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Construção de Brasília

Em 19 de setembro de 1956 foi sancionada a Lei no 2.874, que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap).

Para presidi-la foi nomeado Israel Pinheiro, engenheiro formado na Escola de Minas de Ouro Preto, político mineiro, filho do ex-presidente de Minas João Pinheiro e amigo de JK.

Segundo Otto Lara Resende, Brasília foi produto de uma conjugação de quatro loucuras: a de Juscelino, a de Israel Pinheiro, a de Oscar Niemeyer e a de Lúcio Costa. Israel Pinheiro foi figura fundamental na construção da nova capital, mas não se deve esquecer o papel de Bernardo Saião e Ernesto Silva, também diretores da Novacap e destemidos tocadores de obras, como gostava JK.

O edital do concurso para a escolha do projeto urbanístico de Brasília foi marcado para março de 1957. O arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy, por exemplo, discordou dos termos do edital e não participou do concurso. Concorreram 26 projetos, dos quais 16 foram eliminados na seleção prévia. Entre os que ficaram estavam o de Lúcio Costa, o de Nei Rocha e Silva, e de Henrique Mindlin, o de Paulo Camargo, o de MMM Roberto e o da firma Construtec.

O projeto aprovado, de autoria de Lúcio Costa, dividiu a opinião dos arquitetos. Para uns, não passava de um esboço, um rabisco, e sua inscrição não deveria ter sido sequer aceita. Para outros, era simplesmente brilhante, genial.

O representante do Instituto de Arquitetos do Brasil, por exemplo, abandonou o júri por divergir do resultado, já que a proposta de Lúcio Costa era apenas um rascunho. Os concorrentes derrotados não se conformaram e criaram uma polêmica que repercutiu na imprensa da época

Brasília foi construída em três anos - pelo menos seus principais prédios foram concluídos nesse prazo. Em 1958, o palácio da Alvorada tinha sua fachada mostrada na revista Manchete. JK sabia que, se a sede do governo não estivesse pronta na data prevista para sua inauguração, o projeto seria abandonado.

Instalado no Catetinho (referência ao palácio do Catete, sede do governo federal no Rio de Janeiro), JK comandava a realização do sonho dos urbanistas e arquitetos modernos, que, imbuídos da idéia de planejamento, definiam os espaços para moradia, trabalho e lazer. Pretendiam todos liquidar o passado e realizar um ideal de igualitarismo promovido pelo Estado.

À medida que a cidade ia sendo erguida, já se cuidava da construção de sua memória. O governo publicou 11 livros – a Coleção Brasília – que constituem a mais importante fonte documental para a história dos antecedentes da nova capital. Publicou também a Revista Brasília, que circulou entre janeiro de 1957 e abril de 1960, e acompanhou o dia-a-dia da construção.

Desde sua inauguração, em 21 de abril de 1960, Brasília vem sendo estudada e monitorada por geógrafos, urbanistas, arquitetos, sociólogos. Há estudos sobre a primeira geração de moradores, sobre as falhas da cidade que não permitiram o convívio social dos habitantes, sobre as traições ao plano original. Brasília já foi chamada de "cidade sem gente", "cidade sem esquina", "cidade de burocratas", "ilha da fantasia"...

Lúcio Costa declarava à revista Manchete em 1974: "Digam o que quiserem, Brasília é um milagre. Quando lá fui pela primeira vez, aquilo tudo era deserto a perder de vista. Havia apenas uma trilha vermelha e reta descendo do alto do cruzeiro até o Alvorada, que começava a aflorar das fundações, perdido na distância. Apenas o cerrado, o céu imenso, e uma idéia saída da minha cabeça O céu continua, mas a idéia brotou do chão como por encanto e a cidade agora se espraia e adensa."

Em 1988, dizia o urbanista a O Estado de S. Paulo: "O que ocorre em Brasília e fere nossa sensibilidade é essa coisa sem remédio, porque é o próprio Brasil.

É a coexistência, lado a lado, da arquitetura e da antiarquitetura, que se alastra; da inteligência e da antiinteligência, que não pára; é o apuro parede-meia com a vulgaridade, o desenvolvimento atolado no subdesenvolvimento; são as facilidades e o relativo bem-estar de uma parte, e as dificuldades e o crônico mal estar da parte maior. Se em Brasília esse contraste avulta é porque o primeiro élan visou além – algo maior. Brasília é, portanto, uma síntese do Brasil, com seus aspectos positivos e negativos, mas é também testemunho de nossa força viva latente.

Do ponto de vista do tesoureiro, do ministro da Fazenda, a construção da cidade pode ter sido mesmo insensatez, mas do ponto de vista do estadista, foi um gesto de lúcida coragem e confiança no Brasil definitivo."

Fonte: www.cpdoc.fgv.br

Construção de Brasília

A determinação desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek (1956-1960) produziu fatos eloqüentes no terreno da urbanização e do urbanismo.

A passagem do poder político e da iniciativa econômica para as mãos da burguesia industrial reforçou a cultura urbana. Enquanto a taxa de crescimento da população brasileira foi, na década de 1950, de 3,16%, o crescimento urbano brasileiro atingiu a cifra de 7,38%. Esta hegemonia da cidade sobre o campo refletiu-se no conjunto da rede urbana brasileira. A distribuição espacial e funcional deste crescimento produziu um quadro urbano no qual São Paulo emergiu como a metrópole nacional.

