Achados recentes e fatos não mencionados nas fontes
Torquato ressalta a participação de Xisto como redator em O Pharol, periódico publicado no Pará. A comédia Duas páginas de um livro, escrita pelo ator e músico, é fartamente referenciada e há um exemplar conhecido que se encontra no Centro de Documentação e Informação Cultural da Fundação Clemente Mariani, em Salvador, segundo Jacob (2005: 6). Através destes temos notícias do Xisto autor de peças teatrais e ensaios.
É o que se poderia apurar desta sua faceta9, no universo consultado, se não se chegasse a um exemplar de O capadocio: scena comica brazileira, (Figura 02)10 que já se confirmou existir no acervo do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, como também a autoria de Xisto Bahia. Também se encontrou um poema, por nome Quadro, (Figura 01) escrito por ele no Pará em 1881 e publicado em 25 de junho de 1887, no periódico carioca A Vida Moderna, fundado por Luiz Murat. A edição de 15 de janeiro do mesmo ano dá notícia de uma série de espetáculos que Xisto começaria a apresentar por aqueles dias no teatro de Niterói.
Manuscritos da partitura de Uma Véspera de Reis (Figura 03), do maestro e compositor Francisco Libânio Colás sobre o texto de Arthur Azevedo, e de um arranjo de Fructuoso Vianna para o Quiz debalde, encontrados na Biblioteca Nacional, certamente permitirão, por um lado, a reconstituição contemporânea do espetáculo que mais fama trouxe a Xisto, e por outro, a comparação de uma concepção harmônica mais moderna com vários outros exemplos, no estudo da transmissão desta famosa modinha.
Há notícia no Jornal da Bahia de 7 de setembro de 1885 da montagem, no teatro São João, de Duas páginas de um livro, tendo o próprio Xisto no papel de Leonardo. O exemplar nº 1 do periódico Xisto Bahia, (Figura 05) publicado em Santos-SP, a 20 de janeiro de 1895, pretendeu claramente angariar fundos para a viúva e as duas filhas mais novas de Xisto, anunciando espetáculo no Grêmio dramático Arthur Azevedo, da mesma cidade, em beneficio da viuva e filhas do pranteado actor Xisto Bahia. Esta não foi uma iniciativa isolada já que a mesma edição do Diário da Bahia, que publicou a biografia escrita por Torquato, anunciava umafesta artística em beneficio da familia do grandioso actor bahiano, para a qual se requisitava a coadjuvação dos officiaes do exercito.
Considerações finais
Vê-se então o quanto os jornais e periódicos, junto com outras fontes documentais, podem ajudar a enriquecer os dados sobre a vida e a obra de Xisto Bahia e talvez até esclarecer pontos que continuam completamente obscuros como a natureza da doença que o levou ao óbito e o local onde está enterrado. Nota-se que há boas possibilidades de se construir uma biografia mais consistente, ampliada criticamente em relação aos dados existentes e embasada nas referidas fontes documentais.
Sua produção musical, tida pelo consenso geral como de excelente qualidade e visceralmente associada à modinha e ao lundu, gêneros fartamente referidos como de raiz para a música brasileira, merece estudo mais aprofundado, pela sua importância histórica e disseminação pela oralidade.
Afinal fala-se da vida e da obra de um dos pioneiros, talvez o mais importante, do que se vem chamar em dias mais recentes de Música Popular Brasileira, no seu tipo composicional mais freqüente: a canção.
Referências
Alencar, Edigar de. (1984). Claridade e Sombra na Música
do Povo. Rio de Janeiro: Francisco Alves;
[Brasília]: INL.
Almeida, Renato. (1942). História da Música Brasileira. Rio
