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História da Eletricidade no Brasil

A Eletricidade chega ao Brasil

Introdução

Este texto trata de questões relativas ao início da difusão dos conhecimentos sobre eletricidade e magnetismo no Brasil.

As aplicações da eletricidade maravilharam o mundo por ter invadido o cotidiano das pessoas nos meados do século XIX, principalmente com o aparecimento da telegrafia (1837); da luz elétrica (1879); do telefone (1876) e, finalmente, com a entrada em cena da energia elétrica ainda em fins do século XIX a qual invadiu todos os recantos do mundo. Porém as principais bases científicas, da eletricidade e do magnetismo, que permitiram essas aplicações tecnológicas consolidaram-se no início do século XIX.

O Brasil foi alvo da difusão dos conhecimentos elétricos que animaram os cientistas europeus e fascinaram o público no início do século XIX. As primeiras notícias veiculadas no Brasil sobre esse campo do conhecimento apareceram de forma visível durante a presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro (1808-1821).  Como se sabe D. João abandonou Portugal em 1807 e chegou a sua maior colônia, o Brasil, em janeiro de 1808 na Bahia. Seu abandono de Portugal foi, em última instância, devido à disputa por hegemonia econômica e política na Europa, entre a França e a Inglaterra. Portugal era um parceiro da Inglaterra e teve suas terras invadidas pela França. Esse exílio forçado foi responsável por inúmeras transformações no Brasil de então e em especial em sua cultura científica.

Antes da presença de d. João em território brasileiro a existência de imprensa nessa colônia era proibida e não havia instituições de ensino superior, exceto as relacionadas ao ensino militar e as ordens religiosas. A vinda de d. João alterou esse quadro abrindo escolas e instituindo a imprensa além de criar bibliotecas, jardins botânicos e animar a arte.

Com a imprensa vieram os jornais.

Os primeiros a aparecer foram: A Gazeta do Rio de Janeiro(1808), no Rio de Janeiro, e O Idade d’Ouro(1808), na Bahia, inteiramente editados no Brasil. Também entraram no Brasil o Correio Brasiliense e o Investigador Português,ambos editados na Inglaterra, assim como os Annaes das Sciencias das Artes e das Letraseditado na França, todos no vernáculo. Eles, cada um a sua maneira, destacaram matérias sobre ciências. Um periódico tratando explicitamente de assuntos científicos foi concebido, realizado e editado no Brasil trata-se de O Patriota que difundiu e divulgou a cultura científica no Brasil no início do século XIX.  No sentido de contextualizar o aparecimento dos conhecimentos sobre eletricidade no período mencionado faz-se aqui um ligeiro esboço da evolução da eletricidade em solo europeu.

 

Traços do saber elétrico e magnético na Europa

A história da eletricidade sob o ponto de vista de uma área de conhecimento inserto no campo da ciência moderna pode ser contada a partir da publicação do livro “De Magnete” escrito por Willian Gilbert (1540-1603) em 1600. Esse livro traz entre outras coisas a separação nítida entre os fenômenos elétricos e magnéticos, além de estabelecer a existência do magnetismo terrestre. 

Algumas décadas após W. Gilbert ter indicado claramente que fenômenos elétricos poderiam ser obtidos por ações de fricção, não apenas do âmbar (em grego elektron), mas igualmente de outros materiais, surge um físico alemão, Otto Von Guerick (1602-1686), que constrói, de fato, a primeira máquina que produz eletricidade em quantidade bem apreciável (1672). Esse dispositivo é considerado por alguns como a primeira máquina elétrica construída pelo homem, mesmo que não fosse intenção inicial de seu autor a produção de eletricidade.

Os dispositivos posteriores que produziam eletricidade foram incrementados e passaram a gerá-la em quantidade suficiente para que uma série de novos experimentos pudesse ser levada a cabo, determinando-se novas propriedades e comportamentos da eletricidade. A eletricidade tornou-se um modelo de pesquisas experimentais durante todo o século XVII e XVIII.

