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História da Moeda

Breve Histórico do Surgimento da Moeda Metálica

A “Moeda” antes das Moedas Metálicas: do Escambo à Moeda

Até os povos nômades se tornarem sedentários, com o surgimento da agricultura, da criação de animais domésticos e de aldeias, no chamado período neolítico, o que no Oriente Médio e na China ocorreu entre 9000 e 7500 antes de Cristo (a.C.), eventuais “transações comerciais” ocorriam através da troca direta ou escambo de bens.

Ou seja, um produto pelo outro, sem que um bem específico servisse de padrão de referência ou meio de pagamento exclusivo.

Nos milênios seguintes, certos bens passaram a ser mais regularmente aceitos como forma de pagamento, ou seja, preencheram uma das funções da moeda no seu sentido mais amplo.

Alguns autores os classificam como “moedas-mercadoria”. Cabeças de gado, principalmente vacas e ovelhas, tornaram-se símbolos de prosperidade em várias comunidades e eventualmente meios de pagamento.

Dentre as referências literárias ao uso de gado como forma de pagamento e valor de referência, destacam-se passagens dos poemas narrativos de Homero (compilados provavelmente no séc. VIII a.C.), a Ilíada e a Odisséia, que também mencionam outros bens como o vinho, objetos de bronze ou de “ferro reluzente”, peles e até escravos, como meios de troca ou de premiação.

Assim, as armas de bronze de Diomedes valiam nove bois e as de Glauco, que eram de ouro, cem bois. Por outro lado, a ama-de-leite de Ulisses, Euricléia, que era escrava, custara 20 bois. Mas a utilização de cabeças de gado não era prática, notadamente em transações de menor valor.

Pedaços de metal podiam ser menos volumosos e, portanto, mais fáceis de manipular, e eram também mais duráveis, divisíveis em peças ainda menores e virtualmente não perecíveis.

Podiam também ser fundidos, re-moldados ou trabalhados para outras utilizações práticas. A partir do momento em que certos povos desenvolveram sistemas de pesos de ampla aceitação e garantidos ou estabelecidos por uma autoridade central, difundiu-se a utilização de metais como unidade de referência e meio de pagamento, ou seja, com algumas das funções modernas da moeda.

Na Mesopotâmia foram descobertas numerosas placas de argila, datando de cerca de 2500 a.C., com textos na escrita cuneiforme desenvolvida pouco antes, descrevendo estoques de mercadoria, aluguéis de campos, empréstimos com juros e outras transações comerciais, sugerindo a relativa sofisticação das economias suméria, assíria e babilônica (Fig.A1). No código de leis de Eshnunna (rei no norte da Mesopotâmia), de pouco depois de 2000 a.C, como também no mais famoso código de leis do rei babilônio Hamurabi (1792-1750 a.C), a referência à utilização de prata a peso para pagamentos e multas é freqüente. No código de Eshnunna, o salário diário ideal pago em grãos equivalia a 12 se (cerca de ½ g) de prata.

A multa por morder o nariz de um homem era uma mina (cerca de ½ kg) de prata, mas para um tapa na cara era bem menor, ou seja, apenas 10 shekels (1/6 de mina). Juros equivalentes a 20% ao ano sobre empréstimos contraídos e pagáveis em peso de prata eram considerados normais nos dois códigos.

Quanto a evidências literárias, na Bíblia, no Antigo Testamento, existem duas passagens muito conhecidas que se referem a transações efetuadas com prata.

O patriarca Abraão, originário de Ur (na Caldéia, sul da Mesopotâmia), compra por 400 shekels um terreno para enterrar sua mulher Sara (presumivelmente cerca de 1900 a.C.).Mais tarde, o seu bisneto José é vendido por seus irmãos, a mercadores com destino ao Egito, também por uma certa quantidade de prata.

