Compromisso
Num país como o Brasil, de grandes desigualdades, profundos problemas sociais
e alto índice de analfabetismo, a televisão surge como um importante instrumento
de democratização da informação e da educação.
Como meio de comunicação de alcance nacional - 80% dos lares brasileiros possuem
pelo menos um aparelho de TV - a televisão desempenha um papel fundamental
no desenvolvimento do país e exerce grande influência sobre a vida dos brasileiros.
Em 1999, São Paulo está entre as maiores metrópoles do mundo, tem 19 milhões
de habitantes e sete estações de TV de sinal aberto em VHF. Desse total, seis
são emissoras privadas e apenas a TV Cultura é pública.
A Fundação Padre Anchieta vem trabalhando firmemente para o fortalecimento
de uma rede nacional, formada pelas emissoras educativas estaduais, que retransmitem
seus programas para quase todo o país e contribuem com suas produções regionais
próprias para a programação da TV Cultura.
A TV Pública tem um compromisso com a ética, a estética e a qualidade de sua
programação. Com cerca de 18 horas de programação diária, composta em sua
maioria por produções próprias complementada pelo que há de melhor nas televisões
independentes e culturais do mundo, a TV Cultura consolidou-se como uma forte
opção para os telespectadores brasileiros.
Dada a sua natureza e condição, a TV Cultura cumpre seus objetivos, produzindo
e difundindo uma programação de qualidade, acessível às mais diferentes classes
e segmentos sociais, atendendo suas necessidades e interesses.
Informação, conhecimento e entretenimento são os ingredientes básicos da programação
da TV Cultura, estimulando a curiosidade e a imaginação, especialmente das
crianças. Assim, artes, música, ecologia, civismo, notícias, matemática, tudo
pode ser aproveitado num aprendizado informal, essencial ao desenvolvimento
permanente do ser humano.
A história
Primeira Parte -período de 1969 a 1971
No final dos anos 60, duas publicações disputavam os leitores interessados
em notícias - e fofocas - sobre televisão: "Intervalo", da Editora
Abril, e "São Paulo na TV", da Editora Propaganda. As duas publicavam
em suas páginas um guia semanal de programação com os horários de todos os
programas. Na época, as pessoas referiam-se às emissoras por meio de sua posição
no seletor. A Tupi era o "canal 4", a TV Paulista (Globo) era o
"canal 5", a Record era o "canal 7" e assim por diante.
O público paulistano, em 1967, tinha seis canais à disposição: 2, 4, 5, 7,
9 e 13 - respectivamente, Cultura, Tupi, Paulista, Record, Excelsior e Bandeirantes.
Em janeiro de 1968, a programação do Canal 2 não estava mais disponível. Na
revista "São Paulo na TV", o espaço a ela destinado passou a trazer
as palavras "Futura TV Educativa". A observação passou a constar
do roteiro da publicação a partir do momento em que foram encerradas as transmissões
da antiga TV Cultura, considerada a "irmã caçula" da TV Tupi no
conglomerado de empresas de comunicação dos Diários Associados. E lá ficaram,
até 1969, as palavras que indicavam ao telespectador de São Paulo que futuramente
ele teria mais uma alternativa em seu seletor de canais. A novidade: seria
uma emissora pública - e muito mais do que a "TV Educativa" anunciada.
O surgimento de canais voltados à educação e à cultura tinha o respaldo do
Governo Federal, que em 1967 havia criado a Fundação Centro Brasileiro de
TV Educativa, com o objetivo de estimular e dar apoio às emissoras culturais
estaduais. Desde o início, a entidade reservava um papel importante ao futuro
canal educativo paulista: superior em recursos - 12,5 milhões de cruzeiros
novos para o ano de 69 -, deveria fornecer programas em videotape para os
outros Estados.
O potencial de emissoras dessa natureza já havia sido demonstrado pela pioneira
TV-U, Canal 11, de Recife. Criada em novembro de 1966 e mantida pela Universidade
de Pernambuco, em poucos meses apresentava expressivos índices de audiência
com seus programas educativos e de teatro.
A Fundação Padre Anchieta
Para viabilizar e manter a nova TV2 Cultura, o Governo de São Paulo criou,
em setembro de 1967, a Fundação Padre Anchieta - Centro Paulista de Rádio
e Televisão Educativas, com dotação do Estado e autonomia administrativa.
Instituída e mantida pelo poder público, nascia com o estatuto de entidade
de direito privado, para ter seu rumo desvinculado das vontades políticas
dos sucessivos governos estaduais. Esse fundamento fazia parte da concepção
de TV pública idealizada pelo então governador Roberto de Abreu Sodré.
