Eis então que adentra ao cenário da história o sr. Nicéphore Nièpce, nascido em Chálon-sur-saóne, França, em 1765. Apesar de ter seguido carreira militar, ele e seu irmão Claude se interessavam por pesquisas como cientistas amadores, e, apesar de diletantes, eram empenhados e chegaram a inventar, por volta de 1815, um motor a explosão.
Mas a busca pelo registro visual era um fascínio pessoal de Nicéphore, que estudou diversas técnicas reprográficas, e tendo com isso feito importantes melhorias no processo de litografia. Mas procurava, assim como outros, uma possibilidade de utilizar a imagem da câmara escura, uma vez que os demais processos só permitiam reprodução de originais opacos ou transparentes, e não imagens projetadas da natureza real.
A primeira tentativa de Nièpce foi feita com o betume da judéia, uma espécie de verniz utilizado na técnica de água forte, que possui a propriedade de secar rapidamente quando exposto à luz. Esse betume possui um solvente, óleo de lavanda, e que não consegue dissolvê-lo depois deste ter estado em contato com a luz, o que permitia que as partes não expostas pudessem ser removidas, formando assim uma imagem rudimentar. Nièpce procurou de muitas formas utilizar chapas metálicas emulsionadas com esse betume para imprimir imagens na câmara obscura, mas a quantidade de luz que entrava por ela era muito pouca, considerando a provável sensibilidade do betume, da ordem de 0,0012 ISO, e o tempo de exposição provavelmente ultrapassava 12 horas (Niépce registra 8, mas deveria ser mais). Com isso, além da modificação das sombras, pelo movimento da Terra em relação ao Sol, que deixava a imagem irregular e confusa, o solvente também evaporava e a chapa ficava inteiramente seca.
Assim, uma única imagem sobreviveu dessas experiências, muito provavelmente por ter sido tirada de sua janela, que permitia a entrada de luz em condições de temperatura mais amenas, fazendo o solvente não se evaporar. Essa 'fotografia', de 1826 ou 27, é atualmente considerada historicamente a primeira, mas o próprio Nièpce não considerava esta uma experiência bem-sucedida, porque a imagem original é um grande borrão, impossível de ser copiada, e cujos contornos só podem ser vistos quando olhados em certo ângulo e com luz adequada. A reprodução que hoje temos foi feita e retocada com técnica modernas na década de 1950.

Apesar das controvérsias, esta imagem de Nièpce é considerada a primeira fotografia.
Nièpce entretanto, com todas estas experiências, acabou desenvolvendo uma forma de reprodução por contato utilizando o betuma da Judéia, a que ele chamou 'Heliografia', ou 'escrita do sol'.
Foi através da divulgação de suas Heliografias que Nièpce acabou conhecendo outro personagem histórico: Louis Jacques Mandé Daguerre. Ambos utilizavam os serviços de um personagem em comum, fabricante de lentes, e que lhes pôs em contato. Daguerre também trabalhava com uma câmara escura, mas que utilizava para pintura, e não se sabe bem como se interessou pelas pesquisas na área do que viria a ser a fotografia, uma vez que não há registros de experiências feitas por ele neste campo antes de conhecer Nièpce. De todo modo, Daguerre ficou entusiasmado com a possibilidade de desenvolver uma técnica de reprodução visual eficiente e propôs uma sociedade com Nièpce. Este hesitou durante muito tempo, mas Daguerre conseguiu convencê-lo e firmaram sociedade em 1829.
A sociedade entre Daguerre e Nièpce tinha por objetivo o aprimoramento das técnicas até então desenvolvidas, mas ambos trabalhavam em sentidos opostos, uma vez que Nièpce tinha em mente uma imagem capaz de ser copiada, reproduzida, e Daguerre, como era pintor, procurava simplesmente uma imagem satisfatória. Nada conseguiram em conjunto, e 4 anos após a sociedade, Nièpce faleceu, em 1833.
Daguerre continuou as experiências de Nièpce e as aperfeiçoou, mas não sem grandes dificuldades. Primeiro, utilizou como base chapas metálicas de prata ou cobre, que já haviam sido testadas por Nièpce com bons resultados. Entretanto, todas as experiências de Nièpce tinham por objetivo a obtenção de uma matriz para ser reproduzida, e Daguerre, que não tinha intenção de descobrir um sistema litográfico mais avançado, teve que deixar de lado todo o avanço nesta área já feito por Nièpce com o betume da Judéia, e experimentou trabalhar com sais de prata, como outros faziam na busca da imagem fotográfica.
O problema dos compostos de sais de prata é que, apesar da rapidez com que apreendiam uma imagem, esta era muito rudimentar e o problema da fixação ainda não estava resolvido. Eis que, a certa altura, Daguerre conseguiu resolver este impasse, e ele próprio conta que foi através de um acaso: estando exausto e decepcionado por não conseguir obter resultados satisfatórios, jogou uma de suas chapas num armário e esqueceu-se dela. Alguns dias mais tarde, à procura de alguns químicos, abriu o armário e deparou-se com ela; só que havia uma imagem impressa nela, que antes não estava lá. Procurou a razão disso e desconfiou que havia sido por causa do mercúrio de um termômetro que havia se quebrado. Fez alguns testes e o resultado foi o daguerreótipo.

