Não há uma data definida para o nascimento do cinema digital. Pode-se afirmar que ele surgiu a partir das imagens eletrônicas e que vivemos hoje a transição das imagens analógicas (fotoquímicas) para as digitais (eletrônicas).
Em 1945 todas as imagens eram captadas em filme, ou seja, suporte ótico químico. Já em 1956 as Imagens eletrônicas de TV são analógicas (não digitais), mas não mais análogas como as imagens captadas em película.As imagens eletrônicas neste período eram armazenadas em filmes (Kinescopia). Em 1987 as imagens eletrônicas são armazenadas em vídeo tape analógico, e em 1995 já é possível à gravação eletrônica digital em baixa definição,e nesse mesmo ano é lançado o primeiro filme digital.
Dois filmes disputam o lugar de pioneiros no cinema digital, Cassiopéia, do diretor brasileiro Clovis Vieira que custou US$ 1,3 milhão e Toy Story, do norte-americano John Lasseter que custou US$ 30 milhões. Levando ambos o mesmo tempo de produção, quatro anos ao todo, e com tempo de duração também igual, 80 minutos cada filme, Cassiopéia contou com um time de 14 animadores, enquanto que Toy Story contou com 47 profissionais em animação. Ao todo foram utilizados 17 computadores na construção de Cassiopéia. Já Toy Story contou com a utilização de 117 computadores. O filme americano foi lançado em novembro de 1995. Ambos reivindicam o posto de primeiro filme feito unicamente por imagens de síntese numérica. Toy Story tem ao seu favor duas empresas do mercado de cinema norte-americano em nada frágeis: a produtora Pixar, uma das pioneiras em produções do tipo, e os Estúdios Disney, além são claro da data de lançamento aproximadamente oito meses antes do concorrente. Cassiopéia pleiteia o título porque, segundo Clóvis Vieira, o seu filme é o único realmente 100% composto por imagens de síntese numérica, enquanto Toy Story contou com recursos ainda não digitais em sua produção.
E em 2002 É lançado Star Wars II - "Clone Wars" O 1º filme eletrônico digital de alta definição.
Cinema Digital - O Futuro do CinemaImagine um filme B que fez grande sucesso internacional, mas devido a pequena distribuidora brasileira que tem somente 8 cópias do filme em película, esse filme só poderá ser exibido em outras cidades menores depois de semanas em grandes metrópoles, quando se esgotarem a bilheteria de cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro.
Já com a distribuição digital esse problema não acontece, podem fazer várias cópias do filme que isso não afetará a sua qualidade de imagem e som que é melhor que a da película e assim lançando simultaneamente no Brasil inteiro.
Com a disseminação de câmeras de mini-DV, equipamentos que gravam digitalmente como celulares, a produção de vídeos caseiros chamados de home cinema tende a crescer, devido o seu valor que é baixo, os que possuem aparelhos desse tipo acaba fazendo o roteiro, a produção, a filmagem, a edição etc. O digital é uma alternativa para o cinema de baixo custo que sempre existiu, o que problematiza essa técnica é o seu armazenamento, pois ocupa um grande espaço da memória do PC. Mas se enganam que acham que esse cinema que é produzido barato e é exibido barato seja de baixa qualidade e feios na tela, caso queiram uma pós-produção em efeitos visuais ou um melhor tratamento da gravação o valor fica igual ou a mesma coisa dos filmes com película.
Uma nova tecnologia que já foi lançada nos E.U.A. e está em fase de testes aqui no Brasil é uma transmissão de filme via satélite. Com um transmissor e um receptor é possível ter um cinema em qualquer lugar, só que é necessário ter um programa de decodifique a mensagem e o transforma em filme. Isso faria com que cidades em que não possuam um cinema possam exibir os filmes, inclusive os recém lançados, sem que haja a necessidade de se construir cinema na cidade. Com isso, qualquer pessoa em qualquer lugar possa assistir aos filmes e sem os grandes custos que isso poderia ter, pois o transmissor e o receptor têm um custo muito baixo.