A constituição da Fundação Padre Anchieta seguiu as diretrizes da Lei Estadual
nº 9849, de 26 de setembro de 1967, que autorizou o Poder Executivo a formar
uma entidade destinada a promover atividades educativas e culturais por meio
do rádio e da televisão. Foi autorizada também a abertura de um crédito de
1 milhão de cruzeiros novos para o empreendimento. Além da dotação inicial,
estavam previstos outros recursos, como receitas originadas de aplicações
dos bens patrimoniais. Entre esses bens figurava o Solar Fábio Prado, na avenida
brigadeiro Faria Lima, doado pela sra. Renata Crespi e que hoje abriga o Museu
da Casa Brasileira.
Logo após a criação da Fundação, seu primeiro presidente, o banqueiro José
Bonifácio Coutinho Nogueira, tratou de buscar profissionais para dar início
a execução do projeto da nova TV Cultura. Por meio de consultas e indicações
de amigos do mundo artístico, como o então diretor do Teatro Cultura Artística,
Alberto Soares de Almeida - que sugeriu os nomes de Cláudio Petraglia e Carlos
Vergueiro -, Bonifácio chegou aos nomes que viriam a participar das reuniões
de planejamento e fariam parte da primeira diretoria da emissora: o brigadeiro
Sérgio Sobral de Oliveira, assessor administrativo; Carlos Sarmento, assessor
de planejamento; Carlos Vergueiro, assessor artístico; Cláudio Petraglia,
assessor cultural; Antonio Soares Amora, assessor de ensino; e Miguel Cipolla
, assessor técnico.
O radialista Fernando Vieira de Mello se juntaria ao grupo, ainda que por
pouco tempo, como assessor de produção. Vários desses profissionais traziam
experiência de outros veículos - Petraglia tinha no currículo vários cursos
e estágios no exterior e uma passagem significativa pela TV Paulista; Cipolla
havia trabalhado na TV Excelsior; Vergueiro era diretor da Rádio Eldorado;
e Vieira de Mello atuava na Rádio Pan Americana, a Jovem Pan.
Nos primeiros meses, a Fundação Padre Anchieta tinha dois endereços. As reuniões
de planejamento aconteciam nos escritórios da avenida Ipiranga, região central
de São Paulo, enquanto alguns setores administrativos já operavam no local
que abrigaria a sede definitiva da TV Cultura, à rua Carlos Spera, 179, no
bairro da Água Branca, zona oeste da capital. Neste último endereço existiam
dois estúdios, um pequeno prédio utilizado pela administração, uma lanchonete,
outro prédio térreo onde funcionavam a Rádio Cultura AM e o almoxarifado geral,
além de uma pequena casinha ao fundo, onde morava o zelador Nélson Niciolli.
Era este o patrimônio inicial da nova TV Cultura. Funcionários mais antigos
ainda lembram do período em que essa estrutura servia aos Diários Associados.
"Aqui tinha uma grande lona, como num circo, onde o Sílvio Santos vinha fazer seu programa aos domingos. A gente atendia telefonemas e saía para dar os recados, porque não havia esse sistema de comunicação eficiente como o de hoje. Aliás, as ruas de acesso não eram asfaltadas e não havia condução. Era tudo barro, então nós tínhamos que vir com mais um par de sapatos e trocá-lo aqui."
Marly Therezinha Ribeiro, recepcionista e telefonista em 1966. Em 1999, supervisora administrativa da Gerência Operacional da TV Cultura.
A construção
As primeiras obras de ampliação da emissora foram realizadas em 1968, com
a construção de um prédio de dois andares para abrigar a diretoria, o Conselho
de Curadores e a produção, de uma nova sede para a Rádio Cultura e um anexo
para abrigar o setor de operações. Paralelamente, a equipe inicial reunida
pelo presidente da Fundação elaborava um cronograma de trabalho para colocar
o canal no ar no ano seguinte.
No segundo semestre de 68, começaram a ser contratados os profissionais de
TV que dariam o 'start' da programação. Ao mesmo tempo, cuidava-se da aquisição
de equipamentos - os mais modernos do mercado - e a concepção visual da emissora.
O logotipo do canal surgiu nas pranchetas do escritório dos designers João
Carlos Cauduro e Ludovico Martino. Chamado internamente de "bonequinho",
foi concebido para ter variações conforme a utilização. A primeira vinheta
musical, que já utilizava o bonequinho, foi composta por Camargo Guarnieri
e gravada no estúdio da RGE-Scatena.
