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História da Música

Românico

Por volta do século IX, livres da opressão do Império Romano, os povos europeus começam a desenvolver suas próprias manifestações culturais, como língua, Música, Arquitetura e outras Artes. Como período artístico que sucedeu o do Império Romano, foi denominado de Românico, que marca o início da Idade Média, na Europa feudal.

No período do fim do Império Romano, a Europa estava arrasada após séculos de dominação romana e de ataques de povos bárbaros. As cidades, outrora grandes, se reduziram a feudos murados e pequenas vilas rurais. A única instituição que perdurou do período imperial foi a Igreja Católica Apostólica Romana, que dominava todo o Continente com seu poder religioso, e em muitas regiões com um poder quase temporal. Onde o poder temporal era exercido pelo senhor feudal, que dominava a classe social dos servos, o clero tinha a função de legitimar o poder da nobreza, garantir a autoridade das classes dominantes e justificar as relações feudais como necessárias e imutáveis.

Com sede em Roma, seus "tentáculos" nos demais países eram os Mosteiros e Conventos das ordens monásticas. Essas construções se destacavam por sua monumentalidade, onde predominava a horizontalidade, sólidas e pesadas paredes de pedra, com poucas aberturas para a entrada de luz natural. Tanto seu interior quanto exterior estavam quase ou nada dotados de ornamentos. Essa austeridade tinha a função social de pregar o desapego às coisas materiais, e a busca das coisas espirituais. (RAMALHO, 1992)

O surgimento do monasticismo, com sua rejeição ascética do mundo físico, confirmou a orientação transcendental no pensamento cristão até o ascetismo tornar-se o ideal da vida cristã. À medida que as comunidades monásticas emergiam como os centros de aprendizagem e fornecedores da cultura cristã, sua concepção do que era santo veio a ser comparado com o que era bonito e bom. Com o desenvolvimento do sacerdotalismo e do sacramentalismo, a participação congregacional na adoração foi minimizada, Deus foi distanciado da experiência direta dos adoradores. (STEFANI, 2002)

As poucas aberturas dessas construções direcionavam a luz para o altar, onde se encontrava o clero e os objetos litúrgicos, ficando a congregação na penumbra.

Isso passava a idéia de santidade dos representantes de Deus aqui na Terra, e a condição de trevas espirituais da população leiga. O peso de sua massa construtiva ao mesmo tempo passava a sensação de opressão e de proteção, como que dizendo que é a Igreja que domina, mas diferentemente da dominação do senhor feudal, apenas ela pode salvar a alma.

As pessoas que entravam nas catedrais deixavam para trás sua vida de preocupações materiais e pareciam adentrar em um mundo diferente. Mas era um mundo misterioso, que inspirava temor, onde a esperança de salvação misturava-se ao medo da morte e do julgamento; e nas comunidades simples o foco principal estava no medo.

A teologia românica concentrava-se em Deus como uma figura de autoridade - soberano, ditador da lei e juiz. As criações estéticas derivadas dessa ideologia certamente inspiravam mistério, temor e reverência, e às vezes intimidação (STEFANI, 2002)

Nestas "fortalezas" sagradas os religiosos se refugiavam dos males deste mundo. Suas atividades diárias consistiam de orações, meditações, leituras da Bíblia (copiadas a mão por eles mesmos) e de cânticos. A fonte musical destes cânticos era os cânticos judaicos (Salmos) e a música grega, preservada pela Roma Antiga.

Inicialmente herdado da sinagoga judaica, o estilo de música sacra cristã primitiva foi conscientemente cultivado durante séculos sucessivos para refinar essas características próprias de uma orientação transcendente. Ambas músicas, da sinagoga judaica e a música cristã primitiva, exibiram o mesmo canto bíblico intencionalmente restrito, mas certos pontos secundários de diferença existiram, particularmente relativos à expressão do sentimento humano. Enquanto o canto judaico era um canto humano, imperfeito, o louvor cristão buscava aproximar-se da beleza pura e perfeita de um coro de anjos.

Após o Papa Gregório I ter unificado a liturgia do culto nas igrejas, no século VI, a música passou a ter uma grande importância nos ritos sacros, denominada de Canto Gregoriano. A música litúrgica foi o padrão para a cultura musical durante o período medieval. A música da Igreja claramente liderou a hierarquia musical aceitável na sociedade, determinando a direção do desenvolvimento artístico como um todo.