Esse segmento terá uma grande distribuição, já que cada vez a tecnologia avança e traz aos usuários caseiros uma maior potencia, com isso a procura em sites especializados que possuem vídeos digitais cresça e se torne uma locadora pessoal. A tendência que o mercado deve ficar de olho, é para a produção de conteúdos em vídeo para displays pequenos como PDAs e celulares, que necessitam de uma linguagem diferenciada daquela que se vê na TV e no cinema.
Fonte: cinemadigital.wordpress.com
O Surgimento da Sétima Arte
Parte I - O Surgimento da Sétima ArteAlgumas vertentes da arte possuem uma história longínqua, praticamente inacessível por nós, viventes do século XXI. Dois bons exemplos são a pintura e a música: a primeira, quiçá a forma mais primitiva de arte, tem seu início registrado ainda na era pré-histórica, enquanto a segunda, em seu modelo mais rudimentar, é considerada uma inovação do século VII. Com o cinema, por sua vez, acontece justamente o oposto: a diferença temporal entre o ano em que estamos e o ano de seu surgimento é extremamente curto, fazendo com que seja possível entendermos sua evolução de maneira muito mais simples e verossímil, e possibilitando, inclusive, que sintamos as semelhanças de sua evolução com a da própria sociedade.
O marco inicial da Sétima Arte é o ano de 1895. Fora neste ano que os Irmãos Lumiére, reconhecidos historicamente como fundadores do cinema, inventaram o cinematógrafo, aparelho inspirado na engrenagem de uma máquina de costura, que registrava a "impressão de movimento" (vale esclarecer: as câmeras cinematográficas não captam a movimentação em tempo real, apenas tiram fotos seqüenciais que transmitem-nos ilusão de movimento) e possibilitava a amostragem deste material coletado a um público, através de uma projeção. A idéia é basicamente a mesma de uma câmera utilizada nos dias de hoje, porém seu funcionamento era manual, através da rotatividade de uma manivela - anos depois, o processo se mecanizara, e hoje em dia já podemos encontrar equipamentos desse porte em formato digital, embora este possua qualidade inferior ao formato antigo.
Neste mesmo ano de 1895, mais precisamente no dia 28 de dezembro, acontecera também a primeira sessão de cinema, proporcionada justamente pelo trabalho destes franceses, Auguste e Louis Lumiére. Seus pequenos filmes, que possuíam aproximadamente três minutos cada, foram apresentados para um público de cerca de 30 pessoas. Dentre os filmes exibidos estava A Chegada do Trem na Estação, que mostrava, obviamente, a chegada de um trem a uma estação ferroviária. Reza a lenda que, conforme a locomotiva aproximava-se cada vez mais da câmera, os espectadores começaram a pensar que seriam atropelados pela máquina, correndo alucinadamente para fora das dependências do teatro. Era o início de uma das evoluções mais importantes da era "pós-revolução industrial", ainda estranhada pelos olhos virgens da população ignóbil da época - quando falo ignóbil, me refiro ao sentido tecnológico, não cultural.
Durante estes primeiros anos, os filmes produzidos eram documentais, registrando paisagens e pequenas ações da natureza. A idéia também fora dos irmãos franceses, que decidiram enviar a vários lugares do mundo homens portando câmeras, tendo como propósito registrarem imagens de países diferentes e levá-las para Paris, difundindo, assim, as diversas culturas mundiais dentro da capital da França. Os espectadores, então, iam ao cinema para fazerem uma espécie de "Viagem pelo Mundo", conhecendo lugares jamais visitados e que, devido a problemas financeiros ou quaisquer outros detalhes, não teriam possibilidade de conhecerem de outra maneira. Via-se ali, então, um grande e contextual significado para uma invenção ainda pouco desmembrada pela humanidade.
