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História da TV Tupi

1950-1960: O NASCIMENTO DA TELEVISÃO NO BRASIL: SURGE A REDE TUPI
O Condomínio Acionário

Assis Chateaubriand ficava preocupado, a cada dia que passava, a partir dos anos 40, com a continuidade dos Diários Associados. Segundo Carneiro em seu livro de 1999, afastado de sua família natural, embora os filhos Fernando e Gilberto ocupassem esporadicamente algumas funções na empresa, o jornalista não acreditava no interesse deles pela preservação dos Associados e de sua obra.

Em 1945, ele revelara ao general Anápio Gomes a intenção de constituir uma fundação para integrar seus colaboradores na propriedade e na gestão do grupo. Chatô colocou o plano em ação a partir de 1959, quando decidiu criar o ‘’Condomínio Acionário’’ a idéia de gestão, Chateaubriand conheceu na França, numa de suas viagens a Europa.

"Perante o tabelião e velho amigo Menotti Del Picchia, no 20º Cartório de São Paulo, Assis Chateaubriand assinou, a 21 de setembro de 1959, a escritura pública que instituiu o Condomínio Acionário dos jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão que formavam a rede nacional dos Associados. Assinaram ainda os documentos como testemunhas, Joaquim Bento Alves de Lima, Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, Paulo Machado de Carvalho, João Di Pietro e Joaquim Pinto Nazario". (destaca Carneiro, 1999, p.406).

Também foi realizada uma cerimônia, pouco depois, na sede dos Associados, que contou a participação de personalidades e políticos, como ministro das Relações Extraordinárias Horácio Lafer.

Relata Carneiro em seu livro de 1999, que o Condomínio Acionário, não daria a ninguém a posse dos Diários Associados e nem a posse das ações seria legada a família de cada participante. Para cada membro que deixasse o Condomínio, outro seria eleito, seguindo os ideais de Assis Chateaubriand. As doações foram feitas em duas partes: a primeira em 21 de setembro de 1959, em São Paulo, quando foram doadas 49% da maior parte de ações e quotas de Assis Chateaubriand e a segunda, em 19 de julho de 1962, também em São Paulo, consolidando a criação do Condomínio.

Carneiro em seu livro de 1999, explica como funciona o Condomínio Acionário dos Diários Associados:

Para garantir a continuidade da obra, foram gravadas as ações e quotas com as cláusulas de inalienabilidade impenhorabilidade, incomunicabilidade e intransmissibilidade. Isso significa que, ao morrer um integrante do Condomínio, sua família não recebe a participação que ele tinha nas empresas. Calcula-se o valor da quota do condômino falecido no dia do seu óbito, de acordo com o balanço das empresas, e os descendentes recebem o valor correspondente no prazo de cinco anos. Dessa forma, não se fraciona o capital das empresas dos Diários Associados e preserva-se a filosofia legada pelo fundador.

O Condomínio é um colégio de acionistas, que se reúne obrigatoriamente no mínimo uma vez por ano, sempre no aniversário de morte de Assis Chateaubriand. Como esse colegiado exerce sua atuação? Cada unidade Associada tem sua autonomia e personalidade jurídica de sociedade anônima, exercendo plenamente a administração da empresa. O que o Condomínio faz é eleger sua diretoria. Desse modo, o Condômino não tem, ele próprio, ação direta sobre as empresas, uma vez que é uma comunhão de ações, de pessoas físicas, não possuindo personalidade jurídica, assim como não tem empregados nem contabilidade. O Condômino participa das assembléias gerais das empresas, através do membro chamado cabecel, que representa todos os demais condôminos nas reuniões legais dessas organizações dos Associados. Os membros do Condomínio, assim, tendo a maioria das ações em todas as empresas, exercem seu controle através de diretores que, devidamente indicados por eles e regularmente eleitos de acordo com a Lei das Sociedades Anônimas, exercem a administração das mesmas empresas, de acordo com a filosofia e a política operacional dos Diários Associados.

No correr do tempo, a posição de cabecel seria exercida por Leão Gondim de Oliveira, Martinho de Luna Alencar e Manuel Eduardo Pinheiro Campos.

