A cachaça não apenas teve seu nome popularizado e generalizado aqui no Brasil. Ela nasceu aqui, juntamente com a produção açucareira. a partir de 1584. O trabalho escravo foi fundamental para o desenvolvimento da indústria do açúcar, concorrendo, dentre outras coisas, para aumentar a produção da cachaça, pois os alambiques estavam situados quase que exclusivamente nos engenhos.
Nos engenhos, era costume dar cachaça aos escravos na primeira refeição do dia, a fim de que pudessem suportar melhor o trabalho árduo dos canaviais. Por isso, foi considerada, no início, bebida dos negros; posteriormente, de índios e também de animais. Segundo Gilberto Freyre (1952):
a cachaça era, inicialmente, bebida dos negros, os quais, tinham três refeições por dia e um pouco de aguardente de manhã. A primeira refeição consistia de farinha de pirão com frutas e aguardente. Nos dias feriados, era costume, em algumas fazendas e em alguns engenhos, matar um boi para regalo dos escravos e dar-lhes aguardente, que os tornava alegres e os animava para os batuques (p. 16).
A cachaça, assim como o vinho, alegra o coração. Sobretudo o do homem pobre, que tem no copo o seu remédio de males. A cachaça é ainda um poderoso estimulante para levantar as energias, porém, parece-nos conveniente ressaltar que toda afirmação social é ambivalente.
Assim sendo, vários podem ser os motivos a levar alguém a beber: a tristeza, a alegria, a falta de coragem para a tomada de decisões e tantos outros sentimentos humanos que projetam na cachaça um paliativo, tornando-se um perturbador cultural e, até mesmo, um vício.
Nesses termos, a cachaça foi e sempre será a gostosa e até mesmo a catastrófica revelação para negros, índios e brancos, enfim, homens comuns que depositam nela suas diversas emoções. Ambivalência da frustração, da fuga à realidade opressiva ao que é tido como o eterno desajustado, hóspede de todas as culturas, como ressalta Câmara Cascudo (1986), nestes versos:
Minha mãe teve dois filhos,
Fui eu só que dei prá gente:
Vendi tudo o que era nosso,
Bebi tudo de aguardente.
A cachaça a Deus do Céu
Tem o poder de empatar:
Porque se Deus dá juízo,
Cachaça pode tirar... (p. 44).
Reserva um canto na pança
Para enchê-lo de cachaça,
Pois toda nossa esperança
Se encerra nessa desgraça (p. 44).
Homem que bebe cachaça,
Mulher que errou uma vez,
Cachorro que pega bode,
Coitadinho deles três! (p. 44).
Os escravos que trabalhavam constantemente com água até os joelhos, por causa da levada, que é como se chamava uma corrente de água que se desvia de um rio para mover um engenho ou regar uma horta, estavam sempre sujeitos ao reumatismo. Sua alimentação, que não era das mais nutritivas e consistia principalmente em feijão cozido e fubá de milho, o qual juntando-se à água quente, se transformava numa pasta grossa chamada angu, produzia em seus corpos uma debilidade geral. A cachaça, nesses termos, tinha o poder de, por alguns momentos, afastá-los da tristeza de sua condição humana.
Os indígenas também produziam a cachaça, uma operação bastante intrigante, como apresenta Gardner (1975), referindo-se a essa produção: "É a mastigação das diferentes substâncias vegetais necessárias à composição das bebidas espirituosas, principalmente a do cauim, licor com o qual o selvagem se embebeda nos seus divertimentos" (p. 210). É ainda Gardner quem salienta:
A fabricação dessa espécie de aguardente é tão incrível quão repugnante: as mulheres reunidas dedicam várias horas consecutivas à mastigação dos grãos de milho, cuspidos, depois de triturados, dentro de um vasilhame dentro do qual elas o colocam. Essa estranha pasta fermenta em seguida na água quente durante doze a dezesseis horas; após essa primeira preparação, ela é despejada em um grande recipiente de madeira no qual é deixada ainda a fermentar, de mistura com uma maior quantidade de água igualmente quente. Durante essas duas importantes operações tem-se o cuidado de agitá-la com uma grande vareta; a combinação química está terminada. Esse licor, excessivamente espirituoso, manipulado sem cessar sobre o fogo, deve ser bebido ainda quente. A batata-doce e a mandioca podem produzir o mesmo resultado, mas as mulheres preferem o grão de milho, mais agradável para elas na primeira parte dessa "saborosa preparação" (p. 210).
Não é, entretanto, a sua única bebida alcoólica; muitos frutos, como o ananás, o caju, e outros, ácidos e mais ou menos resinosos, produzem, pela maceração, licores extremamente capitosos que os índios bebem com paixão. A aguardente, entre os indígenas, fazia parte também das suas comemorações festivas, como relatam Spix e Martius (1968):
Os preparativos da festa consistiam na confecção de uma espécie de licor (ivir, vira, vinassa), obtida com a decocção do milho. Para isso, algumas mulheres pilavam o milho em tronco de árvore escavado, enquanto outros o colocavam em um vaso de barro, para submetê-lo à ebulição. Em seguida, o milho era cozido e fermentado, para se transformar em uma bebida espirituosa. Enquanto as mulheres executavam esses trabalhos, os homens ficavam de lado ociosos e agachados em torno de uma fogueira (p. 74).
Nos trechos acima descritos, pode-se apreender um pouco da história da cachaça, como ela é cultuada na sociedade indígena brasileira, aos modos de fazê-la, o hábito de bebê-la e, também, como os nossos índios dedicavam à cachaça uma importância ímpar, fazendo-a presente nos momentos mais importantes de comemorações em suas tribos.
Fonte: www.chefonline.com.br