradição na
utilização de tropas cívicas. Desse modo, a integração tática típica dos exércitos
mercenários, aliada à falta de familiaridade dos cartagineses no que se refere
ao comando de soldados em terra firme, fez com que fosse legado o controle
e treinamento de suas tropas (compostas tanto de mercenários quanto de povos
aliados africanos) a um misthophoros de nome Xantipo.
Com apenas uma referência em Políbio (1, 32), Xantipo se encarregou de apresentar
aos cartagineses a tradição militar helenística, especialmente no que se refere
aos dispositivos táticos. Com isso, pôde vencer o cônsul romano na África
e organizar o exército cartaginês em sintonia com a complementaridade tática
necessária no contexto de consolidação dos exércitos profissionais. Os próprios
romanos, quando passaram à fase do imperialismo ofensivo[3], perceberam a
incompatibilidade do exército cívico com guerras encaminhadas longe da cidade
natal.
Com o fim da guerra em 241 a .C., quando Amílcar resignou ao comando do exército,
Cartago enfrentou o maior problema no pós-guerra (talvez até mais grave que
as exigências romanas). Os mercenários que haviam retornado sem pagamento
do conflito na Sicília requereram seu misthos e, diante da recusa por parte
dos cartagineses, pegaram em armas e avançaram contra Tunis e logo contra
Cartago. No entanto, a vitória dos cartagineses sob o comando de Amílcar Barca,
especificamente na batalha de Bagradas ( 239 a .C.), encerrou a guerra mercenária.
Este conflito pode ser analisado, juntamente com as guerras púnicas[4], a partir de dois elementos interligados que, em nosso entender, não devem ser dissociados:
a) a formação da tradição militar helenística e sua adaptação por cartagineses e romanos e
b) a constituição de uma escola tática difusora desta tradição, que une os planos de batalha empregados tanto por comandantes cartagineses quanto por romanos (especialmente no que se refere à manobra de envolvimento de tipo macedônico).
1.2. Os três momentos da Segunda Guerra Púnica
Após os anos transcorridos entre o fim da guerra mercenária e a expansão do território cartaginês, observamos que, diante do assassinato de Asdrúbal ( 221 a .C.), o comando do exército cartaginês ficou sob responsabilidade de Aníbal Barca, filho de Amílcar Barca, criado por quase toda sua vida na região mais nova do Império construído por Cartago: a chamada Hispânia romana. Com Aníbal, o período de paz se transformou em guerra aberta, especialmente a partir do ataque a Sagunto, cidade aliada dos romanos.
O questionamento do por que o conflito foi retomado por parte dos cartagineses
refere-se, em nível inicial, ao juramento relatado por Políbio, no qual Aníbal,
ainda jovem, prometeu a seu pai que não se tornaria aliado de Roma e que,
além disso, encaminharia a guerra contra eles.
Nas palavras de Políbio[5] ao apresentar a explicação de Aníbal para
a guerra:
(...) quando seu pai estava por cruzar a Hispânia com suas tropas, Aníbal tinha nove anos e estava próximo a um altar onde Amílcar oferecia um sacrifício a Zeus. Uma vez que obteve agouros favoráveis, libou em honra aos deuses, cumpriu os ritos prescritos e, ordenando que todos os demais que assistiam o sacrifício se afastassem um pouco, chamou Aníbal e perguntou amavelmente se ele queria acompanhar-lhe na expedição (...) Amílcar o conduziu pela mão direita até o altar e o fez jurar, tocando as oferendas, que jamais seria aliado dos romanos.
A investigação elaborada por parte do historiador deve ser dirigida, evidentemente,
com base na documentação, mas sempre em relação ao contexto onde as informações
foram produzidas. Em outras palavras, cabe interrogar, para além da procedência
da lenda referente ao juramento de Aníbal, sobre as relações políticas existentes
entre as duas potências do Mediterrâneo ocidental no séc. III a.C.