Com o passar do tempo, talvez por esgotamento de idéias ou até mesmo pela necessidade de entretenimento, os filmes começaram a ter como propósito contar histórias. Inicialmente, eram filmados pequenos esquetes cômicos, cujos cenários eram montados em cima de um palco, conferindo aos filmes forte cunho teatral. Porém, a necessidade de evolução, da procura de um diferencial, levara um outro francês, George Meilés, a definir uma característica presente no cinema até os dias de hoje: filmando uma idéia baseada em obra literária de um outro francês (é notável a grande presença da França na evolução da cultura mundial), Meilés enviou o homem à lua através da construção de uma nave espacial, em um curta-metragem que fora o precursor da ficção cinematográfica - estou falando de Viagem à Lua, de 1902.
A partir de então, o mundo do cinema modificara-se completamente. Histórias com construção narrativa passaram a ser contadas, fazendo com que os espectadores fossem atraídos por enredos, personagens e outros elementos inexistentes nas primeiras experiências cinematográficas. Era o cinema atingindo ares de arte, incumbindo em suas engrenagens contextos claramente literários e teatrais (duas das principais artes da época) e abrindo espaço para que pudesse, anos após, entrar neste seleto grupo de atividades reconhecidamente artísticas.
Com o advento da narrativa literária, os filmes passaram a possuir duração mais longa, chegando a ser produzidos com metragens que continham mais de duas horas. Com isso, fora desenvolvido um processo de maior complexidade para a construção de uma obra, fazendo com que os realizadores da época, cansados de criarem produtos baratos, de onde não obtinham lucro, pensassem no cinema como uma espécie de indústria, e, nos filmes, como produtos a serem vendidos. O cinema, a partir desde ponto (que fica localizado em meados da década de 1910), deixava de ser um espetáculo circense, passando, assim, a levar consigo um grande contexto comercial.
O primeiro filme dito comercial do cinema, também é um dos definidores da linguagem cinematográfica moderna (e aqui entra a questão da subjetividade temporal: embora tenha sido definida ainda nos primeiros 20 anos da arte, já é considerada moderna, em razão de não possuir nem 100 anos de existência). O Nascimento de uma Nação, de D. W. Grifth, delineara as principais características do cinema (que, na época, ainda era mudo). A forma de se contar uma história, com divisão de atos (início, meio e fim), o modo de desenvolver a narrativa, tudo fora popularizado nessa obra que é um marco do cinema, embora seja longa, lenta e bastante preconceituosa (é um filme produzido sob a ótica sulista norte-americana, ou seja, ligada aos ideais da Klu Klux Klan, entidade racista que tinha como objetivo simplesmente eliminar os negros do território americano). Ainda assim, permanece como um marco inestimável do cinema.
Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial, a Europa passara a produzir cada vez menos filmes, fazendo com que a produção cinematográfica se concentrasse nos Estados Unidos, mais precisamente em Hollywood (sim, este é o motivo para o domínio massacro exercido pelos EUA no mundo do cinema). Visando a questão corporativista, diversos estúdios cinematográficos foram criados, construindo estrelas e elevando nomes ao mais alto patamar de popularidade. A publicidade também adentrava o mundo artístico, e exerceria grande influência na valorização popular do cinema: com o intuito de arrecadar fundos, cada estúdio escolhia seu "queridinho", vendendo ao público a imagem do astro, que, indubitavelmente, moveria multidões às salas escuras.
Nadando contra essa correnteza estavam grandes autores da época do cinema mudo, como Charles Chaplin, nos EUA, os responsáveis pelo movimento cinematográfico alemão intitulado Expressionismo, Fritz Lang e F. W. Murnau, e o soviético Sergei Eisestein, grande cineasta e teórico cinematográfico que fizera aquele que, na humilde opinião da pessoa que vos fala, é o melhor filme deste período, O Encouraçado Potemkin. Eisestein fizera deste filme, que nada mais era do que um produto encomendado pelo governo comunista para comemorar os 20 anos da revolução bolchevique, o mais revolucionário da era muda, empregando ao cinema características de cunho social (a história é sobre um grupo de marinheiros que, cansados dos maus tratos recebidos no navio, fazem um motim e acabam causando revolução em um porto) e utilizando, pela primeira vez, pessoas comuns para exercerem função de atores. Era a realidade das ruas chegando às telas de cinema.