de Janeiro: F. Briguiet & Comp.
Azevedo, Artur. [2003]. Uma Véspera de Reis. Pará de Minas -
MG: Virtual Books Online Editores Ltda.
Bahia, Torquato. 15 mai. 1895. Xisto Bahia. Diário da Bahia: 1-2.
Bahia, Xisto de Paula. (1872). Duas Páginas de um Livro. Maranhão:
Tipologia do Paiz.
(1893). O capadocio: scena comica brazileira. Rio de Janeiro: A. Fábregas.
Bastos, Sousa. (1898). Carteira do artista: apontamentos para a história
do theatro portuguêz e brazileiro.
Lisboa: Bertrand.
Bião, Armindo; Cristiane A. Ferreira, Ednei Alessandro e Carlos Ribas
(pesqs.). 2003.1. Xisto Bahia.
Revista da Bahia. Nº 37: 4-14.
Boccanera Junior, Silio. (1923). Autores e Actores dramáticos, Bahianos,
em especial: Biographias. Bahia
[Salvador], Imprensa Official do Estado.
Braga, Luiz Otávio Rendeiro Correa. (2002). A Invenção
da Música Popular Brasileira: de 1930 ao final do
Estado Novo. Tese submetida ao Programa de Pós- Graduação
em História Social do Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Doutor. Rio
de Janeiro: IFCS/UFRJ.
Cantor de Modinhas Brasileiras. (1895). Collecção completa de
lindas modinhas, lundús, recitativos, etc.,
etc. 9ª ediçao muito augmentada. Rio de Janeiro São Paulo:
Laemmert & C.
Cernicchiaro, Vicenzo. (1926). Storia della musica nel Brasile dai tempi coloniali
sino ai nostri giorni.
Milano: Fratelli Riccioni.
Franceschi, Humberto Moraes. (2002). A Casa Edison e seu Tempo. Rio de Janeiro:
Sarapuí.
Guimarães, Francisco (Vagalume). (1933). Na Roda de Samba. Rio de Janeiro:
Typ. São Benedicto.
Jacob, Adriana. 24 jul. 2005. Xisto Bahia. Correio da Bahia. Caderno Domingo
Repórter: 3-7.
Jatobá, Paulo. (1952). Xisto Bahia, um artista nacional. Revista do
IHGBA v. 77: 497-500.
Lisboa Junior, Luiz Americo. (1990). A Presença da Bahia na Música
Popular Brasileira. Brasília:
Musimed.
Marcondes, Marcos Antônio (Ed.). (2000). Enciclopédia da Música
Brasileira: Erudita, Folclórica,
Popular. 3ª ed. . São Paulo: Art Editora Publifolha.
Mariz, Vasco. (1985). A Canção Brasileira. 5ª ed. . Rio
de Janeiro: Nova Fronteira
Mello, Guilherme T. P. de. (1908). A Música no Brasil desde os tempos
coloniais até o primeiro decênio da
República. Bahia: Tip. São Joaquim.
Pinto, Alexandre Gonçalves. (1936). O Choro: reminiscencias dos chorões
antigos. Rio de Janeiro.
Sales, Vicente. (1980). A música e o tempo no Grão-Pará.
Belém: Conselho Estadual de Cultura.
Sousa, J. Galante. (1960). O teatro no Brasil. Tomo II. Rio de Janeiro: Instituto
Nacional do Livro.
Souza, Affonso Ruy de. (1954). Boêmios e seresteiros bahianos do passado.
Salvador: Livraria Progresso.
Tinhorão, José Ramos. (1991). Pequena história da música
popular: da modinha à lambada. 6ª ed. rev. e
aum. São Paulo: Art. Editora.
(1997). As Origens da Canção Urbana. Lisboa: Editora Caminho.
Vascocelos, Ary. (1964). Panorama da música popular brasileira, vol.
I. São Paulo: Livraria Martins
(1977). Raízes da música popular brasileira (1500-1889). Rio
de Janeiro: Rio Fundo ed.

Quadro, poema de Xisto
Bahia publicado na edição de 25 de junho de 1887 do periódico
A Vida Moderna.
Clique para Ampliar

Folha de Rosto de O Capadocio, texto teatral de Xisto Bahia.
Clique para Ampliar

Frontispício do manuscrito de Uma Véspera de Reis.
Clique para Ampliar

Chamada para o espetáculo Duas páginas de
um livro no Teatro São João, publicada na edição
de 7 de
setembro de 1885.
Clique para Ampliar

Cabeçalho da edição nº 1 do periódico
Xisto Bahia.
Clique para Ampliar
Fonte: www.manuka.com.br