De um lado, com o controle político da península itálica, encontrava-se a
cidade de Roma, tendo seu domínio estendido de partes da Gália Cisalpina (considerada
pacificada pelos romanos sob Júlio César, no séc. I a.C.) à Magna Grécia,
região que limitava um lado da fronteira imaginada para o fortalecimento da
posição no Mediterrâneo ocidental. Do outro lado, estava a cidade de Cartago,
possibilitando o entendimento de uma fronteira imaginada a partir
da idéia de que o controle de um limite (Magna Grécia ou norte da África)
e da região de fronteira (as ilhas que intermediavam as duas regiões citadas)
implicaria em fortalecimento político.
De acordo com Scullard[6],
A história externa de Cartago, que é principalmente a história de sua tentativa de construir e manter seu comércio, recai sobre três períodos óbvios: 1) o esforço inicial para dominar os outros estabelecimentos fenícios e a população nativa do norte da África; 2) a tentativa de controle exclusivo do Mediterrâneo ocidental, da qual resultaram séculos de guerra com os gregos; 3) e finalmente sua três guerras contra Roma.
Diante da existência de três períodos óbvios na história de Cartago,
devemos enfatizar o fato da escrita sobre os eventos que caracterizaram a
derrota dos cartagineses para os romanos ser especialmente externa,
ou seja, elaborada em um universo referencial que primava pela noção de dever
cívico, o que era estranho à cultura cartaginesa.
A partir desta ênfase, adentramos a questão do porque a historiografia referente
a segunda guerra púnica permanece, especificamente em se tratando do modelo
ocidental de guerra, submetida ao que chamamos de armadilha cívica.
Uma hipótese plausível pode ser o tipo de evidências que chegaram até nós
sobre os cartagineses, quase sempre a partir das construções feitas por gregos
vistos como romanizados (Políbio) e por romanos (a exemplo de Tito Lívio).
Assim, consideramos interessante desdobrar o argumento que diz respeito à
questão do militarismo cívico na obra de Políbio ao longo da análise da segunda
guerra púnica, percebendo seu quadro estratégico geral e suas fases de aplicação
tática. Isso significa dizer que o cerco de Sagunto, considerado como início
do conflito, não pode ser pensado de modo isolado, pois está estreitamente
ligado ao conjunto de eventos que permitem a organização da segunda guerra
púnica em três momentos.
Em primeiro lugar, de 218 a 216 a .C., do início da guerra (com o cerco de
Sagunto) à batalha de Canas, entendemos que se encontra o primeiro momento
da guerra, na medida em que após a vitória obtida em Canas, Aníbal poderia
ter invadido Roma, não fosse pela deficiência de maquinários de cerco.
Em seguida, de 216 a 205 a .C., configura-se o segundo momento da
guerra, quando Cipião foi eleito cônsul e, de acordo com solicitação aprovada
pelo Senado, inverteu o princípio estratégico do confronto, passando a utilizar
o mesmo plano geral de Aníbal: atacar diretamente o centro político
inimigo.
Por último, caracterizando a última fase do conflito, de 205 a 202 a .C.,
quando Aníbal foi derrotado em batalha decisiva, emergiu a adaptação bem sucedida
do cônsul Cipião, então Africano. A manobra envolvente empregada pelos romanos,
aliada aos problemas políticos existentes entre o Conselho cartaginês e os
Barca e à traição do reino da Numídia, fez com que a situação em Zama fosse
completamente desfavorável ao comandante cartaginês, servindo de marco para
o fim do conflito e de base para a reforma tática encaminhada na infantaria
legionária.
1.2.1. Do cerco de Sagunto (218) à batalha de Canas ( 216 a .C.)
O cerco de Sagunto, conforme dito anteriormente, significou o início do segundo
conflito entre romanos e cartagineses. Segundo Políbio[7], os cartagineses
romperam com o acordo de não atravessar o Ebro em armas.
Os romanos, tomando os deuses por testemunhas, exigiram que Aníbal se mantivesse afastado dos saguntinos (pois estavam sob sua proteção) e não cruzasse o rio Ebro, segundo o pacto estabelecido com Asdrúbal.
Entretanto, existia uma segunda razão pela qual Roma não queria que os cartagineses
cruzassem o rio. Segundo Michael Grant[8], o medo que os romanos tinham dos
cartagineses marcharem pelos Pirineus, atravessando a Gália Cisalpina, onde
celtas poderiam juntar-se a eles, fazia com que a tensão entre as duas potências
aumentasse.