Na época - e já avançando em 69 -, aconteceram os testes técnicos e de produção
nos estúdios da Escola de Comunicações e Artes da USP, no Antigo Prédio da
Reitoria. Curiosamente, a fase de testes era acompanhada por alunos de Rádio
e TV da ECA que, formados nos anos seguintes, viriam a se juntar aos pioneiros
da nova emissora, já como profissionais
"No período de implantação, chegamos à idéia básica de TV pública e não TV instrutiva. Elaborei um decálogo contendo os itens fundamentais de uma 'public TV'. Nós tínhamos de ter audiência ao mesmo tempo em que precisávamos abrir espaço para programas experimentais. Em seu conjunto, os programas teriam de atender a todos os segmentos. Se não tivesse existido esse conceito de televisão pública, acho que a TV Cultura teria fracassado, não teria feito a carreira que vem fazendo até agora. Hoje, ela é uma televisão cultural."
Cláudio Petraglia, assessor cultural da TV Cultura até 1971. Em 1999, diretor
regional da Rede Bandeirantes de Televisão no Rio de Janeiro.
O projeto técnico
Se o perfil de programação do novo canal estava traçado, era necessário viabilizá-lo
tecnicamente. Durante todo o ano de 68, o assessor técnico Miguel Cipolla,
em conjunto com o assessor de planejamento, Carlos Sarmento, elaborou um projeto
técnico que possibilitava a captação do sinal da emissora num raio de 150
quilômetros em torno de São Paulo. A primeira providência foi a mudança da
antena do alto do prédio do Banco do Estado de São Paulo, no centro da cidade,
para o pico do Jaraguá, na zona oeste.
O passo seguinte foi a reinstalação dos estúdios, com a aquisição de novos
equipamentos. A empresa vencedora da concorrência foi a RCA, que forneceu
todas as máquinas, com exceção das câmeras - a emissora optou pelas modernas
Mark V, da Marconi, só encontradas nos estúdios da BBC de Londres.
Durante o processo de compra e implantação, a equipe ganhou o reforço do engenheiro
Renê Xavier dos Santos, que havia participado da instalação da TV Globo no
Rio de Janeiro. A exemplo de Cipolla, Xavier era formado no Instituto de Tecnologia
da Aeronáutica, de São José dos Campos.
Os meses que antecederam a estréia da TV Cultura foram de intenso trabalho.
Já davam expediente os profissionais de televisão que moldariam a "cara"
da emissora conforme surgiu no ar a partir de junho de 69.
"Logo no início, a Fundação se pautou pela escolha de profissionais de grande gabarito. Foram esses profissionais que formaram verdadeiramente a primeira escola de televisão no Brasil. Antes da estréia, nós passamos de seis a oito meses formando conceitos, discutindo o caminho que deveria tomar uma TV educativa. No meu setor, recebi uma equipe de cerca de vinte pessoas, vindas do antigo Canal 2. Lá estavam profissionais das mais diferentes áreas: desenho, fotografia, contra-regra, costura, maquiagem...
Era um grande desafio montar o departamento de cenografia e arte, que englobava tudo. Esse modelo foi até os anos 90, e acredito que dele nasce o designer, o diretor de arte, que precisa ter uma visão global. Lembro da minha equipe: um grande pintor de arte, que era o Isidoro Vasconcelos; um marceneiro maravilhoso, chamado Antonio Monteiro dos Santos [em 1999, chefe do setor de cenotécnica da TV Cultura]; o fotógrafo Danilo Pavani, as costureiras Dercy e Antonia, a camareira Leonor. Entre os desenhistas, tínhamos o Maurício Sanches, o Vicente Iborra e outros. Na cenografia, tínhamos o Campello Neto [vindo da TV Globo] e Leonor Scarano de Mendonça. Nos anos seguintes, naturalmente, outros profissionais juntaram-se à equipe".
Armando Ferrara, chefe do Departamento de Cenografia e Arte da TV Cultura de 1969 a 1988.
Após dois meses de transmissões experimentais, iniciadas em 4 de abril, chegou
finalmente o momento de inauguração da TV Cultura. Era o dia 15 de junho de
1969. Exatamente as 19h30 daquele domingo, entraram no ar os discursos do
governador Roberto de Abreu Sodré e do presidente da Fundação Padre Anchieta,
José Bonifácio Coutinho Nogueira.
Em seguida, foi exibido um clipe mostrando o surgimento da emissora, os planos
para o futuro e uma descrição dos programas que passariam a ser apresentados
a partir do dia seguinte, dia 16 de junho - quando foram iniciadas as transmissões
regulares da nova emissora. Estava no ar a TV Cultura, resultado de um longo
trabalho que envolveu uma legião de técnicos, diretores, produtores e artistas.
