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História do Banho

A maioria dos livros sobre a Idade Média européia fala muito pouco ou quase nada sobre um fenômeno que marcou profundamente o continente e de certa forma deixou cicatrizes que permanecem até nossos dias, a terrível "morte negra", a pandemia de peste bubônica que assolou a Europa em meados do século XIV.

Durante todo o período conhecido como Baixa Idade Média, entre os séculos XI e XV, as condições de vida dos camponeses europeus foram mais ou menos às mesmas, independentemente do local em que vivessem. Pode-se dizer o mesmo em relação à população urbana e até quanto aos nobres e senhores feudais.

Basicamente, a habitação medieval européia consistia em um único grande recinto, sem divisões internas. Tal configuração estava presente tanto na miserável casa camponesa, feita de madeira e adobe, quanto nos imponentes castelos de pedra dos senhores mais poderosos. Esta concepção de moradia gerava alguns problemas bastante graves, principalmente no que diz respeito à saúde.

Esta configuração era bastante típica, e podia ser aplicada de forma mais ou menos geral para todo o continente europeu. Os pontos principais são a coabitação com os animais de criação, a ausência de divisões internas, o pequeno número de móveis e a falta de ventilação, já que geralmente havia uma única janela, quase sempre fechada para manter o calor da casa. O piso era de terra batida, às vezes forrado com palha ou junco.

O aquecimento era proporcionada por uma fogueira, quase sempre acesa no centro do ambiente. Não havia chaminé, apenas um buraco no teto, que além de deixar sair a fumaça também permitia a entrada da chuva, o que costumava apodrecer a palha do piso no inverno. Este desenho básico era uma constante em quase todo o território europeu, e só viria a mudar a partir do século XVI.

As camas, quando haviam, eram geralmente fechadas com cortinas, para proporcionar um pouco de privacidade. Eram mais largas que compridas, já que nelas dormiam de duas a oito pessoas. O homem medieval geralmente dormia despido, com a cabeça protegida por uma touca. O móvel mais utilizado era a arca, devido às suas múltiplas funções, já que o fator limitante quanto ao número de móveis era o seu custo, bastante elevado na época.

Os ambientes úmidos e enfumaçados, a falta de privacidade e a promiscuidade facilitavam sobremaneira a transmissão de doenças. Neste tipo de ambiente, quando um membro da família adoecia era praticamente impossível evitar o contágio.

A residência urbana seguia praticamente os mesmos padrões. A única diferença era a presença ocasional de um segundo piso, mais comum na casa do artesão, que usava o térreo como oficina e loja. A existência do segundo piso geralmente implicava na melhoria de algumas estruturas, tais como um piso aperfeiçoado e a construção de lareiras ou saídas laterais para a fumaça. Entretanto, tais melhorias não ajudavam a melhorar a salubridade do ambiente, já que as cidades medievais eram locais apinhados de gente, com esgotos a céu aberto, o que as tornava muito mais insalubres que as casas camponesas.

A enfermidade e a peste rondavam a vida das pessoas. Obter água limpa para beber e cozinhar era um problema, pois o conteúdo das fossas infiltrava-se no solo e contaminava os poços. Lixo, resíduos de curtume e matadouros poluíam os rios.

Quanto aos castelos, apesar de sua imponência usava-se a mesma configuração da casa camponesa, pelo menos até o final do século XIII. A partir daí houve progressos notáveis, principalmente na Inglaterra, com os castelos construídos por Eduardo I no País de Gales. Foi o talento e a criatividade de homens como Mestre James de Saint Georges, o arquiteto saboiano de Eduardo, que começou a mudar o conceito da habitação medieval, através da introdução de melhorias como o uso de divisões internas permanentes, a construção de latrinas, e principalmente a colocação de lareiras em todos os ambientes das áreas habitacionais, o que ajudava a reduzir a umidade e aumentava a salubridade dos mesmos. Fica mais fácil entender a moradia medieval se levarmos em conta que os homens da época passavam muito pouco tempo em casa.

Os pobres trabalhavam do nascer ao pôr do sol, e os nobres viajavam a maior parte do tempo. A vida era levada ao ar livre, e a residência, tanto a choupana do camponês quanto o castelo do senhor feudal, não passava de um dormitório ou um providencial refúgio contra as intempéries ou o frio do inverno.

Somente com o passar do tempo o conceito de "lar" foi tomando forma, e só a partir daí houve melhorias significativas no desenho do espaço privado.

Durante a Idade Média, um dos aspectos mais fundamentais da higiene, o banho, era considerado prejudicial se tomado em excesso. E "banhar-se em excesso" geralmente significava fazê-lo mais de duas ou três vezes por ano. O cheiro de corpos não lavados impregnava todas as casas. Mesmo os monges da abadia de Cluny, a mais opulenta da Europa, banhavam-se apenas duas vezes por ano, antes da páscoa e antes do natal. Nas áreas urbanas, o esgoto e a água usada eram simplesmente atirados pela janela, muitas vezes na cabeça do transeunte que tivesse a infelicidade de estar no lugar e hora errados.

As roupas eram lavadas muito raramente, geralmente duas ou três vezes por ano, devido à raridade e ao custo do sabão, e conseqüentemente viviam infestadas de pulgas, percevejos, piolhos e traças. Catar piolhos era uma atividade regular das famílias, sendo mesmo uma forma de lazer.

Quem mais corria risco eram os recém-nascidos, já que as mulheres costumavam forrar as camas com lençóis sujos e velhos para dar à luz, pois assim não estragavam os bons. Entre um quarto e um terço das crianças morriam antes de completar um ano e muitas outras antes dos dez anos. De cada dois nascimentos bem-sucedidos podia resultar um único adulto saudável. As casas eram ninhos de ratos, que disputavam com os animais de criação os restos de comida.

A dieta camponesa era imprópria e mal balanceada, consistindo basicamente de cereais, na forma de pão. Em alguns pontos da Europa o pão chegava a constituir mais de 65% da quantidade de calorias ingeridas (80% se não contarmos com o vinho). Todo o resto, vinho, carne, peixe, legumes, gorduras e queijo, não passava de "acompanhamento", ou seja, aquilo que acompanha o pão. As classes mais abastadas tinham direito ao pão fino, enquanto os pobres comiam o pão escuro, ou mesmo o chamado "pão de escassez", feito de aveia. Como diziam alguns cronistas da época "A hierarquia das pessoas define-se pela cor do pão que comem".

A verdadeira causa da doença era ignorada (e continuaria a sê-lo até o século XIX). Mesmo no final da Idade Média a medicina preventiva limitava-se ao isolamento e quarentena. Atribuía-se quase tudo à influência dos astros, e não era raro que os médicos mais famosos fossem também astrólogos.

Para os pobres e ignorantes, a resposta era bem simples: todos os males eram castigos de Deus, irado com os constantes pecados cometidos pelo homem.

Para quase tudo se receitava a sangria, além de infusões ervais e misturas estranhas, quase sempre inócuas. Dentre alguns tratamentos exóticos, podemos citar o usado para eliminar a solitária, que consistia em lavar o couro cabeludo com a urina de um menino. Os pacientes com gota eram tratados com um emplastro de excremento de bode misturado com rosmaninho e mel. Para evitar marcas, envolvia-se o doente de varíola num pano vermelho, mantendo-o deitado numa cama com cortinas também vermelhas. Estes tratamentos não eram baratos, e o que era repugnante, bem como o que era raro ou difícil de obter, tinha um valor maior.

O pensamento médico, preso à teoria das influências astrais, ressaltava o ar como o meio de transmissão das doenças, principalmente as pestes. Era o ar envenenado, os miasmas e as névoas pesadas e pegajosas, provocados por todos os tipos de agentes naturais e imaginários, desde lagos estagnados até a conjunção negativa dos planetas, que espalhavam a doença e a morte entre os homens.

O homem medieval via a peste como um castigo divino. Entretanto, se analisarmos todos os dados referentes à habitação, higiene, alimentação e saúde, veremos que o caráter pandêmico da praga derivou da precariedade de todos estes aspectos, e de sua homogeneidade mais ou menos acentuada em todo o território europeu. A "morte negra" provavelmente não teria ocorrido se as condições de moradia ou higiene fossem outras, pelo menos não na extensão que ocorreu.

Durante o apogeu do Império Romano, havia cidades muito maiores, mas as condições de habitação e saúde eram muito superiores.

A peste foi um fenômeno característico de um mundo em mutação. Foi o alto preço pago por um continente que começava a se abrir para o resto do mundo através do aumento das relações comerciais, mas que ainda vivia em um ambiente concebido para uma vida isolada e auto-suficiente. Sob este aspecto, a praga teve um lado positivo, ao obrigar o homem ocidental a mudar a sua forma de se relacionar com o meio ambiente, ensinado-o o valor do planejamento urbano e da higiene, além de expor a fragilidade da ciência médica medieval e, conseqüentemente, possibilitar sua evolução, livrando-a, pelo menos para alguns, da ignorância e da superstição. 

Contexto Europeu do século X ao século XIII:

Visando desmistificar, oprimir e reduzir a ideologia pejorativa “Idade das Trevas”, apresento as mais variadas criações e invenções inseridas no contexto de desenvolvimento do período medieval, percorrendo um vasto campo temporal e espacial (que aqui estudado a Europa do ano de 900 a 1200 da era cristã) investigando e estudando este recorte do medievo através de variados fatores, positivos e negativos, que são notáveis mais aspectos positivos de uma bela época do que um lado obscuro de trevas.

