Cabe ainda o parênteses sobre mais uma importante figura, isolada e anônima, na descoberta da fotografia, o terceiro personagem de destaque nessa história. Entre os anos 1824 e 1879, viveu no Brasil - mais precisamente na Vila de São Carlos, hoje Campinas - o desenhista e tipógrafo francês Hercules Florence, e que até há pouco tempo era famoso apenas por ter feito parte da expedição do Barão Langsdorff pelo interior do Brasil. Recentemente, através de pesquisas do Foto-Cine Clube Bandeirante, e publicadas como estudo por Boris Kossoy, uma não menos interessante faceta de Florence veio à tona: inventor da fotografia.
Consta que Florence procurava uma maneira de reproduzir tipos gráficos, tendo enormes dificuldades, na época, de fazer publicar manuscritos de sua autoria. Haviam poucas tipografias disponíveis e todas pertenciam a um mesmo dono, o que monopolizava a produção impressa. Antes de pensar em montar sua própria tipografia, Florence resolveu investigar os efeitos de materiais fotossensíveis. Tomando conhecimento dos efeitos do nitrato de prata, Florence desenvolveu um processo rudimentar de fixação de imagens em papel sensível, primeiramente através de cloreto de ouro, cujo agente fixador deveria ser amônia. Na falta desta substância, Florence utilizou nada menos que a própria urina para estabilizar as imagens, e obteve resultados satisfatórios em 1833. Depois, passou a utilizar outras substâncias, mais baratas que o sal de ouro, entre eles o nitrato de prata, que chegou a utilizar até mesmo com uma câmera escura. Mais tarde, desenvolveu com base nesses resultados, um método de impressão em papel a partir de originais desenhados em vidro, obtendo cópias por contato de ótima qualidade.
Em seus diários e anotações, constam importantes descobertas feitas isoladamente, e que em muito se pareciam com as que Daguerre, Talbot e Herschel fizeram na Europa. As dificuldades que ele enfrentou, tendo que construir sua própria câmara escura de maneira rudimentar, e a busca pelos próprios métodos, com quase nenhum auxílio, fazem de sua descoberta um grande mérito. Florence chegou a um método de fixação de imagens por contato em papel que lhe renderam ótimos resultados, dos quais ainda sobrevivem encomendas de trabalhos, como seus rótulos de farmácia e um diploma maçônico. Apesar de Florence não ter dado nenhum nome específico a seu processo pela câmara escura, seu sistema de impressão por contato em negativo foi chamado de Fotografia, por ele e por um colaborador, o boticário Joaquim Corrêa de Mello. Segundo consta, foi a primeira vez que se utilizou o termo e ao que tudo indica, cabe a ele o mérito da nomenclatura.

Hercules Florence
Mas voltando à França de Daguerre, não podemos deixar de frisar as qualidades excepcionais de imagem quanto à nitidez que obtinha com seu processo, mas que também não estava isento de todos os inconvenientes. O primeiro ainda era o tempo de exposição que, embora tivesse diminuído radicalmente, permitindo agora o registro de pessoas e não mais só de paisagens, ainda necessitava de pelo menos dois ou três minutos de imobilidade total, obrigando seus modelos a exercitar rigidez muscular ou sentarem-se em cadeiras com apoio para o pescoço.
O segundo, e talvez o pior dos problemas do daguerreótipo, era sua total incapacidade de reprodução múltipla. Um daguerreótipo era apenas uma placa de cobre emulsionada que, uma vez revelada, tornava-se visível num meio opaco, ou seja, não havia meios de copiá-la.