Após a primeira vitória anibálica sobre os romanos no Rio Ticino, quando Roma
pensava contar com o cansaço das tropas cartaginesas, Cipião se retirou para
Placentia e montou seu acampamento na frente da cidade. De acordo com Tenney
Frank[9], desde que Cipião cortou as pontes atrás dele, Aníbal marchou
pelo Pó para encontrar uma passagem.
Em seguida, no que viria a ser conhecido como a batalha de Trébia ( 218 a
.C.), diante de todos os preparativos para a execução de um plano direcionado
realização do confronto decisivo, Aníbal levava em conta, de acordo com
Políbio[10], três fatores. Em primeiro lugar, pretendia tirar proveito do
ardor combativo dos celtas, enquanto o desejo de lutar contra os romanos estava
ainda intacto. Em segundo lugar, quanto mais cedo o combate fosse travado,
mais proveito Aníbal tiraria da inexperiência das tropas romanas. Por último,
o comandante cartaginês considerava interessante lutar enquanto Cipião era
assolado por uma enfermidade, o que garantiria o máximo aproveitamento no
que se refere ao caráter inexperiente das legiões.
Aníbal dispôs seu irmão Mago, então no comando de excelente cavalaria, em
terreno propício a emboscada, na medida em que inibia a visão dos romanos
pela proximidade com a vegetação ao redor do rio. Enquanto isso, tendo os
romanos respondido a provocação cartaginesa, iniciada com um ataque furtivo
dos númidas, as tropas sob o comando de Barca se alimentavam e realizavam
os últimos preparativos para o embate, aguardando que os romanos em marcha
cruzassem despreparados o frio Trébia.
Após a travessia do rio, no momento em que o choque frontal ocorreu[11], os
romanos se viram pressionados pelos elefantes cartagineses, dispostos à frente
da cavalaria, enquanto as últimas linhas legionárias sofriam constantes ataques
das forças montadas de Mago, que emergiu da emboscada com sucesso.
Em 217, fruto do contexto de expansão da participação dos plebeus nas magistraturas
romanas, foi eleito para o segundo consulado Flamínio, que tentou conter o
avanço dos cartagineses para o sul, acampando próximo a Etrúria. Aníbal, no
entanto, optou por utilizar uma rota alternativa (deve-se dizer, pantanosa),
que asseguraria a surpresa quando do confronto com o inimigo e impossibilitaria
a união dos dois cônsules, aproveitando-se da ansiedade de Flamínio, que optou
por avançar contra o inimigo.
Marchando em direção a Roma pela Etrúria, Aníbal tinha a sua esquerda a cidade
de Crotona e os montes que a cercavam e a direita o lago Trasimeno. Ciente
da trajetória do comandante romano, tirou proveito do espaço entre as colinas
e o lago, dispondo as tropas ligeiras em posição favorável a emboscada, na
medida em que acreditava no avanço precipitado dos romanos. Acampou com os
africanos e os iberos no local que se opunha frontalmente ao caminho[12],
induzindo a marcha de Flamínio e, desse modo, conseguiu atingir o objetivo
de atacar os adversários em diversos pontos, confundindo até mesmo as operações
de auxílio[13].
A vitória no lago Trasimeno instaura a discussão sobre o porquê, antes mesmo
de Canas, Aníbal não avançou em direção a cidade de Roma e a sitiou. A explicação
bvia sobre a impossibilidade do transporte de máquinas de assédio pelos Alpes
continua fazendo sentido, mas talvez este seja o caso onde a forma romana
de fixar alianças (e, portanto, de recrutar tropas) possa se mostrar superior
ao emprego do soldado mercenário. Sem batalhas decisivas e com problemas de
abastecimento, as tropas de Aníbal mostrariam insatisfação e o novo ditador,
Fábio Máximo, sabia disso. Utilizando-se de uma estratégia de ataque às linhas
de abastecimento inimigas, evitou o choque frontal e a decisão em campo aberto,
provocando instabilidade no corpo do exército cartaginês, seja pelo questionamento
da autoridade de Barca ou por meio dos problemas gerados devido ao abastecimento
reduzido.