“Idade das Trevas” foi o termo adotado pelos humanistas do século XVII, aonde generalizaram toda a civilização da Europa do século IV ao século XV como um tempo de ruína e flagelo. Esta ideologia de obscuridade das trevas é resultado de fatos e acontecimentos negativos ocorridos no longo período da Idade Média, tais como, as guerras, as invasões bárbaras, as crises da agricultura, as epidemias, a imposição da Igreja, a inquisição em relação aos hereges, a centralização da economia restrita aos feudos, as desigualdades sociais, dentre outros aspectos, mas que não justificam criar uma terminologia pejorativa para uma gigante e envolvente civilização que em contraste com esse lado negativo muito criou, muito inventou e muito desenvolveu, lembrando que o período medieval é o carro chefe da historiografia contemporânea.

Então empregar uma ideologia pejorativa a uma vã sociedade, é demonstrar preconceito, calúnia, difamação e mais altamente uma insuficiência de conhecimento desta mesma, que conforme o renomado historiador medievalista Jacques Le Goff, a Idade Média foi “... uma época que não foi de trevas nem imune ao progresso; ao contrário, foi uma época fértil de invenções vitais e importantes ...” .(LE GOFF, 2007, capa), aí nesta citação Le Goff trata a Idade Média de uma forma clara, objetiva e “com os pés no chão”, aonde expõe suas idéias sem condenar qualquer coisa, afinal a função do historiador é de compreender, e não de julgar o passado. Através de comparações de fontes de diferentes linhas teóricas, e através do estudo,da pesquisa e da análise de várias fontes secundárias proponho dissertar a Idade Média (dos séculos X ao XIII), visando mostrar o lento desenvolvimento, porém grandioso, que de uma forma foi marcado pela fome, pobreza, miséria, doenças e todos os obstáculos possíveis, mas que também levou a Europa a várias invenções e criações tendo um papel de suma importância e fundamentação para a formação de uma alta sociedade, que refletiu também nas novas sociedades modernas, aonde vários aspectos foram legados a nós contemporâneos. “(...) o período entre os séculos IV e XVI é tradicionalmente conhecido por Idade das Trevas, Idade da Fé ou, com mais freqüência, Idade Média. Todos eles rótulos pejorativos, que escondem a importância daquela época na qual surgiram os traços essenciais da civilização ocidental. Nesta, mesmo países surgidos depois daquela fase histórica –caso do Brasil- têm muito mais de medieval do que à primeira vista possa parecer. Olhar para a Idade Média é estabelecer contato com coisas que nos são ao mesmo tempo familiares e estranhas, é resgatar uma infância longínqua que tendemos a negar mas da qual somos produto. De fato, para o homem do Ocidente atual compreender em profundidade a Idade Média é um exercício imprescindível de autoconhecimento.

As criações do medievo (de aproximadamente dez séculos) atingiram um alto número, dentre elas estão: os moinhos, a charrua, a pólvora, a plaina, o pisão, o arco triangular, os algarismos arábicos, a anestesia, o anno domini, a árvore genealógica, os bancos, os botões, a bússola, o carnaval, o carrinho de mão, as cartas de jogo, o cavalo como força motriz, o garfo, gatos como animais domésticos, a hora de sessenta minutos, a lareira, os livros, o macarrão, a marca d´água, o óculos, os nomes das notas musicais, o papai Noel, o papel, a prensa de tipos móveis, o purgatório, as roupas de baixo, o tarô, as universidades, os vidros coloridos, o xadrez, o zero, o relógio, as cidades, as moedas, as feiras, a cavalaria, os castelos, as cruzadas, o leme, o astrolábio, as ferraduras, a roda d’ água, o poço artesiano, o estilo gótico(...), entre várias outras coisas, sendo que alguns dos itens inovadores já existiam na antiguidade, só que não eram utilizados por falta de conhecimentos e técnicas.

O que definia a riqueza, o poder político e o poder social era a terra e a economia agrária, que são fundamentados pelo modo de produção feudal2 (teve suas origens no século IV, com o comitatus germânico e o colonato4 romano), no qual dividia a sociedade em classes, aonde era efetivado o contrato de vassalagem entre um senhor (que entrava com o meio de produção, a terra) e um camponês (que entrava com o serviço braçal). A agricultura do século X era pouco desenvolvida devido aos instrumentos rudimentares e pela falta de técnicas, mudando esse contexto no século XI com os progressos agrícolas e demográficos, aonde se denominou “revolução agrícola” por causa das transformações positivas, sendo a agricultura influenciada pelos moinhos, pela charrua, pela enxada, pela foice e pelo cavalo. No século XII foi empregada a utilização do adubo, em geral o esterco de vaca, que era de alta poder aquisitivo na época.

A cidade medieval se afirma entre os séculos X e XIII, sendo inicialmente pequenos centros de trocas, aonde firmaram os burgos (lugares fortificados), essas cidades tinham populações basicamente bárbaras, que devido o processo evolutivo foram sendo separadas, tais como, os artesãos, os senhores de terras, os reis, os bispos, os condes, os cônsules, a burguesia, os pequenos comerciantes, os pedreiros, os rebocadores, os carpinteiros, os mineiros, os metalúrgicos, as domésticas e os intocáveis ou minorias excluídas.

A Igreja do século XI não mantinha um bom desenvolvimento em relação ao cristianismo, ameaçando assim a existência dessa instituição e da cristandade. O papa através da Igreja criou as cruzadas, que consistia em servir a Deus, peregrinar, disputar a reconquista da terra sagrada e estimular a caridade aos cristãos oprimidos, sendo que quem participasse era denominado monge guerreiro, e por ter características de guerra (matança, pilhagens) ficou denominado Guerra Santa. Todos que participavam das cruzadas eram pessoas que tinham a ideologia de se redimir dos pecados, defendendo ou visando à libertação dos cristãos detidos, sendo que estes participantes tinham a terminologia de santos (os que sobreviviam) e mártires (os que morriam), e nesse contexto de defesa e expansão do cristianismo surge a Ordem dos Cavaleiros Templários, fundada em Jerusalém, em 1118, por nove cavaleiros, para defender os peregrinos cristãos na Terra Santa durante as cruzadas.

As moedas surgem especialmente depois do avanço agrícola no século XI, pois são muitas mercadorias no comércio, gerando uma alta circulação monetária, que também influenciou nas cruzadas, pois se tornava mais viável levar uma quantia de moedas do que um navio de cevada. Assim o grande comércio e o demasiado aumento demográfico foram o motor da expansão econômica monetária, a moeda tornava-se cada vez mais necessária para efetuar pagamentos e trocas, sendo que esse crescimento da economia monetária começou a substituir a economia natural, que resultou no enfraquecimento dos senhores feudais que caracterizou a primeira crise do feudalismo no século XIV. Dentre as moedas medievais encontravam-se de vários matérias, como ouro, prata, estanho e cobre (nem sempre puros), aonde variavam de acordo com o local e soberano, sendo utilizadas com várias formas e estampas, representando fatos, datas, pessoas, tais como, coroação, morte, ascensão, guerras, nascimento, poder, local, imperador, príncipe e acontecimentos em geral.

É interessante destacar as relações entre as cruzadas, o crescimento econômico do século XI e a expansão das cidades, que estão relacionadas de tal forma aonde cada fato vai surgindo e resultando de um outro. As cruzadas são compostas por milhares de pessoas, que vão peregrinando de cidade em cidade, e para custear os víveres destes cruzados são gastas enormes quantias de moedas em cada cidade, nascendo desse contexto às feiras e gerando assim um grande crescimento econômico que vai expandir as cidades transformando-as em importantes centros comerciais, aonde se destacam principalmente Gênova, Veneza, Constantinopla, Paris, Montpellier, Limoges, Londres, Ratisbona, Hamburgo, Colônia, Reims, dentre outras.

A Europa Ocidental medieval era rica em madeira, que permitiu um grande número de exportações de carvalho (madeira de luxo na época) para o mundo muçulmano. Surge aí o descobrimento e a utilização do ferro, que foi usado na maioria das vezes para a produção de ferramentas e para o armamento militar.

No século XIII foram criadas ferramentas de ferro para trabalhar toda essa abundância de madeira, como por exemplo machados, trados e serras. O ferro foi utilizado também anteriormente para inovar na agricultura, com a criação da enxó (enxada). O grande avanço sobre a madeira ocorreu quando foi substituída por pedras nas construções, em especial no desenvolvimento dos castelos.

As novas fontes de energia do século XIII trouxeram um certo nível de desenvolvimento para a Europa medieval.

Os moinhos inovaram muito, dentre eles estão: os moinhos de cânhamo (papel), moinhos curtidores, moinhos de pisão (tecidos), moinhos de cerveja e moinhos de amolação. Outra grande fonte de energia foi à criação anteriormente da atrelagem (XI) que pôs os animais como boi e cavalo a trabalharem nas lavouras.

Neste momento o boi foi considerado inferior ao cavalo, chegando a valer dois bois por um cavalo, porém em Órleans o asno valia mais. Apesar das novas fontes energéticas substituírem a energia humana, os trabalhadores prevaleceram em vários setores, como no transporte de trigo e na navegação, que era utilizado remos manuais.

Os navios eram construções simplificadas e limitadas, existiam poucos nas frotas ocidentais.

Transportavam vários artigos, grãos, madeiras e especiarias em geral, as principais rotas foram: em direção a Chipre e Armênia, a Flandres e a România. Em meados do século XIII foi introduzido o leme, que tornou os navios mais fáceis de serem conduzidos. As navegações intensificaram-se no inverno devido à criação da bússola (XIII-1280).

