Mas ainda não era o processo definitivo, pois tais chapas precisavam ser preparadas, expostas e reveladas na mesma hora, pois que ao secar, a emulsão perdia sua capacidade fotossensível, o que desencadeava a necessidade do fotógrafo itinerar com todo o seu equipamento para preparar as chapas onde quer que fosse. O colódio de Archer era chamado, por essa razão, de colódio úmido ou chapa úmida. Fazer fotos externas nesta época não era tarefa fácil!

Cartaz de propaganda das recém-lançadas chapas secas
Levando-se em consideração que a chapa de vidro, as objetivas mais luminosas e o colódio úmido de Archer trabalhavam em conjunto, os resultados colhidos eram extremamente satisfatórios e a fotografia, apesar das dificuldades, tinha já qualidade comparável ou mesmo superior ao daguerreótipo, ainda possibilitando a cópia em papel a partir de negativos em vidro. Portanto, durante mais ou menos 20 anos, entre 1850 e 1870, este foi o principal sistema utilizado pela maioria dos fotógrafos, não obstante as constantes experiências e aperfeiçoamentos que aos poucos foram sendo incorporados à arte fotográfica.
Foi um médico inglês, Richard Maddox, que, em 1871, experimentou ao invés de colódio, uma suspensão de nitrato de prata em gelatina de secagem rápida. A gelatina, de origem animal, não só conservava a emulsão fotográfica para uso após a secagem como também aumentava drasticamente a sensibilidade dos haletos de prata, tornando a fotografia, finalmente, instantânea. Era um processo extremamente barato (pois gelatina pode ser obtida de restos de ossos e cartilagens animais) e, ao substituir o colódio, ficou conhecida como chapa seca.
O último capítulo relevante do desenvolvimento e aperfeiçoamento dos processos fotográficos deu-se, novamente com um inglês, chamado George Eastman, um bancário que aos 23 anos de idade adquiriu uma câmera fotográfica e apaixonou-se pela atividade, ainda no rudimentar processo de chapa úmida. Aborrecido com o lento e trabalhoso processo de preparar as chapas e usá-las imediatamente, Eastman leu um artigo sobre a emulsão gelatinosa e interessou-se por ela, a ponto de começar a fabricá-la em série. Mas, não dado por satisfeito, ainda achava complicado o processo de estocagem das chapas de vidro - além de pesadas, quebravam com facilidade -, e imaginou que poderia tornar a fotografia muito mais prática e eficiente se encontrasse uma maneira de abreviar o processo todo.
Aliando a tecnologia da emulsão com brometo de prata (mais propícia para fazer negativos, e, consequentemente, cópias) com a rapidez de sensibilidade já existente na suspensão com gelatina e a transparência do vidro, Eastman substituiu esta última por uma base flexível, igualmente transparente, de nitrocelulose, e emulsionou o primeiro filme em rolo da história. Podendo então enrolar o filme, poderia obter várias chapas em um único rolo, e construiu uma pequena câmara para utilizar o filme em rolo, que ele chamou de "Câmara KODAK". Lançada comercialmente em 1888, reza a lenda que o nome veio de uma onomatopéia, o barulho que a câmara fazia ao disparar o obturador, e o sucesso do invento tornou todos os processos anteriores completamente obsoletos, relegados apenas a fotógrafos artesãos.

A câmera KODAK
Eastman projetou uma câmara pequena e leve, cuja lente era capaz de focalizar tudo a partir de 2.5m de distância, e, seguidas as indicações de luminosidade mínimas, era só apertar o botão. Depois de terminado o rolo, o fotógrafo só precisaria mandar a câmara para o laboratório de Eastman, que receberia seu negativo, cópias positivas em papel e a câmara com um novo rolo de 100 poses. Seu slogan era "Você aperta o botão, nós fazemos o resto." Uma verdadeira revolução, que fez da Kodak uma gigantesca empresa, pioneira em todos os demais avanços técnicos que a fotografia adquiriu até hoje.

Fotos típicas das primeiras câmeras Kodak, que caracterizavam-se por
seu formato de janela redondo
Na entrada do ano de 1900, a fotografia já tinha todos os quesitos necessários para o registro de imagens com altíssima qualidade de exposição e reprodução, tanto que o cinema, cuja base é fotográfica, só seria possível tecnologicamente nestas condições, sendo concretizado por Edison e os irmãos Lumière. Mas na fotografia estática, os principalis avanços foram de ordem mecânica, na construção de lentes cada vez mais precisas e nítidas, e câmeras portáteis de diversos formatos e tamanhos. A Eastman lançou, por exemplo, em 1900, a câmera Brownie, que custava apenas 1 dólar, e que trasformou radicalmente a fotografia em uma arte popular, legando outras empresas a supremacia por uma qualidade técnica profissional.
Neste quesito, dois fabricantes de lentes se destacaram no mercado pela excelência da construção óptica, a Carl Zeiss e a Schneider, ambas alemãs, e que contribuíram largamente para o aumento da capacidade luminosa e qualidade da imagem formada.