No entanto, apesar da estratégia de Máximo ter se mostrado eficiente, a cultura
militar pautada no combate direto em campo aberto (onde a disciplina era exercitada
pelo corpo formado de soldados-cidadãos), traduziu-se em insatisfação por
parte dos romanos. Em outras palavras, o desejo de combater frontalmente o
inimigo (o que deve ser entendido como algo culturalmente estabelecido) fez
com que Roma, graças ao recrutamento de tropas novas, desafiasse Cartago com
o maior exército já disposto em campo de batalha.
Na narrativa de Políbio, os registros numéricos agem como reforço retórico,
sem pretensões modernas de exatidão matemática. O historiador grego está preocupado
com o significado que os números podem atribuir a uma batalha e pretende,
portanto, acentuar a drasticidade da quantidade de mortos, na tentativa de
convencer o quão relevante foi Canas, na medida em que a própria existência
de Roma foi ameaçada. De acordo com Políbio, setenta mil soldados de infantaria
e quase seis mil cavaleiros romanos foram mortos, excluindo as forças montadas
compostas de aliados celtas[14].
A atuação romana na Gália Cisalpina, quando da marcha do exército cartaginês
dirigido por Aníbal, produz uma questão referente à instabilidade gaulesa.
De um lado, os romanos teriam se dirigido à Gália com o intuito de prevenir
a expansão do domínio cartaginês para além dos Pirineus, que poderia se dar
por meio da fixação de uma aliança com os celtas. Nesse sentido, os romanos
estavam antecipando o evidente ataque cartaginês. Por outro lado, Aníbal teria
se aproveitado da atuação romana na Gália, clara entre a primeira e a segunda
guerra púnica, para tornar os ânimos inflamados dos celtas uma poderosa arma
a ser utilizada na invasão da península itálica.
Teoricamente, Aníbal estava diante de duas estratégias para levar os romanos
destruição. Poderia tomar a própria cidade de Roma ou cortar suas linhas
de abastecimento, provocando o esgotamento de toda a resistência armada, o
que conduziria ao fim do conflito. A opção de assediar e capturar diretamente
Roma implicaria na possibilidade de desembarcar nas proximidades da cidade
com o conjunto de maquinários necessários para o cerco. Tal situação era apenas
ideal, já que os cartagineses haviam perdido o controle marítimo com a derrota
na primeira guerra púnica. Restava apenas a marcha rumo aos Alpes, com o objetivo
de atravessá-lo e dali prosseguir à invasão do território romano.
Tendo assumido o trajeto possível às suas forças, Aníbal estava confiante
em seu sucesso tático, ou seja, certo de que poderia derrotar qualquer
exército romano que viesse confrontá-lo[15]. Evidentemente, uma sucessão
de vitórias campais não garantiria a vitória cartaginesa e a esperança no
corte das linhas de abastecimento não poderia dar certo se Aníbal não recebesse
apoio de Cartago e se permanecesse isolado nos arredores de Roma, incapaz
de sustentar os ânimos de suas tropas com uma demora de mais de dez anos.
De qualquer maneira, a capacidade tática de Aníbal, advinda das possibilidades
de movimentação de seu exército reformado nos padrões helenísticos de guerra,
permitiu que ele encaminhasse sua estratégia ofensiva, deslocando suas tropas
vitoriosas de Sagunto até as portas de Roma.
Montar acampamento próximo a Canas parecia interessante aos cartagineses
porque consolidava o desejo de Aníbal: enfrentar os romanos em uma
batalha decisiva, onde pudesse colocar seu plano de envolvimento em prática,
concebido em adaptações das batalhas promovidas pelo exército macedônico aproximadamente
um século antes.
Os romanos haviam disposto seu numeroso exército de forma tradicional:
velites a frente da infantaria de choque, cavaleiros romanos na ala
direita e cavalaria composta de aliados na ala esquerda.
Políbio constrói um ad locutio de Lúcio Emílio Paulo, cônsul encarregado em Canas do comando da ala direita do exército, enfatizando a superioridade numérica dos romanos:
Como todas as condições agora são o contrário das predominantes nas batalhas a que me referi, podemos antever que o resultado da batalha prestes a travar-se será igualmente o oposto. De fato, seria na realidade estranho, ou melhor, impossível, que após haverdes enfrentado os vossos inimigos em igualdade de condições em tantas escaramuças isoladas, e em muitos casos terdes sido vitoriosos, agora, quando ireis combatê-los com vossas forças reunidas e lhes sois numericamente superiores numa proporção excedente a dois para um, viésseis a ser vencidos[16].