O tema e o objetivo da música de adoração cristã era permanecer sendo a glorificação de Deus e a edificação do homem. Seu foco era o Deus transcendente e a humanidade deveria ser ensinada sobre Ele e elevado ao Seu reino. A ênfase era a contemplação no lugar do envolvimento; o idealismo no lugar do realismo; a instrução no lugar do prazer. (STEFANI, 2002)

O Canto Gregoriano, como canto monódico unificado de uma Igreja que se responsabilizava por uma tal missão social, necessariamente deveria ser organizado de forma a favorecer a difusão dessa ideologia. O sistema modal, instituído para reger a organização melódica do Canto Gregoriano, deve ser entendido como um "princípio disciplinador". Principalmente em se tratando das formas de recitação dos Salmos, nota-se, por exemplo, que um mesmo modelo de trajetória melódica freqüentemente servia de suporte para vários textos inteiramente diversos, bem como também era comum que um mesmo texto se sujeitasse a diversas formações melódicas distintas. (SCHURMANN, 1985)

Em sua estrutura melódica se destaca o uso de uma determinada altura sonora, uma nota dominante. Toda a trajetória da voz pela linha melódica parece estar vinculada a esta dominante, com a qual mantém uma relação de íntima dependência, impregnando-a de um caráter autoritário favorável ao desempenho social da Igreja.

O canto litúrgico era dividido em himnodias (cantos realizados sobre textos novos, cantados numa única linha melódica, sem acompanhamento de neumas, que indicam a movimentação melódica) e salmodias (canto de Salmos ou partes da Bíblia). A notação musical ainda não era precisa. Eram utilizados signos fonéticos acompanhados de sinais que indicavam a movimentação melódica. No âmbito da teoria musical, surgiram os oito modos eclesiásticos, inspirados nos modos gregos.

A melodia era dividida em três partes, sendo a primeira ascendente, a segunda permanente e a terceira descendente, com as mesmas notas que a primeira, formando uma estrutura simétrica, fazendo alusão aos versos da liturgia "Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et im saecula saeculorum" (sempre foi, permanece e sempre será), que tanto se refere a uma característica Divina, quanto à ideologia de imutabilidade social do feudalismo; bem como imprimem à melodia e ao ouvinte as características de impessoalidade e de dependência de uma instância superior.

Para reforçar ainda mais essa idéia de permanência, era comum o uso de acompanhamento de um pequeno órgão de tubos ou de uma vièle de roda, que produzia um som único e contínuo, do início ao fim, além da predominância constante de uma nota cantada dominante, que com o eco se tornava mais contínua ainda.

São características desta natureza que sem dúvida eram relevantes para dotar a liturgia da austeridade pesada e opressora, também presente nas formas arquitetônicas do estilo românico.

Todas as características da Arquitetura Românica estavam presentes na música desta época: a horizontalidade, gerada pela pouca diferença de altura entre a nota mais baixa e a mais alta da melodia; a falta de ornamentos, pela ausência de "voltas" em suas escalas; a já citada simetria; a unidade, pela estrutura harmônica em uníssono.

Além disso, suas pesadas e sólidas paredes de pedra, sua forma retangular com um comprimento da nave muito maior que sua altura, e um teto em forma côncava (abóbada), proporcionava um tempo de reverberação altíssimo, causando muito eco. Se a melodia e a harmonia fosse complexa, o som ficaria "embolado". Com uma melodia simples e em uníssono, o eco acabava gerando uma "polifonia" e um "contracanto" natural, pela superposição das notas cantadas e do eco, criando um clima misterioso e místico.

Gótico

A partir de meados do século XII, grandes mudanças assolam a Europa. O crescimento demográfico e o aperfeiçoamento dos métodos agrícolas e comerciais proporcionam as bases pelas quais o Ocidente deixará de viver encolhido sobre si mesmo. Na ordem política, vê-se uma crescente afirmação do poder real frente às desagregadoras do feudalismo. A consolidação das monarquias e do sentido nacional, a prosperidade econômica regida pela indústria manufatureira e pelo comércio, que vai gerar um grande crescimento das cidades e o surgimento da classe burguesa, vai por um fim definitivo à sociedade feudal.