Também no segundo milênio a.C., os Hititas, cujo império ocupava parte da Ásia Menor, adotaram da Mesopotâmia o uso da prata, a peso, para pagamentos. O “código”e leis hitita, especifica o preço de certas mercadorias: por 5 shekels (c. de 40 gramas ) de prata comprava-se um terreno de cerca de 0,8 hectares de terra irrigada; 5 ovelhas; 10 queijos ou um pano grande de linho.

Também foram encontrados por arqueólogos em Ugarit, no norte da Síria, pesos de bronze e de pedra, bem como pratos de bronze para balanças contendo vestígios de prata, datáveis de cerca de 1300 a.C., também sugerindo o uso da prata a peso na região.

No Egito, que tinha uma agricultura próspera às margens do rio Nilo, inclusive com o uso do arado , e que dispunha das minas de ouro da Núbia, desenvolveu-se um sistema de pesos e o uso de metais para transações no reino (e eventualmente também para recebimento de tributos de outros povos), possivelmente na mesma época em que na Mesopotâmia.

No Novo Reino, no período de c. 1295 a 1069, acredita-se que a relação entre a prata e o cobre era de 1 para 100, baixando depois para 1 a 60. Um deben pesava cerca de 91g e correspondia a 10 kites .

Além de farta evidência iconográfica nos monumentos egípcios de várias épocas, tais como pinturas com pesagem de argolas de ouro em balanças existem textos em escrita hieroglífica que mostram que a referência a quantidades de cobre e de prata em transações era freqüente. A palavra para prata (hedj) pode inclusive ter tido um sentido mais amplo próximo ao de dinheiro. Textos de Deir el Medina, a aldeia onde viveram durante séculos os artesãos que trabalhavam no vizinho Vale dos Reis (Tebas) ilustram vários exemplos de referência ao cobre a peso.

Em um caso, um boi avaliado em 50 deben (ou seja, cerca de 4,55 kg de cobre) é trocado por um jarro de banha equivalente a 30 deben, duas túnicas no valor de 10 deben, 10 hin de óleo vegetal valendo 5 deben, epedaços de cobre pesando (e portanto valendo) 5 deben. Outra transação envolveu a compra de um sarcófago de madeira avaliado em 25,5 deben por um porco (5 deben) , duas cabras (4 deben), 2 troncos de madeira de sicômoro ( 2 deben) e dois pedaços de cobre, um pesando 5 e outro 8,5 deben . Em outras palavras, tudo tinha um valor, passível de ser expresso em várias unidades, que coincidia com quantidades de certos bens, que podiam ser tanto metal a peso, quanto trigo, óleos vegetais, etc.

No entanto, os escribas dos armazéns reais da Mesopotâmia e os artesãos de Deir el Medina estavam familiarizados com sistemas de contabilidade complexos e com a escrita.

Até que ponto, no Egito e na Mesopotâmia, o uso de padrões de referência baseados em pesos de metais se estendia à grande maioria da população, composta de camponeses iletrados, é difícil de avaliar. Em ambas as economias, ocorria a redistribuição entre a população de parte das mercadorias arrecadadas pelo poder central, com espaço limitado para a iniciativa privada.

De qualquer forma, no Crescente Fértil (que se estendia da Mesopotâmia ao Egito), a partir do terceiro milênio a.C., pedaços ou lingotes de metal foram substituindo, em certos casos, animais ou outros bens, como grãos de cereais ou diversos utensílios ou objetos metálicos trabalhados, anteriormente usados em trocas.

Esses diversos meios de avaliação e de troca continuaram coexistindo, e tinham em comum o seu caráter impessoal, anônimo, sem “marca de origem”.

O uso de lingotes de metal estendeu-se também ao “comércio internacional” ou ao pagamento de tributos de povos submissos. Pinturas egípcias mostram núbios trazendo argolas de ouro para o faraó, além de diversas outras mercadorias.

