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História da Moeda

NASCIMENTO DA MOEDA

Desde temos imemoriais, objetos inusitados circulam como moedas, delineando as atividades de comércio e estabelecendo as bases da vida política e social.

Jean-Michel Servet

História da Moeda
Um wampun, objeto confeccionado com tiras de couro e pedaços de nacár,usado pelos índios da América do Norte em suas transações com os brancos nos séculos XVII e XVIII

Colares ou braceletes de conchas, pérolas, dentes, ossos ou plumas, fragmentos de pedra ou metal, peças de cerâmica ou tecidos, objetos de formas e materiais surpreendentes - encontramos tudo isso sob a designação de moedas antigas, nas coleções de inúmeros museus ou em livros e revistas de etnografia, pré-história e arqueologia.

Outros objetos, aparentemente análogos, são considerados adornos ou jóias, embora sem comprovação mais evidente de que tenham sido utilizados como ornamentos, e não como moeda. Seu bom estado de conservação, indicando que tais objetos eram valiosos para seus donos, e suas características físicas, inadequadas para fins diretamente utilitários, sem dúvida estimularam arqueólogos e os que se dedicam a estudar a pré-história a atribuir uma função puramente decorativa a esses tesouros que, na realidade, também serviam como moedas.

UM FATO UNIVERVAL

Há mais de dois mil anos, Aristóteles já afirmava que, antes da utilização de moedas, os homens trocavam bens que lhes sobravam por aqueles que lhes faltavam (metadosis, em grego). Os etnólogos descreveram complexas relações de câmbio - kula, no Pacífico ocidental, o bilaba e o malaki, na África Central, ou o potlatch, na costa noroeste da América do Norte - nas sociedades mais antigas, porém já bastantes hierarquizadas.

A moeda, como as relações hierárquicas e de dominação, não é portanto uma invenção moderna: ela já fazia parte de sociedades mais antigas - mais arcaicas, poder-se-ia dizer - do que as civilizações da bacia do Mediterrâneo, do Oriente Próximo, do Extremo Oriente ou da América Central. A circulação de bens valiosos no interior dessas comunidades, e também entre elas, parece ter sido um fato universal, que de certa forma prefigurou a moeda em sua dupla função de meio de pagamento e de conta.

Moeda da Melanésia constituída por uma longa tira de fibra ornada de plumas vermelhas, acrescida de conchas inteiras ou talhadas.

Mas essas funções essenciais ainda não se haviam tornado puramente econômicas naquelas sociedades antigas: permaneciam tributárias do sistema de relações de parentesco, alianças políticas, crenças e cultos que intervinha na renovação das forças de trabalho, organizava a produção e justificava a repartição da riqueza.

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A moeda - ou, em tais circunstâncias, a paleomoeda - era um instrumento ativo da vida social. Ela regulava os nascimentos, os casamentos e o luto, servia para declarar a guerra ou estabelecer a paz, compensar os danos físicos ou morais, dialogar com as divindades tutelares da fecundidade ou da morte. Por outro lado, ainda não possibilitava a quitação de uma dívida, a compra de bens ou a aquisição da força de trabalho.

Mas a paleomoeda apresentava características de escassez e inutilidade análogas às de certas formas contemporâneas de moedas, antecipando inclusive a natureza econômica e política das moedas modernas: econômica, porque ela codificava atividades e riquezas como unidades contábeis e prefigurava, com sua uniformização, os atuais meios de pagamento; política, porque expressava, atualizava e reproduzia as relações de poder e hierarquia entre os indivíduos e grupos.

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Feixe de hastes de ferro procedente do Congo (fins do século XIX.)

DISTANTE DO ESCAMBO

As trocas nas sociedades comunitárias eram, portanto, bem mais complexas que as práticas rudimentares representadas pelo escambo.

Primeiro, porque os produtos trocados percorriam grandes distâncias desde tempos muito remotos, conforme o demonstram as marcas concretas deixadas por matérias não-perecíveis, como o âmbar e a obsidiana. Alguns desses produtos foram encontrados a centenas de quilômetros de seu lugar de origem - do sul da Austrália às orlas setentrionais da Nova Guiné, do mar Negro à Polônia e à Renânia.

Já no Paleolítico superior, o homem de Cro-Magnon conhecia em Eyzies, na Dordonha, sul da França, conchas provenientes do oceano Atlântico, à distância de 200 km.