Muitos aparatos e instrumentos foram construídos para esse fim. Foram diversos os homens de ciência, assim como variados os países onde se pôde contar com desenvolvimentos originais concernentes à eletricidade. Niccolà Cabeo (1585-1650) jesuíta italiano que fez observações sobre a repulsão elétrica; Stephen Gray (1666-1736) cientista inglês, colaborador do Philosophical Transactions, descobriu a possibilidade da condução elétrica (1729); François de Cisternay Dufay (1698-1739) oficial de infantaria francesa em 1733 afirmou que havia dois tipos de eletricidade distinguindo-os pelos nomes de vítrea e resinosa; John Canton (1718-1772) físico inglês e John Carl Wilcke (1732-1796) colaboraram na fixação da idéia de que havia dois tipos de eletricidade.

O padre Abbé Jean Antonie Nollet (1700-1770) tido como o mais proeminente cientista francês a lidar com os fenômenos elétricos construiu novos aparatos e realizou muitas experiências com a eletricidade e foi o responsável por trazer a idéia da existência de dois fluidos elétricos para explicar os fenômenos dessa área de saber. Petrus Musschenbroek (1692-1761) holandês, construtor de instrumentos científicos, e Ewald Georg von Kleist (1700-1748) alemão realizaram experiências que redundaram na possibilidade de acumular eletricidade através de uma garrafa contendo água que passou a ter o nome de “Garrafa de Leyden”. Franz Ulrich Theodosius Aepinus (1724-1802) alemão, trazendo as idéias de fluído elétrico e ação à distância; Joseph Priestley (1733-1804) inglês que intuiu haver semelhança entre as forças da gravidade e da eletricidade sugerindo que a força elétrica de atração, ou de repulsão, variava inversamente com o quadrado da distância que separa as cargas elétricas; Jesse Ramsdem (1735-1800) inglês fabricante de instrumentos de precisão, construiu novas máquinas elétricas para produzir eletricidade contendo discos de vidro (1766); Jean Baptiste Le Roy (1719-1800) francês fez melhorias nas máquinas de atrito que produziam eletricidade.  As descobertas efetuadas pelo inglês Henry Cavendish (1731-1810) foram originais, resgatadas em meado do século XIX por James C. Maxwell (1831-1879).

Os fenômenos elétricos foram trabalhados tanto por amadores, como por investigadores pertencentes às universidades e academias científicas. Benjamim Franklin (1706-1790) americano, portanto fora do eixo europeu arriscou explicações sobre a natureza da eletricidade estabelecendo que cargas de mesmo nome se repelem e cargas de nomes diferentes se atraem. Além disso, assentou a idéia da conservação das cargas elétricas e inventou o pára-raios, a primeira grande aplicação dos conhecimentos elétricos.

O fato é que antes de iniciar o século XIX a eletrostática já havia sido firmada nos seus aspectos essenciais. Foi importante o papel de Charles Coulomb (1736-1806) que estabeleceu experimentalmente (1785) uma lei que diz respeito à ação entre as cargas elétricas. A lei formulada fixou que força existente entre duas cargas elétricas é inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa, utilizando para essa experiência uma balança por ele construída. Essa foi a primeira lei quantitativa na história da eletricidade.

Todas as experiências e descobertas tornaram-se de conhecimento recíproco dos cientistas da época. Mas mesmo assim havia muitos pontos obscuros no entendimento da natureza da eletricidade. Eram várias as teorias que procuravam dar conta do fenômeno elétrico. Alguns consideravam a atração e a geração de eletricidade por atrito como os fenômenos fundamentais. Neste caso a repulsão era tida como efeito secundário. Outros consideravam a repulsão e a atração como os fatos fundamentais na construção de um corpo teórico sobre a eletricidade. Ainda havia os que consideravam a eletricidade um fluido e os que consideravam a existência de dois fluidos na explicação dos fenômenos elétricos. Mas todos eles tinham dificuldades em explicar todos os fenômenos observáveis.

O início do século XIX proporcionou uma grande mudança nos conhecimentos sobre a eletricidade. Se a produção de eletricidade tinha, até então, como base principalmente o atrito intermediado pelo movimento mecânico, no início do século XIX anuncia-se uma extraordinária descoberta: em Londres, no dia 28 de Junho de 1800, sir Joseph Bank (1743-1820), naturalista inglês, realiza a leitura, na “Royal Society”, de uma carta de Alessandro Volta (1745-1827) em que relatava ter o físico italiano conseguido produzir corrente elétrica de forma contínua. Marcava-se assim o segundo mais importante período história da eletricidade: a da passagem do período da eletrostática ao da eletrodinâmica. Este era o quadro, em linhas gerais, do estado da eletricidade até princípios do século XIX, na Europa, salvo as intervenções genuínas na América por Benjamin Franklin já referenciado acima.

