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Terceira Guerra Púnica

Terceira Guerra Púnica

Antecedentes da Terceira Guerra Púnica

O confronto final entre Roma e Cartago durou apenas quatro anos e terminou com a destruição total de Cartago. A guerra foi travada inteiramente na África, com os invasores romanos procurando conquistar a capital inimiga, e o desfecho nunca esteve verdadeiramente em dúvida, a menos que os Romanos decidissem abandonar a expedição. Não é fácil atribuir responsabilidades pela eclosão dos dois conflitos anteriores mas não restam dúvidas de que a Terceira Guerra Púnica foi deliberadamente provocada pelos Romanos, que tinham decidido, em consciência, aniquilar o seu velho inimigo. Os negociadores romanos exploraram descaradamente a predisposição cartaginesa para fazer concessões com o propósito de evitar a guerra com Roma, aumentando constantemente as suas exigências para impor um conflito a um inimigo debilitado. Foi uma atitude muitíssimo pior do que qualquer um dos exemplos registados da proverbial "falsidade púnica". Pelos padrões da estratégia moderna, a guerra foi desnecessária, dado que Cartago não parece ter constituído uma verdadeira ameaça para Roma. Para compreendermos porque é que os Romanos embarcaram numa politica tão intencionalmente implacável, temos que olhar de novo para a atitude romana face a guerra e para as condições peculiares de meados do século II.

A partir de 201, os Cartagineses mostraram-se consistentemente aliados leais de Roma. Forneceram cereais aos exércitos romanos e, em 191, enviaram a sua minúscula marinha para integrar a esquadra que operava contra Antioco III. Com a ajuda da reforma das finanças do Estado, levada a cabo por Hannibal, a indenização anual foi paga pontualmente até ao fim, em 151. Na série de disputas fronteiriças com a Numídia de Masinissa, Cartago submeteu-se ao arbítrio romano apesar de este, de forma declarada ou tácita, ser sempre favorável ao rei. Com ou sem verdade na acusação, foram nobres cartagineses que relataram as alegadas conversações de Hannibal com Antioco e provocaram a sua fuga, em 195. Também foram eles que prenderam e julgaram o seu agente, Ariston de Tiro, que em 193 fora enviado a Cartago para persuadir a cidade a apoiar os Selêucidas contra Roma, embora Ariston tenha conseguido escapar antes da conclusão do julgamento. Foi enviada uma delegação a Roma para dar conta do incidente e garantir ao Senado a continuada lealdade de Cartago.

As fontes dizem-nos que neste meio século a politica cartaginesa foi dominada por três facções: um grupo simpatizante de Roma, liderado por Hanão, o Grande, outro pró-Masinissa, sob a liderança de Hannibal, o Estominho, e o terceiro derivando o seu apoio dos cidadãos mais pobres e chefiado por Hannibal, o Samnita, e Cartalao. O cognome de Hannibal derivaria talvez de um pai ou de um avô que servira com Hannibal em Itália, e as fontes referem também neste período um certo Magão, o Brútio, cujo nome sugere uma associação semelhante, mas não é totalmente claro que o partido democrático estivesse tão estreitamente associado aos Barcas como alguns estudiosos tem opinado. Nenhum destes grupos parece ter sido abertamente hostil a Roma. Não se sabe ao certo se a renovada prosperidade da cidade terá dado origem a algum rearmamento; as fontes literárias dizem que não mas as escavaçöes realizadas no porto indiciam o contrário. O que sabemos é que em meados do século os Cartagineses não estavam em condições de lançarem uma ofensiva de peso contra Roma, mesmo que o pretendessem fazer. No entanto, não ha dúvida de que os Romanos foram ficando cada vez mais receosos do seu aliado no período em causa.