Daguerre em um de seus daguerreótipos
Finalmente, havia sido contornado o problema da nitidez e da fixação. O processo era bastante simples. Uma chapa metálica era tratada com vapores de iodo, que se tornavam iodeto de prata (um haleto de prata) quando impregnados na chapa, tornando-a fotossensível. Essa chapa era colocada numa câmara escura, sem contato com a luz, e feita uma exposição que variava de 20 a 30 minutos mais ou menos. Após a exposição, era necessário fazer o iodeto de prata se converter em prata metálica, para a imagem se tornar visível, e eis que entrava o mercúrio, cujo vapor foi o primeiro sistema de revelação fotográfica anunciado comercialmente. Este era um dos trunfos da daguerreótipo: como sua imagem era convertida em prata metálica, esta ficava muito mais nítida que a imagem do haleto comum, e sua definição e riqueza de detalhes eram impressionantes. Depois, para afinal, fixar a imagem, Daguerre nos informa que utilizava nada menos que cloreto de sódio, ou sal de cozinha. Daguerre produziu um pequeno daguerreótipo nessas condições em 1837, e em 7 de janeiro de 1839, é anunciada a descoberta do processo na Academia de Ciências de Paris.
O daguerreótipo tinha algumas implicações características: primeiro, sua imagem era tanto negativa como positiva. Na verdade, a imagem formada diretamente era negativa, pois a prata fica mais preta quanto mais luz recebe, só que a superfície de impressão era metálica, e dependendo do ângulo de visão e da incidência da luz, ela se tornava positiva. Além disso, era uma imagem espelhada, ou seja, como a imagem na câmera se formava ao contrário e não havia cópia, ela mantinha-se invertida.

Esta é a imagem que Daguerre considerava seu primeiro daguerreótipo bem-sucedido.

Câmera utilizada por Daguerre
E era, uma imagem única, sem possibilidade de cópia, por estar gravada numa
superfície opaca. Alguns viam tais características como limitadoras, outros
como naturais, mas o fato é que o daguerreótipo tinha uma qualidade impressionante
de imagem, extremamente nítida e com detalhes que por vezes nem a olho nu
se conseguia distinguir. O sucesso é patente.
Quase que imediatamente, a notícia se espalha pelo mundo. A repercussão é
imensa junto ao público, e de uma hora para outra, diversos outros pesquisadores
aparecem no cenário público, reivindicando o invento para si. Não que fossem
mal-intencionados com histórias falsas e datas adulteradas, mas havia um grande
interesse comercial envolvido, e o fato é que realmente muita gente, ao mesmo
tempo e em várias partes do mundo, buscavam a 'imagem fotográfica', sem que
eles se conhecessem.
Quando Daguerre anunciou sua descoberta, ele ganhou uma corrida em que não se conhecia o número de participantes. Mas 3 deles merecem destaque:
Na Inglaterra, William Fox Talbot trabalhava também desde 1833 num processo similar para obtenção de imagens. Suas dificuldades foram as mesmas da maioria dos proponentes à descoberta: não conseguiu achar um meio eficaz de fixar as imagens e utilizava como base papel impregnado com emulsão de sais de prata. O que conseguiu de mais próximo foram impressões diretas, por contato sobre papel, e que ele denominou Calótipo. Mas Talbot experimentou também colocar o papel diretamente na câmara escura, e obteve resultados satisfatórios, pouco antes de Daguerre. Estipula-se que Talbot nada tenha dito em relação à sua descoberta por não ter conseguido, como Daguerre, uma maneira eficiente de fixar a prata sensibilizada. Apesar de também ter usado sal de cozinha, a fixação numa solução de salmoura funcionava com uma chapa de metal, mas não com uma folha de papel, que se desmancharia depois de certo tempo. Talbot, assim como Nièpce, também queria desenvolver uma maneira de copiar estas imagens, razão pela qual manteve-se nas experiências com papel. Mas Talbot, que além de tudo era matemático e botânico, tinha em seu círculo de amigos alguns cientistas da Royal Society de Londres, entre eles um certo John William Frederick Herschel.