A Eletricidade no Brasil

No bojo da irrupção das atividades científicas no Brasil, no período joanino brasileiro, alguns fatos relacionados à eletricidade merecem destaques. Em primeiro lugar se observa a chegada no Brasil de vários livros tratando de estudos sobre eletricidade. Alguns escritos do Padre Nollet chegaram ao Brasil no princípio do século XIX, precisamente no ano de 1810. Eles constam do inventário da Real Academia dos Guardas Marinhas registrando os objetos que embarcaram na Charrua S. João Magnânimo, por ocasião da presença da Corte de Portugal ao Brasil, vindas de Portugal. O inventário, manuscrito, registra os seguintes escritos de Nollet: Art des experiency; Leçons des Phisique Experimentale; Lettres sur L’Electricité; Essay sur l’Electricité; Recherchy sur les Fenomeny Eletriques. Ainda hoje podemos encontrar no Arquivo da Marinha esses livros.

Além dessas obras vieram: o  Del‘Origine des forces magnetics, de Prevost - provavelmente trata-se de Constant Prevost (1787-1856), um geólogo francês; o Essay on Electricity, de Adams em forma de brochura, como consta no inventário. Este último trata-se de George Adams, (1750-1795), filho do construtor de instrumentos científico inglês de mesmo nome, intitulado Essay on ellectricity, explanining the theory and paractice of that useful science, and the mode of applying it to medical  purposes with na essay on magnetism. 3a édition, publicado em Londres em 1787.

Quanto aos livros arrolados acima, certamente foram as primeiras obras sobre eletricidade e magnetismo, que se tem notícias, chegados ao Brasil. Tanto na Academia de Guardas Marinhas (criada em 1808) quanto na Academia Real Militar (criada em 1810), que na época tinham «status» de curso superior, não havia cursos que contemplassem assuntos relativos a esses campos do conhecimento.

As máquinas eletrostáticas podiam produzir grandes choques elétricos. Esses choques tornaram-se mania do momento e foram considerados por alguns como tendo propriedades terapêuticas. Esse costume de dar choques para curar chegou, embora um pouco mais tarde, até o Brasil.

Na Gazeta do Rio de Janeiro de 15 de julho de 1818 (no 56) podia-se ler: O Doutor Gardnerfaz saber ao público que ele continua a eletrizar os doentes na forma do costume, às quartas e sábados das 9 horas da manhã à 1 da tarde, nas casas da sua residência no Seminário de São Joaquim, onde atualmente tem seu laboratório, e dá as suas lições. Daniel Gardner era um médico inglês, membro da Sociedade Filosófica e Matemática de Londres, professor de química da Academia Real Militar (ARM), tendo escrito o primeiro livro de química produzido no país (um compêndio para o ensino na ARM denominado Sylabus).

Um periódico saído em 1813, O Patriota, criado por Manoel Ferreira de Araújo Guimarães foi o primeiro a dar atenção à cultura científica de uma forma mais explicita e variada, refletindo as preocupações do pequeno quadro de intelectuais que exerciam os mais diversos trabalhos com a ciência de então. Através dele, em fevereiro de 1813, no número 2, foram publicados extratos de duas cartas de Johann Salomo Christoph Schweigger (1779-1857), inventor do primeiro galvanômetro, endereçadas ao naturalista e físico francês Jean Claude Delamethrie (1743-1817) e versavam sobre o que eles então denominavam de Galvanismo – uma forma da época de tratar o fenômeno da corrente elétrica. A primeira era nitidamente uma descrição minuciosa de um aparato, semelhante a uma pilha, para produzir fenômenos elétricos. Mostra como se conduziu, passo a passo, um experimento nesse campo, fornecendo detalhes de montagem do aparelho. A carta é confusa e pouco clara para o entendimento do fenômeno em epígrafe. Por ela pode se notar a falta e a precariedade do conhecimento sobre o assunto. Mas também indica o deslumbramento que o tema exercia. É notável o fato de ter sido publicada no “O Patriota”.