Aníbal, por outro lado, tendo disposto os celtas e iberos em uma formação
que Políbio chama de crescente ou convexa, provocou a sensação de inchaço
nas linhas centrais, atraindo os romanos para uma constante investida contra
o centro cartaginês, tal qual estavam habituados a fazer.
A situação estava posta em um grande risco, uma vez que o recuo dos celtas
e iberos poderia causar o rompimento da linha de envolvimento e, consequentemente,
levar as forças púnicas à desordem. O plano de Aníbal era arriscado, porém
funcional, uma vez que sabia da superioridade da cavalaria celta diante da
romana e da força da cavalaria númida, assim como confiava que seus infantes
africanos dispostos nas laterais como tropas de reserva pudessem entrar em
ação quando a ameaça de rompimento da linha de frente cartaginesa se formasse[17].
Conforme o combate de cavalaria se desenrolava e os celtas montados rodeavam
a retaguarda romana, indo auxiliar os númidas da outra ala, a cunha formada
de infantes celtas e iberos cedia (indo de convexo para côncavo) até o momento
em que o maciço corpo de legionários encheu uma espécie de bolsa.
Os legionários, então cercados pelos africanos dispostos nos flancos, não
foram capazes de oferecer resistência, mesmo estando em maior número[18].
Por fim, as forças montadas comandadas por Asdrúbal efetuaram cargas sucessivas
em vários pontos na retaguarda romana, concluindo a manobra de envolvimento[19].
De acordo com Victor D. Hanson, o massacre a que foram submetidos os romanos
em Canas ilustra o valor do militarismo cívico em sua ocorrência mais improvável,
ou seja, quando um exército mercenário demoliu a milícia de Roma[20],
na medida em que os romanos conseguiram se organizar para depois derrotar
o inimigo. Neste sentido, durante o séc. III a.C., a legitimidade na luta
pela cidade-estado repousava na constante retomada de valores marciais advindos
do civismo dos tempos antigos.
1.2.2. Da batalha de Canas (216) ao consulado de Cipião, o Africano
( 205 a .C.)
A abordagem descrita acima aposta na força do exército cívico e na necessidade
de sua relação com os outros aspectos característicos do modelo ocidental
de guerra[21].
Porém, apesar de todas as peculiaridades na delimitação da cidadania
(diferente entre gregos e romanos, por exemplo), um elemento permanece nuclear:
o apelo ao sentimento cívico e à defesa da cidade-estado. Nossa interpretação
para a segunda guerra púnica pretende escapar a que mostra o soldado-cidadão
como uma das chaves para a interpretação do sucesso romano em Zama ( 202 a
.C.), concebido em relação direta ao fracasso de Canas.
Políbio defende que a força da constituição romana permitiu que pudessem retomar
a conquista de seus territórios e ir mais além, incorporando todos a sua volta.
O argumento da natureza da politéia, embora não seja nosso interesse
analisá-la, constrói um dos campos necessários para a produção da armadilha
cívica: cidadãos são formados por suas constituições, que os
delimitam como sujeitos livres porque atuam na garantia da liberdade, a exemplo
dos espartanos nas Termópilas, durante as guerras greco-pérsicas.
De acordo com o historiador grego:
A derrota dos romanos era inegável e haviam perdido sua reputação marcial, mas a peculiaridade de sua politéia e a prudência de suas deliberações não somente permitiu que recobrassem o domínio da Itália, como também todos a sua volta[22].
Uma outra interpretação possível é de que Aníbal pôde vencer e foi vencido
especialmente devido às diversas adaptações da tática que melhor expressa
os fundamentos clássicos de um modelo de guerra iniciado com os gregos e potencializado
com Filipe II, sob a forma de tradição militar helenística. Sustentamos que
essa proposta, sem ignorar outros aspectos, é capaz de aglutinar um conjunto
de indícios que permitem apresentar a relevância da hipótese tática
a que delimita a formação de uma tradição militar que leve em consideração
diversas adaptações de planos de batalha e o desenvolvimento dos armamentos
no cenário helenístico.