Os avanços tecnológicos de maior significância no campo “industrial’ foram: a criação da pólvora e das armas de fogo (XIII), que revolucionaram as guerras; o vidro (XIII) aparece como industria, pois já era conhecido na antiguidade, mas não era trabalhado, trouxe o desenvolvimento para cristandade, onde era utilizado para formar os vitrais; a industria têxtil surge para fabricar os vestuários, geralmente os técnicos e os inventores da idade média foram os artesãos.

Um grande progresso comercial acontece com o surgimento do câmbio, a troca de moedas. O centeio foi a mais inovadora semente desenvolvida no período medieval, complementando a cadeia alimentar.

Tratando do desenvolvimento do período medieval é impossível deixar de fora a esplêndida instituição que surgiu em fins do século XII e destacou-se principalmente no século XIII, sendo ela a universidade, que marcou o renascimento urbano e o nascimento dos chamados intelectuais, sendo caracterizada por defender os interesses das comunidades em geral, aonde constituiu vários aspectos políticos e sociais sendo praticamente autônoma, porém prestava satisfação ao Estado e ao papa. A universidade era composta por mestres, doutores e alunos, formando um local de produção de saberes, de pesquisas, de questionamentos, de debates e de estudos específicos. Esta instituição utilizou o trivium (gramática, retórica e dialética) e o quadrivium (música, geometria, matemática e astronomia) como estudo básico para as faculdades oferecidas, tais como direito, artes, teologia e medicina, nos níveis de bacharelado, licenciatura, mestrado e doutorado.

A universidade foi formada em três tipologias: as universidades espontâneas, que eram criadas por mestres e alunos, como por exemplo à universidade de Paris, Bolonha e Oxford; seguindo tinham as universidades nascidas por migrações, tais como a de Cambridge, em 1318, que nasceu por secessão da de Óxford, a de Orleans nasceu em 1306 pela de Paris; e outro tipo de universidade era a criada por soberanos, como a de Nápoles, criada por Frederico II, em 1224.

Essa instituição promoveu uma verdadeira revolução intelectual, que fez a sociedade desenvolver através do conhecimento, do raciocínio e de influências greco-árabes, que não chegou ao povo anteriormente graças a Igreja que triunfou apoiando-se na estagnação da “sociedade burra” educada pelo monopólio da Igreja. Esse nascimento dos intelectuais firmou o florescimento de belas obras culturais, tais como literatura, arte e música. Também de grande influência foi à contribuição dos gregos e dos árabes que entrou no ocidente através dos interesses dos intelectuais tendo como via de passagem o comércio, nas feiras, através de manuscritos, que foram traduzidos por vários poliglotas.

Os complementos culturais principais foram: a filosofia, a matemática, a astronomia, a medicina, a física, a lógica, a ética, a agronomia, a alquimia e os seus respectivos métodos de utilização.

Seria o mundo medieval um inferno de misérias e obscuridade? Descobre-se o contrário onde o desenvolvimento expandiu em enormes ramificações através de permanências e rupturas que permeiam um campo muito além da ideologia de obscuridade imposta pelos humanistas modernos do século XVII. Para uma suposta sociedade subdesenvolvida não cabem invenções geniais e de grande repercussão, portanto a Europa ocidental medieval não foi uma idade de trevas nem imune ao desenvolvimento, teve obviamente alguns aspectos negativos, que de um modo geral faz parte de qualquer civilização em construção ou propriamente dita “pronta”, afinal no mundo contemporâneo é notável civilizações com demasiados atritos e aspectos negativos, se não maiores do que nos dez séculos do período medieval. O progresso medieval constituiu vários alicerces que resultaram nas nações monárquicas da idade moderna, como a bela França, a Inglaterra, a Itália, a Alemanha, Portugal e a esplêndida Espanha, que sem sombra de dúvida não existiriam sem a superestrutura formulada pelos homens medievais, que por causa de suas necessidades muito inventaram e desenvolveram, atingindo um alto nível de progresso, portanto o período entre os séculos IV e XV é sinônimo de uma bela época.  

Limpo como na Idade Média, época que cultou a higiene   

A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval. No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc. As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”. O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo. Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval. Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.

Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..

As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata. As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira. A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas. Na idade adulta os banhos eram quotidianos. Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana. Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa. Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais. Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luis IX os regulamentou em 1268. Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu. Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasbourgo, Chartres… grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade. Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública. Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria. Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.

Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.

Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais. As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l’Archambault. Imperadores, príncipes, ricos-homens os freqüentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc. A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.

Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!

Banhos na Idade Média

Romanos e Árabes haviam trazido para a península práticas que, em Portugal, iriam perdurar mesmo na Idade Média. Banhar o corpo, porém, não implicava então um estrito conceito de limpeza.

Na Grécia, o banho era uma extensão necessária da prática de ginástica: um banho revigorante, frio e breve.

Em Roma e no Islão estava implicita a ideia de repouso e de convívio: uma prática social, um ritual simbólico.

O banho comunal na Idade Média e o banho Turco, nas numerosas formas que assumiu na Europa, tinham fins semelhantes.

A isso se refere Georges Vigarello em "O Limpo e o Sujo": «Em setembro de 1462, o duque Philippe le Bon ofereceu um jantar aos embaixadores do rico duque da Baviera e do conde de Würtenberg e mandou servir cinco pratos de carne para festejar nos banhos».

A ideologia cristã, no entanto, viria a instaurar preconceitos e a impor uma outra moral e consequentes novos costumes. Não que a igreja não se ativesse à limpeza dos corpos.

Mais temia, contudo, pela sujidade das almas: os hábitos promiscuos eram uma porta aberta ao pecado. Havia assim que evitar os banhos públicos, locais «propícios à devassidão e ao amolecimento dos costumes»("A Sociedade Medieval Portuguesa" de A.H. de Oliveira Marques).

O elemento essencial na casa medieval é a sala, onde se reúne toda a família. Refeições, baptismos, casamentos, veladas dos mortos, reuniões de família,....

Isto acontece tanto nas casas de camponeses como nos castelos. As mesas são simples tábuas que se montam sobre cavaletes no momento de servir e que se guardam seguidamente junto às paredes para não estorvarem. As outras divisões são apenas acessórias, mas existem. A cozinha é separada, ocupando um edifício à parte para limitar os riscos de incêndio.

Os quartos são mobilados com mais conforto do que geralmente se crê. O mobiliário compreende as camas bem adornadas e cobertas de colchas e de tapetes, com lençois brancos e peles, os tamboretes, as cadeiras de espaldar alto e esses baús e cofres esculpidos, onde se guarda a roupa. Adjacente os quartos existiam os redutos chamados privados, aquilo que nos habituamos a chamar de W.C.. Por espantoso que possa parecer não faltava em nenhuma casa da Idade Média.

A delicadeza ia mesmo muito longe neste aspecto, pois parecia pouco refinado não possuir as suas retretes particulares.A regra manda que cada um tenha as suas e seja o único a utiliza-las. Os costumes só se tornaram grosseioros neste ponto a partir do século XVI, que aliás viu serem desprezadas quase todas as práticas de higiene que a Idade Média conhecia.

Se não se tomava banho todos os dias na Idade Média (poder-se-à afirmar que se trata de um hábito generalizado na nossa época?), pelo menos os banhos faziam parte da vida corrente. A banheira é uma peça do mobiliário. Não passa muitas vezes de uma simples tina, e o seu nome dolium, que significa também tonel, pode prestar-se a confusões. Gostava-se muito de ir, no Verão, folgar para os rios, na mais simples indumentária, pois a ideia de pudor de então era muito diferente da que temos hoje em dia, e tomava-se banho nú, tal como se dormia nú entre os lençois.

Tudo isto está longe das ideias aceites acerca do asseio na Idade Média, e contudo os documentos existem. O erro proveio de uma confusão com as épocas que se seguiram.

Com os grandes surtos epidémicos instala-se a convicção de que a água, por efeito da pressão e sobretudo do calor, abria os poros e tornava o corpo receptivo à entrada de todos os males. Desde o século XV que os médicos condenavam a utilização dos balneários públicos e das estufas. defendiam a teoria de que «depois do banho, a carne e o hábito do corpo amolecem e os poros abrem-se e, assim, o vapor empestado pode entrar prontamente no corpo e provocar a morte súbita» ("O Limpo e o Sujo"). As normas de civilidade ca corte, a aprtir do século XVI preconizam que lavar é antes friccionar; limpeza a "seco".«As crianças limparão o rosto e os olhos com um pano branco, que desengordura e deixa a pele na sua constituição e tom natural. A água prejudica a vista, provoca dores de dentes e catarro» ("O Limpo e o Sujo").

Séculos de imundície

História  

Na escala da história humana, o hálito perfumado, o cabelo sedoso, a axila desodorizada (e depilada, se feminina) são novidades absolutas. A higiene pessoal, tal como é concebida hoje na maioria dos países, só se estabeleceu em efetivo no século XIX. Antes disso, as pessoas não apenas toleravam a sujeira como ainda, muitas vezes, se compraziam com ela. A evolução dos cuidados íntimos deu-se aos trancos, com pequenos avanços seguidos de longos recuos. E até mesmo produtos de utilidade óbvia, como o papel higiênico (que recém-completou 150 anos), não só demoraram a ser inventados como encontraram resistência para ser aceitos. Dois livros lançados na Inglaterra e nos Estados Unidos, Clean – A History of Personal Hygiene and Purity (Limpo – Uma História da Higiene Pessoal e da Pureza), da inglesa Virginia Smith, e The Dirt on Clean (algo como O Lado Sujo da Limpeza), da canadense Katherine Ashenburg, reconstituem a trajetória da higiene na civilização ocidental. Com detalhes sórdidos – e anedotas sujas.