Alguns trechos mostram a imprecisão em que foi abordado o tema na carta, entre eles lê-se: “Desejáveis uma miúda descrição do meu aparato para produzir galvanismo por meio do fogo. A minha bateria é composta de um condutor sólido, e um líquido”. [1]

A segunda carta , deixa claro o sentido exclusivamente experimental de suas pesquisas. Pouco se observa de teoria, e não há nenhuma explicação da razão da ocorrência dos fenômenos da forma descrita nos seus experimentos. A conclusão referida pelo autor, diz ao método de produzir "Galvanismo pelo fogo" mostrando que o fenômeno não era inteiramente compreendido, do ponto de vista teórico, por Schweigger.  De qualquer forma, apesar de não esclarecer os fenômenos, esse singular fato de publicar artigo introduzindo a questão do galvanismo na imprensa brasileira era significativo e pioneiro.

Outro periódico a tratar de temas sobre a eletricidade foi o Annaes das Sciencias, das Artes e das Letras editada em Paris, no vernáculo. Essa revista registrava um acompanhamento imediato dos descobrimentos da Europa em temos das ciências e tecnologia, as novidades eram registradas tão logo eram tornadas públicas pelos cientistas, como por exemplo, as descobertas de Hans Christian Oersted (1777-1851), físico e químico dinamarquês, sobre a relação da eletricidade com o magnetismo. Em segundo lugar, muito dos artigos e memórias eram extratos de teorias formuladas contemporaneamente à publicação do periódico, com um nível científico para iniciados. Muitos eram, na verdade, bem elaborados resumos do estado da arte em determinada área. A que mais sobressaia era a química com a reprodução de artigos e de parte das teorias contemporâneas.

O exemplo mais notório foi o artigo de Jöns Jacob Berzelius (1779-1848) químico sueco. Seus artigos permitiam perfeitamente saber do estágio das preocupações e trabalhos que vinham sendo realizados na química. O aspecto fundamental para o Brasil, ainda durante o período joanino, era que essa revista contou com a assinatura de mais de duas centenas de assinantes no Brasil. O número de assinantes no Brasil dos Annaes era praticamente o mesmo que o de O Patriota.

O Tomo I (1818) apresenta um texto denominado “Da eletricidade e do galvanismo” que noticia assuntos recentes referentes a melhoramentos na pilha elétrica, que também era denominado de eletromotor.

Em artigo sobre a eletricidade no mesmo tomo pode-se anotar: Muito importante foi para a física o descobrimento dos fenômenos elétricos produzidos pela fricção de certos corpos, e das leis da transmissão deste singular agente. Reconhece-a sua identidade com o raio; mais os trabalhos de Franklin e dos mais físicos não tem até hoje podido decidir se a eletricidade é uma substância simples ou composta, e se a luz e o calor elétricos são ou não parte da sua essência, ou só fenômenos concomitantes. O que é certo e evidente é que os fenômenos da eletricidade, bem como os da luz, do calor, e do magnetismo não são da mesma natureza, nem seguem as leis dos corpos graves resistentes e impenetráveis.[2]

No Tomo VII, 1820, é publicada uma resenha analítica sobre a teoria das proporções químicas e a influência da eletricidade na química por J. J. Berzelius. Era resenha bem extensa, pormenorizada, dava um panorama do estado da química, principalmente, da parte eletroquímica e sobre a teoria da combinação química pela proporção fixa, sobre a decomposição de substâncias utilizando-se a eletricidade.  Nessa resenha há um balanço do papel de vários químicos e cientistas na constituição dos novos saberes sobre o conhecimento químico.

São relacionados os feitos e os nomes de importantes cientistas como John Dalton (1776-1844) físico e químico inglês; Alexandre Von Humboldt (1769-1859) filósofo naturalista e geógrafo alemão; Louis Joseph Gay Lussac (1778-1850) físico e químico francês; William Hyde Wollaston (1766-1828) físico e químico inglês; William Nicholson (1753-1815) químico e físico inglês e o químico inglês Humphry Davy. Através dessa resenha analítica podia-se ter uma imagem, atualizada para o momento, da teoria da eletricidade, assim também como dos obstáculos existentes.