O fim do pagamento da divida de guerra de cinquenta anos, em 151, eliminou o lembrete anual da derrota de Cartago e o estatuto subordinado da cidade. Os tratados que estipulavam um período fixo de paz entre dois Estados eram uma característica comum dos acordos gregos que punham fim aos conflitos, mas eram muito raros para os Romanos, que esperavam desfechos mais permanentes para as suas guerras. Em 265, Cartago convertera-se de aliado de longa data e distante em inimigo, o que originou uma mudança permanente na percepção romana de Cartago. Roma nunca se contentou com alianças que implicassem qualquer nível de igualdade com um antigo inimigo.

A guerra foi rapidamente renovada com a Macedônia, em 200, e de novo quando Perseu aparentou estar a tornar-se forte e independente. Um aliado leal devia submeter-se a interferência de Roma, especialmente nos assuntos extemos, sempre que isso fosse do interesse de Roma. Entre 241 e 218, os Romanos apoderaram-se da Sardenha e intervieram na Hispânia, impondo concessões aos lideres púnicos sem se restringirem minimamente, e esta atitude continuou depois de 201. Em 151, Cartago deixou de pagar uma prestação anual a Roma. A cidade era próspera e o seu poder no Norte de África ainda era considerável, não obstante as terras perdidas para a Numídia. As tradições da prática bélica púnica não esperavam que um Estado vencido, em especial um Estado que não tivesse sido conquistado nem absorvido, permanecesse eternamente sujeito ao vencedor. Só os Romanos pensavam assim. Os Cartagineses já não eram aliados inequivocamente subordinados de Roma. O fato de um antigo inimigo, um inimigo que levara Roma a beira da derrota total, fosse de novo forte e independente constituía uma ameaça nas costas dos Romanos. Era esta a raiz do crescente receio que Roma tinha de Cartago.

Este sentimento era personificado por Catão. Em meados do século, o "homem novo" que combatera em Tarento, no Metauro e na África era um dos mais influentes e respeitados membros do Senado, e um dos poucos da sua geração que ainda participavam ativamente nos assuntos do Estado. Provavelmente em 153, Catão integrou uma das embaixadas enviadas para arbitrar uma disputa entre Masinissa e Cartago. Catão estava com setenta e muitos mas ainda era um orador enérgico e convincente.

A delegação romana ficou profundamente impressionada com as crescentes riqueza e população da sua antiga rival.

Regressado e Roma, Catão deu em concluir todos os seus discursos no Senado com a mesma frase:

"Cartago deve ser destruída". Diz-se que numa ocasião deixou cair alguns figos da dobra da toga. Os figos, informou ele aos seus ouvintes, espantados com o tamanho dos frutos, tinham sido colhidos num país a apenas três dias de viagem por mar, Catão exagerou a rapidez com que a armada púnica poderia cair sobre Roma, embora fosse efetivamente possível chegar ao Sul da Itália em poucos dias, e alguns estudiosos especularam com alguma irrelevância se Catão não teria comprado os figos em Roma ou mandado colhê-los na sua propriedade. Tratou-se de um gesto simbólico e poderoso que as fontes consideram digno de ser repetido e que ainda é recordado. Outro eminente senador, Cipião Nasica, mediu-se com Catão terminando os seus discursos com a opinião de que Cartago deveria ser preservada. Dizem as fontes que ele acreditava que a presença de um rival poderoso manteria intacta a virtude dos Romanos, um argumento que se tornou um continuo lamento no século seguinte, quando Roma mergulhou numa série de guerras civis. Na altura, poucos Romanos parecem ter concordado com ele. Plutarco refere que foi principalmente a influência de Catão que convenceu Roma a destruir Cartago, e em alguns relatos modernos figura com igual destaque a persistente malevolência do velho. Tal como em muitos outros aspectos da sua carreira, Catão terá aparentemente expressado o sentimento da maioria da população.