Existe também evidência de pagamentos sob a forma de placas de cobre com a forma de couro de boi, como nas pinturas do túmulo de Rekhmira, ministro chefe do faraó Tutmosis III (c.1501-1447 a.C.), (Fig.A7), presumivelmente trazidos por cretenses e sírios. Em Micenas, na Grécia, e também na ilha de Chipre, foram encontrados lingotes ou placas de forma semelhante, datáveis dos sécs. XVI a XIV a.C. (e pesando 25,5 kg ou cerca de um talento)

O mais antigo navio naufragado de que se recuperou a carga, afundado no séc. XIV a.C. nas costas da atual Turquia e possivelmente cananeu ou cipriota, continha além de vinho, azeite e outras mercadorias, placas de cobre e objetos de cobre e bronze que provavelmente destinavam-se à troca por outros bens .

A importância do cobre para a economia de Chipre na Antiguidade é evocada em uma moeda recente representando um mercador carregando uma daquelas placas.

Ou seja, mais de dois milênios antes de Cristo já existia no Oriente Médio o conceito de “moeda” como meio de troca ou pagamento e como padrão de valor ou referência, com base em metal pesado, que também podia ser armazenado, mas a necessidade de pesagem em cada transação continuava sendo pouco prática.

Talvez para facilitar pagamentos, fabricaram-se finos rolos e espirais, ou barras de prata, que podiam ser mais facilmente quebrados ou cortados, que são mencionados em textos históricos e foram encontrados em tesouros ou achados como o de el-Amarna, no Egito, do séc. XIV a.C., , mas também na Mesopotâmia e no atual Irã.

Evidências arqueológicas confirmam que pedaços de metal sem forma definida, placas ou lingotes de cobre, braceletes, anéis, argolas ou pulseiras de prata ou ouro e barras de ferro foram utilizados para trocas no Crescente Fértil e em diversas regiões beirando o Mar Mediterrâneo.

De forma totalmente autônoma, na China, no primeiro milênio a.C., também foram usados, em transações comerciais, objetos de bronze de formato mais ou menos padronizado, armas e utensílios como facas, machados, ou pás, fundidos em moldes (em paralelo ao uso de conchas conhecidas como “caurís”).

A grande capacidade de trabalho em metais, tanto do bronze como de metais preciosos, seja para a confecção de armas e utensílios, seja para a produção de jóias e adornos, encontra numerosos exemplos nas várias regiões do mundo mediterrâneo e outras civilizações da Idade do Bronze). A lapidação de sinetes em diversos tipos de pedras também alcançou um elevado nível de sofisticação. Já não faltava, portanto, qualificação técnica para a produção da moeda metálica.

O Conceito de Moeda

No mundo moderno, a moeda de um país, no seu sentido mais amplo, tem três atributos básicos: é unidade de conta ou padrão de valor, ao qual são referenciados os preços de todos os bens e serviços; é também meio de troca, servindo para a aquisição de bens e serviços e pagamentos de salários ou de dívidas, preenchendo a função de meio de pagamento; e, finalmente, constitui-se também em reserva de valor, podendo ser guardada como parte da riqueza ou poupança das pessoas.

No dia-a-dia, a moeda assume a forma de moedas metálicas, normalmente discos redondos de metal, de diâmetros variados, usados para pagamentos de menor valor, ou de papel-moeda ou cédulas , que freqüentemente têm valores de face mais elevados. (Os depósitos à vista em bancos, que são movimentáveis através de cheques ou de ordens de pagamento, ou mais recentemente por cartões eletrônicos , também fazem parte da “oferta de moeda” ou dos “meios de pagamento” na acepção da teoria econômica moderna).

Hoje em dia as cédulas e as moedas metálicas são “fiduciárias”, ou seja, são aceitas em função da credibilidade da autoridade emissora: o seu valor de face ou “poder liberatório” é muito superior ao do material (papel ou metal) que as compõe. Durante cerca de 2500 anos a moeda metálica valia pelo seu valor “intrínseco”, ou seja, a quantidade de metal puro contida na liga de metal de que era feita, especialmente no caso das moedas de ouro e de prata.