No tomo X (1820), debaixo da denominação de “Notícias das ciências, das artes, etc.” aparecem pequenas notas sobre a eletricidade. Uma delas refere-se a aperfeiçoamento técnico da bateria. Em outra nota se registra que René Just Haüy (1743-1822), mineralogista francês, mostra meios de reconhecer pedras preciosas por meio da eletricidade

A nota seguinte trata de problemas do galvanismo, onde se observa que os físicos estavam divididos entre três concepções teóricas sobre o galvanismo: a) a de A. Volta que considerava ser todos os fenômenos galvânicos efeitos da eletricidade, b) a de Donavamque julgava serem químicos os fenômenos galvânicos e c) a de Wollaston que sustentava que os fenômenos galvânicos eram elétricos, mas que a eletricidade era desenvolvida pela ação química.

Uma notícia bastante surpreendente, encerrando nesse número a série delas, é a que apenas informa ter Hans Christian Oersted, descoberto a influência da eletricidade sobre a agulha magnética nos seguintes termos: “M. Oersted, secretário da Academia de Copenhague, descobriu a singular influência do galvanismo sobre a agulha magnética, e M. Pictet, M. Arago e M. Ampére confirmaram por experimentos a opinião do sábio dinamarquês...”.[3]

O tomo XI  daria uma matéria mais extensa sobre a descoberta de Oersted. Havia muito tempo que era conhecido a mútua influência dos dois fluidos ou agentes, magnético e elétrico. Sabia-se que os condutores elétricos se magnetizavam naturalmente pela eletricidade do ar atmosférico, que uma descarga magnética magnetizava uma agulha de aço; e Ritter, em 1800, tinha concluído de alguns ensaios, que não foram verificados depois, ter o globo terrestre dois pólos elétricos, como tem meridiano magnético. Estava reservado a M. Oersted estabelecer o que era considerado sobre a identidade das forças químicas e elétricas, traduzidas em francês por M. Marcel de Seres e publicada em 1807.  O descobrimento de M. Oersted consiste em ter provado por experiências, que um fio metálico, em comunicação com as duas extremidades de um aparelho de Volta, adquire a propriedade mui notável de obrar, sem contato, em distância maior ou menor, sobre uma agulha magnética.[4]

Esse pequeno artigo noticiou também sobre as várias experiências, e as formulações matemáticas de André Marie Ampére(1775-1836) matemático e físico francês, e François Arago (1786-1853), astrônomo e físico francês, que tão logo tomaram conhecimento puseram-se a realizar para esclarecer tamanha descoberta.

No tomo XII (1821) sai outra matéria sobre os “efeitos magnético-galvânicos” onde se prenuncia a medição das correntes, pois se afirma: Com esse aparelho (composto de lâminas de cobre e de zinco torcidas em espiral) obtiveram (sic) uma intensidade de efeitos magneto-galvânicos, superior a quanto até agora se conhecia.[5]

No tomo XIII (1821) vieram a lume novas notícias sobre eletricidade estática onde se nota que a polêmica em torno da existência de um ou dois fluidos elétricos não havia sido esgotada. É interessante também a observação feita pelo Annaes de que a influência da eletricidade sobre o magnetismo já havia sido pressentida por outros pensadores. Neste texto aparece pela primeira vez a expressão eletromagnética.

A resenha analítica que é publicada no tomo XVI e continuada no tomo XV é notável, cerca de 50 páginas. Era um resumo dos principais pontos da teoria de eletricidade, onde mostra as contribuições de Benjamin Franklin, de Franz Ulrich Theodor Hoch Æpinus (1724-1802), físico alemão e Charles Coulomb (1736-1806), físico francês. Sobre Coulomb há uma extensa visita as suas contribuições descrevendo em detalhes as medidas feitas pelo eminente cientista das forças existentes entre as cargas elétricas, onde são apresentadas formulações quantitativas dos experimentos realizados pelo eminente cientista francês.

São também vistas as experiências e formulações de Siméon Denis Poisson (1781-1840), matemático e físico francês, sobre eletrostática e um extenso resumo sobre algumas propriedades da eletrostática. Há uma descrição do funcionamento da garrafa de Leyden e sobre máquinas, até então existente, destinadas a fornecer eletricidade, como as de fricção, o eletróforo de Volta e a pilha elétrica. O artigo como um todo era muito mais do que um trabalho de divulgação da eletricidade; pelo aspecto qualitativo e quantitativo poderia ser considerado um artigo básico para o entendimento do fenômeno elétrico, algo que não era estudado no Brasil, tampouco nas academias militares e nas escolas de medicinas, que representavam uma espécie de curso superior no Brasil joanino.