Durante a década de 150, houve um sentimento crescente de insegurança em Roma. As guerras das primeiras décadas do século tinham sido ganhas, com grande facilidade, por exércitos romanos compostos de oficiais e soldados extremamente experientes. A geração da Guerra Hannibalica foi-se tornando demasiado velha para cumprir o serviço militar e os seus conhecimentos e competências perderam-se. Dada a impermanência das legiões de Roma, a desmobilização dos exércitos obrigava a recomeçar o processo de instrução de novas tropas. Os soldados experientes foram substituídos por homens mais jovens e menos conscientes de que os êxitos militares de Roma se baseavam numa instrução rigorosa, numa cuidada preparação logística e numa liderança competente, convencendo-se de que o êxito lhes cabia por direito simplesmente por serem Romanos. No segundo quartel do século, houve menos gente em armas e as campanhas foram relativamente poucas. Em 155, os guerreiros lusitanos lançaram uma série de grandes incursões na província romana da Hispânia Ulterior, ataques cuja escala foi aumentando a cada sucesso. Em 154, um pretor foi morto e o seu exército duramente derrotado.

Em 153, os Celtiberos infligiram várias derrotas a um exército consular comandado por Quinto Fúlvio Nobilior. Os relatos de combates duros e perigosos na Hispânia provocaram uma mini-crise em Roma, ao serem muito poucos os homens que se ofereceram para servir no exército que estava a ser formado para combater os Celtiberos, sob o comando de Lúcio Licinio Luculo. Só o exemplo de Públio Cornélio Cipião Emiliano, filho adotivo do Africano, que se ofereceu publicamente para servir como tribuno, garantiu voluntários em número suficiente. Na verdade, a guerra foi concluída antes da chegada de Luculo mas este, ávido de glória e riquezas, lançou o exército contra uma tribo amistosa, que se rendeu e foi traiçoeiramente massacrada. No ano seguinte, ocorreu uma atrocidade semelhante, quando o pretor da Hispânia Ulterior, Públio Sulpicio Galba, que já fora derrotado uma vez pelos Lusitanos, ofereceu a paz as tribos. Prometendo instalá-los em boas terras aráveis, Galba dividiu os Lusitanos em três grupos, desarmou-os e depois ordenou aos seus legionários que chacinassem os guerreiros indefesos. Um dos poucos que escapou ao massacre foi um homem chamado Viriato, que viria a revelar-se um líder carismático e um irredutível adversário de Roma. Durante mais de uma década, os Romanos foram confrontados com uma dura contenda contra os Lusitanos e os Celtiberos. Em 140, um dos seguidores de Viriato foi subornado e assassinou-o, mas foram necessários mais sete anos e recursos enormes até que o bastião celtibero de Numância fosse conquistado.

Regressado a Roma, Galba foi julgado por quebra de fides, a prezada fé de Roma, sendo Catão um dos seus acusadores. Mas Galba foi inesperadamente absolvido depois de se apresentar no tribunal com os filhos, que imploraram em lágrimas clemência para o pai. Galba tornar-se-ia um dos mais famosos oradores de Roma.

As derrotas sofridas na Hispânia trouxeram à luz a inexperiência de quase todos os exércitos romanos. A substituição anual dos governadores de província e a raridade das promagistraturas encorajavam os generais a procurarem a glória antes de serem substituídos, e negavam-lhes o tempo necessário para converterem os seus soldados num exército eficaz. Esta realidade tivera muito menos peso no principio do século, quando a qualidade dos recursos humanos de Roma fora mais elevada. Mas mesmo nessa altura, a pressão para obter êxito num único ano de mandato levara Flamínio a iniciar conversações de paz com Filipe V, em 198, para logo a seguir romper as negociações e procurar uma vitória militar quando o seu comando foi prolongado por mais um ano. As sucessivas derrotas faziam cair o moral e tornavam ainda mais prováveis novas derrotas.

O fracasso na proteção das comunidades hispânicas aliadas era conducente a sua defecção, aumentando o número de inimigos a combater. A dada altura, uma grande parte da Hispânia Ulterior submeteu-se a Viriato. As perdas sofridas na Hispânia ocorreram demasiado longe para constituírem uma ameaça direta ao Lácio, mas foram um grande golpe para o prestígio romano. As dificuldades para recrutar oficiais e soldados para a Hispânia, em 151, foram particularmente chocantes, pois nem a crise da invasão de Hannibal causara nos cidadãos romanos semelhante relutância face ao cumprimento do serviço militar.

