Em outro fragmento da caricatura (na Figura 4), ele critica a escravidão, ao desenhar um branco montando em um negro escravo, enquanto abolicionistas e escravistas lutam pouco abaixo. Repare a pergunta: Quem vencerá? Agostini era abolicionista, mas não combatia todos os senhores de escravo, apenas os maus senhores, que espancavam e maltratavam os cativos.
Agostini era contra a violência aos escravos, muitas vezes denunciada em seus desenhos, pois ela representava uma incivilidade que não combinava com a modernidade, tão cultuada durante boa parte do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Por vezes, ele apresentou em seus desenhos posturas racistas e elitistas, sendo um homem de sua época: moderno, mas com liberalismo limitado.

Figura 4
Num outro fragmento (Figura 5), faz uma representação da República sob a forma de uma mulher Agostini era um crítico da monarquia e republicano convicto. Mesmo depois da Abolição e da proclamação da República, Angelo Agostini continuou satirizando os políticos e os costumes do Rio de Janeiro no começo do século XX, nas páginas da revista O Malho. Crítico político incansável, não fechava os olhos para os problemas enfrentados pela jovem república.
Figura 5
Suas publicações eram voltadas para a classe média a Revista Ilustrada, por exemplo, era semanal e tinha aproximadamente 4 mil assinantes , que podia pagar pelos jornais e revistas. Utilizava linguagem mais simples e, por que não dizer, uma certa didática, possibilitando um diálogo mais amplo com o público. O Brasil era um país em que cerca de 80% da população não sabia ler e escrever.
Ainda em relação ao último fragmento, observe ainda que o desenhista faz uma referência ao Exército brasileiro, representado por um militar montado em um canhão. O exército era um dos alvos que Agostini não poupava.
Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), Agostini publicou caricaturas, desenhos, ilustrações de soldados mortos e mapas, ocupou muitas vezes as páginas do Cabrião, não esquecendo a sátira ao Duque de Caxias e ao recrutamento de voluntários para o conflito (Mestres do Quadrinho Nacional).
Nos quadrinhos mostrados a seguir, Agostini faz referência à hipocrisia da elite, que pertencia às sociedades carnaval escas. Durante o carnaval , os íntegros chefes de família que participavam dessas sociedades colocavam prostitutas em carros alegóricos, a desfilar pelas ruas da cidade, enquanto no restante do ano perseguiam e discriminavam pelo menos em público, pois sabemos que muitos desses homens de bem eram freqüentadores assíduos de bordéis essas mulheres, consideradas má influência para as moças de família, criadas e educadas para serem mães e esposas exemplares.
Mas é carnaval , é tempo de esquecer certos pudores; daí se permite que mesmo as prostitutas tenham lugar de destaque. Os preconceitos não são esquecidos, apenas convenientemente ignorados.
Angelo Agostini defendia um carnaval voltado para a família; por isso, muitas vezes criticou o comportamento das prostitutas, que desfilavam nos carros alegóricos ou atraíam os homens para os bordéis.
Mas ele fazia uma distinção entre elas. As prostitutas de luxo, ele as usa para debochar dos senadores e deputados que as sustentam; as prostitutas pobres, Agostini as acusa de falta de decoro e assume postura higienista; as moças de família são representadas recatadas, tímidas e prendadas (Oliveira, 2006, p. 232).

Figura 6: Quadrinhos de Angelo Agostini 1884.
Agostini condena a hipocrisia da sociedade, que se torna mais nítida nesta época do ano, e deplora a imoralidade carnaval esca. Não gostava tampouco das festas de rua que envolviam populares, considerando-as de mau gosto e ofensivas à família e aos bons costumes.
Uma das manifestações populares que mais irritava Agostini, em tempo de carnaval , era o entrudo. Algazarra violenta e anárquica, ele possibilita à chamada gentalha tomar conta das ruas com seus bandos de capoeiras e malandros, assustando cada vez mais a elite bem-pensante. Chegava-se mesmo a especular que o entrudo sairia vitorioso em seu embate contra os carnavais familiares e privados (Oliveira, 2006, p. 199).
Na Figura 7, dividida em dois quadros, Agostini representa um entrudo na Rua do Ouvidor (1884). No primeiro quadro, ele mostra o entrudo e a multidão que acompanha a folia, abrindo mão dos pudores normalmente reprimidos.
No quadro seguinte satiriza, ao dizer que o tempo também quis participar, acabando com a festa. Compara os foliões aos soldados egípcios que foram engolidos pelo Mar Vermelho quando tentavam impedir a travessia dos hebreus liderados por Moisés. Insinua que os foliões teriam sido castigados pelos céus, por seu descaso à moralidade.