Nos primeiros meses, a TV Cultura permanecia no ar por apenas quatro horas
diárias - das 19h30 às 23h30. O primeiro programa exibido, às 19h30 do dia
16 de junho, foi um episódio da série "Planeta Terra". O documentário
trazia como tema terremotos, vulcões e fenômenos que ocorrem nas profundezas
do planeta.
Logo depois do "Planeta Terra", mais uma novidade: todos os dias,
sempre as 19h55, a TV Cultura levaria ao ar um completo boletim meteorológico,
chamado "A Moça do Tempo", apresentado por Albina Mosqueiro. Às
20h00, iniciava-se uma série que viria a fazer história: era o "Curso
de Madureza Ginasial", um dos seus maiores desafios era provar que uma
aula transmitida por televisão poderia ser, ao mesmo tempo, eficiente e agradável.
Outras emissoras comerciais haviam tentado incluir o curso em sua programação,
sem alcançar bons resultados de audiência. Nas tentativas anteriores, o esquema
em vigor era o velho "giz e quadro negro".
Para mudar esse panorama, a TV Cultura havia reunido grandes profissionais
de televisão e contratado professores universitários de alto nível. A primeira
diferença: a maior parte dos professores não ia para a frente das câmeras.
Eles preparavam o conteúdo das aulas que, em seguida, eram transformadas em
verdadeiros programas de televisão, apresentados por uma equipe de 18 atores
selecionados entre quinhentos candidatos.
"Havia uma disciplina que se chamava Ciências Humanas e englobava História, Geografia, Psicologia, Lingüística e Demografia. Era uma equipe de alto nível: entre os professores, tínhamos Gabriel Cohn, Ruth Cardoso, Paul Singer, Rodolfo Azen, Jobson Arruda e José Sebastião Witter. Enfim, era um time de primeira que fazia os textos, a partir dos quais desenvolvíamos as aulas".
Fernando Pacheco Jordão, que em 1969 era produtor responsável pelas aulas
de Ciências Humanas.
A primeira aula que entrou no ar naquele 16 de junho mostrava que o desafio
estava sendo vencido. A aula de português, preparada por Walter George Durst
a partir do conteúdo dos professores Isidoro Blikstein e Dino Pretti, era
ilustrada por diálogos da novela "O Feijão e o Sonho", produzida
a partir da obra de Orígenes Lessa. Era esta a forma que a emissora havia
desenhado para transmitir suas aulas.
No momento em que entrou no ar, às 20h00, a aula de português concorria com
as novelas "Beto Rockefeller", no Canal 4, "A Rosa Rebelde",
no Canal 5, e "Vidas em Conflito", no Canal 9. O Canal 7 exibia
o humorístico "Na Onda da Augusta", produzido por Carlos Manga,
enquanto o Canal 13 mostrava o interativo "Telefone Pedindo Bis",
apresentado por Enzo de Almeida Passos. Em seu primeiro dia, a Cultura atingiu
a expressiva média de 9 pontos de audiência. Na mesma segunda-feira, foram
apresentadas as aulas de Geografia e de História. Cada aula tinha duração
de 20 minutos..
O assessor de ensino, Antonio Soares Amora, contava com alguns auxiliares
diretos, como Andreas Pavel - um jovem sociólogo alemão "a frente de
seu tempo", segundo seus colegas -, George Sperber e o professor de matemática
Oswaldo Sangiorgi, que anos depois assumiria a chefia do departamento de ensino.
Bem assessorado, Amora estabeleceu uma parceria com a Editora Abril, que ficou
responsável pela elaboração dos fascículos com o conteúdo das aulas, vendidos
nas bancas por dois cruzeiros novos. A Cultura tinha participação no preço
de capa.
"Ainda lembro das viagens que fazíamos por diversos Estados, principalmente do Norte e do Nordeste. Nós, da Cultura, íamos com a 'latinha' contendo o filme feito em TFR [Telecine Film Recording, máquina que faz cópias em filme de 16 mm a partir de fitas de vídeo] com programas do curso de Madureza, enquanto o pessoal da Abril levava os fascículos. O acordo para criar os fascículos foi muito importante, do ponto de vista pedagógico, porque era mais um canal de comunicação com os alunos. Eles podiam manusear o material em qualquer lugar e em qualquer momento. Além de assistir às teleaulas, os telespectadores tinham a possibilidade de estudar sozinhos ou em grupos. Em vários lugares de São Paulo e em outros Estados, as secretarias de Educação e outros órgãos oficiais organizavam telepostos. Nesses espaços, o aluno via o programa e estudava a partir dos fascículos, contando com a presença de um orientador de aprendizagem. Aqui mesmo, na TV Cultura, tínhamos um teleposto que servia para as avaliações do processo. De um modo geral, aquele sistema apresentou um retorno extraordinário".