Na língua portuguesa, como também na francesa e na espanhola, a palavra moeda tem os dois significados, aplicando-se tanto às unidades de moedas metálicas, (uma moeda) como também à idéia mais ampla do dinheiro em circulação ou “meio circulante” em um país, com os três atributos acima mencionados (a moeda). Já nas línguas inglesa e alemã, existem respectivamente os vocábulos coin e münze com o primeiro sentido e money e geld com o segundo.

A palavra moeda tem origem curiosa: deriva do fato de que, em Roma, a oficina monetária esteve algum tempo instalada no Capitólio, nas proximidades de um dos templos de Juno, dita “Moneta”, assim chamada por ter avisado (“monere” em latim é avisar) os romanos sobre um tremor de terra.

A Moeda como Obra de Arte e Adorno.

Desde cedo, as cidades-estado gregas e outras unidades políticas buscaram cunhar moedas com símbolos (e mais tarde legendas) que permitissem uma fácil identificação de sua origem. As moedas eram uma afirmação da autonomia e da identidade da “polis”, tornando-se, em diversos casos, motivo de orgulho para os cidadãos.

História da Moeda

A tartaruga de Egina (marítima e depois terrestre), o pégaso de Corinto e a coruja de Atenas são alguns dos exemplos mais conhecidos. Mas logo se adotou a prática de cunhar peças com imagens de deuses ou cenas envolvendo além de deuses, seres humanos, animais e diversos objetos.

Algumas das principais obras-primas da história da moeda metálica foram criadas nos períodos da arte grega clássica e helenística, refletindo o elevado padrão estético alcançado em outras manifestações artísticas, notadamente a escultura e a pintura dos vasos de cerâmica (já que a grande pintura é mais difícil de avaliar, visto que quase toda ela se perdeu), além da ourivesaria, da gravura de sinetes de pedra e camafeus, e da confecção de objetos de bronze utilitários ou de decoração.

Dadas certas afinidades estilísticas e técnicas que perduraram, ao longo dos séculos,entre a cunhagem de moedas e tais “artes aplicadas,” apresentam-se nesta exposição ilustrações dessas artes praticadas pelas várias civilizações cuja cunhagem e história monetária estão sucessivamente retratadas.

Enquanto a maioria das atribuições de obras de arte da Antiguidade Clássica depende de tradições literárias ou de evidências indiretas (inclusive a sua reprodução em moedas da época), alguns gravadores de moedas tiveram tanto orgulho de suas obras que as assinaram no cunho, garantindo a sua autoria para a posteridade. Este é notadamente o caso de diversas moedas da Sicília, especialmente de emissões de Siracusa de cerca de 400 a.C, firmadas por Euainetos e Kimon, mas também de cidades da Ásia

Menor, entre as quais se destaca uma emissão de Clazomenae, assinada por Teodoto por volta de 380 a.C. .

O tipo do busto da ninfa Aretusa de Euainetos, considerado por muitos um como padrão clássico de beleza feminina, foi imitado na cunhagem de outras cidades e em diversas esculturas. Vários tipos monetários de Zeus, Atena, Apolo e de outras divindades gregas, representados nesta exposição, rivalizam também em beleza, apesar de sua dimensão reduzida, com as esculturas da época, cujo maior porte tendia a proporcionar maior liberdade de criação.

A partir do poeta Petrarca (1304-1374), que reuniu uma coleção de “medalhas” (como se chamavam ainda então as moedas da Antiguidade), foi o reconhecimento do seu valor artístico que levou vários humanistas, no período do Renascimento, a colecionálas e estudá-las, consolidando a Numismática como ciência auxiliar da História .