Após a batalha de Canas, os exércitos romanos estavam divididos em um
número de pequenas forças distribuídas em pontos vitais, como uma matilha
de cães disposta ao redor de um leão[23]. Na seqüência do argumento
de Grant, desdobrada da ênfase conferida à invasão de Aníbal e quase sempre
devido ao impacto da batalha de Canas (mesmo entre historiadores antigos),
a relevância das operações militares na Hispânia é ignorada ou caracterizada
como esfera secundária. Exatamente por isso devemos considerar
os aspectos múltiplos da Segunda Guerra Púnica, compreendendo a estratégia
romana frente aos problemas enfrentados na península itálica com a expedição
comandada por Aníbal.
Nos primeiros anos da guerra, o exército romano situado na Hispânia foi comandado
por dois homens, ambos de nome Cipião (pai e filho). Sob sua atuação, Sagunto
foi recapturada em 211 a .C. e serviu de base para as demais operações na
região. Em 210, o Senado decidiu por delegar o comando das forças na Hispânia
a Cipião, o que será designado posteriormente Africano, devido
ao sucesso na investida contra a segunda área de controle do império cartaginês.
Segundo Michael Grant[24], logo após a conquista de Nova Cartago ( 209 a .C.),
Cipião marchou para o centro da Hispânia, no intuito de combater Asdrúbal
em Baecula, visando o aniquilamento das forças cartaginesas enquanto estavam
separadas. Nesta ocasião, Cipião atacou o inimigo utilizando os homens levemente
armados como tropas de cobertura (screen), induzindo pela movimentação
tática a realização do princípio de envolvimento, da mesma maneira que Aníbal
fizera na península itálica (em Canas, por exemplo).
Esta ocasião ilustra não somente a ampliação da flexibilidade tática referente
ao exército romano, como também a aproximação do conhecimento militar de Cipião
com o que pode ser caracterizado enquanto tradição militar helenística. Este
momento, que é o de vitória romana sobre os sucessores de Asdrúbal (agora
em marcha rumo a península itálica), torna-se crucial na interpretação da
segunda guerra púnica devido ao caráter conclusivo da vitória, na medida em
que muitos aliados romperam seus acordos com Cartago, resultando ao final
do ano na perda definitiva de todos os territórios espanhóis.
Com o alarme provocado pela chegada de Asdrúbal à península itálica, que objetivava
por sua vez juntar forças com Aníbal, o comandante romano Caio Cláudio Nero
marchou para o rio úmbrio Metaurus ( 207 a .C.). Como Asdrúbal estava ávido
por encontrar com o exército de seu irmão, e sabendo da proximidade das tropas
romanas, optou por mover seu exército pelos desfiladeiros ao cair da noite,
no intuito de não ser visto pelo inimigo durante a marcha. No entanto, falhou
em seu plano e foi submetido ao combate, morrendo na primeira vitória romana
caracterizada pelo choque de infantaria levemente armada, dada a natureza
do terreno.
1.2.3. Do consulado de Cipião, o Africano ( 205 a .C.) à batalha de Zama (
202 a .C.)
Passados dois anos da realização deste combate, momento em que Cipião é eleito
cônsul, ocorre uma alteração estratégica fundamental por parte dos romanos.
De um lado, representava a aplicação do mesmo princípio empregado por Aníbal
quando optou por invadir a península itálica, isto é, atacar o inimigo em
seu próprio território, levando todas as moléstias da guerra para próximo
de suas cidades, ampliando o terror e muitas vezes a ansiedade pelo fim do
confronto. Por outro lado, significava que a organização da estratégia romana
desenvolvida na Hispânia, que resultou em desequilíbrio da logística cartaginesa,
permitiu um nível de organização a ponto de o Senado aprovar a solicitação
de Cipião, quando propôs a invasão da África.
Em 204, com exército formado também por cavaleiros advindos de parte da Numídia,
que haviam estabelecido aliança sob o comando do príncipe Masinissa, Cipião
desembarcou no norte da África, não muito distante de Cartago. Diante das
exigências por parte da aristocracia cartaginesa, Aníbal teve que retroceder
a Cartago, pois além de não contar mais com abastecimento para o prosseguimento
de sua campanha (uma vez que a Hispânia deixara de ser cartaginesa),
não podia recusar a solicitação de defesa advinda diretamente da cidade de
Cartago.