A perda da liderança

A Rede Tupi liderou a audiência durante toda a década de 50 e começou a ver sua posição ameaçada no início dos anos 60, tanto em São Paulo, quanto no Rio de Janeiro. Em 1964, segundo João Calmon em seu livro de 1999, perdeu, pela primeira vez, a liderança da audiência no Rio de Janeiro para a TV Rio, dirigida por Walter Clark, que estaria no comando da Rede Globo pouco tempo depois.

Com a exibição da novela "O Direito de Nascer", naquele ano, a emissora caiu para o segundo lugar. O curioso é que a novela foi produzida em São Paulo, pela TV Tupi. Naquela época, as emissoras de um mesmo grupo em vários Estados ainda não formavam uma rede, com programação simultânea e colaboração mútua. Esse conceito foi introduzido no Brasil preliminarmente pela TV Excelsior, na década de 60, e depois, a partir da década de 70, com a criação da Embratel, pela Rede Globo. Além disso, segundo João Calmon, o detentor dos direitos autorais, em Cuba, vendeu a novela para TV Tupi em São Paulo e para a TV Rio, no Rio de Janeiro.

Ainda em 1963 e 1964, o Grupo Simonsen, investia milhões na TV Excelsior de São Paulo e do Rio de Janeiro, encerrando o "convênio" entre os donos das emissoras e contratando grandes estrelas. Antes do golpe militar de 1964, já liderava a audiência nas duas capitais.

E, para completar, em abril de 1965 surgiu a TV Globo no Rio de Janeiro, do empresário Roberto Marinho, dono do jornal O Globo.

O caso Time-Life

A Rede Globo foi inaugurada no dia 26 de abril de 1965. Os Diários Associados, que faziam campanha contra a presença de capital estrangeiro na mídia brasileira, denunciaram a existência de um acordo entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life, que detinha alguns dos maiores veículos de comunicação do mundo.

Após diferenças entre Marinho e o governador Carlos Lacerda, este mandou prender norte-americanos e cubanos que trabalhavam na TV Globo como representantes do Time-Life. João Calmon em seu livro de 1999, conta que desse episódio nasceu a campanha contra a invasão estrangeira na mídia brasileira.

Além de ser contra a presença do capital internacional, os Diários Associados brigavam diretamente com a revista Life, já que editavam O Cruzeiro em espanhol para distribuição na América Latina. A revista Life Internacional era sua grande concorrente e conseguia muitos anúncios, enquanto a revista de Assis Chateaubriand só dava prejuízos.

Também colaborou para a campanha um almoço ocorrido entre Roberto Marinho e João Calmon, como este relata em sua autobiografia.

"(Marinho) deu-me várias informações sobre as suas ligações com o grupo norte-americano e expôs-me também seus planos para o lançamento de uma revista noticiosa semanal. Durante bom tempo, na qualidade de presidente da Abert e do Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas, procurei fazer com que Roberto Marinho exibisse, publicamente, os documentos relativos a sua transação com o grupo". (conta Calmon em seu livro de 1999, p. 186).

Voltando a prisão dos membros da Time-Life que trabalhavam na Rede Globo, a partir do depoimento de um deles descobriu-se a existência de um contrato entre a Globo e o Time-Life. Segundo João Calmon em seu livro de 1999, como mostrava o governador carioca Carlos Lacerda, isso violava o regulamento dos Serviços de Radiodifusão, o decreto 52.795, que proibia ser firmado qualquer convênio, acordo ou ajuste relativo à exploração de serviços de teledifusão sem prévia autorização do Contel. A denúncia de Carlos Lacerda foi enviada ao Ministério da Justiça em 15 de junho de 1965, três meses após a inauguração da Tv Globo do Rio de Janeiro.

Foi aberta na Câmara dos Deputados, em Brasília, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a relação entre os grupos, que começou a atuar em março de 1966, sob a presidência do deputado Roberto Saturnino.