Na próxima parte, veremos como foi dada a extinção do cinema mudo, bem como o surgimento do cinema falado e o avanço do período clássico do cinema para o contemporâneo. Também analisaremos algumas escolas cinematográficas e procuraremos entender melhor a relação entre a sétima arte e nossa sociedade, notando características em comum entre a realidade proposta pelos autores e aquela presenciada pelos cidadãos em seu dia-a-dia, e, ademais, fazendo com que desmistifiquemos a evolução que o cinema teve com o passar dos anos.
Parte II - Do Mudo ao ColoridoNa primeira parte deste especial, conhecemos um pouco das origens e da construção de algumas características que imperaram no mundo cinematográfico das primeiras décadas do século passado. Nessa época, o cinema ainda era composto apenas de imagens e, obviamente, de sentimentos. A linguagem cinematográfica também ainda era rudimentar, embora estivera sob constante evolução, desde as empreitadas de Griffith na elevação do cunho artístico cinematográfico até nas revoluções do Expressionismo Alemão e do cinema soviético.
Embora essas características do cinema mudo aflorassem em várias limitações para os autores da época, muitos utilizavam-nas de forma inteligente, voltando-as para o próprio sucesso de suas empreitadas. Talvez o grande exemplo disso seja Sir Charles Chaplin, cujo maior legado deixado ao mundo cinematográfico (e à memória dos amantes do cinema) fora a saudosa silhueta de seu mais popular personagem, o vagabundo Carlitos, que tornou-se uma imagem icônica, reconhecida no mundo todo até os dias de hoje. Porém, para manter essa sua imagem globalizada através da evolução do cinema, o genial artista inglês precisaria de muita coragem e confiança, afinal, o mundo cinematográfico se preparava para uma nova e radical mudança, no ano de 1927.
Sim, este ano foi um marco inestimável para a história do cinema. Foi nesse ano que os irmãos Warner, fundadores do estúdio Warner Bros, apostaram em uma espécie de renovação da técnica cinematográfica: a introdução das falas nas produções de cinema, que antes utilizavam-se dos gestos para se comunicar com o espectador. O filme responsável pelo feito fora O Cantor de Jazz, que continha trechos cantados pelo protagonista (mesmo que sem sincronia) durante algumas partes de sua duração. Nascia ali o cinema falado, que acabou declarando falência de muitos astros da era muda e, ademais, abrindo diversas possibilidades, antes inimagináveis, para este universo ainda pouco explorado.
Na verdade, O Cantor de Jazz não fora a primeira produção a utilizar-se do som para composição da obra. Antes dele, Aurora, de Murnau, já havia sido lançado, pela Fox, com trilha-sonora aplicada diretamente no filme, fazendo parte de sua estrutura. Porém, essa empreitada do respeitável diretor alemão no cinema norte-americano, que é tida por muitos como sua obra-prima, não possuía qualquer linha de diálogo, ou seja, era realmente um filme mudo, apenas musicado. O Cantor de Jazz, porém, além das cenas musicadas, cantadas pelo próprio protagonista, possui ainda algumas linhas de diálogo, sendo, portanto, o primeiro filme falado do cinema.
Com o passar de alguns anos e o imensurável sucesso da nova revolução, que reconstituíra os caminhos da arte, a poderosa indústria hollywoodiana via a necessidade de premiar o sucesso de suas principais produções. Com isso, no ano de 1929, fora realizada a primeira edição daquele que se tornou o prêmio mais disputado dentre todos os concedidos até os dias de hoje: o Oscar. A cerimônia, realizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, aconteceu no dia 06 de maio, e o prêmio principal, de melhor filme, foi dado a Asas, de William Wellman.
Neste mesmo ano, depois de várias polêmicas envolvendo uma série de filmes e pessoas, os estúdios cinematográficos americanos adotam um sistema de censura, conhecido como Código Hays. O código era formado de uma série de pequenas restrições, grande parte delas de cunho erótico, que deviam ser seguidas à risca para que os diretores e produtores tivessem o direito à comercialização de suas obras. Em razão disso, principalmente, as produções que foram feitas em meio ao império dessa constituição utilizaram-se muito mais da insinuação (de sexo, violência, etc.) do que da explicitação visual das cenas, o que faz com que, nos dias de hoje, o público possa estranhar a ingenuidade de algumas obras - mesmo assim, boa parte das produções da época continuam funcionando perfeitamente, em razão de sua qualidade astronomicamente superior às das obras do cinema atual.