De fato, os primeiros livros impressos que tratam de Numismática, apresentando reproduções de moedas da antiguidade, datam da primeira metade do séc. XVI O interesse pela Numismática na época foi também indiretamente registrado por Ticiano, em pintura de 1567 ou 1568 em que retrata Jacopo da Strada, antiquário erudito e fornecedor de obras de arte à corte imperial dos Habsburgo, juntamente com várias objetos de coleção entre os quais se incluem moedas da Antiguidade .

Foi também certamente a qualidade estética das moedas que levou desde cedo à sua utilização como adorno, montadas em jóias de vários tipos, às vezes apenas com a adição de uma simples argola para penderem de correntes ou pulseiras, mas muitas vezes como centro de sofisticadas obras de ourivesaria (Fig. I6 e I7).

Essa utilização perduraria no império romano, bem como no período bizantino e de civilizações mais recentes, culminando com o ainda freqüente uso, nos dias de hoje, de moedas de ouro e de prata para pulseiras, broches, brincos e pingentes, como também se ilustra ao longo da exposição. A partir do Renascimento, em diversas obras de ourivesaria, utilizaramse moedas da antiguidade, notadamente para vasos e bandejas de ouro e de prata (uso também freqüente no Brasil com moedas de prata do império).

A Invenção da Moeda Metálica e sua Difusão Inicial

A “invenção” da moeda metálica consistiu na emissão de peças de metal de peso padronizado, estampadas com símbolos para garantir o seu peso e teor de metal precioso e, portanto, também, o seu valor.

Na medida em que a entidade emissora tivesse credibilidade, as moedas sob a forma de discos de metal ou pequenos lingotes passavam a poder ser apenas contadas, sem necessidade de pesagem para determinar o seu valor.

Ou seja, a moeda passava em princípio a preencher os três requisitos de:

a) peso conhecido (ou especificação exata de peso);

b) composição metálica conhecida;

c) apresentar símbolo ou sinete da autoridade emissora. Em terminologia moderna, tinha “controle de qualidade”. Tratava-se assim de uma inovação de ordem mais comercial do que técnica.

A cunhagem de moedas iniciou-se quase certamente na segunda metade do séc. VII a.C. no reino da Lídia e nas cidades gregas da Jônia (na Turquia de hoje). É possível que inicialmente algumas emissões tenham sido de particulares, ainda que não subsistam claros exemplos. A moeda de Phanes , possivelmente foi cunhada por um governante da cidade de Halicarnasso, mas alguns autores acreditam que possa ter sido uma emissão de um particular.

Porém, indubitavelmente, logo coube a autoridades municipais ou de unidades políticas mais amplas a cunhagem de moedas, com símbolos específicos de identificação.

A moeda valia então pelo seu valor intrínseco, ou seja, pelo seu conteúdo de metal precioso.

As primeiras moedas eram de eletro, uma liga natural de ouro e de prata, que se encontrava no leito de rios como o Pactolo na Lídia, e as mais antigas parecem ser as achadas nas escavações do templo de Ártemis (Diana) em Éfeso .

Tinham uma imagem no seu anverso, ou face principal (“cara”, na linguagem de hoje) e uma ou várias marcas de punções sem imagem no reverso, ou segunda face (“coroa”), ou seja, o reverso era anepígrafe (sem imagem). As consideradas mais antigas tinham anverso liso ou apenas estriado e marca de punção no reverso.

O tipo principal é o da cabeça de leão de perfil, com ou sem legenda, atribuível à dinastia reinante na Lídia .

A fabricação das Moedas

História da Moeda

As primeiras moedas eram cunhadas com o seu tipo “incuso”, ou seja, gravado “ao avesso” ou “cavado” no cunho de metal duro, de bronze ou de outras ligas contendo ferro, que ficava fixo numa bigorna.

O disco de metal precioso, previamente amolecido por calor, era pressionado sobre esse cunho fixo por um punção ou mais tarde por outro cunho segurado manualmente e martelado na sua base, levando o tipo a aparecer apropriadamente gravado em relevo.