Borgerth em seu livro de 2003, relata que a pessoa que encorajou Roberto Marinho a entrar no ramo da televisão foi Andrew Heiskell, chairman do Time Inc. E que, na verdade, a campanha nacionalista da Rede Tupi fora realizada por que tentativas de associações dos Diários Associados com outras empresas norte-americanos não deram resultados.

"Roberto Marinho aventurou-se, às vésperas de seu sexagésimo aniversário, a fazer sua televisão, em associação com o Time-life, inaugurando a TV Globo em 1965, ano em que faria 61 anos. (...) Sua associação com o Time-Life deflagrou uma violenta campanha" "nacionalista" promovida pelos Diários Associados, denunciando a presença de capital estrangeiro na radiodifusão, então proibida pela Constituição. Hoje, doutor Roberto Marinho seria enaltecido. Naquela data, a TV Tupi tinha tentado a mesma coisa com a CBS e a NBC, sem resultados. Daí, o extremado nacionalismo". (afirma Borgerth em seu livro de 2003, p. 29-30).

João Calmon denominou como "Invasão Branca" o acordo. A preocupação ainda era outra: naquela época de Guerra Fria e ditadura militar, os Diários Associados ainda poderiam prejudicar sua reputação de anticomunistas, passando a criticar um grupo norte-americano.

"A documentação que João Calmon reuniu sobre o acordo TV Globo/Time-Life convenceu-o de que havia uma violação flagrante ao artigo 160 da Constituição do Brasil, que proibia a propriedade de empresas jornalísticas a estrangeiros. (...) Em fins de 1966, o Ministro da Justiça, pressionado pela campanha dos Diários Associados, dispunha-se a promover "rigorosa investigação" a respeito das denúncias sobre a infiltração de grupos estrangeiros na imprensa, rádio e televisão do país ". (Carneiro em seu livro de 1999, p.436).

Essas e outras denúncias foram analisadas e investigadas, seguidas de inúmeras reclamações dos Diários Associados em extensos artigos e reportagens nos veículos da rede. Mas o feitiço, virou contra o feiticeiro.

Borgerth em seu livro de 2003, explica que a campanha dos Diários Associados impressionou os militares, então nacionalistas, que resultou no decreto que limitava o número de canais para cada grupo, impedindo a Tupi de seguir o mesmo caminho da TV Globo. Além disso, Borgerth explica o acordo Time-Life e a rescisão:

" Na realidade, a contribuição do Time-Life não passou de um financiamento – sem juros e sem prazo, da escolha de equipamentos insuficientes e de um totalmente novo, bonito e inadequado projeto arquitetônico que em nada contribuiu para a TV Globo, cujos concorrentes achavam-se instalados em velhos cassinos ou cinemas caindo aos pedaços, como viríamos a estar em São Paulo e, até certo ponto, no Rio, o que em nada perturbava e jamais perturbou um único telespectador. Time-Life nada sabia do Brasil, o que não era desdouro nenhum; fracassaram em todos os lugares onde se meterem em televisão aberta, nos Estados Unidos, inclusive, onde tinham as cinco emissoras permitidas por lei em "grandes" metrópoles, a saber, se não me falha a minha falha memória: Buffalo, Grand Rapids, San Antonio, Denver e San Diego! Este ponto de exclamação tem duplo significado, o outro sendo o fato de que San Diego teria uma importância fundamental para o futuro da TV Globo ". (Borgerth em seu livro de 2003, p.30-31).

Ainda segundo Borgerth, após ‘’jogar fora’’ pouco mais de US$ 5 milhões (1965, 1966 e 1967) na operação, Time desistiu. Mais do que desistiu, queriam ir embora de qualquer jeito. Já no governo Médici, segundo João Calmon em seu livro de 1999, foram rescindidos os acordos entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life. Como havia no contrato uma cláusula prevendo a desistência de qualquer das partes, Roberto Marinho procurou o presidente e lamentou-se dos contratempos que lhe trouxera a campanha contra o acordo.

" Em 1972, Roberto Marinho devolveu-lhes parte do investimento, tão pequena que eu tenho vergonha de escrever aqui, e, salvo erro, sem juros, e nunca mais se falou nisso. Acredite se quiser". (Borgerth em seu livro de 2003, p.39).