As peregrinações e as Cruzadas põem a Europa em contato com novas culturas. As ordens cistercienses promovem uma reforma monástica. As escolas catedralícias e urbanas arrebatarão a primazia dos mosteiros como foco de cultura, passando as universidades a exercerem essa função.

A espiritualidade se vê condicionada pelo fenômeno urbano quando surgem as chamadas ordens mendicantes: franciscanos e dominicanos. (BRACONS, 1992)

As manifestações artísticas ganham grande importância, e os artistas e artesãos passam a ser muito valorizados. Esses se organizam em confrarias e corporações, e passam a se especializar em seus ofícios.

Todas essas mudanças nos âmbitos sociais, econômicos, políticos e artísticos, acabou resultando em mudanças na ideologia da Igreja. O nascimento da arquitetura gótica foi resultado da evolução das técnicas construtivas realizadas durante o período românico, principalmente em conseqüência dessa mudança ideológica. O início dessa nova corrente foi atribuído ao abade Suger, da abadia de Saint-Denis, na Île-de-France, santuário do evangelizador da França (São Dionísio), panteão real e depositário das insígnias do poder.

Ao conceber o projeto de renovação da abadia, Suger utilizou os elementos arquitetônicos que já existiam no românico tardio, como arcos e abóbadas ogivais, mas combinados segundo uma nova ordem. A partir deste feito, todas as obras construídas na França seguirão seu estilo.

Todos os esforços passaram a se concentrarem na solução de um único edifício: a catedral. (BRACOSN, 1992)

Segundo BRACONS, a catedral, paradigma da arquitetura gótica, fará a contraposição entre a arte românica monástica e rural, e a arte gótica catedralícia e urbana. Como igreja representativa de uma sede episcopal, converte-se no símbolo da do renascimento das cidades na Europa do século XII.

Os aspectos construtivos possibilitaram a materialização da nova ênfase doutrinária da Igreja. Com o domínio cada vez maior dos arcos e abóbadas em ogivas, e do afastamento dos contrafortes em arcobotantes das paredes externas, se conseguiu construir catedrais com panos cada vez mais esbeltos, e naves cada vez mais altas.

Com a diminuição da função estrutural das paredes, estas ganham cada vez mais aberturas para a entrada de luz, os vitrais. Como a luz emana dos elevados janelões, o sentido ascencional converte-se em outro dos fatores substanciais da arquitetura das catedrais góticas. Altíssimas torres pontiagudas riscam os céus, reforçando este sentido de ascensão e se tornando ponto de referência visual em toda a cidade.

Ao contrário da arquitetura românica, a gótica é extremamente ornamentada. Com o virtuosismo dos artistas como arquitetos, escultores, ourives, muralistas e vitraleiros, além do patrocínio dos monarcas, se passam a construir catedrais cada vez mais ricas, adornadas e monumentais. A luz passa a transmitir uma profunda sensação de transcendência, da presença de Deus que agora se derrama sobre todos.

A leveza da igreja, aliada aos elementos arquitetônicos ascendentes (arcos e abóbadas em ogiva, os vitrais, as torres...) não mais passam o sentimento de opressão. Nos cultos, a figura masculina do Deus opressor é substituída pela figura feminina e intercessória da Virgem Maria. A espiritualidade se renova, se tornando mais sensível à realidade humana. (BRACONS, 1992)

O conjunto dessas inovações se estenderam à produção musical, que recebeu o nome de "Ars Nova" (arte nova), em oposição à "Ars Antiqua" (arte antiga).

Essa nova arte seria a música polifônica, que veio substituir a música em cantochão (monofônica) do Canto Gregoriano. Igualmente à arquitetura gótica, também nasceu na Île-de-France, na catedral de Notre Dame. Os músicos que atuavam junto à catedral de Notre Dame dispunham de uma notação musical evoluída, em que não só as notas musicais vinham grafadas, mas também os ritmos e a duração em que cada nota deviam soar. Além da elaboração de notas novas sobre organuns dados, as músicas se abrem para composições autônomas.