Em estágios posteriores, cada sociedade passou a produzir, com a finalidade de troca, uma mercadoria específica (machados de pedra, barras de sal, cerâmica, cortiça), que se convertia no meio de pagamento da produção adquirida de outros grupos.
Finalmente, surgiram no seio dessas sociedades grupos especializados na função de intermediar mercadorias, percorrendo, para tanto, dezenas ou até centenas de quilômetros.

Estavam, portanto, muito distantes do escambo, no qual as mercadorias funcionavam como meios de pagamento recíprocos, sem intermediários na troca. Entretanto, o desenvolvimento da função de conta era ainda limitado: não se concebia o preço relativo dos bens trocados como uma relação objetiva, mas como a expressão de uma relação social entre indivíduos e comunidades. O motor do desenvolvimento monetário ainda não era o mercado.

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O cavalo de Mendel, estáter grego de prata (Macedônia, séc. V a.C.)

AS PRIMEIRA MOEDAS

O fenômeno monetário surgiu com o desenvolvimento dos Estados, encarregados de gerir os excedentes obtidos pela exploração dos escravos, servos e camponeses, pelo controle das trocas a grande distância ou pela pilhagem dos povos vizinhos. Tratava-se agora de avaliar os tributos, impostos e taxas, normalizar os modos e meios de pagamento nos mercados e portos comerciais.

Na diversidade de suportes monetários das sociedades antigas - tecidos e grãos de cacau dos impérios maia e asteca, cauri e ouro dos reinos da África ocidental, barras compridas das cidades gregas, lingotes de ferro dos hititas, cevada e trigo da Mesopotâmia, trigo e cobre do Egito, milho e tecidos da China - as moedas chamam particular atenção, em virtude da perenidade de sua utilização.

No início, as moedas eram apenas um tipo determinado de peça metálica. Na China, por exemplo, antes da difusão das moedas e mesmo após seu surgimento no final do século IV a.C., circularam objetos com formato de enxadas e facas. As primeiras moedas foram cunhadas a partir do século VII a.C. na Ásia Menor e na Grécia, onde algumas cidades continuaram a utilizar compridas barras. Mais ou menos na mesma época - e até o advento da moeda no século IV a.C. - foram utilizados na Índia pequenos quadrados de prata, bastante finos e gravados com diversos motivos.

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Diestáter de ouro cunhado durante o reinado de Alexandre Magno (336-323 a.C.), no qual aparece a deusa Atena com um capacete coríntio.

A INFLUÊNCIA DA GRÉCIA

As cidades gregas ocupam na história das moedas um lugar de grande destaque. Sua tradição numismática propagou-se ao longo dos séculos por todo o planeta, diretamente ou mediante uma complexa rede de influências. Na esteira de Alexandre Magno, cujas tropas se apoderaram da riqueza em metais acumulada pelos potentados do Oriente Próximo e transformaram-na em moedas, essa tradição expandiu-se consideravelmente em torno do Mediterrâneo.

Após haver utilizado lingotes de bronze de inspiração etrusca, Roma cunhou suas primeiras moedas no século III a.C., sob a influência das cidades gregas do sul da Itália. A colonização romana deu em seguida à numismática um impulso somente igualado pelo da expansão colonial européia do século XIX e início do século XX.

Além das fronteiras do Império Romano, os sassânidas perpetuaram, entre o Curasão e a Mesopotâmia, uma prática numismática que denotava forte influência helenística - transmitida pelos partas, cujo império, fundado entre os séculos III e II a.C., em seu apogeu estendeu-se do Eufrates ao Afeganistão. Essa tradição helenística também influenciou as primeiras cunhagens islâmicas, enquanto a tradição romana perpetuou-se na cristandade européia.

Um processo similar ocorreu na Índia, que em sucessivas etapas sofreu a influência direta e indireta da Grécia, com a chegada das tropas de Alexandre, seguindo-se os contatos com o império romano e finalmente a colonizações muçulmana e européia.

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O labirinto de Cnossos, estáter grego de prata (c.450 a.C.)