O "Plano de Metas", concebido por Kubitschek e sua equipe para ser cumprido em quatro anos, continha uma "meta síntese" de grande impacto: a Construção de Brasília, a nova capital.

Um grande concurso nacional que contou com todos os nomes relevantes da arquitetura e do urbanismo brasileiro premiou a proposta do arquiteto e urbanista Lucio Costa. Esquematicamente, o projeto foi concebido sob os princípios urbanísticos elaborados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams), especialmente aqueles formalizados durante o Congresso de 1933 e documentado na Carta de Atenas, publicada em 1942, que prevê um estrito zoneamento funcional, baseado nas funções morar, trabalhar, recrear e circular.

O projeto, segundo Lucio Costa, "nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz". Procurou-se em seguida uma adaptação à topografia local, ao escoamento das águas, à melhor orientação. Houve uma clara preocupação de aplicar ao urbanismo os princípios considerados mais avançados da técnica rodoviária. Foram eliminados os cruzamentos através de retornos em desnível.

Conferiu-se ao eixo norte-sul a função circulatória-tronco, com pistas centrais de alta velocidade. Pistas laterais foram previstas para a distribuição do tráfego local, que conduz diretamente ao setor residencial. O eixo transversal leste-oeste, denominado "monumental", recebeu o centro cívico e administrativo, o setor cultural, o centro comercial e de diversões, o setor administrativo municipal. Destacam-se no conjunto os edifícios autônomos destinados aos poderes fundamentais - legislativo, executivo e judiciário - que formam a triangular Praça dos Três Poderes. A partir do edifício do Congresso Nacional, que ocupa o setor oeste da praça, rumo à interseção dos eixos, desenvolve-se a monumental Esplanada dos Ministérios.

A solução encontrada para o setor residencial foi a criação das superquadras. São quadrados com 250 metros de comprimento, dispostas em ambos os lados da faixa rodoviária e emolduradas por uma larga cinta vegetal.

No interior destas superquadras os blocos de residências podem dispor-se de maneira variada, obedecendo a dois princípios: gabarito máximo uniforme (6 pavimentos) e "pilotis" e estrita separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres.

Do ponto de vista das relações espaciais, o zoneamento estrito de Brasília corresponde a três escalas: a gregária, a residencial e a monumental.

A primeira corresponde aos setores de diversões e comércio; a segunda, ao setor residencial; e a terceira, ao conjunto constituído pela Praça dos Três Poderes e pela Esplanada dos Ministérios.

O arquiteto Oscar Niemeyer foi responsável pelos projetos de todos os edifícios públicos da capital. Existe uma perfeita e intensa relação entre o Plano Piloto concebido por Lucio Costa e os projetos de arquitetura de Oscar Niemeyer. Ambos criaram uma cidade integralmente projetada, considerada como um "objeto" global e único.

Regina Maria Prosperi Meyer

Fonte: www.tecsi.fea.usp.br

Construção de Brasília


JK e a construção de Brasília

A mudança da Capital da República para o Planalto Central não era uma idéia nova. Os constituintes de 1891 estabeleceram, nas Disposições Transitórias, essa determinação que, não tendo sido executada em toda a Velha República, foi renovada na constituição promulgada em 1934. Igualmente a carta de 1946 conservou aquele propósito, determinando a nomeação, pelo presidente da República, de uma comissão de técnicos que visassem estudos localizando, no Planalto Central, uma região onde fosse demarcada a nova capital. 

Em maio de 1892, o governo Floriano Peixoto criou a Comissão Exploradora do Planalto Central e entregou a chefia a Louis Ferdinand Cruls, astrônomo e geógrafo belga radicado no Rio de Janeiro desde 1874.

Essa comissão tinha como objetivo: conforme disposto na constituição, proceder à exploração do planalto central da república e à conseqüente demarcação da área a ser ocupada pela futura capital. O grupo, de vinte pessoas, sai do Rio em 9 de Junho de 1892 e chega a Petrópolis, Goiás, no dia 1º de agosto. Do Rio até Uberaba, no triangulo mineiro, de trem. Daí em diante a cavalo.

O relatório final é apresentado em 1894:

Em resumo a zona demarcada goza, em sua maior extensão, de um clima extremamente salubre, em que o emigrante europeu não precisa da aclimação, pois encontrará aí condições climatéricas análogas ás que oferecem as regiões as mais salubres da zona temperada européia. (...) É inegável que até hoje o desenvolvimento do Brasil tem se, sobretudo localizado na estreita zona de seu extenso litoral, salvo, porém, em alguns dos seus estados do sul, e que tem beneficiado desse desenvolvimento. Entretanto, como demonstra a exploração à qual procedeu esta comissão, existe no interior do Brasil uma zona gozando de excelente clima, com riquezas naturais, que só pedem braços para serem exploradas.

As razões que determinavam, naquela época a mudança eram diversas.

Antes do Governo de Rodrigo Alves, a febre amarela era endêmica no Rio de Janeiro: o motivo sanitário preponderava. Achavam conveniente a mudança da Capital para um lugar mais saudável. Também havia razões de ordem estratégica. Com o tempo, todas elas perderam sua motivação. A febre amarela foi erradicada. Com o progresso da arte da guerra, já não havia mais a invulnerabilidade de um ponto mais distante. Contudo, a idéia permaneceu. Em Minas, os inconfidentes já haviam preconizado também a idéia. Apenas variavam as fórmulas. Uns achavam que a capital devia ser estabelecida em Ouro Preto. O jornalista Hipólito José da Costa, redator do Correio Brasiliense, jornal editado em Londres, defendia e justificava a transferência da capital para o interior, às cabaceiras do rio São Francisco. Em 1821, José Bonifácio, nas suas instruções ao Governo provisório de São Paulo, aconselhava a mudança para um sítio sadio, ameno, fértil e regado por algum rio navegável. O povo de Goiás como o de Mato Grosso formaria coeso em torno do candidato que prometia a mudança da capital da república para o planalto central. 