Pedro Paulo Demartini, pedagogo, contratado em 1970 para dar apoio à Assessoria de Ensino. Em 1999, assistente de Educação da TV Cultura.
"No final do curso, que durava um ano, foram realizados os exames - que valeram como conclusão do curso ginasial. Nós sabíamos, por meio de pesquisas, que o maior nó, o maior gargalo era justamente o madureza do ginásio. Havia um nível de repetência muito alto e era preciso resolver o problema das pessoas mais velhas. Pelo que me lembro, cerca de 60 mil pessoas conseguiram o diploma de madureza. Foi um negócio renovador".
Depoimento de Cláudio Petraglia.
Na seqüência da programação inaugural, foi exibido, às 21h00, o programa "Quem
Faz o Quê", mostrando o trabalho de três artistas plásticos. Logo depois,
às 21h30, foi ao ar o primeiro "Sonatas de Beethoven", com o pianista
Fritz Jank. As 22h15, outra estréia significativa, fechando a grade do primeiro
dia: 'O Ator na Arena", com apresentação do diretor polonês Ziembinsky.
Para aquela noite, foi escolhido um trecho da peça "Yerma", de Federico
Garcia Lorca, interpretado por Carlos Arena e Ana Lúcia Vasconcelos.
Nos dias seguintes, a emissora foi lançando novos programas, como as teleaulas
de Ciências Humanas, Matemática, Inglês e Ciências Naturais, sempre na faixa
entre 20h00 e 20h40. Surgiram também os programas culturais, como o "Mundo,
Notícias, Mocidade", com Maria Amélia Carvalho, "Clube de Cinema",
produzido por Gregório Bacic e apresentado por A. Carvalhaes e Gláucia Rothier,
e "Perspectiva", produzido por Heloísa Castellar - que, com vasta
experiência como novelista, utilizava elementos de ficção para enfatizar situações
reais do cotidiano. No primeiro programa, que trazia uma reportagem sobre
a construção do Metrô de São Paulo, teatralizou algumas cenas para demonstrar
a necessidade de um transporte rápido e seguro na cidade.
A ficção, por sinal, teria destaque com o "Grande Teatro", logo
nos primeiros tempos da TV Cultura. Marcaram época as montagens de "A
Casa de Bernarda Alba" (foto) e "Electra", adaptadas e dirigidas
por Heloísa Castellar. A primeira, baseada no original de Garcia Lorca, trazia
um elenco estelar, com Lélia Abramo, Ruthinéa de Moraes, Cacilda Lanuza e
Mirian Mehler, entre outras atrizes de sucesso nos palcos. Nos anos 70, diretores
do primeiro time do teatro brasileiro, como Ademar Guerra, Antunes Filho e
Antonio Abujamra assinariam montagens de teleteatro produzidas pela emissora.
Polêmica
Na primeira semana - na noite de quarta-feira - estreou também o polêmico
"Jovem, Urgente", produzido por Walter George Durst e apresentado
pelo psiquiatra Paulo Gaudencio. Gravado com a participação do público, tinha
a proposta de debater o comportamento da sociedade - em particular dos jovens
- numa época especialmente explosiva. No ano anterior, o movimento estudantil
havia eclodido com toda a força na Europa. Nos Estados Unidos, nascia o movimento
hippie e pipocavam os movimentos pacifistas contra a guerra do Vietnã.
No Brasil, onde já se ouviam os acordes dissonantes do tropicalismo, os estudantes saíam às ruas para protestar contra o regime militar e procuravam acompanhar as mudanças culturais que aconteciam em outros países. Nesse clima de inquietação e em plena vigência do AI-5, "Jovem, Urgente" buscava discutir temas como liberdade de opinião, virgindade, conflitos de gerações e outros tabus sexuais e culturais. Se o programa evidenciou a independência editorial da TV Cultura, marcou também o início dos problemas que a emissora viria a ter com a censura.
Era o risco que corria também o "Caixote de Opinião", programa de depoimentos cujo nome era inspirado no célebre costume dos ingleses, que, quando queriam protestar contra a família real britânica, subiam num caixote em pleno Hyde Park e falavam à vontade, já que "não estavam pisando solo britânico".