Virginia Smith, pesquisadora associada do Centro de História da Saúde Pública da London School of Hygiene and Tropical Medicine, tomou um caminho mais acadêmico, que parte de considerações biológicas sobre os cuidados de macacos e outros mamíferos com o corpo para então compor a moldura histórica mais ampla. Katherine Ashenburg, jornalista que já havia escrito um livro sobre as práticas de luto ao longo dos séculos, toma um caminho mais cultural, discutindo os hábitos íntimos de uma larga galeria de personagens (veja quadro nas págs. 194 e 195).

As duas obras coincidem em uma constatação potencialmente polêmica: o cristianismo representou um retrocesso na história da higiene. Praticamente todas as civilizações da Antiguidade deram grande valor ao cuidado com o próprio corpo e com o bem-estar físico. Os egípcios já fabricavam sabão. A religião grega previa uma série de libações antes de sacrifícios animais e refeições, e o banho era uma instituição cotidiana, registrada até nos mitos – em seu retorno da Guerra de Tróia, Agamenon é assassinado na banheira por sua mulher, Clitemnestra. O Império Romano criou aquedutos para abastecer suas principais cidades. O romano abastado freqüentava diariamente os banhos públicos, onde o corpo era lavado em uma sucessão de piscinas com temperaturas variadas e esfregado vigorosamente – não se usava sabão – para retirar todas as sujeiras.

Tudo isso desapareceu com a queda do império e a prevalência dos cristãos.

É claro que o banho não sumiu da paisagem européia da noite para o dia. Katherine Ashenburg observa que alguns dos primeiros patriarcas do cristianismo, como o teólogo Tertuliano e os santos Agostinho e João Crisóstomo, ainda freqüentavam a casa de banho. Aos poucos, porém, esses locais foram sendo associados ao pecado e à dissolução dos costumes pagãos. Mais voltado para a interioridade do que o judaísmo, o cristianismo desconfiava de qualquer atenção conferida ao próprio corpo. Místicos mais extremados como São Francisco de Assis consideravam a sujeira um modo de penalizar o próprio corpo, aproximando o espírito de Deus (o mesmo São Francisco, no entanto, era conhecido pelo desprendimento com que lavava as feridas de leprosos). Ao codificar no século VI algumas das regras da vida monástica, são Bento determinou que só os monges doentes ou muito velhos fossem autorizados a se banhar.

Na maioria dos conventos e monastérios da Europa medieval, o banho era praticado duas ou três vezes ao ano, em geral às vésperas de festas religiosas como a Páscoa e o Natal. Supõe-se que a média de banhos entre a população que vivia fora do claustro não tenha sido muito superior.

Uma vez perdida na poeira medieval, a prática de lavar o corpo todos os dias demoraria séculos para se restabelecer (e em alguns países europeus ainda não se restabeleceu). O banho foi no máximo uma moda episódica – cavaleiros que voltaram das cruzadas, por exemplo, trouxeram o hábito do banho quente, comum entre os muçulmanos, então muito mais asseados do que seus contendores cristãos. No século XIII, o popular Romance de La Rose, poema francês repleto de conselhos eróticos, trazia uma série de recomendações para o asseio feminino. As mulheres deveriam manter unhas, dentes e pele limpos – e, sobretudo, deveriam zelar pela limpeza da "câmara de Vênus". No século seguinte, jogos eróticos no banho também compareceriam no Decameron, do italiano Giovanni Boccaccio. O prestígio do banho, porém, parece ter sido apenas literário. O cristão europeu médio seguiu lavando o rosto e as mãos antes da refeição e esfregando seus dentes com paninhos – e a tanto se resumia sua higiene pessoal.

A transição para a era moderna não trouxe nenhuma melhora higiênica – pelo contrário, o progressivo inchaço das cidades gerou catástrofes sanitárias. Em Londres, Paris ou Lisboa, a disposição de lixo e de dejetos humanos era feita na rua mesmo. No suntuoso Palácio de Versalhes, um decreto de 1715, baixado pouco antes da morte do rei Luís XIV, estipulava que as fezes seriam retiradas dos corredores uma vez por semana – do que se deduz que o recolhimento era ainda mais esparso antes. Versalhes não tinha banheiros, mas contava com um quarto de banho equipado com uma banheira de mármore encomendada pelo próprio Luís XIV – objeto que serviria apenas à ostentação, caindo no mais absoluto desuso. Os médicos certa vez recomendaram banhos ao Rei Sol como forma de terapia para as convulsões que ele andava sofrendo – mas interromperam esse tratamento dramático quando o monarca se queixou de que a água lhe dava dor de cabeça. Acreditava-se então no poder de cura da imersão em água para certas doenças.

Contraditoriamente, porém, também se atribuíam perigos ao banho: lavar o corpo todo abriria os poros, facilitando a infiltração de doenças (ironicamente, as práticas precárias da higiene pessoal facilitaram epidemias européias, como a peste e a cólera). Significativo é um caso de 1610 envolvendo o avô de Luís XIV, Henrique IV. Esse rei fez a deferência de dispensar o duque de Sully de uma convocação para comparecer ao Palácio do Louvre. Em vez disso, foi Henrique IV que visitou Sully, para tratar de assuntos de estado – isso tudo apenas porque o duque havia se banhado recentemente e, portanto, estaria suscetível demais para sair à rua.

Outra crença curiosa do mesmo período diz respeito ao poder purificador da roupa: acreditava-se que o tecido "absorvia" a sujeira do corpo. Bastaria, portanto, trocar de camisa todos os dias para manter-se limpinho. Já no século XIX, o rei português dom João VI – o fujão que estabeleceu sua corte no Rio de Janeiro – mostrava-se descrente até da troca de camisas, que ele literalmente deixava apodrecer no corpo. A porquice de dom João VI, extraordinária até para os baixos padrões sanitários de seu tempo, está bem descrita em outro livro lançado neste ano, Passado a Limpo – História da Higiene Pessoal no Brasil, do jornalista Eduardo Bueno. Mesmo coberto de feridas e contaminações na pele, dom João VI fugia da água.

Foi só no século XIX, com a propagação da água encanada e do esgoto e com o desenvolvimento de uma nova indústria da higiene – principalmente nos Estados Unidos –, que o banho foi reabilitado. O sabão, conhecido desde a Antiguidade, mas por muito tempo considerado um produto de luxo, foi industrializado e popularizado. Em 1877, a Scott Paper, companhia americana pioneira na fabricação de papel higiênico, começou vender seu produto em rolos, formato que se mostra até hoje insuperado. O século XX prosseguiria com a expansão da higiene. Os desodorantes modernos datam de 1907 e a primeira escova de dentes plástica é dos anos 50.

A divulgação de produtos e práticas de higiene pessoal passou a contar com um aliado poderoso: a publicidade. Lançado em 1917, o Kotex, tido como o primeiro absorvente íntimo feminino, foi divulgado em 1946 por um filme de animação produzido pelos estúdios Disney. "O sabonete e a publicidade cresceram juntos", diz Katherine Ashenburg em seu livro.

Foi daí que surgiu a expressão em inglês que designa a telenovela: soap opera, "ópera de sabonete", referência aos patrocinadores desses programas.

As invenções mais essenciais da higiene pessoal

Papel higiênico

Por séculos, a limpeza íntima foi feita com folhas, sabugos de milho – ou com a mão. A primeira fábrica de papel higiênico surgiu nos Estados Unidos, em 1857 – e o produto demorou a vencer a resistência do mercado

Banho

Os romanos tinham casas de banho, que caíram em desuso na Europa medieval. A prática de lavar o corpo só seria efetivamente retomada a partir do século XIX. Em 1867, o francês Merry Delabost inventou o chuveiro. Pois é, um francês.

Privada

A primeira privada, ainda muito rudimentar, foi inventada para o uso da rainha Elizabeth I, da Inglaterra, no século XVI. Mas foi em 1884 que o inglês George Jennings criou o modelo moderno, com descarga

Sabonete

O sabão já era conhecido pelo menos desde o antigo Egito – embora os romanos não o utilizassem. Por muito tempo, porém, foi um artigo de luxo. Sua popularização plena só se deu no século passado, por obra da produção industrializada americana.

Cuidados dentários

As primeiras escovas de dentes datam do século XV, provavelmente inventadas na China. Mas pastas variadas, feitas de vegetais, já eram usadas na limpeza bucal dos antigos egípcios e indianos. As pastas modernas, alcalinas, surgiram nos Estados Unidos, no início do século XX.

Grandes personagens que não eram amigos da água

Vasco da Gama (1460-1524)

O navegador português levantou reações enojadas em sua viagem à Índia. Os indianos pediram que ele só falasse com a mão na frente da boca, para conter o bafo

Napoleão (1769-1821)

O imperador era asseado – mas encontrava estímulo erótico no cheiro do corpo.

Em uma de suas campanhas militares, escreveu a sua mulher, Josefina: "Retorno a Paris amanhã. Não se lave"

Luís XIV (1638-1715)

O rei francês só tomava banho por ordem médica e vivia no imundo palácio de Versalhes, onde as fezes eram recolhidas dos corredores só uma vez por semana.

Dom João VI (1767-1826)

O rei português que instalou sua corte no Rio de Janeiro em 1808 detestava banho e costumava vestir a mesma roupa até que apodrecesse

Isabel (1451-1504)

Relatos palacianos dão conta de que a rainha espanhola que comissionou a viagem de Cristóvão Colombo só tomou dois banhos de corpo inteiro em toda a vida.

As águas do tempo: a história do banho

Públicos ou privados, sagrados ou profanos, os banhos são uma tradição milenar. Em nome da religião, da beleza e da saúde, civilizações celebraram - e amaldiçoaram - o ato de se lavar.