Figura 7: Quadrinhos de Angelo Agostini (1884).
Moralista, Agostini gostava do carnaval , mas não do entrudo. Censurava as liberdades tomadas pelos jovens durante a festa e a forma como as pessoas deixavam passar esses deslizes. Denunciava a depravação dos senhores de elite e não aceitava o comportamento despojado de pessoas de origem humilde, de prostitutas e cafetões, que lotavam bordéis em tempos de folia.

Figura 8: Angelo Agostini (1880).
Na Figura 8, Agostini mostra um entrudo familiar e um entrudo popular. Nos entrudos familiares, era comum usarem-se os limões de cheiro ou laranjas de cheiro pequenas bolas de cera recheadas de águas perfumadas , que eram vendidos em tabuleiros pela cidade (como na Figura 1), que os foliões atiravam uns nos outros.
Havia também jatos de água, farinha, lama, cinzas, enfim, tudo que pudesse ser usado para deixar a outra pessoa suja. Nos entrudos de rua, os populares, corria-se o risco de receber na cabeça os conteúdos de penicos, lançados na multidão pelos moradores dos sobrados. Além de tudo isso, havia também o risco de ser agredido por um policial, que usava o cassetete para apartar os ânimos da multidão.
Nesse quadro, faz uma descrição de um desfile de carros alegóricos, acompanhado de um entrudo, que ali parece mais anárquico que no primeiro, com mulheres desmaiando e homens brigando, enquanto outras pessoas, fantasiadas ou não, aglomeravam-se para poder assistir ao desfile. Mascarados, homens de cartola, mulheres em pânico etc. Agostini traduz em desenho a violência dos carnavais, sob sua ótica particular.
A comunicação de massa é circular. A opinião de um jornal, de um jornalista, de um artista tem a ver com o público para o qual ele está voltado, que por sua vez possui semelhanças sociais, morais e econômicas. Agostini tinha ressalvas quanto ao carnaval de rua, mas acreditava no carnaval como uma manifestação típica da nossa cultura. Ele representa um grupo que deseja transformar, colocar ordem, civilizar o carnaval . Prova disso é que, aos poucos, o entrudo foi sendo proibido e desestimulado, seja pela polícia, seja pela administração pública.
Em 1904, o prefeito Pereira Passos apela para os jovens estudantes para que façam um esforço coletivo contra o entrudo, jogo bárbaro e pernicioso que gerava conflitos e desordem, impedindo as famílias de se entregarem aos folguedos lícitos do carnaval (Araújo, 1993, p. 373).
Pereira Passos foi responsável pela reforma urbana que mudou a cara da cidade do Rio de Janeiro, que de corte passou a capital federal após a proclamação da República. Ele estimulou práticas higienistas, retirou os pobres do Centro da cidade, criou passeios públicos e não se esqueceu de criar novas regras para a maior festa popular do Rio de Janeiro. Os policiais foram instruídos a manter a ordem e a moral, impedindo a violência do carnaval .
Havia até mesmo regras para o uso de máscaras. Tudo isso feito em nome do estímulo à participação da família na festa. Os entrudos entraram em decadência e foram substituídos por outras formas de carnaval de rua.
Conclusão
Se o carnaval era tempo de se soltar, de ultrapassar limites morais, sob a proteção das multidões que se aglomeravam nos entrudos ou sob as máscaras e fantasias que disfarçavam seus usuários, era também um momento de reflexão, quando se criticavam a política e os problemas socioeconômicos do Brasil.
Era também, e ainda é, o momento de as massas se unirem, independentemente da origem social ou étnica, nem que fosse por três dias, para saudar a alegria de viver. As desigualdades não desapareciam (nem desapareceram até hoje), mas eram temporariamente suspensas enquanto durasse o festejo.
As representações que Agostini fez do carnaval , sejam elas por meio de quadrinhos ou de caricaturas, fornecem elementos para entender melhor essa festa popular no Rio de Janeiro do século XIX e do início do século XX. Mais do que isso, essas imagens abordam temas sociais e políticos importantes, além das reflexões e dos valores do autor e de seus leitores. São importantes documentos históricos, testemunhos de uma época. Essas imagens ajudam a entender parte do cotidiano dessa que se tornaria a festa característica do Rio de Janeiro e do Brasil.
Os quadrinhos, as charges e caricaturas continuariam sendo utilizados como forma de expressar críticas sociais, políticas e econômicas, mas também serviriam para propagar as idéias de governos, fossem eles democráticos ou ditatoriais. Não é exagero, então, afirmar que a caricatura e os quadrinhos ultrapassam as fronteiras da arte midiática para se tornar testemunhos da história, fontes documentais importantes para que possamos compreender um pouco mais dos costumes, da vida e da sociedade inserida em determinado contexto histórico.
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Natania A. Silva Nogueira
Fonte: www.educacaopublica.rj.gov.br