"O 'Jovem Urgente' era um programa fantástico. Mas toda semana era proibido pela Censura e o (presidente) José Bonifácio ligava para Brasília para liberá-lo. Era gravado com antecedência, mas mesmo assim era uma loucura. Marcou época."
Depoimento de Yolanda Costa Ferreira.
Intercalados aos programas feitos na própria TV Cultura, eram exibidos documentários
e programas culturais de outros países, como Canadá, França, Inglaterra, Alemanha
e Japão - obtidos nos consulados ou por meio de acordos operacionais com emissoras
estrangeiras.
Os musicais
Havia também os programas musicais criados pela equipe de Carlos Vergueiro,
formada por Sérgio Viotti, Caio Mário Britto, Vicente Conti, Annie Fleury
e Sílvia Autuori, entre outros profissionais. Programas como "Música
da Nossa Terra", apresentado pelo cantor Joel de Almeida e exibido aos
sábados, no horário nobre. Entre os convidados, Ângela Maria, Orlando Silva,
Araci de Almeida e Lana Bittencourt. Outra atração da área artística eram
os recitais, como os que mostravam Inezita Barroso cantando e acompanhando-se
ao violão.
Desde o início, a TV Cultura tinha o objetivo de democratizar a música, particularmente
a erudita, tentando aproximá-la do grande público. Uma iniciativa marcante
foi empreendida pelo maestro Júlio Medaglia, com produção de Fernando Pacheco
Jordão. Toda semana, uma orquestra de cordas era levada a um pátio de escola
ou de uma fábrica, para que estudantes e operários pudessem ver de perto o
trabalho dos músicos.
E havia também a preocupação com a criação de um acervo erudito com obras
apresentadas por grandes orquestras.
"Todos os domingos, tinha concerto da Sinfônica Municipal ou da Estadual,
sempre no Teatro Municipal. Nós tínhamos um acordo e toda semana íamos lá
gravar. Algumas semanas depois, o concerto ia ao ar. Isso nos permitiu formar
o maior acervo de música erudita da América Latina. Não só das orquestras
brasileiras, mas das estrangeiras também."
Esporte é Cultura
Era de Orlando Duarte o célebre jargão "Esporte também é Cultura".
Num estilo sóbrio, a área de esportes, nos primeiros anos, deu ênfase aos
esportes amadores. Tinha como importante ponto de apoio o "gafanhoto",
o equipado ônibus de externa da emissora, que recebeu o apelido por ser todo
verde.
"A TV Cultura foi pioneira na cobertura dos esportes amadores. Fazíamos transmissões de tênis, automobilismo, vôlei, basquete, hipismo e atletismo. Ainda lembro das partidas memoráveis da Taça Davis e também dos amistosos internacionais de futebol, que transmitimos ao vivo."
Luís Noriega, pioneiro da equipe esportiva da TV Cultura. Em 1999, sócio
da LMN, agência de assessoria em mercadologia, e vice-presidente da Federação
Paulista de Tênis.
OrlandoDuarte entre Mário Travaglini e Rubens Minelli Os primeiros programas
esportivos foram "História do Esporte" e "É Hora de Esportes",
este último com longa carreira na grade da emissora. Inevitavelmente, o tema
principal era o futebol, mesmo porque o surgimento da TV Cultura coincidiu
com o ano de preparação da seleção brasileira para a campanha do tricampeonato
em 1970, no México.
Não por acaso, a estréia do programa de variedades "A Verdade de Cada
Um" exibido aos sábados, abordou o tema: foi com o ex-técnico da seleção
Vicente Feola, que explicou as vitórias e derrotas do Brasil nas Copas do
Mundo. Na época, era viva a lembrança do retumbante fracasso da seleção brasileira
no Mundial da Inglaterra, em 66.
Jornalismo em TV pública: um desafio
Diversos programas, embora realizados pela equipe de produção, tinham caráter
jornalístico - como as entrevistas do programa "Personalidades",
as reportagens do "Perspectiva" e do "Brasil, Esse Desconhecido",
produzido e apresentado por Carlos Gaspar, e do "Presença", que
Nídia Lícia passaria a apresentar a partir de 1970. O primeiro programa de
caráter noticioso, no entanto, a Cultura só teria em 1971, com o semanal "Foco
na Notícia". Apresentado às sextas-feiras por Nemércio Nogueira, era
o embrião dos produtos jornalísticos que a emissora criaria nos anos seguintes.
A equipe de jornalismo que elaborava o "Foco na Notícia" era formada
por Fernando Pacheco Jordão, o editor de internacional Gabriel Romeiro e o
repórter Gilberto Barreto.