Já na década de 1930, o cinema vinha ainda se acostumando com a interação do som no modo de contar as histórias. Alguns cineastas e teóricos de cinema, como Eisestein e Chaplin, consideravam desnecessária a presença do som nos filmes. O primeiro dizia ser este um elemento redundante, já que passava ao espectador a mesma informação que a imagem (o som de uma bala disparada por um revólver, por exemplo - a visualização da ação já nos conta tudo, e o som apenas vem a reforçar algo que já captamos de outra forma), e ambos permaneceram a produzir filmes estruturados no estilo quase extinto do cinema mudo (Chaplin inclusive critica os "talkies" em sua maior obra-prima, o inigualável Tempos Modernos, de 1936, e renderia-se ao advento dos diálogos apenas em 1940, com o também excelente O Grande Ditador).
Mesmo com a existência de um ou outro rebelde, o cinema mudo acabara sendo extinto, abrindo toda e qualquer porta existente para a funcionalidade desse novo modo de se contar histórias. Porém, o cheiro de "novo" começaria a pairar sobre o "mundo" do cinema, desta vez atingindo não os ouvidos de seus habitantes, mas sim os olhos: era a descoberta do processo Technicolor, que viria a acrescentar cores às imagens visualizadas pelos espectadores nos cinemas. O lançamento do primeiro filme colorido fora feito, no ano de 1935, pelo estúdio Fox, e a obra em questão fora Vaidade e Beleza, de Rouben Mamoulian.
O colorido acabou sendo uma tendência muito apreciada por produtores e também por cinéfilos, mas não impediu que o charme da fotografia preta-e-branca posse relegado pela preferência popular. Embora fossem produzidas uma boa parcela de filmes coloridos a partir desse ano, diversos autores permaneceram utilizando o processo preto-e-branco, que viria a ser extinto por completo (digo por completo no tocante aos padrões cinematográficos, já que continuam a ser produzidas obras nesse processo fotográfico até os dias de hoje).
Dando continuidade a este especial, na próxima parte conheceremos um pouco mais sobre o cinema durante e após o término da Segunda Guerra Mundial. Veremos também algumas características do cinema de outros países, bem como o auge do cinema norte-americano, na chamada "Era de Ouro" de Hollywood. Não percam.
Parte III - A Era de Ouro em HollywoodDurante as décadas de 1930 e 1940, o cinema americano viveu sua chamada "Era de Ouro". O país se recuperava da "depressão" ocasionada pela crise do capitalismo, e o cinema era uma forma de incentivo para a reconstituição moral da população. Por isso, grande parte dos filmes desse período enfatizam o lado humanista da sociedade, declarando-se verdadeiras poesias em favor dos bons valores humanos. Destacam-se, nesse período, os filmes de Frank Capra (A Felicidade Não Se Compra, 1946), um dos cineastas mais engajados nessa recuperação da sociedade americana, os musicais hollywoodianos, sempre com temas alegres e que visavam à diversão instantânea e as comédias de costume, que fazem grande sucesso até os dias de hoje.
Incluso nesta chamada "Era de Ouro", também teve aquele que é conhecido até hoje como "O Ano de Ouro de Hollywood". O ano em questão fora 1939, e é realmente impressionante o número de obras-primas inesquecíveis produzidas nesse espaço tão pequeno de tempo. Dentre elas, podemos citar A Mulher Faz o Homem (para mim, a melhor), de Frank Capra; ...E O Vento Levou e O Mágico de Oz, ambos de Victor Flaming; No Tempo das Diligências, de John Ford; O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler; Ninotchka, de Ernst Lubitch; e Adeus, Mr. Chips, de Sam Wood.