Juscelino enfrentava, porém, um problema. Ele tinha que estabelecer o plano de metas em trinta itens.

Foi obrigado acrescentar mais um: o da construção da capital.

Disputando a presidência como candidato da coligação P.S.D. – P.T.B., no dia 4 de abril de 1955, no seu primeiro comício em Jataí (GO), Juscelino decidiu fazer a mais óbvia das promessas de campanha: jurou que iria “cumprir a Constituição”. De acordo com JK, ao final do comício em Jataí, “uma voz forte se impôs” e o interpelou. “O senhor disse que, se eleito, irá cumprir rigorosamente a constituição. Desejo saber se pretende pôr em prática a mudança da capital federal para o Planalto Central”. Embora considerasse a pergunta embaraçosa e já tivesse seu Plano de Metas, JK respondeu que construiria a nova capital.

Dessa pergunta surgiu um desafio. Juscelino sabia que a idéia da interiorização da Capital vinha de longa data. Era dentro desses precedentes que Juscelino Kubitschek respondia ao desafio. Aparte daí, a construção da nova Capital da República (Brasília) virou a “meta-síntese” de seu governo. 

Em suas memórias, conta as dificuldades que enfrentou para construir a nova capital. Dutra, na presidência da republica, estabelecera o local. Foi assim que Juscelino, dando prosseguimento à sua promessa, procurou conhecer a região que seria a futura Brasília.

Chamou o jurisconsulto Francisco Clementino de Santiago Dantas e lhe pediu que elaborasse a mensagem e o respectivo projeto de lei:

Art. 4º - A Capital da união será transferida para o planalto central do país.

Parágrafo 1º - Promulgado este ato, o presidente da república, dentro de sessenta dias, nomeará uma comissão de técnicos de reconhecido valor para proceder ao estudo da localidade da nova capital.

Desejava que uma vez aprovado, fosse um diploma legal completo, capaz de cumprir todas as fases da execução da transferência, sem que se visse obrigado a recorrer de novo ao congresso. A precaução era justificada. O Brasil acabava de viver uma das fases mais tempestuosas de sua história. A campanha presidencial deixara o congresso dividido e Juscelino tinha de enfrentar uma oposição grande e aguerrida. A saída da capital do Rio de Janeiro seria explorada, politicamente. A mensagem e o projeto de lei elaborado por Santiago Dantas, tudo previam. Apenas a data de transferência continuava, como estabelecia a constituição, para ser fixada pelo congresso.

Juscelino, antes da remessa da mensagem, tomou algumas providências de natureza política. A mais importante delas foi transferir a iniciativa da proposição para o Governo de Goiás, o Estado mais estreitamente vinculado ao problema. Conversou com o governo José Ludovico, que aceitou com entusiasmo a sugestão.

Não só atuaria junto aos representantes do seu Estado, no sentido de criar um ambiente favorável à idéia, como Goiânia acentuando o caráter regionalista da

iniciativa. Tudo combinado, a cerimônia foi marcada para o dia 10 de abril de 1956.

Os transportes aéreos viviam numa fase deficiente. A presidência da Republica dispunha de um velho aparelho “DC-3”, que levava dois dias do Rio a Belém do Pará. A viagem apresentou sérios embaraços. Ficaram perdidos durante algum tempo, mas, conseguiram sobrevoar Goiânia. Devido ao aparecimento de uma nuvem, não foi possível a aterrissagem naquele local. O avião desceu em Anápolis, distante meia hora, onde posou sem novidades. Foi providenciada a vinda do prefeito e do chefe político. Assim, a assinatura da mensagem presidencial não foi com a solenidade preparada, em ambiente limitado, assistido por meia dúzia de curiosos, na cidade de Anápolis. De qualquer maneira, estava assinada a mensagem. 

 Ao assumir a presidência da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, logo após a sua posse, em Janeiro de 1956, afirmou o seu empenho “de fazer descer do plano dos sonhos a realidade de Brasília”. Apresentando o projeto ao congresso como um fato consumado, em setembro do mesmo ano, foi aprovada a lei nº 2.874 que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (vulgarizada pela sigla NOVA-CAP). As obras se iniciaram em Fevereiro de 1957, com apenas 3 mil trabalhadores – batizados de “candangos”.  Aqueles que construíram Brasília, vindos de todos os quadrantes do território nacional, foram chamados Candangos. 

Candango tornou-se um titulo de glória. Candango eram os trabalhadores anônimos, que realizavam tarefas impossíveis. Candango chamou-se o engenheiro, o profissional categorizado, irmanado no trabalho hercúleo. Houve um movimento de opinião, se não inspirado, ao menos estimulado pelo presidente, para que os nascidos em Brasília se denominassem candangos.

Teria a vantagem de evitar a discussão sem fim entre as várias nominações: brasiliense, brasiliano, brasilino.