Ao deixar a presidência, em 1967, Castelo Branco, segundo Carneiro em seu livro de 1999, deixou um ‘abacaxi’ para o Marechal Costa e Silva, seu sucessor. Baixou um decreto-lei limitando o número de televisões a cada grupo, atingindo diretamente os Diários Associados, proprietários de uma grande cadeia de emissoras no País. Assis Chateaubriand escrevia, em artigos, que existia uma conspiração para destruir os Diários Associados.

Fernando Morais em seu livro de 1994, afirma que ou Assis Chateaubriand delirava ou, de fato, o mundo se juntara para reduzir a pó a cadeia que ele levara quase meio século para edificar. No artigo 12 do decreto, Castelo limitou a cinco o número de estações por grupo. Naquela data, segundo Morais, começava a desmoronar a rede Associada de televisão, cujo prestígio e poder seriam ocupados, anos depois, exatamente pela Rede Globo de Televisão. Era a primeira grande derrota de Assis Chateaubriand.

A partir desse momento, a batalha contra o acordo Globo/Time-Life terminou, os Diários Associados, oficialmente, não abordaram mais o assunto, após dois anos de grande polêmica.

Beto Rockfeller e a revolução nas telenovelas

Antes de iniciar a década de 70, quando entrou em profunda crise financeira e administrativa que culminou em sua extinção, a Rede Tupi colaborou para uma revolução na teledramaturgia brasileira. Até 1968, as novelas, principalmente da Rede Globo, eram baseadas em texto cubanos, com histórias que se passavam em séculos passados, muitas vezes desinteressantes para a grande maioria do público.

Em 4 de novembro de 1968, estreou na Rede Tupi, às 20 horas, a novela "Beto Rockfeller", de Bráulio Pedroso, com direção de Lima Duarte e Walter Avancini e criação de Cassiano Gabus Mendes. Luiz Gustavo fazia um anti-herói papel-título da novela. Ao invés de Chicago dos anos 20 ou a Itália do século 18, a São Paulo de 1968. Pela primeira vez, o brasileiro se via em uma novela. Os artistas passaram a atuar de forma natural, sem dramaticidade, muitas vezes fazendo improvisações nos diálogos. Sucesso nacional com grande audiência que relembrou os primeiros anos da Rede Tupi. A novela teve sua duração aumentada, terminando no final de 1969, tamanho o sucesso.

Altos e baixos nos anos 60

Vários motivos contribuíram para a derrocada da Rede Tupi. A Rede Globo, ainda nos anos 60, investiu contra seu elenco e até diretores, como José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que trabalhava na Tupi.

Em 1967, relata João Calmon em seu livro de 1999, a RCA voltava a pressionar os Diários Associados pelo pagamento das dívidas atrasadas dos canais instalados anos antes. Além disso, Assis Chateaubriand pediu novamente dinheiro para comprar quadros para o MASP e museus regionais.

"Precisei mostrar-lhe que os constantes atrasos no pagamento dos salários do nosso pessoal não permitiriam o desvio de recursos para finalidades artísticas". (comenta João Calmon em seu livro de 1999, p.219).

Ainda em 1967 foi realizada uma reunião para discutir a crise da Rede Tupi. A audiência caía a cada dia. A emissora estava, naquela ocasião, em quarto lugar, sendo que era, até 1964, a líder absoluta na audiência.

Em 1968, a situação melhorou quando foi feito um plano para salvar a emissora. João Calmon e José Arrabal, novo diretor das emissoras, trabalhavam para negociar dívidas e colocar no ar uma programação atraente. Muitos shows passaram a ser transmitidos ao vivo, prática usada pelas outras emissoras. Deu certo e a emissora conquistou bons pontos no Ibope e brigava pelo segundo e terceiro lugares.