"Como havia problemas de censura, o "Foco na Notícia" tinha bastante ênfase no noticiário internacional. Mesmo assim surgiam problemas, porque estávamos em plena guerra do Vietnã e toda hora vinha queixa do consulado americano. De qualquer forma, nossa exigência era por um telejornal não opinativo, sem adjetivos. A gente procurava contextualizar a notícia, dando às pessoas os elementos necessários para que elas formassem a sua própria opinião".
Fernando Pacheco Jordão, que em 1971 assumiu o Departamento de Jornalismo
da TV Cultura.
Termina a primeira fase
Nos três primeiros anos, a TV Cultura colocou no ar mais de oitenta séries
diferentes, entre produções próprias e adquiridas de terceiros. Era um período
de consolidação da emissora tanto no que se referia à audiência como no que
dizia respeito à manutenção de sua autonomia. O rápido - e sólido - prestígio
que o novo canal obteve junto aos telespectadores atestava que o caminho estava
bem delineado. Justamente por causa disso, viria a enfrentar dificuldades
na primeira prova de fogo: a mudança de governo. O novo governador, Laudo
Natel, que sucedeu Abreu Sodré em 1971, buscou alterar o relacionamento que
o Estado mantinha com a emissora. Ao esbarrar nos estatutos que garantiam
a independência da Fundação, passou a reduzir as verbas destinadas à manutenção
da TV Cultura. Não pôde modificar a vocação cultural da emissora, mas por
meio da asfixia financeira conseguiu a saída de José Bonifácio Coutinho Nogueira
da presidência da Fundação. Em solidariedade, todos os diretores pediram demissão.
Sob a presidência de Rafael Noschese, no entanto, a TV não mudou o rumo ou
alterou substancialmente seus planos iniciais. Na nova fase, em que ganhou
o reforço das primeiras turmas formadas pelo curso de Rádio e TV da Escola
de Comunicações e Artes da USP, seguiria firmando seu espaço por meio de programas
inovadores, como o célebre infantil Vila Sésamo, adaptado do original norte-americano
"Sesame Street", e pela busca contínua de construir uma programação
cultural e educativa séria, competente e, ao mesmo tempo, atraente aos olhos
do grande público.
Você Sabia?
Que a TV Cultura produziu o primeiro Curso de Madureza Ginasial da TV brasileira
que contou com uma rede de telepostos em vários municípios paulistas?
Que a TV Cultura foi a primeira emissora a transmitir jogos da segunda divisão
do Campeonato Paulista?
Que o Viola Minha Viola é o mais antigo programa de música de raiz da TV brasileira?
Que a TV Cultura realizou inéditas transmissões de mundiais de Skate e de
Surfe?
Que o Repórter Eco, que está no ar desde 1992, foi a primeira série de programas
de TV voltada para questões de ecologia e meio-ambiente?
Que Nathália do Valle foi apresentadora das aulas de Geografia Telecurso 2º
Grau e que seu primeiro trabalho como atriz foi no Teatro2 da TV Cultura?
Que a TV Cultura foi primeira a fazer um programa de entretenimento para o
público da faixa etária acima dos 50: Festa Baile?
Que a fita de 2 polegadas, bitola utilizada no início da televisão, com capacidade
para 1 hora de gravação, tinha 1370 metros de comprimento?
Que o ator e diretor de cinema Anselmo Duarte foi o primeiro apresentador
do Cine Brasil, na versão de 1984, que fez o resgate inicial das produções
da Cia Cinematográgica Vera Cruz?
Que a atriz Lilian Lemmertz foi a primeira apresentadora do programa Panorama,
em 1975?
Que, em 1986, a TV Cultura realizou o Vitória, a primeira série de programas
voltada para os esportes radicais?
Que, em 1986, a TV Cultura fez uma remontagem, ao vivo, de Calunga - teledrama
originalmente transmitido pela TV Tupi na TV de Vanguarda nos anos 50 - com
o mesmo elenco base?
Que nos anos 70 a TV Cultura exibiu uma série de programas voltada para questões
agrícolas chamada Hora Agrícola?
Que a TV Cultura foi a primeira emissora a transmitir com exclusividade os
campeonatos Japonês, Alemão e Espanhol ?
Que, em 1972, a TV Cultura transmitiu Homens de Imprensa, um programa que
marcou época e que promovia o debate e o questionamento da atividade jornalística?
Que o Projeto Telescola: Matemática para 6.a série - Introdução aos Números
Inteiros · foi o primeiro programa da emissora a receber um prêmio internacional:
Prêmio Japãp - NHK Corporation de 1975?