Infelizmente, a idéia não pegou. Candango ficou, porém, como sinônimo de pioneiro, título de honra daqueles que foram para o planalto “plantar uma cidade”. 

Juscelino tinha pressa. O seu objetivo não era apenas iniciar, mas terminar a construção antes do fim do seu mandato.

A mensagem enviada ao congresso redefinira os propósitos do governo:

“A obra que tenho de cumprir é cheia de dificuldades e asperezas, bem o sei. É necessário fazer a opção definitiva entre a marcha no rumo da expansão, que situará o país, por maior que sejam os sacrifícios do momento, entre as grandes nações modernas, e a permanência na posição insatisfeita e frustrada de não ter sido capaz de conquistar o estágio de progresso a que o destinaram suas imensas possibilidades naturais”.

A 2 de Outubro de 1956, cerca de duas semanas depois, após a sanção da lei que autorizava a mudança da capital, o presidente Juscelino Kubitschek embarcou no aeroporto Santos Dumont para o local onde se construía Brasília.

Faziam parte da sua comitiva: o ministro da guerra, general Teixeira Lott; o chefe da casa militar, general Nélson de Melo; o governador da Bahia, Antônio Balbino; o presidente da Novacap, Israel Pinheiro; o diretor de Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, engenheiro Régis Bittencourt; o brigadeiro Araripe Machado, coronel Dilermano Silva, o arquiteto Oscar Niemeyer e os aviadores coronel Lino Teixeira, Renato Goulart, Celso Resende Neves, o major Múcio Scorselli e o capitão Gama e Sousa, os coronéis Rocha e Nélio, Carlos Murilo, além de diversos técnicos integrantes do conselho de Desenvolvimento.

Quando o avião sobrevoou o local da futura capital, avistaram o descampado infinito com suaves ondulações do terreno. Lá havia, apenas, um cruzeiro de braços abertos. Naquela época, no planalto, não havia um campo de aterrissagem. Tinha providenciado uma pista de emergência. Era o necessário para baixar o avião.

A aterrissagem fez-se com grande perícia, mas bastante dificuldade. Posteriormente, providenciou-se a construção de um aeroporto, com uma pista concretada de 3 300m; melhoria das estradas para Anápolis e Goiânia; abertura de dezenas de estradas internas para comunicação dos diversos canteiros de obras; construção e prédios provisórios para a administração da Novacap; instalação de olarias e serrarias para a demanda inicial. Não havia acomodações em Brasília ou na cidade que se chamaria Brasília. O catetinho foi à primeira construção em Brasília a fim de hospedar o presidente em dias de visita, em seguida foi instalado uma rádiotransmissora de iniciais BYVA. Concluídas essas primeiras construções, Juscelino compareceu e no dia 10 de novembro, finalmente instalou-se no Catetinho, que passou a ter funções de palácio presidencial.   

O arquiteto Oscar Niemeyer foi escolhido para a chefia do Departamento de Urbanística e Arquitetura, recusando-se a traçar os planos urbanísticos de Brasília, insistindo na necessidade de um concurso para a escolha do plano-piloto.

Em Março de 1957, foi escolhida uma comissão do concurso para a escolha do Plano-piloto, quando foi estabelecido que o concurso seria nacional e o plano-piloto deveria abranger:

a) Traçados básicos da cidade, indicando a disposição dos principais elementos da estrutura urbana;
b) O júri, presidido pelo presidente da Nova-cap, seria integrado por dois Arquitetos do Brasil, um do Clube de Engenharia, e dois urbanistas estrangeiros;
c) Os trabalhos deveriam ser entregues dentro de 120 dias, a partir da data das inscrições;
d) O prêmio concedido ao primeiro colocado seria de um milhão de cruzeiros.

A idéia de ser adotada uma solução nacional prevaleceu sob a sugestão de um concurso internacional. Brasília seria, assim, uma criação brasileira. De qualquer forma, o concurso despertou enorme interesse. Arquitetos e Urbanistas firmas de engenharia apresentaram projetos de variados gêneros. Alguns impressionavam pelo arrojo, outros pelo zelo. M.M. Roberto constituía uma deslumbrante obra de montagem. Outro, que chamava a atenção, era da Construtec, firma de São Paulo. Os júris do concurso do plano-piloto de Brasília se reúnem para avaliar os projetos no salão de exposições do Ministério da Educação. Finalmente, os jurados, após haverem examinado o conjunto, eliminaram dezesseis projetos, reservando dez para exame mais cuidadoso. Entre os classificados figuravam os maiores nomes da arquitetura e do urbanismo no Brasil, como Lúcio Costa, Ney da Rocha e Silva, M.M. Roberto, Henrique Mindlin, Paulo Camargo e a firma Construtec. 

O júri era integrado por autoridades internacionais: sir William Holford, assessor de urbanismo do Governo britânico e planificador da Capital da Rodésia; André Sive, da França; e Stamo Papadaki, da Universidade de Nova York.

Após a escolha dos jurados, teve como 1º colocado o projeto de Lúcio Costa, que chama a atenção exatamente porque estava numa folha de papel comum, desenhada à mão, com alguns rabiscos. Por fim, uma curiosidade. Lúcio costa gastou 64 horas de trabalho e 20 cruzeiros em papel, lápis, tinta e borracha para ganhar o concurso.

Enquanto outros concorrentes gastaram uma fortuna, e usaram o que tinha de mais moderno em arquitetura.