Em relação ao decreto 236, que limitava o número de emissoras de televisão para cada grupo de comunicação brasileiro, o prazo, que era janeiro de 1967, foi prorrogado, garantindo sobrevida para as emissoras que teriam que ser vendidas, coisa que nunca ocorreu, e que de fato, tornou a administração do grupo impossível, vale lembrar que toda vez que se achava um comprador para esta ou aquela empresa, o Governo Federal não autorizava a transferência da concessão, que de fato, só ocorreu depois da intervenção do Governo Federal na Tupi em 1980, e ainda assim não foi para o grupo se adequar ao decreto.

A difícil década de 70

João Calmon em seu livro de 1999, afirma que a TV Tupi encerrou 1972, com um grande salto qualitativo e um substancial aumento de audiência. O elemento central, não único, dessa recuperação, foi a conquista de Chacrinha. Reproduzimos abaixo vários trechos da autobiografia de João Calmon que demonstra alguns fatos ocorridos em 1972 e 1973:

Quando Antônio Lucena deixou a direção da Tupi, onde substituíra José Arrabal em 1969, a emissora passou a cair. Mantínhamos o segundo lugar, mas desde março de 1970, estávamos com menos da metade da audiência da Globo. Com Catro, que ocupou o lugar de Antônio Lucena a partir de 1971, a queda acentuou-se. Em abril de 1972, por exemplo, alcançávamos das 20 às 22 horas, apenas 10,4 pontos de audiência, contra 50,2 da Globo em São Paulo. No Rio ficava nos 4,8.

Em 1973, tínhamos quatro programas entre os 19 mais vistos da televisão carioca. A "Discoteca do Chacrinha" alcançava 26,1 pontos do Ibope; o "Balança mas não cai", 25,8; "Buzina do Chacrinha", 22,2; e, em quarto, vinha "Flávio Cavalcanti", 20,1 pontos. Agora, perdíamos Flávio Cavalcante que, se não era o responsável pelo aumento de nossa audiência – embora talvez até ele próprio pensasse ser – garantia um índice razoável. (Flávio Cavalcanti foi suspenso pelo governo militar em 1973 após mostrar uma reportagem de um homem que emprestava sua mulher para outro por esta impotente).

Além disso, outros veículos dos Diários Associados passavam por sérias dificuldades financeiras, como era o caso da revista O Cruzeiro, em fase terminal.

João Calmon em seu livro 1999, continua afirmando que a Tv Tupi pagou o ônus do pioneirismo, não podendo enfrentar a pequenez do mercado ou a poderosa Rede Globo. A Rede Tupi tinha cada vez mais dívidas. Em 1974, o comando da programação nacional foi centralizado em São Paulo, adotando o esquema de rede com atraso de quase cinco anos em relação à Rede Globo. Além disso, o equipamento das emissoras do grupo era obsoleto, efeitos do decreto 236.

As rádios do grupo, no entanto, iam bem: quase todas as emissoras alcançavam o primeiro lugar da audiência em suas cidades. As emissoras de São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo não tendo a liderança, eram lucrativas.

"Cada vez mais eu me convencia de que a sobrevivência da obra de Chateaubriand, cinco anos após sua morte, constituía quase um milagre. Vínhamos sendo esmagados entre três tipos diferentes de pressões: o déficit crônico de diversos de nossos órgãos, as despesas financeiras crescentes e a legislação federal que nos exigia a alienação de emissoras em todo o país". (João Calmon em seu livro de 1999, p.334).

Os condôminos dos Diários Associados entravam cada vez mais em conflito. João Calmon conta que em várias oportunidades foi chamado para discutir problemas em relação aos condôminos.

No final de 1976, Gilberto Chateaubriand entrou na Justiça pedindo a extinção do Condomínio. Segundo Carneiro em seu livro de 1999, Gilberto alegava que essa era a fórmula para resolver problemas econômicos e financeiros da organização. Além disso, a imprensa publicava notícias sobre uma possível venda do grupo.

A partir daí, o que se viu foi uma grave crise administrativa e financeira, com entrada e saída de superintendentes, como Rubens Furtado e Mauro Salles, e os últimos suspiros da emissora que inaugurou a televisão na América Latina.

A falência da Rede Tupi

O fim da Rede Tupi

Como destaca Carneiro em seu livro 1999, a partir de 1978 vários veículos foram vendidos ou fechados e a crise da Rede Tupi tornou-se incontrolável.