A humanidade melhora com o passar dos séculos, certo? Nem sempre. Prova disso é o que ocorreu com um de nossos hábitos mais comuns, o banho.

Durante a Idade Média, os ocidentais abandonaram os sofisticados rituais de limpezada Antiguidade e mergulharam numa profunda sujeira. Principalmente por causa da religião, o homem medieval comum achava suficiente tomar um banho por ano. Foi preciso muito tempo – e alguns bons exemplos dos povos orientais e indígenas – para que voltássemos às nossas asseadas origens. Pesquisadores acreditam que todos os povos, desde tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal. Os primeiros registros do ato de se banhar individualmente pertencem ao antigo Egito, por volta de 3000 a.C. Os egípcios realizavam rituais sagrados na água e tomavam ao menos três banhos por dia, dedicados a divindades como Thot, deus do conhecimento, e Bes, deus da fertilidade.

“Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, fundador do Instituto Ram­sés, em Paris. “A crença valia tanto para a realeza, cortejada com óleos aro­máticos e massagens aplicadas pelos escravos, quanto para as populações mais pobres, que recorriam inclusive a profissionais de rua quando não conseguiam tratar da própria beleza.”

O apreço pela higiene é o motivo ao qual arqueólogos atribuem a sobrevivência dos egípcios às pragas e doenças que assolaram a Antiguidade.

Embora os gregos tenham iniciado a prática dos banhos públicos no Ocidente, os pioneiros nos balneários coletivos foram os babilônios. A diferença é que, na Grécia, o banho não era motivado apenas pela higiene e espiritualidade. Entre 800 a.C. e 400 a.C., o esporte, particularmente a natação, era um dos três pilares da educação juvenil – ao lado das letras e da música. Bom cidadão era aquele que sabia ler e nadar, como comprovam imagens presentes em centenas de vasos de cerâmica pintados naquela época.

Os romanos herdaram muito da cultura da Grécia, incluindo a adoração pelo banho. Mas, entre eles, esse hábito tomou proporções inéditas. Enquanto construíam um dos maiores impérios de todos os tempos, os romanos levavam a suntuosidade de suas termas (enormes balneários públicos) aos mais diversos lugares. Por causa disso, algumas cidades européias ganharam nomes que incluem, literalmente, a palavra “banho” – é o caso de Bath, na Inglaterra, Baden Baden e Wiesbaden, na Alemanha, e Aix-le-Bains, na França.

Mas as maiores termas ficavam mesmo na capital do império, Roma: eram as de Caracala, inauguradas em 217, e as de Diocleciano, do ano 305. Esses edifícios, cujos nomes homenageavam imperadores, ti­nham capacidade para receber, respectivamente, 1600 e 3200 pessoas.

A engenharia romana teve que se desdobrar para acompanhar o frenesi dos banhos. Na onda das termas surgiu o hipocausto, uma espécie de assoalho construído sobre câmaras de gás subterrâneas. Esse sistema ajudava a esquentar os cômodos e mantê-los climatizados. Cada salão das termas era decorado com estatuetas e mosaicos. Ao redor de um pátio central, havia uma espécie de sauna, um vestiário e piscinas de água quente, morna, fria e ao ar livre. Os complexos de banho do Império Romano tinham ainda jardins, bibliotecas e restaurantes (como se fossem antepassados dos spas e resorts de hoje).

As visitas diárias às termas tinham fundo religioso, já que o banho público era um ato de adoração à deusa Minerva. E o costume não era restrito às classes mais abastadas. Boêmios, prostitutas, imperadores, filósofos, políticos, velhos e crianças, todos se banhavam no mesmo espaço, sem constrangimento. Ponto de encontro e de troca de informações, era o lugar onde um aristocrata podia medir sua popularidade de acordo com a quantidade de cumprimentos que recebia. “Em épocas de plebiscito, os plebeus nem precisavam pagar a pequena taxa que geralmente era cobrada. Os custos da entrada eram cobertos pelos ricos e nobres”, escreveu o historiador francês Jérôme Carcopino no livro Aspects Mystiques de la Rome Païenne (“Aspectos místicos da Roma pagã”, não lançado em português). Prazeres perdidos A liberdade que os romanos tinham de se banhar e ficar nus em público foi entrando em declínio à medida que uma nova religião se tornava popular por todo o império. Era o cristianismo, que pregava a castidade e se tornou a crença oficial de Roma no ano 380. Menos de um século depois, o império viria abaixo, junto com vários de seus costumes. Enquanto isso, a Igreja seguiria cada vez mais forte. Foi a gota d’água para que os prazeres do banho fossem boicotados durante cinco séculos.

Começava a Idade Média, época em que a cristandade varreu da Europa as termas, o esporte e outras atividades em que as pessoas se expusessem demais. Gregório I, o Grande, que foi papa entre 590 e 604, chegou a qualificar o corpo de “abominável vestimenta da alma” – ou seja, a carne era o depósito de tudo o que era pecado. Com tantos pudores, o prazer de tomar banho de corpo inteiro passou a ser visto como um ato de luxúria. Lavar as mãos e o rosto (às vezes nem isso) bastava. Quando muito, era aceitável tomar um banho por ano. Um único barril de água servia para toda a família, sem que a água fosse trocada. “O privilégio do primeiro mergulho era do homem da casa, enquanto as crianças ficavam por último, na sopa suja que sobrava”, escrevem as consultoras Renata Ashcar e Roberta Faria no livro Banho – Histórias e Rituais. Sem água corrente, as pessoas se viravam como podiam.

A limpeza da pele era feita friccionando-a com um pano úmido. Mas, mesmo entre os nobres, o ritual era repetido apenas a cada dois dias. Os cabelos deviam ser escovados com um tipo de pó que supostamente mantinha os fios limpos. E, como não podia deixar de ser, era preciso muita maquiagem e perfume – nas roupas, nos corpos e nos cabelos – para amenizar o mau cheiro.

Toda essa falta de higiene abriu as portas para epidemias devastadoras, propagadas principalmente por roedores. Foi o caso da peste, que matou cerca de 200 milhões de pessoas ao longo da Idade Média. Ao notar que muitos judeus não pegavam a doença, a Inquisição chegou a julgá-los e executá-los, acusados de bruxaria. Mas eles, na verdade, não agiam de má-fé – muito pelo contrário.

O que fazia os judeus serem menos suscetíveis a doenças era uma recomendação religiosa que seguiam: lavar as mãos antes das refeições e tomar banho ao menos uma vez por semana.

Foi só durante as Cruzadas, as guerras religiosas travadas entre os séculos 11 e 13, que muitos europeus puderam redescobrir as delícias da água, na aproximação – ainda que violenta – entre Oriente e Ocidente. É que, fora dos territórios dominados pela Igreja, onde ocorreram muitos combates, os banhos públicos da Antiguidade haviam sido mantidos, com seus rituais e instalações sofisticados. Nas hamans, casas de banho turco-árabes, os muçulmanos aproveitavam o prazer de alternar águas quentes e frias. Sessões de banhos completos incluíam depilação, massagem, hidratação, branqueamento dos dentes e maquiagem missão de tomar a Terra Santa dos – ritual que, até hoje, é seguido meticulosamente. Os cavaleiros cristãos que partiram para o Oriente com a muçulmanos não se fizeram de rogados. prática de jogar água pelo corpo quando “Não só passaram a se banhar por lá mesmo, como espalharam pela Europa a retornavam dos combatespopulação européia medieval e alguns ”, contam Renata Ashcar e Roberta Faria. A certa altura, a atitude contagiou o restante da banhos públicos chegaram a reabrir as portas.religião voltou a suprimir os

Nem só aos sábados. Depois do fim da Idade Média, a banhos no Ocidente. Nos séculos 16 e 17, irredutíveis cristãos bradavam que a água dilatava os poros da pele, por onde a saúde escaparia e o mal penetraria, em formas como a friagem e os germes. Todo mundo acreditou nisso, incluindo os médicos. E, enquanto nações como Portugal e Espanha descobriam, na América, populações que amavam tomar banho, os europeus voltavam para o mundo da sujeira.medidas de higiene, é verdade.

Existiam algumas medidas de higiene, é verdade. Mas elas não eram lá essas coisas. Antes ou depois de qualquer atividade física e após as refeições enxugava-se a pele com um pano e simplesmente mudava-se de camisa. Supunha-se que a roupa branca agia como ser sinônimo de se lavar – e, para se sentir “esponja” e absorvia a sujeira. Assim, trocar de roupa passou a limpas, as pessoas usavam punhos e colarinhos impecáveis.

A privação de água durou até o século 18, quando originavam não do banho, mas da falta dele. O iluminismo, que celebrava a razão e defendia a tese de que o mundo deveria ser esclarecido pela ciência, ajudou a fazer do ato de se lavar o símbolo da saúde. Banhos públicos para poucos, sendo reabilitados.

Mas, após higiene, esporte e terapia foram, aos anos de religiosos dizendo o contrário, não foi todo mundo que voltou a tomar banho, mesmo com insistentes conselhos médicos. Quando a célebre rainha Vitória subiu ao trono, em 1837, ainda não havia local para banho no palácio de Buckingham, sede da coroa inglesa. Até os anos 1870, eram raras as casas ocidentais que tinham um cômodo para seus habitantes se lavarem.

Já cientes do bem que a água podia fazer pela saúde, médicos banhavam doentes à força em hospitais. “Não era difícil encontrar um sujeito que, tendo de enfrentar a experiência do primeiro banho, demonstrasse verdadeiro terror, gritasse, tentasse escapar da sensação de sufocamento e palpitação que a água fria proporcionava”, diz um relato da época, citado pelo historiador americano Law­rence Wright no livro Clean and Decent: The Fascinating History of the Bathroom (“Limpo e decente: a fascinante história do banheiro”, não editado no Brasil).

