Daguerre ou Talbot?

Curiosidades no interior de uma cabine, daguerreótipo feito pelo próprio
Louis Daguerre em 1837
Quem inventou o avião? Pergunte a um brasileiro e ele dirá que foi Santos Dumont. Pergunte a um norte-americano e ele dirá que foram os irmãos Wright.
Com a fotografia, existe uma polêmica do mesmo gênero. Enquanto os franceses celebram Daguerre como o pai da fotografia, os ingleses garantem que quem inventou a fotografia como a conhecemos hoje foi Talbot.
Na verdade, os princípios técnicos que permitem a obtenção de uma fotografia já são conhecidos há muito tempo. A produção de imagens pela passagem da luz através de um orifício é um fenômeno relatado desde Aristóteles (384 AC -322 AC), na Grécia Clássica, e que se tornou popular na Renascença Italiana (século XVI), quando foi batizado de camera obscura (em latim, câmara escura). Numa sala (ou numa caixa) mantida na escuridão, uma pequena abertura que permita a passagem de luz formará na parede oposta uma imagem invertida dos objetos do exterior. Uma lente no orifício proporcionará melhor qualidade à imagem. Basicamente, é um processo semelhante ao que ocorre com o olho humano.

Boulevard du Temple, Paris, daguerreótipo feito pelo próprio
Louis Daguerre em 1838
Fixar a imagem fotográfica sobre uma superfície, porém, foi um problema que levou mais tempo a ser resolvido. Desde o século XVII, é conhecida a propriedade de certos compostos de prata de escurecerem quando expostos à luz. Mas uma imagem capturada desta maneira desaparecia em seguida. Foi somente no século passado que métodos de conservar uma imagem foram aperfeiçoados.
O francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) é o autor da imagem fotográfica mais antiga que conhecemos, feita em 1826 ou 1827 sobre uma placa de estanho sensibilizada com sais de prata. Obter uma imagem daquelas era um processo lento e trabalhoso, e Niépce morreu antes de poder aperfeiçoá-lo. Coube a Louis Jacques Mandé Daguerre (1789-1851), que há alguns anos mantinha correspondência com Niépce e com ele compartilhava a pesquisa fotográfica, dar os passos seguintes. Foi Daguerre que, em 1835, descobriu como reduzir o tempo de exposição de várias horas para cerca de meia hora (aparentemente, a descoberta foi fruto de um acidente no qual uma chapa foi deixada perto dos restos de um termômetro quebrado). Dois anos depois, Daguerre resolveu o problema da fixação da imagem e batizou então o processo de daguerreotipia. Basicamente, era uma imagem positiva em chapa de cobre coberta por uma fina camada de prata polida e sensibilizada com vapores de iodo. Daguerre inicialmente tentou vender a invenção para a iniciativa privada, mas quando ficou claro que o empresariado francês não se interessava pela idéia voltou-se para os políticos e conseguiu o que queria: dinheiro e fama. Ele e o filho de Niépce foram premiados com pensões vitalícias do governo francês. Até hoje, Louis Daguerre é considerado herói nacional.
Boulevard du Temple, Paris, daguerreótipo feito pelo próprio Louis Daguerre em 1838
Boulevard du Temple, Paris, daguerreótipo feito pelo próprio Louis Daguerre em 1838
A daguerreotipia gerava fotos únicas, já em positivo e sem cópias. Coube ao inglês William Henry Fox Talbot (1800-1877) desenvolver o sistema de negativo e positivo que nos permite hoje fazer inúmeras cópias da mesma foto. Desde 1833 Talbot se interessava por capturar imagens em superfícies sensíveis à luz, e já havia feito várias experiências do gênero mas com pouco sucesso. Quando soube do lançamento oficial da daguerreotipia na França, intensificou seus estudos e em 1841 apresentou à Royal Society o seu novo processo, chamado calotipia ou talbotipia. O calótipo era um negativo fotográfico obtido sobre papel normal de escrita sensibilizado com iodeto de potássio e nitrato de prata. Depois de exposto era normalmente encerado para aumentar a translucidez. A partir de então passou a ser possível reproduzir uma imagem fotográfica quantas vezes fosse necessário.
E então, quem inventou a fotografia?
A Calotipia
O inglês Willian Henry Fox Talbot no mesmo ano da invenção do daguerreótipo (1839) mostrou o sua importante invenção do primeiro processo fotográfico que possibilitava através do negativo original em papel produzir quantas cópias positivas se quisesse também em papel.
Estas cópias eram feitas por contato. O inconveniente era que o papel não permitia a passagem de toda a luz que formaria a imagem fotográfica positiva e assim a mesma tinha como característica ser esmaecida. Este processo criado por Talbot foi chamado de Calotipia.
Calótipo, fotografia sobre papel
O desenvolvimento da imagem sobre papel começou em 1937 com pequenas idéias por Bayard e Talbot.