"Em setembro, houve uma greve de uma semana, desencadeada pelos funcionários que estavam com os salários atrasados. Essa greve foi resolvida, quando a empresa começou a efetuar o pagamento a jornalistas, radialistas, artistas e técnicos que colocaram novamente no ar a produção paulista do canal 4, cuja imagem fora gerada pela Tupi do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, as rádios Tupi e Difusora recolocaram no ar os noticiários, que haviam sido suspensos em decorrência do movimento grevista". (Carneiro em seu livro de 1999, p.531).

O governo militar não parecia avesso aos Diários Associados, mas apenas o ministro Goubery do Couto e Silva, o único civil do governo militar, era um inimigo declarado de Assis Chateaubriand. Tanto que Carneiro em seu livro de 1999, destaca que o governo de Ernesto Geisel não fora hostil com o Grupo e nem com a Rede Tupi.

Paulo Cabral assumiu, em 1979, o cargo de Procurador Geral dos Diários Associados e começou a negociar, com o governo, a prorrogação, mais uma vez, do decreto 236, que os Diários Associados não tinham como cumprir, e Também enviou relatórios ao governo sobre as greves ocorridas na emissora e explicou seus motivos.

Aconteceu nova greve em janeiro de 1980, também por atrasos salariais.

Carneiro em seu livro de 1999, destaca que desde a renúncia de Edmundo Monteiro e Armando de Oliveira, em julho de 1977, a situação dos Diários Associados e da Rede Tupi ficou ainda mais desesperadora.

"Nos últimos três anos, os prejuízos apurados eram da ordem de um bilhão de cruzeiros novos, com a Rede Tupi e o Canal 4 respondendo por 64,4% dos prejuízos. Para enfrentar o déficit, a receita teria de subir, em 1980, de 600 milhões para 1,6 bilhão. A direção geral de São Paulo não via como assumir o compromisso da continuidade de funcionamento, ainda que precário, das empresas paulistas e da Rede Tupi de Televisão, se a Presidência da Republica não indicasse quais as fontes de suprimento, que iriam atender aos vultosíssimos déficits de caixa". (Carneiro em seu livro de 1999, p.536).

No começo de 1980, sem perspectiva de melhora na situação, o Condomínio autorizou Paulo Cabral de Araújo a tentar vender a Rede Tupi ou o Grupo de São Paulo, operação que não foi autorizada pelo Governo Federal.

A Rede Tupi vivia seus últimos momentos. Nova greve de funcionários, em janeiro de 1980, agravou a situação. Trechos da obra de Carneiro de 1999, ajudam a entender o ocorrido:

Depois da concordata, aumentaram os rumores de venda das empresas, sendo citado como eventual comprador um grupo formado pelo deputado Paulo Pimentel, governador Paulo Maluf e o empresário Edevaldo Alves da Silva, presidente da Rádio Capital.

No início de 1980, o ministro Goubery do Couto e Silva afastou, segundo a revista Veja, "a possibilidade de o governo conceder novos financiamentos à atual direção da Tupi. Disse a Alberto Freitas, que o procurara: "A solução mais viável é mesmo a transferência da concessão. Vocês estão sofrendo e nós estamos cansados". João Calmon, mesmo enfrentando a má vontade do presidente João Figueiredo, chegou a procurá-lo nessa fase, garantindo que o ativo da emissora era superior ao passivo, não sendo, este, portanto, obstáculo para a venda. José Arrabal, nessa época diretor-geral da Tupi, disse que os Associados eram vítimas da onda de boataria. Citou exemplo de que desmentira a demissão de 700 funcionários, mas o assunto fora veiculado em Brasília como se fosse verdade. Para José Arrabal, a solução estava em cumprir o Decreto-Lei 236, que limitava a cinco o número de televisões para cada grupo" e que o governo nunca tornou possível.