A movimentação de Cipião se deu no sentido de minar o suprimento de alimentos
da capital inimiga, destruindo as reservas agrícolas ao redor da cidade e
se instalado próximo a Zama, onde ocorreu a última batalha decisiva da segunda
guerra púnica, em 202 a .C.
O último ano do conflito foi marcado pelo aumento na hostilidade
de ambos os lados, cientes de que o fim do conflito residia no choque frontal
entre os dois exércitos: os cartagineses combatiam por sua sobrevivência,
na tentativa de evitar o saque e a destruição de Cartago e os romanos lutavam,
de acordo com a fonte, para vingar a situação do qual foram vítimas.
Nas palavras de Políbio[25]:
Este era o sinal para a retomada da guerra com a crueldade e o espírito mais colérico. Os romanos, por um lado, encaravam-se como tendo sido tratados com perfídia, e se viram tomados por uma determinação furiosa direcionada a conquista dos cartagineses. Por outro lado, conscientes das conseqüências do que eles haviam feito, os cartagineses estavam prontos para fazer o que fosse preciso para evitar cair nas mãos do inimigo. Com aquele sentimento animando ambos os lados, estava evidente que o resultado seria decidido em campo de batalha.
Deve-se notar que em Zama, quando o contexto apontava para a inevitabilidade
da batalha, estava disposto diante de Aníbal um exército flexível, forjado
sob o comando de um romano que o treinou durante os anos que estiveram na
Hispânia, conquistando territórios por meio de adaptações das táticas empregadas
por Aníbal na península itálica.
Segundo Giovanni Brizzi[26], esta ocasião apresentava um problema duplo. Por
um lado, Aníbal deveria combater de modo diferenciado, deixando de lado os
conceitos que tinham possibilitado suas vitórias precedentes, superados e
tornados inaplicáveis por uma situação militar profundamente alterada.
Por outro lado, não poderia ignorar que em Zama não dispunha de excelente
cavalaria númida, indispensável em todas as suas concepções táticas empregadas
em território romano.
Quando a batalha foi iniciada, Aníbal realizou uma manobra de envolvimento,
acreditando que ao recuar as duas linhas do exército (uma para a ala esquerda
e outra para a ala direita), os romanos se concentrariam em avançar com sua
formação densa de três linhas focadas no choque frontal e retilíneo. No entanto,
o cônsul romano também pensava poder envolver o exército cartaginês e, aproveitando-se
da disposição habitual das legiões, ordenou que as duas últimas linhas se
desdobrassem para as alas, obedecendo ao mesmo esquema proposto por Aníbal,
mas de forma invertida.
Quanto à colisão das tropas de infantaria, Políbio[27] argumenta em
favor da superioridade dos romanos, apontando a uniformidade atingida pela
defesa do bem comum como principal fator da vitória dos legionários:
As linhas inimigas de infantaria pesada avançavam para o choque, confiantes e orgulhosas; exceto as tropas italianas de Aníbal, que permaneceram na posição de origem. Quando se aproximaram um do outro, os romanos atacaram os inimigos, liberando seu tradicional grito de guerra e batendo suas espadas contra seus escudos, enquanto os mercenários cartagineses emitiram uma estranha confusão de gritos (...) a voz de todos não era uma só, assim como não era um único grito.
Ao final do choque, quando os legionários gradualmente empurraram as duas
linhas laterais do exército cartaginês para uma formação cada vez mais convexa,
o resultado da batalha ficou a cargo dos númidas, que retornaram ao cenário
principal de Zama (após bater a cavalaria inimiga) e concluíram o cerco dos
cartagineses.
Ao fim da batalha, poucos cartagineses sobreviveram e daí por diante a Segunda
Guerra Púnica pode ser considerada encerrada. A prova desse fim se deu especialmente
quando o próprio Aníbal, sobrevivente de Zama, propôs ao conselho cartaginês
que o mesmo aceitasse as pesadas condições impostas pelos romanos, nas negociações
de paz. Esquematizando, os cartagineses tiveram sua frota limitada e Masinissa
se tornou rei de toda a Numídia, além do fato de Cartago, daí por diante,
permanecer submetido ao consenso dos romanos, quando optasse por entrar em
guerra com outro povo.