Os banhos rotineiros reapareceram definitivamente nas grandes cidades ocidentais apenas por volta dos anos 1930. Mas, no começo, eles não eram lá tão freqüentes. Eram tomados aos sábados, dia em que também eram trocadas as roupas de baixo das crianças. Nessa época, navios ofereciam cabines de banho e barcos delimitavam áreas em rios que serviam como piscinas naturais. Após o fim da Segunda Guerra, em 1945, quando boa parte das casas européias teve que ser reconstruída, elas ganharam banheiros, abastecidos com a cada vez mais comum água encanada. A França foi a pioneira nas inovações sanitárias, seguida pela Inglaterra e pela Alemanha.

Hoje, voltamos a expor nossos corpos sem pudor, como fazíamos na Antiguidade. Mas isso não ocorre mais durante o ato de se lavar, e sim depois dele. “Ao mesmo tempo em que os trajes começam a valorizar o corpo e deixar adivinhar suas formas, realçando-as e, por vezes, revelando o bronzeado e a pele lisa e firme, o banho se transforma num hábito estritamente íntimo”, escrevem os historiadores franceses Gerard Vincent e Antoine Prost na obra História da Vida Privada: da Primeira Guerra aos Dias Atuais. Tomar banho virou um método individual de se preparar para a exposição pública. Não é à toa que todo banheiro contemporâneo que se preze tem um espelho – um objeto que, há cerca de dois séculos, dificilmente seria visto num lugar como esse.

Escova de dentes: como fazíamos sem

Sem a escova de dentes, não havia romântico que resistisse a um beijo de bom dia. Amor, carinho, lábios... e aquela carninha que restou de refeições anteriores.

Algum egípcio notou esse problema: a primeira escova de que se tem notícia foi encontrada numa tumba de 5 mil anos. Na verdade, era um pequeno ramo de planta que foi desfiado até as fibras aparecerem – elas eram esfregadas nos dentes para limpá-los.

O mau hálito deve ter incomodado os povos antigos. Tanto que outras alternativas para auxiliar na higiene bucal foram criadas com o passar dos anos. Além dos dedos, de folhas e de gravetos, pequenas varetas com a ponta amassada também eram utilizadas para limpar os dentes. Diocles de Caristo, um médico grego do século 4 a.C., deixou escrito um documento em que recomendava a seus clientes que todas as manhãs colocassem uma fina camada de hortelã pulverizada nos dentes e nas gengivas e a esfregasse com os dedos para remover restos de alimentos. Já os romanos limpavam seus dentes com um pó bem diferente – os ingredientes eram cinzas de ossos e dentes de animais, ervas e areia. A importância da escovação já era tão grande que os aristocratas tinham escravos apenas para limpar seus dentes.

Na Idade Média, as escovas ainda não haviam evoluído muito, mas as pastas de dentes já tinham melhorado bastante. Nessa época, eram preparadas à base de ervas aromáticas, como a sálvia. Mas, para eliminar o mau hálito, eram recomendados bochechos com urina.

A escova de dentes de cerdas só foi inventada em 1498, pelos chineses. Porém, além do fato de serem muito caras – e, por isso, famílias inteiras terem que dividir uma peça –, eram feitas de pêlos de porcos atados a pedaços de bambus ou ossos. Com a umidade, os pêlos mofavam e enchiam a boca de fungos.

O problema só seria resolvido em 1938, nos Estados Unidos, com o surgimento de cerdas de náilon. Na Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos eram obrigados a usar a escova de dentes. De lá para cá, ela só foi se aperfeiçoando.

Uma pesquisa feita em 2003 nos Estados Unidos pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts supreendeu pelo resultado: para os americanos, a escova de dentes é a invenção mais importante da história da humanidade.

Difícil higiene

Saiba como os antigos se viravam sem sabão, chuveiro ou xampu

Ferro no couro

Uma espátula de ferro de mais ou menos 30 centímetros, o strigil era usado pelos antigos gregos e romanos para esfregar vigorosamente a pele, untada com um óleo verde-oliva. Entre os ricos, essa limpeza era feita por escravos.

Cascata caseira

Sem rede encanada, os povos antigos tomavam banho com água derramada de bacias e jarros. Às vezes a pessoa ficava dentro de uma banheira rasa de pedra, mas o mais comum era se inclinar num banco de pedra.

Limpeza pesada

Os babilônios ferviam gordura animal com cinzas vegetais para passar sobre a pele e os cabelos. Já no Egito, uma mistura de bicarbonato de sódio, cinzas e argila fazia as vezes do sabão.

Arranca-cascão

No Oriente, materiais ásperos feitos de rocha ou cerâmica eram (e ainda são) usados para esfoliar a pele e retirar a sujeira. O ritual se completava com o uso de água de flor de laranjeira, pentes, pastas e perfumes.

Asseio preguiçoso

As banheiras portáteis se popularizaram no fim do século 19, primeiramente entre os ingleses. Quando um fidalgo ia tomar banho, camareiras carregavam a banheira para o quarto e a enchiam à mão, com água aquecida.

Mania de brasileiro

A higiene dos índios demorou a ser aceita pela elite portuguesa

Quando aportaram por aqui, em 1500, os portugueses se assustaram com a limpeza dos índios, que mergulhavam em rios e no mar até 12 vezes ao dia.

Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, chegou a escrever, surpreso: “São tão limpos e tão gordos e tão formosos que não podem ser mais”.

Os portugueses acabaram cedendo aos hábitos dos nativos brasileiros, percebendo que eles eram muito mais saudáveis que os da Europa. Os membros da corte, entretanto, resistiram aos deleites da água, pois estavam acostumados a passar meses sem sequer mudar de camisa. Já os mais humildes aceitaram o banho mais facilmente – começaram lavando os pés diariamente em bacias. “Com o tempo, o rio se tornou extensão da casa. Sem rede encanada, era nele onde se lavavam as roupas, as louças e o corpo”, escrevem Renata Ashcar e Roberta Faria no livro Banho – Histórias e Rituais. No século 18, algumas cidades já usavam a água de poços e chafarizes mantidos pelo Estado. Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, fez do Rio de Janeiro o primeiro município a contar com água encanada no país – benefício que ainda está longe de atingir todos os brasileiros.

O corpo na Idade Média

O que se pensava sobre o corpo na Idade Media

Esta pesquisa tem o objetivo de descrever como era e o que se pensava sobre o corpo no período histórico chamado de Idade Média, conhecido também como “idade das trevas”, como cita TAVARES DE JESUS (1994). Para isso, contamos com estudos e reflexões de diversos autores. Para compreendermos a visão de corpo da época, é necessário analisar os contextos histórico, social e cultural que influenciaram o pensamento das pessoas que viveram neste período.

A Idade Média

Segundo a ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA (1999), a Idade Média é o período da história européia que começa com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476. Da formação dos reinos germânicos, a partir do século V, até a consolidação do feudalismo entre os séculos IX e XII, temos o período denominado alta Idade Média. Neste período, para SOUTO MAIOR (1969), a terra era sinônimo de poder e, como complementam FARACO E MOURA (1995), disputada através de constantes batalhas. Na baixa Idade Média, que vai até o século XV, o capitalismo afirma-se sobre o modo de produção feudal. FARACO E MOURA (1995) afirmam que o declínio da Idade Média se dá com o crescimento da burguesia, a chegada do comércio e as grandes navegações, no fim do século XV. Já SOUTO MAIOR (1969) sugere que este longo período de tempo chega ao fim com a peste negra e as cruzadas. Para PEREIRA (2004), o fim da Baixa Idade Média dá-se, oficialmente, com a queda do Império Romano do Oriente, derrubado pelos Turcos, conhecida como a tomada de Constantinopla.

A supremacia da igreja na Idade Média

De acordo com TAVARES DE JESUS (1994), a Idade Média teve uma grande influência da Igreja. FARACO E MOURA (1995) afirmam que a Igreja era vista como o lugar do mundo terreno onde estava Deus. Como a base da sociedade era o teocentrismo, ou seja, Deus era o centro de todas as coisas, a Igreja influenciava de maneira muito forte o comportamento das pessoas no campo moral, nos relacionamentos interpessoais, na vida familiar e na forma de pensar e vestir.

Segundo FARACO E MOURA (1995), as camadas sociais, dentre as quais o clero e a nobreza estavam no comando, eram determinadas por Deus e, como mostra SOUTO MAIOR (1969), o desejo de mudança estaria indo contra a vontade divina. BESEN (2004) diz que uma das características do homem medieval é “aceitar-se num lugar social determinado: forte ou fraco, rico ou pobre, guerreiro ou trabalhador, religioso ou leigo. Nesta posição, ele vê a vontade de Deus”.

O homem medieval, segundo FARACO E MOURA (1995), preocupava-se muito com a salvação eterna da sua alma e, sob influência da Igreja, renunciava seus bens materiais e os prazeres terrenos. Acreditava que, assim, iria para o “paraíso” depois de sua morte na Terra. BESEN (2004) menciona que foi no século XII que se fixaram os sete vícios capitais: orgulho, avareza, gula, luxúria, ira, inveja e preguiça.

O conhecimento, a cultura e as manifestações artísticas

TAVARES DE JESUS (1994) diz que os monges eram “os únicos letrados em um mundo onde nem os servos nem os nobres sabem ler”. Segundo SOUTO MAIOR (1969), eram conhecedores de línguas clássicas, grego e latim; por isso, somente eles tinham acesso às obras.