Não sendo o eletro uma combinação homogênea de ouro e de prata, observavam-se variações na quantidade de cada metal em diferentes amostras. Já algumas décadas depois das primeiras emissões de peças de eletro, passou-se à cunhagem de moedas de ouro e de prata separadamente, de metal quase puro na origem (possivelmente 98% de pureza no caso das moedas de ouro e de prata gregas), cujo valor era muito mais exato.

Tradicionalmente a primeira cunhagem de moedas nesses dois metais (ou seja, o primeiro sistema “bi-metálico”) é atribuída a Creso, rei da Lídia (c.561-546 a.C.), cuja riqueza tornou-se proverbial .

Mas é possível que essa transição tenha ocorrido logo após 546 a.C., quando os persas conquistaram o reino da Lídia. Pouco depois, para circulação na Ásia Menor ocidental que era parte do seu império, os persas introduziram o dárico de ouro (Fig.E.3.), equivalente a 20 siglos de prata , sistema monetário que se manteria por cerca de dois séculos. Em paralelo, nas regiões orientais do império persa, o uso de metais preciosos em barras ou lingotes, a peso, continuou durante séculos.

A Cunhagem Grega

História da Moeda

Na Grécia propriamente dita, acredita-se que a ilha de Egina tenha sido a primeira localidade a emitir moedas, estáteres de prata, em meados do séc. VI a.C. ou pouco depois.

Mas foi logo seguida por várias cidades-estado importantes da terra firme, como Corinto e Atenas, por Chalcis e Eretria na ilha de Eubéia, por povos da Macedônia e da Trácia, pela ilha de Chipre, pela Lícia na Ásia Menor e por cidades da chamada Magna Grécia (no sul da Itália e Sicília).

Desde o início, a cunhagem grega consistiu basicamente de moedas de prata, sendo raras, nos primeiros séculos, as emissões de ouro. Ao se notar que os punções deixavam uma clara impressão no reverso das moedas, pensou-se em colocar um segundo cunho gravado na extremidade do punção, permitindo adotar-se figuras nas duas faces das moedas, bem como legendas, sugerindo que pelo menos uma fração dos seus usuários sabia ler.

Essa transição exigiu a gravação de dois cunhos incusos, o fixo, apoiado sobre a bigorna e o outro, móvel, que era martelado sobre o disco mantido entre os dois Durante algum tempo as cidades da Magna Grécia cunharam moedas conhecidas como “incusas”, já que o mesmo tipo do anverso em relevo aparecia cavado ou incuso no reverso .

A partir do final do séc. V a.C, moedas de menor valor, de ligas de cobre e de bronze, passaram a ser utilizadas em transações de menor monta, notadamente na Sicília e logo também em toda a Magna Grécia, muitas vezes substituindo as frações de prata de módulo muito pequeno.

Moedas, Pesos e Medidas

Não se perdeu inteiramente a conexão entre moeda e medidas de peso. O shekel, que era uma unidade do sistema de pesos e medidas não apenas na Mesopotâmia como também entre os israelitas e os fenícios, se tornaria a denominação de moedas de prata cunhadas por ambos os povos. A dracma , unidade monetária de Atenas e de numerosas cidadesestado gregas, e depois também do império de Alexandre o Grande, correspondia a seis óbolos.

A palavra grega obelos referia-se a barras de ferro que chegaram, em certas cidades gregas, a ter uma função monetária antes da cunhagem de moedas metálicas.

Uma dracma era um punhado (drax em grego) dessas barras , tais como as encontradas no templo de Hera em Argos.

A dracma inseria-se num sistema de pesos bem definido: tanto no sistema babilônio como no grego, um talento geralmente equivalia a 60 minas e uma mina a 100 dracmas; portanto, um talento valia 6.000 dracmas.