Junto com os livros de eletricidade, compondo a biblioteca da Academia de Guardas Marinhas que veio de Portugal, o inventário consigna também a vinda de uma máquina elétrica de Nairne e magnetos naturais.[6] A máquina de Nairne (1772), construída por Edward Nairne (1726-1806), mecânico inglês, era um equipamento que produzia eletricidade eletrostática através de fricção de almofadas com cilindros de vidro. Ela foi com bastante probabilidade a primeira máquina produtora de eletricidade existente no Brasil.

O Correio Brasiliense também divulgou, em várias oportunidades, assuntos tratando de eletricidade. Um dos textos falava sobre melhoramento dos condutores usados nos pára-raios[7]. Era um texto extraído de periódico Americano. Mas é em dezembro de 1820[8] que sai uma notícia referente a uma memória de Humphry Davy, sobre a influência do Galvanismo em magnetizar, pelas quais estabelece claramente o fato de que o fluído Galvânico dirigido de maneira apropriada é capaz de comunicar as propriedades magnéticas a barras de aço. Esse artigo dava a falsa impressão de que coube a esse cientista inglês a primazia do fenômeno descoberto por Oersted já comentado anteriormente. De qualquer forma tal fenômeno que inaugura a construção da teoria eletromagnética fora divulgado tanto pelos Annaes da Sciencias como pelo Correio Brasiliense indicando que esse tema da física não ficou alheio ao público letrado do Brasil.

Conclusão

Se no campo econômico e social a abertura dos portos brasileiros ao comércio mundial significou um passo fundamental na busca por autonomia e enriquecimento interno do país igual feito representou a liberdade de imprensa, sem a qual não se poderia imaginar a possibilidade de existência de uma cultura científica que cuidasse da ciência moderna. Nesse contexto é que aparecem estudos, publicações, livros, e ensino todos sobre as ciências.

As áreas de saber se proliferam e vão ganhando corpo: a química, a física, a matemática, a agricultura, a mineralogia, a biologia, a anatomia, a fisiologia, a meteorologia e outras mais são representadas nos trabalhos e nas disciplinas ensinadas nas instituições criadas. Não ficou de fora a eletricidade, como um campo novo dentro da física. Mas com a diferença que os pontos básicos desse conhecimento teve aparição forte na imprensa periódica, do que propriamente no ensino. As instituições criadas não tiveram em seus programas o estudo da eletricidade, ou do magnetismo. Interessa também anotar que a eletricidade no princípio do século XIX tinha uma forte presença na parte prática apenas no que se referia a química, ou mais propriamente na eletroquímica.

Como o Brasil não contava intensamente com estudos de química: apenas havia um ensino na Academia Real Militar, cujo professor era o já citado Daniel Gardner, não chegando a ser uma disciplina fortemente explorada, pode-se dizer que um possível estudo da eletricidade ficaria adstrita aos seus aspectos teóricos e conceituais, o que não constituía um traço das atividades científicas no Brasil no período em que o Brasil foi sede do governo Português.

Como se pode inferir o Annaes das Sciencias divulgou, e mesmo forneceu matéria escrita suficiente para atrair homens de saber da época a mergulhar no estudo da eletricidade, tanto pelas indicações feitas como pelo conteúdo oferecido. O que as pesquisas sobre o assunto indicam é que isso não ocorreu. Mas com toda a certeza o conhecimento sobre a eletricidade não era fato desconhecido no Brasil na época da presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro.

[1] J. Scheweigger, Cartas de Scheweigger sobre o Galvanismo, In: O Patriota. 1ª subscrição, nº 2, fevereiro de 1813, p. 8/10.

[2] Idem, tomo I, p.76.

[3] Idem, tomo X, p. 110.

[4] Idem, tomo X, p. 110.

[5] Idem, tomo X,  p. 165

[6] Ver Antonio Luiz Porto e Albuquerque. (Pesquisa, notas e comentários). Da Companhia de Guardas-Marinhas e sua Real Academia à Escola Naval, 1782-1892. Rio de Janeiro, Biblioteca Reprográfica Xerox, 1982, p. 148-170.

[7] Correio Brasiliense, Literatura e Ciências, vol XIII, Julho de 1814 p. 59.

[8] Correio Brasiliense, dezembro de 1820, p. 687.

Fonte: www.rj.anpuh.org

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