Apiano diz que o Senado decidiu em segredo procurar um pretexto para uma guerra contra Cartago pouco depois de Catão regressar da África. Talvez sim, talvez não, mas as atitudes do Senado não deixam dúvidas de que era essa a sua intenção em 150-149, e é provável que o pagamento da última prestação da indenização por Cartago, em 151, tenha contribuído para essa decisão. Apenas faltava aos Romanos um pretexto para a guerra, e os seus aliados númidas não tardariam a fornecê-lo.

Roma declara guerra a Cartago, Terceira Guerra Púnica

Catão constituiu um elo entre a Segunda e a Terceira Guerras Púnicas do mesmo modo que as carreiras de Hierão, Fábio Máximo e Marcelo abarcaram a primeira e a segunda conflagrações. Também Masinissa era uma ligação ao passado. Em 150, estava com 88 anos de idade mas ainda montava sem sela, à maneira do seu povo, e liderava os seus homens em combate. Quando morreu, dois anos mais tarde, o rei deixou um filho com quatro anos de idade, um dos dez rapazes legítimos e ilegítimos que gerou durante a sua longa vida. Masinissa passara uma grande parte dos seus primeiros tempos de vida em Cartago, conhecera profundamente a cultura púnica e introduzira muitos dos seus aspectos, da literacia a religião, no reino que lutara para criar com base nas tribos independentes do seu povo. Fora encorajado o estabelecimento de comunidades urbanas, embora se desconheça até que ponto eram habitadas por uma população importada e não por Númidas persuadidos a abandonarem o nomadismo. Masinissa deu a cada filho uma propriedade rural para ser cultivada com os mais modernos métodos púnicos, pois compreendera que a promoção da agricultura fortaleceria o reino e daria poder aqueles que controlassem as novas fontes de produção.

Contudo, não obstante a sua admiração pela cultura púnica e os serviços distintos que prestou com os exércitos cartagineses na Hispânia, Masinissa demonstrou uma grande hostilidade para com o seu antigo aliado durante todo o seu reinado.

O tratado de 201 incluíra a provisão algo vaga de que Cartago deveria restituir a Masinissa todos os territórios que tinham pertencido aos seus antepassados.

Apiano refere que os limites do território púnico estavam marcados com "trincheiras fenícias" mas ainda não foi possível estabelecer com precisão onde se localizavam. As ambiguidades do tratado encorajaram Masinissa a abocanhar um número crescente de territórios cartagineses, sob o pretexto de que haviam pertencido ao seu povo. As suas pretensões acabaram por conceder apenas aos colonos púnicos a área de Birsa, a povoação original de Cartago, situada no cimo de uma colina e que, segundo o mito, Elishat recebera do governante local. As delegações romanas enviadas para resolverem as disputas entre os dois aliados de Roma decidiram repetidamente a favor do rei, que assim pôde adquirir mais terras férteis e, por fim, os importantes portos conhecidos por empórios.

Os políticos desejosos de agradar a Masinissa e de satisfazer as suas exigências foram finalmente expulsos de Cartago, em 152-151, e o partido popular tornou-se temporariamente dominante. Os líderes exilados refugiaram-se junto do monarca, que enviou a Cartago dois dos seus filhos, Gulussa e Micipsa, com a exigência da restituição dos exilados. Gulussa deslocara-se em tempos a Roma como representante do pai, mas nesta ocasião os irmãos nem sequer foram autorizados a entrar em Cartago. Na viagem de regresso, a comitiva de Gulussa foi atacada por Amilcar, o Samnita, e um grupo dos seus apoiantes, que mataram várias pessoas. Em 150, os Númidas recomeçaram os seus ataques contra território púnico, devastando as terras e sitiando uma cidade chamada Oroscopa, cuja localização desconhecemos.