A Igreja dominava a ciência e as artes. Os mosteiros eram os locais onde a cultura estava depositada e eram vistos como um local próprio para a meditação e para exercitar as “atividades do espírito”. Para TAVARES DE JESUS (1994), a filosofia é conhecida como “serva da teologia” e divide-se em dois grandes momentos. O primeiro, chamado de patrístico, corresponde ao pensamento dos chamados “padres” da Igreja, preocupados em relacionar fé e ciência. Santo Agostinho foi um deles, defendendo uma “iluminação” divina para a aquisição da verdade. O segundo momento é denominado escolástico. Há uma preocupação com a reflexão filosófico-teológica, e surgem as escolas monaicas e catedrais, além das Universidades.

FARACO E MOURA (1995) citam a religiosidade expressada nas manifestações artísticas. Na arquitetura, destacam-se as grandiosas catedrais. Elas eram projetadas para o céu devido à crença na existência de uma de um Deus que vive num plano superior. As esculturas não eram vistas de forma autônoma; geralmente ilustravam os ensinamentos da Igreja ou eram vistas na decoração de edifícios. Na pintura, encontramos personagens pouco volumosos, cobertos por muita roupa, com o olhar direcionado para o céu. SOUTO MAIOR (1969) nos mostra a música sacra e mais especificamente os cantos gregorianos como marcas do período medieval.

Já na literatura, FARACO E MOURA (1995) apresentam o estilo de época predominante (em Portugal), conhecido como trovadorismo, que vai de 1189 a 1434. O nome vem devido à sua apresentação, em forma de texto musical, através de cantigas com viola e lira. SOUTO MAIOR (1969) destaca Santo Agostinho e Tomás de Aquino como os escritores da época, representando, respectivamente, alta e baixa Idade Média.

De acordo com BESEN (2004), na Idade Média surgiu o culto pelas imagens. Via-se na imagem esculpida, pintada ou retratada num vitral, um meio para instruir sobre o significado do anúncio da salvação àqueles que não sabiam ler. As imagens narram a história da salvação, reforçam a recordação e elevam a piedade.

Para PEREIRA (2004), a alta Idade Média pode até ser considerada época de trevas e de atraso cultural. Mas a baixa Idade Média, época em que foram construídas catedrais e igrejas magníficas em estilo gótico, castelos e mosteiros, e onde viveram incomparáveis pintores, escultores, poetas, escritores e filósofos, não pode ser apontada como período de trevas culturais, crueldades e desrespeitos à dignidade humana, em hipótese alguma.

A literatura moral e o gesto

Para SCHMITT (1995), a base da teologia moral da Igreja está na reunião das três virtudes mencionadas por São Paulo – fé, esperança e caridade, e de quatro virtudes que Cícero diz serem as componentes da “beleza moral” – scientia, o discernimento do verdadeiro, a prudência e a sabedoria; beneficientia, o ideal de justiça, dando a cada um o que lhe é devido; fortitudo, a força e a grandeza da alma, que inspiram o desprezo às coisas humanas e temperantia ou modestia, que consiste em cumprir toda ação e pronunciar toda palavra com ordem e medida.

De acordo com SCHMITT (1995), a palavra latina gestus significa os movimentos e atitudes do corpo em geral, e não somente determinado gesto particular. Na alta Idade Média, a palavra gestus e as reflexões relacionadas a ela desaparecem aos poucos.

O autor cita o que Cícero diz traduzir para o exterior a excelência do espírito: “os movimentos e as atitudes do corpo”, “a atitude, o caminhar, a maneira de sentar, de se inclinar à mesa, o rosto, os olhos, o movimento das mãos”. Os gestos, como o andar, não devem ser “vivos demais”, nem “débeis demais” ou efeminados; a virtude reside no justo meio.

SCHMITT (1995) nos traz ainda alguns tratados de edificações, destinados a soberanos, que fazem parte da chamada literatura moral.

O tratado do bispo Martim de Braga, escrito para o rei Miro de Galícia, recomenda a continentia: a alimentação, a linguagem, o riso e o andar devem ser feitos sem “tumulto”. O tratado destinado a Isidoro de Sevilha, escrito por P. Pascal e P. Riche, recomenda “um movimento de corpo cheio de constância e gravidade, sem ligeireza vaidosa e sem desordem, e um andar que não pareça, por sua insolência, imitar as contorções dos mímicos e os gestos dos bufões que correm daqui para ali”.

Cita outro texto de Cícero, presente em De officiis, que enuncia regras da moderação do corpo: “que a face seja bem reta, que os lábios não se contorçam, que uma abertura imoderada não distenda a boca, que o rosto não se volte para trás, que os olhos não mergulhem em direção ao sol, que a nuca não se incline, que as sobrancelhas não estejam nem levantadas, nem caídas.” 

O corpo

SCHMITT (1995) afirma que, no século VI, vários autores mencionam o uso do corpo a propósito dos vícios – a gula em Pomerius, a fornicação (relacionamento sexual ilícito) em Cassiano e o orgulho em Gregório.

Já na baixa Idade Média, surge uma nova visão de corpo, que não é mais apenas a “prisão da alma”: quando bem governado, o corpo pode se tornar meio e lugar de salvação do homem.

De acordo com MATOS E GENTILE (2004), na Idade Média, o corpo foi considerado perigoso, em especial o feminino, visto como um "lugar de tentações".

Alguns teólogos chegaram a dizer que as mulheres tinham mais conivência com o demônio porque Eva havia nascido de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher poderia ser reta.

Segundo RODRIGUES (1999), a abertura do corpo humano e a dissecação de cadáveres, para a mentalidade medieval, era uma ação inconcebível, um gesto do mais supremo sacrilégio e por este motivo, conforme nos mostra PEREIRA (1988), a anatomia passa por um período de estagnação – representando um período negativo para a Educação Física – tendo seus estudos retomados com a chegada do Renascimento. O corpo jamais poderia ser considerado como objeto; para os medievais, a putrefação era continuidade da vida, era húmus. Existiam valas coletivas que ficavam abertas até serem preenchidas por corpos e era comum tê-los em putrefação em casa. Há imagens da época que retratam homens dançando com cadáveres que se desfaziam.

RODRIGUES (1999) diz ainda que, com freqüência, os reis da França, ao morrer, tinham seus corpos esquartejados e seus fragmentos espalhados pelas Igrejas importantes do território. Os medievais acreditavam que tais “relíquias reais” propiciariam boas colheitas. Além disso, de acordo com BESEN (2004), havia também o culto às “relíquias dos santos”, ocorrendo até roubos de partes dos corpos. Não se concebia fundar uma cidade sem o túmulo de um santo, havendo, deste modo, lutas violentas para garantir o corpo, que traria proteção.

Segundo BESEN (2004), a festa de Corpus Christi nasce na Idade Média com a finalidade de fazer a adoração pública da Hóstia, o “corpo de cristo”.

Com o propósito de libertar o Santo Sepulcro de Cristo do domínio muçulmano, surgiram as Cruzadas – lutas em busca da posse de Jerusalém e da Terra Santa, onde estava a sepultura do filho de Deus.

O sexo

Segundo FRANCO JÚNIOR (2001), a vida sexual tornou-se inexistente e a virgindade passou a ser vista com grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. Na Idade Média, a palavra latina verecundia toma o sentido de vergonha ligado a carne e ao pecado sexual, segundo SCHMITT (1995).

A castidade, para FRANCO JÚNIOR (2001), era vista como compensatória por quem já havia pecado e deveria se abster de sexo pelo restante da vida.

A vida sexual era possível ao cristão desde que acontecesse numa relação definida e supervisionada: o matrimônio.

Esse só era permitido entre heterossexuais, combatendo-se a prática da bestialidade (sexo entre humano e animal). O pecado da homossexualidade era explicado por proporcionar apenas prazer e não procriação.

FRANCO JÚNIOR (2001) diz ainda que a prática sexual deveria ser apenas vaginal, ficando a mulher debaixo do homem e no escuro, para evitar a visão da nudez. O sexo oral ou sodomita, as bruxarias para seduzir alguém, práticas anticoncepcionais e abortivas e as relações incestuosas ou adúlteras eram vistas como pecado e castigadas, com pena de seis a quinze anos de jejum e excomunhão, acompanhados geralmente de interdição perpétua de qualquer relação sexual e de casamento. Porém, de acordo com SOARES (2004), “havia ainda liberdade sexual, até para bispos e papas”. Um exemplo é Arquibaldo, bispo de Sens, França, que instalou um harém na abadia de São Paulo, no século X.

Cultura física e práticas desportivas

De acordo com PEREIRA (1988), a preocupação estética e a cultura física eram contra os dogmas da Igreja e, portanto, foram proibidas. Havia um dualismo entre o corpo, visto como pecaminoso, e a alma, destinada à salvação. FRANCO JÚNIOR (2001) mostra que as formas encontradas pelos clérigos para evitar a ociosidade eram cantos, leituras e conversas entre si.

No ano 393, de acordo com MATOS E GENTILE (2004), o imperador romano Teodósio, convertido ao cristianismo, proibiu os Jogos Olímpicos (que seriam retomados somente no final do século XIX, vendo neles uma "manifestação pagã". Tal medida expressava as concepções do cristianismo, que comparava os antigos deuses a demônios e qualificava como pecado a exibição dos corpos nus dos atletas.

De acordo com SOUZA (2004), os exercícios físicos eram a base da preparação militar dos soldados, que durante os séculos XI, XII e XIII lutaram nas Cruzadas empreendidas pela Igreja.