Lúcio Costa: “A força de Brasília nasceu do simples gesto do homem que se apropria de um lugar: duas linhas retas que se cruzam em ângulo reto”. Tratava-se de uma verdadeira obra de arte, tanto pela clareza, tanto pela hierarquia dos elementos integrantes do conjunto. O arquiteto Oscar Niemeyer já tinha desenhado um hotel de turismo, que recebeu o nome de Brasília Palace Hotel. 

Ele fora encarregado de fazer o plano inicial, e trabalhava com incrível velocidade. Feito o projeto do palácio presidencial, que se chamaria Palácio da Alvorada, prosseguiram os trabalhos de limpeza do terreno, preparação do local, para da início as edificações que comporiam a fisionomia da nova capital. O plano -piloto de Lúcio Costa tinha uma amplitude que não se conseguia traduzir em palavras.

Descrevendo seu plano, Lucio Costa diz: “vendo que se criou um terrapleno triangular com arrimo de pedra à vista sobrelevando na campina circunvizinha a que se tenha acesso pela própria rampa da auto-estrada que conduz à residência e aeroporto. Em cada ângulo dessa praça – Praça dos Três Poderes – localizou-se uma das casas, ficando as do Governo e do Supremo Tribunal na base, a do congresso na vértice, com frente igualmente para uma esplanada ampla disposta num segundo terrapleno de forma retangular em nível mais alto, de acordo com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo o seu perímetro. A aplicação em termos atuais dessa técnica oriental, milenar dos terraplenos, garante a coesão do conjunto e lhe confere uma ênfase monumental imprevista. Ao longo dessa esplanada, extenso gramado destinado a pedestre, a paradas e a desfiles. 

Foram dispostos os Ministérios e autarquias. Em setor contíguo, ampla área destinada à Cidade Universitária com o respectivo Hospital das Clínicas, e onde também se prevê a instalação de um observatório. A catedral ficou igualmente disposta lateralmente, não só por questão de protocolo, uma vez que a igreja é separada do Estado, como por questão de escala, tendo-se em vista valorizar o monumento e, ainda, principalmente, por outra razão de ordem arquitetônica. A perspectiva de conjunto da esplanada deve prosseguir desimpedida até além da plataforma, onde os dois eixos urbanísticos se cruzam”. Realizado o concurso para o plano-piloto, criaram-se diversas comissões para, sob a coordenação de Lúcio Costa, seja complementada a obra urbanística pioneira.

Assim se organizaram equipes para a apresentação dos planos específicos: O Plano Urbanístico, o Médico-Hospitalar, o trabalho de Lúcio Costa foi concluído, Oscar Niemeyer, que já havia entregue os projetos do Palácio da Alvorada e do Brasília Palace Hotel, foi convocado para projetar as edificações da nova cidade. Para fazer frente a todas essas despesas, o Governo tinha subscrito o capital de 500 milhões de cruzeiros. Essa quantia, de um imenso valor para a época, era suficiente para atender a todos os compromissos que a Novacap iria assumir.

Foi dada ordem aos órgãos federais, notadamente à Caixa Econômica, Banco do Brasil, Instituto de Previdência Social, Serviço de Alimentação da Previdência Social, que desviassem parte de seus respectivos orçamentos, que seriam investidos em obras a serem realizadas no Planalto. O SAPS – Serviço de Alimentação da Previdência Social – atendeu prontamente, e inaugurou junto ao acampamento da Novacap um moderno restaurante, que passou a fornecer cerca de 1 500 refeições aos operários, e perto de oitenta desjejuns a crianças, filhos de trabalhadores. Acelerava-se a atividade da Novacap, com o início da execução de numerosas obras. Acorriam centenas de operários aos locais, e as firmas de construtores abriam escritórios, levando indispensáveis equipamentos. Em fevereiro de 1957, cerca de duzentas máquinas estavam em atividade na região, trabalhando dia e noite sem qualquer interrupção. Uma verdadeira batalha tivera inicio no cerrado, o qual, retalhado pelos equipamentos de construção, foi sendo empurrado para as extremidades da área do Plano-piloto.

Em seu lugar surgia à famosa poeira de Brasília, vermelha, oleosa, que se infiltrava em tudo e não havia sistema de lavagem capaz de eliminar. Tornavam-se os operários de cor avermelhada, as roupas, cabelos, apresentando a mesma tonalidade.

A capital má acabada já tinha um brilho internacional. Juscelino faz personalidade e lideranças políticas internacionais desfilarem pela cidade. Afinal, ela é o símbolo maior da nova identidade nacional, do país em desenvolvimento que emerge rapidamente no mundo moderno. Uma cidade futurista no imenso, distante e negligenciado interior, capaz de chamar a atenção internacional. A maioria gosta, se entusiasma, elogia. Tudo começa em junho de 1957, com visita solene do general Francisco Higio Craveiro Lopes, presidente de Portugal, no ano seguinte, chega o ditador Alfredo Stroessner, presidente do Paraguai, um dos primeiros hóspedes do incompleto Brasília Palace Hotel. Ainda tiveram outras visitas ilustres, o secretário de Estado norte-americano e ainda, o príncipe Bernhard da Holanda; príncipe Mikasa, do Japão; duquesa de Kent; André Malraux, ministro da cultura da França posteriormente o primeiro-ministro cubano Fidel Castro.


Juscelino Kubitschek na construção de Brasília

Apesar de tanto glamour, elogios e reverências que historicamente nunca faltaram, Brasília também recebe críticas duras, severas. Pela decisão de fazê-la pelo modo e pressa de construí-la, pelo modelo urbano, pela arquitetura. Nada escapa.