UMA DIMENSÃO POLÍTICA E SOCIAL

Em nenhuma dessas civilizações as moedas foram de imediato consideradas um instrumento monetário superior aos outros meios de pagamento reconhecidos, com eles coexistindo durante muito tempo. Peças redondas de metal, com diferentes qualidades de impressão, podiam ser utilizadas para diversos fins. Sua troca significava mais que uma simples transação comercial: podia simbolizar também uma doação recíproca, ou até um tributo.

Assim, as primeiras moedas das cidades gregas não foram cunhadas para suprir as necessidades imediatas do comércio: seu valor no mercado era muito alto para a aquisição dos bens de consumo. No comércio a longa distância, quase sempre efetuado por via marítima, as próprias mercadorias funcionavam como meios de pagamento. Qual era, então, nos primeiros tempos, a função dessas moedas? Elas surgiram como um instrumento necessário para regular as relações internas e externas das cidades, tendo um caráter principalmente político e religioso.

Entretanto, essa dupla função não constituiu obstáculo para sua destinação mercantil: o próprio metal de que eram feitas serviu como objeto de intercâmbio a grandes distâncias desde tempos muito remotos, em que o comércio se revestia de uma importante dimensão política e social. A flexibilidade das pesadas peças de metal, que podiam ser divididas em unidades menores, e sua difusão por sociedades de costumes muito diferentes gradualmente transformaram a moeda no instrumento preferido para as transações comerciais e o pagamento de impostos.

Cunhadas com a efígie dos deuses e dos poderosos, as moedas conservaram esse caráter político essencial até a época romana, quando eram emitidas por ocasião de grandes eventos, como os jogos desportivos ou a movimentação de exércitos. Também não deixaram de desempenhar suas funções em ritos e sacrifícios: ainda hoje, moedas são encerradas no cimento de pontes e edifícios, lançadas em fontes, oferecidas como símbolo de alianças matrimoniais e colocadas na boca ou na mão dos mortos, que transportam para o Além os rituais de pagamento do mundo dos vivos.

QUANDO AS MOEDAS CRESCIAM EM ÁRVORES

Cobiçado por ser escasso, mas suficientemente abundante para não faltar, o cacau, possuidor dos atributos do deus Quetzalcóatl, era a moeda prestigiosa da América pré-colombiana.

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Pirâmide de Kukulkã, conhecida como "O Castelo", em Chichén Itazá, uma das grandes metrópoles da civilização maia-tolteca, ao norte de Iucatã.

Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México, no século XVI, os grãos de cacau faziam as vezes de moeda. Os cronistas notaram, com assombro: o dinheiro crescia nas árvores.

Naquela época existiam três grandes regiões produtoras de cacau: a de Chontalpa e Soconusco (México), e a região do rio Ulua (Honduras). A produção e a circulação de cacau, assim como seu consumo, eram fortemente controladas por nobres e mercadores do vale do México e de Iucatã. Os baixos rendimentos do cultivo e as dificuldades do transporte aumentavam o custo social do cacau e, em conseqüência, seu preço.

Como outras moedas primitivas, o cacau não cumpria todas as funções próprias a um instrumento monetário. Assim, apesar de ser o principal meio de intercâmbio, tanto os astecas como os maias utilizavam como medida de valor a manta (quachtli), peça de algodão que representava uma quantidade determinada de força de trabalho, isto é, de valor. Em Iucatã a manta equivalia a 450 horas de trabalho.

Apesar de não conhecermos o equivalente em horas de trabalho da manta do tributo asteca, sabemos, por outro lado, que seu valor em cacau era de 100 grãos, aproximadamente, segundo as flutuações da produção.

Pode-se afirmar, então, que o valor (em força de trabalho) da maioria dos bens que circulava podia ser expresso em cacau, enquanto o preço deste só podia ser fixado em mantas, cujo valor era invariável. A impossibilidade de fragmentar a manta e a conseqüente necessidade de um meio circulante dariam origem ao uso "monetário" do cacau, determinando a conversão recíproca entre o cacau e a manta.

Com o cacau, os antigos mexicanos preparavam uma bebida cerimonial cujo consumo ficava restrito aos nobres e aos guerreiros: o chocolate. Uma forte restrição pesava sobre o consumo do cacau, e os plebeus só podiam beber pulque, bebida alcoólica obtida do agave. Este tabu reforçava o poder da nobreza, pois eram atribuídas ao chocolate propriedades mágicas: era o alimento dos deuses.