A "arte nova", que fortalecia o conceito tonal, fez com que a música adquirisse uma complexidade até então incomum para a cultura do ocidente. A transição da nonofonia tradicional românica para a polifonia gótica se deu de maneira gradual, iniciando com ornamentações ou vocalizes a duas vozes, até chegar a quatro, então designadas de tenor, duplum, triplum e quadruplum. Inicialmente, as vozes seguiam a linha melódica na partitura paralelamente, sendo duas em oitavas e as outras em quartas e quintas. (SCHURMANN, 1989)

Outra técnica comum era o contracanto ou contraponto, onde uma voz iniciava a melodia, seguida poucos segundos depois pela outra, e assim por diante, cantando todas as vozes a mesma melodia, em tempos desencontrados. Essas duas técnicas evoluíram para arranjos a quatros vozes independentes, onde as linhas melódicas não seguiam mais trajetórias paralelas; e o auge da polifonia gótica, quando se uniu esta técnica de harmonia com o contraponto, passando as diferentes vozes a assumirem independências melódicas e rítmicas, chegando ao extremo de cada voz entoar seu texto exclusivo.

A polifonia e o contraponto sugerem uma perfeita similaridade poética com os princípios da arquitetura gótica: ritmos agitados, flutuantes, de elevada grandiosidade espiritual. Estão presentes também a riquíssima ornamentação, a transcendentalidade, a superposição de elementos ascendentes que reforçam o sentido de alegria e júbilo e culminam num clímax. (SCHURMANN, 1989)

A catedral, com sua proporções e sua própria estrutura amplificava o som, constituindo uma fonte especial de inspiração para os compositores, que desenvolviam técnicas para preencher este espaço com música gloriosa e que se elevasse a grandes alturas. (IAZZETA, 1993)

Vê-se aí mais uma nítida diferença entre a música monofônica e a polifônica, que vai além da questão estética, presente igualmente na música e na arquitetura, e se dá no âmbito ideológico da nova sociedade: o júbilo que sucede a opressão. Ao que tudo indica, tratava-se de uma espécie de exultação que nada tinha a ver com a liturgia em si.

O desenvolvimento desse tipo de polifonia urbana pressupunha a existência, naquele tempo e naquele lugar, de uma formação social onde uma camada substancial da sociedade tivesse motivos relevantes para se sentir em estado permanente de exaltação. Seria uma comunidade triunfante, a burguesia, como resultado de um processo histórico vinculado ao surgimento, no âmbito urbano, de novas forças sociais, distintas e opostas àquelas que eram próprias à ordem feudal e rural anteriormente estabelecida.

Mediante tais manifestações, a burguesia dizendo não ao canto monódico, contestava e se opunha de modo jubiloso à dominação cultural. Como explicar que tais manifestações de contestação se desse na catedral de Notre Dame, isto é, um espaço que evidentemente se destinava primordialmente às práticas diretamente vinculadas à liturgia?

Uma possível resposta, embora um pouco romântica, é que os habitantes das cidades francesas dessa época, imbuídos de forças sociais acumuladas em conseqüência dos êxitos obtidos nos seus empreendimentos, ansiassem por um espaço no meio urbano que resumisse seus esforços coletivos e expressasse o sucesso de suas realizações.

A catedral gótica seria a materialização desses anseios: a "casa comunal", o celeiro de abundância, a bolsa de trabalho e o teatro do povo, o edifício sonoro e luminoso que sempre estaria aberto ao povo, a grande nave capaz de conter a cidade inteira, a arca cheia de tumulto nos dias de mercado, cheia de danças nos dias de festas, cheia e cânticos nos dias de culto, cheia da voz do povo todos os dias. (SCHURMANN, 1985)

A formação intelectual se desloca das escolas monásticas para as novas instituições urbanas: as escolas catedralícias e as universidades. As relações existentes entre a escolástica, no campo acadêmico da filosofia, e o estilo gótico, na arquitetura, são fenômenos dialeticamente vinculados.

Sobre essa perspectiva deve ser compreendido também o fenômeno da polifonia, enquanto a escolástica expressava a religiosidade medieval de acordo com a ideologia burguesa, se utilizando da comunicação lingüística. Para procurar contemporizar os conflitos ideológicos já deflagrados, a música polifônica não fazia uso dos procedimentos discursivos. Era assim uma prática de efeitos muito mais imediatos capaz de expressar a animosidade da burguesia perante a dominação cultural, aniquilando assim os meios musicais tradicionalmente usados para esta dominação. (SCHURMANN, 1989)

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