Cartaz de propaganda da câmera Brownie
Da mesma forma, foram explorados diversos tipos de formatos, pois os negativos de Eastman eram muito pequenos, propícios apenas a amadores. Fotógrafos profissionais ainda precisavam de chapas de negativo, mas agora confeccionados em material flexível e não mais em vidro. Os formatos em chapa foram explorados sob diversos tamanhos por diversos fabricantes de câmeras, mas havia sempre uma limitação comercial, da qual dependia a sobrevivência do formato. Assim, os fabricantes de câmeras lançavam produtos que exigiam determinados formatos, e sob encomenda deste fabricante, chapas de negativo eram confeccionadas, geralmente pela própria Kodak. O custo disso era relativamente alto, e se a câmera não emplacasse comercialmente, o formato era fadado a morrer, como acontece até hoje em certos formatos de vídeo, como o Betamax (que sucumbiu ao VHS) e o Laser Disc (que morreu com a entrada do DVD). Assim, os grandes formatos, durante todo o período que vai de meados de 1900 até 1930, sofreram constantes modificações, sendo padronizados pela influência comercial em três principais, as chapas de negativo 8x10 polegadas, a 5x7 polegadas e a 4x5 polegadas.
Já nos formatos em rolo, que eram destinados principalmente ao usuário amador - e mais tarde ao fotojornalismo - eram mais favoráveis à aceitação comercial, de maneira que até a própria Eastman fabricou um grande número de formatos, identificados por números como 101 (introduzido no mercado em 1901), 116, 117, 120 (introduzido também em 1901), 122 (introduzido em 1906 e descontinuado em 1949), 123 (introduzido em 1904), 127 e mais tarde, 616 e 620 (introduzidos em 1932). A maioria destes formatos não sobreviveu, sendo que alguns deles ainda são possíveis sob encomenda. Mas a partir da década de 20, com a entrada das câmeras de fabricação japonesa, bem mais baratas, alguns destes formatos solidificaram-se junto ao público, razão pela qual subsistem até hoje, como o formato 120, que permitia exposições nas proporções 6x4,5cm, 6x6 cm, 6x9 e até 6x12. O exemplo mais famoso destas câmeras, e que sem dúvida contribuiu para sua continuidade, é a Rolleiflex.
Apesar de diferentes tentativas de fomatos menores, a fábrica alemã Leitz lançou em 1913 um protótipo de uma câmera no formato 35mm, antes apenas utilizado em películas cinematográficas. A idéia de usar 35mm era, segundo o aspecto comercial, muito mais favorável uma vez que já eram fabricadas em larga escala em função da indústria cinematográfica. Tanto que, quase simultaneamente, a fábrica Francesa Jules Richard lançou (em 1914) a Homeos, a primeira câmera stereo 35mm lançada comercialmente. Mas o fato desta ser uma câmera stereoscópica, a limitava em termos de trabalho, e paralelamente a fábrica de Leitz continuou a aperfeiçoar um modelo que foi lançado definitivamente em 1924, a lendária Leica.
A câmera era extremamente compacta, com velocidade fixa em 1/40 seg. e de mecânica simples e impecável.
Mas seu maior trunfo era sua lente: resultado do trabalho de Ernst Leitz como fabricante de microscópios e telescópios antes de criar sua própria firma, e da união deste com Oskar Barnack, que trabalhava também na fabricação de lentes na Zeiss. Dessa sociedade, o resultado foi uma câmera amadora com uma qualidade óptica extraordinária, e que aos poucos foi ganhando mercado, sendo usada largamente no fotojornalismo. Já em 1930, a Leica era tão popular que o formato 35mm começou a ser progressivamente preferido para o uso amador, estourando como formato após a Segunda Guerra Mundial.

A lendária câmera Leica
Em oposição à excelência técnica alemã, entre os anos 10-30, surgiu uma nova potência na fabricação de lentes e câmeras: os japoneses.
Já haviam fabricantes de origem nipônica desde 1890, muitas vezes em sociedades com firmas alemãs, mas após a Primeira Guerra houve um verdadeiro boom de grandes indústrias, como por exemplo a Nikon (Nippon Kogaku), formada em 1917, a Olympus e a Asahi Pentax, ambas de 1919, a Minolta de 1928, a Canon de 1933 e a Fuji, de 1934.
É claro que muita coisa foi acrescida e mudada desde então, aperfeiçoamentos tecnológicos, processos eficientes e baratos, câmeras programáveis e a fotografia digital, nova revolução nas artes fotográficas.
Mas, olhando para o passado, é possível entender que todo esse esforço, de muitos que marcaram a história, e muitos outros anônimos, foram extremamente importantes para chegarmos naquilo que hoje entendemos como fotografia, para entendermos a busca tão fascinante, tão intensa, pela apreensão de uma imagem, pela idéia da memória coletiva, pela eternização de um momento. E aí, novamente, nos deparamos com Platão. Não seria toda essa busca a busca pela beleza da imagem que traduza um estado, um sentimento, uma idéia? A fotografia busca um tempo, que não precisaria ser eternizado se não estivesse perdido.
Fonte: www.mnemocine.com.br