Imagem produzida no Calótipo
William Henry Fox Talbot, pôs no ponto um procedimento fotográfico que consistia em utilizar papel negativo, no qual se podia reproduzir um número ilimitado de cópias, partindo de um único negativo.
Em janeiro de 1839 Faraday apresentou umas imagens obtidas, por Talbot, por simples exposição ao sol de objetos aplicados sobre um papel sensibilizado. Talbot depois do conhecimento do hiposulfito através de Herschel, obteve imagens negativas.
Talbot descobriu que o papel coberto com yoduro de prata, era mais sensível à luz, se antes de sua exposição se submergir numa dissolução de nitrato de prata e ácido gálico. Dissolução que podia ser utilizada para a revelação do papel depois da exposição. Uma vez finalizado o processo de revelação, a imagem negativa se submergia em tiosulfato sódico ou hiposulfito sódico para fixá-la, para fazê-la permanente. A este método Talbot lhe denominou Calótipo, requeria umas exposições de 30 segundos para conseguir a imagem no negativo.
Talbot chegou a conseguir, com câmeras muito reduzidas e com objetivas de grande diâmetro, imagens muito perfeitas mas extremamente pequenas. No final de 1840 ensinaria sua nova modificação do processo, o Calótipo. Com uma segunda operação Talbot conseguia uma imagem positiva. Este método fazia possível a obtenção de quantos positivos se quisessem de um só negativo.
A câmera seguiu evoluindo. Em 1854 aparece através de Petzval, a objetiva grande angular que alcançava 92 graus, e em 1860 por Harrison e Schnitzer adaptam a este um diafragma íris.
Depois do desaparecimento do daguerrotipo ao redor dos 50 o Calótipo cede rapidamente seu lugar ao Colidión. A possibilidade da imagem instantânea numa época onde o retrato era a finalidade da fotografia, faz com que comece a aparecer a imagem do fotógrafo de rua.
Calótipo
O calótipo é um método fotográfico, baseado num papel sensibilizado com nitrato de prata e ácido gálico que após ser exposto à luz era posteriormente revelado com ambas substâncias químicas e fixado com hiposulfito.
Processo
Criado por William Fox Talbot,este procedimento é muito parecido ao da revelação fotográfica regular, dado que produzia uma imagem em negativo que podia ser posteriormente positivada tantas vezes como necessário.
A primeira fotografia que podia ser copiada de um negativo, tinha suas qualidades próprias: um aspecto atraente, macio e rico, parcialmente resultante das fibras de papel do qual o negativo era feito. As linhas, no entanto, não eram bem definidas, o que tornava os detalhes apagados e enevoados. O aspecto do calótipo lembra um desenho artístico a carvão e muitos fotógrafos usaram-no deliberadamente para obter um resultado pictórico, em particular em cenas de arquitetura, paisagens e naturezas-mortas. O inventor, William Henry Fox Talbot, deve ter percebido que o calótipo se prestava a esse tipo de fotografias, pois seus melhores trabalhos reproduzem aqueles motivos.
A Chapa Úmida (Colódion úmido)
O processo que veio a seguir foi o do colódio úmido inventado por Frederick S. Archer em 1851. Que utilizava uma chapa de vidro preparada com nitrato de celulose e um iodeto solúvel sensibilizado com nitrato de prata.
Este processo acabou por suplantar o daguerreótipo devido aos bons resultados conseguidos, principalmente no tocante a facilidade na obtenção de cópias.
O colódion úmido
O escultor e fotógrafo, Sir Frederick Scott Archer, propôs à revista inglesa The Chemist, em março de 1851, o método do colódion perfeitamente experimentado. O colódion, conhecido também como algodão-pólvora, é uma classe de explosivo cuja base é a celulose nítrica.
Frederick Scott Archer, pôs uns ferros de cristal úmido ao utilizar colódion em lugar de albumina como material de recobrimento, para aglutinar os compostos sensíveis à luz. Estes negativos deviam ser expostos e revelados enquanto estavam úmidos. Os fotógrafos precisavam de um quarto escuro próximo, para poder dispor dos ferros antes da exposição e revelá-los de imediato.
Esta grande descoberta, representava um passo importante e decisivo no desenvolvimento da fotografia, ao cercar-se à imagem instantânea com uma exposição 15 vezes inferior à do daguerrotipo mais aperfeiçoado. Mas o mais relevante, foi sua aplicação sobre diversos suportes além do vidro, como o couro, o papel, o férro, outros plásticos e cerâmicas.

Imagem produzida no colódion