Pela primeira vez desde 201, Cartago decidiu entrar em guerra sem procurar o arbítrio ou a aprovação de Roma, e formou um exército de 25.000 infantes e 400 cavaleiros, sob o comando de Asdrúbal. As fontes referem que os cavaleiros foram recrutados na cidade de Cartago, pelo que seriam cidadãos. Eram pouco numerosos mas receberam um reforço substancial quando uma disputa entre os filhos de Masinissa e dois chefes númidas, Asasis e Suba, levou a deserção dos dois últimos, à frente de 6.000 cavaleiros ligeiros. Asdrúbal ganhou vantagem em algumas escaramuças e seguiu a retirada do exército númida, que atraiu o inimigo para terreno mais acidentado e quase desprovido de alimentos e água.

Por fim, Masinissa decidiu oferecer batalha, dando origem a um dia de combates no qual nenhum lado conseguiu uma vantagem decisiva. A batalha foi observada, à distância, por Cipião Emiliano, que se encontrava na África para, fazendo uso da ligação da sua família a Masinissa, persuadir o velho soberano a fornecer elefantes ao exército de Luculo na Hispânia. Asdrúbal retirou para o seu acampamento, montado numa colina, e iniciaram-se negociações, com Cipião no papel de mediador. As conversações romperam-se quando os Cartagineses recusaram entregar Asasis e Suba para serem punidos. As tropas de Masinissa construíram uma paliçada e um fosso em redor do terreno elevado ocupado pelo inimigo, algo que terão provavelmente aprendido durante o seu serviço com o exército romano. Sem possibilidade de serem aprovisionados e não querendo tentar um rompimento do cerco nem admitir a derrota, os homens de Asdrúbal não tardaram a consumir a comida que tinham consigo. Imóveis, os Cartagineses mataram e comeram os animais de carga, e depois as montadas da cavalaria. Já sem lenha para cozinharem a carne que constituía agora o essencial da sua dieta, os soldados partiram os escudos aos bocados para os utilizarem como combustível.

Dá a sensação de que Asdrúbal contava que os Númidas ficassem sem provisões e dispersassem, mas o exército que Masinissa criara durante o seu reinado era nitidamente uma força muito mais organizada e eficiente do que qualquer contingente tribal de antanho. Por fim, Asdrúbal rendeu-se, prometendo que Cartago pagaria uma indenização de guerra durante cinquenta anos e que receberia de volta os aristocratas que tinham fugido para a corte de Masinissa. Ao abandonarem o acampamento, os soldados cartagineses foram atacados por um grupo de cavaleiros númidas liderados por Gulussa e muitos foram mortos. E impossível saber se o ataque foi premeditado ou se contou com o envolvimento de Masinissa, pois também se tem revelado impossível atribuir responsabilidades por massacres similares mais recentes. Asdrúbal e muitos dos seus oficiais escaparam incólumes.

A capacidade de Cartago para criar um exército e travar uma guerra, ainda que sem êxito, confirmou os receios e suspeitas de Roma. O tratado de 201 proibia expressamente Cartago de declarar a guerra na África sem aprovação romana. Esta violação seria provavelmente suficiente para originar veementes protestos mas o Senado romano, mais experiente em diplomacia depois de cinquenta anos de envolvimento no mundo helenístico, procurava um pretexto para uma guerra aberta. Entretanto, foram iniciados os preparativos para uma grande invasão da África, mas sem declarar o seu propósito.

De modo característico, os Cartagineses tentaram deitar as culpas para o seu comandante no terreno e negar as suas responsabilidades pela guerra recente. Asdrúbal, Cartalão (o líder do partido popular) e vários outros oficiais foram condenados à morte. As tropas de Asdrúbal ter-se-ão mantido leais ao seu comandante, dado que, pouco depois, ele surge à frente de 30.000 homens. Foram enviados a Roma embaixadores para se queixarem da provocação de Masinissa e condenarem os oficiais púnicos que tinham irresponsavelmente entrado em guerra. A resposta romana foi observar que se as autoridades cartaginesas se tivessem verdadeiramente oposto à guerra teriam condenado os seus comandantes antes de eles passarem à ação. A delegação foi brindada com a frase cniptica de que Cantago devenia xdar satisfaçoes ao povo romano). Uma segunda embaixada não conseguiu descobrir o que queriam os Romanos dizer com aquilo (9).