Não são apenas adversários políticos que a alvejam. Também intelectuais, jornalistas, técnicos nacionais e estrangeiros. Uma pá de gente, grande diversidade de arqueiros e de flechas. Pedras também. E ate lama. Cidade estrangeira, coisa de visionário, de faraó, delírio megalomaníaco, obra teatral, sorvedouro de riquezas, principal causa da inflação crônica, capital da ladroagem. Um desses críticos é o sociólogo e escritor pernambucano Gilberto de Melo Freyre, pioneiro do culturalismo no estudo da formação da sociedade brasileira, autor do clássico Casa-grande e senzala, de 1933. Ele considera Brasília uma cidade “não-brasileira”. Vai vê-la a convite de Kubitschek.

Mas não a poupa:

Os erros cometidos em Brasília, onde a tradicionalidade e a regionalidade foram sacrificada, em arrojos de arquitetura urbana, à modernidade e esta antes a só estética ou apenas escultural que a geral, devem valer como uma advertência para todos os Brasis em fase de modernização ou de urbanização.

Tempo, pressa, aflição, pressão política e cepticismo dos adversários. Juscelino, com certeza, considerava que o carinho democrático foi batido com a aprovação da construção de Brasília e da marcação da data da transferência da capital pelo congresso. O restante era execução, era operacional. Mesmo assim, o projeto do plano-piloto foi objeto de concurso. Para JK, certamente, abrir a discussão multidisciplinar sugerida por Freyre seria inviabilizar a conclusão da obra no seu governo. Ou talvez para sempre. Não admitia nem pensar no adiamento da inauguração. Sabia que assim Brasília entraria na história como fracasso retumbante e sua sepultura política.

O ponto de vista de Niemeyer quanto a isso:

Os visitantes estrangeiros em sua maioria se entusiasmaram com Brasília, embora entre eles alguns poucos assumissem atitudes de superioridade e suficiência, que seus trabalhos – não raro medíocres – não deveriam permitir. Nada disso nos preocupava. Preocupava-nos apenas a necessidade de terminar as construções dentro dos prazos estabelecidos, e fazê-las com liberdade, para que pudessem construir uma contribuição nova à arquitetura atual, que caminha, lamentavelmente, para a repetição e a vulgaridade.

Kubitschek acompanha pessoalmente cada um dos visitantes. Faz questão de apresentar Brasília ao mundo. A cidade espanta, encanta, surpreende, freqüentemente empolga. Parece um visita ao futuro. Tudo nele. Mas principalmente os espaços monumentais de Lúcio Costa e as criativas flores arquitetônicas de Niemeyer, que capturam instantaneamente os olhos, e grudam na memória. E, claro, a audácia, confiança, otimismo e simpatia do anfitrião.  

Todas as providências para a criação de uma grande cidade já haviam sido tomadas e estavam em plena aceleração. No que diz respeito às ligações com os pontos do território nacional, já funcionavam duas rodovias-chave, a Brasília-Anápolis, e a Brasília-Belo Horizonte. Brasília ligada a essas duas cidades, conseqüentemente, estava articulada, através de rodovias de primeira classe, com os primeiros centros do país. Enquanto as ligações rodoviárias e ferroviárias eram providenciadas na área do plano-piloto, as obras se multiplicavam, comunicando dinamismo a todos os setores das edificações urbanas. No inicio de 1958, o Palácio da Alvorada já tinha terminado a sua estrutura de concreto e quase concluído a parte de alvenaria. 

Encontrava-se em fase de acabamento, a impermeabilização da cobertura. Haviam sido iniciadas as obras de revestimento externo e de pavimentação de mármore. Estava já encomendado todo o serviço de esquadrias, caixilharia, de alumínio e madeira, instalações especiais de refrigeração e vidraçaria, iluminação e tratamento da água da piscina. O hotel de turismo tinha concluído, igualmente, a montagem da sua estrutura metálica, executado todo o serviço de alvenaria.

Iniciava-se, no local, os respectivos acompanhamentos para os operários estocarem material. A cidade crescia rapidamente. Restava assimilar a data da inauguração. Juscelino, na primeira viagem feita ao planalto, no dia 2 de outubro de 1956, havia fixado um prazo para a construção, de três anos e dez meses, o que significava que aquela data seria dia 2 de maio de 1960. Tratava-se, portanto, de uma resolução pessoal, não existindo nenhuma lei a respeito.

A tradição constitucionalista, respeitada pelo projeto Santiago Dantas, reservava ao congresso a fixação da data de mudança da capital. Juscelino tinha de empregar a mesma tática, utilizando um elemento da oposição, para movimentar o projeto. Ainda dessa vez, foi o deputado Emival Caiado que apresentou a indicação da data – 21 de abril de 1960 – aniversário do martírio de Tiradentes, associando a inauguração à idéia de independência e rendendo homenagem aos inconfidentes que haviam sonhado com uma capital no interior do país.

O projeto foi aprovado, solenemente, no palácio do catete, no Rio de Janeiro. 

O prazo da construção da nova capital chegava ao fim. Edificada em pouco mais de três anos representava, realmente, um prodígio de forças de vontade conjugada de um presidente e seus companheiros de aventura. O risco inicial de Lúcio Costa, as edificações de Oscar Niemeyer; o trabalho pioneiro de Bernardo Sayão; a coordenação de Israel Pinheiro e seus colegas da Novacap; o esforço diuturno de engenheiros, candangos, empresários, todos, enfim, que haviam tornado possível aquele feito afirmavam plenamente na realização.