Talvez fosse associado ao chocolate o sangue dos sacrifícios humanos oferecidos aos deuses, e especificamente do sacrifício que consistia em arrancar o coração das vítimas em honra ao deus Quetzalcóatl-Kukulcã (a serpente emplumada).

Segundo os mitos mexicanos, Quetzalcóatl, "jardineiro do paraíso", introduziu o cultivo do cacau entre os homens quando vivia em Tula, e ao partir para o litoral enterrou o "dinheiro" que circulava então: conchas, plumas e pedras preciosas. Então a moeda-cacau se revestiu dos atributos mágicos do deus do qual se originara.

Os astecas foram os últimos senhores do vale do México. Esse florescente império, baseado no domínio sobre os povos que até então haviam disputado a posse do vale, devia sua prosperidade ao tributo de 38 províncias. Entre elas a de Soconusco, que, segundo o Código Mendoza, tributava 400 cargas de cacau das 980 que o Estado consumia.

O VALOR DE TROCA DO CACAU NA SOCIEDADE MAIA

O cacau circulava desde armazéns especiais, chamados "casas do cacau", até os templos e quartéis militares, que representavam a grandeza imperial do México-Tenochtitlã e suas cidades aliadas e onde, segundo os cronistas, os soldados astecas consumiam grandes quantidades de chocolate.

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Um cacaueiro (Theobroma cacao)

Entre os maias, à diferença da sociedade asteca, a elite política coincidia em geral com a elite comercial,, e o cacau entrava na vida social graças ao comércio, e não como tributo.

Em Iucatã o intercâmbio de cacau coexistia com uma produção equivalente de mantas, o que punha em relação de valor todas as mercadorias, inclusive certas terras, cuja produção era enviada ao mercado. Da necessidade de utilizar a mão-de-obra das comunidades camponesas nasceu a escravidão produtiva: os homens eram comprados e vendidos por cacau. Segundo Diego de Landa, o cronista dos maias de Iucatã, "o ofício a que mais estavam inclinados (era) o de mercadores, levando sal, roupas e escravos para as terras de Ulua e Tabasco, trocando-os todos por cacau e contas de pedras mais finas e melhores..."

O aumento da produção de cacau, graças aos escravos maias de Iucatã e também astecas, favoreceu provavelmente a circulação de cacau entre as classes baixas, sempre sob o controle da nobreza. Diversas crônicas coloniais e etnográficas assinalam que o cacau era usado como oferenda e doação nos ritos de passagem, como casamentos e funerais.

Que papel cabia ao cacau na acumulação de riqueza? Os grãos de cacau tinham que ser consumidos no prazo de um ano ou um pouco mais. Mas as diferentes estruturas sociais dos astecas e dos maias determinavam também comportamentos diferentes a esse respeito. Assim, no vale do México, os comerciantes tinham que se mostrar muito discretos para não ofender o imperador com suas riquezas.

Por isso, segundo Frei Bernardino de Sahagún, vestiam-se humildemente, inclusive com mantos rasgados. A cobiça da nobreza obrigava os comerciantes pochtecas a consumir seu cacau em grandes quantidades, a ofertá-lo nos templos ou entregá-la como donativo.

No México, o cacau estava ligado ao prestígio e simbolizava uma posição social. Em troca, entre os itzas de Iucatã a riqueza do cacau, da qual faziam alarde os grandes senhores com seus numerosos escravos e seus palácios decorados com grande refinamento, servia também para estimular a produção, já que ele podia ser aplicado em cultivos comerciais e na aquisição de mão-de-obra. Por essa razão, provavelmente os espanhóis conservaram o uso monetário do cacau em Iucatã e substituíram a manta pelo real, a moeda espanhola, como medida de valor, sempre em relação com as flutuações da produção de cacau.

No entanto, ainda em pleno século XIX, o cacau seria utilizado para pagar salários em Iucatã e outras regiões da América Central, como se lê no testemunho do viajante norte-americano J.L. Stephens, em 1842: "Notei (...) que os grãos de cacau circulavam entre os índios como moeda. Em Iucatã não há moeda de cobre nem moeda menor que a de meio real (...) Como os salários dos índios são baixos e os artigos que compram são realmente necessários para a vida... esses grãos de cacau ou partes de um meio real são a moeda mais comum entre eles."

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