Exemplificando pelo argumento de Políbio quando do choque de infantarias durante
a batalha de Zama, sua explicação para a vitória romana na guerra advém do
fato dos legionários lutarem pelo que a todos pertence e de modo consentido,
na medida em que o recrutamento neste momento é cívico e não profissional.
Por outro lado, no que se refere ao exército mercenário dos cartagineses,
a habilidade tática é exaltada, mas submetida no enredo polibiano à força
obtida pela execução do dever cívico.
Citações
[1] Grant, Michael, History of Rome , Nova York : Charles
Scribners sons, 1978, p. 87
[2] Polybius, The histories, Cambridge : Harvard University Press, 2006, Livro
1, 33.
[3] Guarinello, Norberto L. Imperialismo greco-romano, São Paulo, Ática, 1987.
[4] Evidentemente, neste artigo permanecemos focados na segunda guerra púnica.
[5] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 5-8.
[6] Scullard, H. H., Carthage. Greece & Rome, Cambridge, v. 2, p. 98-107,
1955, p. 102.
[7] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 15.
[8] Grant, Michael, History of Rome , Op.cit., p.115.
[9] Frank, Tenney, Placentia and the battle of the Trebia. The journal of
Roman Studies, London, v. 9, p. 202-207, 1919, p. 203
[10] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 70.
[11] Os exércitos estavam dispostos ao modo tradicional, isto é, infantaria
ligeira a frente, infantaria pesada logo atrás e cavalaria nas alas.
[12] M. O. B. Caspari (1910: 421), em artigo sobre o problema da localização
da batalha (The battle of lake Trasimene), sustenta que apenas uma única parte
do exército de Aníbal estava visível, facing the line of march.
[13] Polybius. The histories, Op.cit., Livro 3, 84.
[14] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 117.
[15] Salmon, E. T. The strategy of the second punic war. Greece & Rome,
Cambridge, v. 7, p. 131-142, 1960, p. 136.
[16] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 109.
[17] A ameaça de rompimento das linhas centrais era, aliás, necessária para
a execução da manobra.
[18] Hart, Liddell, As grandes guerras da história, São Paulo: Ibrasa, 1982,
p. 55.
[19] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 116.
[20] Hanson, V. D., Why the west has won, Nova York , Faber and Faber, 2001,
p. 11.
[21] Evidente que o conceito de cidadania entre gregos e romanos é completamente
diferente, existindo especificidades no próprio mundo grego (dependendo da
época e da pólis).
[22] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 3, 9.
[23] Grant, Michael, History of Rome . Op.cit., p. 119.
[24] Ibid., p. 121.
[25] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 15, 3.
[26] Brizzi, Giovanni, Il Guerriero, Loplita, il Legionario, Bolonha,
Società editrice il Mulino, 2002, p. 68.
[27] Polybius, The histories, Op.cit., Livro 15, 12.
Bibliografia:
Brizzi, Giovanni, Il Guerriero, Loplita, il Legionario, Bolonha, Società
editrice il Mulino, 2002.
CASPARI, M. O. B., The battle of lake Trasimene , The English historical review,
Oxford , vol. 25, pp. 417-429, 1910.
FRANK, Tenney, Placentia and the battle of the Trebia, The journal of Roman
Studies, London , v. 9, p. 202-207, 1919.
GRANT, Michael, History of Rome , New York , Charles Scribners sons,
1978.
GUARINELLO, Norberto L. Imperialismo greco-romano, São Paulo , Ática, 1987.
HANSON, V. D., Why the west has won, New York,: Faber and Faber, 2001.
HART, Liddell, As grandes guerras da história, São Paulo, Ibrasa, 1982.
POLYBIUS, The histories, Cambridge , Harvard University Press, 2006.
SALMON, E. T. The strategy of the second punic war. Greece & Rome, Cambridge
, v. 7, p. 131-142, 1960.
SCULLARD, H. H., Carthage. Greece & Rome, Cambridge , v. 2, p. 98-107,
1955.
Henrique Modanez de Santa Ana
Fonte: vereda.saber.ula.ve