Brasília apresentava, de início, cerca de 3 800 apartamentos modernos, inteiramente construídos e 1700 em construção. Havia residências destinadas aos trabalhadores, construídas pela fundação da casa popular. O Banco do Brasil e numerosas autarquias tinham erguido seus edifícios. Continuavam a serem batidos os recordes. A TV Brasília fez-se em noventa dias, com as instalações de quatrocentos operários, estúdios e montagens de torres transmissoras, no eixo Brasília-Belo Horizonte-Rio-São Paulo. Haviam sido remetidos por via aérea, dos Estados Unidos, mais de 4 toneladas de material técnico.

A audácia criara um lago artificial com 117 quilômetros de linhas divisórias e 40 quilômetros quadrados de superfície. Funcionava um ginásio para 1 200 alunos, as escolas primárias; colégios de irmãs dominicanas; clubes de bridge, duas lavanderias, trinta farmácias, 35 agências de bancos, cinco agências de automóveis, quinze restaurantes, cinqüenta sapatarias, dois supermercados, dez piscinas, cinco hotéis, seis boates, dezesseis times de futebol.

Na véspera da inauguração de Brasília, Juscelino despediu-se do Palácio do Catete, sede presidencial no Rio de Janeiro. No interior do Palácio encontravam-se personalidades e todos os funcionários da casa. Juscelino reuniu o funcionalismo no salão nobre e informou-lhes do sentido daquela reunião, em que encerrava sua permanência no Catete. Anunciou a transformação do Palácio em Museu da República, a que voltariam, em uma peregrinação da saudade. Era uma cerimônia de tristeza e melancolia. 

Nos últimos dias que procederam à data inaugural, não se dormia mais em Brasília. Cinqüenta mil viaturas deslocavam-se, de todo os pontos do país, rodando pelas estradas de acesso à capital prestes a ser inaugurada. Os carros ostentavam as mais variadas placas de licenciamento, em uma exibição de cores e siglas estonteantes.

Juscelino dirigiu-se, primeiramente, para o catetinho, a modesta casa de madeira de onde comandara a construção. À hora apresada, dirigiu-se, em automóvel, para a Praça dos Três Poderes, onde teria início à cerimônia de entrega das chaves da cidade.

Eram 17h30 quando chegou ao balcão, armado no meio da praça.

Logo depois o presidente falou:

“Brasília só pode estar aí, como a vemos e já deixando entender o que será amanhã, porque a fé em Deus e no Brasil nos sustentou a todos nós, a esta família aqui reunida, a vós todos, a que me orgulho de pertencer. Vieste aqui, alguns de Minas Gerais, e outros estados limítrofes, a maioria do Nordeste. Caminhaste de qualquer maneira até aqui, por estradas largas e ásperas, porque ouvistes, de longe, a mensagem de Brasília; porque vos contaram que uma estrela nova iria acrescentar-se às outras 21 da bandeira da Pátria. 

Reconheço e proclamo, neste momento, que sois a expressão da força propulsora do Brasil. Tínheis fome e sede de trabalho, num país em que quase tudo estava e esta ainda por fazer. Os que duvidaram desta vitória; os que procuraram impedir a nossa ação; os que se desmandaram em palavras contra esta cidade da esperança desconheciam que o impulso, o ânimo, a fé que nos sustentavam eram mais fortes do que os desejos de obstrução que os instigavam, de que a visão estreita que não lhes permitia alcançar além das ruas provincianas em que transitavam. Mas deixamos entregues ao esquecimento e ao juízo da História os que não compreenderam e não amaram esta obra”.

Por já está muito escuro e não poder ler o resto do discurso, terminou-o de improviso:

“Ninguém vos subtrairá a glória de terdes lutado neta tremenda batalha” – prosseguiu emocionado. “Não vos esquecerei jamais, trabalhadores brasileiros de todas as categorias, a quem me sinto indissoluvelmente ligado. Eis o produto de nossas angústias, de nossos riscos e do nosso suor de nossas lidas, eis a cidade que o extraordinário Lúcio Costa disse já nascer adulta. Com a maior humildade, voltado para a cruz do descobrimento e da primeira missa, que Portugal nos confiou para este dia solene, agradeço a Deus o que foi feito. Com o pensamento na cruz em que foi celebrado o santo sacrifício, peço ao criador que nos dê sempre esta atmosfera de paz, indispensável ao trabalho fecundo, e conserve em vós, obreiros de Brasília, o mesmo espírito forte com que erguestes grande cidade”.

Encerrado a cerimônia, Israel Pinheiro entregou ao presidente o Livro de Ouro de Brasília, com os nomes de todos os que haviam participado dos trabalhos de construção da cidade.

Daí dirigiu-se a comitiva oficial para o aeroporto, para receber o cardeal Cerejeira pontifício, que viera de Portugal para assistir à inauguração da capital.

No trajeto, a multidão dos candangos, acrescida dos visitantes, enchia as avenidas. Nos edifícios, bandeiras e faixas. Nos rádios, nas vitrolas, música, ouvindo-se repetidamente a canção o peixe vivo, tornando hino popular da cerimônia. 