No ano de 1941, Orson Welles, um dos mais polêmicos autores de toda a história do cinema, produziria, logo em seu primeiro filme, aquela que seria talvez a obra mais revolucionária do cinema. A produção em questão é Cidadão Kane, obra-prima que definira muitas das características utilizadas até os dias atuais na produção da arte. Entre algumas de suas revoluções estão a narrativa não-linear (sem ser definida por ordem cronológica), a descoberta da profundidade de campo, que permite que as câmeras captem tanto o primeiro plano da ação quanto seu fundo, e a filmagem do teto das locações (sim, antes disso os cinegrafistas jamais o incluíam dentro da ação, já que o mesmo contava com vários holofotes, fios, etc.
O ano de 1941 também é de imensurável importância para certa horda de cinéfilos. Fora neste ano que John Huston lançara O Falcão Maltês (ou, como muitos - eu incluso - preferem chamar, Relíquia Macabra), aquela que é tida até os dias de hoje como a primeira obra de um dos gêneros (ou movimento) mais fabulosos de todo o cinema, o noir. Corrupção, crimes, pecados, investigações, muita violência e mulheres fatais são as características mais marcantes deste estilo de cinema, de onde surgiram obras inesquecíveis como Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950), um dos maiores filmes da história do cinema; A Marca da Maldade (Orson Welles, 1958); Pacto de Sangue (Billy Wilder, 1944); e O Terceiro Homem (Carol Reed, 1949)
Também na década de 1940, desta feita em 1945, um outro movimento de extrema importância para o cinema tivera seu marco inicial, porém muito longe dos Estados Unidos. Trato do surgimento do Neo-Realismo, quando Frederico Fellini e Roberto Rossellini, respectivamente roteirista e diretor da obra em questão, lançam Roma, Cidade Aberta, filme que prima pela transposição fiel da realidade urbana para as telas de cinema. O Neo-Realismo é um movimento que tem tempo e lugar, já que representara a Itália da época pós-Segunda Guerra, quando se livrava do domínio Fascista. Eram filmes engajados politicamente, que tentavam abordar de maneira transparente a realidade das ruas, empobrecidas por conseqüência da guerra. Ladrões de Bicicleta (Vittorio DeSica, 1948) e Alemanha, Ano Zero (Roberto Rossellini, 1947) são dois bons exemplos deste movimento.
Já na década de 1950, outros lugares do planeta começavam a despontar para o mundo do cinema. Akira Kurosawa, tido como o maior cineasta asiático da história, abrira os olhos do ocidente para o cinema oriental com obras como Rashomon (1950) e Os Sete Samurais, enquanto Ingmar Bergman, inesquecível diretor sueco e um dos maiores especialistas em retratar os sentimentos humanos através das lentes cinematográficas, destacava o cinema do norte europeu com obras-primas fundamentais como O Sétimo Selo (1956) e Morangos Silvestres (1957). São apenas dois bons exemplos, mas existem muitos outros que podem ser citados (e que, mesmo que subentendidos, estão presentes nesta pequena homenagem).
Também foi na década de 1950 que os musicais hollywoodianos chegaram a seu ápice, com o lançamento de um dos filmes mais lembrados e comentados de todo o período clássico do cinema. Sim, estou falando de Cantando na Chuva (1952), onde Stanley Donnen e Gene Kelly conseguiram a proeza de reunir todas as características do cinema musical das décadas anteriores e realizar uma espécie de síntese de toda a essência do gênero. Tornou-se, anos depois, o filme mais popular desse gênero, considerado por muitos como a maior obra-prima do estilo - fato do qual não posso discordar, já que o filme é realmente maravilhoso.
Já em 1959, um grupo de intelectuais franceses, que se reuniam todo o dia em um cineclube para assistir e comentar filmes, acabara criando aquele que, depois da própria invenção do cinema, é o acontecimento mais importante ocorrido na França em toda a história da sétima arte. Falo do surgimento da Nouvelle Vague, movimento que escreveu praticamente todas as características do cinema francês contemporâneo (e que foram aprendidas por muita gente, não só na França). O grupo era composto por nomes como François Truffaut (que escreveu, em 1954, a Teoria do Autor, principal pilar do movimento), diretor de Os Incompreendidos (1959); Jean-Luc Godard, diretor de Acossado (1959); e Alain Resnais, que dirigiu Hiroshima, Mon Amour (1959). Todas as obras citadas foram as primeiras de seus autores, que determinaram, por isso, o início do movimento.