(...) A greve, que se arrastava por várias semanas, passou a ter lances novos que realmente despertaram a opinião pública. (...) Em 19 de junho, a imprensa publicou nota sobre o acampamento dos grevistas dentro do Salão Negro do Congresso e da sua briga com os seguranças do Legislativo que haviam arrancado uma faixa ofensiva a João Calmon, que era Senador biônico da República.

(...) Depois de vinte dias da segunda greve, o grupo Diários Associados de São Paulo – TV Tupi, canal 4, Rádio Tupi, Difusora AM, Difusora FM, Diário da Noite e Diário de São Paulo -, pediu concordata preventiva, por dois anos, "por motivos imperiosos de natureza financeira". "A situação é de pré-falência", admitiu João Calmon ao presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do Estado de São Paulo, Alberto Freitas.

(...) Na segunda quinzena de junho de 1980 uma série devastadora de reportagens contra os Diários Associados começou a ser publicada na imprensa, numa orquestração perfeita, sempre alimentada pelas mesmas fontes das campanhas anteriores.

Na edição de 22/06/80, o Jornal do Brasil informa que "o governo decidiu realmente promover a venda das emissoras do grupo Diários Associados, embora não esteja ainda definido para qual interessado".

O Grupo Abril chegou a negociar com os Diários Associados para assumir a Rede Tupi, mas a operação como sempre, não foi autorizada pelo Governo Federal.

Em 16 de julho de 1980, o ministro da Comunicação Social, Said Farhat, anunciou em Brasília que o presidente João Figueiredo resolvera, como informa Carneiro em seu livro de 1999, "considerar peremptas" as concessões de sete dos nove canais de televisão controlados diretamente pelos membros do Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados, que eram sócios em outros 6, e colocá-los em licitação pública, "dentro do mais breve espaço de tempo possível".

As emissoras cujas concessões foram consideradas suspensas por prescrição (peremptas) eram, a TV Tupi de São Paulo/SP canal 4, TV Tupi do Rio de Janeiro/RJ canal 6, TV Itacolomi de Belo Horizonte/MG canal 4, TV Rádio Clube do Recife/PE canal 6, TV Marajoara de Belém/PA canal 2, TV Ceará de Fortaleza/CE canal 2 e TV Piratini de Porto Alegre/RG canal 5.

Carneiro em seu livro de 1999, ainda destaca a reação dos Diários Associados ao anúncio:

"A reação dos Associados foi de espanto e indignação. Sabiam que a situação da sua rede era insuportável, mas tinham a garantia do governo de prorrogação do prazo para reexame do assunto do enquadramento do grupo no decreto-lei 236. Em outros termos, o próprio governo não levará em conta a suspensão do prazo fatal, garantida por documento. Por outro lado, um comprador fora mobilizado para a rede – a Editora Abril – e a seguir descartado pelo próprio governo. Os Associados, portanto, não haviam se recusado a vender os canais, nem protelado a busca do comprador". (afirma Carneiro em seu livro de 1999, p.545).

Carneiro também ressalta que a qualidade dos canais cassados pelo governo revoltou os integrantes dos Diários Associados. A emissora de São Paulo e Rio de Janeiro realmente estavam em situação complicada, mas canais como a TV Itacolomi, TV Rádio Clube e TV Piratini estavam com pagamentos em dia e situação equilibrada.

No dia 17 de julho de 1980, funcionários do Dentel em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Recife, retiraram os cristais que possibilitavam o funcionamento e lacrou os transmissores, encerrando, assim, a existência da primeira emissora de televisão da América Latina, que, dois meses depois, completaria 30 anos de vida.

Bibliografia


Texto extraído da monografia produzida por Thell de Castro, Wanderley Godi Junior e João Paulo Oliveira para conclusão do curso de jornalismo da Unaerp em 2004, intitulada "O nascimento, o auge e a decadência das redes Tupi, Excelsior e Manchete". Proibida a reprodução total ou parcial sem prévia autorização dos autores.

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Veículos de comunicação

Revista Veja
Revista Istoé
Revista O Cruzeiro
Revista Imprensa
Jornal Folha de S. Paulo
Jornal O Estado de S. Paulo
Jornal O Globo
Jornal do Brasil

Fonte: www.redetupi.com

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