Parece um instrumento de tortura, mas trata-se de um acessório para manter
imóvel o modelo fotografado
Na verdade, tal limitação foi explorada comercialmente por Daguerre como uma maneira elitizada de registro alternativo, tal como a pintura - que a princípio, também é única. Assim, famílias abastadas poderiam ser registradas de maneira muito mais fiel que a pintura, sem perder o estigma de obra única. Daguerre não parecia interessado em aperfeiçoar sua descoberta, limitando-se a manter um público para a daguerreotipia, sem qualquer alteração, falecendo num retiro em 1851 sem incluir nenhum dos avanços tecnológicos conquistados até então, mantendo o daguerreótipo como peça de museu.
Em compensação, até 1860, a calotipia se desenvolveu muito em termos tecnológicos, mas por uma questão de direitos autorais, esses processos precisaram sofrer mudanças para poderem ser explorados pelos fotógrafos interessados.
Apesar da dificuldade de reproduzir os parâmetros comerciais e estéticos desta época, tudo indica que as coberturas de patentes que Daguerre e Talbot impeliram ao mundo da fotografia foi extremamente prolífico para a evolução tecnológica. Afinal, os fotógrafos desta época, para evitar o pagamento de altos tributos, precisavam mudar as fórmulas, o que gerou uma grande diversidade de processos fotográficos e uma conseqüente evolução comercial que desembocou na fotografia tal como hoje conhecemos. O processo foi mais ou menos assim:
O Daguerreótipo mantinha suas limitações de reprodutibilidade, enquanto que o calótipo foi estudado com mais afinco por justamente possibilitar um número ilimitado de cópias de uma única matriz, ainda que com resultados não muito satisfatórios por ser uma cópia contato de uma matriz translúcida. Muitos fotógrafos pensaram então no vidro, único material transparente disponível que possibilitaria a obtenção de cópias de qualidade comparável ao daguerreótipo. A dificuldade residia em fixar a emulsão num suporte de vidro, que não era poroso o suficiente para manter a emulsão fixa na placa. Esse problema foi resolvido em 1848 pelo neto de Nièpce, Claude, que descobriu ser a albumina da clara de ovo um excelente suporte para a emulsão de nitrato de prata, permitindo sua adesão no vidro de maneira extremamente eficiente. Seu método espalhou-se rapidamente, pois finalmente, a fotografia negativa-positiva era de qualidade comparável ao daguerreótipo.
Entretanto, um tanto difícil de se manusear. A chapa ficava pouco sensível, em decorrência da densidade da albumina, demandando novamente um longo tempo de exposição. Mas, apesar disso, houve uma verdadeira corrida atrás desta nova técnica, sendo que uma firma alemã de Dresden chegou a utilizar 60.000 ovos por dia para confecção de chapas fotográficas! Era claro, portanto, que esse processo não iria manter-se por longo tempo, pois o custo do ovo chegou a subir mais de 50%, e não haveria demanda para consumo culinário e fotográfico ao mesmo tempo.
Mas alguns passos importante já haviam sido dados em direção à fotografia instantânea de qualidade: Daguerre utilizava em sua câmera uma lente simples, de tipo menisco convergente, e que não era muito luminosa. Mas, em 1840, Joseph Max Petzval projetou uma lente de características diferentes, mais avançada em termos de cálculos óticos, e possibilitou a construção de uma lente, que hoje equivaleria a uma abertura de f/3.6, o que era extremamente luminosa para os padrões da época.
Com a objetiva Petzval, o grande obstáculo para a fotografia instantânea voltava a ser o suporte dos haletos de prata, uma vez que a chapa de vidro com albumina era muito cara.
Apenas em 1850 foi acrescida uma invenção capaz de ser utilizada satisfatoriamente como alternativa à albumina de ovo: o colódio. Foi o inglês Frederick Scott Archer quem o desenvolveu, a partir da dissolução de algodão-pólvora em mistura de álcool e éter. Este algodão pólvora, também chamado algodão-colódio, é por sua vez uma mistura de ácido sulfúrico e nítrico (piroxilina), altamente explosivo, que veio a ser, posteriormente, a base para o nitrato de celulose das primeiras películas cinematográficas. O colódio era muito mais barato de se obter e possuía melhores condições de transmissão luminosa, o que diminuiu novamente os tempos de exposição da fotografia, fazendo de alguns segundos um tempo suficiente para impressão da chapa.

Um fotógrafo e seu laboratório móvel