Que o primeiro programa da televisão brasileira a usar o recurso de vídeo
clipes para divulgar música jovem foi o TV2 Pop Show de 1974?
Que a TV Cultura ficou fora do ar por 3 horas apenas, no dia 28 de fevereiro
de 1986, quando um incêndio destruiu 90% da área técnica da emissora, graças
ao empenho de seus funcionários e a solidária colaboração de todas as emissoras
paulistas, que cederam equipamentos para que trabalhos de finalização pudessem
ser realizados.
Que já em 1969 a TV Cultura transmitia um boletim meteorológico diário com
dados fornecidos pela CNAE ( Comissão Nacional de Atividades Espaciais ) e
que sua apresentadora ficou famosa na época e reconhecida como "A Moça
do Tempo"?
Que o programa Jovem, Urgente, lançado na programação de estréia da TV Cultura,
em 1969, conduzido pelo psicalista Paulo Gaudêncio, discutia questões relacionadas
ao cotidiano dos jovens como família, relações sociais, afetivas, etc?
Que a TV Cultura transmite a Missa de Aparecida do Norte todos os domingos
desde 1987?
Que o Bem Brasil nasceu em 1991 como um reduto para chorinho e chorões no
anfiteatro Romano, na Universidade de São Paulo, mas logo ampliou a variedade
de gêneros musicais para, em agosto de 1994, mudar-se para o Sesc Interlagos,
uma das mais belas áreas verdes de São Paulo, com capacidade para 40 mil pessoas?
Que a TV Cultura transmite regularmente o programa Vestibulando desde 1980,
na primeira fase ao vivo e, a partir de 1985, em versões gravadas, que são
periódicamente atualizadas?.
Que o ator Gerson de Abreu começou sua carreira na TV Cultura apresentando
o programa Tempo de Verão, depois de destacar-se numa das equipes de estudantes
que participou do programa É Proibido Colar?
Que a TV Cultura foi a primeira emissora de televisão a dar ampla cobertura
ao Carnaval Paulista desde quando este acontecia na Av. São João até o evento
adquirir caráter de exclusividade comercial em meados de 80?
Que a última transmissão de Copa do Mundo na Cultura foi em 1990, quando a
emissora colocou os jogos no ar com uma tarja que escondia anúncios inseridos
no sinal por outra emissora que conseguiu quebrar a exclusividade da TV Cultura?
Que a TV Cultura produziu vários cursos de formação e atualização profissional
na década de 70, entre eles Curso de Corte e Costura, Desenho Técnico e Curso
Básico de Administração de Empresas?
Que o Metrópolis constituiu um acervo com mais de 75 obras de renomados artistas
brasileiros a partir dos trabalhos especialmente executados para compor seu
cenário?
Que Sérgio Groisman apresentou na TV Cultura um programa voltado ao público
jovem chamado Matéria Prima?
Que Renata Ceribelli foi repórter do Vitrine onde fazia máterias sobre os
bastidores dos meios de comunicação?
Que Luciano Amaral começou sua carreira em teledramaturgia na TV Cultura em
1991, quando - aos 10 anos - foi protagonista da série Mundo da Lua, ao lado
de Gianfrancesco Guarnieri e Antonio Fagundes.
Que o Nossa Língua Portuguesa começou na Rádio Cultura AM, em 1992, como o
nome Língua Brasileira e que o professor Pasquale foi escolhido entre diversos
professores de português pela então Chefe do Departamento Rádio AM, Maria
Luíza Kfouri?
Que o Matéria Prima apresentado na TV Cultura por Sérgio Groisman começou
na Radio Cultura AM, em 1984, tendo como apresentador Toninho Moraes dirigido
por João Carrasqueira?
Que a Radio Cultura AM realizou o Projeto Curumim em parceria com a Secretaria
Municipal de Ensino em 82 e 83 e que foram transmitidos 215 programas e alguns
de seus personagens foram criados a partir de pesquisas feitas com os ouvintes
mirins como: o papagaio Pituca, a abelha Abelhuda e o Bicho Imitador?
Que a Sinfonia Cultura, orquestra da Fundação Padre Anchieta, realiza, em
parceria com a Secretaria de Cultura do Estado, um projeto pedagógico através
do qual as escolas recebem a orquestra e os estudantes têm a
oportunidade de conhecer os músicos e seus instrumentos e de se iniciar na
escuta musical erudita?
Que a TV Cultura mantem um setor de Efeitos Especiais que executa todas as
trucagens dos programas da emissora com maior destaque para produções infantis
como Rá-Tim-Bum, Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bum, X-Tudo e Cocoricó.
Fonte: www.portaldafama.kit.net