Quando a noite acabou, amanhecia o dia 21 de abril, o Dia de Brasília. Um velho sino de bronze ressoou na vastidão do planalto, anunciando o novo dia. Era o mesmo sino que tangeu pela morte do alferes Xavier, o Tiradentes, em um longínquo 21 de abril.

Havia sido armado um altar para a celebração da primeira missa campal, na Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio da Justiça. Sobre o altar, a mesma cruz diante da qual se celebrara a Primeira Missa no Brasil, havia quatro séculos, trazida da Diocese de Braga, em Portugal, onde é venerada como relíquia.

A praça estava repleta. Com dificuldade o presidente, seus familiares e autoridades atravessaram a prole humana para alcançar os seus lugares. A cerimônia religiosa não tardou a começa. 

A novíssima cidade estava nos retoques finais. O sonho de Juscelino acabava de se concretizar.

A avaliação dos custos e benefícios de construir Brasília e transferir a capital não cabe dentro de modelos contábeis ou econométricos. Mas quanto custou a construção exatamente ninguém sabe nem jamais saberá com exatidão. Não há nem nunca houve informações exaustivas. A construção foi uma epopéia em pleno sertão. Uma competente aventura improvisada, então incompatível com esquemas rígidos de controle de gastos. Não havia como nem com que fazê-lo. 

No final do governo a inflação prejudica muito a imagem de Kubitschek. É que ela penaliza muito e mais rapidamente os assalariados, principalmente os de menor nível de renda. Entra no cotidiano de milhões de pessoas, que perdem renda da como algo ruim, pernicioso. Opositores estimulam essa visão, claro. A questão ganha tanta força que entra até na música popular.

Em 1959, por exemplo, o palhaço Carequinha, ídolo da garotada, faz sucesso com Dá um jeito nele, Nonô, batucada de Miguel Gustavo:

Dá um jeito nele, Nonô.
Meu dinheiro não tem valo.
Meu cruzeiro não vale nada.
Já não dá nem pra cocada.
Já não compra nem banana.
Já não bebe mais café.
Já não pode andar de bonde
Nem chupar um picolé.
Afinal esse cruzeiro
É dinheiro ou não é?  

Em novembro de 1999, júri integrado por trinta ilustres brasileiros de diferentes categorias, indicou os trintas líderes e estadistas nacionais que mais se destacaram no século XX.

Após a votação, tem como vencedor: Juscelino Kubitschek de Oliveira, seguido de Getúlio Vargas. Posteriormente ganha o titulo de Brasileiro do século. O presidente Fernando Henrique Cardoso entrega o título a Márcia Kubitschek (esposa de Juscelino) em 14 de dezembro de 1999, no Palácio de Itamaraty, em Brasília.

Ele diz:

Eu não sei se haverá muitos lugares hoje no mundo em que seja possível como nós, aqui e agora, nesta cidade, quase à moda renascentista, homenagearmos alguém que criou uma cidade. E que, ao criar essa cidade, teve o condão de chamar os melhores artistas do país, como é o caso de Niemeyer, e deixar marcas que vão perpetuar-se pelos séculos afora. Que, ao criar uma cidade, cria também uma espécie de síndromes permanente de um país que acredita em si mesmo.

Eu não sei se haverá muitos lugares hoje que têm essa força que o Brasil tem e que esteja tão bem simbolizada como por Brasília. É alguma coisa de extraordinário que o criador de Brasília seja o homem do século. Criou Brasília. E, ao criar Brasília, recriou o Brasil. Com líderes como esse, não temos o que temer, pois somos capazes, como povo, de seguirmos adiante. Pedimos a JK que continue a nos inspirar.

Márcia Kubitschek chora ao fazer discurso de agradecimento:

Quando fez o seu caminho para o mundo, levou as imagens da infância vivida em Diamantina como o segundo de viagem. Neto de um imigrante tcheco, que buscava o serro empurrado pelo sonho, órfão de pai muito menino, meu pai construiu o seu destino na obstrução de servir. Escolheu a medicina e descobriu, ao formar-se, que o seu amor ao povo pedia-lhe mais ainda. (...) Presidente da República, cumpriu o que prometera: convocou o futuro para o seu mandato e, em cinco anos, construiu o que exigiria meio século.

Em Paris, no dia 7 de dezembro de 1987, reunião do Comitê do Patrimônio Mundial, da Unesco. O conjunto arquitetônico do Plano piloto de Brasília é inscrito como patrimônio cultural da humanidade. Um bem de valor excepcional e universal, marco do urbanismo moderno do século XX. É o primeiro monumento recente a ser reconhecido. 

Aprovação unânime dos 21 membros: Argélia, Austrália, Brasil, Bulgária, Canadá, Cuba, Estados Unidos da América, França, Grécia, Índia, Itália, Líbano, Malawi, México, Noruega, Paquistão, Siri Lanka, Tanzânia, Tunísia, Turquia e Iêmen.

Juscelino e a construção de Brasília se tornaram um marco para a história do Brasil. Todos esses méritos, e toda essa reverência foram devido a forte ligação de Juscelino com Brasília, que durante a construção ele a chamava de “meu xodó”. Percebe-se também, a determinação de um homem que via em Brasília, o futuro do país em desenvolvimento. Juscelino lutava contra opositores que tentavam desanimá-lo, mesmo assim ele mostrou firmeza foi em frente e fez descer do sonho a realidade de Brasília!

José B. de Aguiar Santos Jr

Fonte: www.coladaweb.com

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