Nos anos 1960, começaria a surgir mudanças extremamente importantes nas características temáticas e morais do cinema. Autores de maior engajamento passaram a driblar as barreiras do Código Heyes, ousando em temáticas e críticas sociais e dando maior explicitação às imagens de suas obras. As amarras antiquadas que haviam sido criadas para evitar a transposição de certos elementos e temas estavam prestes a serem desatadas, possibilitando, assim, a transposição de elementos mais realísticos às produções cinematográficas. Apesar de o Código Heyes ter sido substituído por completo apenas em 1968, ele já não estava sendo muito respeitado há anos, o que possibilitou um maior esclarecimento de referências para os autores do período sessentista (as décadas passadas eram marcadas muito mais pela insinuação, algo que pôde ser deixado um pouco de lado aqui).
Também fora na década de 1960 que as obras começaram e receber um tratamento mais autoral, experimental, com cineastas sempre à procura de imprimir em seus trabalhos marcas pessoais, que possibilitassem ao espectador uma associação lógica entre produto e produtor - e isso vale tanto para o cinema comercial quanto para o alternativo. Também foi nos anos 1960 que tivemos a extinção de alguns estilos que marcaram a "Era de Ouro de Hollywood", como o musical (que teve seus últimos suspiros nos anos 1970 e está retornando com muita força no início deste novo século) e o faroeste, que teve seu fim decretado realmente ao fim desta década - durante os anos 1970 também ocorreram tentativas, mas poucos filmes memoráveis surgiram.
Porém, vale lembrar que a década de 1960 serviu também para o surgimento de um dos maiores autores (para mim, o maior - sim, até mais do que Hawks e Ford) do western, Sergio Leone. O diretor italiano, cria do gênero intitulado western spaguetthi, produzira algumas das obras mais memoráveis do faroeste e demonstrara ao mundo um controle técnico superior a quase tudo o que já havia sido visto no cinema. É um dos maiores mestres no tocante ao controle de câmera, à elaboração visual de planos e enquadramentos e à criação de climas épicos. Leone deixara como legado apenas seis trabalhos, cinco faroestes e um filme de gângster, mas conseguira uma proeza inigualável: adentrar em dois dos gêneros mais genuinamente americanos (lembrando, ele era italiano) e produzir as duas maiores obras-primas da história destes gêneros, Era Uma Vez no Oeste e Era Uma Vez na América - claro, é uma opinião pessoal, mas o texto todo fora escrito acerca de minhas preferências.
O final da década de 1960 (mais precisamente o ano de 1969) também fora palco da realização de outra das obras mais importantes de toda a trajetória da sétima arte. 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, é, na modesta opinião da pessoa que vos fala, a maior obra do cinema, sem exagero algum. É um filme revolucionário, de parte técnica inigualável, que representa o alcance máximo da força das imagens em uma obra cinematográfica. Uma verdadeira odisséia, que, mesmo que tenha totais condições de acender o ódio em muitas pessoas, em razão de ser um produto de difícil degustação, deve ser assistida por todos. O filme é um marco da ficção-científica e até os dias de hoje é referência para a grande maioria dos autores cinematográficos, em razão de sua atemporalidade - continua sendo um filme extremamente atual, em razão de sua técnica espantosamente perfeita.
Na próxima e última parte deste especial, serão abordadas as décadas mais recentes do cinema, desde os anos 1970, provavelmente a de maior engajamento político de toda a história, até a década vigente, onde é notável o declínio de qualidade e criatividade dos estúdios e autores cinematográficos. Veremos quais são as melhores produções do cinema contemporâneo, bem como os autores mais importantes do mesmo.
Fonte: www.cineplayers.com