Segundo OLIVEIRA (2004), durante a Idade Média verificou-se uma acentuada diferenciação entre as atividades das classes altas e baixas. Conforme PEREIRA (1988) as atividades hípicas eram comuns às camadas dominantes e SOUZA (2004) afirma que eram valorizadas a esgrima e a equitação como requisitos para a participação nas Justas e Torneios, jogos que tinham como objetivo enobrecer o homem e fazê-lo forte e apto. OLIVEIRA (2004) complementa, dizendo que “os nobres se dedicavam a desenvolver suas aptidões guerreiras em torneios e combates, além de praticar a equitação e a caça”.

SOUZA (2004) diz que “há registros de várias atividades praticadas neste período, como o manejo do arco e flecha, a luta, a escalada, a marcha, a corrida, o salto, a caça e a pesca e jogos simples e de pelota, um tipo de futebol e jogos de raquete”. OLIVEIRA diz que “o povo tinha grande apego aos jogos de bola”. Segundo PEREIRA (1988), entre os servos existiam lutas corpo a corpo e jogos populares, que, conforme FRANCO JÚNIOR (2001) tinham o objetivo de testar a força e as habilidades físicas. Nas festas populares, estavam presentes os saltimbancos e os acrobatas, como mencionam FARACO E MOURA (1995).

Vestimentas

MATOS E GENTILE (2004) dizem que, na Idade Média, a nudez sofreu uma repressão severa. FARACO E MOURA (1995) mencionam que homens e mulheres, nobres e camponeses, vestiam-se com roupas longas. Cobrir o corpo, além de proteger das variações climáticas, era uma questão moral e religiosa, decorrente do cristianismo. Contrarias esta crença, conforme SOUTO MAIOR (1969) seria considerado heresia.

Segundo MATOS E GENTILE (2004), até mesmo os nobres que se exercitavam regularmente e disputavam torneios de cavalaria escondiam o corpo com trajes volumosos, apesar do desconforto que o excesso de tecido causava aos praticantes. As pessoas conservavam as roupas até durante o banho.

Higiene

Conforme RODRIGUES (1999), animais conviviam em harmonia com homens. Nas casas os cômodos eram de uso comum; desconhecia-se o sentido de privacidade e as necessidades eram eliminadas sem um local específico.

De acordo com MATOS E GENTILE (2004), o banho era um hábito pouco freqüente nos castelos, conventos e entre a população em geral, pois se acreditava que a sujeira era uma proteção contra as epidemias (em especial, a peste negra), que ameaçavam a saúde pública. Há registros de que os monges do mosteiro de Cluny, na França, tomavam dois banhos completos por ano e segundo SOARES E MIRANDA, ainda não existiam tratamentos odontológicos na época.

Lazer

Segundo OLIVEIRA (2004), a organização dos lazeres era de base religiosa: todo dia de festa começava pelas cerimônias de culto; estas se prolongavam em espetáculos, que apresentavam cenas da vida de Cristo ou dos Santos. Havia também o teatro inspirado em romances e crônicas. FARACO E MOURA (1995) comentam que neste período, as manifestações teatrais eram simples e ocorriam ao redor das igrejas e mosteiros, nas ruas, que eram locais, como mostra RODRIGUES (1999) de grande ruído, estreitas e fedorentas, constituídas de espaços onde se praticavam os ofícios, os afazeres profissionais, as conversas, os espetáculos e as brincadeiras.

Depois do espetáculo, o divertimento mais apreciado era a dança: “dança dos donzéis” nos castelos e ronda em torno da árvore de maio ou ao redor da fogueira de São João. Havia os jogos do interior da casa, entre os quais era preferido o xadrez, a respeito do qual se encontraram tratados manuscritos em bibliotecas medievais.

A Inquisição

De acordo com a ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA (1999), Inquisição foi a designação dada a um tribunal eclesiástico que julgava os hereges (aqueles que se opunham aos dogmas da Igreja) e as pessoas suspeitas de se desviarem da ortodoxia católica e dos costumes considerados corretos. A pena poderia ser a prisão, o exílio para lugares distantes e até o confinamento numa aldeia por toda a vida. Costumava-se, também, destruir a casa do herege.

A ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA (1999) menciona que os acusados de crimes mais graves, os que se recusassem a renunciar suas opiniões ou os que reincidissem depois de alguma condenação, geralmente eram queimados nas fogueiras. O auge da Inquisição deu-se no século XIII, quando o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura quando se duvidasse da veracidade da declaração dos acusados. Segundo GARCIA (1997), a não observância de alguns princípios éticos legitimou a mutilação, a destruição e a cremação de corpos, tornando-os sede de sofrimento.

De acordo com RODRIGUES (1999), a tortura presente na Idade Média era justificada como uma ação sobre o espírito por meio do corpo, visto que, na mentalidade medieval, o corpo é inseparável da alma. A dor era denominada por termos que designavam também amargura, tristeza, solidão e luto, entre outros estados não necessariamente ligados à pura corporalidade. GARCIA (1997) complementa dizendo que a tortura até a morte não era suficiente. Havia a necessidade da cremação, para o corpo ser purificado. Um corpo sepultado continuaria existindo fisicamente, seria ainda uma substância material; por isso era necessário destruí-lo completamente para que não deixasse nenhum rastro de vergonha e desonra. O corpo material era visto como portador do espírito; portanto, as idéias da pessoa só eram completamente anuladas com a destruição do físico, mesmo já sem vida.

O Renascimento

Segundo MATOS E GENTILE (2004), no final do século XII (baixa Idade Média), houve uma retomada do comércio e da vida urbana em boa parte da Europa ocidental e foram redescobertos, em traduções árabes, os textos dos pensadores greco-romanos, perdidos no início da Idade Média. Tudo isso levou a uma mudança da mentalidade vigente. Começou a surgir um novo tipo de intelectual, o humanista, que via no homem a medida de todas as coisas, como os filósofos gregos. Esse processo ficou conhecido como Renascimento.

De acordo com SCHMITT (1995), na baixa Idade Média, a atenção aos gestos é renovada. Essa redescoberta do gesto como objeto de pensamento e de reflexão ética deve-se muito ao Renascimento Intelectual do século XII.

MATOS E GENTILE (2004) dizem também que o pensamento renascentista influenciou pintores, escultores e artistas em geral, que retomaram os padrões da Antigüidade clássica em suas obras. A arte renascentista celebrou abertamente o corpo e a beleza física. Como mostra FARACO E MOURA (1995), o nu passa a mostrar uma nova ideologia de mundo, a “da concretude terrena, do material”. MATOS E GENTILE (2004) mencionam ainda que a mulher, antes ligada ao pecado, reapareceu, seminua e deslumbrante, em O Nascimento de Vênus, tela de Sandro Boticelli pintada em 1485. Leonardo da Vinci, na gravura conhecida como O Homem Vitruviano (1492) e Michelangelo, conforme FARACO E MOURA (1995), com A criação do homem (pintura) e David (escultura), imortalizaram o equilíbrio e as proporções da figura masculina.

Conclusões

Através desta pesquisa, pode-se concluir que o contexto histórico-cultural da Idade Média foi o responsável pela visão de corpo da época. Além do comportamento da população medieval ter sido extremamente controlado, também seu pensamento foi manipulado pelo poder dominante da época: o clero e a nobreza. Usando o nome de Deus, os poderosos obtinham muitos benefícios, e a população acreditava que, se contrariasse as ordens da Igreja, não teria a salvação da alma; portanto, não reagia.

As proibições e privações eram muitas, e praticamente tudo relacionado ao corpo era considerado heresia, pecado. Por isso, o corpo era escondido. Nem mesmo poderia aparecer em pinturas ou esculturas se não estivesse encoberto. E as atitudes do corpo deveriam ser contidas, os gestos deveriam ser discretos.

Porém, no final da Idade Média, com o Renascimento, o corpo foi saindo do anonimato e da escuridão. O período mais obscuro da história foi dando lugar à liberdade de expressão e pensamento.

Daniela Dressler Dambros

Liriana Correa Dalla Corte

Angelita Alice Jaeger

Bibliografia

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ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA, 1999

FARACO & MOURA, Língua e Literatura – 2º grau, Vol.1, São Paulo: Editora Ática, 1995.

FRANCO JÚNIOR, H. A Idade Média: nascimento do Oriente. São Paulo: Brasiliense, 2001.

GARCIA, R. P. A evolução do homem e das mentalidades – uma perspectiva através do corpo. IN: Revista Movimento, ano III, n° 6, 1997.

MATOS, C. E., GENTILE, P. e FALZETTA, R. Em busca do corpo perfeito. IN: Revista Nova Escola. Abril, São Paulo: edição 173, ago. 2004

OLIVEIRA, C. H. S. Esporte. Disponível em www.cdcc.sc.usp.br/escolas/juliano/esporte.html, acessado em 28/10/2005

PEREIRA, O. A. S. Idade média, época de trevas? - A família imperial brasileira e sua sagrada estirpe medieval. Disponível em www.ihp.org.br/docs/oasp20000411.htm, acessado em 23/10/2005.

RODRIGUES, J. C. O corpo na História. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1999

SCHMITT, J. C. A moral dos gestos. D. B. Sant’Ana. Políticas do Corpo. São Paulo: Estação Liberdade, 1995.

SOARES, C.; MIRANDA, F.; RECIFE, E. Sorria, você está sendo estudado. IN: Super Interessante. Abril, São Paulo: edição 201, jun. 2004.

SOUTO MAIOR, A. História Geral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.

SOUZA, E. P. M. O universo da ginástica: evolução e abrangência. Disponível em www.denix.hpg.ig.com.br/a_ginastica.htm, acessado em 28/10/2005

TAVARES DE JESUS, A. A volta do mito de Prometeu. IN: Revista Motrivivência. Editora da UFSC, Florianópolis: n° 5, 6 e 7, dez. 1994.

Fonte: marypry.com.br

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