Nesta altura, Utica passou-se para os Romanos e os seus portos forneceram-lhes uma base ideal para atacar Cartago. Em 149, o Senado e os Comitia Centuriata aprovaram a declaração de guerra. Ambos os cônsules seriam enviados para África, Mânio Manilio no comando do exército e Lúcio Márcio Censorino à frente da esquadra. Tal como em 218 e 205-204, Os Romanos concentraram-se em Lilibeu, na Sicília, de onde embarcariam para África. Entretanto, Cartago enviou outra embaixada a Roma, e o Senado exigiu que 300 reféns, filhos das principais famílias nobres, fossem entregues em Lilibeu no prazo de trinta dias. Assim foi feito, apesar de o Senado apenas ter garantido aos Cartagineses o seu território e que seriam governados pelas suas próprias leis.

O fraseamento evitou cuidadosamente qualquer menção da cidade de Cartago, um subterfúgio semelhante à justificação técnica utilizada por Cipião, em 203, para romper as tréguas. Os reféns foram levados para Roma num grande "dezesseis", um navio provavelmente confiscado a armada macedônica no fim da Terceira Guerra Macedónica.

Não obstante a aceitação das exigências romanas por parte dos Cartagineses, os cônsules rumaram a Utica. Ainda sem certezas quando as intenções dos Romanos, Cartago enviou uma delegação aos cônsules, que a receberam com grande pompa, sentados numa tribuna, flanqueados pelos seus oficiais superiores e à frente do exército atrás, formado em parada. Foi uma exibição intimidadora do poderio de Roma, destinada a persuadir os embaixadores de que qualquer resistência às exigências dos cônsules seria infrutífera. Censorino, o primeiro a ser eleito pelos comícios e que era provavelmente o mais velho e o melhor orador dos dois, respondeu as indagações dos Cartagineses com a exigência de que a cidade deveria entregar todo o armamento que possuísse. Mais uma vez, apesar do seu nervosismo face a solicitação, os Cartagineses submeteram-se. Diz-se que entregaram 200.000 panóplias, 2.000 engenhos de guerra de torção e quantidades enormes de dardos, flechas e munições para catapulta. Como de costume, a fiabilidade destes números é discutível, sendo óbvio que as fontes romanas estariam dispostas a exagerar a condição militar da cidade que os Romanos se preparavam para destruir, mas não restam dúvidas de que grandes quantidades de armas foram entregues aos representantes de Roma.

A chegada ao acampamento romano do comboio transportando estes equipamentos constituiu o preliminar para uma ordem ainda mais severa. Censonino informou os embaixadores de que os Cartagineses deveriam abandonar a cidade de Cartago. A população mudar-se-ia para uma nova urbe, que instalaria onde lhe aprouvesse, desde que fosse a pelo menos a 15km do mar. Cartago seria arrasada mas os santuários e cemitérios que lhe estavam associados ficariam intactos e os Cartagineses poderiam visitá-los. Foi um golpe devastador, pois a cidade era o centro físico, espiritual e emocional do Estado. E o corte da ligação de qualquer nova comunidade ao mar, durante tanto tempo fonte da riqueza púnica, duplicava a magnitude do desastre. Diz-se que Censorino recorreu a argumentos platônicos para sustentar a opinião de que o mar exercia uma influência malsã sobre a vida politica e social das cidades. No fim, os embaixadores foram grosseiramente postos a andar pelos lictores dos cônsules. No entanto, prometeram apresentar os termos ao seu governo e até sugeriram que a esquadra romana fizesse uma demonstração de força na baia da cidade para recordar aos cidadãos a alternativa à aceitação das exigências romanas.