William Fox Talbot
Filho do famoso astrônomo que descobriu o planeta Urano, Herschel também se interessou pela corrida à obtenção do que seria a imagem fotográfica, quando tomou conhecimento do anúncio de Daguerre em janeiro de 1839. Herschel queria, na verdade, um método para 'fotografar' as imagens da abóbada celeste obtidas por um grande telescópio que ele próprio construiu, num interesse astronômico cuja ambição era o de registrar todos os corpos visíveis no céu. Herschel conhecia, através de Talbot, as dificuldades que envolviam os pioneiros da fotografia, e sabendo que Daguerre havia conseguido resultados satisfatórios, resolveu pesquisar ele próprio, métodos que pudessem resolver tais problemas. Ele e Talbot trocaram diversas experiências e informações durante algumas semanas, pois Herschel tinha conhecimentos muito mais profundos de química, e lembrou-se de algumas experiências feitas alguns anos antes.
Nestas tentativas, às pressas, Herschel foi o responsável pelo súbito avanço da fotografia em termos técnicos. Um avanço que, se fosse calculado no ritmo com que ela havia andado até então, seria algo como 5 anos em 1 mês.
Herschel, em suas experiências, testou diversos sais de prata, tais como cloreto, nitrato, carbonato e acetato, concluindo que o nitrato era o mais sensível (até hoje uma boa parte do material sensível fotográfico é baseado em nitrato de prata). Quanto à fixação, lembrou-se que tinha testado, por volta de 10 anos antes, o hipossulfito de sódio (hoje chamado tiossulfato) para interromper a ação da luz sobre a prata. Retomando as experiências com o mesmo material, agora já com novas técnicas e perspectivas, teve a seguinte conclusão: 'Resultado perfeito. O papel exposto à luz, pela metade, é embebido com hipossulfito de sódio e em seguida lavado com água. Após secagem, o papel é novamente exposto à luz. A metade escura permanece escura, e a metade clara permanece clara.' Finalmente, estava resolvido o problema da fixação fotográfica.
Mas o capítulo Talbot ainda não terminou. Tendo descoberto um método eficiente de fixar as imagens, patenteou o calótipo em 1841, talvez numa tentativa de brigar com a patente de Daguerre, não apenas do ponto de vista comercial, mas até pela primazia do invento. Herschel, entretanto, desaconselhou Talbot a promover qualquer tipo de iniciativa jurídica ou comercial contra Daguerre, uma vez que teve oportunidade de ver os daguerreótipos antes de Talbot, e sua impressão foi a seguinte: 'comparadas com essas obras de arte de Daguerre, o senhor Talbot não produz senão coisas vagas e desfocadas'.
Sem dúvida, considerando o sistema de ambos, a cópia em papel tinha grandes desvantagens do ponto de vista da nitidez e definição, uma vez que o processo de Daguerre era direto, e o de Talbot exigia copiagem em material translúcido, o papel, que implicava numa qualidade muito inferior. Mas convém lembrar que seu processo era o que hoje chamamos de imagens evidentes, ou seja, uma imagem que já se formava na medida em que ia sendo exposta. Isso significa que a imagem não ficava latente, ou seja, o controle do tempo de exposição era feito na própria observação da imagem.
Quando esta adquiria uma densidade desejável, o fotógrafo interrompia sua exposição e tratava de fixar a imagem. É claro que este método tornava a fotografia extremamente lenta em termos de tempo de exposição, por vezes questão de horas, o que sem dúvida contribuía, no caso de retratos, para não representar nenhum tipo de concorrência ao daguerreótipo. Talbot então descobriu uma fórmula para obter imagens negativas latentes no calótipo, ou seja, precisava, assim como o daguerreótipo, de revelação.
Esse método consistia em sensibilizar as folhas de papel inicialmente com nitrato de prata, e posteriormente com iodeto de potássio, formando o iodeto de prata. O iodeto era altamente sensível à luz, o que reduzia drasticamente o tempo de exposição, de horas para poucos minutos, e revelados numa solução de ácido gálico e nitrato de prata. Depois, fixados com o tiossulfato de sódio e eram obtidas imagens negativas em pouco tempo. Mas, para fazer cópias por contato, Talbot ainda se utilizava do sistema de imagem evidente, com papéis sensibilizados com cloreto de prata, o que era mais vantajoso pois era possível controlar a intensidade dos tons de cópia pela observação.
Esse sistema permitiu que a fotografia em papel aos poucos tomasse lugar do daguerreótipo na corrida pela melhor imagem, mas ainda faltava o principal: melhorar a imagem.