O tetradracma (moeda de 4 dracmas) de Atenas no séc. V a.C. se tornaria uma “moeda internacional” com papel semelhante ao da libra esterlina no séc. XIX ou ao do dólar no séc. XX, sendo amplamente imitado. O talento da Eubéia, de 6000 dracmas, também adotado por Atenas, pesava 26,196 Kgs, e a dracma ateniense pesava, portanto, 4,36 g.

Após as conquistas do rei macedônio Alexandre, o Grande, entre 336 e 323 a.C., o sistema monetário grego baseado na dracma de prata (Fig. G3) espalhou-se por boa parte do mundo mediterrâneo oriental, do Egito e do Oriente Médio até o reino da Báctria (no Afeganistão e Paquistão de hoje), sendo também imitado com adaptações pelos celtas, do Danúbio até a Gália (França de hoje).

No Egito, além de cunhar um tetradracma de peso inferior ao do reino macedônio, a dinastia ptolemaica emitiu moedas de bronze de grande diâmetro e peso , a maior das quais tinha o peso aproximado de um deben, antiga unidade de peso no Egito Faraônico.

Na área central da península italiana, a partir do final do séc. V a.C. foram utilizados, com fins monetários, pedaços de bronze fundido sem símbolos de identificação ou peso definido, aos quais os romanos se referiam como aes rude, que foram sucedidos por barras de bronze fundido retangulares com imagens nas duas faces no início do séc. III. a.C.

Essas barras, conhecidas como aes signatum, pesavam aproximadamente 1600 g, ou seja, o equivalente a 5 libras romanas . Pouco antes da primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.), Roma e outras cidades na Itália de hoje emitiram moedas de bronze fundido redondas de peso elevado, conhecidas como aes grave.

A unidade básica, o as, pesava inicialmente 324 g, ou seja, exatamente uma libra romana, e é, portanto, conhecido como as “libral”, e as suas divisões correspondiam a frações daquela unidade de peso.

Da República Romana à Difusão do Islã

A república romana desenvolveu, no final do séc. III a.C., um novo sistema monetário baseado no denário de prata (equivalente a 10 asses de bronze), possivelmente introduzido em 212-211 a.C., e que permaneceria a base do sistema monetário romano por mais de 400 anos . De fato, Augusto, o primeiro imperador romano (27 a.C a 14 d.C) manteve o denário e introduziu a cunhagem regular do aureus de ouro, (equivalente a 25 denários de prata) antes cunhado apenas ocasionalmente .

Fixou-se também então por dois séculos e meio o sistema das moedas de bronze, de latão e de cobre, com a emissão do sestércio equivalente a ¼ de denário, e suas sub-divisões.

No início do séc. III d.C, Caracala (198-217) adicionou ao sistema o antoninianus de prata com busto radiado (equivalente a dois denários) que deslocaria o denário, cuja emissão cessaria poucas décadas depois.

A sucessão de mais de 20 imperadores num período de 40 anos, levou a constantes guerras civis e ao enfraquecimento do teor de metal precioso das moedas, cuja adulteração provocou um forte processo inflacionário. As reformas de Aureliano (270-275) e de Diocleciano (284-305) reforçaram a moeda de ouro e buscaram introduzir peças de menor valor novamente com algum conteúdo de prata (o follis). Mas foi Constantino (307-337) que consolidou a cunhagem do solidus de ouro que seria a base do sistema monetário e do pagamento de impostos e despesas públicas até a queda do império romano do ocidente em 476 d.C.

Como se verá ao longo da presente exposição, o sistema monetário romano, além de dar origem ao bizantino, também baseado no solidus de ouro durante mais de cinco séculos, influenciou as cunhagens de ouro dos bárbaros (solidus e tremissis), o sistema monetário islâmico, baseado no dinar de ouro e no dirham de prata, e mais tarde o sistema do denier (denário ou dinheiro, denar e penny) de prata que se difundiu na Europa a partir da dinastia carolíngia .

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