Os rumores tinham-se espalhado rapidamente em Cartago, e uma multidão ansiosa rodeou os embaixadores quando eles entraram na cidade e ficaram a espera para apresentarem o seu relatório ao Conselho dos 104. A exigência romana foi imediatamente rejeitada. Os homens que tinham apelado a conciliação de Roma foram linchados, bem como alguns infelizes mercadores italianos que se encontravam na cidade. Os escravos foram libertados e recrutados para o exército, Asdrúbal foi perdoado e foram-lhe enviadas mensagens implorando-lhe que auxiliasse os seus ingratos concidadãos. Outro Asdrúbal, filho de uma das filhas de Masinissa - mais um exemplo dos fortes laços existentes entre as nobrezas cartaginesa e númida - recebeu o comando na própria cidade de Cartago. Desta vez, os cidadãos púnicos, na sua totalidade, empenharam-se de corpo e alma no esforço de guerra. Produziram-se rapidamente armas, e as mulheres sacrificaram os seus longos cabelos para cordas para as catapultas de torção.

A Terceira Guerra Púnica tinha começado. Os Romanos ficaram algo surpreendidos com o fato de os Cartagineses decidirem lutar depois de se terem submetido docilmente a cada uma das suas escandalosas exigências. Os Romanos tinham dado mostras de um cinismo extremo, dissimulando as suas intenções de destruírem a cidade enquanto extorquiam o máximo possível de concessões. Cartago, desprevenida e desarmada, parecia à sua mercê. A verdade é que a guerra se arrastaria até ao ano de 146 e se revelaria muito mais difícil do que os cônsules esperavam.

Fonte: www.roma.templodeapolo.net

Terceira Guerra Púnica

A Terceira Guerra Púnica foi a última das guerras a opor Roma e Cartago (149 a.C. - 146 a.C.) tendo acabado com a derrota e destruição desta última às mãos dos romanos de Cipião Emiliano; diz a lenda ter sido provocada pela repetida afirmação no Senado, por parte Catão, o Velho, de um dito que se tornou proverbial: delenda est Carthago (Cartago precisa ser destruída).

Embora as duas partes estivessem em paz desde o fim da Segunda Guerra Púnica, Roma não conseguia ficar tranquila com a rival, pois mesmo com todos os embargos e imposições que o tratado de paz fixado entre as duas cidades na última guerra, Cartago, superando todas as adversidades, voltara a prosperar. Mas Roma não podia deixar a velha rival se erguer novamente, portanto usou um ardil muito usado na antiguidade. Como Cartago estava proibida de fazer guerra contra qualquer povo, sem o consentimento do senado romano, secretamente mandou seus novos aliados na África, os Numidas, a atacarem o território Cartaginês.

Durante três anos o senado Cartagines implorou para Roma o direito de defesa, sempre sendo ignorado, claro, pelos romanos, até quando finalmente os Cartigeneses resolveram se defender, estava aí criado o pretexto que Roma precisava para atacar Cartago. Então, no ano 149 a.c. as legiões atacaram e cercaram a cidade de Cartago.

Este sítio durou três anos, e segundo a lenda ele foi tão duro que as mulheres cartaginesas cortavam os cabelos para fazer corda e seus defensores lutavam dia e noite para defender sua cidade, que em 149 a.C., os romanos finalmente conseguiram adentrar, e mesmo assim tiveram que lutar ferozmente para vencer a resistência, pois os cartagineses defenderam cada metro quadrado, mas pacientemente os romanos foram tomando casa por casa até entrar na cidadela interna e vencer a última resistência.

Da poderosa Cartago, restaram apenas um butim de 50.000 cativos aproximadamente e uma cidade em escombros. O ódio dos romanos era tão grande pela antiga rival que segundo a lenda, após a queda da cidade, ela foi totalmente destruída e sobre suas edificações o chão foi salgado para que nada ali crescesse (Embora isso seja altamente improvável devido ao valor do sal na época). A tarefa foi tão bem executada que até hoje os arqueólogos não sabem o local exato da sua localização. A Cartago que aparece nos mapas romanos após as Guerras Púnicas é uma cidade fundada pela própria Roma como uma colônia

Fonte: pt.wikipedia.org

 

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